sexta-feira, 31 de agosto de 2012

MENSALÃO

O que é isso, Lula?
A IMAGEM DO PROGRESSO É PODEROSA

Não só não constatamos nenhuma relação de causa e efeito entre o crescimento dos recursos tecno-científicos e o desenvolvimento dos processos sociais e culturais, como parece evidente que assistimos a uma degradação irreversível dos operadores tradicionais de regulação social.
(...)
F. Guattari - do livro As três ecologias

PAULO CÉSAR PEREIO E SONIA BRAGA - do filme "Eu te amo"

o brasil dos calmos
dos pregadores da paz
dos anunciadores do milênio
dos idólatras da modernidade

dos educados

afasta de mim
esse  cálice

A.M.
TEATRO DA CRUELDADE


Todo o trabalho do ator repousa sobre uma hipótese que, seja ou não correta, é sempre verificável: a de que a alma é fisiologicamente "um novelo de vibrações" (A.Artaud). Essa hipótese permite ao ator tomar seu corpo como espaço material onde essas forças se desdobram e se produzem; e cabe a ele saber captar e irradiar as vibrações, aprender a refazer seus trajetos e pontos de confluência e dispersão para criar um espectro plástico e infinito, campo magnético que consome e cria formas e imagens. E isso nada tem a ver com o delírio descontrolado.

(...)
Urias C. Arantes - do livro Artaud: teatro e cultura

CIRCO ACROBÁTICO DE PEQUIM

SUBJETIVIDADE A-SUBJETIVA

(..) (...) O  nosso  problema aqui  é  o  conceito  de subjetividade fabricado  em meio a um conjunto de nomes da clínica que a psiquiatria entronizou como sendo “A  clínica dos  transtornos mentais”. Ela começa com as condutas socialmente inadequadas, o que se consuma no diagnóstico (impreciso) de psicose, mas se expande, incluindo até mesmo quadros não psicóticos. Sua ambição é abarcar a gama das condutas  humanas num  sistema classificatório.  É uma clínica estagnada no ponto em que o cérebro  estabelece  limites anátomo-fisiológicos (e estruturais) ao  pesquisador.  Entretanto, como no caso dos afetos. precisamos de uma máquina  teórica que  capte a  velocidade do universo subjetivo,  traga  respostas  do  que se passa  na Vivência. E que não se  reduza às cintilações fisico-químicas do organismo, nem mesmo ao imaginário do eu ou às  regras de conduta na sociedade. Buscamos outra coisa. Para que isso seja possível, é necessário  considerar  o  processo  de produção  desejante  em  situações  concretas.
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

"Não interessa o futuro da revolução. O que interessa é o devir revolucionário."

D./G.

DELEUZE-GUATTARI : conexões


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

PRODUÇÃO DA VERDADE

"O espírito puro é a mentira pura. Enquanto o sacerdote passar por uma classe "superior", o sacerdote, esse negador, esse caluniador da vida por "ofício", não há resposta à pergunta: o que é a verdade? A verdade voltou-se de pernas para o ar, se o consagrado advogado do nada e da negação passa por ser o representante da verdade..."

F. Nietzsche 

FERNANDO DINIZ

POR FIM AO JULGAMENTO

Ao encontrar a loucura, é preciso despersonalizá-la. Significa adotar o viés coletivo na  apreensão semiológica.Tudo é loucura porque o real não é racional. A história da humanidade mostra isso, é isso, dito e feito numa clareza ululante. Desse modo, o mais bizarro dos comportamentos nos constitui e deve ser acolhido sem julgamento... moral. Assim, começa o trabalho de busca pela diferença.

A.M.

ANA CAÑAS - Mandinga Não


SOBRE GRUPOS

(...) (...)Existe a realidade dos grupos submetidos. Ela é relevante...  Pode ser  ao eu  do líder, ao nome  da família, à  imagem do rei, às palavras  do mestre, a certa  filosofia, às  coerções de  uma  organização, à competitividade, à  palavra da mídia, à  ciência,  ao consumo automático, à  arte,  à  revolução, a Deus, ao partido, etc. A lista é praticamente infinita. O que esses dados  heterogêneos  tem em comum é  a função de conduzir   o grupo  em direção a  objetivos  fora  dele. Ou seja, o grupo  só existiria  a partir de algo que  o ultrapassa  como vivência  concreta de  si. Ele ergue uma crença no Imaginário. Este habita o grupo, fabrica uma natureza que o “autoriza” a assumir  uma  “essência”.  Irão aí medrar as  futuras  burocracias e os  micro-fascismos, por  onde  a instituição-Grupo  forma um   refúgio bem sucedido    das   forças coletivas da história, do  tempo e do caos. “Você não é dos  nossos”, “morte ao estrangeiro”, “só entra aqui sendo...” são palavras de ordem que passam a ressoar como formações inconscientes. As pessoas, os  indivíduos, os eus, se encaixam  nesse  grupismo  protetor. O desejo grupal  passa a maquinar corpos em busca de  territórios  estáveis  onde alguém se reconheça. “Eu sou  o  grupo”. Trata-se  de uma subjetividade  padronizada em linhas endurecidas da existência. Como diz  Guattari, um grupo–sujeitado. 
(...)
A.M. do texto Grupos e caos, a ser publicado

