quarta-feira, 30 de setembro de 2020

A ARTE É ETERNA

Morreu nesta quarta-feira Quino, o cartunista mais internacional e mais traduzido da língua espanhola, e talvez também o mais cativante. Joaquín Salvador Lavado nasceu em 17 de julho de 1932 em Mendoza (Argentina), e tinha 88 anos. Voltara a residir nessa cidade em 2017, cuidado por seus sobrinhos desde que se mudou para lá em novembro de 2017, após a morte de sua esposa, Alicia Colón. O nome de Quino ficará para sempre associado à mais famosa das suas personagens: Mafalda, a garota sábia e respondona.Os pais de Joaquín Lavado eram espanhóis de Fuengirola (Málaga, sul) e emigraram para a Argentina na década de 1930. A humilde família viveu em um círculo algo fechado, a tal ponto que o menino Quino falava em dialeto andaluz até os seis anos.

(...)

Álex Grifelmo, El País, Madri, 30/09/2020, 12:12 hs

ODILON REDON


 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 14

21 DE MAIO DE 2013

Do lado direito de quem entrava no Caps, a área verde se mostrava em contraste com a extensão de um corredor largo cuja geografia era simples. Salas de um lado e do outro erguiam trilhos para um andar reto. Este funcionava silencioso, como se diz, lúcido, pragmático, orientado, e estava bem ali. Fincava no peito ingênuo estacas do limite:  normal/anormal, sanidade/loucura. Isso, claro, era invisível. Notei porque vim depois, e a área verde invadiu (numa visão delirantemente bela) o imaginário da saúde mental. Tal invasão se dava ao custo de viagens clínicas em prontuários sobre a mesa. Intensas e secretas, entre um atendimento e outro, elas eram reais, tão reais como a oficina de arte produzindo uma vida leve e doce. Viajava só e tão só no mesmo lugar de psiquiatra para a equipe. Já era muito. Um consultório no corredor, um corredor como via única para decifrar a loucura daqueles dias. Ou os dias daquela loucura serviam para deslocar o foco da análise? Qual o lugar do novo? Manicômios nunca mais? Difícil responder na medida em que as correntes forçadas do pensar marcavam os passos da razão política vinda de fora. E que se dobravam sobre o serviço na busca da publicidade dos méritos privados. Nessa época, a traição à psiquiatria se fez arte de viver numa linha de fuga impossível. Médico, use o disfarce.

 

A.M.


 Rugido


há quem chame melancolia

o rugido tardio das pedras

dinamitadas contra o peito


mas não há por que dizer

restos de estrondo e pólvora

(as coisas são mais que seus nomes)


a mim fere mais

esse burburinho de pássaro

movendo suas asas finíssimas

intocado pelo tempo


Daniela Delias

ROSINHA DE VALENÇA - Consolação,1966

NA CONTRA-CORRENTE

A psiquiatria é um aparelho de poder filhote e subproduto da medicina, por sua vez uma megamáquína em escala planetária que produz, entre outras coisas, a medicalização da vida social. É preciso sempre mais doentes! Tal medicalização implica, antes de tudo, na fabricação de afetos coletivos"baixos" tais como a reverência à figura do médico, o medo à vida (no que se inclui a doença), a crença acrítica nos métodos e na palavra deificada da medicina, e no caso psiquiátrico, a fobia à loucura e à perda do controle sobre si. Assim, o que está em jogo, nas duas formas sociais citadas, é o empreendimento capitalístico voraz de controle massivo sobre corpos e mentes, aplicado pelas vias e veias do inconsciente-fábrica ( importante: a consciência vigil só recolhe os efeitos imediatos das formas de soberania política) a desejar o modo de vida contemporâneo. Ou seja, o capitalismo não apenas como pauperização econômica "natural" eterna e brutal de milhões de pessoas, mas como capital ("simples" relação social) instalado na alma: a servidão imunda.Tudo isso é invisivelmente explícito na vitrine internética e escancarado aos milhões numa sutil fabricação de indiferença e o ressurgir do leito esplêndido para um dualismo esgotado (esquerda versus direita) como é o caso do Brasil atual. De todo modo, voltando ao início desse texto menor, é possível dizer que a psiquiatria e seus psiquiatrizados, a medicina e seus medicalizados, compõem a superfície encantada do apoliticismo hegemônico e a sua correlata substituição pela tecnologia das virtualidades passivas.


A.M.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Você pode desconfiar de uma admiração, mas não de um ódio. O ódio é sempre sincero.


Millôr Fernandes

domingo, 27 de setembro de 2020

LOUI JOVER


 

 DESAPARECIDA


Ela desapareceu ontem à noite:

Vestia sapatos obscenos

e aparentava a tristeza de um amor sem fim.

Sofre de alguns probleminhas mentais,

consequências de um passado

que não passa mais.

Foi vista pela última vez na noite de ontem,

na porta de sua casa.

