terça-feira, 31 de julho de 2012

VAN GOGH


QUESTÕES DIAGNÓSTICAS EM PSICOPATOLOGIA

(...)  (...) Consideramos  histórias clínicas em que as hipóteses diagnósticas  esgotam   as categorias  da CID-10, exceto uma. Desse modo, é freqüente se recorrer  ao  chamado “transtorno da personalidade”  (TP) ou mesmo   ao   que  era   antes   chamado de “personalidade psicopática” ( termo  criado  por  Kraepelin  em 1904 )  como  uma   saída  aos  impasses  da clínica   psicopatológica.  Isso  advém da  dúvida:  será  uma psicose?. A psiquiatria, enquanto sistema nosológico-conceitual ,  não  sabe  definir com precisão  uma psicose.  Tomemos  o exame de um paciente:  de acordo com  a  semiologia ,  não há  delírios, alucinações, nem ruptura com a  realidade; por outro lado,  desvios de conduta, às vezes  graves,  atestam  algum signo  necessário para se  poder dizer afinal   do que se  trata. Descrevendo uma personalidade em seus padrões anormais, incluímos o que ele, o portador, faz no mundo: atos, atitudes,  interações com pessoas, desempenho de papéis sociais, capacidade laboral e outros parâmetros.O paciente, excluídas informações  de  terceiros, se  acha e  se  mostra  mentalmente  são. Em certos casos, é pessoa de  conversa fácil e discurso que  flui  espontâneo. O pensamento se expressa em frases conexas. No mais, segue o percurso das conversações amenas, ditas normais. Em outros casos  até  poderá ficar tenso, a depender do contexto institucional, como, por exemplo,  ser entrevistado  numa  prisão. O essencial a reter desses dados clínicos é que o TP tende a escapar do molde  psiquiátrico. A psiquiatria lhe é estranha, exceto talvez por um ato de força  executado  por ordem do juiz. Diferentemente  da psicose, tal personalidade não vacila diante de  pressões sociais: confesse! Ora, uma Personalidade funciona  num mundo social  cujas   linhas de conduta estão longe de serem retas e programáveis. Desse modo, o diagnóstico deve compor um dispositivo para  avaliação contingencial. O contrário  seria  um  enquadre apenas   técnico ,  o  que equivale  a  prática  do  estigma social   disfarçado  de ciência pura.
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

CHICO DE OLIVEIRA - entrevista - 02/07/2012 - bloco 2


"SÓ EXISTE O DESEJO E O SOCIAL E NADA MAIS"

A medicalização da vida social produziu uma espécie de "ser" da doença. Isso é  facilmente constatável no caso das depressões de etiologia "psicogênica". A família, ou os que estão mais próximos ao paciente, referem-se a ele com "a depressão".E ele próprio, se vê desse modo.Um trabalho psicoterápico torna-se difícil, senão inviabilizado.O fármaco comparece como esparadrapo...

A.M.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

ERIC HARLAND - Blues

POESIA

A linguagem poética fere  de  morte  o princípio de identidade do discurso inteligível da  técnica. É isso mesmo. Uma experiência-limite não precisa de palavras. Isso desconcerta a clínica do cérebro. Esta, busca  neuro-lugares e pontos  fixos.  Cortem  aqui. Cortem ali.  A representação do Mesmo é batata. Abram alguns cérebros e lá estará  o rigor mortis. Enfim, um método infalível. Ele gargalha sobre a última  fronteira. Que se passa? Ainda  bem:  há poesia injetada em   agulhas  finas. A linguagem desliza: criança, poeta, louco, vidente, artista, a tralha  dos sem-eu, todos descem pelo conta-gotas da  resposta aos  sintomas. Não  há  como se  explicar  aos  cientistas.  O tecido poético cria  muito antes  da medição dos contornos da hipófise. É matriz e argamassa das construções exatas sobre o funcionamento dos neurônios do baixo clero. Precisamos de mais poesia, mais, até  saturar os átomos  da  cabeça pensante. No entanto, o pesquisador acadêmico enuncia o veredicto das  horas perdidas em conversas tolas. A condenação dirige o condenado às labaredas do inferno das psicoses, dos retardos e das demências  irreversíveis. Toca o horror da  patologia, limpa a mesa cirúrgica com estabilizadores do humor.Assim fica fácil destruir subjetividades  em nome da ciência. Sem metáfora.
(...)
A.M.


TRATAR A EXISTÊNCIA?

(...) (...) Desde 1952   nos  acostumamos a ver o paciente mental sob  o   efeito de algum remédio químico. Este  se  tornou peça indispensável, não só  para o tratamento, mas na constituição de uma "subjetividade enferma". Na década de 90 os fármacos avançam e substituem a psicopatologia.Torna-se um hábito ver o paciente mental como  expressão-efeito  da química.  A indústria  produz o pensar medicamentoso como  campo por excelência  do desejo. O objetivo  maior é o de  manejar os sintomas. Como tudo é sintoma, ou passou a sê-lo, incluindo  o paciente,  o objetivo  de  passar  remédio  tornou-se o de excluir  o pensamento e a  existência.
(...)
A.M.

