terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O CORPO É O ESPÍRITO

Em tempos de capitalismo aparentemente vencedor, o apelo a um suposto mundo "espiritual" torna-se um efeito-subjetivo quase inevitável, invencível. Configura almas bem intencionadas. O já conhecido escapismo platônico-cristão retorna com tudo e instiga doutrinas etéreas e práticas sociais, algumas assistencialistas, outras meros objetos de uma retórica oca. Não importa. É preciso tornar a realidade suportável, e enquanto tal fabricar um sentido para a existência, ainda que esse sentido esteja para além da vida. Este é o mote e o mantra que baliza o caminho da verdade nos dias que correm. As esquerdas (sempre elas...) originalmente interessadas em mudar o mundo, são trespassadas por um niilismo sorrateiro e convincente através da simples observação do caos social. A forma-Religião entope o sujeito com o seu cortejo de culpa e ressentimento. Para completar, uma ideia de progresso (científico?) e salvação (cristã?) vem na esteira de tais processos de subjetivação. As igrejas se multiplicam. Secretam uma espécie de droga da sensibilidade. Freiam e mortificam o desejo. Assim, o domínio da chamada espiritualidade se amplia muitíssimo, ao ponto de se poder dizer e sentir que ela fica como a única saída - ainda que ilusória - contra a destrutividade que assola o planeta azul. 

A.M.
Biografia de uma Ideia

ao fascínio do poeta pela palavra
só iguala o da víbora pela sua presa
as idéias são/não são o forte dos poetas
idéias-dentes que mordem e se remordem:
os poemas são o remorso dos códigos e/ou
a poesia é o perfeito vazio absoluto
os poemas são ecos de uma cisterna sem fundo ou
erupções sem lava e ejaculações sem esperma
ou canhões que detonam em silêncio:
as palavras são denotações do nada ou
serpentes que mordem a sua própria cauda


Sebastião Uchoa Leite

BLACK WATER

direção de David Nerlich e Andrew Traucki, Austrália, 2007

QUAL  ESQUERDA?

Começa a haver um consenso sobre a crise da esquerda contemporânea e o seu abandono pelos mais marginalizados, entre eles os trabalhadores não qualificados, os desempregados, os jovens desencantados e os imigrantes. Eles são o mundo da nova pobreza.

O resultado é duplamente dramático, porque a massa dos novos deserdados começa a se refugiar na extrema direita, que roubou da esquerda o discurso anticapitalista. Está ocorrendo na democrática Europa, e existe o perigo de que ocorra também aqui no Brasil.

No espaço de alguns dias, vários intelectuais se manifestaram em concordância com tal análise. Neste mesmo jornal, Víctor Lapuente, doutor em Ciências Políticas da Universidade de Oxford, em seu artigo “O sexo da esquerda”, alertou sobre o risco de que a esquerda contemporânea “deixe de ser vista como representante da sociedade em seu conjunto”.

E nesse conjunto da sociedade vivem, por exemplo, a grande massa dos trabalhadores desqualificados, os últimos na escala da pirâmide social e os milhões que procuram trabalho. Todos eles esquecidos pelos grandes sindicatos.

Allen Berger, catedrático de economia na Universidade da Carolina do Sul, bateu na mesma tecla numa recente entrevista ao jornal O Globo, em que afirma que a esquerda de hoje “perdeu o poder de diálogo com os trabalhadores mais pobres”. Ele alerta que “esse mundo se rebelou” e está sendo “absorvido pela extrema direita”.

No Brasil, em um artigo recente no Estadão, o sociólogo José de Souza Martins, que já lecionou na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, criticava o Partido dos Trabalhadores (PT) por ter traído sua função institucional: “Poderia ter sido o canal de expressão daquela parcela da população que a história condena ao silêncio”.

O problema da esquerda brasileira, começando pelo PT, que constituía sua espinha dorsal, é, de fato, que acabou se aristocratizando, transformando-se no refúgio da classe média alta, dos artistas e intelectuais.

Os sindicatos se burocratizaram e se comprometeram mais com as categorias ricas, como os banqueiros, do que com o exército dos milhões de trabalhadores marginalizados. Deixaram para trás valores como os do mérito e a economia, cuja bandeira hoje é empunhada pela direita.

A esquerda petista escorregou, além disso, para a política da corrupção e dos privilégios. Não foi só o partido que se aburguesou, mas também muitos de seus ativistas, que descobriram o gosto pela vida cômoda dos milionários. E eles representavam a ética.

A esquerda brasileira resgatou milhões de trabalhadores da miséria, mas sem qualificá-los profissionalmente. Formou assim uma massa de novos pobres que hoje, decepcionados e castigados pela crise econômica, voltam seus olhos para a direita e para as igrejas evangélicas conservadoras (exemplos: a periferia pobre de São Paulo, que preferiu votar para prefeito no milionário João Doria, relegando o candidato do PT; e os excluídos das favelas do Rio, que elegeram como prefeito Marcello Crivella, bispo conservador da Igreja Universal, preferindo-o a Marcelo Freixo, candidato do esquerdista PSOL, que era o preferido pelas classes mais altas).

Sabemos, ao mesmo tempo, que a classe de trabalhadores pobre é conservadora. Defende a família e a tradição, por cultura e por instinto de sobrevivência, e vê com bons olhos que a polícia mate os criminosos sem os penduricalhos dos processos judiciais, sob o lema de que “bandido bom é bandido morto”.

Essa massa não se assusta com o fato de ocorrerem no Brasil 60.000 homicídios por ano, um triste recorde mundial, nem que mais de meio milhão de pessoas apodreçam em prisões desumanas, a maioria pobres e negros.

