Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2023
SOPA DE FÁRMACOS
O uso de psicofármacos em psiquiatria clinica tem como objetivo ( ou deveria ter) a supressão dos sintomas que o paciente refere. Como geralmente a queixa compreende vários sintomas, há uma tendência atual dos psiquiatras em prescrever vários remédios para vários sintomas, dispostos lado a lado, conforme a equação sintoma=remédio. Recebi uma paciente com 7 fármacos há 7 anos. Humor hipotimico, ansiedade, fobia, delirio, alucinação, insônia, entre outros, sintomas "alvejados" um a um num manejo, digamos, pouco inteligente do tratamento. Qual? Importante pois, registrar que na avaliação clinica se considere duas linhas de análise: 1-Uma hipótese diagnóstica; 2-A vivência do paciente que precede e mistura os vários sintomas. Usamos "diagnóstico" como função terapêutica e não como função de controle. Quanto a vivência, trata-se de detectar os afetos (sentimentos) e as crenças (valores) presentes nesse momento existencial. Garantidas linhas de análise das circunstâncias atuais, será possível reduzir um pouco (senão muito...) a onda gigantesca de prescrições desnecessárias e nocivas. No entanto, é evidente o reinado da psicofarmacologização generalizada em caps, ambulatórios, consultórios e manicômios (mesmo nos maquiados). Por que? Porque medicar, prescrever remédios (não só em psiquiatria, mas nas demais especialidades) tornou-se, faz tempo, uma relação social, uma forma de relação social, uma instituição, enfim, plantada como objeto de consumo no coração da subjetividade moderna. A vida tornou-se uma sedação continuada: como dar alta?
A.M.
domingo, 15 de janeiro de 2023
SOBRE A DIFERENÇA
Pergunta-se o que é a diferença. A diferença não é o indivíduo, não é a pessoa, não é algo fixo e estável onde se possa ancorar o corpo e a alma exaustos. Nem tampouco é ver, assuntar, medir, pesar, adjetivar, qualificar. Ela não é do campo do substantivo nem do adjetivo, ou de alguma substância dura, pétrea, imóvel, formatada em ideais do valor de troca. Nada a ver com a troca, pilar e essência do capital em seu cortejo mortuário. Tampouco é o ser-diferente, até porque não há o ser. Não é o estranho-em-nós. Já somos de antemão e suficientemente estranhos, estranhos a nós e ao mundo. Não há, pois, medidas para identificá-la. Ela é desmedida. Quando há cálculos, dão sempre errado, as contas não fecham, tudo se frustra e se decompõe. Ao inverso, bem mais além e aqui mesmo, há somente corpos, corpos de corpos, corpos no interior de corpos, devires, processos, passagens, relâmpagos, vertigens, intensidades, frêmitos, respirações, ardores, ardências, viagens anômalas no mesmo lugar. Da diferença não se alimenta o narcisismo porque também não existe o narcisismo no seu universo, este sim, verso encantado, encantador e cantador em estradas desertas. A diferença é o bicho. Não tem forma, não é identificável pela percepção de representações exatas ou imagens-clichês. A diferença é o bicho na espreita. Percorre o mundo em linhas finas de sensibilidade e arte. Com delicadeza foge de todos os dualismos, de todos os títulos, de todos os senhores, de todas as pátrias, de todas as pretensões e boas intenções da racionalidade, da consciência e do pensamento da autoridade, mesmo a mais admirável e mansa. Brinca com o poder, a morte e o amor. Faz disso a própria natureza do seu percurso invisível e silencioso pelos caminhos desconhecidos do Encontro. Composta de multiplicidades ingênuas e encravada na irreversibilidade do tempo, se tece e se faz inglória e pura. Mas quem a suporta?
A.M.
sábado, 14 de janeiro de 2023
terça-feira, 10 de janeiro de 2023
domingo, 8 de janeiro de 2023
Não há grandes dores, nem grandes arrependimentos, nem grandes recordações. Tudo se esquece, até mesmo os grandes amores. É o que há de triste e ao mesmo tempo de exaltante na vida. Há apenas uma certa maneira de ver as coisas, e ela surge de vez em quando. É por isso que, apesar de tudo, é bom ter tido um grande amor, uma paixão infeliz na vida. Isso constitui pelo menos um álibi para os desesperos sem razão que se apoderam de nós.
Albert Camus
TEMPOS DE AGORA
A "verdade" é uma mercadoria produzida em escalas maiores e/ou menores, a depender dos veículos utilizados para tal. Entre estes, as redes sociais figuram como produção incontrolável de crenças morais, políticas, científicas, religiosas, etc... O mundo gira em torno de informações/comunicações em velocidades que desfazem toda e qualquer possibilidade de crítica. Há uma produção acelerada de retardos mentais. Ontem é hoje que já é amanhã que tornou-se ontem como bolha de sabão. As certezas metafísicas (quem sou?) são substituídas por fluxos eletrônicos e neurocabos conectados às imagens de uma imensa tela subjetiva. Sob tais condições, não há mais como dizer eu, pessoa, consciência, enunciar boas intenções humanísticas. Afinal, estamos todos imersos na mesma sopa mundial, cada vez mais unidos, cada vez mais beligerantes uns com os outros. Nem mais o apocalipse inspira tanto terror...
A.M.
sábado, 7 de janeiro de 2023
O USO DO DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO
O diagnóstico psiquiátrico pode ser de dois tipos: 1-Diagnóstico-essência. 2-Diagnóstico-função.No primeiro caso, ele remete a uma suposta "natureza" que formaliza os afetos e as crenças sob um regime identitário: ele é esquizofrênico, ele é psicótico, ele é histérico etc. Tal enunciado articula-se com a forma-psiquiatria (não a especialidade médica, mas a instituição) que valida e executa a clínica. Em tempos atuais, seria uma bio-neuro-clínica. No segundo caso, o diagnóstico remete à terapêutica como função clínica voltada à autonomia psicossocial. Implica em considerar o Encontro (conexão de afetos) precedendo o Exame do paciente. Sendo assim, qualquer enunciado é válido desde que remeta a processos singulares (subjetividades) e "quebrem" o diagnóstico em favor de novos efeitos de sentido, outras semiologias. Se se fala, por exemplo, "transtorno bipolar", é buscada a relação vivida, vivencial, concreta, corporal, do diagnosticado com o diagnóstico. Em suma, são duas formas de trabalhar com o diagnóstico. Usá-lo como significante médico e ao mesmo tempo torná-lo expressão singular de uma produtividade ou improdutividade existenciais.
A.M.