quarta-feira, 29 de agosto de 2012


DELÍRIO 

(...) (...)  As crenças existem pró eriçados da razão. O capitalismo universal é a vontade dos néscios da máquina. Todos a servem com prazer. A roda da fortuna premia os corretos. Não tenho mais  referências, exceto às do oceano de sangue verde. Procurei diálogos abertos, francos, verdadeiros,com os representantes das oligarquias do pensamento. Não obtive êxito, pelo contrário. O que me restou  foi  o corpo exposto em linhas  da arte do precipício. A medicina é uma mina de dinheiro. Conversei com médicos  cristãos. Eles até que atenderam as  minhas  preces, desde que não se tocasse no essencial. O essencial é a igreja. Tudo é vendável. Argumentei por vielas escondidas sobre a carne dos anjos. Nada feito. Então me tornei um delírio de igualdade, coisa de sonhos acordados: isso não se usa mais. Abortei a palavra  objetiva  e retornei a pequenas crenças da noite. Ela( a  noite) me abrigou do nada, como se diz: “venha ser um dos nossos”. Quando percebi, era já muito tarde e a aurora se desfazia em cultos trágicos. Disse ao psiquiatra que ele enganara  a todos,  menos à  loucura,  testemunha sem código estável. E morreu aí. Não ele, mas a psiquiatria dos olhos opacos.
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

ARNALDO ANTUNES - 2008

terça-feira, 28 de agosto de 2012

MIL DEPRESSÕES

Na prática clínica, insistimos no dado (facilmente constatável) de que não existe " A depressão", mas síndromes depressivas espalhadas num universo de etiologias e expressões clínicas. Tratar, pois,  o paciente como MULTIPLICIDADE  implica em seguir linhas de potência que precedam os códigos instituídos como verdade . Um exemplo óbvio: o diagnóstico cidológico: para que serve? A quem serve?

A.M.

MAGRITTE

JOÃO DONATO - Café com pão

O CAPS  TAMBÉM  CRONIFICA?

O problema da "dependência" institucional é multifacetado; pode ser atribuído à falta de suporte familiar, à escassez de oportunidades no mercado de trabalho, à idade avançada de alguns pacientes e a algumas características próprias das patologias. De qualquer maneira, esta é uma questão fonte de muita insegurança referida por alguns de nossos usuários e requer um enfrentamento técnico, clínico e político.
(...)
Patrícia F. Bichara e Telma C.Palmieri - do texto O acompanhamento de residências terapêuticas pela equipe de um hospital-dia

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

CISNE NEGRO

REMÉDIOS QUÍMICOS

(..) (...)Quando o paciente vai buscar o remédio, o psiquiatra entrega, situação mais comum do que se supõe. Um dueto pessoal funciona como máquina de tratar sem tratar. O remédio é uma extensão do médico, um cabo conectado com a verdade. A substituição do tratamento real  pela receita burocrática sequer é notada. É possível que a questão do tratamento nem se ache na cena.  O médico não passou um remédio. É o contrário: o Remédio é quem   passou o médico para  o rol dos agentes  do corpo  apassivado.
(..)
A.M.
                                              -----------------------------------

domingo, 26 de agosto de 2012

PEREIO singular

ACADEMIA  INTOCÁVEL

O Aparelho Universitário, onde, talvez, fosse (ou devesse) ser o lugar do Pensamento, na verdade, é  bem mais uma peça pregada no coração dos súditos orgulhosos do capital. Professores e pesquisadores : Eles pensam que pensam, mas não pensam. Somente reproduzem ordens implícitas. Esta é a sua função. Mestres, doutores, pós-doutores, toda a galera arrogante dos condutores do "pensamento do real", adotam a estratégia do refúgio controlado aos fluxos do Acaso e às intempéries do capitalismo aparentemente vencedor. Todos, ou quase todos,  se protegem. Normal.  É claro que é preciso salvar a própria pele e se dar bem. O custo são as tetas dadivosas do Estado, sempre interessado em prover e promover justificativas honestas (financeiramente à altura, claro...) ao bem do cidadão. Mas o Estado é o monstro, como diz Nietzsche. Diante de tal disparidade de poderes, me recolho à insignificância dos esquizo-negativistas à pesquisa clínica da psiquiatria biológica, aquela mesma, vendida aos Laboratórios Farmacêuticos Internacionais. Nada a dizer. Tudo a fazer.

A.M.

ÁFRICA

poesia na veia-13


só é louco
quem pode
maquinar
o infinito


A.M.
PERSONALIDADES TRANSTORNADAS

(..) (...)As   linhas singulares estão fora das categorizações da  CID-10 ou de  outras classificações. Sob a ótica da diferença, o paciente é um mundo inexplorado e ainda não humanizado. Não há pureza nessa concepção.Trata-se de espreitá-lo tanto quanto se  conseguir escapar do clichê médico. Examinar o borderline é se pôr fora  das definições do que é ou não o limite,o corte,a fronteira entre a saúde e a doença, o anormal e o anormal,a potência e a impotência. Para isso ser possível, a experiência do contato com a loucura é essencial. Não é preciso ser louco ou ficar louco, mas sim entrar  num devir-loucura, tornar-se loucura  se o propósito é ajudar, acolher,criar.Tal disposição não costuma ser bem vinda nas organizações promotoras da fé numa racionalidade apaziguadora. Isso inclui a psiquiatria e suas    agências de apoio à promoção de uma felicidade quimicamente induzida.No entanto, entramos num terreno onde a química não resolve,e pior, oferece a sedação como  simulacro da morte. 
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

