quarta-feira, 11 de junho de 2025

UM MUNDO PARANÓIDE - 2

Numa análise do desejo o militante da extrema direita ou o crente da extrema direita (o que dá no mesmo), adota, carrega e goza uma visão paranóide da realidade. Trata-se de uma imensa e coletiva bolha de egos mantida com proteção hostil e armada. Fabrica um inimigo onipresente que Deus ajuda a vigiar. E punir. A extrema-direita funciona como "remédio social" já que prega uma revolução às avessas. Tudo às custas de uma grande faxina imaginária das mentes emporcalhadas. A produção mental é insana. Está prenhe de teorias conspiratórias e é exemplo de acesso fácil mas assustador ao plano da realidade da Terra. Expressa um fluxo afetivo deliróide  funcionando em escala industrial. Há uma linha de montagem para almas desalmadas. A fratura da linguagem já está exposta. Isso não cessa, isso não pára, isso não cede, isso mata: se se pede socorro à semiologia  psiquiátrica, o diagnóstico escancara: Uma psicose coletiva assombra a alma burguesa disfarçada de cristã. Ou o inverso. Enfim, a profecia (não a dos profetas) cumpriu-se: o capital, como fazem os vampiros, encarnou-se na economia do espírito: No return.  A internet é pródiga. Com paciência confira seus algoritmos.


A.M.

sábado, 7 de junho de 2025

ROSTIDADE

(...)

Conclusão: o rosto é uma criação exterior! Ele não é a priori, ele não é uma alma encarnada, ele é pura e simplesmente uma ficção que delimita fluxos. Ele é imposto de fora, ele é uma criação do poder. Nos tornamos rostos, por isso este conceito funciona muito mais como um verbo: Rostificar.

Rostificar é impor uma maneira de ser, de se mover, de falar, de se vestir, de amar, de viver! Um modo de pensar e de sentir! O rosto é a máscara que nos obrigaram a vestir! Mas por quê? Para quê?

A rostidade é usada toda vez que uma multiplicidade precisa ser organizada. Como assim? Um ponto central é definido como modelo, e outros rostos são distribuídos de acordo com este fundamento central. Para distribuir a multiplicidade é necessário algum critério, certo? Este critério estabelece uma hierarquia de proximidade e semelhança. 

E qual é o grande modelo? Qual o modelo que todos devem imitar mas do qual muitos permanecerão distantes? Todos nós sabemos: 

Homem-branco-europeu-racional-capitalista-cristão-heterossexual-magro…

(...)

Do site "Razão inadequada", acessado em 07/06/2025

terça-feira, 3 de junho de 2025

TRAIR, TRAIR

A tarefa do Encontro passa a ser trair a semiologia instituída.  Isso abre  condições de possibilidade para avaliações não centradas no sistema mente/cérebro (conforme a psiquiatria biológica) ou na  consciência  do eu/objeto (cf  Jaspers). Os afetos  “normais” e  as  crenças  não delirantes misturam-se aos  signos patológicos compondo agenciamentos coletivos nem sempre reconhecíveis. Falar  em afetos é, pois, falar  da  intensidade das vivências. Eles  são  o corpo, não necessariamente o corpo-organismo, mas o corpo-desejo, o corpo sem órgãos. Quanto às crenças, estão inseridas na materialidade dos territórios existenciais. Remetem a um sistema de códigos, por  vezes, particular, como na esquizofrenia. A ligação de determinada vivência a uma síndrome, por mais exata que  seja, é  contextual. Daí, a análise da  vivência preceder  o diagnóstico. “O que você  sente”? Em que  você acredita?” são indagações  primárias. A consciência, o eu, a fala, a atenção, a percepção, a memória, a inteligência, enfim, todo o universo das representações mentais deriva  daí.


A. M.

Wagner Moura brinca com Kleber Mendonça Filho em Cannes e bastidores do ...

domingo, 1 de junho de 2025

A anti-escuta  -  3


Na sociedade moderna a Escuta vira anti-escuta. Ou pelo menos são cultivadas as condições sócio-políticas para isso.

Está no ar a velocidade dos fluxos de comunicação e informação.  Como se o vento anunciasse tempestades. Ou se ele fosse a própria tempestade.

A linguagem do sistema do capital é composta de fluxos e não de significações prévias. Tudo se ajeita. Não importa que talvez você seja um analfabeto. As mensagens são feitas para isso, contam com isso.

