sexta-feira, 31 de agosto de 2018

CAETANO VELOSO & JAQUES MORELENBAUM- O Estrangeiro..

MARINA E OS DE-VOTOS DE LULA

No momento em que o TSE se equipa para proibir a candidatura de Lula, a pergunta que pode alterar os rumos da sucessão é a seguinte: para onde irão os votos que seriam destinados ao presidiário do PT? Em entrevista ao Jornal Nacional, sem mencionar o nome de Lula, Marina Silva apresentou-se aos telespectadores como uma versão feminina do líder petista —com estudo e sem menções na Lava Jato.
(...)

Do Blog do Josias de Souza, 31/08/2018, 04:04 hs
Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humihante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Wislawa Szymborska

quinta-feira, 30 de agosto de 2018


O HORROR NATURALIZADO

Luiz Carlos Mendonça, de 24 anos, saía de sua casa no bairro Mutirão, em Ribeirópolis, interior do Sergipe, por volta das 20h. Mal terminou de fechar o portão quando uma moto se aproximou e o garupa abriu fogo com uma pistola 380. Mendonça morreu no local. O crime, ocorrido em 2017 na outrora pacata cidade do agreste central do Estado com pouco mais de 17.000 habitantes, não chocou a população. Aquele era o terceiro homicídio ocorrido apenas naquela noite. Em 2013 Ribeirópolis teve apenas 5 homicídios. Em 2014 foram 29, um aumento de 480%. O caso é um retrato da interiorização da violência no país e do aumento dos assassinatos em municípios no Nordeste (e no Norte), regiões que se tornaram a nova linha de frente do embate entre facções criminosas. Pequenas cidades antes pacíficas se veem imersas em conflitos armados, a grande maioria deles relacionado à disputa pelo controle do tráfico de drogas.

O panorama faz o município sergipano estar muito longe de ser exceção. Quando o assunto é segurança pública, o Brasil enxuga gelo há décadas. Fortunas saem dos cofres públicos ano após ano para tentar controlar a epidemia de homicídios que assola o país, além de tentar frear o avanço das facções criminosas. Dinheiro e vidas que parecem descer pelo ralo, na medida em que os números apontam para uma batalha que, até o momento, está sendo perdida: em 2005 foram gastos pouco mais de 27 bilhões de reais com segurança pública nas esferas federal, estadual e municipal. Doze anos depois, este valor mais do que dobrou, considerando-se a inflação do período, para 84,7 bilhões de reais, de acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública do Fórum Brasileiro de Segurança. Os homicídios, no entanto, bateram recorde no ano passado, com 63.880 vítimas fatais, ante 40.795 em 2005. A taxa média nacional, que era de 22,5 por 100.000 habitantes naquele ano, agora já está em 30,2. 
(...)

Gil Alessi, El País, São Paulo, 30/08/2018, 13:06 hs
Vem dormir comigo: não faremos amor, ele nos fará.
(...)
Julio Cortázar

TAXI DRIVER - música de Bernard Hermann

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

O QUE É PEJOTIZAÇÃO?

Dentre os artifícios comumente utilizados para tentar descaracterizar e mesmo burlar a existência de uma relação de emprego e de suprimir os direitos trabalhistas dela decorrentes, encontra-se a denominada “pejotização”.

Cuida-se de manobra jurídica utilizada pelo empregador, ao exigir que o empregado, para dissimular sua condição, constitua uma pessoa jurídica para o exercício de suas funções, transmudando formalmente a natureza de sua contratação. Dessa forma, trará benefícios financeiros ao empregador, que ficará exonerado dc assumir os encargos fiscais/previdenciários e os direitos próprios de uma relação empregatícia.

Para o direito do trabalho, no entanto, o que é relevante é a realidade em que se desenvolverá o trabalho, ou seja, é a maneira como os serviços serão executados. Resultando configurada que a prestação de serviços do empregado é efetuada com pessoalidade, mediante remuneração e de forma contínua e subordinada estará presente um autêntico contrato de trabalho, pouco importando que, formalmente, apenas no papel, seja pactuado um liame jurídico de natureza cível.

A “pejotização” reveste-se de manifesta ilicitude e não produz qualquer efeito jurídico válido, afigurando-se nula de pleno direito, nos termos do art. 9º daConsolidação das Leis do Trabalho o qual dispõe expressamente que:

“Art. 9º - Serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação.”


Moysés Simáo Sznifer, do blog Jusbrasil, acessado em 29/08/2018, 07:01 hs

terça-feira, 28 de agosto de 2018

FILHOS DO FOGO

Não foi o cansaço da jornada
Que de novo nessa noite nos venceu,
Mas um sofrimento antigo, igual a sempre,
A realidade com sua mão espadaúda
Juntando a poeira de uns castelos demolidos,
De tudo extraindo o que sobra de nosso, afinal:
O irreversível.

Cultivamos rituais silenciosos,
Temos dentro de nós a alma do mundo.
Fomos feitos para a solidão,
A mesma que sente um animal
Ao largar o seu rebanho
E esperar a morte suavemente
Numa longa tarde de chuva em Gibeon.

Damos calor às coisas enquanto é tempo
E mais tempo há enquanto estamos mudos.
Gozamos um amor tranqüilo, sem heroísmo.
Assim acontece certas vezes, por espanto:
De um golpe, o infinito nos apanha. 


