quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

JOÃO GILBERTO, LOUCO?

A história acaba no momento em que a cantora e compositora Bebel Gilberto se apresenta às portas da casa de seu pai, o também cantor e compositor João Gilberto, acompanhada de um oficial de Justiça. Nas mãos de Bebel, a notificação oficial da sentença que lhe outorga o controle dos bens e das contas de seu pai. Durante duas horas, ela esperará ser recebida por João, sem conseguir. Voltará dali a dois dias, com o mesmo resultado.
A interdição daquele que foi referência da música e da cultura brasileiras, já com 86 anos, coloca o ponto final em um drama sórdido como poucos. O Brasil, o mundo inteiro, assiste atônito. “Como chegamos a isso?”, pergunta Marcelo, dono de uma banca de jornal em um bairro da zona sul do Rio. “É como se tivessem declarado o Pelé como louco”.
(...)

Chema Garcia Martinez, Rio de Janeiro,31/012018, 12:19 hs

Livre

Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.


Cruz e Sousa 

ME CHAME PELO SEU NOME, direção de Luca Guadagnino, 2017

PROMESSA - UM ANO ANIMADO

A pouco mais de oito meses da eleição presidencial de 2018, o futuro político do Brasil está nas mãos dos eleitores desanimados (votos brancos), irados (votos nulos) e desnorteados (indecisos). Juntos, eles somam 36% do eleitorado no principal cenário sem Lula, revela o Datafolha. É o dobro do percentual atribuído ao líder provisório Bolsonaro (18%). A legião dos sem candidato é quase equivalente aos 39% amealhados pelos quatro potenciais presidenciáveis que se acotovelam no pelotão secundário: Marina (13%), Ciro (10%), Alckmin (8%) e até Huck (8%). É coisa jamais vista desde a redemocratização.

Diante de uma conjuntura assim, tão perturbadora, é impossível fazer prognósticos. Mais de um terço do eleitorado revela-se incapaz de confiar nos candidatos. E há males que vêm para pior: os candidatos revelam-se incapazes de inspirar confiança. Na Era da Lava Jato, uma das características fundamentais da dificuldade de julgamento do eleitorado é ter que ouvir os políticos para chegar à conclusão de que a maioria não tem nada a dizer. Afora a deficiência de caráter, o principal déficit localiza-se entre as orelhas dos presidenciáveis.

A pesquisa trouxe uma má notícia para Bolsonaro. Embora continue na primeira colocação, o ''fenômeno'' parou de crescer. Um sinal de que a empulhação tem limites. A sondagem forneceu uma boa notícia para o PT. O potencial de transferência de votos de Lula caiu. Mas 27% dos pesquisados ainda declaram que o apoio do condenado a 12 anos e 1 mês de cadeia “com certeza” influenciaria seu voto. Outros 17% dizem que “talvez” escolhessem um candidato indicado por Lula. Significa dizer que não são negligenciáveis as chances de o ex-mito colocar um poste no segundo turno. Evidência de que ainda sobra matéria prima para a fabricação de tolos.

Bolsonaro continuará murchando? Lula eletrificará mais um poste desde a cadeia? Quantos votos do futuro presidiário petista migrarão para Marina. Quantos serão herdados por Ciro? Quem emergirá como alternativa viável do centro? Com a palavra os eleitores desanimados, irados e desnorteados. O futuro da eleição presidencial pertence aos sem candidato.

Submetido à podridão revelada pela Lava Jato, o eleitor brasileiro entrou em parafuso. Para complicar, os candidatos rodam como roscas espanadas. Não saem do lugar. Exibem poucas ideias. Muitas são ruins. Outras nem são deles. Os que falam de improviso passam a impressão de que procuram as ideias desesperadamente —mais ou menos como um cachorro que escondeu o osso e esqueceu a localização do esconderijo.


Do Blog do Josias de Souza, 31/01/2018, 06:19 hs

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

BLOG DE FÉRIAS - 9 DIAS
A LADAINHA CIENTÍFICA

As conquistas, os avanços no campo neurocientífico não equivalem a um avanço no campo psiquiátrico. Oferecem, claro,  instrumentos práticos e teóricos para se pensar e lidar com o cérebro. No entanto, a psiquiatria não é apenas o cérebro. Ou, pelo menos, não deveria sê-lo. Reduzir a complexidade dos fenômenos mentais ao cérebro. é no mínimo, adotar uma visão tosca da psicopatologia. Desse modo, a questão não é contra as neurociências, mas contra um certo uso das neurociências no campo da clínica psicopatológica. O cérebro mente.


A.M.

domingo, 21 de janeiro de 2018

ALEXIS SLUSAR


O SOLITÁRIO

Entrou num bar
e permaneceu
três horas
conversando apenas
com a boca de um copo.

Depois
com as bocas de algumas garrafas.

E aqueles objetos
entendiam tudo perfeitamente
-o que é mais grave.



Luis Sérgio dos Santos
As festas me deixavam doente. Detestava as falsas aparências, os jogos sujos, os namoricos, os bêbados amadores e os chatos. Como solitário, eu não suportava invasões. Isto não tinha nada a ver com ciúmes, simplesmente não gostava de pessoas, multidões, onde quer que fosse, exceto nas minhas leituras. As pessoas diminuíam-me e deixavam-me sem ar.
(...)

Charles Bukowski

CARLA BLEY, RUDIGER KRAUSE e STEVE SWALLOW - Lawns

A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas da vida.

