quarta-feira, 30 de novembro de 2011

CHAPLIN - Tempos modernos

PENSAMENTO COMPLEXO

Os psicofármacos  muito avançaram em termos de tecnologia científica. Contudo, há , no mínimo,dois dados a serem considerados: 1- os psicofármacos só produzem   efeitos   sobre o sintoma, sempre o sintoma, nada mais  do que sobre o sintoma ; 2-os mecanismos de ação dos psicofármacos que    ainda não foram devidamente compreendidos;  portanto, achatar toda a complexidade das  interações psico-neuro-químicas  à " recaptação de serotonina", por exemplo,  ou outros enunciados menos simplórios, é um atentado à inteligência da metodologia científica. Em todo caso, os problemas  não estão aí, não estão na esfera da  ciência, mas na  da política. Ma, e o que a doença do paciente tem a  ver com a política? O que?

Antonio Moura

ILYA PRIGOGINE - entrevista de 1997 (1ª parte)

SOBRE A CLÍNICA DA DIFERENÇA

Voltemos à rostidade. O paciente  é vestido  pela moral (o eu-consciência) e pela química (o  cérebro). Passa a ser   um produto-organismo   disponível para  ser tratado, consertado, adaptado, normalizado. É o   trabalho (duro)  do psiquiatra na linha de frente.  Há,  porém,  outras  linhas   que  chamamos de devires. Elas não  fabricam  o paciente, mas as condições para alguém deixar de ser paciente. Tal perspectiva inclui o   psiquiatra  em    outra   concepção de  doença. Destacamos: 1-O paciente não  é um individuo, e sim uma multiplicidade;    é  irredutível  ao  eu e    à  consciência,  mas    plugado  no   coletivo. É   do  mundo,  é  o mundo.    2- Na entrevista, a sua fala chega misturada a   falas  não verbais  (semióticas);  mil   falas    estão    presentes   em   uma  fala.  3- A  inteligibilidade  do  discurso  está inscrita na  Vivência, e não  o contrário; 4- O uso    prévio  e  exclusivo   de  fármacos  -  por  aparelhos  de medicar  -   produz um rosto-clichê  que  enevoa  a percepção  clínica; 5- Antes de “ser”  um diagnóstico, o paciente é um processo afetivo; pode estar abortado, mas  é um processo;  6- O delírio (se  houver) e o  comportamento   estão   submetidos ao  contexto  onde ele  vive.  Como então, funcionam essas  linhas? (...)

Antonio Moura 

terça-feira, 29 de novembro de 2011

GRANDE BADEN

LIDAR COM O CAOS

Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo, idéias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras , que também não dominamos (...)

G. Deleuze e F. Guattari - do livro O que é a filosofia?

CHICO ANÍSIO - 1969

TUDO É POLÍTICA

Reconhecer uma dimensão politica constitutiva das ciências é, antes de tudo, compreender por que o conflito entre as ciências, é, antes de tudo, compreender por que o conflito entre as ciências e seus intérpretes é previsível assim que esses últimos comecem a julgar, ou seja relativizar, a distinção entre ciência e não-ciência. Os cientistas, ao longo de sua história, mostraram-se notavelmente intolerantes, ou mesmo indiferentes, para com os meios utilizados por seus intérpretes para dar conta desta distinção. Eles mesmos adiantaram a esse respeito toda  sorte de interpretações, do positivismo puro à busca mística (...)

Isabelle Stengers in A invenção política das ciências

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

AGUIRRE, A CÓLERA DOS DEUSES - Herzog


O QUE É SAÚDE?

A saúde não é assunto só da medicina, muito menos   a saúde mental. Não é possível   falar de  uma  saúde mental oficial. Não há decreto para o conceito, porque não  há o conceito e  sim conceitos   criados sob  contingências  sociais e políticas. O conceito  oficial  de  saúde mental é  uma   instituição, modelo abstrato de intervir sobre o outro, o paciente. A saúde mental   deixa  de   ser um processo para se tornar  um aparelho.   Daí, trabalhar  a  partir  da experiência do paciente, mormente na psicose, requer  do técnico  ir     “além”  desse aparelho.   Este     não dá conta da complexidade das  crenças e  dos  afetos. Usamos a loucura como uma espécie  de  não-conceito,  campo de intensidades   fluidas. Ele  segue o fluxo dos devires, empurra e isola   a saúde mental para  o campo da repetição serial do   diagnóstico. Enfim,  libera um espaço de  criação  e  redefine o propósito de encontrar o paciente e não o  de examiná-lo.  Sabemos  que  isso   é difícil  pois a  saúde mental opera num regime binário de significação: normais  ou  doentes.  É uma marca de  poder.  Conta  com dispositivos reducionistas  para    chegar  ao paciente. Entre  eles, o   exame psíquico.  Este    enquadra  a expressão do outro  como doença,  patologia,  síndrome, transtorno, tanto faz (...)


