domingo, 10 de maio de 2015

TUDO BEM

Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. - Acho que tudo está bem-, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe.
(...)
Albert Camus
DEVIRES QUASE QUATRO ANOS DEPOIS

Os devires não tem forma. Eles são o conteúdo dos afetos posto em jogo a cada situação, a cada desafio, a cada problema. Eles são um problema, são problemáticos por natureza, até porque não tem natureza ou essência. Vivem do acaso dos encontros, fabricam a eternidade num segundo. Devires são o que faz viver e nos faz existir, mesmo que não saibamos ou não queiramos saber. Eles nos arrastam para regiões desconhecidas, de qualquer modo, sem motivo evidente. Nunca trabalham com ou por evidências, mormente as racionais. Tampouco são irracionais. Simplesmente estão aquém e além de tais categorias demasiado humanas. Devires são a alegria, elementar prova dos nove. Nos acompanham aonde formos qual um anjo da guarda que não intervêm intervindo nas escolhas de qual linha de risco seguir. Ora, tudo é risco, até os riscos voadores , como disse o poeta Eudoro num dos seus delírios lúcidos. Devires são o não ser sendo, o ir indo, o corte profundamente superficial da existência, a afirmação dos paradoxos, a  rachadura sanguínea  nos esquemas da razão lógica e universal, o tempo irreversível.  Eles são menores porque são maiores, os únicos a serem múltiplos, multiplicidades ligadas, conectadas, aliançadas, misturadas ao coração da Terra. Devires são a paixão que move, o movimento que apaixona, a linha que não representa nada, o Tempo em carne viva, o que não se vê mas se SENTE.

A.M.

LEONID AFREMOV


Este corpo no final será misturado com a lama. Por que permanecer na arrogância?

Kabir
O QUE É A BELEZA?

(...) a beleza, a verdadeira beleza, acaba onde principia a expressão inteligente. A inteligência em si é uma espécie de exagero; desmancha a harmonia de qualquer rosto. A partir do instante em que nos metemos a pensar, vamos ficando só olhos, ou só testa, ou qualquer outro horror. Olhe para os homens que vencem em qualquer dos ramos do saber. São inteiramente hediondos!(...)

Oscar Wilde

sábado, 9 de maio de 2015

GUSTAV MAHLER - Adagietto From Symphony nº 5


DOS OLHOS DO NÃO

se lhes derem Kennedy ou Kruschev ou De Gaulle 
não acreditem nesta única realidade 
neste implacável colar de conchas de ar

se lhes derem os códigos os gestos as modas 
não acreditem nesta enlatada realidade 
nesta implacável aranha de invisíveis fios

se lhes derem a esperança o progresso a palavra 
não acreditem na imposta realidade 
na implacável engrenagem das hélices de vácuo

aprendam a olhar atrás do espelho 
onde a história jamais penetra 
a profunda história do não registrado 
aprendam a procurar debaixo da pedra 
a estória do sangue evaporado 
a estória do anônimo desastre 
aprendam a perguntar 
por quem construiu a cidade 
por quem cunhou o dinheiro 
por quem mastigou a pólvora do canhão 
para que as sílabas das leis fossem cuspidas 
sobre as cabeças desses condenados ao silêncio


