terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O ANARQUISMO CIENTÍFICO

A ciência se aproxima do mito, muito mais do que uma filosofia científica se inclinaria a admitir. A ciência é uma das muitas formas de pensamento desenvolvidas pelo homem e não necessariamente a melhor. Chama a atenção, é ruidosa e impudente, mas só inerentemente superior aos olhos daqueles que já se hajam decidido favoravelmente a certa ideologia ou que já a tenham aceito, sem sequer examinar suas conveniências e limitações. Como a aceitação e a rejeição de ideologias devem caber ao indivíduo, segue-se que a separação entre o Estado e a Igreja há de ser complementada por uma separação entre o Estado e a ciência, a mais recente, mais agressiva e mais dogmática instituição religiosa. Tal separação será, talvez, a única forma de alcançarmos a humanidade de que somos capazes, mas que jamais concretizamos.

Paul Feyerabend - do livro Contra o método
comunistas
anarquistas
alquimistas
feiticeiros
guerreiros

no frêmito
da  terra

MARIANA BALTAR

QUE TRABALHO?

Trabalhamos com o desejo do paciente. Não à maneira da psicanálise (qualquer uma) a produzir    o consumo  interminável de papá-mamã . Tampouco  usamos o serrote psiquiátrico, amputando o delírio   como  sentido da  existência. Trata-se de outra coisa: o desejo sendo atravessado e atravessando a história, a política, as instituições , a cultura, a ciência, enfim, o coletivo. Isso dá trabalho, o trabalho de criar .  Só  alegria. Quem compreende?

Antonio Moura

GUEVARA

                                        A revolução é como a morte: quando?  onde? como?
O DESEJO SÓ FUNCIONA AGENCIADO

(...): de volta à cidade após uma expedição ao Vietnã, frente às irmãs chorosas, os crápulas dos Marines se fazem espancar pelo professor, sobre cujos joelhos está sentada a mamãe, e gozam por terem sido tão maus, por terem torturado tão bem. Como é ruim, mas como é bom! Talvez  se lembrem de uma sequência do filme Décimo-sétimo paralelo: vê-se o coronel Patton, o filho do general, declarar que esses caras são formidáveis, que eles adoram o pai, a mãe e a pátria, que eles choram na cerimônia religiosa pelos camaradas mortos, bons caras - depois o rosto do coronel muda, faz caretas, revela um grande paranóico de uniforme que grita, para terminar: e com isso, sâo verdadeiros matadores... (...)

G. Deleuze e F. Guattari - do livro O anti-édipo

GEORGE BENSON

Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda 
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa
como ele mesmo dizia,
completamente amanhecendo.

Adélia Prado

LITTLE BOY

Transtornos    da    personalidade :  problemas (*)


                                                                                                            Antonio Moura
                         
                              