JOÃO BOSCO e ALDIR BLANC

O CORPO NÃO É O ORGANISMO

(...) (...) Na  lógica do Encontro não  buscamos  um saber,  mas um  não-saber,  já  que  a loucura é  a “essência” do  não-saber, fundo sem fundo da condição humana. Então, a pesquisa das  crenças  segue o  itinerário do acaso, do indeterminado e do  desconhecido. É uma manobra difícil, já  que  destrói  códigos  inscritos no construto médico do louco. Louco=paciente da mesma forma que tuberculoso=paciente? Claro que não. Então, no âmbito  biomédico não há chance do  paciente ser escutado. Este modelo não está errado. Ao contrário, foi concebido para  isso, feito para isso: trata-se de um monólogo recitado na presença do paciente.Uma distância se  instaura como  lugar  fixo  de quem manda e de quem  é mandado.  Para escutar  o  paciente  o que  então será  preciso? Ora, a escuta médica é “filha” do olhar técnico, imobilizador. Propomos a antiescuta como uma atitude de escuta para além da fala padronizada; “estou   mal”; isto se dá como  expressão de um corpo-produção, sobretudo um corpo invisível que é preciso achar. Novas semiologias serão  possíveis.
(...)
A.M.

ESTÁ CHEGANDO A HORA...


domingo, 29 de julho de 2012

poesia na veia - 2

olho
grande
pensa pequeno

A.M.

ROMEU FERREIRA


DISSOLVER OS CÓDIGOS

(...)  (...) Saúde, no contexto  estabelecido pelo Estado moderno, vem  ligada  “naturalmente” a mental, operando um conceito que não é o da saúde nem é o de  mental. Trata-se de uma composição de forças. Saúde-mental é uma forma de  relação social, uma instituição. Não consta que exista, na acepção aqui expressa, saúde renal, saúde hepática, saúde intestinal, entre outras.
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

FERNANDA ABREU - Jorge da Capadócia

da série: poesia na veia - 1


o capitalismo é de fato
um ser da morte
muito vivo


A.M.
RELATO DO ACASO - n° 19


Quem sofre mais? -  Aula de Psicologia Médica e Psicopatologia no  curso de Medicina da UFBa ; discussão de casos clínicos. A professora era uma psiquiatra. Seu método:  entrevistar um paciente da enfermaria psiquiátrica na presença dos alunos. Depois, na ausência do paciente,  lia a história do prontuário e fazia comentários clínicos. Os estudantes, de um modo geral, apenas a escutavam. Uma pergunta aqui, outra ali. Certa vez a professora comentou sobre  um caso que, segundo ela, era de esquizofrenia. Explicou, então, o que era a esquizofrenia. Daí, surgiu a questão  do sofrimento psíquico, já que o paciente denotava  certo desinteresse para  com o mundo à volta. A professora comparou o esquizofrênico ao neurótico, afirmando que este último sofria muito mais devido à angústia. No caso do esquizofrênico,por estar fora  da realidade, sofria menos. Como estudante submetido à linha vertical do ensino autoritário,aceitei o comentário como uma verdade. Só alguns anos mais tarde  descobri que o sofrimento esquizofrênico é opaco à razão médica.

(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

SALVADOR SEM DOR

Farol da Barra

A RIMA INCRIMINA

(...) (...) deve ter sido às 4 e meia da tarde. a campanhia da porta tocou. era Dan. como sempre, toda vez que eu andava sentindo náuseas ou precisava dormir. Dan, uma espécie de comuna intelectual que dirigia um laboratório de poesia e entendia de música clássica, tinha um fiapo de barba e a todo instante queria bancar o espirituoso, quando não passava de um chato de galochas e, pior do que isso - escrevia versos com rima.
(...)
C. Bukowski - do livro Fabulário geral do delírio cotidiano

SÍLVIA MACHETE - Foi ela

"O mensalão foi o mais atrevido e escandaloso esquema de corrupção e de desvio de dinheiro público flagrado no Brasil."

Roberto Gurgel - Procurador Geral da República

sábado, 28 de julho de 2012

A ARTE NA CLÍNICA DAS MULTIPLICIDADES

Em saúde mental, ao trabalharmos com o paciente, usamos a Arte como 1-processo (devir); 2-potência (força ativa); 3-expressão-no-mundo (capacidade de autonomia) 4- estilo (singularidade); 5-metacomunicação ( para além da linguagem verbal ); 6-intensidade (contra a moral do juizo); 7-estética da existência (contra o paradigma tecno-científico); 8-política do corpo (contra o organismo físico-químico); 8-alegria de criar a si mesmo e ao mundo (contra a repetição do Mesmo); 9-máquina abstrata, ou seja, como uma realidade sem forma definida; 10-obra não-monumental, não-mercadológica e iconoclasta.

A.M.

H. VILLA-LOBOS - Bachiana 4 - Eduardo Lopes (maestro)


Não aprendeste nada com os sábios,
mas o roçar dos lábios de uma mulher em teu peito
pode te revelar a felicidade.
Tens os dias contados. Toma vinho.