Afonso Henriques Neto

DIA DAS MÃES


OUTROS DIAGNÓSTICOS  


Ao contrário da psicanálise, não pensamos o real como impossível. O real é o mundo. O mundo é isso aí.  Pois não se trata de uma questão do possível ou não. Trata-se de uma questão mundana, terráquea, terrificante. Este é que é o  mundo! Ele é real porque é composto por multiplicidades. Talvez, então, se possa fazer um diagnóstico do real mediante o uso de índices coletivos, aleatórios, rizomáticos. Eles funcionam como linhas de subjetivação fabricadas no cotidiano da vida de todos nós. Assim, ao invés de diagnósticos amarrados à grade cidológica, à verdade tosca da psiquiatria, sugerimos  diagnósticos institucionais, anormais, fora da ordem, formas sociais em fluxos a-significantes rodopiando sem cessar. Na esteira dessa linha, a potência da arte,  potência do falso. Claro que sem o uso de categorias do “bem” ou do “mal”, tais estados de coisas constituem e revelam o caos moderno enquanto dispersão irreversível de valores e conseqüente erosão do sentido. Em que (ou quem) acreditar? Alguns desses diagnósticos: 1- O aumento irrefreável da velocidade dos dias, luas, luares e afazeres; tocar a vida passa a significar o exercício de mergulhos diários em vagas assombrosas e estímulos de toda ordem. 2-A intoxicação (ansiada) por imagens-clichês, impedindo e produzindo  a expressão de si mesmo num emaranhado de signos flutuantes. 3-O automatismo tecnológico gerando e gestando  organismos-zumbis em torno de circuitos não ultrapassáveis; a liberdade aparente. 4-A violência naturalizada e normatizada à espera de motivos banais para se manifestar. Cuidado ao sair à rua, cuidado, cuidado: uma panfobia disseminada. 5- O fim (sem retorno) das utopias socialistas do século XIX, bem como dos ideais humanistas que as alimentavam. 6-O fracasso (doloroso, mas nem sempre admitido) do projeto positivista e salvacionista da ciência. 7- O fim das referências políticas de direita e de esquerda,  dois termos, duas chaves políticas funcionando tão só como alegorias retóricas ou à serviço do eterno cinismo dos poderosos. 8-O poder desenfreado e esfomeado da mídia, produzindo subjetividades dóceis amamentadas na sala, no quarto de dormir, em toda parte. 9-O anacronismo da Escola como produtora de cultura e senso crítico. O analfabetismo político a rigor. 10-A roubalheira instalada na esfera pública, não mais como episódios focais, como desvios, mas como projeto de governo, a lei do vale-tudo. 11-A transformação da figura de Deus em mercadoria santa e/ou moeda de troca lucrativa, espécie humana de empresa divina.12-O modelo da morte operando no coração das práticas do alto astral. Não se deprima, não se deixe abater. Injete auto-ajuda na veia. 13- Os presídios superlotados e o Parlamento vazio nas segundas e sextas-feiras. Braxília para todos. 14-A máquina do Estado macro e micro controlando as vidas privadas, o controle sempre mais ampliado, o controle ampliando-se e impedindo corpos intensos e intensivos de vibrarem por si mesmos. “Não deixarão você experimentar no seu canto”. 15- A promoção de organismos físico-químicos como órgãos e peças da razão consciente e humanitária da Medicina tecnológica.  Silêncio dos inocentes, pacientes do SUS. 16-A nulificação e a despotencialização da sociedade civil enquanto modo de influir no governo. Os sindicatos como cidades fantasmas, cadáveres  gordos, o fim da política, o faz-de-conta convincente, o luto sem remissão substituindo a Luta em estado puro. 17- A desmoralização pública das assim chamadas esquerdas e o Vazio brutal  erguido frente ao buraco negro da Consciência burocrático-estatal. 18-A pobreza ubíqua, oblíqua, escandalosa, tanto material quanto espiritual, intelectual, acompanhando sensibilidades embotadas. 19-O aniquilamento da ética como potência e a sua correlata promoção enquanto poder de matar, corromper, mentir, trapacear, tudo em nome da Família, de Deus, do Estado, da Ciência e dos Direitos Humanos. 20- O abandono da criança como personagem conceitual,  como desejo indomável, como força indomesticável e a sua substituição pelo menino de rua, menino drogado, capitão de areia versus menino bem comportado nas escolas da classe média, nas escolas das classes altas, nas Escola do Bem Amado. 21-A Injustiça justa, a Justiça injusta, o seu funcionamento com passos de formiga. Os condenados da terra, os famélicos alimentados por socialistas de mercado.  22- A forma-universidade como lugar do Conhecimento Imaculado pelos interesses corporativos e eternizados como verdades absolutas. O platonismo revisitado, a competência com ares de arrogância disfarçada. Enfim, a mais-valia acadêmica apoiando a demência generalizada.  23- A miséria das periferias, o grito inaudível das populações do Baixo acessando promessas de esmolas ad eternum. A clivagem das classes sociais como lei da natureza. A infinita decepção com o Deus Todo Poderoso. 24- O cais da Religião, os territórios erguidos em nome do Absoluto, velhas crenças desmoronando sem deixar vestígio. 25-O estilhaçamento  esquizofrênico do tempo e o empreendimento mortífero da busca (imaginária) pela unidade perdida em nome do Um, de Deus, do Conhecimento, da Verdade, do Estado, do Partido,etc.

A.M.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

ETERNO RETORNO

Manifestação de professores na praça da Sé em São Paulo nesta quinta-feira, 07/05/2015

quinta-feira, 7 de maio de 2015

À ESPERA

Foi na França, durante a Segunda Grande Guerra. Um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e, na maior alegria, acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta a casa.