Lygia Fagundes Telles
O ESPÍRITO DO ESTADO

(...) Desejo do Estado, a mais fantástica máquina de repressão é ainda desejo, sujeito que deseja e objeto de desejo. Desejo — é esta a operação que consiste sempre em reinsuflar o Urstaat original no novo estado de coisas, em torná-lo tanto quanto possível imanente ao novo sistema, interior a este. E, quanto ao resto, partir novamente de zero: fundar aí um império espiritual sob formas tais que o Estado já não possa funcionar como tal no sistema físico. Quando os cristãos se apoderaram do império, reapareceu esta dualidade complementar entre aqueles que queriam reconstruir o Urstaat tanto quanto possível com os elementos que eles encontravam na imanência do mundo objetivo romano, e aqueles outros, os puros, que queriam partir novamente para o deserto, recomeçar uma nova aliança, reencontrar a inspiração egípcia e Síria de um Urstaat transcendente. Quão estranhas eram as máquinas que então surgiram sobre as colunas e nos troncos das árvores! Neste sentido, o cristianismo soube desenvolver todo um jogo de máquinas paranoicas e celibatárias, toda uma leva de paranoicos e perversos que, também eles, fazem parte do horizonte da nossa história e povoam nosso calendário.São os dois aspectos de um devir do Estado. sua interiorização num campo de forças sociais cada vez mais descodificadas, formando um sistema físico; e sua espiritualização num campo supraterrestre cada vez mais sobrecodificante, formando um sistema metafísico. É ao mesmo tempo que a dívida infinita deve interiorizar-se e espiritualizar-se; aproxima-se a hora da má consciência, esta será também a hora do maior cinismo, “essa crueldade recolhida do animal-homem recalcado em sua vida interior, refugiando-se, temeroso, na sua individualidade; aprisionado no Estado para ser domesticado...”
(...)

G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo

sábado, 20 de janeiro de 2018

DEVIR-MULHER
                                     
Todo rosto é uma paisagem.  Mulheres povoam o deserto sem oásis. Paixões são deixadas no caminho dos tuaregues. Encontrei passagens  secretas. Me deixei ir. Dormi com as algas. Salguei nas  entranhas. Escorri  com a  chuva.  O tempo  avisou: a hora  nunca chega. É difícil  encontrar uma  mulher anunciando  o vento, arrastando   enseadas. Lá vem ela  em plena  manhã de  sol. Olho seus olhos. Como posso achá-los senão através de uma  “longa preparação”? Me perco em romances e imagens. Protelo encontros cruéis. Essa alegria  tão alegre,   dói.  Onde  achei   mulheres  de  rosto cósmico,  as  expressões  do mal foram  do  bem.  Fui direto às  que  teceram  vidas e   camas  em   espaços  quentes. Adornei  veias com traços heróicos de coxas lisas.  Olhos  graúdos me ensinaram a nadar  na secura  dos  lábios.  Cabelos muito  pretos cheiravam aos perfumes do orvalho. Eles enlaçavam  a alma viajante das intensidades em brechas do desejo.  Pongando no seu corpo, saí a passear  por planícies infinitas. Isso me trouxe a alegria em pequenos potes. Quantas vezes naufragamos? Toda mulher é uma paisagem. Afirma as horas que chegam doadas em películas de ouro. Nada volta. Estou aqui. Um  coração professa  o anti-romantismo disfarçado de suavidades. Uma voz rouca ecoa musical.  Estágio zero. Nunca se ama uma mulher, mas os seus signos enviados. Os nômades, os feiticeiros, os mágicos, acendem as tardes translúcidas e luzidias de Salvador:  tudo arde, tudo treme na busca da anti-cura do desvario mais selvagem. As mulheres são melhores.


A.M.

MARIA BETHÂNIA & ANA CAROLINA - Pra Rua Me Levar.

Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos. Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos." "Eu não sou pessimista, sou triste."

Fernando Pessoa
(...)  ‘Quem sou eu realmente?’ ou ‘O que eu realmente faço’ sempre são um freio tanto à existência quanto à atividade. (...) Se estou nadando e me pergunto em que consiste a natação, afundo. Se danço e me pergunto em que consiste a dança, caio no chão. Se sou Strawinski trabalhando e me pergunto quem é Strawinski e em que consiste seu estilo, minha partição em curso de elaboração se interrompe imediatamente. Em suma, o exercício da vida implica uma certa inconsciência que poderíamos definir como uma não preocupação ‘quanto a si’.
(...)

Clement Rosset

VALDNEY SUSART


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O ASSINALADO

Tu és o louco da imortal loucura;
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma desventura extrema;
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o poeta, o grande assinalado;
Que povoas o mundo despovoado
De belezas eternas, pouco á pouco.

Na natureza prodigiosa e rica,
Toda a audácia dos nervos justifica,
Os teus espasmos imortais de louco.


Cruz e Sousa

LULA, ONDE ESTÁS?


CONTRATODOS

A contrassexualidade não é a criação de uma nova natureza, pelo contrário, é mais o fim da Natureza como ordem que legítima a sujeição de certos corpos a outros. A contrassexualidade é, em primeiro lugar: uma análise crítica da diferença de gênero e de sexo, produto do contrato social heterocentrada cujas performatividades normativas foram inscritas nos corpos como verdades biológicas (Judith Butler, 2001). Em segundo lugar: a contrassexualidade aponta para a substituição desse contrato social que denominamos Natureza por um contrato contrassexual No âmbito do contrato contrassexual os corpos se reconhecem a si mesmos não como homens ou mulheres, e sim como corpos falantes, e reconhecem os outros corpos como falantes. Reconhecem em si mesmos a possibilidade de aceder a todas as práticas significantes, assim como a todas as posições de enunciação, enquanto sujeitos, que a história determinou como masculinas, femininas ou perversas. Por conseguinte, renunciam não só a uma identidade sexual fechada e determinada naturalmente, como também aos benefícios que poderiam obter de uma naturalização dos efeitos sociais, econômicos e jurídicos de suas práticas significantes.
(...)

Paul Beatriz Preciado, Manifesto Contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual, 2014
O que mais me impressiona nos fracos é que eles precisam  humilhar os outros para se sentirem fortes...

Mahatma Gandhi

A VIDA É BELA, direção de Roberto Benigni, 1998

HORROR SEM FIM

Viviam de noite e dormiam de dia, por isso há anos ninguém os via. As crianças não comiam, não viam a luz do sol, não sabiam o que era um policial ou um remédio. Há dois anos estavam planejando a fuga. Finalmente, uma garota de 17 anos reuniu coragem suficiente para sair por uma janela de sua casa, ligar para a polícia e trazer à luz um dos casos mais terríveis de abuso infantil já visto nos Estados Unidos. Na quinta-feira foram conhecidos os primeiros detalhes da casa dos horrores de Perris, Califórnia, onde a polícia encontrou 13 irmãos entre dois e 29 anos, subnutridos e malcheirosos, sequestrados por seus próprios pais.