Antonio Moura

PRA QUE?

ARTE E CLÍNICA

A criação e o sexo, portanto, nos remetem a um "outro plano" - tentativa de aproximação deste "outro plano" tem marcado a obra de Deleuze e Guattari e tem recebido várias denominações: plano de imanência, virtual, inconsciente, caos...
As trajetórias contemporâneas no campo das artes plásticas envolvem principalmente a recusa ou a problematização da representação. O estudo da arte contemporânea é elucidativo para o estudo da subjetividade contemporânea, já que coloca questões que atravessam os dois campos problemáticos. Assim, algumas experimentações no campo da arte podem ser transmitidas à clínica, entendida enquanto prática também experimental(...)

Cristina Rauter - in Subjetividade, arte & clínica

O ENIGMA DE KASPAR HAUSER (início)

domingo, 27 de novembro de 2011

CORPO  SEM ÓRGÃOS

Cada vez que o desejo é traído, amaldiçoado, arrancado de  seu campo de imanência, é porque há um padre por ali. O padre lançou a tríplice maldição sobre o desejo: a da lei negativa, a da regra extrínseca, a do ideal transcendente (...)

G. Deleuze e F. Guattari - do livro Mil platôs

AOS NOSSOS FILHOS E CARTOMANTE - Ivan Lins

JOGAR CONVERSA FORA




- Como você vê hoje a situação do Brasil?
- De que ponto de vista?


-Bem, sobre a Educação...
-Mal-educada.


-Resposta seca... e a Saúde?
-Doente grave.


- Você  é azedo, hein?
- Não sou. São os fatos.


-Mas é como você interpreta os fatos...
-Não interpreto. Eles é que me fazem assim...


-Assim como?
-Um brasileiro.


-Não entendi.
-É pra isso mesmo...


-Você é louco?
-Ainda não.


-Procure um psiquiatra; ainda pode evitar a loucura...
-Eu sou psiquiatra.


-Ah, é?
-Sim...sou...


-Não parece...
-Ufa!







A PRODUÇÃO DE ARTE É IRREVERSÍVEL



O   Encontro  é antes  de  tudo uma produção  do  desejo  de  arte. Ou  melhor, o desejo como arte precede     a  técnica.  Mas, o que  é  a arte?  Qual  o significado  da  experiência  da arte   nesse percurso conceitual?  Também   poderíamos  perguntar: como fazer  arte? A arte é um estilo  como   também     um exílio, um dom,  uma potência  de   viver fora das normas prévias, inclusive   as  da linguagem verbal.Neste  sentido, a   clínica  dos  transtornos  mentais ,  sob o atual   paradigma (neuro-científico),  nunca esteve  tão  distante  da  subjetividade do paciente.  O  paciente  como subjetividade é  um processo composto  por  linhas  singulares que  se  misturam  umas  às outras. O sistema  global  dessas linhas  compreende  o que  se  chama  de organismo, mais  precisamente organismo  visível. A medicina tecnológica  referenda  essa  concepção exercitando a prova  dos  nove   da  patologia ao fazer   “ ver” a doença  ou   até   mesmo ver   a  “ sua causa” como nos  exames  por  imagem, nas  cifras  de exames  de laboratório, etc. São  realidades clínicas  úteis  sem dúvida, mas que   esbarram  diante de  linhas subjetivas abstratas, daí,  sem formas (...) 


Antonio Moura

SEM TíTULO

sábado, 26 de novembro de 2011

O CÉREBRO-PET

A neurociência costuma reificar o cérebro. Eis a origem dos erros relativos aos estudos  neurocerebrais sobre a subjetividade. Óbvio que esta não é uma coisa, tampouco uma coisa mecânica. No entanto, mantida  tal  premissa, estão justificadas  manipulações/coerções  sobre o comportamento humano: uma política do controle da alma cientificamente respaldada.  Quem contesta?

Antonio  Moura

GLASS - Mishima

CLÍNICA

Partimos do coletivo  interiorizado em subjetivações. Desse modo,   somos  todos multiplicidades expressando   maneiras  de   ser. Crenças, crenças, de  onde  vieram tantas?   O cérebro  é uma crença. Diga  em que você acredita. Talvez no remédio para o seu mal,  no seu próprio mal, ou em você próprio. Enfim, as  crenças, tão frágeis, tão poderosas, norteiam e fazem consistir  o real. Entre  elas o delírio  insinua-se como tecido de sustentação para um  eu franzino. No entanto, é preciso  viver. A psiquiatria  não quer isso. Ela  só quer  sobreviver  às  custas da reprodução de uma  dependência  abjeta  aos  seus  remédios. São tratores da mente. Desconsideram   a  finura existencial dos  espíritos  livres. Anseiam por um mundo   clean. Ao contrário, há remédios não cadastrados  que impulsionam  a mente  para um desmentido  radical. O corpo “essencial” é  invisível e não capturável pelos  ardis  da  tecno-medicina. O coletivo é a abstração concretizada na carne, onde  vasos, nervos, ossos e vísceras contém o infinito. Chame a  aurora no lugar  do médico. Confesse ao sol no lugar  do psiquiatra. Brinque com a lua  no lugar do hipnótico. Dá certo (...)

