quinta-feira, 31 de março de 2022

AFETOS NÔMADES

Os afetos são o que impulsiona os modos de subjetivação (pessoa). Eles funcionam em dobras e misturas subjetivas de toda ordem, ao ponto de alguém dizer: "não sei o que estou sentindo". São fruto das relações humanas e inumanas. A psiquiatria tecnológica, sob a grosseria semiótica habitual no trato com eles, despreza-os, já que não escuta o paciente, ou só escuta atrás de uma grade nosológica. No entanto, o que importa para uma clínica psicopatológica que enfatize a diferença, é que os afetos são inomináveis, por isso mesmo expressão trágica (não comunicável) e extrema (radical) da condição humana. O acesso à existência do outro só se fará, então, por meio da linguagem da arte e da poesia, mesmo que não sejamos artistas ou poetas. Para "chegar" ao paciente,é preciso um devir-outro , um devir-alma, um devir-alegria e inventar linhas de risco ao conteúdo do desejo. Elas funcionam em expansão incessante ao mundo (como na criança) criando-o como território singular. E leve.


A.M.

My Love is You (Live)

A  ORAÇÃO DO PSICODRAMA


Um Encontro de dois:

olhos nos olhos,

face a face.


E quando estiveres perto,

arrancar-te-ei os olhos e

colocá-los-ei no lugar dos meus;


E arrancarei meus olhos

para colocá-los no lugar dos teus;


Então ver-te-ei com os teus olhos

e tu ver-me-ás com os meus.


Jacob Levy Moreno

terça-feira, 29 de março de 2022

O FIM E O FIM DO DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO - X

Com o fim do diagnóstico psiquiátrico (enquanto instrumento terapêutico), e a colonização da alma, restam os grandes conjuntos síndrômicos a balizar a clínica. Eles surgem de um real atual atravessado pelo horror dos tempos. A morbidade psícossocial aniquila territórios subjetivos no cotidiano das velocidades caóticas. No caso brasileiro, uma opressão oficial, natural, sustentada pela democracia representativa, traz à luz a sabotagem do desejo. Este sofre por ser interrompido, por não produzir produzindo e daí estancar em linhas patológicas a erosão crônica do Sentido. Em que acreditar? Sobram arcaísmos religiosos tanto quanto arcaísmos escolares, estatais, familiares, acadêmicos, jurídicos, políticos. Estaríamos em plena guerra fria? Arcaísmos traduzem a organização das transcendências (algo para além da vida, o culto ao passado, o messianismo populista, a verdade midiática, etc) que, no caso da psiquiatria, substituem os verdadeiros problemas por uma espécie de mecanização do pensamento. A entronização e a reificação do cérebro cumprem a função de imbecilizar modos de subjetivação através da indústria de pseudodiagnósticos cérebro-mentais (alguém já viu um cérebro funcionando?) voltados à reparação de neurocircuitos lesionados e o consumo de axiomas científicos movidos à fé religiosa. Desse modo, o fim do diagnóstico psiquiátrico é correlato ao começo de uma era onde tudo é ou será tecnologia de controle ao gosto das populações consumidoras de ordens implícitas. Uma diferença implantada na psiquiatria implicaria no estilhaçamento dos seus saberes em prol de uma psicopatologia coletiva. Impossível?


A.M

Pabllo Vittar - Problema Seu (I AM PABLLO)

segunda-feira, 28 de março de 2022

DEVIR-CRIANÇA

(...)

Devir-criança é entrar em contado com esta potência que faz novos caminhos, percorre trilhas, explora. Tudo está aqui: capacidade de palmilhar vivências. Tudo para a criança é novo, tudo é como se fosse pela primeira vez. Ela acorda todo o dia e se espanta: “uau! como o isso funciona? O que aquilo faz? Olha aquilo, que legal!” Como já dissemos, os devires são involuções criadoras, é a aliança que acontece quando se entra em zonas de vizinhança e se encontram potências escondidas. Não queremos imitar a criança, mas estar nesta mesma zona, habitar este espaço de potência criativa. Queremos o espanto do devir. A potência do devir-criança está em criar cenários, espaços, singularidades, momentos. A criança é uma mestra das novidades, das histórias, ela tira da cartola tudo que não víamos há um segundo atrás. Vir a ser gaiato.

(...)

Do site "Razão Inadequada"


[Quando vier a primavera,], Alberto Caeiro - Pedro Lamares

A noite

Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta. 


Eduardo Galeano

domingo, 27 de março de 2022

Época de Ouro | Noites cariocas (Jacob do Bandolim) | Instrumental Sesc ...