sábado, 25 de agosto de 2012

BELCHIOR - Paralelas


TRANSTORNOS  INGLÓRIOS

Não gosto do termo "portador de transtorno mental". Ele carrega 1-uma origem biomédica, como quando se diz "portador do vírus HIV"; 2-tem uma conotação substancialista (a mente como "coisa"); 3-sugere "desordem=transtorno", o que nem sempre ocorre. A temida "desordem" pode estar fora do paciente, nas circunstâncias que o fizeram "doente"; 4-exclui o tal "portador"do mundo dos "não-portadores", nós, os normais; 5-está engatado, conectado à CID-10, cap. F., um monumento à pseudo-ciência e um desserviço aos processos subjetivos do paciente.

A.M.

BJÖRK - Big Time Sensuality



POESIA 

A linguagem poética fere de morte o princípio de identidade do discurso inteligível da técnica. Uma experiência-limite não precisa de palavras. Isso desconcerta a clínica do cérebro. Esta, busca neuro-lugares e pontos  fixos.  Cortem  aqui. Cortem ali. A representação do Mesmo é batata. Abram alguns  cérebros e lá estará o rigor mortis. Enfim, um método infalível. Ele gargalha  sobre a última fronteira. Que se passa? Ainda bem: há poesia injetada em   agulhas finas. A linguagem desliza: criança, poeta, louco, vidente, artista, a  tralha  dos sem-eu, todos descem pelo conta-gotas da  resposta aos sintomas. Não  há  como se explicar  aos  cientistas. O tecido poético cria  muito antes  da medição dos contornos da hipófise. É matriz e argamassa das construções exatas sobre o funcionamento dos neurônios do baixo clero. Precisamos de mais poesia, mais, até saturar os átomos da cabeça pensante. No entanto,o pesquisador acadêmico enuncia  o veredicto das  horas perdidas  em conversas tolas. A condenação dirige o condenado às  labaredas do inferno das  psicoses, dos retardos e das  demências irreversíveis.Toca o horror da  patologia, limpa a mesa cirúrgica com estabilizadores do humor.Assim fica fácil destruir subjetividades  em nome da ciência. Sem metáfora.
(...) 
A.M.


FUTURO REPROVADO, por Cristovam Buarque

O Brasil foi reprovado no vestibular para o futuro. Porque o futuro tem a cara de sua escola no presente.

Nas últimas séries do nosso Ensino Fundamental, as escolas públicas, onde estuda a maior parte de nossos alunos, a média do IDEB –Índice de Desenvolvimento da Educação Básica - foi de 3,9. As escolas particulares foram aprovadas, mas com a sofrível nota 6. A média ponderada pelo número de alunos é de 4,1, envolvendo 1,8 milhões de alunos nas particulares, com a média 6,0, e 12,4 milhões de alunos, nas públicas, com média 3,9.

No Ensino Médio, a média ponderada, incluindo as particulares é de 3,7.

Além da reprovação geral, o IDEB mostra que o Brasil é dividido pela desigualdade na educação dos filhos dos pobres e dos filhos das classes médias e altas.

Na mesma semana, o Jornal Nacional da Rede Globo mostrou a situação de nossas escolas, passando a sensação de que assistíamos a notícias de um terremoto, que está a devastar nosso futuro.

Outro programa, o “CQC”, da Rede Band, mostrou escolas em uma cidade do Piauí, certamente piores do que as piores do Mundo. Foi possível ver o futuro. E não pareceu bonito.

Apesar disso, o MEC comemorou os resultados e ainda divulgou nota à imprensa, no dia 14 de agosto, dizendo que “O Brasil tem motivos a comemorar”.

O Ministro está no cargo há apenas oito meses e não tem culpa por este desempenho, mas deveria reconhecer a tragédia, a vergonha e convencer a presidenta da República a fazer pela educação o esforço que vem fazendo na economia.

A presidenta precisa entender a gravidade da falta de infraestrutura educacional, ainda maior do que foi a falta de infraestrutura física, e convocar todo o País a se empenhar por uma urgente Revolução na Educação de Base.


MARTIN LUTHER KING - 1963

CRIAR   E  CRITICAR

(...) (...) Não acreditamos na crítica como ato que   propicie uma criação.  A criação é que   propicia uma crítica.A criação vem primeiro. Saúde é um conceito nominal. Aparelho engendrado por  tecnocratas do Estado,vive para a idéia, o imaginário, a transcendência e as boas intenções humanísticas. Com o conceito de mental ocorre o mesmo. Criar nada  tem a ver com essa ladainha político-conceitual. A arte de criar conceitos, como diz  Deleuze, é a aventura do novo. Em saúde mental,  criar é despersonalizar-se sem culpa, ressentimento ou nostalgias  egóicas. Começa  pela ausência de títulos e pompas. Uma gratuidade.  
(...)
A.M. -  do livro Trair a psiquiatria
"Não há nada tão estúpido como a inteligência orgulhosa de si mesma."


