sexta-feira, 28 de junho de 2024

QUEM É DE ESQUERDA?

Num tempo em que a esquerda é demonizada e reduzida a clichês midiáticos, convém partir da vivência de alguém "ser de esquerda". Aqui, no coração do desejo, a ética (como força de viver) torna possível escapar do dualismo direita/esquerda que humilha o pensamento. A partir de G. Deleuze, ser de esquerda implicaria em 1-perceber o mundo começando pelo cosmos, depois a Terra, o continente, o país, a cidade, o bairro, a rua, a casa: um endereço postal; 2- conectar-se com as minorias e não com as maiorias; estas pressupõem um modelo a ser seguido, obedecido;  as outras não tem modelo, e sim processo; algo se move; 3- nunca dizer que se é de esquerda; fugir de uma identidade e entrar num devir-imperceptível.


A.M.

Positive Morning Jazz Music ☕ Smooth Jazz Instrumental Music & Sweet Sym...

vestimentas


o amor é um pijama de flanela no inverno

um babydoll de algodão no calor

mas a paixão

                        esta é a pele



Líria Porto

SobreTom

quinta-feira, 27 de junho de 2024

DOBRAS DA ALMA

O organismo físico-químico, visível, palpável e mensurável, é o objeto da medicina, onde ela de fato intervêm, e, caso obtenha êxito terapêutico (principalmente por isso), retira mais-valia de poder. No entanto, junto a esse organismo e fora da relação linear causa-efeito, funciona o corpo das intensidades livres. Não é visível, não é palpável, não é mensurável, nem segue os mapas fisiopatológicos vistos em exames por imagem. Distinto da consciência que sempre obedece ordens, ele não obedece, é rebelde e alterna com o organismo fluxos atuais e/ou antigos de afetos nômades. São estes que impulsionam a vida, que são a vida : potência sem forma. Em face desse real estado de coisas, tal corpo traz grandes dificuldades à pesquisa clínica. Como acessar algo que não se vê, não se toca nem se mede? Na clinica psicopatológica há um "corpo que não aguenta mais" e que se expressa em sintomas álgicos (por exemplo, cefaléias crônicas - simbolismo do órgão?), mas também como multiplicidade de sintomas que resumimos sob o nome de angústia. Ora, não se trata de usar a psicanálise como doutrina ou método de trabalho, mas de roubar deste saber a hipótese de um inconsciente para além da representação de papai-mamãe e das formas sociais estabelecidas. Um inconsciente "órfão, ateu e anarquista", inconsciente-corpo, inconsciente-fluxo. Exímio driblador, acessá-lo requer o uso de percepções finas, sutis.


A.M


 

terça-feira, 25 de junho de 2024

PERPLEXIDADES ÓRFÃS


1-Existe o “bolsonarismo”, ou seja, o fascismo à brasileira. Para facilitar a compreensão do argumento a seguir, usaremos o termo.

2-O bolsonarismo é uma cepa tropical do fascismo, doença psicossocial e política iniciada em 1922 na Itália.

3-No Brasil esta cepa assumiu características semiológicas peculiares. Há portadores sintomáticos espalhados por todos os cantos. Para tentar compreendê-los, usamos a referência clínica da psicopatologia.

4-Ele se julga uma boa pessoa (talvez seja de fato) amante dos valores do humanismo tipo senso comum. Linhas cristãs e mesmices do homem médio lhe compõem.

5-A atividade cognitiva costuma estar preservada. Nada de lesão cerebral ou disfunção dos neurotransmissores. Definitivamente, os neurocientistas  não o alcançam. Trata-se de um cidadão  normal.

6-O perfil social é o de classe média, habituada e identificada ao ritmo do consumo internético, veloz e massacrante. Ele não se importa. Até goza.

7-Apresenta ideação deliróide (quase delírio) ou delirante (delírio primário) com forte teor paranóide. Em um caso como no outro, “há um complô planetário em marcha”.

8-O seu objeto persecutório favorito alterna formas abstratas ( o comunismo, o esquerdismo) com formas concretas ( STF – Alexandre de Moraes, o “Xandão”). Sofre por isso.

9-Apesar da atividade cognitiva preservada, equivoca-se quando reduz a esquerda ao partido dos trabalhadores. E pior, ao Lula. Inútil contestá-lo. Há uma espécie de ideação endurecida que se afirma como verdade.

