sábado, 20 de dezembro de 2014

PHILIP GLASS- Etude 16 - Maki Namekawa


Noite morta. 

Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite...
(Não desta noite, mas de outra maior.)

Manuel Bandeira
VISTA CANSADA

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Otto Lara Resende

GRANDES ESCRITOS


Ideologia do aquecimento global

(...) A Climatologia aparece hoje, pois, como uma importante força produtiva do capitalismo tardio. Com a hipótese do aquecimento global, atual mãe de todos os medos ambientais, ela se posiciona na linha de frente do desenvolvimento de novas tecnologias e do controle dos interesses sociais, atuando em prol do saneamento de empresas por parte do Estado e assim consolidando-o em seu papel de grande gerenciador da economia. Ao institucionalizar este novo paradigma de pesquisa, a Climatologia trabalha pela continuidade e agravamento da apropriação privada da riqueza socialmente gerada e das tradicionais estruturas de dominação social, eximindo o Estado da responsabilidade de suas ações. 
Não há o que estranharmos em termos chegado até aqui. Os rumos tomados pela ciência em geral e pela Climatologia em particular como legitimadoras do capitalismo tardio não foram casuais, mas antes a conseqüência lógica de sua própria estrutura. A ciência, originalmente concebida para a emancipação humana, não pode cumprir essa meta sem exercer o domínio totalitário da natureza e dos homens. Justamente por ser um instrumento de emancipação, a ciência se torna um instrumento de dominação. Esta conseqüência aparentemente anticientífica não é o resultado de uma aplicação social específica da ciência; na verdade, a direção geral em que foi aplicada era inerente à ciência pura até mesmo onde não eram objetivados propósitos práticos . 
(...)
Daniela de Souza Onça, tese de doutoramento em Geografia Física, USP, 2011

PINA BAUSCH


PARA ALÉM DO HOMEM

As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido – conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...

 F.Nietzsche
CONTRA TODOS

Quado falamos da psiquiatria como instituição, referimo-nos a uma forma social ou a uma forma de relação social que se produz e se reproduz subjetivamente. Não é preciso, pois, ser psiquiatra para fazer psiquiatria, para acreditar na psiquiatria, para psiquiatrizar o mundo, a existência, as pessoas, os bichos, as coisas...A luta contra tudo isso, ou seja, o trabalho pela afirmação de singularidades é difícil, silencioso e inglório.

A.M.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

GERCKEN GRAHAM


VIDA PLENA

(...) Escrevi que toda minha vida convergia para ele e que era só dele que iria se irradiar de hoje em diante. Quero te dizer também que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo dobra-se sempre às nossas decisões. Não nos esqueçamos das cicatrizes feitas pela morte. Nossa plenitude, eis o que importa. Elaboremos em nós as forças que nos farão plenos e verdadeiros.

Lygia Fagundes Telles
QUEM?

Eu costumava pensar que eu era a pessoa mais estranha do mundo, mas então eu pensei: Bem, há muitas pessoas no mundo. Deve haver alguém como eu, que se sente estranho e danificado da mesma forma que eu me sinto. Então, eu me imagino como essa pessoa e imagino que ela deve estar lá fora pensando como eu. Espero que, se você estiver lá fora e ler isso, que saiba que sim, é verdade, eu estou aqui. Eu sou tão estranho quanto você.

Frida Kahlo
Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago

Matsuo Bashô

PAULINHO DA VIOLA - Sinal Fechado


O RISO 

Acho que, na maioria dos casos, quando uma pessoa se ri torna-se nojento olharmos para ela. Manifesta-se no riso das pessoas, na maioria das vezes, qualquer coisa de grosseiro que humilha a quem ri, embora essa pessoa quase nunca saiba que efeito o seu riso provoca. Tal como não sabe (ninguém sabe, aliás) a cara que faz quando dorme. Há quem mantenha no sono uma cara inteligente, mas outros há que, embora inteligentes, fazem uma cara tão estúpida a dormir que se torna ridícula. 
Não sei por que tal acontece, apenas quero salientar que a pessoa que ri, tal como a pessoa que dorme, não sabe a cara que faz. De uma maneira geral, há muitíssimas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os maus instintos do nosso carácter: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor. A pessoa manifesta no riso aquilo que é, é possível conhecermos num instante todos os seus segredos.
Mesmo o riso incontestavelmente inteligente é, às vezes, abominável. O riso exige em primeiro lugar sinceridade, mas onde está a sinceridade das pessoas? O riso exige a ausência de maldade, mas as pessoas, na maioria dos casos, riem com maldade. Um riso sincero e sem maldade é uma pura alegria, mas, nos tempos que correm, onde está a alegria? E poderão as pessoas ser alegres? 
A alegria é um dos mais reveladores traços humanos, basta a alegria para revelar as pessoas dos pés à cabeça. Por vezes não há meio de percebermos o carácter de uma pessoa, mas basta ela rir para lhe conhecermos o feitio como às palmas das nossas mãos. Só as pessoas desenvolvidas do modo mais elevado e feliz sabem ser contagiosamente alegres, de uma maneira irresistível e benévola. Não falo de desenvolvimento intelectual, mas de carácter, do homem como um todo. Portanto: se quiserdes compreender uma pessoa e conhecer-lhe a alma não presteis atenção à sua maneira de se calar, ou de falar, ou de chorar, ou de se emocionar com as ideias mais nobres, olhai antes para ela quando se ri. Ri-se bem - é boa pessoa. 
(...) Apenas entendo que o riso é a mais certeira prova da alma. Olhai para uma criança: só as crianças sabem rir com perfeição, por isso são fascinantes. É abominável a criança que chora, mas a que ri alegremente é um raio do paraíso, é o futuro do homem quando ele, finalmente, se tornar tão puro e ingénuo como uma criança.

Fiodor Dostoievski
MAIS LAMA

SÃO PAULO e CURITIBA — A ex-gerente da Petrobras Venina Velosa da Fonseca prestou depoimento durante cinco horas ao Ministério Público Federal em Curitiba, contou que está sendo ameaçada e entregou milhares de documentos, principalmente cópias de emails e relatórios internos de auditoria, à força tarefa de procuradores que investiga o cartel de empresas e o desvio de dinheiro de obras da estatal. Segundo o advogado Ubiratan Mattos, que representa Venina, ela reafirmou que toda a diretoria da Petrobras sabia das irregularidades, incluindo Graça Foster, e os documentos devem ajudar a força tarefa nas investigações.
(...)
Fonte: Cleide Carvalho e Felipe Ribas, O Globo,19/12/2014, 17:12 hs