terça-feira, 30 de junho de 2020

A MEDICINA  CURA?

O termo "cura", conotado à Medicina, não tem expressão prática que lhe autentique credibilidade. Ou seja, "curar" em medicina aplica-se na maior parte dos casos ao espectro vastíssimo das doenças infecto-contagiosas e/ou aos procedimentos cirúrgicos tecnologicamente cada vez mais aperfeiçoados.  Não quer dizer que a medicina seja desimportante ou não ajude, ao contrário. Mas ela não é a Saúde: são dois conceitos que colam um no outro e a separação só ocorre ao concebermos a instituição-Medicina, antes de tudo, como forma social que precede e condiciona as práticas clínicas e/ou cirúrgicas. Desse modo, a medicina que cura pode (ou deveria) ser substituída por uma sociedade "sem cura" pois isso já é a própria cura implicada como condição de vida das populações: educação, saneamento básico, trabalho, salários, gestão competente da coisa pública, habitação, segurança, etc. Outra ética! 

A.M
Ponto morto

A minha primeira mulher
se divorciou do terceiro marido.
A minha segunda mulher
acabou casando com a melhor amiga dela.
A terceira (seria a quarta?)
detesta os filhos do meu primeiro casamento.
Estes, por sua vez, não suportam os filhos
do terceiro casamento da minha primeira mulher.
Confesso que guardo afeto pelas minhas ex-sogras.
Estava sozinho
quando um de meus filhos acenou para mim no meio do engarrafamento.
A memória demorou para engatar seu nome.
Por segundos, a vida parou, em ponto morto.

Augusto Massi







Rehearsal 'FIT' - Alexander Ekman (NDT 2 | Significant Moments)

Se eu me livrasse de meus demônios, perderia meus anjos.

Tennessee Williams
FALTA DE EDUCAÇÃO

Durou pouco a ilusão de que o Ministério da Educação viveria uma fase de normalidade. O governo de Jair Bolsonaro promove no MEC uma revolução nos costumes administrativos. Conseguiu produzir um caso raro de ministro que ganhou as feições de ex-ministro no intervalo entre a publicação do ato de nomeação no diário Oficial e o cancelamento da cerimônia de posse.

Com a piada Velez Rodríguez e o desastre Abraham Weintraub, Bolsonaro fabricou duas crises. Com Carlos Alberto Decotelli, o presidente incorporou ao seu governo uma crise que já veio pronta. O Ministério da Educação vai se consolidando como um laboratório de culinária experimental. Velez e Weintraub fritaram-se na sua própria gordura. Decotelli, com seu currículo fake, já chegou carbonizado.

Os títulos de doutor e pós-doutor que Decotelli dizia possuir eram de vidro e se quebraram. Seu mestrado, sob reexame, está infectado pelo vírus do plágio. O currículo do professor era feito de cinzas. A diferença entre os descalabros anteriores e o atual está no apadrinhamento. Velez e Weintraub traziam na testa a marca de Olavo de Carvalho. Decotelli chegou à mesa de Bolsonaro com o aval da ala militar do Planalto.

Desde que percebeu que Bolsonaro trata com naturalidade a turbulência no setor educacional, o brasileiro vinha se habituando com a presença do descalabro numa área estratégica. Depois do esculacho representado pelo caso do ministro que passou a desfilar sua aparência de ex-ministro pelos corredores de Brasília antes da posse, tudo pode acontecer na Educação, exceto uma surpresa.

Josias de Souza, UOL, 30/06/2020, 16:58 hs

ORQUÍDEAS ETERNAS


ESTUDO CLÍNICO DOS DELÍRIOS - III

Delírios podem surgir em síndromes histéricas. São os chamados quadros de dissociação da consciência. O paciente se mostra mentalmente desorganizado, não conseguindo, por um período de tempo variável, realizar adequadamente tarefas simples. Este dado  é "preenchido" por uma fala delirante que vem acompanhada por alterações da consciência, tais como falso reconhecimento de si e do mundo, alucinação, desorientação temporoespacial,  inquietaçao psicomotora, heteroagressividade, etc. Na histeria dissociativa não existe o "delírio puro", já que este segue o fluxo da consciência dissociada da Realidade na qual o paciente se insere. A duração de tal configuração clínica tende a ser curta (horas) já que, não havendo etiologia orgânica, a consciência se refaz, se reorganiza, a depender, óbvio, das circunstâncias em torno. Há que se destacar que a histeria, ao extravasar o modelo biomédico (o doutor se pergunta "do que se trata?"), costuma produzir um incômodo no profissional médico, levando-o por vezes a um diagnóstico e tratamento completamente equivocados. Por exemplo, um diagnóstico de esquizofrenia (entre outros) pode deixar no paciente não esquizofrênico sequelas indeléveis, mormente se usar psicofármacos anti-psicóticos em doses elevadas. Ou adotar posturas manicomiais e policialescas.

A.M.
Matéria de poesia

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore serve para poesia

Terreno de 10 x 20, sujo de mato — os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima
Cada coisa sem préstimo tem seu lugar
na poesia ou na geral


Manoel de Barros

DEUSA-MÃE


A MAIOR NAÇÃO DO MUNDO

(...)
Todos nós temos sentimentos conflitivos a respeito dos Estados Unidos. Ao longo de toda a nossa vida, os Estados Unidos têm sido uma presença realmente muito forte. Costumo passar uns quatro meses por ano lá, conheço bastante bem o país, e é a primeira vez, vendo como se desenrolam sob Donald Trump, e vendo a catástrofe do coronavírus, que você fica com a impressão de que é um lugar digno de pena. Houve tal implosão das políticas públicas que eles são incapazes de cuidar de seus cidadãos da forma mais básica. Todos os governos cometeram erros, ninguém é perfeito, tampouco a Espanha, mas a negligência deliberada que há no centro dos Estados Unidos neste momento nos dá força para recordar que a maioria das pessoas não votou em Trump. Há certo discurso que sublinha que, já que escolheram Trump, têm o que merecem, mas ninguém merece isto realmente. Essa capacidade de observá-los de fora, com afeto, com admiração pelos melhores aspectos dos Estados Unidos, leva agora à impressão de que o lugar está indo para o buraco. E algo parecido ocorre com o Reino Unido. De maneira sucessiva [Reino Unido e EUA] foram as grandes potências do Ocidente. O lugar do império britânico foi ocupado pelos Estados Unidos, e ambos os países, na crise atual, são incapazes de fazerem aquilo que primeiro se espera de uma nação, que é proteger os seus cidadãos.
(...)