A conferência de imprensa do promotor do distrito de Riverside, Mike Hestrin, para explicar as acusações contra David e Louise Turpin revelou o inferno que estava escondido em uma casa de classe média a 120 quilômetros a leste de Los Angeles e que foi descoberto pela polícia às 7h da manhã do domingo, dia 14 de janeiro.

A família inteira dormia às 5h ou 6h da manhã, disse o promotor. Dormiam o dia todo e ficavam acordados a noite toda. A casa fedia. As crianças só tinham permissão de tomar banho uma vez por ano. Se lavassem as mãos acima dos pulsos, eram punidos pelos pais por desperdiçar água.

Essas punições incluíam surras e estrangulamento, mas principalmente consistiam em amarrá-los aos móveis. No início, amarravam com cordas. Depois que um escapou, começaram a usar correntes e cadeados. Essas punições “duravam semanas ou meses”. Na manhã de domingo, três crianças estavam acorrentadas quando a polícia chegou na casa dos Turpin. Dois deles, de 11 e 14 anos, foram desamarrados antes que os agentes entrassem na casa. Uma jovem de 22 anos continuava algemada. “Pelas provas encontradas na casa, não tinham permissão de ir ao banheiro” quando estavam de castigo.
(...)

Pablo Ximénez de Sandoval, El País,Riverside, 18/01/2018, 22:30 hs

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

HOMEM RINDO

A roda de amigos
sacudida por uma
rajada de risos.

Me concentro num
homem tímido que
sorri por dentro.

Deslocado na roda
rapidamente corta
o riso pela raiz.

Mas o riso retorna.
Coceira furiosa nos
orifícios do nariz.

Bebe graça no gargalo
rola rala racha o bico
ri até ficar sem graça.

A rodada de amigos
explode às gargalhadas:
o tímido é sua cachaça.


Augusto Massi
Eu lutei contra a dominação branca, e eu lutei contra a dominação negra. Eu nutri o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal que espero viver para alcançar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer.

Nelson Mandela

JOÃO BOSCO - Estate

DO QUE SE TRATA?

A questão do farmacologismo em psiquiatria não se resume a passar remédios químicos em excesso. Isto é demasiado evidente. Psiquiatras "remedeiros" se multiplicam... Queremos dizer outra coisa, levantar questões, não necessariamente nesta ordem de importância: em primeiro lugar, o psicofarmacologismo se impõe graças ao efeito do aniquilamento das pesquisas em psicopatologia clínica. Um diagnóstico complexo é substituído por um diagnóstico equivocado ou até pelo não-diagnóstico. Em segundo, ao mecanicismo científico instituído como verdade epistemológica (relação linear causa-efeito, o cérebro reificado) e a parceria acadêmica da psiquiatria com as neurociências. Em terceiro, pelo efeito (rápido) de controle químico sobre as condutas ditas anormais. O problema fica aparentemente solucionado... Em quarto, devido aos interesses poderosos das multinacionais farmacêuticas. A propaganda adentra a relação médico-paciente como um elemento constitutivo da mesma. Em quinto, pela ausência de uma teoria psiquiátrica da subjetividade, e no seu lugar a fabricação de mentes-em-série. O escravo moderno. Em sexto, pelos grandes buracos semiológicos (o que é um transtorno mental?) pregados na grade nosológica psiquiátrica. Daí, o psiquiatra que não sabe o que se passa nem do que se trata. Nem quer saber. Em sétimo, pela medicalização vertiginosa e generalizada dos problemas sociais, manobra "esperta" dos poderes vigentes. Em oitavo, pelo funcionamento institucional contemporâneo de buscar tamponar quimicamente a tragédia humana (nada de angústia...) e, por extensão, sua alegria oculta. Estes oito tópicos não esgotam a análise do problema, mas são eixos para se pensar.


A.M.


Obs.: texto ampliado e republicado.
O MURO

Não possuía mais a pintura de outros tempos. 
Era um muro ancião e tinha alma de gente. 
Muito alto e firme, de uma mudez sombria.

Certas flores do chão subiam de suas bases 
Procurando deitar raízes no seu corpo entregue ao tempo. 
Nunca pude saber o que se escondia por detrás dele. 
Dos meus amigos de infância, um dizia ter violado tal 
segredo, 
E nos contava de um enorme pomar misterioso.

Mas eu, eu sempre acreditei que o terreno que ficava atrás 
do muro era um terreno abandonado!


Manoel de Barros

PAVEL MITKOV


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

CRIANÇAS FAMÉLICAS

Acredito que não exista nada mais doloroso do que ver uma criança morrer de fome, principalmente se isso acontece em um país que, como a Venezuela, tem as maiores reservas de petróleo do mundo e se proclama socialista. Não deixa, portanto, de causar estranheza o silêncio da esquerda brasileira diante dessas mortes infantis por falta de comida no país amigo. O Partido dos Trabalhadores quer voltar ao poder com Lula. Tem todo o direito de tentar fazer isso democraticamente, mas antes terá de nos dizer o que pensa sobre o que a imprensa mundial está denunciando a respeito da Venezuela. Semanas atrás, a Folha de S. Paulo escreveu: “A fome persegue a Venezuela há anos. Agora está matando as crianças do país em um ritmo alarmante”. O jornal relata como uma equipe do The New York Times publicou no Natal uma longa investigação realizada durante cinco meses em 21 hospitais de 17 estados venezuelanos em que médicos e enfermeiros confirmaram que as crianças estão morrendo de fome e desnutrição por falta de comida.
(...)

Juan Arias, El País, 16/01/2018, 21:56 hs
A SERVIDÃO DESEJADA

Por que os homens combatem por sua servidão como se se tratasse da sua salvação? Como é possível que se chegue a gritar: mais impostos!  Menos pão! Como diz Reich, o que surpreende não é que uns roubem e outros façam greve, mas que os famintos não roubem sempre e que os explorados não façam greve sempre: por que os homens suportam a exploração há séculos, a humilhação, a escravidão, chegando ao ponto de querer isso não só para os outros, mas para si próprios?
(...)

G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo


RELAXE!


