Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
terça-feira, 20 de dezembro de 2022
segunda-feira, 19 de dezembro de 2022
FASCISMO À BRASILEIRA
Sob uma ótica conservacionista ( e liberal) são demasiado simplórias as análises sobre o fascismo. Elas se sustentam na moral, em grande parte na moral cristã. Diz-se: coisa horrenda o grito de “viva a morte!”, quando é expelido da boca de cidadãos de bem, homens íntegros, pessoas humanas. Pensar desse modo é não pensar, é tão só “por a mão na consciência”, velho conceito teórico com usos epistemológicos, filosóficos, psicológicos, psiquiátricos, políticos, entre outros, para interpretar a realidade como representação do Mesmo. Nada muda.
Ao se evadir de tal grade moralista, é possível usar o desejo como conceito operacional. Ele está fora da órbita do eu. O fascismo, então, será visto como construção desejante que nutre formas sociais numa empreitada destrutiva. Isso move as superfícies de um mundo patriarcal e deísta. Uma máquina afetiva (a história o mostra) se interiorizou subjetivamente nos indivíduos (aos milhões) produzindo sentidos para a vida. “Morrer pela pátria e viver sem razão”. Ora, não há o desejo puro e sim um composto de linhas subjetivas (forças) em prol da hegemonia institucional da servidão moderna. O discurso final seria: “eu sinto, eu ajo, ...mas aniquilo o que se move porque é sujo.” Ódio ao devir.
Neste nó de desejos múltiplos, não há lugar para uma política dos corpos. O fascismo faz estancar o tempo. Rechaça as minorias porque o Novo assombra. Fiel à tradição da consciência ( a alma ), o corpo é considerado o organismo que deseja a si mesmo como modo de existir único e total. Assim, a fratura exposta do nazifascismo (como no Brasil de hoje) é denegada em favor do si mesmo, do eu-para-o-eu, apêndice existencial familiar e utilitário. O rosto mortuário das classes médias se anuncia e se revela a nu. Que o mundo vá mal desde que eu me salve. O sentimento fascista opera uma revolução às avessas. Uma escassez de oxigênio racional infecciona os tempos midiáticos. Este é o limite político a ser ultrapassado (será?) nos ares de janeiro vindouro.
A.M.
domingo, 18 de dezembro de 2022
QUAL ENCONTRO?
Na minha experiência psicodramática, o conceito de "Encontro" é sem dúvida o mais belo. Ele me trouxe à possibilidade de
1-ampliar o seu significado, conectando-o a autores como Buber (já citado por Moreno), Espinosa, Deleuze e Guattari.
(Certamente a lista é maior, mas estes já valem pela grandeza do pensar).
2-criar condições teóricas para experimentações clínicas, grupais, institucionais e no imenso e desafiador campo da Educação.
(São dois ítens de pesquisa que se tocam, se cruzam, se misturam como práticas de vida).
Assim, um Encontro não se dá apenas entre pessoas. Bem mais que olhar para si com os olhos do outro, ele é conexão de corpos (humanos e inumanos). Um encontro com ideias, conceitos, bichos, cidades, personagens, artes, políticas, minorias, entidades, etc. A essência de um encontro se faz em não ter essência, e sim, numa produção generosa de criatividade.
É o ato de criar. Não é fácil, ao contrário. Isso dá trabalho, problema, é sempre problemático.
O conceito de Encontro expande-se a um deslimite que é o da ética e da estética.
Poucos arriscam essa vertigem da dança sobre o abismo.
A.M.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2022
SUBJETIVIDADE DAS FORÇAS
A política é constituida por forças. Forças em relação com forças. Neste sentido, "tudo é política" desde que o elemento humano esteja presente. Em termos macrossociais (grandes conjuntos) e microssociais (pequenos conjuntos), a política funciona como um a priori das relações humanas. As forças se ocultam nas formas sociais, muitas delas produtivas e necessárias a um "bom" viver, uma civilidade mantida. É o caso da família, instituição muito velha que "garante" a continuidade de outras instituições como a do eu, da consciência, da sexualidade, etc. Um axioma se impõe: toda instituição ( em seus manejos de poder) só funciona em relação com outras instituições. Estas formam redes de conexões imprevisíveis. Mesmo na composição do organismo humano (o fenótipo) e do corpo invisível (o sem modelo), instituições-força se relacionam tanto para compor, conectar quanto para destruir, eliminar. Assim, a ambiguidade está no cerne do processo institucional. Não haveria Bem ou Mal e sim usos de afirmação ou negação dos processos vitais. Dissecar tais linhas não é fácil, e por vezes impossível. Tudo nos conduz para análises finas das forças em jogo. Desde um conflito entre Estados nacionais até uma separação conjugal litigiosa, as forças são essencialmente fluidas à serviço de interpretações, descoladas ou não, do real conforme interesses e desejos em jogo. Podemos chamar tal processo de molecular, mesmo que,por exemplo, ocorra numa crise do Estado democrático. Ele traz o quantum desejante que move os corpos na relação entre eles. A moral estará sempre aí, ainda que negada, principalmente se negada.
A.M.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2022
domingo, 11 de dezembro de 2022
sexta-feira, 9 de dezembro de 2022
ELEGIA 1938
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Carlos Drummond de Andrade
quinta-feira, 8 de dezembro de 2022
quarta-feira, 7 de dezembro de 2022
REAL IRREAL
O que é o real? A psicanálise (lacaniana) diz que o real é impossível pois vivemos num mundo essencialmente simbólico. Conforme essa doutrina, o real é lançado para os rumos da psicose, ou seja, rompido com a formação social no qual se inscreve. Quem tem acesso ao real é louco, é o louco em seu desvario. Uma insanidade. Diferentemente, pensamos ao modo deleuziano. O real não está dado, ele é produzido, sempre produzido. Resta saber por quem. Há toda uma questão ético-política de fundo... Os artistas, os videntes, os poetas, os amantes, os místicos, os revolucionários (não os esquerdistas), entre outros, sabem muito bem disso porque experimentam o mundo na própria carne, no próprio corpo, na própria pele, melhor dizendo, no corpo sensível, desejante, nutrido de mil sensações que vêm de fora, do Fora. Assim, se a psicose é o real, as "mil sensações" se tornam mil sintomas clínicos do transtorno que a psiquiatria biológica chama de "mental". A tecnologia moderna inundou o cotidiano com tal profusão de imagens que a psicose (e os seus mil sintomas) ocupou o lugar da esquizofrenia reeditando-a como "A" psicose, mesmo que não seja. Depressões, neuroses, histerias, borderlines, retardos, paranóias, demências, drogadiçoes, fobias, pânicos, angústias, e tantos outros signos atuais do aniquilamento da subjetividade, se misturam numa espécie de sopa coletiva psicopatológica. No fim, tudo conduz à psicose (ou à loucura).Mas, se nem mesmo o psicótico sabe mais o que é o real, nos achamos em plena dissolução do sentido. Daí os milhares defronte dos quartéis, mendigos do golpe de estado que não virá. Sim, definitivamente a psicopatologia mudou.
A.M.