Mariana Ianneli

MARIA BETHÂNIA - Santo Antonio

O PESADELO BRASIL

Ao menos 26.126 pessoas foram assassinadas no primeiro semestre deste ano no Brasil. É o que mostra o índice nacional de homicídios criado pelo G1, uma ferramenta que permite o acompanhamento dos dados de vítimas de crimes violentos mês a mês no país. O número de vítimas é ainda maior que esse – isso porque a estatística não comporta os dados totais de três estados (Maranhão, Paraná e Tocantins), que não divulgaram todos os números.

O número consolidado até agora contabiliza todos os homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, que, juntos, compõem os chamados crimes violentos letais e intencionais. Houve uma média de 4.350 casos por mês.

O mapa faz parte do Monitor da Violência, uma parceria do G1 com o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
(...)

Por G1, 28/08/2018, atualizado há 30 min


segunda-feira, 27 de agosto de 2018


Quanto mais firmemente tentamos captar o momento, para manter uma sensação agradável ou definir algo de uma maneira que possa ser satisfatória para sempre, mais ilusório ele se torna. Costuma-se dizer que definir é matar. Se o vento parasse por um segundo para que pudéssemos capturá-lo, ele deixaria de ser vento. O mesmo é verdade em relação à vida. As coisas e os fatos estão perpetuamente se mudando e se movendo; não podemos reter o momento presente e fazê-lo ficar conosco; não podemos chamar de volta o passado ou manter para sempre uma sensação passageira de si. Se tentarmos fazê-lo, tudo o que teremos será uma recordação; a realidade não está mais lá e nenhuma satisfação pode ser encontrada nisso.
(...)

Alan Watts
O VOTO DELIRANTE - II

Lula e Bolsonaro têm eleitores? Sim, milhões, claro, mas se Lula está preso, para onde irão seus eleitores? E se Bolsonaro não for para o segundo turno, para onde irão seus eleitores? Lula e Bolsonaro não têm eleitores, mas devotos. E devotos não mudam de santo.


A.M.

sábado, 25 de agosto de 2018

A música fala pelos que ficam.
Nenhuma distância é possível
Entre a nítida presença de um corpo
E sua despedida repentina.
Para aquele que viaja em busca do futuro
Eu canto com a impureza do amor
Que me esgota e também me extasia,
Que me leva a produzir o tédio
Com os meus dedos engordurados de vida.
A violência do ódio primitivo canta comigo
E são estas trevas que me acompanham
À dimensão de um tempo sem destino
Em que nada se perde porque nada existe.

-Mariana Ianelli, 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

... a Liberdade, em seu estado puro, em conjunto com a fraternidade, serviria como um verdadeiro "remédio" às pessoas, sanando os seus problemas mais nefastos, conseqüentemente, prescindindo-se de qualquer espécie de punição ou coerção. Esta ideia se aplica, num espectro mais amplo, até às questões relacionadas à existência de estruturas manicomiais, responsáveis, na sociedade capitalista, pelas torturas e maus-tratos aos estigmatizados pelo sistema como "doentes mentais".
(...)

Piotr Kropotkin

VICTOR BAUER


Meu coração vai batendo devagar como uma borboleta suja sobre este jardim de trapos esgarçados em cujas malhas se prendem e se perdem os restos coloridos da vida que leva. Vida? Buenas, seja lá o que for isto que temos.
(...)

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O ESPÓLIO DE LULA

Quando o sujeito comunica a alguém que lhe deixou uma herança, não há coisa mais decente a fazer do que morrer rapidamente. Mas Lula retarda o enterro de sua candidatura-fantasma. Nesta semana, Fernando Haddad percorre o mapa do Nordeste fazendo pose de herdeiro natural. Contudo, a nova pesquisa do Datafolha sinaliza que o espólio eleitoral de Lula será disputado numa guerra fratricida entre Haddad, Marina Silva e Ciro Gomes.

Com sua teimosia metódica, Lula já conseguiu energizar o anti-Lula Jair Bolsonaro (22%), mas mantém o companheiro Haddad (4%) em cena como um poste apagado. No cenário sem Lula, informou o Datafolha, Marina (16%) e Ciro (10%) dobram suas taxas de intenção de votos. Os dois já pegam em lanças para avançar sobre o patrimônio da divindade petista, a quem serviram como ministros. Forçam o PT a discutir se vale a pena esticar a ficção que mantém Haddad longe dos debates.
(...)

Do Blog do Josias de Souza, 22/08/2018, 06:36 hs

terça-feira, 21 de agosto de 2018

ROBERT GLASPER - So Beautiful

Abraço

Quero te dar um abraço modesto 
do tamanho do mundo 
pequeno em relação ao universo 
enorme para nossos passos 

Quero te dar um abraço profundo 
que surpreenda as almas 
apesar da idade 
e que a gente morra quando se aperte 


Nei Duclós

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Creio que, desde muito pequeno, minha infelicidade, e ao mesmo tempo minha felicidade, foi não aceitar as coisas com facilidade. Não me bastava que explicassem ou afirmassem algo. Para mim, ao contrário, em cada palavra ou objeto começava um itinerário misterioso que às vezes me esclarecia e às vezes chegava a me estilhaçar.
Em suma, desde pequeno, minha relação com as palavras, com a escrita, não se diferencia de minha relação com o mundo no geral. Eu pareço ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas.