M. Bakunin

CHARLES LLOYD QUARTET - Caroline No

A BUSCA 


Cheguei ao Rio em 1975, para trabalhar no CPPII, Engenho de Dentro, como médica residente. No pátio do Hospital vi se repetirem as mesmas cenas: prisioneiros e destituídos abandonados à própria sorte. Após um ano de árduo trabalho nas enfermarias, conseguimos algumas transformações, o suficiente para que nós, residentes, fóssemos postos para fora. São as forças da Instituição Total. A partir daí inicio meu trabalho em ambulatório público e durante os últimos vinte anos tentei desviar dos labirintos dos asilos a clientela psicótica. Algumas pequenas vitórias, muita experiência e a certeza da precariedade do instrumental psiquiátrico.

(...)
Ana Rocha - do texto Experiência da Toca - in Saudeloucura - subjetividade, 1997.

MUNDO MODERNO

SAIR DOS TRILHOS

(..) (...) Através  da vivência  é  que o paciente organiza as suas crenças. Vivência diz  respeito ao significado da  realidade e aos afetos  postos nesse  significado. Crença e afetividade  são elementos-chave  para  adentrar aos modos de subjetivação.Estes elementos compõem “processos de singularização”.Daí o delírio se constitui como um território existencial que se  expressa  por singularidades. Acompanhar as linhas  singulares do paciente é não identificá-lo a uma essência  patológica. Desse modo, a patologia  compõe um mosaico clínico que a ultrapassa  enquanto fato  inscrito  na cultura. O não-patológico está misturado ao patológico. E mais, o patológico nem sempre pode (ou deve) ser completamente excluído das condições psíquicas do paciente. O delírio é o acontecimento, ou seja, o devir  como processo de vida  que  precede as manifestações  clínicas. Mesmo  estruturas    visíveis como o cérebro, constituem a vertigem do tempo  que não volta.  O interesse dessa  premissa  está  na possibilidade de incluir o paciente no rol das atividades humanas (sociais) sem reduzi-lo a alguém a quem faltaria razão. Ora, a razão (ou a  racionalidade)  é   construída socialmente...
(...)
A.M.

SALVADOR SEM DOR

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

MONSTROS

(...) (...) O que é o monstro numa tradição ao mesmo tempo jurídica e científica? O monstro da Idade Média ao século XVIII de que nos ocupamos, é essencialmente o misto. É o misto de dois reinos, o reino animal e o reino humano: o homem com cabeça de boi, o homem com pés de ave - monstros. É a mistura de duas espécies, é o misto de duas espécies: o porco com cabeça de carneiro é um monstro. É o misto de dois indivíduos: o que tem duas cabeças e um corpo, o que tem dois corpos e uma cabeça, é um monstro. É o misto de dois sexos: quem é ao mesmo tempo homem e mulher é um monstro. É um misto de vida e de morte: o feto que vem à luz com uma morfologia tal que não pode viver, mas que apesar dos pesares consegue sobreviver alguns minutos, ou alguns dias, é um monstro.
(...)
M. Foucault - do livro Os anormais

CARLA BLEY TRIO - The lone arranger

Os médicos estão fazendo a autópsia
Dos desiludidos que se mataram
Que grande coração eles possuíam
Vísceras imensas, tripas sentimentais
E um estômago cheio de poesia.

C.D. de Andrade

TRILHOS IMAGINÁRIOS



 Desfecho judicial do caso Breivik

Colegas da  APB:

Penso que o desfecho atribuído pela Justiça norueguesa ao caso Breivik terá repercussões no âmbito da Psiquiatria Forense.
 Anders Breivik é condenado a 21 anos de prisão pelo massacre de 77 na Noruega

 
UOL, em São Paulo

O ultradireitista Anders Behring Breivik, 33, autor confesso do massacre que matou 77 pessoas no ano passado, na Noruega, foi considerado penalmente responsável pelas mortes, nesta sexta-feira (24), e vai cumprir a pena máxima segundo as leis do país: 21 anos de prisão.

Por decisão do tribunal de Oslo, a setença é prorrogável e pode se estender indefinidamente, se a Justiça norueguesa avaliar que o réu continua a representar um perigo para a sociedade. Breivik responde pelas mortes causadas em um duplo atentado de 22 de julho de 2011, em Oslo e na ilha de Utoya, na Noruega. Para a Justiça norueguesa, Breivik é penalmente responsável pelos atentados.

A custódia é uma figura legal do Direito norueguês, que na prática pode equivaler a uma prisão perpétua.

O extremista detonou uma caminhonete-bomba no complexo governamental de Oslo, causando a morte de oito pessoas, em seguida se dirigiu à Utoya (40 km da capital), onde realizou um massacre no acampamento das Juventudes Trabalhistas (AUF, na sigla em norueguês), matando outras 69. 

Breivik, que está detido na prisão de Ila e assumiu o crime, já era considerado culpado pelas mortes. O que foi discutido no julgamento é se ele era penalmente responsável ou não --levando em conta seu estado mental-- e se devia ir para a prisão ou receber tratamento psiquiátrico. Segundo a juíza Wenche Elizabeth Arntzen, que presidiu o julgamento, o veredito é unânime, e exige que Breivik cumpra no mínimo 10 anos de prisão. A pena deverá ser cumprida na prisão de segurança máxima Illa.