Fintan O´Toole, entrevista a Juan Cruz, El País, 30/06/2020, 16:07 hs
O COMBUSTÍVEL ÓDIO

A lista continua crescendo. Até domingo, mais de 160 empresas, entre elas alguns dos maiores anunciantes do mundo, haviam decidido suspender a publicidade no Facebook em resposta à falta de compromisso da plataforma com o controle das informações tóxicas e do discurso de ódio. O boicote ao Facebook aumentou exponencialmente num único fim de semana, ameaçando o valor da companhia na Bolsa e revelando uma ampla preocupação com o papel que as redes sociais exercerão na atual campanha eleitoral dos Estados Unidos para as eleições presidenciais de 3 de novembro.

A campanha pelo boicote ao Facebook começou em 17 de junho, mas deslanchou na última sexta-feira, quando a Unilever, um dos maiores anunciantes do mundo, decidiu retirar toda sua publicidade da plataforma. Nas horas seguintes, a rede social perdeu a propaganda de empresas como Coca-Cola, Honda, Verizon e Levi Strauss. No domingo, foi a vez da gigante das cafeterias Starbucks, o sexto maior anunciante do Facebook no ano passado.
(...)

Pablo Ximénez de Sandoval, El País, Los Angeles, 29/06/2020, 16:24 hs

TOM ZÉ - Se O Caso É Chorar

segunda-feira, 29 de junho de 2020


ela só me chega
sem imagem
sem rosto
sem nada
e ao mesmo tempo
tão dentro de tudo
tão dentro de mim

A.M.

As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido – conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...

Nietzsche

LOUI JOVER


o país está cercado
pelo riso das hienas
nossas muralhas têm frestas
os mendigos são centenas
de milhares, e os cadáveres
dos homens de vida amena
são jogados nas calçadas
sobre as botas das bebenas
– o que é bebena, Bebel?
– porra, abre o dicionário!
enquanto o rei sem coroa
com sua língua obscena
invoca Deus e o Diabo
como nas velhas novenas
e convoca pro repasto
quem quebrar a quarentena


Fabricio Corsaletti

GILLES DELEUZE

o pensador do acontecimento

TEATRO POÉTICO: SÓ PARA LOUCOS

A linguagem poética constitui um território de significações que escapa às coordenadas da razão. Um sentido a se produzir. Desse modo, a busca de singularidades existenciais é facilitada pela aventura de se ler um poema e implicar-se a ele. O que isso quer dizer? Quer dizer formar e firmar conexões afetivas com um ou muitos pedaços do poema ou do poema como um todo, mesmo sabendo que não há todo. Não há todo porque as multiplicidades heterogêneas do texto nunca fecham um sistema ou tamponam um devir. O processo do desejo é irreversível. Ou seja, sem volta. A poesia é isso: multiplicidades do leitor se ligando a multiplicidades do poema na busca de... uma diferença. Ler um poema não é como ler um ensaio de sociologia, por exemplo, mas sim escutar os versos como se escuta uma música ou se sente no corpo as vibrações das cores de um quadro de Emil Nolde, ou no mesmo corpo e ao mesmo tempo o ritmo de um improviso de jazz, ou uma coreografia de Pina Baush, um gol de bicicleta... Poesia não foi e não é feita para interpretar porque ela já é uma interpretação ou mil, cem mil interpretações da realidade. Ou a própria realidade, a realidade em si-mesma. Quando se está apaixonado (isso deveria ser sempre) a poesia cobre e recobre as superfícies do mundo numa película fina de delicadeza, suavizando os pedregulhos das estradas mais longínquas e inóspitas. Tal como em "Asas do Desejo" (Wim Wenders, 1987), o anjo amante do tempo está transfigurado por avistar a trapezista no seu camarim, não por ele ser um anjo, mas por haver entrado num devir-humano, devir-mundo, devir-risco, devir-perigo, devir-paixão, devir-amar. 

A.M.
A ONDA CONSERVADORA

O presidente ultraconservador da Polônia, Andrzej Duda, venceu neste domingo o primeiro turno da eleição em que busca um novo mandato. Com mais de 99% dos votos apurados, o dirigente, respaldado pelo partido governista Lei e Justiça (PiS), somava 43,7% dos votos, um resultado que o obriga a disputar um segundo turno contra o prefeito centro-direitista de Varsóvia, Rafal Trzaskowski, da Coalizão Cívica (KO), cuja candidatura revirou uma disputa que parecia decidida há poucos meses. O segundo turno da eleição presidencial está marcado para 12 de julho.
(...)