10- Ora, "isso não teria problema", não assustaria ninguém se não usasse como combustível um ódio profundo e visceral à transformação social.



A.M.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

MIL ENCONTROS

Desde tempos idos operamos o conceito de Encontro a partir de Espinosa, Moreno, Martin Buber e Deleuze-Guattari. Estes autores compuseram uma espécie de matriz teórica para pensar o encontro, considerando o próprio encontro com eles. No entanto, para além de um cais seguro,outros autores foram conectados, formando um extenso rizoma onde e por onde linhas de pesquisa se tecem. Mais ainda, além e aquém de tais conexões, o conceito de encontro passou a ser engendrado no devir da clínica em psicopatologia. Observamos: a cada processo terapêutico aparecem signos que enriquecem o conceito, tonando-o peça essencial na construção de uma prática-clínica da diferença. Alguns desse signos podem ser registrados como balizas existenciais numa aventura em plagas do novo, do indeterminado e do desconhecido. Mistério da subjetividade. Em primeiro lugar, o signo da loucura como o lugar do não-lugar das significações prévias. Deserto de valores, vazio de sentido. Em segundo, o signo da morte, da finitude, da perplexidade em face do fio tênue da vida atravessando os discursos. Em terceiro, a irreversibilidade do tempo que passa e não volta jamais, truísmo imbricado na economia psíquica, e por isso nem sempre valorizado. Em quarto, a inferência direta do fracasso monumental da estadia da humanidade na Terra e o seu pesadelo do qual não se desperta. Em quinto, a relação indissociável dos modos de subjetivação com as formas sociais expressas segundo a ordem do capitalismo aparentemente vencedor. Em sexto, mas não menos importante, o corpo como o lugar das intensidades e do brilho da existência. O corpo-a-corpo como a passagem, o nexo, a conexão, o link dos encontros. Tais são a ancoragem do pensamento do encontro com a diferença. Ele pode e deve transmutar-se em mil linhas de intervenção prática na clínica psicopatológica. Seria possível repetir e extrair a alegria de experimentar novos encontros? Sim, mas sem garantias de poder, felicidade, sucesso, dinheiro, prestígio, salvação, valores humanos, demasiado humanos, como diria o bigodudo alemão do século XIX.


A.M.

TULIPAS ETERNAS


 

- O que é ser de esquerda para você?


 – Vou lhe dizer. Acho que não existe governo de esquerda. Não se espantem com isso. O governo francês, que deveria ser de esquerda, não é. Não é que não existam diferenças nos governos. O que pode existir é um governo favorável a algumas exigências da esquerda. Mas não existe governo de esquerda, pois a esquerda não tem nada a ver com governo. Se me pedissem para definir o que é ser de esquerda, ou definir a esquerda, eu o faria de duas formas. Primeiro, é uma questão de percepção. A questão de percepção é a seguinte: o que é não ser de esquerda? Não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os outros países e, assim, cada vez mais longe. Começa-se por si mesmo e, na medida em que se é privilegiado, em que se vive em um país rico, costuma-se pensar em como fazer para que essa situação perdure. Sabe-se que há perigos, que isso não vai durar e que é muita loucura. Como fazer para que isso dure? As pessoas pensam: "Os chineses estão longe, mas como fazer para que a Europa dure ainda mais?" E ser de esquerda é o contrário. É perceber… Dizem que os japoneses percebem assim. Não veem como nós. Percebem de outra forma. Primeiro eles percebem o contorno. Começam pelo mundo, depois o continente europeu, por exemplo, depois a França etc., até chegarmos à Rue de Bizerte e a mim. É um fenômeno de percepção. Primeiro se percebe o horizonte.


