sábado, 17 de novembro de 2018

Xeque-mate

Quando menos se espera, já são horas.
A dama de espadas perde o gume
e o pássaro pousado vai embora. 

Quando menos se espera, o que se anuncia
não é a sorte grande, a estrela Aldebarã
ou a sagração da primavera.
São tempos de abutre
e o coração, músculo bélico, fraqueja. 

De repente, já é sábado,
há uns assuntos desagradáveis para resolver
e, sobre a pele confusa da alma,
uma densa crosta de óxido e desalento.

Quando menos se espera, o rei está em xeque,
e é dezembro.
Há uma complicação de trânsito
na avenida
uma artéria que não dá passagem.
Quando menos se espera, já é tarde.


Carlos Machado

“O amor é um intenso anseio (desejo e necessidade) de união com o outro.” Assim começa o curso Anatomia do Amor, ministrado anualmente na Faculdade de Psicologia da Universidade Autônoma de Madri. “O amor, e não o sexo como se acredita, é o autêntico mecanismo de sobrevivência da espécie: as crias morreriam sem o cuidado conjunto do pai e da mãe durante seus primeiros anos de vida”, afirma Manuel de Juan Espinosa, o catedrático de Psicologia que dirige o curso, para explicar que esse sublime sentimento é a força mais potente que move o mundo.
O argumento de Espinosa não difere muito do que, talvez com mais cinismo, sustentava Schopenhauer em sua Metafísica do Amor Sexual, em que o filósofo deu um rumo biologicista à filosofia ao afirmar que o amor não era senão um álibi do sexo para perpetuar a espécie. Dois séculos depois daquele escândalo, os cientistas já não questionam a teoria psicobiológica do amor, que se desdobra em três fases equivalentes ao ciclo reprodutivo:
(...) El País, 13/11/2018, 18:00 hs

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

UMA APOSTA TRÁGICA

Quando se fala em "diferença" é importante marcar que não se trata da identidade, ou seja, de ter uma "identidade", de ser diferente. É que a diferença é outra coisa e remete a dois elementos vivenciais. 1- Ao devir, à passagem do tempo, irreversível, ao dado real de que a vida é agora e sem retorno. 2- À multiplicidade, da qual ninguém é só uma coisa, uma unidade, uma forma instituída. Ao contrário, trata-se de uma expressão (múltipla) da existência. É uma aposta, a aposta. Gilles Deleuze inspira tal mundo de linhas incertas e perigosas.

A.M.
Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogio

Manoel de Barros

Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas.
(...)

Lygia Fagundes Telles

terça-feira, 13 de novembro de 2018

CARYBÉ


MUROS INVISÍVEIS
(...)
Hoje, mais perigosos do que os muros físicos são os muros invisíveis que dividem as classes sociais, que separam os privilegiados do asfalto das periferias dos excluídos, os que possuem tudo daqueles que não têm um mínimo para viver com dignidade. São também os muros invisíveis que se tentam levantar, por exemplo, nas escolas e universidades entre alunos e professores. Já não se trata da antiga luta de classes que separava os trabalhadores dos patrões, e sim da que divide uma sociedade onde estão desaparecendo os limites entre liberdade e barbárie, entre grosseria e cultura, entre quem não abre mão de pensar e quem preferiria nos impor um pensamento único.
(...)

Juan Arias, El País, 11/11/2018, 09:41 hs

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A caça insubmissa

Nada possuis do outro
nem corpo nem asa
nem mesmo o sopro
morno da palavra

teu é apenas o perfume
de carne e cedro
que aspiras na pele
da caça insubmissa

nada é teu: dorme
e inventa no sonho
outra forma de laço
caça sem caçador


Carlos Machado

marcos valle & stacey kent (passa por mim)

SAÚDE, BRASIL

O recepcionista Renato Guber foi informado pelo Sistema Único de Saúde (Sus) que terá que esperar 33 anos para realizar um exame de ressonância magnética. O caso aconteceu em Palhoça, na Grande Florianópolis. De acordo com o sistema, 1.080 pessoas estão na frente dele e a espera pode durar 12.150 dias.

Atualmente, Guber tem 38 anos e pelo prazo dado, só fará o exame quando estiver com 71 anos. Em março de 2017 ele descobriu que tem uma fístula perianal. A doença forma uma ferida no final do intestino e provoca dor e sangramento. Dependendo da gravidade, só uma cirurgia poderia resolver o problema.

"Fiquei naquela de ir para posto de saúde, voltar para UPA para ver a situação, se tinha melhorado. Fui mandado até para a policlínica do Continente, solicitando uma cirurgia e depois de quatro meses nessa angústia, me mandaram de volta para o posto de saúde, com a autorização para encaminhar ao Hospital autorizado para fazer e a unidade me disse que não poderia fazer por falta de anestesista e me colocaram numa fila de espera".
(...)

Por G1, SC, 12/11/2012, atualizado há 7 hs
Na vida, o importante é fracassar.

Nelson Rodrigues

domingo, 11 de novembro de 2018

Storm, by Stijn Celis for GöteborgsOperans Danskompani

Libação

É do nascedouro da vida a grandeza. É da sua natureza a fartura a proliferação
os cromossomiais encontros, os brotos os processos caules, os processos sementes
os processos troncos, os processos flores, são suas mais finas dores
As conseqüências cachos, as conseqüências leite, as conseqüências folhas
as conseqüências frutos, são suas cores mais belas 
É da substância do átomo
ser partível produtivo ativo e gerador 
Tudo é no seu âmago e início,
patrício da riqueza, solstício da realeza 
É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la 
com nossos minúsculos gestos ratos
nossos fatos apinhados de pequenezas,
cabe a nós enchê-la, cheio que é o seu princípio
Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido do estado potencial de futuro
Peço ao ano- novo
aos deuses do calendário
aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra da vaidade "minha" desumana sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar nos amesquinha

A vida não tem ensaio
mas tem novas chances
Viva a burilação eterna, a possibilidade: 
o esmeril dos dissabores! 
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente

e a virgindade dos dias que virão!


Elisa Lucinda