quinta-feira, 1 de maio de 2025

 O MELHOR REMÉDIO

"Inabalável é minha profundeza: mas cintila de enigmas e risadas que flutuam” 

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra


“O homem é um animal que ri”, esta é mais uma das grandes definições que a filosofia criou para caracterizar o ser humano. Mas ao longo de toda a sua história a filosofia pouco se pronunciou sobre o riso, e menos ainda fez rir. Não surpreende, é improvável imaginar que do abismo do questionamento saia uma boa piada. O mistério do riso parece uma questão menor em face de perguntas tão sérias, e são poucos os filósofos que se lembram de rir quando questionam a existência de Deus ou analisam o problema do mal. Afinal, quais foram os filósofos ousados – ou seriam irreverentes? – o bastante para escrever uma apologia do riso? 

Freud foi um dos últimos grandes pensadores a levar o riso a sério. A psicanálise descobriu uma verdadeira maquinaria invisível das piadas. Para o criador da psicanálise, o riso denuncia uma força que se move no inconsciente, abaixo da superfície, e da qual só conseguimos ver a ponta do iceberg. Se seguirmos até o fim, veremos que o que motivou o riso era uma tensão inconsciente que precisava de um alívio. Algumas verdades só podem ser ditas na forma de uma piada, caso contrário, permanecem não ditas. O que motiva o riso então é quase seu oposto, um sentimento de raiva, vergonha, medo, ou qualquer outra emoção que não pode ser exposta de uma forma mais direta. Toda piada gera o riso como forma de aliviar a tensão. A mensagem é passada, mesmo que codificada na forma de ironia ou sarcasmo. Assim, conclui Freud, toda risada esconde algo sério, demasiadamente sério para ser dito.

Bergson, que escreveu um pouco antes de Freud, suspeitava que o mundo praticamente nos obriga a fazer piadas com ele, como uma maneira de lidar com o absurdo que é a sua falta de sentido, ou melhor, um excesso intelectual de sentido que é dado a ele. O filósofo francês afirmou que o riso é uma espécie de alongamento das juntas do pensamento, para evitar o enrijecimento intelectual. O riso se dá quando acontece uma quebra na direção normal do pensamento, mostrando os limites do racional. Se o corpo e a alma se tornam mecânicos pela inércia da sociedade, o cômico aparece como uma maneira de mostrar a plasticidade da vida, é uma crítica a todos aqueles que se renderam ao cotidiano. Mais uma vez, o riso expressa algo maior do que a sociedade permite existir.


(   )

Do site "Razão inadequada", acessado em 01/05/2025

sábado, 26 de abril de 2025

SOBRE A EXPERIÊNCIA ADOLESCENTE

A adolescência é um processo existencial situado no cruzamento de múltiplas determinações bio-psicossociais (ou culturais). Tais determinações incidem sobre o corpo e o que o segue, ou seja, o desejo. Entretanto, esse conceito de desejo não remete necessariamente à sexualidade, mas às potências de vida que se expressam e se expandem nas singularidades de cada indivíduo. O desejo e o corpo  formam, então, linhas subjetivas que irão mapear a existência do ser adolescente. Só que não existe o ser-adolescente como uma identidade (espécie de diagnóstico implícito) e sim como multiplicidade expressa num dado campo social e institucional.  Em tempos internéticos ( irreversíveis) esse campo social é atravessado pela linguagem virtual que substitui a linguagem corporal. Tal fenômeno cria um vazio corporal (o que posso?), afetivo (o que sinto?) e subjetivo (quem sou?) que irá tornar o adolescente mais ou menos vulnerável aos signos de informação e comunicação que lhe chegam velozes. Então, a experiência de ser um individuo humano dotado de razão passa a ser produzida pelo que vem de fora (mensagens de toda ordem) e ao mesmo tempo já está dentro da alma como "eu partido" em face de um mundo externo imediatamente interno. Trata-se, enfim, de uma máquina de controle e dominação invisíveis. Como resistir?


