segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

ROMERO BRITTO



SOBRE REICH

O  pensamento de Wilhem Reich  indica que é preciso uma mudança radical nas relações humanas. Associa a separação de um bebê do corpo da mãe na hora do parto com o assassinato de Cristo, com a psicose, com o fascismo e com a função do orgasmo. A complexidade de seu discurso é algo que vai além de sua época. A sua mais importante contribuição, que revolucionou toda a Psicologia, foi provar que a neurose é produzida socialmente, instalando-se em todo o corpo e não apenas na mente das pessoas. O conceito de couraça neuro-muscular do caráter mostra como a neurose se dá através da estagnação da energia vital. No livro "A Função do Orgasmo", Reich coloca que o orgasmo sexual pleno e satisfatório é o regulador biológico da harmonia vital. Militante socialista, despertou a atenção para o fato de que as neuroses eram provocadas pelo desvio da originalidade das pessoas, através de bloqueios à sexualidade e à afetividade, portanto um fenômeno sócio-político. A partir daí, passou a dar um novo enfoque a Psicologia, centrado no indivíduo, seu corpo e suas relações sociais.

(fragmento de texto- autor desconhecido)

sábado, 19 de janeiro de 2013


ESQUERDA

"As ciências experimentais poderiam impelir a esquerda a pensar um acordo que
não deriva de nenhuma sujeição a uma autoridade, mas, ao contrário, da
possibilidade de afirmar um desacordo para resolver um problema comum. É o
que eu aprendi dos cientistas: os conflitos entre as interpretações de um
fenômeno são secundários em relação ao problema que os juntou. A
possibilidade de resolver tal problema é mais forte do que aquilo que o
divide. O que deveria interessar à esquerda são os problemas que impelem a
pensar, que produzem um devir. Agrada-me muito a definição que *Deleuze* deu
em seu *Abecedário*: quem é de esquerda não parte de quem é próximo, mas de
quem está distante. Isto significa sentir-se responsável por quem perdeu o
trabalho, por quem sofre uma injustiça. Mas, significa também pensar como
compor um mundo em comum, um problema que obriga a uma nova relação com a
natureza e não só com os humanos. Por isso, a esquerda não deveria
enfileirar-se com as vítimas enquanto vítimas, mas apoiá-las naquilo que
elas podem tornar-se além de sua identidade de vítimas."

I. Stengers

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013


MILLERIANAS

(...) Bóris dá-me dinheiro para comprar bebida. Só de buscar a bebida, já estou embriagado. Sei exatamente como começarei quando voltar para casa. Descendo a rua, a coisa começa, o grandioso discurso, borbulhando dentro de mim como a risada solta da Sra. Wren. Parece-me que ela já está um pouco excitada. Ouve maravilhosamente quando bêbeda. Saindo da loja de vinhos, ouço o urinol borbulhar. Tudo está solto e esparramado. Quero que a Sra. Wren ouça... 
Bóris esfrega as mãos de novo. O Sr. Wren ainda está balbuciando e gaguejando. Tenho uma garrafa entre as pernas e estou enfiando o saca-rolhas. A Sra. Wren está com a boca aberta, expectantemente. O vinho derrama-se entre minhas pernas, o sol derrama-se através da janela e dentro de minhas veias borbulham e esparramam-se milhares de coisas loucas, que começam agora a jorrar para fora de mim em confusão. Estou dizendo a eles tudo quanto me vem à cabeça, tudo quanto estava fechado dentro de mim e que a risada solta da Sra. Wren libertou de uma maneira qualquer. A garrafa entre as pernas, e o sol derramando-se através da janela, experimento mais uma vez o esplendor daqueles dias miseráveis em que cheguei a Paris, indivíduo desorientado e ferido pela pobreza, a rondar pelas ruas como fantasma num banquete. Tudo me volta num jato: os lavatórios que não funcionavam, o príncipe que engraxou meus sapatos, o Cinema Splendid onde dormi sobre o capote do "patron", as grades na janela, a sensação de sufocação, as baratas gordas, as bebedeiras que aconteciam de tempos a tempos, Rose Cannaque e Nápoles morrendo sob o sol. Dançando nas ruas com a barriga vazia e de vez em quando procurando pessoas estranhas --Madame Delorme, por exemplo. 
(...)
H.Miller

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

a psiquiatria biológica é serva
do capital
seus trabalhos são perfeitos
álibis

A
M.