Omar Khayyam - do livro Os Rubaiyat

REALIDADES


UMA ESTÉTICA GENERALIZADA

(...) (...) A estética é autorizada a se dizer generalizada assim que deixa de ter um local próprio e fixo a ocupar.Assim, ela precisa agir em uma infinidade de ocasiões, todas precárias, momentâneas, imperceptíveis por vezes, infinitesimais. No lugar e no momento em que o microfascismo se anuncia ou mesmo se enuncia, a saber, logo que uma potência significa o império do gregário sobre um indivíduo desta forma correndo perigo, a resistência pode e deve fazer seu trabalho.Em seguida, é preciso contar com as graduações de forças reativas e defensivas. até o esgotamento da violência surgida, até sua pulverização, seu aniquilamento. Longe da hipotética estetização da política ou da sinistra politização da arte, a cultura elabora uma rebelião incessantemente erguida contra toda agressão de tipo microfascista  dirigida contra esse ou aquele indivíduo.
(...)
M. Onfray - do livro A política do rebelde - tratado de resistência e insubmissão

DIEGO RIVERA

La era
FUNÇÃO DA ARTE

A verdade da arte reside no seu poder de cindir o monopólio da realidade estabelecida (i. e., dos que a estabeleceram) para definir o que é o real. Nesta ruptura, que é a realização da forma estética, o mundo fictício da arte aparece como a verdadeira realidade.
(...)
H. Marcuse - do livro  A dimensão estética

O GRANDE DITADOR - Cena final


O PROBLEMA DA CONSCIÊNCIA

(...) (...)  O sistema do rizoma é um louco. Ele ultrapassou a  fronteira da divisão normais/anormais, aquilo que os psiquiatras  não entendem (nem querem) e  segue a direção do processo homem-natureza. Seu objeto é  incerto, mas seus  objetivos são claros: a afirmação da  criatividade e   do  novo, mesmo que ao preço dos  mal-entendidos e  contra  os fascismos à  mão. O rizoma não é  um método. Ele é um anti-método que se insinua como método  de viver para além dos  paradigmas  estáveis. A psiquiatria não o capta. Trata-se de um rumor  de outros  tempos. O século XXI. A neurociência expõe os seus  limites. O que  é o cérebro?  O rizoma  compõe-se de muitos cérebros, ou o mesmo cérebro numa plasticidade neuronal que traduz o fora (o mundo, a natureza, o  cosmos...) que está  dentro. O cérebro cede à  mente  seu  arquivo de neurônios. A subjetividade se expressa no limite das condições orgânicas/não orgânicas.Um rizoma se  expande e diz: “ estou  aqui”. São  as contradições humanas que  se conjugam em  singularidades. Talvez o paciente não esteja nem aí  para o que  dizem  sobre  ele. Quem sabe? Outros  afetos, alguma coisa que pulsa não detectada pelos  instrumentos científicos. Uma alma. Não há como medi-la nem ela é  trocável. Excluido todo  ranço religioso, a alma é  o desejo. Este precede a consciência e o eu...Por fim, uma psicopatologia da diferença funciona como condição de possibilidade para o trabalho com o paciente numa equipe técnica multidisciplinar. O objetivo  primordial é o de atuar  num  regime  não hierarquizado entre os saberes que  investigam e  atuam sobre  a loucura e  o chamado  portador  de  transtorno mental.
(...)
A.M.
DA CLÍNICA

Em psicopatologia, um erro diagnóstico é bastante comum nos dias atuais. As linhas histéricas, misturadas a outras linhas (psicóticas, por exemplo) acabam lavando  o paciente a ser medicado  de forma inadequada. Entre os vários danos causados, está o de fabricar o fármaco-rosto, o  que o desvia dos "verdadeiros" problemas.

A.M.

CARLOS SANTANA e JOHN MC LAUGHLIN

sexta-feira, 27 de julho de 2012

DEVIRES, DEVIRES

O paciente vive  entristecido pela Grande Máquina. Sua alegria  foi aniquilada  em plena  vigília.  Do nada. Ninguém assume a autoria dos pequenos  crimes. Eles são  administrados em nome da  paz  de espírito. Ora, o espírito  também caga. Avise aos últimos palhaços que a arte foi  solapada em nome do ideal dos homens de branco. Ao que  me consta, nada  mudou no sulco das  bocas. Elas falam rachando dentes. Mastigam auroras nati-mortas. Mas o Rosto carrega  uma expressão justa, como negar? A  bondade natural dos  humanos. Ó Lovecraft,  socorrei! Apenas uma   cidade  respirando um  arco-íris, manda por  favor...  Não falo por  mim. Por  mim, ó... Falo pelo que não sou, falo por devires. Escutai a canção do mundo... Você  dança? O paciente sucumbe à  Ordem.  Por  favor, o senhor pode  me dizer as  horas? Já vai  tarde o tempo dos  mestres, com todo o respeito. Sonâmbulos da própria  dor,como  falar  aos  que  não  falam? A  Grande Máquina é uma  pequena dose de benefícios a curto e médio   prazo. Ela se  insinua na febre dos corredores infectos. Um susto, um sus.  Tudo é  contágio. Resistir à  morte,  querida, e fazer dessa vibração algo novo, será  possível? Talvez um devir-amante imerso em trepadas millerianas. Bicho,  perdoa  o jeito canino:o que é necessário para viver por viver?Pacientes são pacientes demais. Armaduras químicas, lições de casa, manuais de sobrevivência, coisas  simples, eles  são  normais. Eu queria um gosto de sol em você, em suas dores mais  intensas e  irremediáveis. Pena  que  a sombra dos quintais do passado  anuncie sessões de  tortura regadas à dinheiro. A entrega  é às oito.Todos estarão lá, até o  chefe da  Facção Sinistra, aquele mesmo que  começou a seduzir a multidão com truques de  falar  macio. Não tem jeito. Somos  inocentes radicais.

A.M.

