segunda-feira, 12 de maio de 2025

O que é psiquiatria?  parte 3


Há na psiquiatria uma clínica a ser inventada. 

A clínica como lugar de resistência à violência simbólica ou real, aos manicômios da alma e às emergências programadas.

Para isso o trabalho da psiquiatria como um sentido a ser oferecido no Encontro com a loucura dos pacientes.  E com a nossa. 

Para os multi-sintomáticos graves, gravíssimos, medicar com precisão e método, arte e intuição. Muito difícil tal jornada solitária.

O psiquiatra e os  mil afetos no exame do paciente. E na construção do  Cuidado.

Ser mais um técnico em saúde mental, buscar relações não hierarquizadas com os técnicos em saúde mental.

Usar o diagnóstico psiquiátrico como função terapêutica e não como estigma e controle moral.

Avaliar os sinais delicados da psicopatologia na inserção subjetiva da realidade social. A pergunta (ampla) : como você vive?

Sempre que possível, reagir às agressões farmacológicas antes sofridas. Tal atitude requer mudanças de prescrição e orientação técnica ao paciente, familiares ou terceiros.

Diante do paciente, evitar ocupar o lugar de juiz, policial, professor ou sacerdote, entre outros. Ser técnico já é muito.

Entrar no delírio (se for o caso) com o paciente, não no lugar dele. Não confirmar o delirio, mas aceitar o delirante.

Valorizar a psicoterapia, antes como atitude, arte e depois como técnica.

Valorizar a arte como estilo,  modo de viver.

Fazer uma psiquiatria menor e sensivel  aos fluxos do mundo.



A.M.

domingo, 11 de maio de 2025

Ao leitor


Considera o retângulo da página

e as palavras que vês, paisagem mínima.


Não esperes a bula, o vade-mécum,

as respostas cabais às tuas dúvidas.


A poesia, afinal, é mais o branco

do papel que o discurso em letra rígida.


Carlos Machado

sábado, 10 de maio de 2025

Paths of Glory (1957) - ending scene [HD]

NÃO SABEMOS LER O MUNDO

Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não lêem livros. Mas o déficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.

Vale a pena ler livros ou ler a Vida quando o acto de ler nos converte num sujeito de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens. Mais do que saber ler, será que sabemos, ainda hoje, contar histórias? Ou sabemos simplesmente escutar histórias onde nos parece reinar apenas silêncio?


Mia Couto

quinta-feira, 8 de maio de 2025

A Incrível fortuna do Vaticano | Banco da Igreja Católica | Documentário |

ESGOTO ESPIRITUAL

A palavra "espiritualidade" é tributária de longa tradição ocidental cristã, talvez do oriente milenar, hoje incorporada ao sistema do capital em seu estágio industrial avançado. Produção em série, linha de montagem. Conotada a "algo bom ", ao " bem", a espiritualidade, com toda a carga de afetos positivos que  evoca, faz por compor a vitrine das mercadorias destinadas a um "bom viver". Operada como substância,  objeto, "ter espiritualidade" ou "desenvolver a espiritualidade", torna-se um ato grotesco num mundo em putrefação ética. Seja o cinismo da geopolítica, o descaso pela pobreza de milhões ou a predação da natureza, a espiritualidade, sob as condições da sociedade moderna, é a eterna  fiadora da boa pessoa.


A.M. 

terça-feira, 6 de maio de 2025

Há uma grandeza, há uma glória, há uma intrepidez em ser simplesmente bom, sem aparato, nem interesse, nem cálculo; e sobretudo sem arrependimento.


Machado de Assis

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Coldplay - Viva La Vida (Live In São Paulo)

O QUE É TRAIR A PSIQUIATRIA?


