quarta-feira, 4 de maio de 2022

ritmo


deixar a previsão de lado e dançar bolero

no carnaval quero é romance


se não pudermos rimar nossos passos

dancemos tango salsa mambo

rock and roll


(o samba fica

para a quarta de cinzas)


Líria Porto

domingo, 1 de maio de 2022

O que é psiquiatria?  parte 2


Uma especialidade diferente essa.

Tudo porque não apenas é especialidade médica, mas instituição.

Do ponto de vista epistemológico, ela está plugada às ciências biológicas e às ciências humanas.  No primeiro caso, o organismo físico-químico. No segundo, a realidade social. Trata a realidade social como organismo físico-químico.  Trocou as bolas.

É uma especialidade ancorada em pilares teóricos de naturezas diferentes. Vive num paradoxo.

Sua condição de ser uma especialidade pode ser ampliada para a de instituição social. É que a pesquisa lida com um universo simbólico no qual a própria especialidade está inserida. 

Tal condição “institucional” normalmente é ignorada pelos psiquiatras e similares. Muito difícil que fosse diferente.

Como instituição ela codifica as pessoas. Daí, estas não precisam ser psiquiatras para pensar, sentir e agir como um. 

Atrelada à visão biomédica do comportamento humano em suas alterações (o chamado transtorno) a psiquiatria estanca numa reflexão teórica rasa, onde não consegue sequer definir com precisão o que é uma psicose.

Em essência, esse é o fundo da  "sua"epistemologia. Um conhecimento atolado na moral.

“Loucura”, conceito não-médico, converte-se ao de “transtorno mental”, termo naturalizado como distúrbio da mente igual à distúrbio do cérebro. A equação conceitual cérebro=mente estabelece, então, a partir da década do cérebro, a última do século XX , fortes razões científicas para um “admirável cérebro novo” que toma o lugar da psicopatologia.

Quanto ao aniquilamento desta última, há testemunhas: os pacientes.

Ai, então, a neurociência se fez impecável. Uma psiquiatria atual, acolhida como ciência do cérebro e surda à fala do sofrimento mental, conquistou o mercado.

No entanto, o cérebro mente.


A.M.

sábado, 30 de abril de 2022

Caetano Veloso - Samba de Verão

ESTAMOS TODOS MEDICADOS

A vitrine mercadológica dos psicofármacos, apesar de propiciar alguns usos benéficos ao paciente, acabou por cassar a sua fala e o que seria a escuta pelo técnico em saúde mental. No interior dessa ótica, considera-se que estão todos farmacologizados, pacientes e técnicos, mesmo que os segundos não usem (em si mesmos) remédios da mente. ( Será?) De todo modo, a farmacologia estabeleceu uma condição de possibilidade ( aparentemente irrecusável ) para se atuar clinicamente frente aos transtornos ditos mentais. Dir-se-ia que o fármaco está à mão (uso imediato) ou como reserva para alguma intervenção assim que necessária. O caso das psicoses é exemplar, enquanto o das depressões caminha para isso, na medida em que ninguém mais poderá ficar deprimido. Esboço exagerado de análise? Pode ser, mas a clínica psicofarmacológica cada vez mais expande o seu campo e o seu poder rumo a um suposto cérebro enfermo, enquanto o mundo explode em rajadas de um niilismo avassalador. Tempos capitais.


A.M.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

O que é psiquiatria? (1)


A psiquiatria é uma especialidade médica surgida na França em fins do século XVIII. Ai se dá a passagem (conforme Pinel) dos asilos aos manicômios.

No entanto, sua origem mais longínqua remete à existência de asilos no século VII (cultura árabe) e no século XVI (ocupação árabe na Espanha). Desde então passam a ser chamados de hospícios e se espalham pela Europa.

Sendo assim, a origem da psiquiatria se confunde com a origem dos asilos, dos hospícios e dos manicômios. Tudo se prepara para encolher as mentes.

A lógica dos asilos é o DNA da psiquiatria.