BILL EVANS - My foolish heart

DA EXPERIÊNCIA POÉTICA

(...) (...) Ao sondar o verso, o poeta entra nesse tempo de desamparo que é o da ausência dos deuses. Fala surpreendente. Quem sonda o verso escapa ao ser como certeza, reencontra os deuses ausentes, vive na intimidade dessa ausência, torna-se responsável dela, assume-lhe o risco e sustenta-lhe o favor.Quem sonda o verso deve renunciar a todo e qualquer ídolo, tem que romper com tudo, não ter a verdade por horizonte nem o futuro por morada, porquanto não tem direito algum à esperança, deve pelo contrário, desesperar. Quem sonda o verso morre, reencontra a sua morte como abismo.
(...)
M. Blanchot - do livro O espaço literário

PROFETA GENTILEZA

as psicoses estão aí
sem começo
nem fim

PENSAMENTO SEM IMAGEM

(...) (...) Propomos, então, avaliar  o “pensar” ao invés  do pensamento; este, um depósito de  sanções conceituais dualísticas, seja como o puro espírito, seja como secreção oriunda de um cérebro apassivado. Nem uma coisa nem outra, o pensamento é o fluxo dos devires que traça suas linhas tortuosas na busca de expressões do mundo. Uma clínica voltada apenas à visibilidade das coisas não mostra isso. Ademais, fabrica outro corpo e o chama de organismo. Onde estaria o pensamento? Nas alturas do espírito? Na “outra cena” ? Ele é o que  viaja, ainda que possa  estar  no mesmo  lugar. Seus vôos têm a marca do invisível e da velocidade. 
(...)
A.M. 

CHICO BUARQUE - Homenagem ao malandro

NÃO EXISTE UMA TEORIA PSIQUIÁTRICA DA AFETIVIDADE

(...) (...)A  larga  utilização de psicofármacos em associações  variadas borra  a  linha abstrata  que  divide os doentes dos  não-doentes. Para a psiquiatria atual tudo  é psiquiatrizável. Esta sentença  diagnóstica ocupa o lugar de poder respectivo ao enunciado. Importa que o paciente seja   medicado e adaptado. O afeto é secundário à tal manobra terapêutica  porque  ele foi  posto como consciência do sentimento no pacote nosológico. Se  todos são  julgados de antemão  doentes, não interessa saber o que efetivamente sentem (qual o afeto?) e sim o que  fazem... É um regime  paranóico guiado pela razão: desconfiar da afetividade.
(...)
A.M.
NA CONTRA-CORRENTE

O uso crônico de psicofármacos produz um sentimento de "incapacidade" existencial ao paciente, mesmo, e, principalmente se o remédio químico produzir uma melhora dos sintomas. Casos com bom prognóstico (os chamados transtornos "leves") vão sendo rostificados como patologias forever. Remover tal crosta vivencial, ou melhor, auto-vivencial, implica em criar linhas de multiplicidades.O paciente não mais será considerado "pessoa doente" ao modo biomédico, mas  como uma conjunção de linhas do desejo, onde o próprio transtorno cidológico é uma delas. Todo um rizoma se desenha.

A.M.
"Não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético senão que por instinto linguístico."

M. de Barros

JOÃO DONATO - Donatural


SEM  CULPA

(...) (...) Considerando  por  partes, o psiquiatra  sofre o efeito  de várias máquinas. Primeiro, claro, da  própria  psiquiatria.Depois, formando  uma teia  ou  uma  trama de contornos  imprecisos  da medicina, do estado, da academia, da ciência, da pesquisa, do emprego, do  mercado, do dinheiro, da produção, da escola, do direito, da polícia, da moral e  do eu. Esta  não  é  uma lista exaustiva. Serve  apenas  para  pontuar o fato  de que a  pessoa do psiquiatra  não está presente na clínica  como “razão individual” ou “consciência”, mas como peça constitutiva de um agenciamento coletivo. Daí, a ênfase no seu “sofrimento” não como  um afeto  necessariamente  ruim, mas como pathos. O psiquiatra sente e não precisa  dizê-lo (está implícito) mas é preciso torná-lo real mediante o ato  clínico. E  o faz  com  a   força motriz  das suas  capacidades  técnicas  aplicáveis  a cada situação. Não se trata,  pois, de interpelá-lo como pessoa,  indivíduo, pois ele  apenas  repete o script  da palavra de ordem  que aciona  a psiquiatria desde  o seu nascedouro:“este  homem é louco? caso seja, controle-o!” Assim,  sente  o efeito  das produções  desejantes que se conjugam  num eu pronto a  sacar o  remédio  químico. Não  sofre  por  isso (nenhuma  culpa)  e  não  sofre ao  receber ordens implícitas para fazer isso.Nada a ver com  os escrúpulos da  consciência. 
(...)
A.M.

POR QUE A EDUCAÇÃO?

POR QUE?