Paula Chouza, El País, 29/06/2020, 09:52 hs

domingo, 28 de junho de 2020

TETTIGONIDAE


HISTÓRIA DAS DEMOLIÇÕES

A história das demolições
a história trágica das demolições
não acontece como no cinema
a vida não tem trilha sonora
as paredes caem silenciosamente
(no máximo a pancada dos martelos)
o chão varrido fica melhor
(o passado não voltará no ladrilho novo)
lembrar o que quer que seja é inútil
as imagens da memória são ruins
o que ficasse em nós seria a esperança
mas o que existe não exige lembrança
o que morreu está definitivamente morto
não há sequer a vontade de chorá-lo
o luto mesmo é impossível


Fabrício Corsaletti

Brazil (Aka Aquarela do Brasil)

O DILEMA PSIQUIÁTRICO

O tema "delírio" atravessa a história da psiquiatria, e, por extensão, da psicopatologia clínica. É que os modos de subjetivação (pacientes) operam segundo dois elementos básicos: crença e afeto. Há sempre algo em que se acreditar e há sempre algo que se sente. Isso conduz ao fato de que compreender (ou aceitar) um delírio só é possível se se considera a produção delirante para além do enfoque biomédico, o qual, por uma questão de método, trata o delírio apenas como sintoma. E se é sintoma, deve ser suprimido. Ora, os modos de subjetivação são um efeito e não causa de discursos múltiplos e experiências inomináveis. Não são sintomas mas realidades "reais" e densas em si mesmas. Desse modo problematizam o conceito de anormalidade mental. Há, pois, narrativas insólitas muitas delas úteis ao paciente como território de sentido e motivo para existir. As crenças (religiosas, culturais, místicas, políticas, ocultistas, filosóficas, antropológicas, conspiracionistas, históricas etc) e os afetos correlatos compõem semióticas irredutíveis à concepção psiquiátrica. Esta, colonizada por um positivismo neurológico cada vez mais atolado na reificação do cérebro, deixa escapar a riqueza e a complexidade de um delírio (uma crença) ou pior, considera doente quem não é. Ou, ao contrário, considera não doente quem é. Pelo visto, a psiquiatria se debate num dilema aparentemente insolúvel. Sabe e não sabe quem é normal.


A.M.
BRASIL LIDERANDO

Seis meses depois de o mundo registrar oficialmente o primeiro caso da Covid-19, o surto ganha a cada dia mais força. Dados publicados neste domingo pela OMS revelam um número inédito de novos casos em 24 horas. No período avaliado pela entidade, foram 189 mil casos extras, com o Brasil liderando as infecções e mortes.

Nesta semana, a agência mundial da Saúde vai marcar os seis meses do primeiro caso informado à entidade, em 31 de dezembro de 2019. Mas a marca será usada para que a cúpula da OMS alerte, nesta segunda-feira, que não há sinais de que a crise esteja perdendo força.

Um apelo será lançado a partir de Genebra para que governos assumam suas responsabilidades, superem divisões internas e estabeleçam acordos mundiais. Também haverá um pedido para que os estados insistam de forma significativa em testes e que medidas de proteção social e distanciamento sejam mantidas.

Para reforçar sua tese, a agência irá insistir sobre os números mais recentes, os piores desde o começo da crise.

Os dados da OMS estão defasados em pelo menos um dia, já que a agência precisa coletar as informações de 193 países para fazer seu mapa mundial. Por isso, de acordo com a entidade, o número oficial de casos ainda é de 9,8 milhões. Para outros bancos de dados, o total já superou a marca de 10 milhões e 500 mil mortos.

Com 46,8 mil casos, o Brasil é o líder mundial em número de novos casos no período de 24 horas. Os americanos vêm em segundo lugar, com 44 mil. Sozinho, o Brasil registrou quase três vezes o número diário da Europa, com 16,5 mil novos casos nas últimas 24 horas. O país, porém, representa apenas 2,3% da população mundial.

O recorde mundial supera outra marca também assustadora, registrada na sexta-feira. Naquele momento, foram 170 mil novos casos.

A OMS alerta que o mundo precisou de dois meses para atingir os primeiros cem mil casos, o que hoje ocorre em praticamente doze horas.

No que se refere ao número de mortes, o período de 24 horas somou 4,6 mil novos óbitos, com 990 deles ocorrendo no Brasil.

Meio ano depois do primeiro alerta oficial da China, em 31 de dezembro de 2019, e meses depois da emergência global declarada pela OMS no final de janeiro, é a situação no Brasil que ocupa em grande parte o centro das atenções nos debates a portas fechadas em Genebra.

Com 200 milhões de habitantes e sem controle, o país é avaliado por parte dos especialistas como uma "ameaça" na luta contra a pandemia, ao lado dos EUA.

De uma forma geral e contando desde os primeiros casos, o Brasil aparece na segunda posição em termos de mortes e casos. Mas, para os especialistas, não é o número acumulado desde o começo da crise que confere uma fotografia mais útil da situação.

Dados oficiais da UE indicam que, nos últimos 30 dias, o Brasil liderou no registro de novos casos, com 875 mil, quase cem mil acima do segundo colocado, os EUA. Em termos de mortes, o país também ocupa o primeiro lugar no último mês, com um total de 30,6 mil.

Nos últimos sete dias, o Brasil ainda lidera o mundo em termos de mortes, segundo os dados da OMS.

Em 14 dias, período de incubação do vírus, o Brasil também ocupa o primeiro lugar. Foram 460 mil casos neste período, 20% de todos os casos no mundo.

Mas não é apenas o número elevado que preocupa. Para as agências internacionais, não existe hoje no Brasil um plano claro de como sair da crise, a fatiga da população sobre a quarentena torna a medida cada vez mais frágil e não há um aumento suficiente no número de testes.

A exclusão do Brasil da lista de países que serão autorizados a voltar a voar para a Europa a partir do dia 1 de julho é apenas um sinal de como o mundo está reagindo. A UE promete apresentar uma nova lista com novos países a cada 15 dias. Mas diplomatas de Bruxelas confirmam à coluna que há uma forte resistência contra uma eventual inclusão do Brasil no futuro imediato.

Jamil   Chade, UOL, 2806/2020, 16:13 hs

WES MONTGOMERY - Round Midnight

Rápido e rasteiro

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.

aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.