Antonio Moura
COMO FAZER?  (2)

Fazer a diferença em psicopatologia é buscar  uma ética imanente à prática clínica. Sem modelos.  Ou seja,  substituir  a  velha ética idealista, acadêmica, bolorenta,  pela criação de  uma  ética  como potência de viver e agir. Espinosa  pulsa...em todos nós.

Antonio Moura

Amy and Tony

POESIA DO DIA

O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum
convém se vestir roupa de trapo.

Há que se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.

Ninguém é pai de um poema sem morrer.


Manoel de Barros




POR QUE?

DEVIRES NO ESCREVER

É possível que escrever esteja em uma relação essencial com as linhas de fuga. Escrever é traçar linhas de fuga, que não são imaginárias, que se é forçado a seguir, porque a escritura nos engaja nelas, na realidade, nos embarca nela. Escrever é tornar-se, mas não é de modo alguma tornar-se escritor. É tornar-se outra coisa. Um escritor de profisssão pode ser julgado segundo seu passado ou segundo seu futuro, segundo seu futuro pessoal ou segundo a posteridade ("serei compreendido dentro de dois anos, dentro de cem anos", etc). Bem diferentes são os devires contidos na escritura quando ela não se alia a palavras de ordem estabelecidas, mas traça linhas de fuga.

G. Deleuze e C. Parnet - do livro  Diálogos

SANTANA E ROB THOMAS

AS DEPRESSÕES: duas falas

Paciente 1- 19, homem, classe média alta, estudante de engenharia civil; havia tentado suicídio uma vez; tentou cortar o pulso; foi atendido em emergência e se salvou; perguntado sobre a tentativa, respondeu não ver sentido em nada no mundo atual;  na presença da genitora,  esta comentou: " meu filho, você não é uma pessoa triste; até que é um rapaz alegre", ao que   respondeu: "sim, eu sou alegre, o mundo é que é triste".

Paciente 2- 45, mulher, com queixa de de "sempre fui pra baixo, meio deprimida; chorava muito";  classe média, emprego com boa remuneração, situação econômica estável,  casada (classifica como "bom" casamento ), relaciona-se muito  bem com duas filhas de um casamento anterior, goza boa saúde física; em geral tem uma  "vida boa e arrumada" ; na segunda entrevista, disse: " tá tudo bem, tá tudo certo com o mundo; o problema sou eu; tem alguma coisa errada comigo".

Comentário: no primeiro caso, o paciente acusa o mundo; no segundo, a  paciente acusa a si mesma; clinicamente poder-se-ia   dizer que o diagnóstico é o de uma  depressão? Mas, afinal,  o problema é o mundo ou o  sujeito? Claro que temos poucos dados anamnésticos para uma discussão; no entanto, queremos tão apenas  pontuar  o nexo irrecusável das depressões com o Mundo, ou , no que dá no mesmo, com a Ordem Socio-Cultural. Que se argumente: todas as patologias "mentais" tem esse nexo, claro. Ora, o caso das depressões se destaca por dois aspectos, no mínimo:1-há um claro aumento da sua morbidade nos tempos atuais; 2-a vivência depressiva incorpora a um só tempo, dados bioquímicos, psicológicos, sociais, culturais, econômicos, religiosos, metafísicos, entre outros... toda uma multiplicidade girando em torno da pergunta: a vida merece ser vivida? Este me parece  o móvel para uma ampla pesquisa (não atrelada a  um bioquimismo tosco) que pode esclarecer alguns enigmas do deprimido na contemporaneidade.

Antonio Moura

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

ENTREVISTA COM FÉLIX GUATTARI - 2

O PODER NÃO FALA, MAS FAZ FALAR

O diagnóstico está  nas  ruas. Há  uma  clínica  das  ruas. Pelo menos, ela  começa  aí.  Ouve-se  dizer: “ ele  é um esquizofrênico” ;  “está maluco” ; “ ele  enlouqueceu” ;  “ não está   bom da  cabeça” ; “ tem um parafuso frouxo”; “ ele  é  meio desmiolado” ; ‘trata-se  de  um caso de psicose  esquizoafetiva”; “ é  um bipolar com traços  histéricos” , etc...; poderíamos  enumerar  centenas de  enunciados que configuram um diagnóstico.  Não importa  que  tais diagnósticos sejam  pouco elaborados, imprecisos. O que  conta é o fato de  que   o  diagnóstico em psiquiatria   é  mais que  um enunciado. É  simultaneamente um ato  que  se  inscreve  no corpo do diagnosticado. Isso tem um efeito sobre a  vida  de alguém. Então, diferentemente da  medicina  somática, o diagnóstico psiquiátrico efetua-se  sobre  o comportamento, e até certo  ponto  chega a  produzir tal  comportamento (...)