Quem souber noti¬¬cias dela,

quem souber seu paradeiro,

por favor não diga nada,

por favor

me deixe em paz



Flávio de Castro

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO -13

16 de março de 2013

No cotidiano do Caps a presença de estagiários de universidades e faculdades era cada vez mais notória.Eles em vinham em bandos, inicialmente acompanhados por professores e/ou supervisores. Só que estes em seguida geralmente  sumiam, reaparecendo meses depois para a conclusão da disciplina do semestre. Eu observava tal ciclo meio que com espanto levando comentários não favoráveis à gerência. Era atingido em cheio quando por exemplo um estagiário certa vez me procurou para pedir um paciente "emprestado". Ou em três ou quatro vezes que me pediram (quem?) para conceder uma entrevista cujo objetivo era compor a monografia de conclusão do curso ou o trabalho respectivo da disciplina. Noutra vez a professora me solicitou educadamente para fazer uma roda de conversa com os seus alunos, o que na verdade, era um eufemismo de aula ou palestra. Uma trapaça que recusei. Como psiquiatra, não dispunha de qualquer controle (nem poderia ) destes fluxos de estagiários e representantes da Academia, circulando pelos corredores de um Caps  já atolado nos seus próprios problemas, inclusive os do espaço físico. Ora, estava claro que a atividade essencial da Academia é a de caráter predatório, fornecendo ao aparelho universitário a vampirização calculada dos serviços onde ela passa.  Sem dúvida o objetivo maior era o da obtenção de títulos de mais valia de prestígio, poder e dinheiro no tráfico do conhecimento imaculado. Isso era repugnante mas no fim das contas infelizmente aceito por todos, eu inclusive. Ressalte-se que a universidade era (ou é?) uma manobra institucional legalmente absorvida (ou até louvada por alguns) em seus efeitos danosos ao serviço. Claro, muito menos para o psiquiatra e demais técnicos  e muito mais para o paciente, considerado e tratado como objeto útil à uma ascenção intelectual e acadêmica consolidada.


A.M


FEMINICÍDIO: MAIS UM

Após envenenar sua esposa, Luiz Edivaldo Fernandes da Silva, de 34 anos, respondeu mensagens de familiares e amigos da vítima se passando por ela. Preso por suspeita de homicídio e feminicídio, ele confessou ter colocado uma substância na comida servida a sua mulher durante um jantar. O filho do casal de três meses também morreu ao ser amamentado pouco depois.

A polícia encontrou os corpos de Josieli Lopes, de 36 anos, e seu bebê na madrugada desta quarta (23) no município de Rio dos Cedros, em Santa Catarina. Os cadáveres foram enterrados em uma zona rural logo após o assassinato no último dia 15, desde quando os dois foram dados como desaparecidos.

A família da vítima procurou as autoridades após desconfiar de mensagens enviadas do celular de Josieli, que não teriam sido escritas por ela. Parentes e amigos relataram que foram bloqueados no aplicativo de conversas. O filho mais velho dela, fruto de outro relacionamento, registrou um boletim de ocorrência três dias depois do crime.

A polícia localizou o aparelho no município de Itajaí, onde Luiz Edivaldo estaria hospedado na casa da irmã. Detido, ele confessou que envenenou o molho da carne enquanto preparava um jantar para a mulher na casa em que viviam na cidade de Itapema. O bebê acabou contaminado ao ser amamentado pela mãe.

Amigos relataram que Josieli foi ameaçada pelo marido, que não aceitava a separação. Dois dias antes do crime, o casal teve uma discussão ríspida, e Luiz Edivaldo deixou a residência. Segundo Clarice de Freitas, irmã da vítima, ela disse após o episódio que estava convicta em se separar e que procuraria um advogado. A decisão teria sido motivada pela descoberta de um relacionamento extraconjugal dele.


Rodrigo Castro, Época, 27/09/2020, 05:00 hs

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

IMPACIENTE

Uma clínica da diferença em psicopatologia trabalha para que o paciente deixe de sê-lo. Importante: não é a busca da melhora, da cura, da readaptação ou inclusão social, da reabilitação profissional ou outros conceitos liberais muito vizinhos entre si. Encarar a diferença, ou melhor, encontrar o paciente enquanto diferença é considerar a priori que ele pode deixar de ser paciente. A utopia de tal assertiva dissolve-se num campo virtual de uma política das multiplicidades.Entretanto, antes que tudo isso pareça obscuro, é preciso dizer que as multiplicidades são o real de uma vida. É hábito arrancá-las do paciente em prol da fabricação subjetiva de corpos-zumbis. Ou como trama poderosa urdida nos intelectos acadêmicos em direção a um encaixotamento da alma com verniz farmacológico. Ou, por fim, e talvez o pior, como objeto de lucro e prestígio para corporações profissionais.

A,M.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Ponto final


O mundo acaba? Talvez sim.

Porém não como supõem

poetas e profetas. Quem 

treme de medo diante dos 

círculos infernais de Dante;

quem teme as trombetas

do Apocalipse; quem geme

de pânico ao pensar nas geenas

e nos seres estrambóticos

de Hieronymus Bosch. Não, 

a ciência é mais sutil e cruel.

Nenhum temor ou tremor

pressupõe o que pode vir

das sinistras conjecturas

dos cosmólogos. Nem água

nem fogo nem horror dantesco.

Colapso universal e absurdo.

O Big Bang ao avesso.

Todas as dimensões contraídas

num ponto único. Ponto

monstruosamente final.


Carlos Machado

EMIL NOLDE