Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
O ANARQUISMO CIENTÍFICO
A ciência se aproxima do mito, muito mais do que uma filosofia científica se inclinaria a admitir. A ciência é uma das muitas formas de pensamento desenvolvidas pelo homem e não necessariamente a melhor. Chama a atenção, é ruidosa e impudente, mas só inerentemente superior aos olhos daqueles que já se hajam decidido favoravelmente a certa ideologia ou que já a tenham aceito, sem sequer examinar suas conveniências e limitações. Como a aceitação e a rejeição de ideologias devem caber ao indivíduo, segue-se que a separação entre o Estado e a Igreja há de ser complementada por uma separação entre o Estado e a ciência, a mais recente, mais agressiva e mais dogmática instituição religiosa. Tal separação será, talvez, a única forma de alcançarmos a humanidade de que somos capazes, mas que jamais concretizamos.
Paul Feyerabend - do livro Contra o método
QUE TRABALHO?
Trabalhamos com o desejo do paciente. Não à maneira da psicanálise (qualquer uma) a produzir o consumo interminável de papá-mamã . Tampouco usamos o serrote psiquiátrico, amputando o delírio como sentido da existência. Trata-se de outra coisa: o desejo sendo atravessado e atravessando a história, a política, as instituições , a cultura, a ciência, enfim, o coletivo. Isso dá trabalho, o trabalho de criar . Só alegria. Quem compreende?
Antonio Moura
O DESEJO SÓ FUNCIONA AGENCIADO
(...): de volta à cidade após uma expedição ao Vietnã, frente às irmãs chorosas, os crápulas dos Marines se fazem espancar pelo professor, sobre cujos joelhos está sentada a mamãe, e gozam por terem sido tão maus, por terem torturado tão bem. Como é ruim, mas como é bom! Talvez se lembrem de uma sequência do filme Décimo-sétimo paralelo: vê-se o coronel Patton, o filho do general, declarar que esses caras são formidáveis, que eles adoram o pai, a mãe e a pátria, que eles choram na cerimônia religiosa pelos camaradas mortos, bons caras - depois o rosto do coronel muda, faz caretas, revela um grande paranóico de uniforme que grita, para terminar: e com isso, sâo verdadeiros matadores... (...)
G. Deleuze e F. Guattari - do livro O anti-édipo
Transtornos da personalidade : problemas (*)
Antonio Moura
Consideramos histórias clínicas em que as hipóteses diagnósticas esgotam as categorias da CID-10, exceto uma. Desse modo, é freqüente se recorrer ao chamado “transtorno da personalidade” (TP) ou mesmo ao que era antes chamado de “personalidade psicopática” ( termo criado por Kraepelin em 1904 ) como uma saída aos impasses da clínica psicopatológica. Isso advém da dúvida: será uma psicose? [1] . A psiquiatria, enquanto sistema nosológico-conceitual , não sabe definir com precisão uma psicose. Tomemos o exame de um paciente: de acordo com a semiologia , não há delírios, alucinações, nem ruptura com a realidade; por outro lado, desvios de conduta, às vezes graves, atestam algum signo necessário para se poder dizer afinal do que se trata. Descrevendo uma personalidade [2] em seus padrões anormais, incluímos o que ele, o portador, faz no mundo: atos, atitudes, interações com pessoas, desempenho de papéis sociais, capacidade laboral e outros parâmetros. O paciente, excluídas informações de terceiros, se acha e se mostra mentalmente são. Em certos casos, é pessoa de conversa fácil e discurso que flui espontâneo. O pensamento se expressa em frases conexas. No mais, segue o percurso das conversações amenas, ditas normais. Em outros casos até poderá ficar tenso, a depender do contexto institucional, como, por exemplo, ser entrevistado numa prisão. O essencial a reter desses dados clínicos é que o TP[3] tende a escapar do molde psiquiátrico. A psiquiatria lhe é estranha, exceto talvez por um ato de força executado por ordem do juiz. Diferentemente da psicose, tal personalidade não vacila diante de pressões sociais: confesse! Ora, uma Personalidade funciona num mundo social cujas linhas de conduta estão longe de serem retas e programáveis. Desse modo, o diagnóstico deve compor um dispositivo para avaliação contingencial. O contrário seria um enquadre apenas técnico , o que equivale a prática do estigma social disfarçado de ciência pura.
Avaliar uma personalidade é partir das circunstâncias sociais que levam o paciente a tal exame. Além do Anti-social, descreveremos de modo sumário os demais tipos relacionados na CID-10 [4]. Paranoide, Esquizoide, Emocionalmente Instável, Histriônico, Anancástico, Ansioso, Dependente. Em seguida, uma ênfase será dada ao Emocionalmente Instável e ao Anti-social. Tal opção deve-se ao fato de que estes dois tipos, bem mais que os outros, produzem um desconforto e um desafio à psiquiatria clínica, tanto no diagnostico quanto no tratamento (...)
(*) Do livro Trair a psiquiatria
[1] É claro que a dúvida excede a questão da psicose e abrange outras síndromes como os neuroses graves, os retardos mentais, os transtornos orgânicos e do humor. Destacamos a psicose devido a proximidade empírica com a loucura e daí à existência do delírio.
[2] “Os TP deveriam ter como ponto de partida o conceito de personalidade, por sua vez muito maltratado. Em geral, os psiquiatras estudam TP sem esboçar qualquer definição de personalidade. Nem propõem a escolha de uma das suas muito numerosas definições (Alport contava em 1937 mais de 50 definições; Alonso Fernandez, em 1973, falava de várias centenas de definições), Sonenreich, C., Estevão, G. e Artenfelder, L de M., Psiquiatria: propostas, notas, comentários, São Paulo, Lemos Editorial, 1990, p.154.
[3] Referimo-nos, sobretudo, ao tipo “anti-social”, outrora chamado “psicopata”. No entanto, os demais tipos também tendem a escapar do molde biomédico, em função de dados psicossociais e históricos relevantes.
[4] São muitos os sistemas classificatórios dos TP. Kraepelin (1915), Schneider (1923), DSM-IV, CID-10, entre outros.
INSETIZAR-SE...
A maçã, que ninguém se atreveu a retirar das costas de Gregor, permaneceu mergulhada em sua carne com uma recordação palpável, e o grave ferimento, que ele, já havia um mês, apresentava, lembrava ao pai que, apesar da sua triste e terrível transformação, Gregor continuava a ser um membro da família, não devendo ser tratado como um inimigo; pelo contrário, o dever exigia que aquele desgosto fosse esquecido e que se desse a Gregor todo o auxílio possível(...)
Franz Kafka - do livro Metamorfose
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
FORA DOS TRILHOS
Durante algum tempo procurou amigos, mas logo se agastou com a brutalidade de suas emoções e a mesmice e a vulgaridade de suas fantasias. Sentia-se vagamente satisfeito com o fato de todos os seus parentes viverem longe e sem contato com ele, pois nenhum deles teria compreendido sua vida mental. Isto é, nenhum exceto seu avô e seu tio-avô Cristopher, e fazia muito já que haviam morrido (...)
H. P. Lovecraft - do livro À procura de Kadath
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