Antonio Moura do livro Linhas da diferença em psicopatologia

TODAS AS LOUCURAS SÃO INOCENTES

O CORPO É  A  ALMA

"Eu sou corpo e alma" - assim diz a criança. - E por que não há de se falar como as crianças?" Porém, o que está desperto e atento diz: - Tudo é corpo e nada mais; a alma é simplesmente o nome de qualquer coisa do corpo".

F.  Nietzsche - do livro Assim falava Zaratustra

TRAVOLTA

COMO FAZER?


Fazer a diferença em psicopatologia é ESCUTAR o paciente. Tal escuta nada tem a ver com a escuta psicanalítica, sempre preocupada em  capturar dobras edipianas e sabotar o desejo. Tampouco com a psiquiatria biológica, a que  "escuta" o cérebro. Trata-se de outra escuta, outras escutas, sempre no  plural, radicalmente no plural: o universo das multiplicidades...

Antonio Moura

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

GEORGE BENSON

NÃO AGIR

Não demonizar a  psiquiatria. Não desenvolver com ela uma relação persecutória. Não   fazer uma crítica piedosa, reativa, ressentida.  Não se dobrar ao poder psiquiátrico, nem  tampouco  reproduzi-lo. Não personalizar a crítica,  não   focá-la  no  psiquiatra. Não cair  no jogo das identidades profissionais.  Não se nivelar éticamente, políticamente, estéticamente, clinicamente,   à psiquiatria.  Não falar da psiquiatria, não comentar    nem  mesmo  sobre  a  sua  ignorância  teórica. Sobretudo, não atacá-la, mesmo que ela esteja atacando a Vida e seus devires. 
É que  temos mais o que fazer. Fazer outras coisas,  fazer a Diferença...

Antonio Moura

DESEJAR...

Excerto de auto-entrevista -  julho de 2007

P- A  partir   de  que  autores  você   estrutura  essas  idéias?
R- Haveria   que  citar  muitos  nomes. Contudo, destaco os  que  são, sem  dúvida, essenciais  para  construção    da  base  teórica:  Michel Foucault, Gilles  Deleuze  e Félix  Guattari. Acrescento também  a  contribuição  da  Análise  Institucional (Gregório Baremblitt, entre outros) e o pensamento  de  Jacob  Levi  Moreno, criador  do  psicodrama.
P-O seu  discurso  é contra  a psiquiatria?
R-  De modo  algum. A  psiquiatria  jamais  é  recusada   em sua  contribuição  científica  e tecnológica.  Trata-se de  outra  coisa. Ela é, isto sim, interpelada e  posta  no seu  “devido  lugar”,  submetida  às  injunções sócio-histórico-político-econômicas. Buscamos  retirar  o caráter de essência  intocável do  saber  psiquiátrico e    conectá-lo  com  saberes múltiplos vindo de áreas  heterogêneas. Assim, talvez  seja   possível “oxigenar” as concepções e  as  práticas   psiquiátricas  sobre os  transtornos mentais. Essa  é  a idéia.

Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria

DESEJAR...

LOUCURA DO ACASO

A experiência da loucura é algo lancinante e  intenso:  pulsa incessantemente  e sem perdão. Está no mundo, é o mundo.  Para alguns pode ser destrutiva. Para outros,  não. De todo modo,  há   que  criar   estilos  de prudência ao lidar com fluxos nômades e desterritorializados. É  certo que as saídas  "ser um normal" ou pior, "ser um doente mental",  não são saídas,  mas buracos negros enregelados... Não há fórmulas.  Tente o Acontecimento...  

Antonio Moura

A ILHA DESERTA...

UMA ÉTICA

-Não  admire as pessoas à distância - disse ele - Essa é a maneira mais certa de criar seres mitológicos. Aproxime-se do seu professor, fale com ele, veja como ele é como homem. Faça um teste com ele. Se o comportamento do seu professor for o resultado da sua convicção de que ele é um ser que vai morrer, então tudo o que ele faz, não importa quão estranho seja, deve ser premeditado e final. Se o que ele diz são apenas palavras, ele não vale um vintém (...)

C. Castañeda - do livro O lado ativo do infinito

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

GRUPO CORPO - Mortal loucura

A CIÊNCIA "NEUTRA"

Era idílico, sim. Naquele tempo, lembra-se, você podia ser um cientista sem sentir-se culpado; podia ainda acreditar que estava trabalhando para maior glória de Deus. Hoje em dia não lhe permitem ao menos o conforto de enganar-se a si mesmo. Você é pago pela Marinha e vigiado pelo FBI. Nem por um só momento lhe consentem que esqueça os seus verdadeiros objetivos (...)