Julio Cortázar

domingo, 19 de agosto de 2018

NADA ESTRANHO

Quatro presos foram encontrados mortos, na manhã deste domingo (19), dentro do Presídio Estadual Rogério Coutinho Madruga, conhecido como pavilhão 5 de Alcaçuz, na região metropolitana de Natal. Os corpos foram achados com sinais de enforcamento. O caso foi confirmado pelo governo do estado.
De acordo com agentes penitenciários, os quatro homens eram ligados ao PCC e haviam deixado a facção criminosa para se filiar ao Sindicato do Crime - grupo rival. Esse pode ser um dos motivos das mortes. Eles foram identificados pela Secretaria de Justiça e Cidadania como Iuri Yorran Dantas Azevedo, de 24 anos, Rodrigo Alexandre Farias Araujo, de 26, Thiago Nunes Oliveira Silva, 24 e Ytalo Nunes de Sousa, 25.
(...)

Por Igor Jácome, G1, RN,19/08/2018, atualizado há 30 min.
Tarde inescrupulosa...
Teu olhar invade-me as coxas
Entre claves de sol e colcheias


Susanna Busato

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


MEDICALIZAÇÃO: CONDIÇÕES DE ANÁLISE

A questão da medicalização da sociedade pode ser vista a partir de dois eixos de análise. Sem ordem de importância, teríamos: 1- institucional ; 2-epistemológico. No primeiro, estão em jogo as relações entre forças, constituindo poderes que circulam e se cristalizam como forma social, ou seja, o que é a medicina: uma Identidade. No segundo, os modos de produção do Conhecimento médico de acordo com uma concepção mecanicista (=máquina) e reificante (=coisa) do organismo humano. Excluídos tais eixos de pesquisa, o fenômeno da medicalização ficará restrito ao uso do Remédio, o tratamento, prática sem dúvida relevante, mas tosca e rasa como pensamento.

A.M.
BRASIL RESPONDE

A cidade fronteiriça de Pacaraima, em Roraima, viveu momentos de tensão neste sábado, com confrontos entre moradores locais e imigrantes venezuelanos, cujos acampamentos improvisados foram incendiados e destruídos. O tumulto começou durante a manhã, depois de que um comerciante ficasse ferido em um assalto na madrugada e que sua família culpasse um grupo de venezuelanos pelo ataque.
Em retaliação, dezenas de brasileiros atacaram os dois principais acampamentos improvisados dos imigrantes —que há dois anos intensificaram o fluxo migratório no norte do Brasil— e queimaram seus objetos pessoais.
A força-tarefa que opera na região para lidar com o fluxo migratório confirmou a informação e disse que o comerciante ferido foi socorrido e encontra-se estável em um hospital de Boa Vista, capital do estado.

El País, Paracaíma, Roraima, 18/08/2018, 19:54 hs 

ARMANDO REVERÓN


sábado, 18 de agosto de 2018

As coisas

As coisas não têm culpa.
São apenas testemunhas
de nossas comédias.

As coisas não abraçam causas.
É inútil acusá-las
de qualquer inclinação,
lealdade ou felonia.

Substantivos neutros,
são apenas coisas:
este botão descosturado de tua blusa
este chinelo ao pé da cama
um folha de papel em branco 
- e nenhum drama.

As coisas não guardam segredos
nem remorsos.
Assistem caladas
e resistem
vestidas de cal e silêncio.

As coisas não têm quereres
nem poderes.

Mas, desassombradas, 
exibem sempre
o semblante estoico da pedra.

Nisso as coisas são todas iguais

— todas indiferentes


Carlos Machado
ÊXODO VENEZUELANO

Uma letra em seu documento venezuelano. Isso é tudo o que o impede de continuar seu longo caminho ao Peru, lamenta-se Félix Barreto, um chef profissional de 26 anos, detido com sua esposa grávida e seu filho de dois anos na ponte internacional de Rumichaca, a passagem fronteiriça entre a Colômbia e o Equador. Oriundos de Maracay, norte da Venezuela, chegaram até aqui como “mochileiros”, caminhando e de carona. Seu documento de identidade molhou durante a travessia, e a água apagou uma das letras de seu nome. Por essa alteração, as autoridades colombianas não lhe expediram um cartão andino, o desejado documento migratório que precisa para continuar.
(...)

Santiago Torrado, El País, Ipiales, Colômbia, 18/08/2018, 21:16 hs

SALVADOR, MEU AMOR

isso é antigo

Se não fosse amor, não haveria planos, nem vontades, nem ciúmes, nem coração magoado. Se não fosse amor, não haveria desejo, nem o medo da solidão. Se não fosse amor não haveria saudade, nem o meu pensamento o tempo todo em você. Se não fosse amor eu já teria desistido de nós.
(...)

Caio Fernando Abreu
Já estamos todos muito velhos
As conquistas de outros tempos se acumulam
Nos caixotes de papelão e isopor
Nas malas que moram na parte de cima do armário

Vasculho papéis que perderam sua função
Fotos documentos recortes
Rostos amarelecidos em uma existência remota
Uma quase não-existência familiar
E temporal

– palavras fatos já não-meus, penso
(é preciso alçar a indiferença)
“que importa quem fala, alguém disse...”