– Mas os japoneses não são um povo de esquerda…


– Mas isso não importa. Estão à esquerda em seu endereço postal. Estão à esquerda. Primeiro vê no horizonte e sabe que não pode durar, não é possível que milhares de pessoas morram de fome. Isso não pode durar mais. Não é possível essa injustiça absoluta. Não em nome da moral, mas em nome da própria percepção. Ser de esquerda é começar pela ponta. Começar pela ponta e considerar que estes problemas devem ser resolvidos. Não é simplesmente achar que a natalidade deve ser reduzida, pois é uma maneira de preservar os privilégios europeus. Deve-se encontrar os arranjos, os agenciamentos mundiais que farão com que o terceiro mundo… Ser de esquerda é saber que os problemas do terceiro mundo estão mais próximos de nós do que os de nosso bairro. É de fato uma questão de percepção. Não tem nada a ver com a boa alma. Para mim, ser de esquerda é isso. E, segundo, ser de esquerda é ser ou devir minoria. Não deixar devir minoritário. A esquerda nunca é maioria enquanto esquerda. Por uma razão muito simples: a maioria é algo que supõe, até quando se vota, não é só a maior quantidade que vota para tal coisa, mas a existência de um padrão. No Ocidente, o padrão de qualquer maioria é: homem, adulto, macho, cidadão. Ezra Pound e Joyce disseram coisas assim. O padrão é esse. Portanto, irá obter a maioria aquele que, em determinado momento, realizar esse padrão. Ou seja, a imagem sensata do homem adulto, macho, cidadão. Mas posso dizer que a maioria nunca é ninguém. É um padrão vazio. Só que muitas pessoas se reconhecem nesse padrão vazio. Mas, em si, o padrão é vazio. O homem macho etc. As mulheres vão contar e intervir nessa maioria ou em minorias secundárias a partir de seu grupo relacionado a esse padrão. Mas, ao lado disso, o que há? Há todos os devires que são minoria. As mulheres não adquiriram o ser mulher por natureza. Elas têm um devir mulher. Se elas têm um devir mulher, os homens também o têm. Falamos do devir animal. As crianças também têm um devir criança. Não são crianças por natureza. Todos os devires são minoritários. Só os homens não têm devir homem. Não, pois é um padrão majoritário.


– É vazio.


– O homem macho adulto não tem devir. Pode devir mulher e vira minoria. A esquerda é o conjunto de processos de devir minoritário. Eu afirmo: a maioria é ninguém e a minoria é todo mundo. Ser de esquerda é isso: saber que a minoria é todo mundo e que é aí que acontece o fenômeno do devir. É por isso que todos os pensadores tiveram dúvidas em relação à democracia, dúvidas sobre o que chamamos de eleições. Mas são coisas bem conhecidas.


Gilles Deleuze, entrevista a Claire Parnet, em 1988/89



terça-feira, 18 de junho de 2024

A EXTREMA DIREITA É UM ESTUPRO

“A escritura não tem outro objetivo: o vento…” – Gilles Deleuze


Escrever parece um ato banal, basta apertar as letras no teclado e dizer o que se pretende dizer. Isso parece funcionar nos casos mais simples como: “traga 8 pães, por favor”. Mas a questão se torna ingrata quando precisamos escrever o que de certa maneira ainda não sabemos o que é. Como falar do que não sabemos?

Podemos definir, grosso modo, dois tipos de escrita: a primeira possui um sentido completo em si mesma. Ela está, digamos assim, mais fechada, porque evita equívocos, a ideia do que se quer dizer precisa ser clara, reta, bem delimitada. A interpretação é tão objetiva quanto se pode ser, a própria frase já aponta para onde quer ir e não necessita de muita imaginação. No final, a mensagem está toda ali, não há mais nada para dizer, é como o manual de eletrodoméstico, uma lista de compras, uma ordem de um superior, uma descrição objetiva de um exame médico, uma notícia de jornal, um relatório mensal de gastos da empresa. Simplesmente se escreve para comunicar o óbvio, o único caminho, fazendo a linguagem correr do emissor ao ouvinte como numa linha de trem. Existem muitos escritores de manuais, o mundo precisa deles.

O segundo tipo de escrita se abre para a multiplicidade, é aberta porque segue por mais de um caminho. Inclusive, ela se abre e produz sentidos novos enquanto acontece. Nesta forma de escrita, o próprio ato se torna uma ferramenta de criação de intensidades, algo meio egoísta, mas prazeroso, então justificável. Em vez de seguir por uma linha reta onde o destino é o que importa, na escrita plurívoca a jornada é o mais importante. Infelizmente este processo também produz angústia, porque nesta forma de escrever não se sabe exatamente o que virá, não se sabe o resultado, não há um script, não há um objetivo bem definido.  Escrever desta forma é mais ou menos como abrir a porta e as janelas de casa, nunca se sabe que visita chegará de surpresa.

