sábado, 31 de março de 2012

FOUCAULT POR ELE MESMO - 1

POESIA

A linguagem poética fere  de  morte  o princípio de identidade do discurso inteligível da  técnica. É isso mesmo. Uma   experiência-limite não precisa de palavras. Isso desconcerta a clínica do cérebro. Esta,   busca   neuro-lugares e pontos  fixos.  Cortem  aqui. Cortem ali.   A representação do Mesmo   é   batata. Abram   alguns  cérebros e lá estará  o rigor mortis. Enfim, um método infalível. Ele    gargalha  sobre a última  fronteira. Que  se passa?   Ainda  bem:  há  poesia injetada em   agulhas  finas.  A linguagem    desliza: criança, poeta, louco, vidente, artista, a  tralha  dos sem-eu, todos   descem    pelo conta-gotas da  resposta aos  sintomas. Não  há  como  se  explicar  aos  cientistas.  O tecido poético cria  muito antes  da medição dos contornos da hipófise. É matriz e argamassa  das  construções exatas    sobre  o funcionamento dos neurônios do baixo clero. Precisamos  de mais poesia, mais,   até  saturar os átomos  da  cabeça pensante. No entanto,  o pesquisador acadêmico enuncia  o veredicto das  horas perdidas  em conversas tolas. A condenação dirige o condenado às  labaredas do inferno das  psicoses, dos  retardos e das  demências  irreversíveis. Toca  o horror da  patologia,   limpa a mesa cirúrgica com estabilizadores  do humor.Assim fica  fácil  destruir subjetividades  em nome da ciência. Sem metáfora.

A. M.

LUZ E MISTÉRIO - BETO GUEDES

COTA ZERO


Stop.
A vida parou,
ou foi o automóvel?


C.D. de Andrade

A LAS 5 DE LA TARDE - poema de Garcia Lorca

LEMBRAR   A    ANTI-MEMÓRIA

No caso  1964, lembrar sem ressentimento não é fácil. No entanto, o direito à memória pode significar não a ruminação da dor e do  ódio, mas   a criação de um devir-coletivo, um sentimento solidário aos  que morreram lutando contra uma Realidade abominável ainda vigente  nos  dias atuais. Seria preciso ser mais claro?

A. M.
CULPA, CULPA,  MEA  CULPA

Em relação ao cristianismo, os gregos são crianças. Sua maneira de depreciar a existência, seu "niilismo", não tem a perfeição cristã. Eles consideram a existência culpada, mas não inventaram ainda o refinamento que consiste em julgá-la faltosa e responsável. Quando os gregos falam da existência como criminosa e "hybrica", pensam que os deuses tornaram os homens loucos: a existência é culpada, mas são os deuses que assumem a responsabilidade  da falta. Esta é a grande diferença entre a interpretação grega do crime e a interpretação cristã do pecado (...)

G. Deleuze - do livro Nietzsche e a filosofia

DIREITO À MEMÓRIA : torturados e assassinados pela Ditadura/64

CADÁVERES  GORDOS

Em todos os locais possíveis e imagináveis, longe de um lugar centralizado, visível e perceptivo, Félix Guattari aponta o perigo de um microfascismo ativo. Disseminadas em todo o campo social, essas forças, que absorvem a vida e a energia como buracos negros, fornecem aos poderes em vigor ocasiões de fabricar nódulos , pontos de endurecimento sobre os quais se fazem a ancoragem e a inspeção sanitária das malhas e esquadrinhamentos mais envolventes. A passagem da antiga sociedade disciplinar, teorizada por Foucault, para a sociedade de controle, diagnosticada por Deleuze, supõe a exacerbação, a proliferação e a expansão dos microfascismos (...)