É preciso rasgar
Estancar o sangue
Tentativa de habitar algum presente em meio ao bolor


 Annita Costa Malufe

NDT - Marne van Opstal

SEM RETORNO

O tempo passou, 64! Apesar disso, vivemos numa espécie de arcaísmo à brasileira: direita versus esquerda. Ouve-se antigas ladainhas para dormir em berço esplêndido. O Brasil piorou muito.Pensar a sua (nossa) realidade não é reproduzir modelos políticos funestos. Isso é tão apenas representar, imaginar, fantasiar, sonhar. Pensar é outra coisa. Pensar é criar. Algum candidato? 

A.M.

O GOLPE DE 1964

Um sonho é uma pequena porta escondida no santuário mais profundo e mais íntimo da alma, que se abre para a noite cósmica e primordial, que é a alma, muito antes de existir o ego consciente.
(...)

C. Jung
Eis o erro que tira o pecado do mundo

Poesia é o brinquedo
que mais erro
mesmo assim eu quero

mesmo assim desafinada
feito bossa nova
depois do terceiro uísque

mesmo assim apaixonada
feito rock’n’roll
antes dos 27

Eu disse pra mamãe
que conseguiria
parar os relógios

sem precisar matar
um único cordeiro.


Lou Albergaria

DESEMPREGO


A  ONU  E  EDUARDO  CUNHA (*)

Ao recomendar ao Brasil que assegure ao ficha-suja Lula todas as prerrogativas de um presidenciável limpinho, o Comitê de Direitos Humanos da ONU tratou esta terra de palmeiras e sabiás como uma República de Bananas. Assim eram chamadas as nações da América Central comandadas por oligarquias corruptas. Para a ONU, Lula é uma vítima em potencial e o Judiciário brasileiro é uma máquina a serviço da perseguição política de uma alma inocente.

Ironicamente, a decisão da ONU foi divulgada no mesmo dia em que Eduardo Cunha publicou na internet uma “carta à nação.” Nela, o gangster do MDB diz ser “vítima de perseguição”, queixa-se de ter sido “condenado sem provas” e lamenta não poder disputar as eleições de 2018. Por uma questão de isonomia, o comitê da ONU deveria considerar a hipótese de pedir respeito aos direitos políticos de Cunha.

A defesa de Lula sustenta que a decisão da ONU tem o peso de uma ordem. É lorota. Trata-se de uma recomendação. Que precisa ser respondida pelo TSE, impondo ao ex-presidemnte ficha-suja os rigores da Lei da Ficha Limpa. Qualquer providência diferente acomodaria sobre o mapa do Brasil a carapuça de República de Bananas. Com selo de qualidade da ONU.

Do Blog do Josias de Souza, 18/08/2018, 01:06 hs

(*) Título do Blog "O cérebro MENTE"

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

aviso prévio

meu coração é uma uva
pulsa explode abusa pluga

meu coração é rebelde
vive ameaçando greve

meu coração trapezista
dá nó nas próprias tripas

meu coração maiakóvski
quanto mais sofre mais love

o cardiologista dá as cartas
— todo cuidado, meu chapa
ou se sinquadra ou infarta!


Luis Turiba

TZVIATKO KINCHEV


PORQUE ALGUÉM VOTA EM BOLSONARO

Cássio Martins tem 18 anos e quer que a lei do morro onde ele vive, ditada pelos donos do tráfico, valha também para o “asfalto”. Assim, ele não vai mais precisar esconder o celular sempre que sair dos limites do Morro da Cruz, vila na periferia de Porto Alegre que tem um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano da capital do Rio Grande do Sul, mas onde ele se sente confortável para ouvir música e checar o Facebook no telefone sem medo de ser roubado. Essa é a justificativa principal para dar o primeiro voto de sua vida para Jair Bolsonaro (PSL), o controverso candidato à presidência da República que promete rigor com a criminalidade.

Também são os problemas com a segurança que levam Anriel do Prado Neves, 24, a optar pela candidatura de extrema direita do parlamentar e capitão do Exército reformado. Sua convicção é tanta que até colou um adesivo com a cara do candidato na traseira do automóvel que dirige para um aplicativo de transporte. “Sei que tem gente que dá nota ruim por isso, mas tudo bem”, se resigna. Ele já foi assaltado duas vezes quando era taxista, mas o que preocupa mesmo Anriel é o tráfico e a guerra com a polícia. “Dos meus 30 amigos de infância, só sobraram dois. Os outros todos morreram, foram executados”, lamenta. No Morro da Cruz, metade das mortes de jovens entre 15 e 29 anos é por homicídio.

Para ambos, o perfil “linha dura” do militar, que promete endurecimento da legislação penal e a revisão do estatuto do desarmamento, poderia ajudar a solucionar os problemas.
(...)

Naira Holfmeister, El País, Porto Alegre, 17/08/2018, 16:58 hs
As festas me deixavam doente. Detestava as falsas aparências, os jogos sujos, os namoricos, os bêbados amadores e os chatos. Como solitário, eu não suportava invasões. Isto não tinha nada a ver com ciúmes, simplesmente não gostava de pessoas, multidões, onde quer que fosse, exceto nas minhas leituras. As pessoas diminuíam-me e deixavam-me sem ar.
(...)

Charles Bukowski

OS PÁSSAROS, direção de A. Hitchcock, 1963

A Demora

O amor nos condena: 
demoras 
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra, 
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.


