quarta-feira, 16 de maio de 2012

lembro criança
quando ainda as  manhãs
não  me lembravam
que  eu era  criança

A.M.

YAN TIERSEN - La muette



Devires     


O paciente vive  entristecido pela Grande Máquina. Sua alegria  foi aniquilada  em plena  vigília.  Do nada.   Ninguém assume  a  autoria dos pequenos  crimes.  Eles   são  administrados em nome da  paz  de espírito.  Ora, o   espírito  também caga.  Avise  aos últimos  palhaços  que  a    arte   foi  solapada em nome do ideal dos   homens  de branco.  Ao que  me consta, nada  mudou no sulco das  bocas. Elas falam rachando dentes.    Mastigam   auroras   nati-mortas.   Mas o   Rosto carrega  uma expressão justa, como negar? A  bondade natural dos  humanos.  Ó Lovecraft,  socorrei! Apenas uma   cidade  respirando um  arco-íris, manda por  favor...  Não falo por  mim. Por  mim, ó... Falo pelo que  não sou, falo  por  devires. Escutai   a  canção   do mundo... Você  dança?  O paciente sucumbe à  Ordem.  Por  favor, o senhor pode  me dizer  as  horas? Já vai  tarde o tempo dos  mestres, com todo  o  respeito.   Sonâmbulos da própria  dor,  como  falar  aos  que  não  falam? A  Grande Máquina é uma   pequena dose de benefícios a  curto e  médio   prazo. Ela  se  insinua na febre dos corredores infectos. Um susto, um sus.  Tudo é  contágio. Resistir à  morte,  querida, e fazer dessa vibração algo novo, será  possível? Talvez um devir-amante   imerso  em trepadas millerianas. Bicho,  perdoa  o jeito canino: o que  é necessário  para  viver por  viver?   Pacientes  são pacientes  demais.  Armaduras químicas, lições de casa, manuais de sobrevivência, coisas  simples, eles   são  normais. Eu queria um gosto de  sol  em você, em suas dores mais  intensas e  irremediáveis. Pena  que  a sombra dos quintais do passado  anuncie sessões de  tortura regadas à dinheiro. A entrega  é  às  oito. Todos estarão  lá, até o  chefe da  Facção Sinistra,  aquele  mesmo que  começou a seduzir  a multidão  com  truques de  falar  macio.  Não   tem jeito. Somos  inocentes radicais.
(...)
Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria

DIANA KRALL - S`wonderful

SEM  IDENTIDADE

Eles não agem com finalidade pedagógica, é claro. Não se trata de lhe ensinar o que quer que seja, no momento. Essa língua de catequista, melíflua, biliosa, é a única que sabem falar. Que ele se vá, que tente ir-se, para longe desse ruído lacerante, é tudo que eles pedem no momento. Para onde ele for, estando no centro, irá na direção deles (...) (...) isso vai mal, procurai bem, eu devo sentir alguma coisa, sim, eu sinto alguma coisa, eles dizem que eu sinto alguma coisa, eu não sei o que é, eu não sei o que sinto, dizei-me o que sinto, eu vos direi quem sou, eles me dirão quem sou, eu não compreenderei, mas será dito, eles terão dito quem sou,
(...)
Samuel Beckett - do livro O inominável

CÉU - Sonâmbulo

AFETOS=SUBJETIVAÇÕES

Tanto quanto em relação à afetividade, os modos de subjetivação (subjetividades) não são considerados pela psiquiatria. Não por erro, mas  por "coerência" metodológica.Ou seja, o método da psiquiatria tem como condição de funcionamento a eliminação (se possível, definitiva) de toda e qualquer expressão do desejo. Assinalamos, pois,a dificuldade de pensar e fazer a diferença num mundo indiferenciado. Mas, como no final de "A Laranja Mecânica, sobrou o riso semi-oculto do protagonista. Confira no delírio de Kubrick.

Antonio Moura

CRONICAMENTE INVIÁVEL


 A IMANÊNCIA DA CLÍNICA

 A psiquiatria não dispõe de uma teoria da afetividade.Comprove nos manuais... Daí, como trabalhar a relação com o paciente, senão no "interior" duma relação de poder verticalizada  e  historicamente constituída? Ao contrário, para se  fazer uma  clínica das multiplicidades, os afetos tornam-se  a materialidade  das práticas. A  percepção moral  do louco (Foucault) cede lugar a uma  percepção da loucura como caos inumano. Não é fácil, mas quanto mais difícil, mais intensas as saídas.Experimente.