M. Onfray - do livro A política do rebelde - tratado de resistência e insubmissão

ALGUNS DIAS ANTES DO 31 DE MARÇO DE 64

INVENTAR  UMA  CLÍNICA  EM  PSICOPATOLOGIA

Em geral, o psiquiatra tem  à sua  frente o “movimento”  e só  consegue  ver  a forma estática e a  matéria  sólida.   Claro, foi  treinado   para isso.  Falamos de  outra  coisa, a clínica  in vivo, o  trabalho   com a  matéria invisível,   o meio  do qual  o    paciente faz parte,  a ausência  de coordenadas  espaço-temporais  estáveis. O  eu  é uma delas.   Quem  você  é  ?  Isso  vale   para  o psiquiatra  seguro  da (sua)  verdade. A incerteza do  eu  e  das  crenças  básicas  precede  o  Encontro.   Não  há   clichês. O  paciente   não  tem forma.  Seu  desejo  não  tem  forma.  Ele age  como  produção de universos móveis.  Isso é difícil  de  aceitar. Como   encontrar  o paciente pela via  da multiplicidade? Como acessá-lo de  um modo  diferente  do  da psiquiatria  biológica e farmacológica? Parece quase impossível ou  talvez algo  delirante para  os  que  estão presos à   grade da CID-10.    Encontrar o paciente é encontrar  a si  mesmo. Esta seria     uma   fórmula   estéril  se  estivesse   atada  à  visão  do   eu  como  interioridade  psíquica.   Contudo, trata-se de  outra  coisa.  Buscamos      sair  de nós    mediante uma   exposição  aos  signos  do  mundo. “Você    traz  novidades que  me  fazem ser    diferente”.   É   uma  base  para    o tratamento,  são      potências   a  serem  descobertas  no paciente e no psiquiatra.  O    paciente,   apesar  de  codificado   pela  psiquiatria,  funciona  em  linhas  da   diferença  que vazam. A   forma  dada,  estática,  no fim  das  contas,   é  efeito  do  poder  médico. Isso   dificulta  uma   prática em direção a  expressões  novas. Sendo assim,  o exame da mente para encontrar a mente  terá    que  se   transformar   numa produção/intuição  de  multiplicidades. Não  mais    haveria   exame  mental  porque  a “mente” não  é  algo  visível. E o que  seria  examinado  (ou  encontrado)?
Devires.  Eles    compõem   processos  do  desejo  e    articulam   crenças. Deste modo,  afetos e  crenças    desarranjam  a  máquina  dos  sintomas-fármacos (...)

Antonio Moura    

Desejar...
DEZ   ERROS  SOBRE  A  ESQUIZOFRENIA

Erro 9-Desprezar  os  afetos  esquizofrênicos, classificando-os  como inadequados.
Causa: ignorância  secular da psiquiatria a respeito dos  processos  afetivos  presentes na  experiência  esquizofrênica.  Um exemplo: os  risos imotivados.

A.M.

sexta-feira, 30 de março de 2012

AS VITRINES - CHICO

O QUE É A VIDA?

Poucos conhecem as maravilhas que se descortinam para si nas história e visões de sua juventude, pois quando somos crianças escutamos e sonhamos e pensamos tão-somente pensamentos incompletos e quando , já adultos, tentamos recordá-los, estamos entorpecidos e vulgarizados pelo veneno da vida (...)

H. P. Lovecraft - do livro À  procura de Kadath
NEM  SUJEITO  NEM  OBJETO: O TEMPO

O tempo não é um todo, pela simples razão de ser a instância que impede o todo. O mundo não tem conteúdos significantes pelos quais se poderia sistematizá-lo, nem significações ideais, pelas quais se poderia ordená-lo, hierarquizá-lo. Tampouco o sujeito possui uma cadeia associativa que possa contornar o mundo ou conferir-lhe unidade. Voltar-se para o sujeito não é mais proveitoso do que observar o objeto: o "interpretar" anula tanto um quanto o outro (...)

G. Deleuze- do livro Proust e os signos

AMY

DEZ    ERROS   SOBRE    A ESQUIZOFRENIA

Erro 8-Considerar  de antemão que  o esquizofrênico está fora  da realidade.
Causas: crença inabalável  da  psiquiatria   nos  códigos  sociais  vigentes (conservadorismo);    adesão política  a uma  realidade  única e  verdadeira, a  Realidade  Dominante, desconsiderando as outras  realidades.

A.M.

quinta-feira, 29 de março de 2012

DESEJAR...
RESISTIR, RESISTIR

Legiões  de psiquiatrizados  de toda parte ajoelham-se  no altar  dos  psicofármacos e   dos   cérebros   à mão. Tudo   conspira a  favor do consumo  de   pacotes  cientificamente autorizados  para ações lucrativas. No  entanto,  mesmo   desbotada e segregada nos  grilhões cidológicos , a diferença  resiste.   A ética da potência  de  viver afirma-se    como  ética  de poetas   itinerantes (...)