Mia Couto
Vou dizer qual é o pensamento que deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a minha vida! É aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati: seja esse de agora em diante o meu amor. Não quero fazer guerra ao feio. Não quero acusar nem mesmo os acusadores. Desviarei o meu olhar, será essa, de ora em diante, a minha única negação! E, numa palavra final, não quero, a partir de hoje, ser outra coisa senão um afirmador.
(...)

Nietzsche

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A beleza é algo que todo mundo almeja, necessita e tenta obter, de alguma forma – seja através da natureza, ou um homem ou uma mulher, ou música, ou qualquer outra coisa. A alma anseia por isso.  
(...)

James Hillman

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

JOÃO BOSCO em concerto...

QUEM ILUMINA

Quando me olhas
meus olhos são chaves,
o muro tem segredos,
meu temor palavras, poemas.
Só tu fazes de minha memória
uma viajante fascinada,
um fogo incessante


Alejandra Pizarnik
SOBRE O MÉTODO DA DIFERENÇA

O psiquiatra se despersonaliza.Torna-se algo que se torna outra coisa. Vive nos e dos paradoxos da linguagem que o empurram a encontrar o paciente, o mundo, a realidade, o cosmos. Não compreende o que se passa. Perplexo, interroga e interroga-se. Dança e entoa em silêncio cânticos extraídos do fundo de vielas existenciais. Não busca uma ontologia da psicose e/ou dos transtornos mentais. Talvez consiga ser um aprendiz da modernidade técnica, criando linhas de pura alegria (ainda e principalmente) nas quedas e surtos dos pacientes e de si mesmo. O método da diferença traz essa possibilidade para o "interior" da clínica. Os fármacos podem (claro que sim!) ser parceiros numa empreitada sem signos prévios. Ao paciente: use e controle essa droga lícita, sabendo que ela pode se tornar ilícita se atentar contra a criatividade do seu viver.  Não só a química, mas todo e qualquer objeto  pode  induzir a uma dependência abjeta. O psiquiatra da diferença não é esse objeto. O psiquiatra remedeiro, sim. Este se alimenta de subjetividades neuronais, pétreas, esvaziadas, ocas, trastes apelidados de pacientes.É preciso, pois, um combate incessante contra a máquina farmacológica.O fármaco é apenas um elemento prático-terapêutico. Para além da química, um devir-feiticeiro em psicopatologia clínica conta com aliados: a sensibilidade, a intuição, a percepção fina do invisível, a atitude expectante, o olhar de lince, a escuta do silêncio, a espreita da novidade, todo um conjunto de dispositivos nômades...
(...)

A.M. in Trair a psiquiatria

PAVEL MITKOV


CENAS DE UM  ESPETÁCULO (*)

O Brasil já conviveu com muitas anomalias políticas. Mas nunca um candidato cenográfico havia se apresentado formalmente como pretendente ao Planalto. Lula rompeu todos os paradigmas. Tornou-se um personagem curioso. Com o pedido de registro de sua candidatura no TSE ele dá sequência à representação da pior encenação de si mesmo.

Lula nunca prestou depoimentos, sempre deu espetáculos. Ele jamais se explicou, apenas desconversou. Ainda hoje, Lula não se defende, ataca. O personagem imaginava-se invulnerável. Achava que não seria denunciado. Foi. As denúncias não virariam ações penais. Viraram. Não seria condenado. Foi, em duas instância. Não teriam a coragem de prendê-lo. Está em cana.

O pedido de registro do candidato ficcional do PT monta no TSE um puxadinho do teatro. Ali, Lula joga um jogo que considera jogado. A encenação dentro do tribunal é apenas parte de um espetáculo maior. Indeferido o registro da candidatura, Lula vestirá o figurino de mártir e escreverá na cadeia uma carta de lançamento do seu novo poste: Fernando Haddad. Considerando-se o que aconteceu com o poste anterior, Dilma Rousseff, verifica-se que a cadeia inspirou em Lula apenas o ímpeto da reincidência.

Do Blog do Josias de Souza, 15/08/2017, 01:14 hs

(*) Título do blog
PELE

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele

David Mourão-Ferreira

terça-feira, 14 de agosto de 2018

PHILIP GLASS - "Closing" PCF 2017

MAIS, AINDA

O juiz federal Sergio Moro aceitou denúncia contra o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e outras nove pessoas nesta segunda-feira (13). É a primeira vez que Mantega vira réu na Lava Jato. Moro rejeitou a denúncia contra o ex-ministro Antonio Palocci.

"Ressalvo, segundo a denúncia, apesar de ele ter participado dos fatos (...), consta que teria sido Guido Mantega responsável específico pela solicitação e pela posterior utilização dos R$ 50 milhões", escreveu Moro ao falar sobre Palocci.

A defesa de Antonio Palocci disse que ele continuará colaborando com a Justiça. O G1 tenta contato com a defesa de Mantega.
(...)

Globo.com, por G1, 13/08/2018, 19:52 hs

domingo, 12 de agosto de 2018

Abandonei-me ao vento

Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe

quando me levantar e o corpo solte
o seu despojo vão. Em toda a parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.

E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.

Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.