Já o século XIX, chamado século dos manicômios, dá origem aos hospitais psiquiátricos conforme o modelo atual.

São conhecidas as agressões e os horrores perpretados contra pacientes nos manicômios desse século. Foucault descreveu com detalhes as torturas científicas.

No Brasil, entre outros horrores, o hospital psiquiátrico de Barbacena é um registro histórico como modelo da barbárie consentida.

No período do estalinismo na União Soviética (1927/1957) presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos. 

No período da ditadura brasileira (1964/1979)  presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos.

A psiquiatria tem uma história pouco edificante.

No Brasil, veio a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial. Diferentemente, no campo da medicina não se tem notícia de alguma reforma cardiológica, pneumológica, nefrológica, etc.

De fato, trata-se de uma especialidade que pede  um método para além do biomédico.

A psiquiatria (psicopatologia) não dispõe de uma teoria dos afetos, apesar da extrema importância desse conceito para o trabalho clínico, ou seja, da gestação do vínculo com o paciente.

O paciente psiquiátrico muitas vezes não quer ser atendido pelo psiquiatra, sendo levado à força por familiares ou terceiros. Na clínica médica, não se tem notícia de tal recusa por vezes hostil e agressiva.

O objeto de pesquisa e intervenção clínica da psiquiatria é invisível, impalpável e abstrato. Chamado de “mente” , não há nada parecido em pesquisa médica. A mente não é o cérebro.

Nos hospitais psiquiátricos (ainda existem!) é muito comum pacientes fugirem. Por que fugiriam do tratamento? Em contraste, nos hospitais gerais (clínicos) isso não existe. Pelo menos, que se saiba.

 A alta e a cura são dispositivos raros na psiquiatria clínica.

Sim, uma estranha especialidade essa.


A.M.


terça-feira, 26 de abril de 2022

A fúria da beleza

Estupidamente bela 

a beleza dessa maria-sem-vergonha rosa 

soca meu peito esta manhã! 

Estupendamente funda, 

a beleza, quando é linda demais, 

dá uma imagem feita só de sensações, 

de modo que, apesar de não se ter consciência desse todo, 

naquele instante não nos falta nada. 

É um pá. Um tapa. Um gole. 

Um bote nos paralisa, organiza, 

dispersa, conecta e completa! 

Estonteantemente linda 

a beleza doeu profundo no peito essa manhã. 

Doeu tanto que eu dei de chorar, 

por causa e uma flor comum e misteriosa do caminho. 

Uma delicada flor ordinária, 

brotada da trivialidade do mato, 

nascida do varejo da natureza, 

me deu espanto! 

Me tirou a roupa, o rumo, o prumo 

e me pôs a mesa... 

é a porrada da beleza! 

Eu dei de chorar de uma alegria funda, 

quase tristeza. 


Acontece às vezes e não avisa. 

A coisa estarrece e abre-se um portal. 

É uma dobradura do real, uma dimensão dele, 

uma mágica à queima-roupa sem truque nenhum. 

Porque é real. 

Doeu a flor em mim tanto e com tanta força 

que eu dei de soluçar! 

O esplendor do que eu vi era pancada, 

era baque e era bonito demais! 


Penso, às vezes, que vivo para esse momento 

indefinível, sagrado, material, cósmico, 

quase molecular. 

Posto que é mistério, 

descrevê-lo exato perambula ermo 

dentro da palavra impronunciável. 

Sei que é desta flechada de luz 

que nasce o acontecimento poético. 


Poesia é quando a iluminação zureta, 

bela e furiosa desse espanto 

se transforma em palavra! 

A florzinha distraída 

existindo singela na rua paralelepípeda esta manhã, 

doeu profundo como se passasse do ponto. 

Como aquele ponto do gozo, 

como aquele ápice do prazer 

que a gente pensa que vai até morrer! 