A. M.
DEZ   ERROS  SOBRE   A   ESQUIZOFRENIA

Erro 7-Estabelecer uma identidade para  o esquizofrênico: o ser-esquizofrênico.
Causa: manobra  político-institucional da psiquiatria visando configurar  um modelo de Doença  Mental  (o ser- paciente) em contraste  com um modelo  de Saúde  Mental (o ser-psiquiatra).

A.M.

quarta-feira, 28 de março de 2012

"Não devemos resistir às tentações: elas podem não voltar"

Millor
"Sou carioca da algema"

Millor Fernandes
O CONSUMO DA  SERVIDÃO

Uma compreensão da subjetividade a partir do funcionamento cerebral não é um erro. É tão só uma visão  incompleta e reducionista da realidade psíquica. Mais: pelo lugar de poder que a psiquiatria ocupa,  isso se  transforma em dano sobre o paciente. Na área obscura do biopoder, o paciente  é fabricado como organismo que consome verdades prontas. Tome esse comprimido: é para o seu bem.  A engrenagem semiótica,  para  funcionar e funcionar  bem (asséptica e sem travamentos),  conta com a adesão inconsciente de segmentos sociais  "bem intencionados" em suas respectivas  subjetivações. Um padre, um juiz, um delegado, um burocrata, um pastor, um empresário, um diretor de RH, um médico, um professor, uma mãe,  entre outros, são personagens sociais que caucionam o desejo de ordem e de harmonia.  Alguém que ouse quebrar esse circuito, arrisca-se a mergulhar nas  trevas do Indiferenciado: a  insânia. 

A. M.

BILLIE HOLIDAY - The blues are brewin

FALA, PESSOA...



O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.

Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
que o luar através dos altos ramos.

F. Pessoa

Isso pode ser invisível
ENLOUQUECER  PARA  NÃO  ADOECER

A tão falada (confira no texto da Reforma Psiquiátrica) "superação' do modelo hospitalocêntrico (caso dos Caps como alternativa - há mais de 1600  no Brasil) passa, no mínimo,  por dois níveis de ação: 1-gestão das políticas públicas enfocando o paciente  (usuário) antes da doença (ou transtorno); melhor dizendo, a ética vindo antes da política; 2- Uma efetiva transdisciplinaridade da clínica no âmbito das ações da equipe técnica; ou seja, fim das hierarquias grupais. Sabemos que os dois níveis não foram atingidos, talvez nem sequer pensados por quem deveria. Os Caps não passam de ambulatórios e/ou hospícios  disfarçados, não tão bem disfarçados... As exceções são pouquíssimas.

A. M.
Cuidado! Escola.
DEVIR-OUTRO

Meu ideal, quando escrevo sobre um autor, seria não escrever nada que pudesse afetá-lo de tristeza, ou, se ele estiver morto, que o faça chorar em sua tumba: pensar no autor sobre o qual escrevemos. Pensar nele de modo tão forte que ele não possa ser mais um objeto, e tampouco possamos nos identificar com ele. Evitar a dupla ignomínia do erudito e do familiar. Levar a um autor um pouco de alegria, da força, da vida amorosa e política que ele soube dar, inventar. Tantos escritores mortos devem ter chorado pelo que se escreveu sobre eles (...)

G. Deleuze - do livro Diálogos
DEZ  ERROS  SOBRE  A  ESQUIZOFRENIA

Erro 6-Avaliar o prognóstico de forma  niilista.
Causa: o ítem  anterior  somado  à  concepção da esquizofrenia como  uma  espécie  de  doença  maligna  degenerativa,   e  o esquizofrênico  como   alguém  com  um  destino trágico a ser  cumprido.

A.M.

DIANA KRALL - EXACTLY LIKE YOU

terça-feira, 27 de março de 2012

A PSIQUIATRIA
PRECISA MAIS
DO SEU PACIENTE
QUE O CONTRÁRIO

NINGUÉM NUNCA
VAI ADMITIR ISSO

CLARO


A.M.


DIÁRIOS DE MOTOCICLETA

A  CLÍNICA COMO  ELA  É

Desse  modo,  antes   da   técnica  é  preciso  compor   linhas de  vida. Implica em  dizer que  o  trabalho  com o paciente  segue   a  arte  como  experimentação. Experimente,  não  interprete,  diz  Deleuze.   Os dados da  história pessoal  e  das contingências atuais estão baralhados  na  superfície  do Encontro. O  trabalho,  no caso do  psiquiatra,  será o de   destruir  formas sociais rígidas (por exemplo, o  afã  de  medicar,  o diagnóstico  cidológico,  o  corporativismo médico, etc) e  criar  dobras, saídas, mesmo  ínfimas  e imperceptíveis, para os  impasses  existenciais (...)