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

DESENCONTRO VIRTUAL

Sem dúvida, a solidão será o grande negócio do século XXI. Há alguns meses lia uma reportagem em uma revista norte-americana que dizia que nos EUA já há pessoas que, por dinheiro, passeiam com outras do mesmo modo que levam os cachorros de outras para dar uma volta, as que não têm tempo para fazer isso. Nesse caso, os clientes pagam para ter uma pessoa com quem conversar por algum tempo, realizar alguma atividade ou tomar um café.

Mas se as relações pessoais estão complicadas na era das comunicações, as amorosas estão ainda mais. As redes sociais que prometiam conectar as pessoas acabaram por isolá-las, e os sites de encontros que se vislumbravam como eficientes e rápidos arranjadores virtuais de um par transformaram o divertido flerte em uma tarefa mais típica de agência. Registrar-se, preencher formulários, responder a e-mails e passar horas e horas diante de uma tela antes de chegar ao difícil, e já pouco comum, exercício do cara a cara e traduzir o relacionamento digital para o mundo real. Algo que costuma desapontar.
(...)

Rita Abundancia, El País, 16/01/2018, 21:33 hs
Nunca soube por que tanta gente teme o futuro.
Nunca vi o futuro matar ninguém,
Nunca vi o futuro roubar ninguém,
Nunca vi nada que tivesse acontecido no futuro.
Terrível é o passado ou, pior, o presente!

Millôr Fernandes
QUE POÉTICAS? 

Não falamos sobre poetas ou poesia. Falamos de uma poética, ou de poéticas espalhadas em sementes pelos cantos do mundo. Profusão de versos em manhãs. Eles deslizam para fora dos porões formais da carcaça humana. Construir poéticas é ir além do humano e arrancar do inumano a máxima intensidade. Experimentar, mesmo sem escrever, o sabor do texto. Os chamados grandes poetas tornam-se, então, menores porque tocam o mistério e porque "grande só o menor". Expandem a vida em sua delicadeza mais expressiva, em suas dobras, em suas alegrias minúsculas. São partículas do universo infinito em cada um. E em nós. Convidados a escrever a aventura da escrita-movimento, a que frequenta e satura os átomos da natureza, os viajantes do desejo estão logo ali.


A.M.

A IGREJA E AS CRIANÇAS

O papa Francisco, que chegou nesta segunda-feira ao Chile, abordou abertamente, já no seu primeiro discurso, o assunto mais delicado da visita. “Sinto dor e vergonha perante o dano irreparável causado a crianças por parte dos ministros da Igreja”, clamou o Pontífice em sua primeira intervenção pública, no Palácio de La Moneda, diante da presidenta Michelle Bachelet e de seu sucessor eleito, Sebastián Piñera. Os escândalos devoraram a imagem da Igreja sobretudo dede a eclosão, em 2011, do caso Karadima, nome de um sacerdote condenado por cometer abusos reiterados contra adolescentes e jovens de classe média acomodada e famílias muito conhecidas e tradicionais de Santiago. A crise afundou o índice de confiança na Igreja, que já vinha caindo, até fazer do Chile o país com menos pessoas que se declaram católicas em toda a América Latina.
(...)

Carlos Cué e Rocío Montes, El País, Santiago do Chile, 16/01/2018, 17:02 hs

SUGESTÃO DE LEITURA


FRAGMENTO DE CANÇÕES E POEMAS 

São mil coisas impressentidas 
Que me escutam:
O movimento das folhas 
O silêncio de onde acabas de voltar 
E a luz que divide o corpo do nascente

São mil coisas impressentidas 
Que me escutam: 
São os pássaros assustados, assustados, 
Tuas mãos que descobrem o convite da terra 
E os poemas como ilhas submersas…

São mil coisas impressentidas 
Que me escutam: 
Sou eu apreensivamente 
Solicitado pela inflorescência 
Redescoberto pelo bulir das folhas…


Manoel de Barros
FICÇÃO CIENTÍFICA

O Ministério Público Federal (MPF) no Distrito Federal pediu a condenação dos ex-deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) em alegações finais apresentadas à Justiça Federal na ação penal derivada da operação Sépsis, que investiga desvios no Fundo de Investimentos do FGTS (FI-FGTS), administrado pela Caixa Econômica Federal.

Para Eduardo Cunha, o Ministério Público pediu pena de 386 anos de prisão e para Henrique Eduardo Alves 78 anos por crimes como corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os dois políticos estão presos e são investigados em várias frentes.

A defesa de Eduardo Cunha afirma que o documento do MPF é uma “ficção científica, sem provas, com afirmações inverídicas que não podem sustentar uma condenação”.
(...)

Camila Bonfim, TV Globo, Brasília,16/012018, 13:01 hs

OLHA O ETERNO CARNAVAL AÍ, GENTE !


A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
(...)

Mia Couto

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

CAETANO VELOSO - Enquanto seu lobo não vem.

CHOQUE NAS TÊMPORAS

A eletrochoqueterapia (ECT), técnica usada (ainda hoje) pela psiquiatria, não tem qualquer base científica. Foi criada em 1937, na Itália, pelo médico Ugo Cerletti, a partir do experimento em porcos anestesiados antes de serem abatidos nos matadouros de Roma. Em seguida, foi usada em larga escala nos antigos hospícios como instrumento de punição, repressão e violência sobre pacientes internados. Apesar desse Horror pregresso, o seu uso atual pode ( dizem...) beneficiar o paciente psiquiátrico em casos extremos, quando já foram esgotados todos os recursos de tratamento. A indicação maior seria (ou deveria ser) as depressões graves, refratárias aos antidepressivos e quando há risco evidente de suicídio. Esta nos parece a atitude clínica mais prudente, a qual está além e aquém da imagem apenas negativa do Choque (da luta antimanicomial) ou da imagem apenas positiva (da psiquiatria biológica). De todo modo, a questão do eletrochoque nos parece secundária à do Diagnóstico Psiquiátrico, que é secundária à do Poder que é secundária à da Ética. Esquemáticamente, pode-se estabelecer a seguinte discussão: 1-Que hipótese diagnóstica indica o uso da ECT? 2-Com que direito o psiquiatra decide dar choque em alguém? 3- Que potências de vida são ou serão promovidas pela ECT? 4- Ou,ao inverso: que potências de vida são ou serão destruídas pela ECT? Concluindo, a discussão, antes que técnica (clínica), é ético-política. Nesse mister, os sequazes da psiquiatria biológica costumam ser semi-analfabetos. Eles são regidos por um pensamento conceitual raso.

