sábado, 31 de janeiro de 2026

ANJO MURITIBANO


sim, uma vez

vi um anjo


nada dos anjos

católicos

gabriéis

armados e vingativos


nada dos anjos

de Rilke

alemães terríveis


meu anjo

sem asa

e sem palavra

não foi visto num castelo

em Duíno

mas numa casa

chã e rasa

em Muritiba


era um anjo

pequenino

morto morto

placidamente morto


estava numa

caixa de sapatos



Carlos Machado

Marcus Miller live at TSF Jazz Chantilly Festival 2025 – ARTE Concert

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O OLHO DA DIFERENÇA  -  1

O olho da diferença remete ao "olhar para a diferença". É um olhar cego:  não vê coisas - formas estáveis - mas fluxos, intensidades, vibrações.

Enxerga só o movimento, linhas invisíveis e dobras da alma. Atravessa o labirinto, lugar dos encontros.

Para isso a camuflagem dos afetos se torna arte, função zen.


A.M.

TIVADAR KOSZTA CSONTVÁRY


 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

 NEGRI E HARDT - O SECURITIZADO


Cada uma das quatro figuras da subjetividade move um afeto principal. O endividado sente-se culpado, o mediatizado está deslumbrado, o representado sempre desinteressado e o securitizado, amedrontado. O medo social generalizado produz o securitizado – sujeitos servis de uma sociedade prisional, que assumem ao mesmo tempo o papel de vigias e vigiados.

Olhe ao redor; veja as grades, os muros, as câmeras, os portões, as trancas, os cadeados, as lanças, os blindados, os cercos de arame farpado. Quando é que nós fomos encarcerados? Por onde passamos deixamos um rastro de medo. Nossa sociedade fareja muito bem o medo, ela vive deste sentimento.

“Passe pela segurança de um aeroporto, e seu corpo e sua bagagem serão lidos oticamente“. Usufrua de qualquer serviço (seja público ou privado) e todos os seus dados serão coletados e armazenados. Adquira algum bem e logo te empurrarão um seguro. “Por que você aceita ser tratado como um presidiário?“.

A questão é que já nem faz mais sentido falar em prisão quando a escola, o trabalho, a vida pública seguem a mesma lógica do sistema carcerário. Estamos todos internados e alistados num “regime difuso de segurança”. Vivemos em guerra pedindo por… paz? Não, vivemos com medo pedindo por mais segurança, muros mais altos, grades de mais alta tensão, arames mais farpados, senhas mais complexas. O securitizado abraça policiais militares em manifestações onde pede intervenção militar, sente seu coração disparar em cada esquina mal iluminada, anda rápido sem olhar para os lados e sempre dá duas voltas na fechadura.

(...)

Rafael  Lauro, do site Razão inadequada, acessado em 29/01/2026

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O CINEMA RESISTE

O TEMPO RASO

A perda da história significa que a imediatidade do presente tem primazia sobre o passado e sobre o futuro. Emerge assim a possibilidade de uma história “presentificada” que se denomina atualidade ou news. Encontra-se aqui a importância considerável da revolução das transmissões e do poder dos media. A história só se faz no presente..

O homem está inscrito nas três dimensões do tempo cronológico, o passado, o presente e o futuro. É evidente que a emancipação do presente – o tempo real ou o tempo mundial – corre o risco de nos fazer perder o passado e o futuro em benefício de uma presentificação, que é uma amputação do volume do tempo. O tempo é volume. Ele não é somente espaço-tempo no sentido da relatividade. É volume e profundidade de sentido, e a chegada de um tempo mundial único que vem liquidar a multiplicidade dos tempos locais é uma perda considerável da geografia e da história

(...)

Paul Virilio, 2000

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

 Uma Meia-Noite Clara


Esta é a hora, ó alma, do teu voo livre para o indizível,

longe dos livros, longe da arte, o dia apagado, a lição concluída,

tu emergindo plenamente, silenciosa, contemplando, ponderando os temas que mais amas:

a noite, o sono, a morte e as estrelas.


Walt Whitman

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Piano Jazz Suave no Café da Neve

DO QUE SE TRATA

A psicofarmacoterapia é uma opção - muito válida - de tratamento em saúde mental. " Válida" no sentido de atenuar sintomas graves, bem como o de criar condições práticas para a autonomia do paciente.

O que não é válido, ao contrário, invalidante, é quando a psicofarmacoterapia é usada sem critérios diagnósticos precisos e desconsidera o vínculo médico/paciente como base da relação terapêutica.

Não falamos de psicoterapia, mas de psiquiatria clínica. 

Outra psiquiatria, uma psiquiatria menor.


A.M.

domingo, 25 de janeiro de 2026

O Último Azul | Trailer Oficial

PENSAR O DELÍRIO


1 Se a questão da verdade é fundamental no delírio,  todo delírio remete a uma crença ou a um conjunto de crenças (sistema).

2- Na formação subjetiva de cada indivíduo, a primeira crença é a do eu. Quem eu sou?  Tal crença vem de fora. O cérebro, como base empírica da mente, processa as informações que lhe chegam. Sem elas ele não existiria.

3- Assim, a verdade é produzida por signos da família, da religião, da escola, do estado, do exercito, etc...

4- Todo delírio vem de fora; a sua forma de expressão vivencial, social, existencial, clinica, e tantas outras, vai depender das condições empíricas do organismo, incluindo-se nele um órgão singular: o cérebro.

5- Nas práticas sociais, obviamente expressas pela linguagem, é onde o delírio vai se afirmar como discurso e corpo; mais profundamente, o corpo como discurso, pois o corpo já é um discurso.


A.M.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026


Noturno nº 1


Nunca me sinto pobre,

ao contemplar as estrelas.


Qualquer doido

(eu)

possui

o latifúndio do céu.


Aguardente negra e gratuita

a noite me embriaga.


Sonho melhor

acordado.


Cassiano Nunes

Budah - Final Feliz (Púrpura Session)