Chacal
FALÁCIAS

O senso comum que busca impressões digitais da ditadura militar na área da segurança pública brasileira é marcado por três falácias.

A primeira é a falsa impressão de que o regime foi um período de controle e eficiência, com baixa criminalidade e sem corrupção entre agentes públicos —o que motivaria certa nostalgia de alguns em relação ao período.

A segunda é a atribuição enganosa da origem de todas as mazelas, violências e incapacidades das polícias de hoje aos anos do comando militar.

A terceira é a ilusão de que bastaria a Lei da Anistia e a Constituição de 88 para encerrar as violações da ditadura e levar as instituições do país a aderirem de forma automática aos princípios do Estado democrático de Direito.

O regime autoritário não inventou a tortura, a violência policial ou as execuções extrajudiciais. Não inaugurou corrupção, impunidade nem repressão a movimentos populares.
(...)

Fernando Mena, Folha de S. Paulo, São Paulo, 27/06/2020, 21:00 hs

E quando nos beijávamos...

E eu perdia a respiração e, entre suspiros, perguntava: Em que dia nasceste? E me respondias com voz trêmula: estou nascendo agora...


Mia Couto

sábado, 27 de junho de 2020

Nostalghia(1983)/ Andrei Tarkovsky / BWV853

SER DE ESQUERDA

Num tempo em que a esquerda é demonizada e reduzida a clichês midiáticos, convém partir da vivência de alguém "ser de esquerda". Aqui, no coração do desejo, a ética (como força de viver) torna possível escapar do dualismo direita/esquerda que humilha o pensamento. A partir de G. Deleuze, ser de esquerda implicaria em 1-perceber o mundo começando pelo cosmos, depois a Terra, o continente, o país, a cidade, o bairro, a rua, a casa: um endereço postal; 2- conectar-se com as minorias e não com as maiorias; estas pressupõem um modelo a ser seguido, obedecido;  as outras não tem modelo, e sim processo; algo se move; 3- nunca dizer que se é de esquerda; fugir de uma identidade e entrar num devir-imperceptível.

A.M.
COVID AVANÇA

O governador João Doria (PSDB) anunciou nesta sexta-feira que a capital e outros 14 municípios da região avançaram no plano de retomada da economia e entraram na fase três, a amarela. Isso significa que a cidade de São Paulo, atualmente com quase 12.000 casos confirmados e perto de 7.000 óbitos notificados em decorrência da covid-19, já poderá iniciar a reabertura de bares, restaurantes e salões de beleza, com horário e público reduzidos. Segundo o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), a previsão de reabertura desses segmentos é a partir do dia 6 de julho. O anúncio ocorre no dia em que o Estado de São Paulo bateu o terceiro recorde seguido de novos casos de coronavírus em 24 horas, chegando a 258.508 casos confirmados e 13.966 mortes notificadas, com avanço acelerado pelo interior. O governador também prorrogou a quarentena, iniciada em 24 de março, para 14 de julho.
(...)

Marina Rossi, El País, São Paulo, 26/06/2020, 18:41 hs

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Covid-19 e Ivermectina - Videoaula para médicos

Canção da Estrada Aberta

Ouça-me! Eu vou ser franco com você:
Não ofereço velhos prêmios fáceis, o que ofereço são novos prêmios difíceis.
Eis como hão de ser os dias que lhe podem suceder:
Você não acumulará riquezas, assim chamadas, distribuirá com mão pródiga tudo o que venha a adquirir ou ganhar


Walt Whitman
SEM CONTRÁRIO

Qual o contrário do fascismo? Não há. O fascismo, e mais profundamente, o microfascismo, circula por dentro dos organismos humanos e organizações sociais, mesmo e principalmente as mais celebradas, prestigiadas, respeitadas. A discussão atual sobre o tema funciona como munição verborrágica para a mídia: a de que existiria uma espécie de bem natural no ser humano em contraposição a um mal, ao Mal: belzebu revisitado. Nada mais tão religioso que isso move as sociedades de controle. Pensar o múltiplo e o ingênuo tornou-se uma blasfêmia.

A.M.

JOHN COLTRANE- In A Sentimental Mood

A ZONA OBSCURA

Seis meses após a chegada da pior pandemia do século XXI, persistem importantes dúvidas sobre o nível de proteção das pessoas que superaram a infecção por coronavírus. A maior parte da atenção nesse campo está focada na geração de anticorpos. Essas proteínas são uma das armas que o sistema imunológico usa para bloquear a entrada de vírus nas células do corpo. Mas os anticorpos são apenas uma das muitas maneiras pelas quais o sistema imunológico humano pode derrotar o vírus, e é possível que haja outras maneiras muito mais importantes de responder às perguntas que continuam a assombrar médicos e cientistas: superar a covid-19 nos torna imunes ao vírus? Por quanto tempo? Há pessoas que têm mais imunidade? E se houver dúvidas sobre a imunidade, como isso pode afetar as vacinas? Vários estudos publicados recentemente começam a oferecer respostas para essas perguntas.

Um deles envia uma mensagem preocupante. O trabalho analisou quase 40 pessoas que se apresentaram voluntariamente em um hospital chinês para atender à chamada das autoridades de saúde, que estavam procurando novas cadeias de contágio. Elas não tinham sintomas, mas os testes mostraram que estavam infectadas. Este estudo mostra que as pessoas que não apresentavam sintomas segregavam vírus potencialmente contagiosos por mais dias do que pacientes que adoeciam. O que é mais perturbador no trabalho, publicado na Nature Medicine, é que os níveis de anticorpos contra o vírus nesses pacientes eram mais baixos, caíam rapidamente com o tempo e, passados dois meses, eram indetectáveis. Se voltassem a entrar em contato com o vírus, não mais teriam anticorpos para bloqueá-lo.
(...)