A.M.

Obs. : texto republicado

HENRYK GOTLIB


Sonetilho de verão

Traído pelas palavras. 
O mundo não tem conserto. 
Meu coração se agonia. 
Minha alma se escalavra. 
Meu corpo não liga não. 
A ideia resiste ao verso, 
o verso recusa a rima, 
a rima afronta a razão 
e a razão desatina. 
Desejo manda lembranças. 


O poema não deu certo. 
A vida não deu em nada. 
Não há deus. Não há esperança. 
Amanhã deve dar praia.


Paulo Henriques Britto
Afirmo que a verdade é uma terra sem caminhos definidos, e que não a podemos abordar por qualquer caminho que seja, por nenhuma religião, por nenhum credo. Este é o meu ponto de vista, e adiro a este de forma absoluta e incondicional. A verdade, sendo ilimitada, incondicionada, inacessível por qualquer caminho que seja, não pode ser organizada; nem deve nenhuma organização ser formada para liderar ou coagir as pessoas para seguir um caminho em particular. Se entender isto, então compreenderá quanto impossível é organizar uma crença. Uma crença é uma questão puramente individual, e não é possível organizá-la. Se fizer isso, esta crença torna-se morta, cristaliza-se, torna-se um credo, uma seita, uma religião, a ser imposta a outros.
(...)

Jiddu Krishnamurti

domingo, 14 de janeiro de 2018

Dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca.

Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.

Onde a verdade e onde a mentira dos sentimentos? Seria a bela Capitu, com seus olhos de cigana oblíqua e dissimulada, uma adúltera? Teria fundamento o ciúme que corrói a alma de Bentinho?

Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação.
(...)

Machado de Assis
SEM CONTROLE 
(para Lucas e Saul, pensadores)

Mais que nunca, os tempos atuais (tecnológicos), trazem a questão da verdade. É bom lembrar que o autor-instigador de grandes suspeitas (F. Nietzsche) não questiona verdades, mas sim o próprio conceito de verdade. Daí, o funcionamento prático das ditas verdades vir ligado aos poderes que regem o mundo. Eles fabricam verdades, inclusive você que está me lendo agora. Portanto, em quem ou em que acreditar? Quais verdades "colam?". É fácil constatar que uma profusão delirante de signos de comunicação/informação é interiorizada como subjetividade amestrada e consumidora. Desse modo, para além das formas arcaicas de dominação explícita (a escravatura, por ex.) , os tempos internéticos estão afinados com modalidades políticas de controle "por dentro" das pessoas, atuando diretamente na formatação subjetiva dos seus valores e crenças. Lógica do sentido. Seria possível se perguntar "o que é viver?". Na contra-corrente da Opinião do senso comum e do bom senso, o pensamento necessita fazer valer o ato de pensar como ato de criar. Ato de resistência. Isto se dá fora da consciência, da razão e da organização do eu. Uma loucura. 

A.M.

DAVE BRUBECK - Take Five

À sua passagem a noite é vermelha
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Eu certamente tenho regras para viver. A primeira delas: Eu não acredito em nada que o governo me diz.


George Carlin
PEDRAS NA VIDRAÇA

O presidenciável e deputado federal Jair Bolsonaro ainda nem assinou sua ficha de filiação ao Partido Social Liberal (PSL) e já traz três problemas para a sua futura legenda. O primeiro é o de conter a debandada de filiados. Um grupo que representava 12 dos 27 diretórios estaduais e 200 comissões municipais, além da Secretaria de Comunicação da legenda, anunciou a sua desfiliação. O segundo, o de explicar sua evolução patrimonial (e de seus três filhos parlamentares) no período em que passaram a ocupar cargos públicos. O caso foi denunciado em 23 reportagens, compartilhadas nas redes sociais por ao menos 470.000 pessoas, conforme o Monitor do Debate Político no Meio Digital. O terceiro é o de fazer a Executiva Nacional do PSL explicar um notório contrassenso: como é possível driblar o artigo 3º de seu estatuto, que expressa que o partido se considera um “forte defensor dos direitos humanos e das liberdades civis” enquanto aceita em seus quadros uma pessoa que elogia torturadores da ditadura militar e ataca a imprensa?
(...)

Afonso Bentes, El País, Brasília, 13/01/2018, 20:46 hs

HUBERT ROESTENBURG


sábado, 13 de janeiro de 2018

CONTRA A IGREJA

Santiago amanheceu na sexta-feira com uma notícia que a presidenta Michelle Bachelet qualificou de “estranha”. Três igrejas da capital foram atacadas de madrugada, três dias antes da chegada do papa Francisco, que entre segunda e quinta-feira estará no Chile para depois viajar ao Peru. As igrejas católicas que sofreram agressões, seja com bombas incendiárias ou explosivos, ficam nos municípios de Recoleta, Peñalolén e Estación Central. Durante a manhã, a polícia encontrou um novo artefato numa paróquia de Estación Central e outro no município de Santiago Centro, que não chegaram a explodir. “As próximas bombas serão na sua batina”, dizia um dos panfletos encontrados.
(...)

Rocío Montes, El País, 13/01/2018, 11:10 hs
Terror de te amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa


Sophia de Mello Breyner Andresen

DEAD CAN DANCE - Song of Stars - versão Pina

CORPOS DE CORPOS
                                                    
O corpo-sem-órgãos (CsO) é um anticonceito, limite intransponível da experiência. Roubamo-lo de Deleuze-Guattari. Processo esquizofrênico, ele não é a entidade clínica "esquizofrenia". Neste caso, é prática de vida que aparentemente fracassou. Ainda assim continua ativo enquanto coleção de linhas existenciais sem forma, sem contorno, fluxos nômades, gritos. São as máquinas do desejo. A subjetivação dá-se, pois, como dessubjetivação incessante. Somos todos esquizos. Considere o seu próprio corpo. Ele é invenção de mundos. Não o corpo do qual a medicina,  papai-mamãe  e  a escola  gostam. É outra coisa, uma política.Aparece aqui e ali em situações de grande responsabilidade moral – para  desfazer a moral. Se você perguntar qual  o meu corpo, eu  lhe  direi: sigo os afetos: uns me encantam, outros são insuportáveis. Risco dos encontros, puro desejo escorrendo cruel, "o que não tem governo nem nunca terá." Veja o paciente. Seu corpo liga-se ao mundo dos códigos estáveis. Eles são usados  para a repetição do Mesmo e para o o controle das mentes. A antiprodução é, assim, enxertada na produção. Convite ao normal. Mas, o que  aconteceria se milhões de corpos sem órgãos fossem movidos ao combustível alegria? O corpo seria o de um soldado lutando na  trincheira? Ou o de uma dançarina dançando na relva? Ora, os corpos são invisíveis.Sua potência esgueira-se por entre as franjas da racionalidade proprietária do eu. Não há corpos opacos. Somos fibras de luz e só os videntes enxergam para além de toda moral, de toda técnica e de todo o poder. O CsO é uma política de almas errantes. Não se deixam ver. Usam máscaras rentes à pele. Você nem sabe que é... Por isso não anuncie a sua chegada, não reclame, não ressinta. Cultive o segredo. Faça rizomas. 


A.M.


Obs,: texto modificado e republicado

Revolução soa muito romântico, vocês sabem, mas não é. É sangue, culhão e loucura; são menininhos mortos que ficam no caminho, menininhos que não entendem porra nenhuma do que está acontecendo. É a sua puta, a sua mulher rasgada na barriga por uma baioneta e depois estuprada no cu enquanto você olha. São homens torturando homens que costumavam rir com as historinhas do Mickey Mouse . Antes de você entrar nesta coisa, decida onde está seu espírito e onde ele estará quando a coisa tiver terminado. Eu não acredito que nenhum homem tem o direito de tirar a vida de outro homem. Mas talvez mereça um pouco de reflexão antes. É claro, a porra é que eles têm tirado as nossas vidas sem disparar um tiro.
(...)

Charles Bukowski

MIDIÓTICO


E sei que sou imortal,
sei que minha órbita não pode ser medida pelo compasso do carpinteiro,
Sei que não apagarei como espirais de luz que crianças fazem à noite com graveto aceso.

Sei que sou sublime,
Não torturo meu espírito para que se justifique ou seja compreendido,
Vejo que as leis elementares nunca se desculpam,
Percebo que não ajo com orgulho mais elevado que o nível onde planto minha casa, afinal.

Existo como sou, isso me basta,
se ninguém mais no mundo está ciente, fico contente,
e se cada um e todos estão cientes, fico contente.

Meu pedestal é encaixado e entalhado em granito.
Dou risada do que você chama de decomposição,
sei da amplidão do tempo.

Sou poeta do corpo,
e sou o poeta da alma...


Walt Whitman

JOÃO BOSCO & PEPEU GOMES

" O MANIFESTO DE DENEUVE"

Depois do caso Weinstein, houve uma legítima tomada de consciência a respeito da violência sexual exercida contra as mulheres, especialmente no ambiente profissional onde alguns homens abusam do seu poder. Ela era necessária. Mas essa libertação da palavra se volta hoje em seu contrário: somos intimadas a falar como se deve, a calar o que incomoda e aquelas que se recusam a se curvar a tais injunções são consideradas traidoras, cúmplices! Mas essa é uma característica do puritanismo: emprestar, em nome de um suposto bem geral, os argumentos da proteção das mulheres e de sua emancipação para melhor acorrentá-las a um estatuto de eternas vítimas, de pobres coisinhas sob o domínio dos falocratas demônios, como nos bons e velhos tempos da feitiçaria. Na verdade, o #metoo provocou na imprensa e nas redes sociais uma campanha de denúncia e de acusação pública de indivíduos que, sem que lhes tenha sido dada a oportunidade de responder ou de se defender, foram colocados exatamente no mesmo nível que os agressores sexuais. Essa justiça expeditiva já fez suas vítimas, homens castigados no exercício de sua profissão, forçados a se demitir, etc., quando seu único erro foi ter tocado um joelho, tentado roubar um beijo, falar sobre coisas “íntimas” em um jantar profissional ou ter mandado mensagens com conotação sexual a uma mulher cuja atração não era recíproca. Essa febre para mandar os “porcos” ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a conquistar sua autonomia, serve na verdade aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários e daqueles que acreditam, em nome de uma concepção substancial do bem e da moral vitoriana que os envolve, que as mulheres são seres “à parte”, crianças com rosto de adultos, que pedem para ser protegidas. Diante delas, os homens são instados a fazer seu mea culpa e a encontrar, no fundo de sua consciência retrospectiva, um “comportamento deslocado” que poderiam ter tido dez, vinte ou trinta anos atrás, e do qual deveriam se arrepender. A confissão pública, a incursão de autoproclamados promotores na esfera privada, eis o que instala um clima de sociedade totalitária.

A onda expiatória parece não ter limites. Aqui, censuramos um nu de Egon Schiele em um cartaz; ali, pedimos a retirada de um quadro de Balthus de um museu alegando que seria uma apologia da pedofilia; na confusão entre o homem e a obra, pedimos a proibição da retrospectiva de filmes de Roman Polanski na Cinemateca e conseguimos o adiamento daquela dedicada a Jean-Claude Brisseau. Uma universitária considera Blow Up, o filme de Michelangelo Antonioni, “misógino” e “inaceitável”. À luz desse revisionismo, John Ford (Rastros de Ódio), e até mesmo Nicolas Poussin (O Rapto das Sabinas) ficam numa situação delicada.

Os editores já estão pedindo a algumas de nós para tornarmos nossos personagens masculinos “menos sexistas”, para falar sobre sexualidade e amor com menos desmedida ou ainda para fazer com que os “traumas sofridos pelos personagens femininos” sejam deixados mais evidentes! À beira do ridículo, um projeto de lei na Suécia quer impor um consentimento expressamente notificado a todo candidato a uma relação sexual! Com um pouco mais de esforço, dois adultos com vontade de se deitar juntos terão de assinalar com antecedência, por meio de um “aplicativo” de seu telefone celular, as práticas que aceitam e aquelas que recusam, devidamente listadas em um documento.