Carlos Nejar

GRANDE GALEANO

SEM  NAIPAUL

O escritor britânico Vidiadhar Surajprasad Naipaul, mais conhecido como V. S. Naipaul, morreu aos 85 anos, informou sua família neste sábado.  Prêmio Nobel de Literatura em 2001, ele nasceu em Chaguanas, perto de Porto Espanha em Trinidad e Tobago, em uma família descendente de imigrantes procedentes do norte da Índia. 
"Foi um gigante em tudo o que fez e morreu rodeado daqueles que o amavam, tendo vivido uma vida cheia de uma criatividade maravilhosa e esforço'", declarou sua esposa, Lady Naipaul, em um comunicado. Em 1961, o escritor começou sua carreira literária com Uma casa para o Sr. Biswas, um romance em que o protagonista é um retrato de seu pai e que deu a ele reconhecimento mundial. Outra de suas grandes obras foi Uma curva no rio (1979). 
(...)

El País, 12/08/2018, 10:26 hs
UM FARSA?

A nave espacial lançada pela agência espacial americana (Nasa) na madrugada deste domingo (12) para "tocar" o Sol está "saudável e operando normalmente", segundo comunicado da agência. O lançamento da missão Parker Solar Probe foi realizado às 4h31 pelo horário de Brasília, a partir da Estação da Força Aérea de Cabo Canaveral, nos Estados Unidos.
(...)

Globo.com, por G1, 12/08/2018, 10:16 hs

VICTOR BAUER


Todo indivíduo deve alguma vez dar o passo que o afasta de seu pai, de seus mestres; todo indivíduo deve experimentar a dureza da solidão, apesar de a maioria das pessoas possuir pouca capacidade de resistência e voltar logo ao seu refúgio.
(...)

Hermann Hesse

NATIRUTS & LUIZ MELODIA - Pérola Negra

UM RECALL POLÍTICO

No mundo dos negócios, o recall é uma convocação que as empresas fazem aos consumidores para trocar peças ou produtos vendidos com defeito. Evitando riscos à vida, à saúde e à segurança da clientela, o fabricante atenua o vexame e livra-se das indenizações. Lula está prestes a introduzir na política a prática do recall. Com uma diferença: ele oferecerá um novo poste ao eleitorado, Fernando Haddad, sem reconhecer que o poste anterior, Dilma Rousseff, revelou-se uma fraude.

À espera da decretação formal de sua inelegibilidade pela Justiça Eleitoral, Lula trata a fabricação da candidatura de Haddad como um grande negócio. Se o eleitor comprar a tese de que o novo poste é solução para os problemas nacionais, Lula será convertido em mártir. Se o produto for refugado, o presidiário do PT renovará a pose de vítima. Em qualquer hipótese, o segredo do negócio é esconder o fiasco da administração de Dilma Rousseff.

Levado à vitrine como vice da chapa tríplex do PT, Haddad aderiu ao coro que celebra a presença de Lula na liderança das pesquisas como uma consequência da comparação do seu governo com a gestão de Michel Temer. Nessa versão, os brasileiros recordam que havia mais empregos e renda sob Lula. E deploram a volta do desemprego e da miséria sob Temer. Para que esse tipo retórica fique em pé, será necessário que a amnésia petista vire um fenômeno epidêmico.

A gestão de Temer é ruinosa. Mas a ruína econômica é consequência direta do desastre gerencial que foi o governo de Dilma. As digitais de Lula estão gravadas no fiasco. É de sua autoria a criação do mito da gerentona. É dele também a responsabilidade do pelo descalabro ético. O mensalão e o petrolão nasceram no seu governo, período em que coalização virou eufemismo para organização criminosa.

No limite, Lula é responsável também pela perversão do governo Temer, pois foi nos seus mandatos que o PMDB tornou-se sócio do PT na usina de propinas. Tudo isso teve um custo. Para quem desceu a rampa do Planalto cavalgando uma popularidade de 84%, os 30% de intenção de votos detectados pela mais recente pesquisa do Datafolha revelam que o prestígio da fábrica de postes já não é o mesmo.
(...)

Do Blog do Josias de Souza, 12/08/2018, 04:35 hs

sábado, 11 de agosto de 2018

Espelho seu

Quero ser minha para poder ser sua
Quero nunca mais partir
Pra longe de mim.
Vem, alivia, adianta, adivinha
Quero ser sua pra poder ser minha...


Elisa Lucinda

GRANDES ESCRITOS


"APRENDI NOS VIDEOGAMES"

Um funcionário da Alaska Airlines roubou um avião de passageiros na sexta-feira no aeroporto de Seattle-Tacoma, no noroeste dos EUA, e caiu uma hora depois em uma área de mata após realizar uma série de acrobacias. A aeronave, que não tinha passageiros, caiu na Ilha Ketron, próxima à cidade de Seattle. As autoridades locais afirmaram que o incidente não tem nenhuma conexão com terrorismo e afirmaram que o autor é um “suicida” que estava sozinho.
Em uma das conversas que o homem manteve com a torre de controle do aeroporto se descreve como um "homem doente, com parafusos soltos", confessa que não tinha intenção de pousar e assegura que não necessita ajuda para controlar o avião porque já tinha jogado um videogame antes.
(...)