Nuno Domingu.ez, El País,  26/06/2020, 09:27 hs

quinta-feira, 25 de junho de 2020

SOBRE OS AFETOS

Questão técnica : em psiquiatria clínica uma teoria da afetividade é essencial para estabelecer a relação com o paciente. Trata-se de uma análise dos afetos (bons e maus, construtivos e destrutivos) ; isso move a relação de cuidado. Questão ética: ao analisar seus próprios afetos, o psiquiatra se implica no trabalho com o outro como sendo um trabalho consigo mesmo. Questão política: entre as forças que compõem a relação vertical médico-paciente, é possível fazer um combate contra o poder que é a própria luta (invisível) pela saúde. Questão estética: na medida em que o psiquiatra é afetado pelo outro, torna-se um criador de formas de sensibilidade clínica até então atrofiadas pela medicina. Uma arte.

A.M. 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Taxi Driver - Music Video - New York City in 1976

Argumento

 Mas se todos fazem


Francisco Alvim
DESEJAR 

“(..)Queríamos dizer uma coisa bem simples. Tínhamos uma grande ambição, a saber, que até esse livro ( O Anti-Edipo), quando se faz um livro é porque se pretende dizer algo novo. Achávamos que as pessoas antes de nós não tinham entendido bem o que era o desejo, ou seja, fazíamos nossa tarefa de filósofo, pretendíamos propor um novo conceito de desejo. As pessoas, quando não fazem filosofia, não devem crer que é um conceito muito abstrato, ao contrário, ele remete a coisas bem simples, concretas. Veremos isso. Não há conceito filosófico que não remeta a determinações não filosóficas, é simples, é bem concreto. Queríamos dizer a coisa mais simples do mundo: que até agora vocês falaram abstratamente do desejo, pois extraem um objeto que é, supostamente, objeto de seu desejo. Então podem dizer: desejo uma mulher, desejo partir, viajar, desejo isso e aquilo. E nós dizíamos algo realmente simples: vocês nunca desejam alguém ou algo, desejam sempre um conjunto. Não é complicado. Nossa questão era: qual é a natureza das relações entre elementos para que haja desejo, para que eles se tornem desejáveis? Quero dizer, não desejo uma mulher, tenho vergonha de dizer uma coisa dessas. Proust disse, e é bonito em Proust: não desejo uma mulher, desejo também uma paisagem envolta nessa mulher, paisagem que posso não conhecer, que pressinto e enquanto não tiver desenrolado a paisagem que a envolve, não ficarei contente, ou seja, meu desejo não terminará, ficará insatisfeito. Aqui considero um conjunto com dois termos, mulher, paisagem, mas é algo bem diferente. Quando uma mulher diz: desejo um vestido, desejo tal vestido, tal chemisier, é evidente que não deseja tal vestido em abstrato. Ela o deseja em um contexto de vida dela, que ela vai organizar o desejo em relação não apenas com uma paisagem, mas com pessoas que são suas amigas, ou que não são suas amigas, com sua profissão, etc. Nunca desejo algo sozinho, desejo bem mais, também não desejo um conjunto, desejo em um conjunto. Podemos voltar, são fatos, ao que dizíamos há pouco sobre o álcool, beber. Beber nunca quis dizer: desejo beber e pronto. Quer dizer: ou desejo beber sozinho, trabalhando, ou beber sozinho, repousando, ou ir encontrar os amigos para beber, ir a um certo bar. Não há desejo que não corra para um agenciamento. O desejo sempre foi, para mim, se procuro o termo abstrato que corresponde a desejo, diria: é construtivismo. Desejar é construir um agenciamento, construir um conjunto, conjunto de uma saia, de um raio de sol…"

G.Deleuze in O Abecedário

VIZINHOS DE CELA


AGONIA YANOMAMI

Três mulheres vivem um horror para o qual será preciso inventar um nome. Elas são Sanöma, um grupo da etnia Yanomami, e sua aldeia, Auaris, fica no que os brancos chamam de Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela. Elas não compreendem a ideia de fronteira, para elas a terra é uma só —e não tem cercas. Elas não falam português, elas falam a sua língua. Em maio, essas mulheres e seus bebês foram levados para Boa Vista, capital de Roraima, com suspeitas de pneumonia. Nos hospitais, as crianças teriam sido contaminadas por covid-19. E lá morreram. E então seus pequenos corpos desapareceram, possivelmente enterrados no cemitério da cidade. Duas das mães estão com covid-19, amontoadas na Casa de Saúde Indígena (CASAI), abarrotada de doentes. Lá, corroídas pelo vírus, elas imploram pelos seus bebês.

Com a ajuda de várias pessoas, uma delas conseguiu me enviar uma mensagem, gravada, em Sanöma. Ela conta o que vive. E diz: “Sofri para ter essa criança. E estou sofrendo. Meu povo está sofrendo. Preciso levar o corpo do meu filho para a aldeia. Não posso voltar sem o corpo do meu filho”. Eu escuto a mensagem antes da tradução. Não entendo as palavras. Mas compreendo o horror. A linguagem universal daquela que está sendo arrancada do mundo dos humanos.

Ser arrancada de uma aldeia no interior da floresta amazônica porque seu filho tem sintomas de uma doença, a pneumonia, transmitida pelos primeiros brancos que dizimaram parte da população Yanomami, no século passado, é uma violência. Passar deste mundo para o espaço de um hospital, e de um hospital superlotado por conta da covid-19, é outra violência. Ter seu bebê contaminado por uma segunda doença, quando estava ali para ser curado da primeira, que ainda era uma hipótese, é mais uma violência.
(...)

Eliane Brum, El País, 24/06/2020, 10:02 hs
As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.