ENIGMA CRUEL

“A vida é um cut-up. O que é a vida senão uma seqüência mais ou menos ilógica de acontecimentos que não se prestam a nenhum segundo para fazer sentido? A cada vez que se olha pela janela ou que se anda pela rua, a consciência descreve círculos, vai de frente para trás e vice-versa [...] uma das tarefas da arte é chegar o mais perto possível do mecanismo da percepção."

William Burroughs

ERNST FUCHS


LOUCURA NÃO É DOENÇA

Para se pensar a Saúde Mental, é essencial a distinção entre loucura e doença. Aqui,vimos insistindo nessa distinção conceitual. Ela tem consequências para as práticas clínicas,  formas de sociabilidade e, não menos importante, para  as posições ético-políticas assumidas, explicitamente ou não. Loucura não é doença. Isso não quer dizer que não existam a loucura e a doença, ao contrário. Resumindo muito: loucura são os afetos não codificados, soltos, a-significantes.Doença é o sentido de empobrecimento da vida que tomou esses afetos.Só que esse sentido é múltiplo, multiplicante e multiplicador. A medicina é apenas um deles. Possui nuances que tornam a análise muito complexa. Ela ajuda, claro. Em todo caso, sua abordagem é insuficiente  e às vezes destrutiva (não "explica" a loucura mas a codifica) em face do lugar de poder que ocupa no socius.

A.M.

FERNANDA TAKAI - Insensatez


ARTAUDIANAS



Não és tu o confessionário, oh Papa! Somos nós; compreende-nos, e que os católicos nos compreendam. Em nome da Pátria, em nome da Família, incentivas a venda das almas e a livre trituração dos corpos.
Entre nossa alma e nós mesmos, temos que percorrer muitos caminhos, que venham a interpor se teus vacilantes sacerdotes e esse acumulo de aventuradas doutrinas com que se nutrem todos os castrados do liberalismo mundial. A teu deus católico e cristão que como os outros deuses concebeu todo o mal.
1. Tu o meteste no bolso.
2. Nada temos que fazer com teus cânones, índex, pecados, confessionários, clerigalham.
Pensamos em outra guerra, uma guerra contra ti, Papa, cachorro.
Aqui o espirito se confessa ao espirito. Da cabeça aos pés de tua farsa romana, o ódio triunfa sobre as verdades imediatas da alma, sobre essas chamas que consomem o próprio espirito. Não ha Deus, Bíblia ou Evangelho, ano ha palavras que detenham ao espirito. Não estamos no mundo. Oh Papa confinado no mundo! Nem a terra, nem Deus falam de ti.
O mundo e o abismo da alma! Papa aleijado, Papa alheio a alma. Deixa nos nadar em nossos corpos, deixa nossas almas em nossas almas. Não necessitamos de tua espada de claridades.

Antonin Artaud - Carta aos poderes



domingo, 13 de janeiro de 2013

DIAGNÓSTICO

Perante a CID-10  e  o  DSM-IV, não é possível diagnosticar. O diagnóstico não existe. Comecei do zero. Esqueci dos códigos. Escutei  vozes dizendo: “ele pensa que é o apocalipse”. Ninguém por  perto para  testemunhar. Abri as janelas. Manhã tão bonita manhã. No entanto, a doutora avisou que  vai  chegar mais  tarde. Hoje  é dia de visitas inesperadas.  Aos que  vierem, usem a vida  como estimulante. No entanto, figuras empoladas  pronunciam discursos doutos. Nada da  expressão  do desejo.  Nada mesmo. Que  fazer? O círculo é estreito, a rede é fina, o controle  é  (quase)  completo. Resta o pensamento: caminhar  veloz, conectar aliados insuspeitos, brincar com o peso do diagnóstico. Poe. A loucura não tem diagnóstico. Os loucos circulam soltos, mesmo prisioneiros. A sociedade industrial  imprime no corpo dos seus súditos a marca da  psiquiatria biológica. Por isso, hoje, escondo o segredo das  origens. Nada  de genética. A universidade não entende. O povo não entende. O diagnóstico enterra suas esporas sobre corpos previamente  dominados. Somos  todos  inúteis úteis.

A.M.