(...) (...) Por que não teria direito de falar da medicina sem ser médico, já que falo dela como um cão? Por que razão não falar da droga sem ser drogado, se falo dela como um passarinho? E por que eu não inventaria um discurso sobre alguma coisa, ainda que esse discurso seja totalmente irreal e artificial, sem que me peçam meus títulos para tal? A droga às vezes faz delirar, por que eu não haveria de delirar sobre a droga? (...) (...) A frase de O anti-Édipo que eu prefiro é: não, nós nunca vimos esquizofrênicos.
(...)
G. Deleuze - do livro Conversações

quinta-feira, 26 de julho de 2012

PRODUÇÃO-CONSUMO DA CLÍNICA

 (...) (...) A  forma-Saúde e por extensão, a  Saúde Mental,  secretam produtos que  compõem a subjetividade e se materializam na clínica. Ou melhor, na psiquiatria clínica. Há até pacientes   que  chegam  com um   diagnóstico  firmado por  eles  próprios. Desse modo,  antes da vivência da  queixa, o diagnóstico torna-se uma identidade. Produção de consumo. Ao mesmo tempo, a miséria social (não só econômica) se alimenta de reflexões sobre o dito comportamento patológico.  Pesquise, por exemplo, distúrbios do humor. Ou sobre o pânico diante da violência urbana. Qualquer  coisa. A forma-saúde mental  é invisível, mas  o técnico exibe a sua  marca  no mercado dos   especialismos.
(...)
A.M. 

MEMÓRIA DO LODO


SOLIDÃO POVOADA

(...) (...) Eu procurava uma alma que se assemelhasse a mim e não conseguia encontrá-la. Revolvi todos os cantos da terra; minha perseverança foi inútil. No entanto não podia continuar só.Era de manhã; o sol ergueu-se no horizonte em toda  a sua magnificência e eis que, diante dos meus olhos, ergue-se também um jovem cuja presença fazia brotar flores à sua passagem.
(...)
Lautrèmont - do livro Cantos de Maldoror

PAUL KLEE

quarta-feira, 25 de julho de 2012

GRUPISMOS  EM  SÉRIE


A  maior parte dos grupos  humanos está  assujeitada a instâncias transcendentes. Pode ser  o eu  do líder, o nome  da família, a  imagem do rei, as palavras  do mestre, certa  filosofia, as  coerções de  uma  organização, a competitividade, a  palavra da mídia, a ciência, o consumo automático, a  arte, a revolução, Deus,o partido, etc. A lista é praticamente infinita.O que  esses dados  heterogêneos  tem  em comum é a função de conduzir   o grupo  em direção a  objetivos  fora  dele mesmo. Ou seja, o grupo só existiria  a partir de algo que  o ultrapassasse como vivência  concreta de  si.  Tal  vivência recolhe  o que  vem de  fora  (pois nenhum grupo   surge  do nada ) e ergue uma crença no imaginário, o qual se torna  parte de um senso comum  grupal. “Todos pensam assim”.  Uma crença coletiva  faz  do  grupo  a  natureza que o “autoriza”   a assumir  uma  espécie  de essência, forma e status. Irão aí  medrar as  futuras  burocracias e os  micro-fascismos, de  onde  a instituição da  Grupalidade  fabrica um  refúgio bem sucedido    das   forças  do  tempo e do caos. “Você não  é dos  nossos”. “Morte ao  estrangeiro”, “só entra  aqui sendo...” são palavras  de ordem que  passam a ressoar na  vida  do  grupo  como formações inconscientes.
(...)
A.M.

VINICIUS e TOQUINHO - Samba de Orly


GLOSSÁRIO

CIDOLOGIA, s.f.,  1- estudo dos comportamentos patológicos, segundo a ótica da psiquiatria; 2-saber inserido nas relações de poder do psiquiatra com o seu paciente; 3-sistematização de uma pseudo-nosologia obedecendo aos cânones do pensamento organicista, mecanicista e positivista;4- manobra político-institucional da psiquiatria biológica,  visando manter vantagens pecuniárias no mercado internacional dos psicofármacos; 5-espécie de conhecimento ilusório sobre a loucura, mas referendado por agências de poder interessadas em lucrar com o sofrimento do louco.

A.M.
DEVIR-PENSAMENTO

(...) (...) Devir-pensamento é seguir e construir linhas de criação de si mesmo  em meio às  padronizações e formalizações da razão técnica. Desse  modo, os pensamentos “alterados”   serão  tributários de um universo de sentido só captável por métodos fora do alcance da  visão biomédica. O obsessivo vive e se  “alimenta” de  um universo (ou um plano) que  coexiste  com a sua “doença”. O mesmo ocorre com  o maníaco, o  depressivo, etc. Qual é  esse  universo? Onde  está? Como funciona? Não  há  um, mas  vários  universos em lugares distintos, a depender das  forças que  compõem o Contexto onde  o paciente se insere. Se este se acha  envolvido pela crosta das  subjetivações psi (psiquiatria e cia), nada a fazer senão observar, intuir, ouvir, captar, capturar, perceber, conectar, implicar-se no fluxo dos devires. 
(...)
A.M.

APRESENTAÇÃO DA QUADRILHA

CÓDIGOS  A-SIGNIFICANTES

Proceder uma dissolução dos códigos nosológicos, diagnósticos, cidológicos é um dos objetivos da clínica das multiplicidades  em psiquiatria. Esta é usada  tão só como peça de uma máquina de produção de sentido. A questão é prática, pois. Diante do caos da semiologia psicopatológica (há delírio? qual? há hipotimia? angústia? etc...), qual atitude precederá a técnica?

A.M.

SALVADOR DALI

Os elefantes
"Os marginais sempre nos causaram medo e um pouco de horror. Eles não são o bastante clandestinos."