O atirador, que havia dito que recorreria da setença caso fosse considerado doente mental e condenado a tratamento psquiátrico, recebeu o veredito com um sorriso. Ao ser interrogado em abril, afirmou que a pena de morte ou a absolvição seriam os únicos veredictos justos em seu processo. A Noruega não aplica pena de morte.

Durante as dez semanas do processo, que começou em 16 de abril, o atirador se fartou de repetir suas ideias. Na última audiência, em 22 de junho, fez ameaças e disse que, caso não seja libertado, podem acontecer mais atentados. "Meus irmãos acompanham o caso enquanto planejam novos ataques. Eles podem levar 40 mil pessoas à morte", disse.

O terrorista ainda reiterou que os ataques foram "em defesa" de seu grupo étnico e contra a "invasão" muçulmana, e que não reconhece sua culpa porque "às vezes é necessário cometer uma barbárie para frear outra ainda maior".

Em seu discurso, Breivik acusa o Partido Trabalhista, que controla a política do país há décadas, de destruir o povo norueguês e sua cultura ao defender o multiculturalismo. Para ele, todos os povos europeus estariam ameaçados. A solução para evitar o aumento do conflito seria criar reservas para os nacionalistas longe do "inferno multiétnico".

Problema psiquiátrico

A Promotoria chegou a solicitar a internação de Breivik em um hospital psiquiátrico, por entender que existe uma "dúvida" sobre ele ser responsável penal dos atos, de acordo com as leis norueguesas.

Seu advogado, Geir Lippestad, se opôs e solicitou que o condenem "à pena mais leve possível". Lippestad ressalta que o réu sofre delírios de grandeza e se considera salvador.

De acordo com o segundo estudo mental ao qual foi submetido, o réu tem Transtorno de Personalidade Dissocial. O primeiro concluiu que ele sofre de esquizofrenia paranoide. Nenhum dos 37 especialistas encontraram sintomas de psicoses. Só dois deles o definiram como psicótico.

R$ 3,8 milhões ao ano

Autoridades norueguesas da área da saúde calculam que manter o extremista confinado em uma prisão psiquiátrica custaria ao país cerca de 1,5 milhão de euros por ano (R$ 3,8 milhões).

Se for considerado que ele tem problemas mentais, será construído um departamento especial de alta segurança em Ila, já que os hospitais psiquiátricos existentes não possuem as condições necessárias exigidas. Eles avaliam que Breivik precisaria do acompanhamento de pelo menos quatro pessoas durante o dia e três durante à noite.

Um homem de 29 anos, admirador de Breivik, foi preso no último sábado (18), na República Tcheca, com um arsenal de armas, munição e explosivos. Segundo a polícia local, o material poderia ter sido usado em um atentado. (Com agências internacionais)

Abnoel  Souza - psiquiatra

MARANHÃO DE SARNEY - 2012

OS CAFAJESTES - Norma Benguell e Jece Valadão

poesia na veia - 12

o mensalão
arruína a flor genética 
saída da ética

deixa uma geração cínica
rindo de si mesma

A.M.




CIDando mal

A LADAINHA CIENTÍFICA

As conquistas, os avanços no campo neurocientífico não equivalem a um avanço no campo psiquiátrico. Oferecem, claro,  instrumentos práticos e teóricos para se pensar e lidar com o cérebro. No entanto, a psiquiatria não é apenas o cérebro. Ou, pelo menos, não deveria sê-lo. Reduzir a complexidade dos fenômenos mentais ao cérebro. é no mínimo, adotar uma visão tosca da psicopatologia. Desse modo, a questão não é contra a neurociência, mas contra um certo uso da neurociência no campo da clínica psicopatológica. O cérebro MENTE.

A.M.
CONDIÇÕES PARA SE PASSAR REMÉDIOS QUÍMICOS

(...) (...) O que está em jogo  não é o psiquiatra-pessoa. Este obedece, só obedece  (mesmo  sem    saber). A questão  é outra. São as relações institucionais, a materialidade do ato clínico. O eu-consciência sustenta a psicopatologia. Hoje,a equação se  alarga.  Temos eu=consciência=cérebro,   base ontológica para se passar remédios.Na ausência de uma teoria psiquiátrica  da subjetividade, quem responde ao psiquiatra é o “eu-consciência-cérebro”. Este é o  “sujeito”.Eu-consciência para o manejo psicoterápico cognitivista. Cérebro para o farmacológico, não necessariamente  nesta ordem.   
(..)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria 