A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.

Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera.

O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias.

Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina, com o focinho sempre voltado para aquela direção.

Lygia Fagundes Telles

quarta-feira, 6 de maio de 2015

CHET BAKER & PAUL DESMOND - Autumn Leaves


A GRANDE MANCHETE

Aproxima-se a hora da manchete. 
O PETRÓLEO ACABOU.
Acabaram as alucinações
os crimes, os romances
as guerras do petróleo.
O mundo fica livre
do pesadelo institucionalizado.

Atiradores ao lixo
motores de combustão interna
e lataria colorida,
o Museu da Sucata exibe
o derradeiro carro carrasco.
Tem etiqueta de remorso:
“Cansei a humanidade”.

Ruas voltam a existir 
para o homem
e as alegrias de estar-junto.
A poluição perdeu
seu aliado fidelíssimo.
A pressa acabou.

Acabou, pessoal! o congestionamento,
o palavrão,
a neurose coletiva.
A morte violenta entre ferragens
com seu véu de óleo
e chamas
acabou.

Milhões de arvores meninas irrompem do asfalto
e da consciência
em carnaval de sol.
Dão sombras grátis
ao papo dos amigos,
à doçura do ócio no intervalo
do batente,
do amor antes aprisionado sob o capô
ou esmigalhado pelas rodas,
â vida de mil formas naturais.
Pessoas, animais,
confraternizam: Milagre!

Dura 5 (?) minutos a festa
da natureza com a cidade.
Irrompem
formas eletrônicas implacáveis,
engenhos teleguiados catapúlticos
de máximo poder ofensivo
e reconquistam o espaço
em que a vida bailava.

Recomeça o problema de viver
na cidade-problema?

De que valeu cantar
o fim da gasolina de alta octanagem?

Enquanto não vem a formidável manchete
vamos curtindo
outras manchetinhas a varejo.
Vamos curtindo
a visão do caos e do extermínio
na rua, na foto,
no sono atormentado:
Mas 400 carros por dia nas pistas
que encolhem, encolhem, são apenas
enfumaçadas fita de rangidos.
Mais loucura, mais palavrão e mais desastre.

E lemos Ralph Nader:
a cada 10 minutos
morre uma pessoa em acidente
de carro; a cada 15 segundos
sai alguém ferido
na pátria industrial dos automóveis.
Vamos imitá-la?
Vamos vencê-la em desafio 
de quem mata mais e morre mais?
Ou vamos ficar apenas
engarrafados sem garrafa
no ar poluído e constelado
de placa, de sinais
que assinalam o grande entupimento?
Perguntas estas são mensagem
também ela espremida na garrafa
que bóia no alto-mar de ondas surdas
e cegas
à espera do futuro que as responda.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 5 de maio de 2015

JOAN MIRÓ


O  FIM  E  O  FIM  DO  DIAGNÓSTICO  PSIQUIÁTRICO  X

Com o fim do diagnóstico psiquiátrico (enquanto instrumento terapêutico), restam os grandes conjuntos síndrômicos a balizarem a clínica. Eles brotam de um real atual atravessado pelo horror dos tempos. A morbidade psícossocial aniquila territórios subjetivos no cotidiano das velocidades caóticas. No caso brasileiro, uma opressão oficial sustentada pela democracia representativa traz à luz a sabotagem do desejo. Este sofre por ser interrompido, por não produzir produzindo e daí estancar em linhas patológicas a erosão crônica do Sentido. Em que acreditar? Nada mais resta exceto arcaísmos religiosos tanto quanto arcaísmos escolares, estatais, familiares, acadêmicos, jurídicos e tantos outros. Chamamos de arcaísmo a organização das transcendências (algo para além da vida, dores imaginárias, fantasmas) que, no caso da psiquiatria, substituem os verdadeiros problemas, espécie de mecanização do pensamento. A entronização e a reificação do cérebro cumprem, pois, a função de imbecilizar modos de subjetivação (a figura do técnico em saúde mental, por ex.) através da fabricação de pseudo-diagnósticos neurológicos (alguém já viu um cérebro funcionando?) voltados à reparação de circuitos lesionados e à venda de códigos científicos. Desse modo, o fim do diagnóstico é correlato ao começo de uma era onde tudo é tecnologia de controle ao gosto das populações consumidoras de ordens implícitas.

A.M.