Friedrich Nietzsche

terça-feira, 23 de junho de 2020

Rehearsal 'Woke up Blind' - Marco Goecke (NDT 1 | Somos)

A VACINA DE OXFORD

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Fundação Lemann confirmaram nesta segunda-feira (22) que começaram os testes em São Paulo da vacina ChAdOx1 nCoV-19, liderada globalmente pela Universidade de Oxford, no Reino Unido.

A vacina é uma das 141 candidatas cadastradas na Organização Mundial de Saúde (OMS) e está entre as 13 que já estão em fase clínica de testes em humanos no mundo.

Os testes da vacina em São Paulo começaram na sexta-feira (19) e prosseguiram nesta segunda-feira(22), segundo o Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) da Unifesp, que coordena a aplicação da vacina em São Paulo.

Informações da Universidade de Oxford apontam que pelo menos 5 mil profissionais da saúde participarão das testagens no Rio de Janeiro e em São Paulo.

A Unifesp afirma que, na capital paulista, o Hospital São Paulo está responsável pela análise do perfil dos profissionais de saúde aptos a receberem o teste da vacina.

Em nota, a Fundação Lemann, que é uma das financiadoras do projeto no Brasil, celebrou o início dos testes no país e disse que ainda há um longo caminho a ser percorrido até que resultados positivos sejam conhecidos.
(...)

Por Rodrigo Rodrigues, Mariana Timóteo e Viviane Sousa, G1 SP e GloboNews São Paulo, 22/06/2020, atualizado há seis horas

segunda-feira, 22 de junho de 2020

o espírito da coisa
a carne do espírito
o cerne da coisa
a carne da coisa
a coisa do espírito

litros de sangue
corredeiras  e  enchentes

A.M.

sábado, 20 de junho de 2020

DYLAN FOR EVER

Bob Dylan (Minnesota, 79 anos) chegou à última etapa de sua vida com a força e a lucidez necessárias para oferecer uma nova e importante revisão sobre si mesmo e os Estados Unidos. Rough and Rowdy Ways, seu primeiro disco com canções inéditas em oito anos, é um álbum duplo que, além de conter a composição mais longa de sua carreira (Murder Most Foul) e outro bom punhado de estampas impressionistas sob os preceitos da música que definiu, surge como uma espécie de testamento pessoal. Um mostruário em que, lançado com a rudeza de um som envelhecido e a poética de seu autor, desenrola-se como um canto à sua vida e à de seu país, indissolúveis um do outro desde que o criador de The Times They Are a-Changin’ empunhou um violão imprevisível e esquivo, Dylan compôs suas próprias Folhas de Relva (Iluminuras), o grande relato com o qual o poeta Walt Whitman cantou à Nova América.
(...)

Fernando Navarro, El País, Madri, 20/06/2020, 15:16 hs
PSIQUIATRIA NO CAPS

Num território clínico encharcado pelo uso generalizado de psicofármacos, como fazer a diferença? O próprio paciente quer fármacos, pede isso, mais e mais, naturalizando a função de psiquiatra como a de “passador de remédios”. Mas não só o paciente. “Todos” pedem mais remédios químicos para, entre outros objetivos, manter a ordem no serviço e no mundo. Trata-se de um legado do antigo manicômio que se mantém atuante como necessidade de haver um psiquiatra. São argumentos variados a favor de: 1-clínicos: as psicoses (ou bordelines) são consideradas como as patologias mentais mais graves; por isso, só um psiquiatra estaria capacitado para tratá-las, pelos menos num primeiro instante; 2-morais: os transtornos mentais levam os seus portadores a condutas socialmente inadequadas, às vezes violentas; o psiquiatra deve ser chamado; 3-jurídicos: o psiquiatra é médico e esse dado implica num poder jurídico estabelecido, o que o diferencia dos demais técnicos; 4-institucionais: a relação de poder psiquiatra-paciente fornece o modelo de atendimento que se reproduz como verdade da clínica. 5- políticos: o estado necessita da psiquiatria para manter um funcionamento ótimo das suas práticas e enunciados na gestão da coisa pública: a racionalidade como modelo. Ora, se pretendemos outro tipo de trabalho, a função-psiquiatra deve ser estilhaçada, fragmentada, relativizada, esquizofrenizada, e é desse modo que se torna possível outra psiquiatria. A escuta do paciente e o movimento dialógico até os demais técnicos. Linhas desejantes fazem surgir um trabalho singular e criador: outra ética. Do contrário, o nada da melancolia será o destino.

A.M.

"VERTIGO" Main Title / Scene de' Amour (live) music by BERNARD HERRMANN

QUE PAÍS É ESSE?

Angela Ro Ro pediu ajuda aos seguidores no Instagram nesta sexta-feira (19): "Estou passando dificuldade financeira", ela escreveu.

"Já tentei vender barato uma live, mas ninguém se interessa", ela acrescentou no post.

Angela Ro Ro completou 70 anos de idade em 2019. Ela fez uma turnê que comemorou os 40 anos do seu marcante disco de estreia. O Blog do Mauro Ferreira falou sobre a turnê e sua carreira - leia.

Ângela Ro Ro postou o número de sua conta bancária e disse aos seguidores: "Quem puder depoisitar apenas R$ 10, agradeço".

Por G1, 19/06/2020, 17:56 hs

sexta-feira, 19 de junho de 2020

A caça insubmissa

Nada possuis do outro
nem corpo nem asa
nem mesmo o sopro
morno da palavra

teu é apenas o perfume
de carne e cedro
que aspiras na pele
da caça insubmissa

nada é teu: dorme
e inventa no sonho
outra forma de laço
caça sem caçador


Carlos Machado

PUS E SANGUE

O cerco fechou para o presidente Jair Bolsonaro. Fabrício Queiroz é a chave para o passado nebuloso da sua família, uma bola de boliche capaz de fazer strike em seu Governo. Atinge desde a primeira-dama Michele Bolsonaro, brindada com um cheque de 24.000 reais de Queiroz, até as ramificações milicianas dos Bolsonaro, que estão na mira das investigações no Rio de Janeiro. De cara, o presidente se desmoralizou por completo quando Queiroz foi descoberto no sítio do advogado Frederick Wassef, de estreita relação da família Bolsonaro. Na posse do ministro Fabio Faria, da Comunicação nesta quarta, lá estava Wassef. Seu trânsito pelo Palácio do Planalto ou Alvorada era constante. Ele, o primeiro a defender o presidente de acusações, escondia Queiroz há um ano. Tudo nas barbas de seus ministros militares, que erguem a bandeira da lei e da ordem do Brasil.