A.M.

terça-feira, 22 de abril de 2025

UM MUNDO PARANÓIDE

Numa análise do desejo o militante de extrema direita ou o crente da extrema direita (o que dá no mesmo), adota, carrega e goza uma visão paranóide da realidade. Trata-se de uma imensa  bolha de egos mantida como proteção hostil e armada. Secreta um inimigo onipresente que Deus ajuda a vigiar. E punir. A extrema-direita funciona como "remédio social" já que prega uma revolução às avessas. Tudo às custas de uma grande faxina das mentes emporcalhadas. Uma produção mortuária e insana de teorias conspiratórias é exemplo de acesso fácil mas aterrador. Expressa um fluxo afetivo deliróide montado em escala industrial. Linha de montagem de  almas desalmadas. A fratura da linguagem já está exposta. Isso não cessa, isso não pára, isso não cede, isso mata: a semiologia clínico psiquiátrica é a de uma mega-psicose coletiva: enfim, a profecia (não a dos profetas) cumpriu-se: o capital, como fazem os vampiros, encarnou-se na economia do espírito: No return.  A internet é pródiga. Confira.


A.M.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

O TRUMP NÃO É um FENÔMENO NOVO: ARBEX EXPLICA

Genealogia da Moral

Ensaio sobre o Ressentimento e a Má Consciência

"Estes são todos homens do ressentimento, estes fisiologicamente desgraçados e carcomidos, todo um mundo fremente de subterrânea vingança, inesgotável, insaciável em irrupções contra os felizes, e também em mascaramentos de vingança, em pretextos para vingança: quando alcançariam, realmente o seu último, mais sutil, mais sublime triunfo da vingança? Indubitavelmente, quando lograssem introduzir na consciência dos felizes sua própria miséria, toda a miséria, de modo que estes um dia começassem a se envergonhar da sua felicidade, e dissessem talvez uns aos outros: ‘é uma vergonha ser feliz! existe muita miséria!’… "

Nietszche,  Genalogia da Moral,  terceira dissertação,  §14

Para Nietzsche, a atualidade se constitui como niilismo, e seu resultado inevitável é o ressentimento. Este afeto é tão difundido em nossa sociedade que mereceu uma análise mais atenta de nossa parte, usando como principal interlocutor o livro Genealogia da Moral, do filósofo alemão. Em primeiro lugar, o ressentido é intolerante, ele recusa a diferença e o devir, além de ter ódio do mínimo desvio da norma. Então ele agita as mãos gritando por justiça e lei, mas nós nos perguntamos: que justiça, que lei?

"Homem tricotando o fio da meada de seu próprio coração"

Ou seja, sofremos de uma impotência para admirar uma força que se afirma, morremos de medo da mínima possibilidade de transvaloração dos valores, queremos paz estupidificante, o sono dos justos. O ressentimento é hostilidade para com o mundo e a busca por um entorpecimento contra ele. Um estimulante (que evita perder-se na dor), um narcótico (que evita que a dor nos consuma). Ou seja, ressentimento é a anestesia contra todos os sofrimentos crônicos que tomam de assalto nossa vida, nossa consciência, ele é nosso narcótico, o remédio que faz efeito permite que a vida continue.

Psicologia e Ressentimento

Neste contexto, Nietzsche desenvolveu sua Psicologia como uma tipologia, uma genealogia das forças e análise de sua distribuição em um mesmo organismo. Temos o nobre e o escravo. O que acontece com o pensamento sob a pressão da doença? Temos que tomar cuidado, um filósofo da suspeita sempre se pergunta, “foi aqui a doença que inspirou estes pensamentos?”. Nietzsche acredita que é possível filosofar à sombra do niilismo, mas que nosso maior inimigo é o ressentimento e a má consciência.

O homem está cansado, e nós estamos cansados do homem. Nossa ideia é pegar os movimentos reativos e levá-los novamente para um terreno ativo. Encontrar onde a planta do ressentimento começa a fincar suas raízes para podá-la! Sim! Por ser vetado ao ressentido a verdadeira felicidade, ele precisa fingi-la aos olhos alheios, cabe a nós entender esta farsa e encontrar saídas mais potentes, buscar horizontes alargados.

Esta é a difícil tarefa do filósofo, andar pelo lodaçal da doença sem se deixar sujar pelo ressentimento. A Genealogia da Moral é a avaliação prévia ao: amor fati. Mais do que nunca essas reflexões filosóficas precisam ser feitas: O homem do ressentimento precisa ser superado!