G.Deleuze - do livro Diálogos
PSIQUIATRIA BIOLÓGICA: A SANHA DO CONTROLE

(...) (...) A psiquiatria, como nunca antes, tem “necessidade” de controlar com competência técnica. Usa dispositivos práticos em casos e situações clínicas  pontuais. Em oligofrênicos, por exemplo, a expressão da fala em geral está comprometida, seja por uma dislalia ou pela atividade cognitiva reduzida a nível das  relações conceptuais na formação e execução de juízos. O diagnóstico chega rápido...É essencial registrar que o exame  do paciente acaba ficando mediado pela fala no sentido mais comum e operatório do contato  social. Digamos: uma máquina não está  funcionando a contento e é preciso consertá-la. Esse modo de ver não constitui uma acusação à  semiologia psicopatológica atual. Bem mais, trata-se de demonstrar sua insuficiência técnica “essencial”com repercussões por vezes danosas sobre a conduta  terapêutica. 
(...)
A.M.

terça-feira, 24 de julho de 2012

PAULINHO DA VIOLA e MARIA BETHÂNIA - 1969

MULTIPLICIDADES NA CLÍNICA


(...) (...)  Então, o nosso Contexto é tudo que  implica ser atual. Nada  abstrato; pelo contrário: o Concreto se expressa no corpo que se arrasta, vacila,  bem como se  ergue, flutua e dança. Não consideramos uma ordem serial de vetores etiológicos que  caberiam numa  lógica dura para “explicar”o quadro psicopatológico ou até o diagnóstico nosológico. Ao contrário, a própria etiologia é uma multiplicidade como no caso das síndromes orgânicas acima de qualquer  suspeita (lesões cerebrais demonstráveis). É possível trabalhar num campo de possibilidades  existenciais que emerge de cada  contato. Isso  precisa ser  inventado. Pensar é  criar  também do lado de quem cuida e não se restringe ao imperialismo  da técnica. O devir-pensamento, como todo devir, funciona em bloco, como uma “liga”entre partes dispersas e heterogêneas da subjetividade; não para juntá-las numa  totalidade, mas para  torná-las  consistentes em si mesmas.

(...)
A.M.
PENSAMENTO DA SAÚDE MENTAL


O conceito de sáude mental é tributário de uma visão mecanicista (linearidade causa-efeito) e substancialista (mente=coisa, substância) dos modos de subjetivação. Ele serve à medicina e às suas agências de apoio teórico e operacional. Obedece a um funcionamento automatizado nas chamadas políticas de saúde mental. Por essas e outras, o cérebro MENTE.


A.M.

MICHEL FOUCAULT - as funções do juiz



RELATOS DO ACASO

Relato  4 – Fugindo  do hospício – Estávamos na  Casa  de  Saúde Ana  Néri, eu  e cerca de  8 alunos do  curso de Psicopatologia  da Faculdade  Ruy Barbosa. Findo    o horário da nossa  visita,  caminhávamos em direção  à saída. Eram muitas  portas  a serem abertas. Da  enfermaria masculina  para  o corredor, deste para outra enfermaria, passando por um pátio, no refeitório, até  alcançar  a  última  porta que dava acesso ao saguão de entrada  do  sanatório. Em todas  essas passagens, eu ficava atento para   evitar  que  algum paciente  “escapulisse” . É que,  enquanto  um  auxiliar  de  enfermagem abria a porta  com a chave mestra, invariavelmente muitos pacientes  se  aproximavam   querendo   sair, gritando  para   ir  embora,  ter  alta, etc.  Cena  típica  do  hospício. Entre os  pacientes  havia  um mais  insistente  que  conseguiu esgueirar-se e escapou  do  nosso  controle.  Estávamos  na penúltima porta  antes  da saída. Ele  saiu  correndo e  quando deparou-se  com a última  porta, por coincidência  alguém  a  abrira  pelo  lado  oposto. Ele aproveitou a  sorte  e continuou a  sua  corrida. Estava  a   cerca  de   três metros  entre  essa porta  e  a  recepção,  e a  um metro  da porta  da  rua. Passou  como uma  bala  pela  recepção e quando todos  esperavam  que  continuasse o pique  rumo à liberdade,   estancou no portal de entrada. Seu  corpo ficou  imóvel, impassível, (catatônico?),  o rosto  expressando   um misto de perplexidade e medo. Foi o lapso  de tempo  suficiente para  ser  recapturado pela  enfermagem.
(...)
A.M.- do livro Trair a psiquiatria


segunda-feira, 23 de julho de 2012

RAUL DE SOUZA

ALIANÇAS

Na  cena da  saúde mental,  muitas instituições  presentes,   nem por isso  identificáveis. Fala-se   do espírito da medicina e do   cortejo de especialidades voltado ao bem do paciente. O caso psiquiátrico é único, pois seu   especialismo  está  à serviço da instituição. Esta  se oculta.  Trata-se  de um dispositivo que operacionaliza um modelo abstrato de  concepção do homem   e por extensão da  racionalidade. Tal “modelo abstrato” surgiu de situações  concretas, por  exemplo, ao se   encarcerar  um  louco. Velhas  histórias por demais  desconhecidas, cada  vez mais enterradas nos porões de um inconsciente institucional,  assombram  consciências puras. Assim,  alianças povoam o universo psiquiátrico.  Não  é possível separá-las umas  das outras, tais  os  amálgamas embutidos em confissões de atos em palavras  e ordens. Ser psiquiatra é ser médico. Truísmo envolvente que põe até mesmo homens gama  à  serviço do controle das  condutas.  Fica mais fácil a propagação dos  códigos que não firam o bom senso. Não há mais escolas psiquiátricas, como existiam a orgânica e a psíquica. Todos  agora pregam  a devastação das cadeias  do cérebro em prol de um novo dualismo. Cérebro e corpo. No entanto, falamos de outras  alianças. No fundo da  noite, populações do inconsciente deslocam-se. São afetos sem nome, riscos nômades atravessando o deserto do organismo. Instituem o corpo sem chaga nas mãos  e   sem vergonha  nos  olhos. Um paciente egresso de armaduras químicas sai à  rua em busca  de parceiros. Pode ser no seu quarto o encontro que  se avizinha. Ou a hora da morte que chega num parto natural. Pode  ser.
(...)
A.M.