Bolsonaro procurou ocultar seu passado quando assumiu o Governo. Queiroz foi exonerado do gabinete de Flavio no dia 15 de outubro de 2018, a duas semanas do segundo turno da eleição, quando Bolsonaro seria confirmado presidente. Sabe-se hoje, a partir do depoimento do empresário Paulo Marinho, que os Bolsonaro souberam antecipadamente que Queiroz era alvo de escrutínio da Justiça. Um delegado simpatizante do então candidato ultradireita vazou a um emissário de Flavio os rumos das investigações sobre rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio.
(...)

Carla Jiménez, El País, 18/06/2020, 19:34 hs

quinta-feira, 18 de junho de 2020

SEM  CORPO,  SEM  AFETO

A psiquiatria produz o corpo-organismo, tomando-o como base da propedêutica clínica: o que fazer com (do) o paciente ? Este organismo tem uma forma que lhe autentica a “natureza” do humano, algo que interage com o mundo fabricando a chamada subjetividade. A inscrição do mecanicismo no funcionamento do organismo é estabelecida pelas relações entre os sistemas (renal, endócrino, nervoso, cárdio-circulatório, etc) que supostamente “antecedem” a realidade do mundo. Portanto, quando em psiquiatria se fala em desejo é em nome de sentimentos humanos que constituem o “estar vivo”. A equação sentimento=alma=espírito é dada como natural, ultrapassando a animalidade em prol de uma espécie de divinização do humano através da instituição da Consciência. “Só o homem tem uma alma”. Desse modo, o que se chama “organismo” é automaticamente ligado à “consciência” como lugar da verdade. Tal percurso conceitual (invisível, pois está encravado em práticas institucionais) une a ausência de corpo à ausência de desejo. Uma psiquiatria sem corpo e sem desejo é possível? Como isso funciona?
A psiquiatria funciona não funcionando. Tal paradoxo operacional compreende alianças institucionais poderosas. Citemos 5: a família, a escola, o direito, o estado e a polícia. Há outras...  Usamo-las como referência à produção de um organismo-verdade ajustado aos funcionamentos de manutenção fisiológica e bioquímica que lhe dizem respeito. “Não funcionar” significa estar sem corpo e sem afeto e ao mesmo tempo produzir organismos centrados na consciência. O filho, o aluno, o réu, o cidadão e o bandido (respectivos ás instituições nomeadas acima)  oferecem um organismo e uma consciência como suportes de verdade à psiquiatria esvaziada de conceitos, mas prenhe de poderes. É que ela  se insinua e se inscreve num campo social capturado pelo capital semiótico hegemônico (significância) e só funciona graças a esses suportes (territórios) expressos no visível (organismo) e no dizível (consciência). Buscamos outra coisa: criar síndromes psiquiátricas a partir da razão clínica mais direta: um estado selvagem ao olhar ético-estético.  Uma psiquiatria da diferença ou a diferença na psiquiatria.

A.M.

terça-feira, 16 de junho de 2020

O BICHO

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


Manuel Bandeira
PIORANDO

A pandemia do coronavírus trouxe fortes reflexos para o mercado de trabalho brasileiro no mês de maio. Cerca de 17,7 milhões de pessoas não procuraram emprego na última semana do mês passado por receio de contrair a covid-19 ou por falta de vagas ―o que também pode estar ligado à crise sanitária, que já deixou mais de 45.000 mortos no país. Outras 10,9 milhões estavam desempregadas e, mesmo procurando, não conseguiram uma ocupação. Com isso, o país alcançou a marca de 28,6 milhões de pessoas que queriam um emprego, mas enfrentaram dificuldades para conseguir uma colocação no mercado. Os dados são os primeiros resultados da PNAD Covid-19 divulgada nesta terça-feira, 16, pelo IBGE. O levantamento é uma versão da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) realizada com apoio do Ministério da Saúde, para identificar os impactos da pandemia no mercado de trabalho e quantificar as pessoas com sintomas associados à síndrome gripal.
(...)

Heloisa Mendonça, El País, São Paulo, 16/06/2020, 19:42 hs

JOÃO BOSCO - Rio de Janeiro

PRÁTICAS DE GARIMPO

Em psicopatologia clínica a pesquisa dos afetos é essencial. É através deles que se dá o Encontro com o paciente segundo um critério ético. E não nos referimos a uma suposta "ética pura" atributo de um bom encontro, o que seria talvez uma espécie de elevação moral. Nada mais equívoco. Consideramos a ética como constitutiva da natureza das condutas. Sempre há uma ética, mesmo, por exemplo, a dos criminosos, facínoras, corruptos, etc. Desse modo a ética precede a técnica e as linhas práticas da clínica são produzidas no próprio território movediço dos afetos. Tal modo de pensar retira a psicopatologia do campo dos moralismos e a coloca numa dimensão trágica, ou seja, em contato direto com a crueza do dado psicopatológico. Tal crueza compõe-se de afetos estranhos, inumanos e inomináveis. É aí então onde começa o trabalho de garimpagem da diferença...no meio do caos do mundo.

A.M.

