Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
quarta-feira, 16 de abril de 2025
terça-feira, 15 de abril de 2025
domingo, 13 de abril de 2025
COMO FAZER HOMENS LIVRES?
Quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas. Existe alguma disciplina, além da filosofia, que se proponha a criticar todas as mistificações, quaisquer que sejam sua fonte e seu objetivo? Denunciar todas as ficções sem as quais as forças reativas não prevaleceriam. Denunciar, na mistificação, essa mistura de baixeza e tolice que forma tão bem a espantosa cumplicidade das vítimas e dos algozes. Fazer, enfim, do pensamento algo agressivo, ativo, afirmativo. Fazer homens livres, isto é, homens que não confundam os fins da cultura com o proveito do Estado, da moral, da religião. Vencer o negativo e seus altos prestígios. Quem tem interesse em tudo isso a não ser a filosofia? A filosofia como crítica mostra-nos o mais positivo de si mesma: obra de desmistificação. […] tolice e a bizarria, por maiores que sejam, seriam ainda maiores se não subsistisse um pouco de filosofia para impedi-las, em cada época, de ir tão longe quanto desejariam, para proibi-las, mesmo que seja por ouvir dizer, de serem tão tolas e tão baixas quanto cada uma delas desejaria.
Gilles Deleuze
sexta-feira, 11 de abril de 2025
terça-feira, 8 de abril de 2025
Necropsiquiatria - esboço de conceito: parte 4
Se a psiquiatria atual não dispõe de uma teoria dos afetos, o dado clinico essencial é o de que o paciente não é escutado.
Trata-se de um truísmo.
No entanto, para além ou aquém do diagnóstico, há linhas de diferença afetiva que se somam, se chocam e se expressam numa dada semiologia. Isso está fora da grade sintomática estabelecida pela Necro.
Assim, o objetivo maior de um tratamento "mental", que seria o de afirmação da vida, é invertido.
O modelo da morte (por. exemplo, depressões profundas, catatonias, etc) o substitui. Não que a psiquiatria adote esse modelo.
Ela é o próprio modelo.
A.M.
segunda-feira, 7 de abril de 2025
PROTOCOLOS DA ALMA
A medicina, antes que uma ciência ou um conjunto de aportes científicos que conduzem às mais diversas técnicas (a depender, obvio, da especialidade), é uma instituição. Ou seja, uma forma social ou uma forma de relação social que nos tempos modernos assumiu pleno destaque ( para não dizer hegemonia) no campo da Saúde. Isso se dá em escala mundial no bojo da chamada globalização. Tal fato conta com sua expressão e execução nos processos de subjetivação individual. A pessoa humana. Então o mundo se torna cada vez mais um protocolo da alma como único modo de conceber e "resolver" o problema da vida, do corpo, da dor e da morte. Despotismo médico. Trata-se do biopoder, como diria o careca francês que escreveu a História da loucura.
A.M.
domingo, 6 de abril de 2025
Ser amigo de alguém é uma questão de percepção. Não é a partir de ideias em comum, mas de uma linguagem em comum. Há pessoas sobre as quais posso afirmar que não entendo nada do que dizem. E outras que falam de um assunto totalmente abstrato, que eu posso não concordar, mas compreendo. Tenho uma hipótese: cada um de nós está apto a entender um determinado tipo de charme. Ninguém consegue compreender todos ao mesmo tempo. Há uma percepção dele: um gesto, pensamento - mesmo antes que este seja significante, um pudor de alguém são fontes de charme que têm tanto a ver com a vida, que vão até as raízes vitais e imediatamente você acha que aquela pessoa é sua - não no sentido de propriedade, mas é sua e você espera ser dela. Neste momento nasce a amizade.
sexta-feira, 4 de abril de 2025
Pomo
Da vida só tem substância
a casca e o caroço.
No meio só tem amido,
embromações do carbono.
Porém todo o gosto reside
nessa carne intermediária,
sem valor alimentício,
sem realidade, sem nada.
É nela que os dentes encontram
o que os mantém afiados;
com ela é que a língua elabora
a doce palavra.
Paulo Henriques Britto
quinta-feira, 3 de abril de 2025
O OBJETO DA PSIQUIATRIA
O objeto da psiquiatria é a mente e não o cérebro. Este é o objeto da neurologia e das neurociências. E o que é a mente? A mente é um conjunto ilimitado de fluxos de signos, fluxos sociais e fluxos materiais que se expressam como processo de subjetivação. É o que o humanismo cristão chama de pessoa humana (ou indivíduo). Mas não falamos da pessoa. Tudo muda. A subjetivação é composta por singularizações existenciais: a diferença. Um objeto complexo é a " mente", já que para pesquisá-lo há que usar recursos de múltiplos saberes: biologia, fisiologia, medicina, poesia, história, sociologia, linguística, política, arte, toda uma multiplicidade. Ela extravasa o conhecimento estabelecido como verdade em instituições sociais.
A.M.