Consideramos  histórias clínicas em que as hipóteses diagnósticas  esgotam   as categorias  da  CID-10,  exceto uma.   Desse modo, é   freqüente se  recorrer  ao  chamado “transtorno da personalidade”  (TP) ou mesmo   ao   que       era   antes   chamado de “personalidade psicopática”   ( termo  criado  por  Kraepelin  em 1904 )  como     uma    saída   aos    impasses  da clínica   psicopatológica.  Isso  advém da  dúvida:   será   uma   psicose? [1] .  A psiquiatria, enquanto   sistema nosológico-conceitual ,  não  sabe  definir com precisão  uma psicose.  Tomemos  o exame de um paciente:  de acordo com  a  semiologia ,      não há     delírios, alucinações, nem ruptura com a  realidade; por outro lado,  desvios de conduta,   às vezes  graves,  atestam  algum signo  necessário para se  poder dizer afinal   do que se  trata. Descrevendo uma personalidade [2]    em seus padrões anormais, incluímos o que ele, o portador, faz no mundo:  atos, atitudes,  interações com pessoas, desempenho de papéis sociais,  capacidade laboral e outros parâmetros.  O paciente,   excluídas    informações  de  terceiros,    se  acha e  se  mostra  mentalmente  são.   Em certos casos, é pessoa de  conversa fácil e discurso que  flui  espontâneo. O pensamento se expressa em frases conexas.  No mais, segue o percurso das conversações amenas, ditas normais. Em outros casos  até  poderá ficar tenso, a depender do contexto institucional, como, por exemplo,  ser   entrevistado  numa  prisão.  O essencial a reter desses dados  clínicos é  que o TP[3]   tende a escapar do molde  psiquiátrico. A psiquiatria lhe é estranha, exceto talvez por um ato de força  executado  por ordem do juiz. Diferentemente  da psicose, tal personalidade não vacila diante de  pressões sociais: confesse! Ora, uma  Personalidade funciona  num mundo social  cujas   linhas de conduta estão longe de serem retas e programáveis. Desse modo,  o diagnóstico deve   compor   um dispositivo para  avaliação contingencial. O contrário  seria    um  enquadre apenas   técnico ,  o  que equivale  a  prática  do  estigma social   disfarçado  de ciência pura.
Avaliar uma personalidade é partir das circunstâncias  sociais   que levam   o paciente a tal exame. Além   do    Anti-social, descreveremos   de modo sumário os demais  tipos    relacionados na CID-10 [4]. Paranoide, Esquizoide, Emocionalmente Instável,  Histriônico, Anancástico,  Ansioso, Dependente. Em seguida, uma   ênfase   será     dada   ao Emocionalmente Instável e ao   Anti-social. Tal opção deve-se ao fato de que estes dois  tipos, bem  mais que os outros,  produzem um desconforto e um desafio  à psiquiatria  clínica, tanto  no   diagnostico    quanto  no   tratamento (...)

(*) Do livro Trair a psiquiatria

[1] É claro que a  dúvida excede a questão da psicose e abrange outras síndromes como os neuroses graves, os  retardos mentais, os transtornos orgânicos e do humor. Destacamos a psicose devido a proximidade empírica com a loucura e   daí  à existência do delírio.
[2] “Os TP deveriam ter como ponto de partida o conceito de personalidade, por sua vez muito maltratado. Em geral, os psiquiatras estudam TP sem esboçar qualquer definição de personalidade. Nem propõem a escolha de uma das suas muito numerosas definições (Alport contava em 1937 mais de 50 definições; Alonso Fernandez, em 1973, falava de várias centenas  de definições), Sonenreich, C., Estevão, G. e Artenfelder, L de M., Psiquiatria: propostas, notas, comentários, São Paulo, Lemos Editorial, 1990, p.154.
[3] Referimo-nos,  sobretudo, ao tipo “anti-social”, outrora chamado “psicopata”. No entanto, os demais tipos também  tendem   a  escapar do molde biomédico,   em função de   dados psicossociais e históricos  relevantes.
[4] São muitos os sistemas classificatórios dos TP. Kraepelin (1915), Schneider (1923), DSM-IV, CID-10, entre outros.
INSETIZAR-SE...

A maçã, que ninguém se atreveu a retirar das costas de Gregor, permaneceu mergulhada em sua carne com uma recordação palpável, e o grave ferimento, que ele, já havia um mês, apresentava, lembrava ao pai que, apesar da sua triste e terrível transformação, Gregor continuava a ser um membro da família, não devendo ser tratado como um inimigo; pelo contrário, o dever exigia que aquele desgosto fosse esquecido e que se desse a Gregor todo o auxílio possível(...)

Franz Kafka  - do livro Metamorfose

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

FREDERICO GARCIA LORCA E NAVE ARTIFICIAL

FORA DOS TRILHOS

Durante algum tempo procurou amigos, mas logo se agastou com a brutalidade de suas emoções e a mesmice e a vulgaridade de suas fantasias. Sentia-se vagamente satisfeito com o fato de todos os seus parentes viverem longe e sem contato com ele, pois nenhum deles teria compreendido sua vida mental. Isto é, nenhum exceto seu avô e seu tio-avô Cristopher, e fazia muito já que haviam morrido (...) 

H. P. Lovecraft - do livro À procura de Kadath

AUTUMN LEAVES - Chet Baker e Paul Desmond