ABEL SALAZAR


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Guia prático dos sofredores anônimos

Hoje nós vamos sofrer.
Só por hoje vamos sofrer.
Sofrer tudo de uma vez.
Tudo o que há para sofrer.
Vamos sofrer calados.
Vamos sofrer cantando.
Tudo de uma só vez.
Do jeito que der para sofrer.
Sem ressalvas.
Sem reservas.
Sem esquemas.
Sofrer apenas.
Sofrer de olhos abertos.
Sofrer sem sentir pena.
Toda dor será bem-vinda.
Abriremos as feridas.
Toda chaga, toda mágoa.
Só por hoje vamos sofrer.
Sem saber onde.
Sem saber como.
Sem nem querer saber.
Sofrer de braços abertos.
Até não mais poder.
Sofrer sem dizer nada.
Tudo o que há para sofrer.


Bruno Brum

domingo, 14 de junho de 2020

Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele.

Gilles Deleuze

sexta-feira, 12 de junho de 2020

A DIFERENÇA NA SAÚDE MENTAL - VIII

Conforme a diferença, o diagnóstico psiquiátrico é funcional e não essencial. Isto significa dizer que a pergunta-chave passa a ser: a quem ou para que serve tal diagnóstico? Ora, a psiquiatria tem ao seu dispor um manancial extensíssimo de diagnósticos. Eles compõem um sistema de registro de sintomas. Objetivam um controle sobre os corpos e as mentes. Tudo, claro, com respaldo jurídico e institucional.  Por outro lado, a diferença em saúde mental vai na contra-corrente. Não que traga uma verdade pronta para se opor à verdade da psiquiatria. Nada seria mais tosco. Ao contrario, a diferença não usa o conceito de verdade, e sim o de criação. Neste sentido a prática da diferença em psicopatologia se caracteriza pelo ato de experimentar o novo, inventar, arriscar. Adota o critério da ética pela vida e da estética dos corpos em relação. Em outros termos, a diferença na psicopatologia é a clinica da diferença! Ai a potência de cuidar do outro (e de si mesmo) se traduz numa ética de viver. E que o Encontro com o outro (não só a pessoa do paciente, mas o mundo) expresse um estilo singular de captar signos (mesmo os terríveis) e transformá-los em arte. A diferença é uma produção de arte.

A.M.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

OS ANJOS

Os anjos descobrem
a vulva
no mesmo instante

em que sabem
do pénis:

com
as pernas ligeiramente
abertas
e desviando as asas

São raríssimas as
asas
que não partem dos seios

a florir nos
ombros

Como um manso púbis
com os seus veios
de sombra

E o anjo
debaixo
ficou a acariciar o pénis
do anjo que voava
por cima

de manso procurando
o fundo
da vagina


Maria Tereza Horta


terça-feira, 9 de junho de 2020

Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros. Há no ser humano, e ainda nos melhores, uma série de ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las.

Nelson Rodrigues

GRAVÍSSIMO

O mexicano Julio Berdegué (Mazatlán, 1957) faz contas e se mostra preocupado. “A América Latina e o Caribe representam 8,5% da população mundial e temos 17% dos contagiados oficiais [pela covid-19] em 2 de junho. Dos mortos, quase 14%. Os números são superiores ao que gostaríamos de ver”, afirma o subdiretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), com sede em Santiago. Em conversa por telefone —pois a capital chilena está sob quarentena total desde 15 de maio—, Berdegué avalia que “as consequências econômicas e sociais, com foco na alimentação, são muito graves”
(...)

Rocío Montes, El País, Santiago, 09/06/2020, 10:04 hs

segunda-feira, 8 de junho de 2020

CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - IV

Como F. Guattari previu, vivemos tempos esquizofrênicos. Isso faz retirar do conceito de Capitalismo Mundial Integrado (Guattari, 1982) elementos teóricos contingentes e necessários a uma análise institucional. A produção social (econômica) estendeu-se à produção subjetiva (semiótica) como matéria prima, ou, como diz Foucault,  biopoder. A vida passa a ser produzida, e com ela, tudo que parece imitá-la. Antigos códigos sociais (por ex., na Idade Média, o código teológico) cedem lugar à auto-dissolução numa espécie de esquizofrenização generalizada do corpo social (socius). Não há mais eu, mesmo que pareça. Há, sim, um eu voltado às logísticas de manutenção do cotidiano. É possível olhar em torno: o cenário de dissolução do Sentido é devastador. Indagações da alma ("estarei vivo?") atracam-se no território do corpo-imagem. Assim, pensar para além da simples cognição da realidade só se torna possível mediante a representação dessa realidade e não com e através dela. A realidade "real", o corpo das intensidade mundanas, cede a sua vez, seu número e seu lugar à teatralidade de um mundo em decomposição. Notícias de toda a parte chegam instantâneas. Registram as  linhas subjetivas do consumidor (orgulhoso) de ordens implícitas. Sem saber, é o desejo encalacrado nas dobras da alma: o capital.

A.M.

domingo, 7 de junho de 2020

Brasília, hoje

PROFISSIONAIS DA SAÚDE FALANDO

Um protesto de médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde "contra as ações de desmonte da Saúde durante a pandemia e a escalada autoritária de Jair Bolsonaro" foi realizado, na manhã deste domingo (7), em frente à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O ato chegou a fechar duas faixas da avenida Doutor Arnaldo, na zona Oeste da capital paulista.

"É um basta. Percebemos que o silêncio ajuda nessa escalada. Não dá para se omitir em um momento em que a democracia está sendo constantemente atacada e o Ministério da Saúde desmontado. Mais do que isso: estamos vendo uma política higienista do governo", afirmou à coluna Lívia Ciaramello Vieira, médica residente de psiquiatria da USP e uma das organizadoras do ato.
(...)

Leonardo Sakamoto, UOL, 07/06/2020, 12:27 hs