LINHAS PARA O MÉTODO DA DIFERENÇA EM SAÚDE MENTAL

São elas. 1-Contextualizar o encontro com o paciente: onde? como? quando? com quem? por que? para que? quais as circunstâncias? 2- Considerar os afetos em jogo, incluindo os do paciente e do técnico. Não como um mal-em-si ou bom-em-si, mas como uma positividade, aquilo que move as condutas. Trata-se do desejo. 3- Estabelecer hipóteses diagnósticas conforme a chave semiológica "função versus essência". Fazer prevalecer a função terapêutica. 4- Adotar uma atitude expectante (ao modo fenomenológico) expandindo-a como percepção do imperceptível: a espreita. 5-Percutir os sintomas a partir da vivência que o paciente traz do sintoma. Ou seja, retirar o sintoma da grade biomédica (uma doença) e tratá-lo como modo de existência: "eu sou meu delírio, eu sou minha fobia, etc". 6-Tentar, na medida do possível, inverter com o paciente para além da empatia. Não sentir o que o outro sente (isso é impossível) mas sentir com o outro. Trata-se, enfim, de arriscar um cuidado. O que não é simples, ao contrário. 7- Evitar a auto-identificação em papéis sociais contrários à expressão da diferença, já que eles se nivelam ao de psiquiatra neurobiológico. Não ser, pois, juiz, policial ou sacerdote, entre outros agentes da Ordem. 8-Conectado ao ítem 1, avaliar que forças institucionais fazem o paciente falar uma verdade que não é a dele. Criar condições para ele falar em seu próprio nome. 9- Usar o poder técnico como um contra-poder a favor da expressão do corpo singular. Um exemplo é o do paciente impregnado devido a prescrição equivocada de psicofármacos. A correção deve ser acompanhada de uma explicação técnica ao próprio paciente ou aos familiares. 10-Entender que a subjetividade precede os sintomas ou os diagnósticos à la CID - 10. Ou seja, ninguém é bipolar (uma essência) e sim produzido bipolar. Que tudo é produção, inclusive de doença,  medo,  sofrimento e tédio. 11-Construir uma ética da potência, da alegria no lugar de uma ética destrutiva e do ódio. Tais afetos, conscientes ou não, atravessam e configuram o manejo do cuidado. Cuidado com o cuidado. 12- Trabalhar com a leveza existencial (tornar-se criança sendo adulto) ainda que em meio às situações mais ásperas e dolorosas. 13-Considerar que os poderes estabelecidos da sociedade funcionam e se apoiam na fabricação de crenças num além-mundo. Ao contrário, acreditar nesse mundo e nessa terra como o lugar-do-agora. 


A.M.

Marc Cary - Melancholia

abducción con cumplicidade


 eu trago a palavra

 na ponta da língua

 lambida sugada

 molhada em saliva


se queres sabê-la

beija-me a boca

depois cala o bico

pois isso é segredo

é pacto é acordo

fechado com lacre

entre bruxa e corvo


abracadabra


Líria Porto

sábado, 26 de março de 2022

Chappaquitic Woman

SINAPSES DA ALMA

Os transtornos mentais não explicam nada. Eles é que deveriam ser explicados. Isto significa que a psiquiatria biológica (bem entendido, a psiquiatria hoje hegemônica) funciona com base em entidades clínicas fixas, endurecidas, coisificadas, os chamados transtornos. Munida deste apriorismo metodológico, a pesquisa clínica não avança, não descobre, não cria, não inventa, desconhecendo o que se passa de fato com o paciente (ele não é escutado, ao contrário)  bem como com as causas do seu estado psíquico "alterado". É uma constatação prática, até certo ponto óbvia. Olhe em torno, escute relatos, leia artigos e livros de psiquiatria. É tudo atual. O pensamento está ausente. Há ainda um dado complicador: o enquadre teórico dessa psiquiatria notoriamente conservadora (em termos técnicos, teóricos e políticos) conta com traços de déficit cognitivo. Eles travam o diálogo, o que leva a psiquiatria a buscar ajuda de fora. São as neurociências. Uma teologia científica que segue um cortejo sináptico de importantes descobertas imagéticas. No entanto, tais imagens, feitas para serem vistas no écran, passam a funcionar num regime de visibilidade onipresente, constituindo o próprio universo institucional dessa especialidade: transtornos mentais-recheados-de-imagens, descarnados, desossados, cadáveres gordos. Nada explicam. Deveriam ser explicados.


A.M.

Não entendo o porque das pessoas pensarem sempre no pior e não no mais provável que é pior ainda.


George Carlin