A. Huxley - do livro O gênio e a deusa

SEM TÍTULO

O QUE É PENSAR?


O que  se costuma chamar   de “pensamento”  são atividades cognitivas  marcadas pelo uso representativo  do conceito. A representação ( identidade, consciência,  eu, etc)   é pura  Conserva.  A psiquiatria funciona segundo eixos  representativos  evidentes. Tomemos como exemplo o de “especialidade médica”.  Ele neutraliza investidas críticas. Em tempos  de especialismos,   o suposto  saber  representa.   O sonho da representação é  estancar os  devires.    Delirar é um processo cujo combustível é  o desejo-produção.  Ele  explode  os esquemas físico-químicos (que  remédio prescrever?), familiaristas (quem é o culpado?),   dilemas da consciência (ser ou não ser?) ou as  vicissitudes  do  eu( quem sou?). Assim, o pensamento como cognição é muito pobre para se  fazer  chegar à subjetividade dita  patológica. No entanto, a psiquiatria  atual se serve dele  numa Axiomática  conectada ao modo de produção capitalista. É uma  aliança embutida na  fraseologia  do especialismo. Desaparecem as possibilidades de pensar  diferente porque  o pensamento está  dado  como cognição redundante  do  real. A psiquiatria  não mais  se pergunta o que é  o real, de que  real  se  trata.  Gigantesco narcisismo, ela é o próprio real (...)

Antonio Moura

CRONICAMENTE INVIÁVEL - de Sérgio Bianchi

terça-feira, 22 de novembro de 2011

NA ONDA




o tempo hoje  vive
da saudade
                                                 do futuro


horas delicadas
são perdidas
                                                 forever


no entanto
consumir  ilusões
tamponar feridas
metafísicas
narcísicas


continua
                                              dando pro gasto
DESEJO-PRODUÇÃO

A moça e a criança não se tornam, é o próprio devir que é criança ou moça. A criança não se torna adulto, assim como a moça  não se torna mulher; mas a moça é o devir-mulher de cada sexo, como a criança é o devir-jovem de cada idade. Saber envelhecer não é permanecer jovem, é extrair de sua idade as partículas, as velocidades e lentidões, os fluxos que constituem a juventude desta idade. saber amar não é permanecer homem ou mulher, é extrair  de seu sexo as partículas, as velocidades e lentidões, os fluxos, os n  sexos  que constituem a moça desta sexualidade (...)

