sábado, 27 de janeiro de 2024

PONTO MORTO


A minha primeira mulher 

se divorciou do terceiro marido. 

A minha segunda mulher 

acabou casando com a melhor amiga dela. 

A terceira (seria a quarta?) 

detesta os filhos do meu primeiro casamento. 

Estes, por sua vez, não suportam os filhos 

do terceiro casamento da minha primeira mulher. 

Confesso que guardo afeto pelas minhas ex-sogras.

Estava sozinho 

quando um de meus filhos acenou para mim no meio do engarrafamento. 

A memória demorou para engatar seu nome. 

Por segundos, a vida parou, em ponto morto.


Augusto Massi

O MISTERIOSO POVO DOGON, a estrela sirius e a criação do universo

Deixa que a loucura escorra em tuas veias. E quando te ferirem, deixa que o sangue jorre enlouquecendo também os que te feriram.

Caio Fernando Abreu

Dave HOLLAND Trio, JazzFestBrno, SONO Brno 7.3.2023

Necropsiquiatria - esboço de conceito: parte 5

Há uma história que estabeleceu condições de possibilidade para o surgimento da psiquiatria. É que ela não é uma especialidade médica comum.

Por que?

Porque as suas bases clínicas, epistemológicas, éticas e políticas estão fincadas nas ciências humanas. Ela compõe a produção social, assim como a medicina.

Em tempos do capital, a produção social está subsumida à produção do capital. Assim, um dos agentes de produção da morte, sob o disfarce de vida, é a psiquiatria atual. Não produção do "organismo",  ao modo da medicina, mas produção do corpo e dos afetos que são o próprio corpo. 

O corpo impregnado por fármacos é morte.

Trata-se de uma clínica abstrata mas com ações concretas. Formações de poder contam com isso para colonizar o inconsciente das massas.


A.M.


HOLOCAUSTO BRASILEIRO - 60 Mil Mortes No Maior Hospício do Brasil

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

A HISTERIA, HOJE

A histeria, patologia que "deu origem" à psicanálise no final do século XIX, se expressa hoje, mais que nunca, numa espécie de cipoal da clínica psicopatológica. Suas formas de expressão mudaram. Não se pode,pois, dizer que ainda exista uma entidade clínica chamada histeria, ao modo de Freud. O que, então, existe? Uma profusão de linhas-sintomas disseminadas pelo corpo, constituindo-o: são as clássicas "somatizações conversivas" e/ou as "dissociações da consciência". Na prática, os quadros psiquiátricos ditos graves (psicoses de variados matizes, transtornos do humor - mania ou depressão - transtornos da personalidade, etc) costumam substituir a hipótese diagnóstica de uma histeria, e preencher o vazio nosológico,  suscitando o emprego de mais e mais remédios químicos, mais e mais controle social, mais e mais preconceito moral, até que os pacientes deixem de incomodar a ordem da razão e as instituições que lhe são correlatas, bem como sejam “aliviados” dos sintomas incapacitantes para a vida autônoma. Fora da especialidade psiquiátrica, a histeria se expressa em fibromialgias, enxaquecas, algias múltiplas, parestesias, vastas extensões da pele, músculos e ossos em organismos codificados por universos virtuais, agitações psicomotoras, desorientações têmporo-espaciais, hetero-agressividades, irritabilidades fáceis, flutuações do humor. No meio de tudo, a autoflagelação pode ser vista como a busca de certezas “de que estou vivo”. Na esteira de tais sintomas, não é de admirar que a ideação suicida “evolua” ao ato suicida. A experiência de Caps nos mostra isso. Em suma, enquanto forma de ações-no-mundo ( organismo) e fluxo de imagens (consciência), a histeria pode “simular” rigorosamente qualquer transtorno mental, desconcertando a avaliação psiquiátrica, ainda mais em tempos de declínio da pesquisa psicopatológica. A psiquiatria acadêmica, neurobiológica e canônica costuma substituir sua monumental ignorância sobre os processos subjetivos de singularização existencial por condutas de imbecilização dos pacientes.


A.M.

A vida é a arte de não fazer favores. Nada ofende mais do que o benefício, nada agride mais do que o favor.


Nelson Rodrigues

Claude Pascal - Jiří Kylián (NDT 1 | Sometimes, I wonder)

domingo, 21 de janeiro de 2024

O RISCO DA INSÂNIA

Tomemos a psiquiatria biológica: uma compreensão da mente a partir do funcionamento cerebral não é um erro. É só uma visão incompleta e reducionista da realidade psíquica. E mais: pelo lugar de poder que a psiquiatria ocupa, tal manobra se transforma em danos irreversíveis sobre o paciente. Estamos na área obscura dos biopoderes que formigam por todos os cantos. Desse modo, fabrica-se em escala industrial um organismo físico-químico que consome verdades prontas. "Tome esse comprimido que é para o seu bem". A invisível engrenagem semiótica,  para funcionar e funcionar bem (asséptica e sem travamentos), conta com a adesão (inconsciente) de segmentos sociais "bem intencionados" em suas respectivas subjetivações. Um padre, um juiz, um delegado, um burocrata, um pastor, um pai de família, um empresário, um diretor de RH, um médico, um professor, uma mãe, entre outros, são personagens sociais que sustentam o desejo de ordem e harmonia. Alguém que ouse quebrar o circuito afetivo da normalidade naturalizada arrisca-se a mergulhar nas trevas da insânia.


A.M.

Astor Piazzolla - Libertango (1977)

Necropsiquiatria - esboço de conceito: parte 4


Se a psiquiatria atual não dispõe de uma teoria dos afetos, o dado clinico essencial é o de que o paciente não é escutado.

Trata-se de um truísmo.

No entanto, para além ou aquém do diagnóstico, há linhas de diferença afetiva que se somam, se chocam e se expressam numa dada semiologia. Isso está fora da grade sintomática estabelecida pela Necro.

Assim, o objetivo maior de um tratamento "mental", que seria o de afirmação da vida, é invertido.

O modelo da morte (por. exemplo, depressões profundas, catatonias, etc) o substitui. Não que a psiquiatria adote esse modelo.

Ela é o próprio modelo. 

 

A.M.

 


sábado, 20 de janeiro de 2024

ANATOMIA DE UMA QUEDA | Trailer Legendado

o guardador de carros

do estacionamento
do jumbo da 502 sul
é meu amigo

(isso é poesia? pergunta
um membro qualquer da
academia...)

só sei que o sorriso dele
é poesia. a gentileza dele
é poesia. o sofrimento dele
é poesia

o seu não é



Nicolas Behr