VAN GOGH


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

ROSTIFICAÇÃO  FARMACOLÒGICA

 (...) (...)A  clínica psicopatológica tornou-se a clínica psicofarmacológica. Isso não é um mal em si, mas um fato da cultura médica  que incide sobre o  trabalho com o paciente. Em termos  empíricos, o próprio  paciente torna-se  um produto de forças institucionais; elas  fabricam a clínica e por extensão o paciente.  Tais forças  se explicitam na psiquiatria, são  a psiquiatria. No espaço do atendimento, do exame, do encontro com o paciente, elas se concretizam como rostidade  farmacológica.  É um regime de aparência corporal,  semiótica,  que traça uma  linha terapêutica antes mesmo de começar o tratamento. As psicoses, por excelência, são  objeto   desse processo  de  rostificação. A cena extremada, o paciente  impregnado  por   neurolépticos  (alterações  extra-piramidais)  e outros  signos  menos perceptíveis, compõem a visibilidade do espaço clínico. Assim, fazer  psiquiatria nos dias atuais tem  a opção farmacológica como  palavra de ordem: prescreva mais e mais remédios químicos. Isso não  vale apenas  para os que estão científico e juridicamente autorizados a fazê-lo, mas para todos os que lidam com a loucura. Nosso foco pode ser a  chamada “equipe técnica”em saúde mental. Todos medicam, todos estão medicados,   medicalizados numa  produção subjetiva  inconsciente e incessante. Isso é de uma  tal obviedade que se esconde em cotidianos naturalizados. 
(...)
A.M.

SOBRE PSICOFÁRMACOS

DIAGNÓSTICO
                                            
                            
 (...) (...)Perante a CID-10 e o DSM-IV, não é possível diagnosticar. O diagnóstico não existe. Comecei do zero. Esqueci dos códigos. Escutei  vozes dizendo: “ele pensa que  é o apocalipse”. Ninguém por perto para testemunhar. Abri as  janelas.  Manhã  tão bonita  manhã. No entanto, a  doutora avisou que vai  chegar mais  tarde. Hoje  é dia de visitas inesperadas. Aos  que  vierem,  usem a vida  como estimulante. No entanto, figuras empoladas  pronunciam discursos  doutos. Nada da expressão do desejo. Nada mesmo. Que fazer? O círculo é estreito, a rede é fina, o controle é (quase) completo. Resta o pensamento: caminhar veloz, conectar  aliados insuspeitos, brincar com o peso  do diagnóstico. Poe. A loucura não tem diagnóstico. Os  loucos circulam soltos, mesmo prisioneiros. A sociedade industrial  imprime no corpo dos seus  súditos a marca da  psiquiatria biológica. Por isso, hoje, escondo o segredo das origens. Nada de genética. A universidade não entende. O povo não entende. O diagnóstico enterra suas esporas  sobre  corpos previamente  dominados.  Somos  todos  inúteis úteis.
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

FRANCIS BACON


ONDE SE PASSA A LUTA?


Mesmo a cidade mais estriada secreta espaços lisos: habitar a cidade como nômade , ou troglodita. Às vezes bastam movimentos, de velocidade ou de lentidão, para recriar um espaço liso. Evidentemente, os espaços lisos por si só não são liberadores. Mas é neles que a luta muda, se desloca, e que a vida reconstitui seus desafios, afronta novos obstáculos, inventa novos andamentos, modifica os adversários. Jamais acreditar que um espaço liso basta para nos salvar.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari - do livro Mil platôs

ANA CÃNAS - L´amour


terça-feira, 21 de agosto de 2012

onde anda a política
que muda?
onde  anda a muda
que floresce?

A.M.

ENQUANTO ISSO, EM BRASÍLIA...


ARTE

 (...) (...) Falamos da  arte como composição de linhas  subjetivas que  buscam  expressar e criar um mundo. É possível captar essas  forças no Encontro com o paciente. A psiquiatria capta outras forças, é bem verdade, as do organismo físico-químico  adoecido pelas condições em que  vive. Isso  significa    fabricado por múltiplas determinações que escapam ao controle do eu. Escapam também ao enquadre linear  causa-efeito. Contudo, o que o paciente  diz sentir  é o que  importa. A arte, surge, então,   como resistência  às  situações existenciais adversas. Nesse sentido ela está  fora da psiquiatria, não havendo  encontro possível. A linguagem da arte é inseparável da sensação, pura sensação que constitui a  subjetividade como semiótica a-significante. Ou seja, não sendo submetida à consciência (“eu, enquanto indivíduo”), a produção da arte  é uma produção de singularidades que  retira matéria viva do caos . Na psiquiatria  atual, no lugar da produção,o produto é capturado (e  imobilizado)  por exames  de imagem. Sob controle.
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

JOBIM E CHICO - Choro bandido

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

ESTÃO REMIXANDO O FASCISMO

o primeiro papa do século 21 
vestiu o uniforme nazista 
e atuou na retaguarda 
dos exércitos do 3º Reich 
que invadiram a pátria do papa 
que ele substituiu 
e manteve vivo às caneladas 
por mais de duas décadas 
enquanto sua maçonaria centenária 
apossava-se dos cargos-chave 
da burocracia eclesiástica 
preparando-se para enfrentar 
os exércitos do islão desembestado 
numa nova guerra fanática

estão remixando o fascismo 
como DJs remixam músicas antigas 
em suas maquininhas 
tecnológicamente corretas 
em noites de raves azougueadas 
preparadas para as quarentenas 
das futuras epidemias anunciadas 

enquanto os tribunais puritanos 
preparam a nova inquisição 
sob a aparente calmaria política 
e a total paralisia das vanguardas 
num mundo sem utopias 
e cheio de ideologias vagas 
um novo fascismo 
está sendo cultivado pelos pamonhas 
como o ôvo de uma serpente 
chocado num ninho de cegonhas

os novos infames agem nas sombras 
instalando seus exércitos de imbecis 
nos sub-escalões da administração pública 
nos meios artísticos 
nas redações dos jornais...