Analfabetos, diz-se, no sentido da produção de uma realidade imagética que permeia os afetos e substitui a Terra finita por um infinito de lucro. Ó Marx!

A forma-pessoa é substituída pela forma-consumidor, mesmo e principalmente o que se consuma no próprio extermínio da alma.

Aldous Huxley disse tudo no " Admirável mundo novo" (1932). De lá para cá o aprofundamento do controle das massas e seu suicídio induzido.

Não há retorno do fascismo, do nazismo, da ultra-direita e de todas as expressões da pulsão de morte. Elas já estavam aí.

A anti-escuta avança como Tecnologia Científica com sua verdade religiosa. Hiroshima ainda não foi o pior.


A.M.




sábado, 31 de maio de 2025

Sobre a Aterrorizante Teoria da Estupidez

A CANÇÃO DO LIMPA-VIDROS


eu, um peixe de aquário, gordo,

consumindo o que surge dessas águas turvas.


os passantes lá embaixo como polvos de patins,

uma menina com um buraco-negro a tira-colo e chicletes.


ao lado dos jornais de internet,

meus cactos morrem em sua compulsão por água.


os ursos polares serão extintos pelas geladeiras.

na Austrália, baleias se suicidam na areia.


continuo consumindo qualquer coisa que brilhe um pouco,

eu, um peixe a apodrecer gordo nessas águas sujas.


Ana Rusche




quinta-feira, 29 de maio de 2025

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Profecia nietzschiana: o mundo caminha para se tornar um grande manicômio de portas abertas. Há uma banalização coletiva do que é chamado de transtorno mental. Quem é  louco? A psiquiatria cumpre a função de tratar/adoecer à medida em que recolhe os sintomas e os neutraliza com fármacos. Devidamente protegida pela neutralidade científica, lucra com a falta de saúde mental ad infinitum. Tornou-se uma agência do controle social das condutas. O significante Deus só é ultrapassado pelo discurso psicótico. ("eu mandei Deus criar o mundo"). Um tempo fora dos eixos faz do progresso a pura velocidade (Virilio). Talvez se chegue a um ponto onde cada um de nós será terapeuta do outro. E vice-versa.A mercantilização da alma já não necessita dos valores de troca do mercado. Ela, a alma, é cada vez mais o próprio Mercado íntimo da angústia por viver, abstração concretizada em imagens de imagens de imagens. Na análise do capital, só a grandeza de Marx percebeu a fraude cósmica... a Coisa.


A.M.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

HORA DO CÉU


Esse fundo da tarde me apavora,

Esse sol morrendo,

Essas nuvens fugindo apressadas,

Fugindo para onde? fugindo de quê?

Que irá acontecer?

O mundo vai sumir?

Eu vou desaparecer?


Vem, amor, e me abraça.

Acalma, com voz suave, a minha doença.

E me ensina a rezar,

Como a um filho,

Uma oração que me faça perdoar,

Perdoar sem compreender,

Nesta hora em que o céu abafa a terra.


Sinto faltar-me a respiração

Sob o peso do céu.

Tenho vontade de fugir da paisagem

E ir-me esconder no seio de uma mulher,

Imensa mãe

De mãos grandes,

Ventre quente.


Dante Milano

sábado, 24 de maio de 2025

ESCUTA E ANTI-ESCUTA

A  anti-escuta - 2


Num certo contexto de análise, não se trata aqui da acuidade auditiva. Isso é assunto de técnicos especializados.

Trata-se de outra coisa: "escuta" como sensibilidade social.

Ou, pode-se dizer, de uma percepção do mundo que vaza das linhas endurecidas da chamada pessoa humana, invenção cristã.

A Escuta é a percepção sensível e sensitiva do Outro no campo de um coletivo planetário.

A chamada pessoa não existe se não como forma estável e necessária à conservação da vida. É sua expressão reativa.

Reativa às  mil vulnerabilidades egóicas.

A Escuta é um agenciamento que atravessa o macrocosmos em direção ao microcosmos e vice-versa.  

Iso significa dizer que a Escuta não é apenas se colocar no lugar do Outro, mas tornar-se o Outro numa tarefa inglória e arriscada.

Na civilização moderna, prenhe da pulsão de morte disfarçada de Vida, não parece haver lugar ou tempo para a Escuta, ao contrário.

Daí as doenças...


A. M.