El País, São Francisco,11/08/2018, 13:55 hs
UMA ESTRANHA ESPECIALIDADE 


O que é involuntariedade em psiquiatria? É o fato do paciente não se achar doente, não se perceber como um doente, não se sentir doente, e, portanto, não querer tratamento. A aproximação de um técnico que lhe ofereça ajuda (talvez um psiquiatra) lhe provoca rechaço, negativismo, indiferença, ou até hostilidade/agressividade. Este é um dado muito comum observado no campo da psicopatologia clínica, o qual, entre outros efeitos concretos, atesta a insuficiência do modelo biomédico nas práticas de saúde mental. Citando ao acaso, é possível incluir os quadros de transtornos da personalidade, dependências de drogas, demências graves, retardos mentais, psicoses de variadas etiologias e semiologias (com sintomas positivos ou negativos, em especial as esquizofrenias), delírios sistematizados crônicos, transtornos do humor  (formas de mania excitada e mania psicótica, e até mesmo depressões), entre outros quadros mal diagnosticados, com diagnóstico obscuro, ou até sem diagnóstico. O essencial a considerar é que a maioria não quer tratamento, nem sabe do que se trata, ou do que se passa. Ora,  como é possível que exista uma especialidade médica cujos pacientes não apenas não querem tratamento, como também não se sentem doentes? Na maioria dos quadros arrolados, a busca de tratamento é, sim, da família, ou dos que estão à volta (amigos, colegas, vizinhos, etc) e não do próprio paciente. Por que?

A.M.

Obs. texto revisado e republicado.

GRUPO CORPO - Gira

Agonia bolsonara

Apoiadores de Bolsonaro querem uma vida melhor. Eu e você também. A bolsolatria é sintoma de agudo desespero político, sentimento digno de respeito. Importa menos, a bolsólatras, que seu líder seja um monstro moral que celebra massacre prisional e execução sumária; que defenda violência contra filho homossexual e salário menor para mulher porque engravida; ou que chame índios e negros de preguiçosos que atrapalham o desenvolvimento. Importa, sim, que ele entregue segurança e emprego. Sobrevivência, enfim.

Bolsonaro promete saídas simples e “sem viés ideológico” para nossa encruzilhada. As teses do bolsonarismo vêm sendo destiladas há anos. De um lado, há teses exuberantes sobre como agredir “o outro”: a mulher, o negro, o pobre, o índio, a família transviada. São conhecidas e agradam a certo público. Numa democracia liberal, divergimos sobre o que é justiça, mas concordamos minimamente sobre o que justiça não é. A supressão de direitos civis de grupos vulneráveis está fora da divergência tolerável e constitucional.

De outro lado, há teses que afetam o bem-estar de seu próprio eleitor, que deveria prestar atenção para não se descobrir traído depois. Esbanjam senso comum e desprezo pelo conhecimento.

Quão racional pode ser a aposta num mercador de balas de prata?

Declarações recentes sintetizam algumas de suas teses. São gaguejadas, ocas e não podem cumprir o que prometem:

Tese 1 – Economia: “Não sou economista. O Paulo Guedes decide”.

Tese 2 – Emprego: “Se o governo não atrapalhar o empreendedor e o trabalhador, acho que temos como melhorar essa questão do desemprego no Brasil”.

Tese 3 – Igualdade salarial entre homens e mulheres: “Se interferir, vai quebrar de vez. Você vai chegar lá e falar que é a mesma coisa? É uma coisa que não vai chegar a lugar nenhum”.

Tese 4 – Saúde: “Não sou médico. Quem for para o Ministério da Saúde tem de cuidar da saúde, e não da doença prioritariamente”. Ou: “Mortalidade infantil tem muito a ver com os prematuros, com o passado sanitário e alimentação da mãe”.

Tese 5 – Educação: “O que temos de fazer é inverter a pirâmide educacional, investir mais na educação básica”.

Tese 6 – Segurança pública: “A questão da inteligência, a coisa não é tão fácil. Os caras não têm inteligência, metem fogo e que se exploda o mundo. Se o Congresso me der uma excludente de ilicitude, o próprio policial militar dá conta”.

Tese 7 – Segurança individual: “Os caras estão matando independente de reagir. Eu quero ter 5% de chance de reagir”. Ou: “Você prefere a lei do feminicídio no bolso ou a pistola na bolsa?”.

Tese 8 – Corrupção: “Falta zelo com a coisa pública, pegar de frente a questão da corrupção”.

Tese 9 – Direitos fundamentais: “A minoria tem de se calar e se curvar à maioria”.

Tese 10 – Arte de governar: “Falta a governos a capacidade de se antecipar a problemas”.

As frases não foram pinçadas fora de contexto. Apesar da insistência de jornalistas, Bolsonaro não consegue elaborar mais. Depois de três décadas na política, seu repertório continua ginasial. Admite terceirizar o governo à equipe “posto Ipiranga”, cujo desempenho tampouco saberá julgar. Nem mesmo Donald Trump se permitiu tal confissão e nunca reconheceu que seu cérebro era pilotado por Steve Bannon. Bolsonaro se rendeu aos encantos de Paulo Guedes e garante que esse casamento (heterossexual) vai durar.

Os debates eleitorais, quanto mais oscilam entre o grito pela utopia bolsonara e o temor da distopia bolsonara, mais se distanciam dos problemas concretos do país. Ainda outro dia, discursos de campanha pediam para a esperança vencer o medo; agora fomos lembrados que, na política, a raiva pode vencer a razão.

Não há pensamento político, jurídico ou econômico, nem ciência empírica respeitável, que acomode o bolsonarismo. Bolsonaro recicla o que o Brasil e o mundo produziram de pior no século XX. Sua tese sobre memória histórica não poderia ser outra: “Esquece isso aí, é daqui pra frente!”. A agonia antipolítica corrói a democracia, e não faltam causas para esse estado de espírito. Bolsonaro não vem para enfrentá-lo, apenas para encarná-lo com mais virulência e desatino. Seguimos sem saber como resgatar o potencial transformador da política.