"Trair" é um termo conotado a algo ruim. No entanto, é possível usá-lo no campo institucional, mais precisamente em relação a psiquiatria.Neste caso "trair" significa criar desde o interior do funcionamento psiquiátrico práticas (incluindo práticas teóricas) que utilizem referências fora da psiquiatria (a arte, a filosofia, a sociologia, a literatura, etc) e com ela estabeleçam nexos clínicos. Pois tudo passa pela clínica. Vejamos o exemplo da nosologia psiquiátrica. Frente a  aberração epistemológica que é a CID 10, capítulo F, a prática de trair usa os tais diagnósticos como funções terapêuticas e não como essências imutáveis. É que estas atolam o paciente em entidades clínicas imaginárias, sabotando o desejo no que lhe resta de processo existencial singular. Muito se criticou e se critica a psiquiatria, ao ponto de demonizá-la. Isso é relativamente fácil de fazer, já que a critica vem de fora, de uma suposta neutralidade, ou seja, onde está ausente o contato direto com o paciente, o cotidiano dos problemas psicossociais (nos serviços de saúde mental), enfim, a crueza do real. São os signos da clínica. No centro dessa ausência instituída, naturalizada, os aparelhos acadêmicos são um exemplo lapidar. Executam seu mister com competência. Geram projetos de pesquisa, programas, mesas redondas, debates, artigos, dissertações e teses tão brilhantes quanto inócuas em relação a mudanças efetivas no campo da saúde mental.  Tais agentes da verdade não são, óbvio, traidores, mas trapaceiros do conhecimento, pois o usam como instrumento de poder, prestígio e ascenção na pirâmide universitária. O argumento infalível é, em geral, o do humanismo a priori da medicina e da academia. O Bem como transcendência.  Ora, "trair" no caso de uma prática psiquiátrico "de dentro" nada tem a ver com a academia.  Trata-se de usar fragmentos do saber médico (entre outros) a favor de clínicas onde a ética da produtividade existencial, a estética das criações de si mesmo e a política do enfrentamento com os poderes visíveis e invisíveis, se aliem e se potencializem. Isso significa produzir uma máquina coletiva de pensar a realidade social e não a de pensar sobre a realidade social. Mas poucos a suportam...


A.M.

Eleições na Alemanha: porque mais jovens votam na extrema direita.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

O  EXTERMÍNIO  DA  ALMA - 2

A alma é grandiosa. Ultrapassa a fronteira da pele em direção a países e terras distantes. No entanto, vive aqui na Terra entre os azuis cinzentos das metrópoles rurais. Chame-a pelo nome e ela responderá com aceno de pássaro. Está cercada de ilhas e algorítmos. Não fala, só inaugura o silêncio dos gritos e a pulsação das marés. De todas as partes as notícias dizem que ela escondeu de si mesma o segredo da criação. Uma usina de afetos é o seu sustento até que o céu desabe. Não há mais clima. Apesar disso,  continua sensível e veloz.  


A.M.

O Jovem Karl Marx | Trailer Legendado

 O MELHOR REMÉDIO

"Inabalável é minha profundeza: mas cintila de enigmas e risadas que flutuam” 

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra


“O homem é um animal que ri”, esta é mais uma das grandes definições que a filosofia criou para caracterizar o ser humano. Mas ao longo de toda a sua história a filosofia pouco se pronunciou sobre o riso, e menos ainda fez rir. Não surpreende, é improvável imaginar que do abismo do questionamento saia uma boa piada. O mistério do riso parece uma questão menor em face de perguntas tão sérias, e são poucos os filósofos que se lembram de rir quando questionam a existência de Deus ou analisam o problema do mal. Afinal, quais foram os filósofos ousados – ou seriam irreverentes? – o bastante para escrever uma apologia do riso? 

Freud foi um dos últimos grandes pensadores a levar o riso a sério. A psicanálise descobriu uma verdadeira maquinaria invisível das piadas. Para o criador da psicanálise, o riso denuncia uma força que se move no inconsciente, abaixo da superfície, e da qual só conseguimos ver a ponta do iceberg. Se seguirmos até o fim, veremos que o que motivou o riso era uma tensão inconsciente que precisava de um alívio. Algumas verdades só podem ser ditas na forma de uma piada, caso contrário, permanecem não ditas. O que motiva o riso então é quase seu oposto, um sentimento de raiva, vergonha, medo, ou qualquer outra emoção que não pode ser exposta de uma forma mais direta. Toda piada gera o riso como forma de aliviar a tensão. A mensagem é passada, mesmo que codificada na forma de ironia ou sarcasmo. Assim, conclui Freud, toda risada esconde algo sério, demasiadamente sério para ser dito.

Bergson, que escreveu um pouco antes de Freud, suspeitava que o mundo praticamente nos obriga a fazer piadas com ele, como uma maneira de lidar com o absurdo que é a sua falta de sentido, ou melhor, um excesso intelectual de sentido que é dado a ele. O filósofo francês afirmou que o riso é uma espécie de alongamento das juntas do pensamento, para evitar o enrijecimento intelectual. O riso se dá quando acontece uma quebra na direção normal do pensamento, mostrando os limites do racional. Se o corpo e a alma se tornam mecânicos pela inércia da sociedade, o cômico aparece como uma maneira de mostrar a plasticidade da vida, é uma crítica a todos aqueles que se renderam ao cotidiano. Mais uma vez, o riso expressa algo maior do que a sociedade permite existir.


(   )

Do site "Razão inadequada", acessado em 01/05/2025