G. Deleuze e F. Guattari - do livro Mil platôs

O AMOR É FEIO

PENSAR AS DEPRESSÕES


As depressões  sub-clínicas  tem aí um lugar  importante. Escapam da  grade  psicopatológica  clássica  e   se expressam  socialmente   em múltiplos papéis, máscaras  insondáveis. Uma cultura  da  depressão configura  a depressão como  tijolo onde  se  apóiam as  ações  cotidianas  de manutenção do tempo. Corpos encadeados  em séries  familiares, escolares ou médicas. O  organismo  deprimido é  um  corpo que perdeu as   conexões  com o exterior, com o fora, com as  forças  ativas, com  o inconsciente  produtivo, com  o acontecimento, com o Isso.  Significa dizer  que  seus  contornos  seguem os  estratos onde o  desejo  estanca  a    produção de si. Os  estratos   são estabelecidos  pelos  órgãos.  Assim, a  depressão ataca  os  órgãos e  por  extensão  a  organização dos  órgãos.   Se a depressão  pode  ser  considerada  uma  doença no sentido médico, ela  é  uma  doença  dos  órgãos  submetidos a  um  comando central  que  é  do  organismo. Ora, entre  todos  os  órgãos, um está numa  situação especial  em  relação  às forças coletivas. É  o cérebro. Ele  se  coloca  no limite  da  relação  do   homem  com a natureza  que  o  precede. Assim, as  alterações  passíveis  de modificação  mais  rápida  são as  do  cérebro. O campo neuro-químico  ilustra  bem  essa  hipótese. Um paciente  deprimido  tem o cérebro deprimido. O uso de  fármacos nesse  tipo de depressão é aceito e promovido  como  o tratamento mais adequado.  Isso  significa  que  ele ataca  a  depressão  em sua alteração mais objetiva: os  neurotransmissores. O pressuposto epistemológico  é  o de que  “a depressão  é  um problema  no cérebro” e assim deve  ser  corrigida. Outros tratamentos  como a Estimulação Magnética  Transcraniana ou  o antigo ECT obedecem  a lógica do cérebro  avariado  . Ainda  assim, não se  sabe  ao certo  o mecanismo de  ação  desses  dispositivos. Mas  nada  há   de   errado  em trabalhar com os  recursos  disponíveis  para  aliviar  o sofrimento  humano  ou até  mesmo  salvar  vidas  como  nos  casos  de  suicidas potenciais. A questão passa  por  outro registro,  o do  corpo  desejante e por  extensão pelos  modos de subjetivação. As depressões  “biológicas” são  um caso de subjetivação inscrita  nos  estratos  físico-químicos  do organismo. Daí, alguns dados  clínicos  lhe  caracterizam: 1- Os pacientes  tendem  à inibição psicomotora severa,  às  vezes  chegando  à passividade extrema  nos  casos  (raros) de catatonia. 2-O contato em termos de “feeling” do terapeuta  costuma se aproximar  das  psicoses; a antiga  psicose maníaco-depressiva atesta  esse  “parentesco” clínico-etiológico. 3- O desencadeamento dos  episódios  não segue uma lógica  de compreensibilidade da consciência; ou seja, os  sintomas  aprecem muitas  vezes  sob “céu azul”; tudo vai bem e  tudo  vai mal. 4- nos períodos  de remissão  do quadro, a adesão ao  tratamento é  difícil.  Estes  4  dados reforçam a hipótese de  uma depressão com traços  fásicos  e  uma  subjetividade com estilo psicótico. A alternância  com a mania  não é  rara. Parece, pois,   uma  doença   encaixada  no paradigma  médico.  Essa  lógica epistemológica  criou  um modelo  único  para  as  depressões: o bio-médico. Melancolia, depressão endógena, depressão psicótica,  psicose depressiva, transtorno bipolar, depressão recorrente, são nomes para  designar o humor  como uma secreção, a sua  alteração   e a possibilidade  de  influir, com  remédios  químicos,  sobre   a  produção de  serotonina  e  outros  neurotransmissores. Nasce   a depressão entificada, essencializada como doença incurável ou só controlável. Ela  se afirmou   na última década  do século passado como O transtorno   mental. A psiquiatria recolheu os  frutos.  Os neurocientistas contribuíram com sua  parcela de  cientificidade e fé.  Então, o modelo  de depressão da psiquiatria  é  de  cunho biologicista, ainda  que os manuais  considerem o tripé etiológico bio-psico-social ou a  psicoterapia  como coadjuvante  ao  fármaco.  Se  a depressão  é vista como estando  “dentro”  do cérebro, ou   de origem   cerebral, isso  se torna um axioma. Sim, em geral  há melhora  do quadro sintomático, mormente  nas depressões  graves. E  as  outras depressões? (...)

Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria

FRANCIS BACON

O DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO E A CLÍNICA DA DIFERENÇA

Fiel  às  suas  origens embrenhadas  em  relações  de  poder,  a  psiquiatria  consiste  numa  forma  social ou numa  forma  de  relação social que  se  propaga e se  institui   como subjetivação psiquiátrica. Isso atinge    intensamente a todos  os que  estão envolvidos  com a  problemática  do louco, inclusive  o próprio louco, que  passa  a  se  chamar   “psicótico”. É importante  frisar, de  acordo   com a  definição  institucional,   que  não nos  referimos   à  psiquiatria  apenas como organização visível ( o hospital) nem tampouco como dispositivo (o ato médico). Falamos   da   psiquiatria  como  uma  forma  social    tanto mais  abstrata  e  invisível quanto mais  concreta  e  incisiva  nas  suas  práticas  de  subjetivação. Pensar  psiquiatricamente, sentir  psiquiatricamente, perceber  psiquiatricamente,  agir  psiquiatricamente  etc.  Há, pois, uma subjetividade psiquiátrica  que  atravessa  segmentos  não psiquiátricos no campo da  saúde  mental, como é  o caso da   psicologia. A forma-psiquiatria se  faz   na  subjetividade  dos  que  a  ela  servem e/ou apóiam-na,   o que  a  torna difícil de   ser  captada  para  assim  ser  possível  construir modos de  pensar  e  fazer  não psiquiátricos. Isso  é   tão mais difícil na  medida em que o  diagnóstico  é  uma  prática  social conectada a  duas  outras práticas: segregar  e tratar.   São atos. Um não existe  fora  do outro e  sem o outro. Formam alianças   “naturais” , reforçando-se  mutuamente. O objetivo último divide-se em dois: o aparente, segundo o discurso humanista  da  medicina: curar, melhorar, salvar  o paciente das  garras da  doença. O  outro, talvez  inconfessável, diz  respeito  à  manutenção do status  da  psiquiatria  como especialidade  médica, e portanto, como  segmento social importante (...)

Antonio Moura - do livro Linhas da diferença em psicopatologia

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

o cérebro mente
abre-te cérebro!