Ruwen Ogien defendia uma liberdade de ofender indispensável à criação artística. Do mesmo modo, nós defendemos uma liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual. Hoje estamos suficientemente avisadas para admitir que a pulsão sexual é por natureza ofensiva e selvagem, mas também somos suficientemente clarividentes para não confundir paquera desajeitada com agressão sexual. Acima de tudo, estamos conscientes de que a pessoa humana não é monolítica: uma mulher pode, no mesmo dia, dirigir uma equipe profissional e desfrutar de ser o objeto sexual de um homem, sem ser uma “vagabunda” ou uma cúmplice vil do patriarcado.

Ela pode zelar para que seu salário seja igual ao de um homem, mas não pode se sentir traumatizada para sempre por que alguém se esfregou nela no metrô, embora isso seja considerado crime. Ela pode até considerar isso como expressão de uma grande miséria sexual, ou como um não-acontecimento.

Como mulheres, não nos reconhecemos nesse feminismo que, para além da denúncia do abuso de poder, assume as feições do ódio contra os homens e a sexualidade. Nós acreditamos que a liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar. E consideramos que é preciso saber responder a essa liberdade de importunar de outra maneira que não seja se fechar no papel de presa. Para aquelas dentre nós que escolheram ter filhos, pensamos que é melhor criar nossas filhas de modo que sejam informadas e conscientes o suficiente para poderem viver plenamente suas vidas sem se deixar intimidar ou culpar. Os acidentes que podem afetar o corpo de uma mulher não necessariamente atingem sua dignidade, e não devem, por mais difíceis que às vezes possam ser, necessariamente fazer dela uma vítima perpétua. Porque não somos redutíveis ao nosso corpo. Nossa liberdade interior é inviolável. E essa liberdade que apreciamos não existe sem riscos ou responsabilidades.

El País, 12/01/2018, 22:02 hs

CARYBÉ


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A FORMA DA ÁGUA

Outro mundo – um verdadeiramente fantástico – é possível. Guillermo del Toro (Guadalajara, México, 1964), deu sua contribuição para aproximar esse desejo à realidade ao fazer com que um filme de gênero (fantástico) se levante como vencedor absoluto em um dos quatros grandes festivais de cinema do mundo (Veneza) e vença o Globo de Ouro de melhor direção (além de melhor trilha sonora). Um feito para a História e um tapa na cara do núcleo duro da crítica ancorado em uma ultrapassada concepção da sétima arte, segundo a qual o fantástico não é suficientemente sério.

Mas aí está: a história de uma faxineira muda que se apaixona por um maltratado anfíbio humanoide nos corredores cinzas de um laboratório norte-americano durante a Guerra Fria disparou os níveis de empatia e venceu o grande prêmio do último Festival de Cinema de Veneza. Só isso. Falamos, claro, do novo filme de Del Toro, A Forma da Água, que estreia em 1 de fevereiro no Brasil. 
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Carmen Cocina, El País, Sitges, 12/01/2018, 14:01 hs


A LUZ NO FIM DO TÚNEL


TRUMP NÃO PARA

Donald Trump não quer pessoas de "países de merda" nos Estados Unidos. A declaração foi feita pelo presidente na quinta-feira, durante uma reunião para renegociar o programa que concede residência legal a imigrantes do Haiti, El Salvador e países africanos, de acordo com fontes citadas pelo The Washington Post. Na segunda-feira, o republicano retirou essas proteções para 200.000 salvadorenhos; em novembro, fez o mesmo com 59.000 haitianos.

Foi a resposta do republicano à proposta de alguns legisladores para encontrar uma alternativa à eliminação do programa, conhecido como Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês). Trump rejeitou a proposta dizendo que seria melhor que os EUA acolhessem pessoas de países como a Noruega. O TPS foi criado em 1990 para conceder vistos temporários e autorizações de trabalho a pessoas de 10 países afetados por guerras ou desastres naturais. Muitos dos beneficiários vivem nos EUA há décadas. E muitos de seus filhos são norte-americanos. Se os legisladores não encontrarem uma solução legal que o presidente queira aprovar, essas centenas de milhares de imigrantes terão que deixar o país se não conseguirem outra maneira de permanecer legalmente nos Estados Unidos.

A conversa ocorreu no Salão Oval e, de acordo com as fontes citadas, os participantes – congressistas e senadores – ficaram surpresos com os comentários depreciativos do presidente. A reunião abordava as negociações sobre outro programa de imigração, o DACA, que concede as mesmas proteções para 800.000 imigrantes que chegaram aos EUA como menores, em companhia dos pais. Segundo o The New York Times, quando Trump ouviu que, na proposta, os legisladores queriam restaurar as proteções para os haitianos, o presidente disse: "Por que queremos pessoas do Haiti aqui?".
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Nicolás Alonso, El País, Washington, 12/01/2018, 09:51 hs
Alma solitária

Ó Alma doce e triste e palpitante!
que cítaras soluçam solitárias
pelas Regiões longínquas, visionárias
do teu Sonho secreto e fascinante!

Quantas zonas de luz purificante,
quantos silêncios, quantas sombras várias
de esferas imortais, imaginárias,
falam contigo, ó Alma cativante!

que chama acende os teus faróis noturnos
e veste os teus mistérios taciturnos
dos esplendores do arco de aliança?

Por que és assim, melancolicamente,
como um arcanjo infante, adolescente,
esquecido nos vales da Esperança?!



Cruz e Sousa

BLADE RUNNER 2049, direção de Denis Villeneuve, 2017

Feministas acusam manifesto de Catherine Deneuve de “banalizar a violência sexual” 

Não, não se trata de uma nova onda de “puritanismo”. E sim, há uma grande diferença entre seduzir e assediar. Cerca de trinta feministas e ativistas responderam duramente ao manifesto publicado na segunda-feira no jornal Le Monde e assinado por uma centena de intelectuais e artistas como Catherine Deneuve que, diante do “puritanismo” e das “acusações e denúncias públicas” de homens iniciadas depois do escândalo Weinstein com a campanha do #MeToo nas redes sociais, defendem “a liberdade de incomodar” como algo “indispensável para a liberdade sexual”.