PICASSO

domingo, 22 de julho de 2012

A MERCADORIA

(...) (...) A riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma "imensa coleção de mercadorias", e a mercadoria individual como sua forma elementar. Nossa investigação começa, portanto, com a análise da mercadoria.

(...) K. Marx - do livro O capital (capítulo I)

CAETANO VELOSO - Os outros românticos


PACIENTES  PACIENTES


Paciente-doutor, qual é a minha doença?
Psiquiatra-você quer um diagnóstico... é isso?

Paciente-sim, sim... por favor, doutor...
Psiquiatra- você é portador da Síndrome de dependência da psiquiatria (Sindep).

Paciente-oh, parece sigla de sindicato...
Psiquiatra- e é; Sindicato dos Pacientes Demais.

A.M.
Repetir repetir   -   até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

M. de Barros

CLAUDE DEBUSSY - Reverie

INCONFORMISMO RADICAL

Que as causas da miséria não tenham desaparecido, isso não deixa a menor dúvida. Que essa miséria ainda seja o produto das mesmas lógicas, é evidente. Que essa causalidade funesta e maléfica se disfarce sob perpétuas metamorfoses, isso já não é mais mistério. Que esse horror seja gerado pelo antigo capitalismo enlouquecido, isso parece uma opinião ajuizada.Que uma mística de esquerda seja então necessária, útil e urgente, quem duvidará entre as vítimas cada vez mais numerosas dessa regra do jogo?
(...)
M. Onfray - do livro A política do rebelde - Tratado de resistência e insubmissão

SINTOMA

O paciente carrega   sintomas. O médico conversa  com eles. Todo paciente é uma  multiplicidade  de sintomas, inclusive ele. O eu-sintoma se expressa por  signos. Envia signos, não para  serem  decodificados, mas para criarem um mundo. Este mundo precisa de aliados, operadores de  territórios. Então, o sintoma que a farmacoterapia alcança, “deve” ser substituído por territórios existenciais. Pode ser qualquer coisa, a mais  insignificante. Caso não aconteça, o paciente vira o sintoma que vira o diagnóstico que não vira mais (*)  Isso  fecha uma ação  redundante  sobre  si mesmo, um sistema  fechado. Como Ilya Prigogine, acreditamos nos  sistemas  longe  do equilíbrio  onde rearranjos da matéria afirmam  universos  virtuais. Desse modo, sintomas podem ser  usados  como trampolins psíquicos, disparadores de processos vitais. A psiquiatria, ela própria, é  um sintoma, ou um analisador da sociedade industrial. Extingui-lo seria extingui-la. Isso não é  (ainda) possível face às atuais correlações de forças. No entanto, reutilizá-la em pedaços  dispersos para  uma clínica a se inventar... como fazer?
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

(...) No sentido em que se diz "Esse carro não vira"

sábado, 21 de julho de 2012

SURGIMENTO DAS PRISÕES - FOUCAULT - Parte I

HUMANISMO: A ABSTRAÇÃO CONCRETIZADA


Falar de "humanismo" é usar como implícito o enunciado de Protágoras que faz  do homem a "medida de todas as coisas". Ora, esse pensamento compõe a  expressão de  discursos e instituições. Por exemplo, diz a Família que quer a felicidade dos seus membros. Diz a Medicina que quer a saúde do paciente.Diz a Escola que que educar o aluno. Diz o Direito que quer a justiça social.  Diz o Estado que quer a segurança do cidadâo. Diz a Religião que quer salvar os seus fiéis, etc, etc.. Será isso mesmo? 


A.M.
"É preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante"

F. Nietzsche

HUMANO, DEMASIADO HUMANO

A CONSCIÊNCIA, AINDA

(...) (...) O eu  pressupõe  o desejo  e  não  o contrário. Desse  modo, na  esquizofrenia  processos desejantes  se esfacelam no instante da  enunciação:  “este  sou  eu” .  Não  importa a   avaliação  da  consciência, exceto se essa  avaliação considera  o  eu,  suas expressões e produções. Isso se  traduz no que a psiquiatria chama de apragmatismo social, conceito  impreciso  pela  própria  natureza. A  função do eu  remete ao  juízo  ou ao  pensamento  enquanto  juízo  da  realidade. Daí   porque ele se expressa como o Sujeito, sujeito individual. O nível  da consciência fica  encoberto, e só é dado como modificado, quando há uma causalidade física evidente: delirium. Mas na  histeria dissociativa a consciência se modifica adotando formas aberrantes. Tudo passa por  ondas  de afetos (desejos) que se deslocam pelo organismo, tornando o cérebro  um joguete  nas mãos de forças poderosas. Neste sentido, o conceito de consciência,  preso  a uma  ambiguidade de  origem, se revela  inadequado  a  uma semiótica  psicopatológica da  diferença.
(...)
A.M. 