Dois tipos de escrita, que na verdade passam por muitos graus entre uma e outra. Uma anotação na agenda diária que pode aproximar-se do poema, e um término de relação que pode parecer uma notificação de mensagem de texto. A linguagem, especificamente no ser humano, permite isso, ela é capaz de uma mobilidade quase infinita. Dependendo de onde a palavra está, no começo ou no fim, ela muda completamente de sentido. Se o escritor usar um sinônimo, o sentido da frase corre um sério risco e tudo precisa ser analisado cuidadosamente. É tudo muito sutil, de modo que uma vírgula é capaz de te incriminar e te levar à prisão. Os poetas sabem disso melhor do que ninguém, seu objetivo é descascar a palavra e encontrar novos sentidos para ela, fazê-la vestir roupas novas e andar por lugares desconhecidos. O poeta faz a palavra se redescobrir. Há um fascínio pela instabilidade das palavras, pela maneira como elas dançam no papel. O escritor se apaixona pela flexibilidade das palavras, cada hora em posições diferentes. Em sua mão, elas traem sua vocação inicial de descrição das coisas, e começam a ganhar vida própria. O escritor dá vida própria às palavras.

Neste processo, o escritor se torna um portal por onde algo novo chega, ele é uma antena sintonizando o desconhecido, um porto por onde o novo desembarca. E ele precisa ser capaz de sustentar isso, ganhar um certo controle de si, para submeter à forma o que ainda o atravessa de maneira informe. E ao mesmo tempo, paradoxalmente, ele precisa abrir mão de si, precisa confiar, se deixar levar. Todo escritor está ao mesmo tempo além e aquém da palavra. O que torna todo escritor uma espécie de profeta esclarecido, preocupado com a qualidade divina da mensagem que quer traduzir. Ele se debruça sobre o texto com afinco e dedicação. Ele quer que a mensagem seja passada, mas sabe que a tarefa é ingrata. Qual é o seu objetivo? Encontrar um equilíbrio entre o finito e o infinito. A escrita, como produto finito, contém o infinito.

O que faz o escritor? A escrita como produção de intensidades é uma maneira de viajar sentado no lugar. E como ele devém escritor? Ele quer escrever algo que ainda não existe, ele transcreve em letras o que ainda não tem forma. Ele se esforça para dizer o indizível, descrever o indescritível, expressar o inefável. A linguagem tenta falar de algo que não possui, um logos originário, ela tenta falar então de algo que está aquém dela, e no próprio ato de tentar ele falha. Mas é neste ato absurdo, fadado à derrota, que ele triunfa. Neste vai e vem o livro lentamente ganha forma. Seguindo este raciocínio, o que é um bom livro? É aquele que contém um bom recorte do infinito, como uma fotografia que não dá conta da imensidão da paisagem. Um bom livro está sempre abrindo caminhos, lugares, sensações. Um bom livro nunca se fecha, mesmo depois de terminado, mesmo depois do ponto final, ele ainda permanece aberto. Ele sai em uma jornada, atravessando lugares e pessoas, o que torna necessário ao escritor sair com ele, tentar acompanhá-lo, explicar o que escreveu, enquanto seus leitores incitam descontroles, levando a escrita a lugares imprevistos, começam a viajar sem o escritor acompanhá-la.

A escrita (e talvez a arte como um todo) é prova da finitude e da grandeza do ser humano. Sabemos que nunca seremos capazes de ler todos os livros, muito menos de escrever todos os livros possíveis. Mas ao mesmo tempo isso é prova da altura a qual podemos nos elevar. O escritor é mais que ele mesmo quando escreve, e menos que ele mesmo quando termina de escrever.


Do site "Razão inadequada", acessado em 18/06/2024

sábado, 15 de junho de 2024

A clinica, em psiquiatria, pode ser o lugar do Encontro. Ou melhor,  o não-lugar pois não existe um espaço delimitado para as linhas do desejo, já que este funciona em conexões heteróclitas. A clínica é processo ou não é nada. Desse modo, as classificações diagnósticas (CID, DSM) são códigos oficiais que objetivam o assujeitamento do desejo. O lugar do Encontro se torna o lugar de matadouros científicos.

A.M.