Antonio Moura

terça-feira, 15 de maio de 2012


REIFICAÇÃO DOS SINTOMAS

(...) (...)Entretanto, o afeto  não  é uma  coisa  nem  é algo  natural. Abstrato,como vimos, ele  é  feito, produzido,fabricado como sentimento humano à condição de  portador  de  um transtorno: sobressai-se a figura do doente que se torna componente  de  um papel  social  cristalizado.A larga utilização de psicofármacos  em associações variadas  borra a linha abstrata que divide os doentes dos  não-doentes.Para a psiquiatria atual tudo é psiquiatrizável. Esta sentença diagnóstica ocupa o lugar de poder respectivo ao enunciado.Importa que o  paciente seja medicado e adaptado. O  afeto é secundário à tal  manobra  terapêutica porque  ele   foi   posto como consciência do  sentimento no pacote nosológico. Se  todos  são  julgados de   antemão  doentes, não interessa saber o que efetivamente  sentem (qual o afeto?) e  sim o que  fazem...É um regime paranóico guiado pela  razão: desconfiar da afetividade. Esta  não  é mensurável; um  modelo de  pensar desconsidera até mesmo condições evidentes de sofrimento  como  as  da depressão e  da angústia. Esses  afetos  têm  formas  de  expressão  extremamente  variadas, nuances clínicas  finas, imperceptíveis  a um  olhar normatizador. Eles resistem  a um  cadastramento semiológico. Por  isso, muitas  vezes  ficam excluidos da  avaliação ou  incluidos numa  espécie  de  “rostidade  clínica” [1].Transtorno do humor ou de ansiedade? Uma reificação dos sintomas, um  endurecimento  dos  signos da doença,uma  forma  de trabalho  do pensamento da  representação.  Não importa  pesquisar  as  singularidades  de  cada  caso. O que    está  em jogo   é  o  conceito de  doente  como  ser  improdutivo  e não o de loucura.  Isso   nos  remete à  questão  do  louco e à   sua  conduta social. O conceito  de  louco  está na  base  da  construção  histórica  do  conceito  de  doente  mental, o que  implica  na negação enviesada  do  da  loucura como  conceito  não  médico  e por isso   irrelevante  para  a  clínica  psicopatológica [2]. A figura  do louco, substituida  na  atualidade  pela  do  portador  de  transtorno mental, cumpre, entre  outras, a função de  desviar  o foco  de  pesquisa  da  loucura (portanto, do pensamento) para a clínica moral (a  técnica  pura).  É uma  maquinaria institucional lastreada  em  rituais  acadêmicos e  inscrita    num corporativismo  profissional.[3]
(...)
Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria

[1] Regime  semiótico  ou  de  signos  que  compõe a  expressão  reificada   do  “ser-da-depressão” ou  do “ser-da-ansiedade”. Tais  regimes são mantidos numa  espécie de encaixotamento nosológico como referência de verdade  ao  diagnóstico  psiquiátrico.
[2] “A palavra  “loucura”, tão presente na  fala e na literatura  de todos os  tipos, evidentemente não tem o sentido que  a psiquiatria dá a  doença mental. Quem fala de loucura não se importa com o que  o médico entende por  doença mental, ou não sabe”, Sonenreich, C., Estevão, G. e Filho, Luis de  Morais, Psiquiatria:propostas,notas,comentários, S. Paulo, Lemos  editorial, 1999, p.10.
[3] O Movimento  da Luta  Anti-manicomial,, por  exemplo, é visto em alguns meios  psiquiátricos como objeto  persecutório. Um pensamento malévolo faz  do  nome Luta Anti-manicomial a sigla  LAMA. Diz-se  “o pessoal da  lama”...

ALL THAT JAZZ

o abstrato é o concreto
dos seres
invisíveis


A. M.
ROSTIDADE

Nada menos pessoal que o rosto. Até mesmo o louco deve ter um certo rosto conforme o que se espera dele. Quando a professora tem um ar esquisito, você se instala nesse último nível de escolha e diz: sim, é a professora, mas vejam, ela está deprimida ou ficou maluca.
(...) 
C. Parnet - do livro Diálogos (c/ G. Deleuze)