Razão inadequada, Rafael Lauro e Rafael Trindade,  site acessado em 21/04/2025



DINHEIRO, SEITA, POLÍTICA E CAOS, A FÓRMULA DOS LEGENDÁRIOS

A vocês, eu deixo o sono.

O sonho, não!

Este eu mesmo carrego!


Paulo Leminski

sábado, 19 de abril de 2025

João Cezar de Castro Rocha

O que é a mente?  1 - a partir de Espinosa


1- A mente é um construto teórico criado com o fim de compreender/explicar as ações humanas.

2- Ela e o corpo possuem a mesma substância de origem; segundo Espinosa, essa substância é Deus.

3- No entanto,  a mente e o corpo se diferenciam como modos de expressão: a mente, o pensamento. O corpo, a extensão.

4- O combustível da mente são os afetos. Eles vêm do mundo através dos signos ( pessoas, instituições, lugares, acontecimentos, etc)

5- Há, pois, um encontro com os signos; pode ser positivo (aumento da potência de viver: a alegria) ou negativo (diminuição da potência de viver: a tristeza).

6- Assim, os afetos preenchem o pensamento. Não há pensamento sem afeto; consciência e racionalidade são efeitos, não causas.

7-Se os afetos (do mundo dos signos) são também o corpo, tudo que é mente é corpo; tudo que afeta o corpo afeta a mente e vice-versa. 

8 - Chegamos, então, a um monismo "existencial" da subjetividade.

9- Entre muitas,  há duas consequências de tal concepção: uma ética, a alegria; uma política, a contra-servidão.

10 - O ato de pensar é um exercício perigoso porque é imediatamente prático: dado um corpo, qual a sua potência?


A.M.


 

Eu sou quem arde com amor ardente


Eu sou quem arde com amor ardente;

A terra não gravita? Matéria não atrai, ardendo, mais matéria?

Pois bem meu corpo o que conhece, encontra…


Walt Whitman

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Yuja Wang: Philip Glass Piano Etude No. 6 [HD]

O QUE É A MENTE?  parte 2


1- Na clínica em psicopatologia (ou para além dela) é possível afirmar  que o delírio vem do social. Atribuir ao cérebro a origem do delírio não só é um equívoco etiológico como também um pretexto para que a psiquiatria atual funcione como serva da máquina de poder disfarçada de ciência neurobiológica. 

2- A linha (percurso) do delírio do social até a forma de expressão num discurso individual torna-se possível porque a mente é um sistema conceitual aberto; abarca múltiplas realidades, determinações que efetuam uma variação contínua e subjetiva (afetiva).

3-Desse modo, a pesquisa da mente é correlata à pesquisa do delírio; isso porque a questão da verdade está no centro da discussão; qual é a verdade? existe uma verdade única? a mente acredita em delírios?

4-Ora, a mente é o delírio do universo; exposta aos fluxos de signos de toda ordem ( sociais, pessoais, familiares, religiosos, éticos, políticos, históricos, espirituais, etc) a mente é ela própria delirante mesmo que não esteja a delirar; ou que não pareça delirar.

5-Observe: tudo pode estar nos trilhos (uma marcha militar impecável, operários numa linha reta de montagem, servos ajoelhados diante do um chefão impassivel, fiéis num grupo rezando etc) : a depender de uma visão de perspectiva, de uma análise de desejo, tudo isso poderá ser considerado delirante.

6-Eis pois a máquina social que nos dias atuais é a máquina do capital; ela codifica a experiência do universo em prol de um único sistema de valores econômicos e semióticos: o Deus-capital.

7-A linguagem é uma instituição muito antiga. Ela chega de fora e produz a mente; o cérebro não produz a  linguagem: é o inverso; no entanto, ele é condição orgânica (biológica) para a expressão subjetiva:  representa, replica, informa e comunica; mas não pensa.

8-O pensamento, composto de afetos recolhidos do universo, é um pathos ( sensibilidade), ato (veloz) de pensar, prática de corpo, fazedor de mundos, sentido de vida.

9-Só que é muito difícil pensar; normalmente se pensa que pensa; nada, nada, só uma pálida representação do real.

10- Isso porque a máquina do capital, aliada da ciência e da tecnologia (instituições de grande prestígio social), impede a mente de exercer a sua função de pensar: por isso a adoram.


A.M