Em um artigo em resposta ao manifesto, escrito pela feminista Caroline de Haas e publicado no site da emissora de rádio France Info, as ativistas lamentam que essas mulheres “usem de novo sua visibilidade midiática para banalizar a violência sexual” e as acusam de “menosprezar de fato os milhões de mulheres que sofrem ou sofreram esse tipo de violência”. Elas não são as únicas que se surpreenderam. Também as mulheres políticas manifestaram sua estupefação com o manifesto contra o suposto puritanismo. Da secretária de Estado pela Igualdade, Marlène Schiappa, e ex-ministras, como a socialista Segolène Royal, criticaram tanto a forma como o conteúdo de um discurso “perigoso”.

“O estupro é um crime. Mas a sedução insistente ou desajeitada não é crime, nem a galanteria é uma agressão machista”, afirmaram no manifesto personalidades como a atriz Catherine Deneuve, a escritora Catherine Millet, a cantora Ingrid Caven, a editora Joëlle Losfeld, a cineasta Brigitte Sy, a artista Gloria Friedmann ou a ilustradora Stéphanie Blake, entre outras.

“Com esse texto, tentam voltar a lançar o manto de chumbo que tínhamos começado a levantar”, criticou Haas nesta quarta-feira. Para as feministas, as signatárias do manifesto, algumas delas “reincidentes em matéria de defesa de pedófilos ou de apologia ao estupro” — diz em referência a Deneuve e sua defesa do diretor Roman Polanski —, “misturam deliberadamente um ato de sedução baseado no respeito e o prazer com um ato violento”. Tudo isso quando “não se trata de uma diferença de gradação entre o flerte e o assédio, mas de uma diferença de natureza. A violência não é uma sedução aumentada”, adverte.

Uma posição apoiada pela responsável do Governo de Emmanuel Macron pela igualdade entre o homem e a mulher. Para Schiappa, no manifesto existem afirmações “profundamente inquietantes”, disse em uma entrevista à rádio France Culture. “Nós já temos dificuldade em fazer as jovens entenderem que, quando um homem esfrega seu sexo nelas do metrô, é uma agressão. Penso que é perigoso manter esse discurso”, advertiu a secretária de Estado, que já havia sido questionada nas redes sociais pela atriz e diretora italiana Asia Argento, uma das primeiras a denunciar o produtor norte-americano Harvey Weinstein e que manifestou sua indignação em relação ao manifesto das intelectuais e artistas francesas.

Perguntada sobre se havia assinado esse manifesto, uma das antecessoras de Schiappa, a ex-ministra dos Direitos da Mulher Laurence Rossignol, não hesitou: “Claro que não”, afirmou à rádio France Inter. Para a atual senadora socialista, o manifesto é uma “bofetada nas mulheres que denunciam a predação sexual” e reflete uma “concepção tradicional da sexualidade” e da “ordem moral tradicional” em que o homem assume o papel de “conquistador” e a mulher o de “submissa”.

Rossignol também ficou surpresa que uma das vozes do manifesto seja a de uma “mulher corajosa” como Catherine Deneuve, signatária do famoso Manifesto das 343, escrito em 1971 por Simone de Beauvoir a favor da legalização do aborto, lembrou. Um detalhe que também desgostou a ex-candidata presidencial socialista Ségolène Royal, que considerou “uma pena que uma grande dama como Deneuve tenha assinado esse manifesto” que “permite que os agressores justifiquem seus atos. Não é justo fazer algo assim”, disse à rede RTL.

Silvia Ayuso, El País, Paris, 11/01/2018, 14:34 hs

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O novo Cristo declarou: nasci sem pele. Um dia sonhei que estava nu num jardim e que cuidadosa e completamente me tiravam a pele como a um fruto. Não ficou nem um resto de pele no meu corpo. Foi toda mas toda retirada com cuidado e só depois me disseram para andar, viver e correr. A princípio movimentei-me devagar, o jardim era tremendamente macio e eu sentia de uma forma precisa o jardim- doçura, não na superfície do corpo, mas atravessando- me o ar doce e os perfumes, como agulhas penetrando todos os meus poros em sangue. Todos os poros estavam abertos e respiravam calor, doçura e cheiros. O corpo totalmente invadido, penetrado, reagindo, a mais pequena célula e poros vivos respirando e tremendo com prazer. Gritei de dor. Corri. E ao correr o vento chicoteava-me e as vozes das pessoas eram chicotes dirigidos a mim. Ser tocado! Acaso sabem vocês o que é ser tocado por um ser humano?

Anaïs Nin

PAVEL MITKOV


O MONÓLOGO DA PSIQUIATRIA BIOLÓGICA

No exame do paciente, a psiquiatria biológica chama de sintomas positivos aqueles sintomas  expressos claramente. Ex.: diz o paciente: "eu sou o apocalipse". Por outro lado, sintomas negativos são os que não são expressos. O paciente se mostra negativista, mudo, olhar vago, não coopera, enfim. Ora, tal raciocínio é uma das maiores vergonhas da semiologia clínica em psicopatologia. Primeiro, porque não existe o não expresso. A  não expressão é uma expressão, assim como não existe o não afeto. O não afeto é um afeto. Segundo, porque a linguagem não é apenas verbal, podendo ser não-verbal, corporal, dramática, enfim, a-significante. Terceiro, porque baseada na não cooperação do paciente ("ele não se comunica") a psiquiatria justifica o uso indiscriminado de psicofármacos aparentemente para fazê-lo se comunicar. Ou seja, não tem diagnóstico, mas o paciente tem que falar, tem que dizer algo, tem que responder à interpelação psiquiátrica. Quarto, porque os modos de subjetivação não obedecem a uma lógica da consciência ou da racionalidade. Sendo assim, eles podem passar ao largo do olhar psiquiátrico. Ou até ameaçar o saber/poder psiquiátrico.Quinto, porque o exame tende a ser um fracasso da percepção médica em termos da realidade subjetiva, já que o paciente se apresenta como máquina que não funciona, mecanismo inerte, travado, entupido, quando sabemos que tudo está funcionando, talvez não do modo como a psiquiatria gostaria. Sexto, curiosamente, mas sem uma neuro-explicação, os psicofármacos costumam ser mais "eficientes" nos casos de sintomas positivos, enquanto que quanto aos sintomas negativos nada muda, nada melhora, exceto o rechaço cada vez maior à figura do psiquiatra remedeiro.

A.M.


P.S. - Texto ampliado e republicado.