GILLES DELEUZE: resistir, resistir...


MENTE OU CORPO?

(..) (...) Correlata à consciência, a questão  mente-corpo  atravessa o pensamento clínico-psiquiátrico. Ela está ligada à pesquisa etiológica  dos transtornos  mentais. As  teorias se  fizeram  a  partir de um dado primário que é  o da clínica, ou seja, da  observação  do  paciente. Mas o conceito de alienação, vindo da  filosofia, abstrai para a  consciência  o que  se constata na  prática. O paciente, em maior ou menor grau, está  fora de  si  mesmo, padecendo de  uma espécie de consciência alienada. Torna-se estrangeiro de si. Cabe a psiquiatria recolocá-lo  no lugar dele, desaliená-lo. Esse fato percorre o século XIX  sob  o nome de alienismo.Num  tempo  pré-freudiano, a consciência  abarcava  todo o campo  do que se  chama “mente” ou  “eu”, termos que acabam sendo sinônimos, pois  atuam  de modo  idêntico. São  requisitos nominais  para  ações  médicas  de examinar, tratar, reabilitar, julgar, etc...
(...)
A.M.

DA  ROSTIFICAÇÃO DO MUNDO

(...) (...) O significante é sempre rostificado. A rostidade reina materialmente sobre todo esse conjunto de significância e de interpretações (os psicólogos escreveram bastante acerca das relações do bebê com o rosto da mãe; os sociólogos, acerca do papel do rosto nos mass-media ou na publicidade). O deus-déspota nunca escondeu seu rosto, ao contrário: criou para si um e mesmo vários. A máscara não esconde o rosto, ela o é. O sacerdote manipula o rosto de deus.Tudo é público no rosto do déspota, e tudo que é público o é pelo rosto. A mentira, a trapaça pertencem fundamentalmente ao regime significante, mas não o segredo.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari - do livro Mil platôs

PAUL GAUGUIN


sexta-feira, 20 de julho de 2012

VIAGENS DE MIGUEL


Miguel se expande por devires indecifráveis. Ele nem sabe, nem é preciso. Tento ir no encalço. Ele responde: "pai, que está fazendo aqui?". Me encolho numa insignificância real, como se diz, para em seguida voltar à vida. Pois Miguel é um desafio incessante sobre o que é viver. Não quero me repetir acerca da criança metafísica. Isso é coisa de um passado recente apagado no fogo do presente. Ouça: Miguel é um presente do Abstrato. Me vejo  perguntando coisas simples, como por exemplo "o que é viver?".As respostas chegam enfileiradas num caos ativo e alegre. Contra a ameaça do sem-sentido, Miguel afirma: é a aposta no indeterminado. Então, acordo com gosto de cereja na língua. Alguns não se submetem, eu bem sei, à agonia do Nada. No entanto, em algum lugar Miguel se torna personagem conceitual de um mundo a se fazer, a se tecer, a se criar... um artista,enfim.


A.M.

LAURINDO DE ALMEIDA toca Barquinho de MENESCAL/BÔSCOLI

CRU E CRUEL

Falamos de instituições como formas abstratas de relações sociais que se materializam em práticas. A subjetividade é uma instituição. Nenhuma instituição funciona só. Sempre em tramas, sempre em rede, elas se aliam ou combatem umas às outras. Consistem de relações de forças, poderes. (Foucault vive). Há que se despir, portanto, de todo e qualquer humanismo ao analisá-las, e principalmente, vivê-las.

A.M.
O PROBLEMA DA CONSCIÊNCIA EM PSICOPATOLOGIA


(...) (...) O dualismo  mente-corpo  , em psicopatologia clínica,  é  “resolvido” pela  presença   do eu enquanto  coordenador das ações subjetivas no mundo. Deste  modo, a partir  da indagação “quem  fala?”insinua-se o eu enquanto  modo  de  responder  a interpelação psiquiátrica.  No lugar do cérebro, o  eu. Assim se produz  o modelo do  homem adequado às  regras sociais. Isso   leva à implicações diretas no funcionamento da  clínica e na possibilidade  de um bom encontro .Ao  colocar  o eu como básico à enunciação  de   si mesmo,  não  há  condições para o Encontro.   No seu lugar se instala o Exame psiquiátrico. É  que o eu precisa de  uma interação  estabelecida   sob  uma base  técnica, a qual, por sua natureza  médica, contrai  os elementos não-clínicos numa  grade de significantes exatos . Pode ser uma tabela para medir  o humor, por exemplo. Tudo vem e volta ao eu.  Essa instância   põe a psicopatologia como   clínica neuropatológica  onde o sintoma é considerado o incômodo a ser excluído, deletado. O dualismo  mente/corpo se   reproduz  na  prática. O movimento é o dos corpos visíveis o qual ébarrado  via  fármacos. As  imagens estariam na consciência, espécie  de projeção  do  cérebro. Sobre  as  imagens, o controle  passa a ser indireto, se  é que há controle. De  qualquer  modo, a  psiquiatria, nesse  ponto,   “passa a bola” à psicologia, à  psicoterapia  ou à  práticas   afins  que  deverão completar o serviço de desalienação, e, portanto, de volta do  sujeito  à  realidade. Tais   saberes, no  âmbito  do  trabalho multidisciplinar  em Saúde  Mental, acabam por  referendar  um dualismo  teórico que  esconde relações  de poder há  muito tempo  cristalizadas.

(...)
A.M.