Conrado Hubner Mendes, Época, acessado em 11/08/2018



sexta-feira, 10 de agosto de 2018

OS AMANTES 

 Quem os vê andar pela cidade 
 se todos estão cegos? 
 Eles se tomam as mãos: algo fala 
 entre seus dedos, línguas doces 
 lambem a úmida palma, correm pelas falanges, 
 e acima a noite está cheia de olhos. 

 São os amantes, sua ilha flutua à deriva 
 rumo a mortes na relva, rumo a portos 
 que se abrem nos lençóis. 
 Tudo se desordena por entre eles, 
 tudo encontra seu signo escamoteado; 
 porém eles nem mesmo sabem 
 que enquanto rodam em sua amarga arena 
 há uma pausa na criação do nada 
 o tigre é um jardim que brinca. 

 Amanhece nos caminhões de lixo, 
 começam a sair os cegos, 
 o ministério abre suas portas. 
 Os amantes cansados se fitam e se tocam 
 uma vez mais antes de haurir o dia. 

 Já estão vestidos, já se vão pela rua. 
 E só então, 
 quando estão mortos, quando estão vestidos, 
 é que a cidade os recupera hipócrita 
 e lhes impõe os seus deveres quotidianos. 

Julio Cortázar

tradução de José Jeronymo Rivera

O olhar do Lobo

O olhar do Lobo da Estepe penetrava todo o nosso tempo, toda a afetação, toda a ambição, toda a vaidade, todo o jogo superficial de uma espiritualidade fabricada e frívola. Ah! Lamentavelmente o olhar ia mais fundo ainda, ia além das simples imperfeições e desesperanças de nosso tempo, de nossa espiritualidade, de nossa cultura. Chegava ao coração de toda a Humanidade; expressava, num único segundo, toda a dúvida de um pensador, talvez a de um conhecedor da dignidade e sobretudo do sentido da vida humana. Esse olhar dizia: “Veja os macacos que somos! Veja o que é o homem!” E toda a celebridade, toda a inteligência, toda a conquista do espírito, todo o afã para alcançar a sublimidade, a grandeza e o duradouro do humano se esboroava de repente e não passava de frívolas momices! 
(,,,)

Hermann Hesse
TIRANIA DA IMAGEM

Debate modorrento na Band. Uma sensação de déjà vu atravessou os blocos, onde cada candidato expeliu sua cota de ideias salvacionistas. O aparelho midiático se encarregou de produzir o espetáculo para o consumo habitual das palavras-de-ordem: "vote em mim".

A.M. 

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

MAHMOOD SABZI


O DEBATE

Vai ao ar na noite desta quinta-feira, na TV Bandeirantes, o primeiro debate presidencial de 2018. A ausência de Lula e o nanismo de Alckmin fizeram desaparecer o pano de fundo que decorou o estúdio da emissora nas últimas seis disputas presidenciais: a polarização tucano-petista. Desfeito momentaneamente o velho Fla-Flu, o centro das atenções tende a ser Bolsonaro. Novidade com cheiro de naftalina, o líder das pesquisas é um típico político brasileiro —grosso modo falando. Por isso, seu protagonismo injeta no debate o imponderável. Se for cutucado com o pé, Bolsonaro vai morder.

A corrida presidencial está envolta numa conjuntura que estimula o debate. Três contingências eletrificam a atmosfera: 1)Quem dita o rumo da disputa é o eleitor sem candidato. A dois meses da eleição, o pedaço desalentado do eleitorado soma um terço. Coisa inédita. 2) Caiu a taxa de marquetagem. A Lava Jato enxugou o caixa dois; 3) Com Lula na cadeia, não há candidatos favoritos na praça. Quem quiser conquistar a poltrona de presidente da República terá de molhar a camisa.
(...)

Do Blog do Josias,09/08/2018, 05:01 hs

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

UTOPIA

Ilha onde tudo se torna claro.
Chão sólido debaixo dos pés.
As únicas estradas, aquelas que oferecem acesso.
Arbustos curvam-se sob o peso das provas.
A Árvore das Suposições Válidas cresce aqui
com ramos desembaraçados desde tempos imemoriais.
A Árvore do Entendimento, deslumbrantemente reta e simples,
brota pela primavera chamada Agora Eu Entendi.
Quanto mais espessos os bosques, mais vasta a vista:
o Vale dos Obviamente.
Se algumas dúvidas surgem, o vento as dissipa instantaneamente.
Ecos agitam-se sem citar 
e ansiosamente explicam os segredos dos mundos.
À direita, uma caverna, onde o Significado repousa.
À esquerda, o Lago das Convicções Profundas.
A verdade verte do profundo e move-se para superfície.
Inabaláveis torres da Confiança sobre o vale.
Seus picos oferecem uma excelente vista da Essência das Coisas.
Apesar de seus encantos, a ilha está desabitada, 
e as pegadas fracas espalhadas em suas praias
apontam sem exceção para o mar.
Como se tudo o que você possa fazer aqui é deixar
e mergulhar, para nunca mais voltar, nas profundezas.
Na vida insondável.


Wislawa Szymborska