Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
domingo, 3 de maio de 2020
A INSÂNIA
Aglomerados em meio à Esplanada dos Ministérios e em frente ao Congresso Nacional e ao Palácio do Planalto, um grupo de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) faz, neste momento, um protesto contra ministros do STF —principalmente Alexandre de Moraes e Dias Toffoli— e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM). Além disso, pedem o fim do isolamento social como forma de conter o coronavírus.
"Não apoiamos Doria, Maia, Witzel e Moro. Queremos trabalhar". disse um dos apoiadores em um carro de som.
Eles receberam um aceno do presidente Jair Bolsonaro, que desceu parte da rampa do Palácio do Planalto e realizou uma live. Ele disse que não vai mais admitir interferência. "Nós queremos uma independência verdadeira dos Três Poderes. Não vamos admitir interferência", disse. De mãos dadas com a filha caçula, Laura, o presidente chegou descer a rampa para acenar aos manifestantes.
O Brasil registrou cerca de 96 mil casos de covid-19 e deve chegar hoje a mais de 100 mil pessoas contaminadas, com mais de 7.500 pessoas mortas. É dia de sol e calor em Brasília. Nas calçadas, ambulantes vendem bandeiras do Brasil. Muitas pessoas também circulam a pé e de bicicleta pela área.
Parte dos manifestantes passaram a madrugada acampados ao lado do Palácio do Alvorada. Uma carreata pedindo o fim do isolamento social provocado pela quarentena também percorreu as ruas da capital federal na manhã deste domingo. Dentro de centenas de carros, gritam palavras de ordem contra o presidente da Câmara dos Deputados e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Entre as faixas colocadas pelos manifestantes, estavam "O ministro Alexandre de Moraes está tramando um golpe?", "O senhor não manda nesse país. Não aceitamos mais isso. O seu inquérito das fake news é fake, é inconstitucional" e "Fora Maia, fora STF. Esse é o recado do Rio Grande do Sul".
(...)
Antonio Temóteo, do UOL, em Brasília. 03/05/2020, 12:05 hs
sábado, 2 de maio de 2020
Anônimo
Onde você estava no dia onze de agosto de mil
[novecentos e trinta e quatro?
No Natal de setenta e sete,
no inverno de mil duzentos e treze?
Onde você se encontrava na madrugada do dia
[vinte para o próximo dia,
primeiro de janeiro do ano passado,
primavera de sessenta e nove
do século quarto?
Onde você passava quando já era tarde
e ninguém te chamava
naquela noite dos anos dourados?
Quando tudo acontecia e sumia sem deixar
[rastros, por onde você andava
Bruno Brum
sexta-feira, 1 de maio de 2020
SEM CORPO, SEM AFETO
A psiquiatria produz o corpo-organismo, tomando-o como base da propedêutica clínica: o que fazer com (do) o paciente ? Este organismo tem uma forma que lhe autentica a “natureza” do humano, algo que interage com o mundo fabricando a chamada subjetividade. A inscrição do mecanicismo no funcionamento do organismo é estabelecida pelas relações entre os sistemas (renal, endócrino, nervoso, cárdio-circulatório, etc) que supostamente “antecedem” a realidade do mundo. Portanto, quando em psiquiatria se fala em desejo é em nome de sentimentos humanos que constituem o “estar vivo”. A equação sentimento=alma=espírito é dada como natural, ultrapassando a animalidade em prol de uma espécie de divinização do humano através da instituição da Consciência. “Só o homem tem uma alma”. Desse modo, o que se chama “organismo” é automaticamente ligado à “consciência” como lugar da verdade. Tal percurso conceitual (invisível, pois está encravado em práticas institucionais) une a ausência de corpo à ausência de desejo. Uma psiquiatria sem corpo e sem desejo. Como isso é possivel?Como isso funciona?
A.M.
A HORA SE APROXIMA
Em meio à escalada da pandemia do novo coronavírus, a crise política no Brasil se acirra. Em entrevista à revista Veja, publicada nesta sexta-feira, o ex-ministro da Justiça Sergio Moro afirma que apresentará provas de que o presidente Jair Bolsonaro tentou interferir na Polícia Federal ao promover a troca no comando da corporação. Moro afirma ainda que, desde o início da gestão, o presidente dava sinais de que o combate à corrupção não seria prioridade no Governo. Na noite de quinta-feira, o ministro Celso de Mello, do STF, reduziu de 60 para apenas cinco dias o prazo para o depoimento do ex-ministro sobre as acusações ao presidente. O país registrou 435 óbitos em 24 horas e o número de mortes chegou a 5.901 nesta quinta-feira. Pelo mundo, a pandemia levou Nova York a uma medida inédita: a interrupção diária da circulação do metrô para limpeza e desinfecção contra a covid-19.
(...)