são batalhões de idiotas 
infiltrados em todos os lugares 
para evitar que algo fora do anunciado 
possa quebrar o protocolo 
são reacionários preparados 
para engessar processos criativos 
interromper reformas estruturais 
impedir o tráfego de informações novas 
evitar qualquer processo revolucionário

graças à segmentação do trabalho 
e ao monitoramento da informação midiatizada 
estes monstros estão camuflados na sociedade 
como camaleões esfomeados 
capazes de pequenas audácias

muitos sequer desconfiam 
que estão sendo recrutados 
ou tratados como cobaias 
e não é raro flagrar alguém de esquerda 
defendendo teses da direita 
bebericando stolichnaya

vários agentes do novo fascismo 
estão orbitando em torno de gente famosa 
paparicando pessoas endinheiradas 
como cortesãos de segunda classe 
acreditando absorver por osmose 
características dos seus senhores 
sobrevivendo numa pseudocorte 
de uma Maria Antonieta restaurada 
amealhando sobras de brioches 
e aguardando o momento exato 
para afiarem a guilhotina 
e se apossarem dos brincos 
da cabeça cortada

por conta da vaidade narcisista 
acreditam-se simpáticos 
e merecedores de atenção 
embora sejam insolentes 
e donos de princípios éticos 
de baixíssimo calão

avaliam e selecionam as pessoas 
pelo saldo na conta bancária 
pela aparência, pelo status-quo 
adoram ser porteiros de alas vips 
distribuindo pulserias seletivas 
aos acessos de áreas de exclusão 
onde empresas pagam a conta do porre 
e alugam o lazer e o ócio 
de quem não é mais capaz 
de expressar nenhuma opinião

estes vampiros laicos 
trabalham em barricadas e trincheiras 
protegendo seus escolhidos 
do assédio de quem quer que seja 
estabelecendo um feudo 
do qual são porteiros 
...e carcereiros!

quando estabelecidos em gabinetes e palácios 
filtram informações, agem como censores 
tirando proveitos pessoais 
dos segrêdos, boatos e fuxicos 
que interceptam e promovem aos cochichos

como cupins num compensado 
espalham-se para todos os lados 
rezando a missa ao contrário 
em nome do padre 
do espírito santo 
opus-dei, amém

estes pilantras disciplinados 
sentem-se à vontade 
para falar de deus 
fazendo a faxina dos demônios 
como a que, nos balcãs 
ameaçavam os seus

as celebridades que estão na moda 
não passam de sub-lideranças úteis 
manipuladas em suas vaidades fúteis 
como marionetes travestidas de artistas 
sustentadas e pagas pelos gestores do capital 
e sua máquina publicitária global 
garantindo-lhes a visibilidade 
em troca de energia vital

para passarem as tropas em revista 
e manterem sob controle 
os mal-sucedidos e os arrivistas 
nazistas batidos nas fronteiras 
ganharam a batalha 
50 anos depois da derrota capitulada 
unificando a moeda européia na marra 
com parâmetros do marco alemão 
conquistando por dentro 
todos os estados europeus 
evitando os assaltos 
das divisões armadas

posando de bem-feitores da humanidade 
novos fascistas estão indo à luta 
em meio à era da política corrupta 
aceitando provisórias lideranças farjutas 
como à Cristo, um dia, Judas aceitou 
até chegar o momento propício 
para trair seu comando fictício 
e o derrubar com escândalos políticos

estão remixando o fascismo 
como DJs de boates gays 
remixam músicas do passado 
e, desta vez, até você que era contra 
se não estiver atento e não tomar cuidado 
pode sentir-se atraído e fascinado 
pela reinvenção do estado 
num mundo cibernético 
e celibatário

mesmo os judeus mais ortodoxos 
que sobreviveram com remorsos de seus mortos 
estão com seus interesses financeiros 
comprometidos no mercado dos capitais voláteis 
e do jeito que este mundo está indo 
assimilarão o novo modelo recauchutado 
e decerto participarão dos seus resultados

estão remixando o fascismo 
na cara de todo mundo 
com um cinismo descarado 
que se sustenta às custas da apatia 
das ideologias sem doutrina 
evaporadas como éter na cirurgia 
de um passado enterrado num porre de vodka 
entre as cinzas da glasnost e da perestroika

estão remixando o fascismo 
e, desta vez, você não vai poder 
escolher o lado nem os adversários 
desta vez: a repetição da história como farsa 
trabalhada pelos publicitários 
será um excepcional conto do vigário!


Tavinho Paes 
PSIQUIATRIZAR  A  EXISTÊNCIA

 (...) (...) A subjetividade psiquiátrica se compõe de linhas existenciais traduzidas em papéis sociais diversos, a depender do contexto prático. Um técnico não psiquiatra poderá pensar, perceber, sentir e atuar tanto quanto um psiquiatra na relação com a loucura, e por extensão, com o paciente. Um técnico não-psiquiatra pode ser até “mais psiquiatra” que o psiquiatra.
(...)
A.M. - do texto Grupos e caos, a ser publicado

BOSCH

O inferno

domingo, 19 de agosto de 2012

poesia na veia - 11

loucura não é doença
mesmo que digam
(e dizem)
não acredite

faça uma prece

e um striptease


A.M.