Para essa massa de novos pobres, a polícia e o Exército são seus melhores guardiões. Analisem as redes sociais e vejam como o militar e ultradireitista Jair Bolsonaro, pré-candidato a presidente, que continua defendendo a tortura e a pena de morte, desperta a simpatia de boa parte do mundo dos trabalhadores mais pobres.

Por que a esquerda não foi capaz de convencer essa massa de pobres de que os valores da democracia e da modernidade constituem a maior garantia futura de prosperidade?

Como escreve o sociólogo brasileiro Souza Martins, porque a esquerda “incluiu sem democratizar”.

Não façam, por favor, uma pesquisa sobre a democracia nesse mundo da nova pobreza, pois sofreriam uma grande decepção.

A esquerda toda, e também a brasileira, precisa se reinventar para voltar a ser capaz (se é que ainda é possível) de reconquistar os que foram seu sangue e sua razão de ser: os trabalhadores mais pobres, os mais expostos às aventuras antidemocráticas. Cada época tem os seus. Hoje, o proletariado é outro.

Seria triste e perigoso ver uma transfusão de sangue da massa de trabalhadores marginalizados, ou de jovens desencantados sem futuro, para as veias da extrema direita.

O grande teste da democracia para os brasileiros já está logo aí, na eleição presidencial de 2018. Então veremos qual força política será capaz de conquistar os votos da massa dos novos pobres, hoje desiludidos com a esquerda.

Juan Arias, El País, 09/01/2017,22:05 hs

FORA DE LINHA


AVANÇOS EM NEUROMANIA

Eles podem ser contados nos dedos, e mesmo pouco numerosos estão promovendo um dos maiores avanços científicos dos últimos tempos. Podem ser chamados de criadores de cérebros. Trata-se de um grupo seleto de cientistas que está construindo tecidos cerebrais vivos – ou mini-cérebros – por meio dos quais o mundo começa a conhecer melhor o desenvolvimento neuronal, os processos que estão na origem de doenças como o autismo, a esquizofrenia e a zika e a resposta do organismo à novas drogas contra enfermidades neurológicas.

Os mini-cérebros já se configuram como um recurso que divide a história das pesquisas cerebrais entre antes e depois deles. Até hoje, o estudo das engrenagens em ação no cérebro humano valia-se de análises em tecidos retirados de cadáveres, cobaias ou por meio de exames de imagens. A pequena disponibilidade de opções impõe enorme limitação, principalmente se for considerado o quanto é complexo o funcionamento do órgão.
(...)

Cilene Pereira, Isto É, 06/01/2017, 18:00 hs
O SÓSIA

Dificilmente, ó amigo,
você me encontrará presente, em casa.
Pois eu sofro de ausência,
como se houvesse, em mim, uma asa.

A esperança e a saudade
— o leste e o oeste do meu corpo obscuro —
são duas formas de eu nunca estar em casa,
quando me procuram, e eu mesmo me procuro.

Vivo continuamente longe
de mim, nas horas em que me decomponho
num sonho; estou no outro hemisfério,
que é um não sei onde, onde só ausência lavra.

Só me encontro comigo, ó amigo,
se me divido em dois, diante do espelho
Um em frente do outro,
sem nenhuma palavra.


Cassiano Ricardo


FACÇÕES!


A LIQUIDEZ

(...)
Época – Como conter a ascensão dos neopopulistas e dos neofascistas?

Zygmunt Bauman – Eu não tenho uma receita pronta, nem um atalho. Eu suspeito que nós estejamos passando de uma busca por uma utopia (uma sociedade que ainda não existe em nenhuma lugar) para um retorno a uma "retrotopia" (uma sociedade que não existiu). As presentes gerações estão crescentemente desviando suas esperanças de uma sociedade melhor do futuro para o passado (igualmente imaginário). “Progresso”, que num passado não muito longínquo era associado a uma vida melhor, agora tende a ser associado a mais catástrofes, mais privação e degradação, mais riscos e menos segurança.
(...)

Entrevista à Revista Época, agosto de 2016 (trecho)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Formiga é um ser tão pequeno que não agüenta nem neblina. Bernardo me ensinou: para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil.

Manoel de Barros

POR QUE?


Brasil: um filme pornô com trilha de bossa nova.

Millôr Fernandes
VIAGENS DE MIGUEL

Há o Encontro com uma criança. Como dizê-lo? Miguel é o seu nome; circula livremente nas colinas verdes do meu pensamento. E brilha como um diamante raro. Nada abstrato, já que ele está bem à minha frente (nesse momento) e diz: "pai, o que é a diferença?" Lhe digo que não sei, bem, quer dizer, não sei  lhe responder, já que a diferença rigorosamente não é, ela está, ela vai, ela corre, flui num mundo se fazendo e a se fazer. A diferença é o devir. Tampouco é uma questão de "saber", mas de "sentir". A diferença, Miguel, é o afeto, o desejo em suas mil multiplicidades. Ele não entende bem o que digo e volta a indagar: "mas onde anda a diferença?"Aí a resposta vem imediata:  a diferença está em você, a diferença é você, correndo e escorrendo pelos campos de flores e porões do mundo. Sossegue: por onde você andar os fluxos da diferença extrairão da sua beleza o sentido de viver. E cultivarão a alegria, apesar das brutalidades em volta. Tudo porque você é o amar como acontecimento, o sem retorno, o sem explicação, o sem razão, a poesia.

A.M.

DONALD JOYCE toca Mad Rush de PHILIP GLASS