SÓ   PARA  LUNÁTICOS


DEVIRES

                                                               Antonio  Moura


O paciente vive  entristecido pela Grande Máquina. Sua alegria  foi aniquilada  em plena  vigília.  Do nada.   Ninguém assume  a  autoria dos pequenos  crimes.  Eles   são  administrados em nome da  paz  de espírito.  Ora, o   espírito  também caga.  Avise  aos últimos  palhaços  que  a    arte   foi  solapada em nome do ideal dos   homens  de branco.  Ao que  me consta, nada  mudou no sulco das  bocas. Elas falam rachando dentes.    Mastigam   auroras   nati-mortas.   Mas o   Rosto carrega  uma expressão justa, como negar? A  bondade natural dos  humanos.  Ó Lovecraft,  socorrei! Apenas uma   cidade  respirando um  arco-íris, manda por  favor...  Não falo por  mim. Por  mim, ó... Falo pelo que  não sou, falo  por  devires. Escutai   a  canção   do mundo... Você  dança?  O paciente sucumbe à  Ordem.  Por  favor, o senhor pode  me dizer  as  horas? Já vai  tarde o tempo dos  mestres, com todo  o  respeito.   Sonâmbulos da própria  dor,  como  falar  aos  que  não  falam? A  Grande Máquina é uma   pequena dose de benefícios a  curto e  médio   prazo. Ela  se  insinua na febre dos corredores infectos. Um susto, um sus.  Tudo é  contágio. Resistir à  morte,  querida, e fazer dessa vibração algo novo, será  possível? Talvez um devir-amante   imerso  em trepadas millerianas. Bicho,  perdoa  o jeito canino: o que  é necessário  para  viver por  viver?   Pacientes  são pacientes  demais.  Armaduras químicas, lições de casa, manuais de sobrevivência, coisas  simples, eles   são  normais. Eu queria um gosto de  sol  em você, em suas dores mais  intensas e  irremediáveis. Pena  que  a sombra dos quintais do passado  anuncie sessões de  tortura regadas à dinheiro. A entrega  é  às  oito. Todos estarão  lá, até o  chefe da  Facção Sinistra,  aquele  mesmo que  começou a seduzir  a multidão  com  truques de  falar  macio.  Não   tem jeito. Somos  inocentes radicais.

CHAPLIN

O EU É UMA FICÇÃO

... por meio do pensar é posto o eu; mas até agora se acreditou, como o povo, que no "eu penso" jaz algo de imediatamente certo e que esse "eu" seria a causa dada do pensar, e por analogia com ela todos nós entenderíamos as outras relações causais. Por mais que essa ficção agora possa ser costumeira e indispensável - isso, somente, não prova nada contra o seu caráter fictício: uma crença pode ser condição da vida e, apesar disso, ser falsa.

F. Nietzsche - do livro A vontade de poder

domingo, 20 de novembro de 2011

DEPRESSÕES
                                                        
                                                           Antonio Moura

As  depressões  são  um tema muito  importante nos  tempos  atuais [1].  A  CID-10  inclui a  maior  parte  delas  no  item “transtornos do humor”. Isso nos parece  reducionista em função  do  destaque  conferido ao humor . “O que  é  chamado  de afeto ou humor, na Psiquiatria, é muito mal definido para constituir a base  de uma  categoria  diagnóstica”. [2] Ele  é  posto como função psíquica  passível de mensuração, ou pelo  menos  destacável  em termos  objetivos. Ora, as  depressões  são  bem mais  do que   “transtornos  do humor”, tanto referidas  ao  quadro clínico  quanto  à  origem (etiologia).  A não consideração da  vivência  do paciente é  uma das  raízes do problema. Mas não  só. Há   que  registrar, entre  outros  fatores,   o interesse  da  indústria farmacêutica  nos  quadros    nosológicos  tidos  como de  “alteração  do humor”, já que  este   deve  ser  normalizado  com remédios.  O problema  se  coloca na  própria   avaliação  psicopatológica.  Começa, então,   pela clínica. Desse  modo,  seja  qual for  a    hipótese  etiológica, o Encontro  com o    paciente  é  essencial como condição para uma   atitude  terapêutica (...)


[1] “ A depressão se encontra  hoje em dia  generalizada e quanto mais sobre ela se fala, se escreve e  se pesquisa, tanto mais ela é encontrada nos mais  insuspeitos recônditos de nossa  civilização. O significante é  realmente  criacionista e  o significante depressão  parece ter engendrado o batalhão de sujeitos que  assim qualificam seu estado d ´alma quando  se encontram tristes, desanimados, frustrados,enlutados, anoréxicos, apáticos, desiludidos, entediados, impotentes,angustiados etc.Antes nós não os percebíamos? Onde  se escondiam?” – Quinet, A., Atualidade da depressão e a  dor de existir in Extravios do desejo – depressão e melancolia, A. Q. (org), Rio, Marca  d´Água, 1999, p.87.
[2] Sonenreich, C., Estevão, G. e  Silva Filho, L. de M. A., As depressões in Psiquiatria: propostas, notas, comentários, São Paulo, Lemos, 1999, p.100.