Como aquele máximo indivisível, 

que, de tão bom, é bom de doer, 

aquele momento em que a gente pede pára 

querendo que e não podendo mais querer, 

porque mais do que aquilo 

não se agüenta mais, 

sabe como é? 


Violenta, às vezes, de tão bela, a beleza é! 


Elisa Lucinda,

Titãs & Arnaldo Antunes - O Pulso

domingo, 24 de abril de 2022

ÉTICA E SAÚDE MENTAL

Em saúde mental, a ética é indissociável da clínica e de tudo que gira em torno e a determina. Assim, ela é uma atitude a construir, a tentar, a arriscar. Não como ideia, ética idealista, não como reflexão teórica sobre a moral. Trata-se de outra coisa, outro conceito, outro rumo. A ética está encravada na prática, é a prática. Aumento ou redução da força de viver. Potência ou impotência dos corpos. A clínica em psicopatologia é a ética em si mesma, crua, real, concreta, atravessada e atravessando linhas político-institucionais muitas vezes nefastas. Impossível não haver uma escolha. O ranço da psiquiatria manicomial, por vezes disfarçado do enfoque neurobiológico, portanto, científico, ou de políticas públicas da forma-Estado legitimadas pela forma-Universidade,  também é ético, ainda que regido pelo cinismo e pela destruição de singularidades. No ato clínico, a ética precede a técnica e passa por linhas singulares da existência que exigem escolhas politicas finas. Não é fácil. Não há uma chave universal para resolver os dilemas éticos. Não há modelo fixo, exceto o dos manicômios, mesmo que sejam manicômios da alma. Então a ética funciona sempre num contexto sócio-institucional dado. A não escolha é uma escolha. É essa a implicação técnica do profissional em saúde mental. Ou nada.


A.M. 


 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

COMO FAZER A DIFERENÇA? 

A diferença é um conceito discutido em profundidade em duas grandes obras do pensador Gilles Deleuze. Trata-se de Diferença e Repetição (1968) e Lógica do Sentido (1969). Tal densidade conceitual pode (e deve) ser usada por não-filósofos para o exercício de uma atitude ética essencialmente prática. Quer dizer: o mundo não é uma substância mas sim problemático (oco) por sua própria natureza e não por uma instância que lhe seria superior (a razão, por exemplo). Assim, tudo passa a ser imanência, tudo está na terra. O corpo da terra se tece na arte dos encontros pessoais e impessoais. Aí reside a diferença como linha curva, incerta, perigosa e delicadamente potente. Não exige nem possui explicações. Para experimentá-la basta seguir o fluxo do devir (o conteúdo do desejo) em suas infinitas possibilidades de conexão com outros devires. É com a criança-em-nós e com o tempo não-cronológico que a diferença estabelece seu traço  irreversível. Mas não é fácil. Sem que se perceba, as instituições sociais administram o medo no interior de nós mesmos, naturalizando o horror e racionalizando a existência: a aposta é numa realidade mortuária for ever


A.M.

terça-feira, 19 de abril de 2022

 MICROPOLÍTICA


-Libere a ação política de toda a forma de paranóia unitária e totalizante.

-Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, antes que por submissão e hierarquização piramidal.

-Libere-se das velhas categorias do Negativo (a lei; o limite; a castração, a falta, a lacuna) que o pensamento ocidental por tanto tempo manteve sagrado enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas, considere que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade.

-Não imagine que precise ser triste para ser militante, mesmo se a coisa que combatemos é abominável. É o elo do desejo à realidade (e não sua fuga nas formas de representação) que possui uma força revolucionária.

-Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não fosse senão  pura especulação. Utilize a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como  um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.

-Não exija da política que ela restabeleça os "direitos" do indivíduo, tais como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é "desindividualizar" pela multiplicação e pelo deslocamento, pelo agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o elo orgânico que une indivíduos hierarquicamente, mas um constante gerador de "desindividualização".

-Não se apaixone pelo poder.


Michel Foucault -  O Anti-édipo: uma introdução à vida não-fascista

José Simão: "Exército quer boneca inFlávio"