DIANA KRALL - So Nice


NOTA CRÍTICA


Uma crítica bem fundamentada aos psicofármacos considera aspectos (não necessariamente nessa ordem): 1- sociopolíticos; 2-econômicos; 3-clínicos;4-mercadológicos; 5-epistemológicos;6-diagnósticos;  7-científicos; 8-institucionais; 9-acadêmicos; 10-éticos.  Como se nota, a questão é muito complexa.  Desse modo, considero a conexão diagnóstico-fármaco um eixo fecundo de análise já que aí estão contidos os demais aspectos citados acima. 


A.M.

THOMAS SZASZ e os psicofármacos

UMA NOVA VALORAÇÃO DAS COISAS

O que distingue o nosso século XIX não é a vitória da ciência, mas sim a vitória do método científico sobre a ciência.
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Tudo o que entra no consciência como "unidade" é já imensamente complicado: temos sempre somente uma aparência de unidade.
O fenômeno do corpo é o fenômeno mais rico, mais claro, mais compreensível: deve ser posto metodicamente em primazia, sem que descubramos algo sobre seu significado último.

F. Nietzsche - do livro Vontade de poder

CHARLIE PARKIE - Laura

poesia na veia-10

o cérebro mente
porque não é 
a mente

quem fala.


A.M.






AINDA SOBRE O MÉTODO DA DIFERENÇA

(...) (...) Como foi dito acima, o psiquiatra torna-se outra coisa, um devir, devir-feiticeiro,     estranha  metamorfose que se  atualiza num meio tecnológico saturado  de mercadorias.  No corpo a corpo com o paciente , ele age.  Sobretudo,  nada  acumula,  nada conhece, não como  estágio zero do conhecimento, mas como um ingênuo  diante do cosmos. O feiticeiro é  apenas um dos seus disfarces. Composto em meio às serializações tecno-científicas, ele traça um equilibrismo ético-político. Ao mesmo tempo, lida com a palavra e a escuta não só como condições ao atendimento, mas como o próprio atendimento. A fala provém da  espontaneidade-criativa  inscrita no ato da entrevista. A escuta está dada como sensibilidade para o novo, o heterogêneo,  o estranho.  Trata-se de uma clínica das  multiplicidades: uma prática, a se  fazer, a se  inventar.  Sem modelo.
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

SOBRE A LÓGICA DO SENTIDO ( DELEUZE )

Renata – eu leio isso assim... como sendo o seguinte: ele foi contra tudo aquilo que sempre se fala como sendo bom que é o profundo, sempre o profundo, então se o meu amor é profundo, ele é melhor que o seu que é um amor superficial e sempre assim, essa é a nossa idéia, aí ele vem e repete isso, ele vai querer dizer: - não mas eu não quero falar do profundo, eu quero falar do superficial – então para mim vem uma imagem que é a do ponto e do plano, quanto mais você abrange alguma coisa, com um ponto ou com um plano? Com um plano né? Então para mim, a superfície é um plano e a profundidade é um ponto, assim: - eu te conheço profundamente – então você é um ponto e eu vou explorar aquele ponto e só aquele apenas... e se eu falo em superficialidade, eu estou querendo abranger esse plano todo e daí ele matou quando ele diz que tudo que está na superfície tem correspondência com o que está na profundidade, então se você – por isso eu falei do liso e do estriado – desliza na superfície, você de qualquer forma está atendendo e alcançando, abordando, de alguma maneira as profundezas dessa superfície.

Grupo Transversal - Unicamp



sábado, 18 de agosto de 2012

O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum
convém se vestir roupa de trapo.

Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.

Ninguém  é pai de um poema sem morrer.


Manoel. de Barros

EDU LOBO e CHICO BUARQUE - Beatriz


O TEMPO DOS DEVIRES

A clínica da diferença em psicopatologia busca conectar elementos existenciais patológicos com os não-patológicos. Isto significa, antes de tudo, trabalhar com a noção de Contexto. Há uma trama de relações, linhas, signos, códigos, fluxos de toda ordem que se inscreve no tempo de Cronos, o da história pessoal e dos relógios. Há um endurecimento do presente. Ao contrário, o paciente pode ser visto como uma multiplicidade singular que se conecta com outras multiplicidades, inclusive aquelas do seu próprio "interior psíquico". Há muitos eus. Escapam de Cronos, e uma concepção do tempo como passado e futuro se afirma no presente dos corpos; é o Aion a que se refere Deleuze. Buscamos, então, saídas aos impasses existenciais atuais, ao invés de exumar representações fixas do passado.  Falamos  de uma clínica do Acontecimento. O acontecimento é o sentido a ser produzido. Qual o sentido (ou quais os sentidos) para a sua vida? A questão dos psicofármacos, tão debatida neste blog, constituirá  uma das multiplicidades em jogo, e por isso, não concebida como algo bom ou mau, mas enquanto um dado que favoreça e impulsione os devires (processos do desejo). Tarefa difícil, sabemos, tal é a medicalização  da sociedade . Mas, não impossível...

A.M.