QUE PENA, Jorge

sábado, 19 de novembro de 2011


O que   são vivências?

                              Antonio Moura 



            Usamos o conceito de vivência articulado aos problemas da clínica psicopatológica. Esta  se compõe de linhas do desejo (afetos) e linhas do pensamento (crenças). Assim, o paciente, antes  de tudo,  sente e   acredita. Sua  vivência observada na clínica não é  A vivência, mas uma vivência ou vivências que  se expressam em signos  nem sempre significantes. Tal perspectiva faz do exame  psíquico um Encontro, podendo este ser  bom ou mau  a depender dos afetos e das crenças postos  em jogo. Isso  requer  do técnico entrar em contato muitas  vezes com um mundo que  compreende algo incompreensível à consciência. Afeto e pensamento, desejos e crenças são territórios existenciais que  fazem viver. As vivências  são singularidades. O Incompreensível (“por que  ele  quer morrer”? ou “ele acredita nisso?”, etc) não remete  a uma doença ou transtorno (o  que dá no mesmo), mas antes  a   processos de vida que se expandem em linhas  arriscadas  e concretas. Considerar desse modo as vivências implica  em situar o paciente para  além do eu e  substitui-lo pela vivência não médica, não psicológica, não humanizada. Ele  vive o acaso, o desconhecido e o indeterminado, ainda  que em pedaços e  fora  da consciência. Tudo isso pode  ser intuído na expressão plural dos sintomas. Não há  quadro psicopatológico estável, essencial, natural ou definitivo.Os afetos preenchem as crenças e as crenças  expressam os afetos. Muitos  afetos, bem como muitas  crenças, não são classificáveis, não remetem a um código. Outros prevalecem no perfil de determinada síndrome, até  parecendo ser  exclusivos, como nos caso das depressões. Ora,  o exame  do paciente costuma ser mediado por  subjetivações  psiquiátricas e psicológicas encardidas em seu organismo... A tarefa do Encontro passa  a ser  então trair a semiologia instituída.                               Isso abre  condições de possibilidade para avaliações não centradas no sistema mente/cérebro (conforme a psiquiatria biológica) ou na  consciência  do eu/objeto (conforme  Jaspers). Os afetos  “normais” e  as  crenças  não delirantes misturam-se aos  signos patológicos compondo agenciamentos coletivos nem sempre reconhecíveis. Falar  em afetos é, pois, falar  da  intensidade das vivências. Eles  são  o corpo, não necessariamente o corpo-organismo, mas o corpo-desejo, o corpo sem órgãos. Quanto às crenças, estão inseridas na materialidade dos territórios existenciais. Remetem a um sistema de códigos, por  vezes, particular, como na esquizofrenia (...)

GONZAGUINHA

O QUE AS  CRIANÇAS DIZEM

A criança não pára de dizer o que faz ou tenta fazer: explorar os meios, por trajetos dinâmicos, e traçar o mapa correspondente. Os mapas dos trajetos são essenciais á atividade psíquica. O que o pequeno Hans reivindica é sair do apartamento familiar para passar a noite na vizinha  e regressar na manhã seguinte: o imóvel como meio.Ou então: sair do imóvel para ir ao restaurante encontrar a menininha rica, passando pelo entreposto de cavalos - a rua como meio (...)

G. Deleuze - do livro Crítica e Clínica

WAVE - João

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

ÉTICA DO ENCONTRO

                                               Antonio Moura

Devir é  expandir-se,  diferenciar-se. Não há, contudo, um suporte  institucional para tais  ações.  Elas  arriscam  no  vácuo  o recado   de  uma    novidade  incerta. O paciente  sem   rosto,   a   vida subjetiva  se  mostrando às  micro-sensibilidades   que  circulam entre o  paciente  e  o psiquiatra.  Escutar,  escutar não  sob uma  grade  edipiano-cerebral, mas  à  espreita   do  novo,  do inesperado,  do  indeterminado, do  bizarro. O acontecimento é uma linha de perigo e também a passagem. Examinar um paciente é encontrá-lo  no seu mundo, por mais  longínquo   que  seja.  Isso  exige    tempo,  paciência  e acima  de tudo, ótimas  condições  de trabalho [1].  Uma ética do Encontro precede toda  técnica. A  desnaturalização  do  paciente  é  correlata ao  desaparecimento  do  eu-psiquiatra [2]. Este se torna  outra  coisa à  serviço  da  diferença,  uma  dobra existencial  que  se  desdobra  em  outra,  em outras, em  outros (...) 


[1] Referimo-nos às organizações capsianas,  tanto  à  nível das  condições  materiais  quanto às  salariais.
[2] O  que  não  significa   o desaparecimento  da  psiquiatria...  ao contrário,  falamos de  “outra”  psiquiatria.