El País, São Paulo, Brasília, Madri, 01/05/2020, 17:23 hs
Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino
Manuel Bandeira
O verdadeiro Amor como qualquer outra droga forte que cause dependência, não tem graça. Assim que a fase do encontro e descoberta se encerra, os beijos se tornam surrados e as carícias cansativas... exceto, é claro, para aqueles que compartilham os beijos, que dão e recebem as carícias enquanto cada som e cada cor do mundo parecem se aprofundar e brilhar em volta deles.Como acontece com qualquer outra droga forte, o primeiro amor verdadeiro só é realmente interessante para aqueles que se tornam seus prisioneiros. E como acontece com qualquer outra droga forte que cause dependência, o primeiro amor verdadeiro é perigoso. Os que estão sob o domínio de uma droga forte - heroína, erva-do-diabo, verdadeiro amor - frequentemente se veem tentando manter um precário equilíbrio entre discrição e êxtase, enquanto avançam na corda bamba de suas vidas. Manter o equilíbrio numa corda bamba é difícil até mesmo no estado mais sóbrio; fazer isso num estado de delírio é praticamente impossível. A longo prazo, é completamente impossível.
Stephen King
NOS EUA
quinta-feira, 30 de abril de 2020
ESCURO E SEM RUMO
A barulhenta troca no comando do Ministério da Saúde agravou as lacunas nas informações públicas importantes sobre a crise do coronavírus e fragilizou a interlocução da pasta com Estados e municípios (responsáveis por executar as estratégias de saúde na ponta). Isso no momento mais sério em que o Brasil elevou a curva de infectados e óbitos, e já caminha para seguir o quadro da Espanha, Itália, ou Estados Unidos. Somente após os primeiros dez dias de gestão de Nelson Teich, o novo ministro começou a se pronunciar mais seguidamente sobre o tema. O ministro e sua equipe apresentaram novos dados em dois detalhados boletins e tentaram aplacar o apagão de informações que se desvela sobre a epidemia no país, mas estão longe de tirar todas as dúvidas. Dois meses depois de detectar o primeiro caso de coronavírus, o Brasil ultrapassou o número de mortos contabilizado oficialmente pela China —já são ao menos 5.466 as vítimas brasileiras—, e pelo segundo dia consecutivo somou nesta quarta-feira mais de 400 óbitos novos à contagem. Números oficiais, sem contar os dados que estão sendo subnotificados. Tudo isso enquanto ainda não tem, por exemplo, um desenho do tamanho real da epidemia que já estressa os sistemas de saúde público em vários Estados.
A projeção do estudo do Imperial College de Londres prevê que o total de mortes chegará perto de 10.000 no Brasil já neste final de semana, e compara a curva do Brasil à dos Estados Unidos, onde já morreram quase 60.000 mortos desde o início da pandemia no final de fevereiro. Enquanto isso, o Governo também não apresenta à sociedade a estrutura de saúde global e atualizada que está em funcionamento e disponível para receber os pacientes mais graves com a doença, que, na falta de um medicamento capaz de curá-los, necessitam de aparelhos específicos para conseguirem respirar até superarem a fase mais aguda da infecção. “Quando vai ser o pico? Não sei e ninguém sabe. Um dos grandes problemas de se definir uma data é que aquela sugestão se transforma em promessa de um dado real. Quando aquilo não acontece, todo mundo começa a se perguntar se a gente não está fazendo algo errado apenas porque não deu certo a data”, disse Teich nesta quarta, numa audiência virtual com senadores. O ministro tem evitado falar em projeções e criticado estudos mundiais sobre o tema, embora tenha admitido nesta semana um “agravamento" da crise.
(...)
Beatriz Jucá e Joana Oliveira, El País, São Paulo, 30/04/2020, 10:39 hs
quarta-feira, 29 de abril de 2020
Os Ombros Suportam o Mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade
A DIFERENÇA NA SAÚDE MENTAL - IV
O conceito de loucura norteia o trajeto da diferença num campo (a clínica) que por natureza é desconcertante. Não tem "norte". A sua densidade existencial é regida e composta pelo caos. Isso não significa a crença em "algo ruim"que estaria como um fantasma assombrando as ações humanas. Ao contrário, o caos constitui a diferença exatamente em função das linhas de multiplicidade a brotarem pelos quatro cantos do mundo. Se a saúde mental prioriza a potência de existir (sua ética mais profunda) ela se acha ligada a uma opção política no nascedouro das práticas. Somente a experiência da loucura, vista como processo a um tempo dilacerante e libertador da alma escrava, torna possível ao técnico em saúde mental evadir-se de si mesmo, sair de si, escapar do medo, dar o fora, em prol do Encontro com o outro, o paciente. A diferença é o puro movimento que impulsiona o encontro para além dos enquadres clínicos demasiado conhecidos. No entanto, sabemos, aí reside o perigo da desestabilização brutal da subjetividade. Contra isso, o trabalho da diferença utiliza critérios de aumento ou diminuição das forças de criação, tanto no paciente quando no técnico que o atende. Uma espécie de "termostato" da potência de criar.
A.M.
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