A. M.
O hospício sobrevive e passa bem
 DEZ  ERROS SOBRE A ESQUIZOFRENIA

Erro 5-Pensar que  o esquizofrênico não pensa.
Causa: atualização contemporânea  do espírito  cartesiano  expresso  quando  do exame  do paciente. Resume-se  assim:  ele  não  pensa, ele  não existe.

A. M.

segunda-feira, 26 de março de 2012

JOÃO DONATO - BANANEIRA

DEZ  ERROS  SOBRE A ESQUIZOFRENIA

Erro 4-Tratar  apenas com psicofármacos.
Causa: a mesma que a do ítem anterior acrescida da  herança  histórica  da  psiquiatria    (vontade  de  controle  do paciente)  e  a  aliança   com  os   interesses  da  indústria  farmacêutica  internacional.

A.M.

domingo, 25 de março de 2012

GLASS - DEAD THINGS

QUEM SOFRE?

Apesar  das  intenções  humanitárias   da psiquiatria, a  dimensão do socius   na formação  capitalista   infiltra-se    na  realidade subjetiva, marcando-a  como  produto. O paciente  é  esse  produto e, portanto,   não  “sente”. Apenas  é  consumido. É um   dado  inscrito    no circuito delirante  do  capital.  Produção, registro   e  consumo.   A  produção ampliada  de modelos patológicos  desenha e  busca   identificar  novos    transtornos  mentais.Apesar  do  “produto não sentir” ,  algum  sentimento psíquico  “deve”  acompanhar  a  doença  respectiva e  registrá-la  como demanda, mesmo que  seja  a da  família.Estamos  no consumo.  Impõe-se uma necessidade  de  sofrimento por  se estar  doente.  O diagnóstico de  psicose   nivela  as  afetividades pelo  incômodo  causado  ao  Outro. Os  transtornos  mentais  são  transtornos, o  nome  o indica. A psiquiatria  dispõe   um  sistema  classificatório  dos  comportamentos em torno  do   sentimento  de  ser  doente. É um detalhe  semiótico atado ao quadro  psicopatológico de  base. Passa  pela  consciência. A avaliação  é,  antes  de tudo, a  da consciência alienada.   Sinta-se  doente, você  está  fora  dos  normais, está  fora  da  produção, fora  da  vida.Para  ser  um sujeito  você  tem que  admitir  que  está doente. O sentimento de  ser   ou   estar doente, de  ser  portador  de  um transtorno mental é  antes  produzido  pela  psiquiatria  e   suas  agências  de  apoio: família, escola, polícia, direito, estado e  a indústria  farmacêutica. Então, temos  o esquema: afetos coletivos  (desejo) =instituições= produção, registro  e consumo   de  sentimento = organismo   visível = subjetividade  individuada =consciência  de si=sofrimento (...)

Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria
O DESEJO É OBJETIVO

Os revolucionários, os artistas e os videntes se contentam em ser objetivos, nada mais que objetivos: sabem que o desejo estreita a vida com uma potência produtora, e a reproduz de uma maneira tanto mais intensa quanto menos ele tem necessidade. E tanto pior para aqueles que acreditam que é fácil falar, ou que é uma idéia que está nos livros. "Das poucas leituras que eu havia feito, tinha tirado a conclusão que os homens que mais se embebiam de vida, que a modelavam, que eram a própria vida, comiam pouco, dormiam pouco, só possuíam uns poucos bens, se é que tinham algum. Não tinham ilusão em matéria de dever, de procriação, aos fins limitados de perpetuar a família ou defender o Estado (...) (...) O mundo dos fantasmas é aquele que ainda não acabamos de conquistar. É um mundo do passado, não do futuro. Ir adiante agarrando-se ao passado é arrastar consigo a bola de ferro do passado" (Henry Miller, Sexus)
(...)

G. Deleuze e F. Guattari - do livro O anti-édipo

MARISA MONTE e ADRIANA CALCANHOTO

BIOGRAFIA DO ORVALHO

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não 
aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc, etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o mundo usando borboletas.

M. de Barros

DISCURSO DE CHAPLIN

COMO FAZER?

A   loucura extrapola   os limites  do pensar  médico. Quais as  conseqüências  desse fato?  Ora, se   o   nosso  tema é   o    exame  do chamado portador de  transtorno mental,   nele    se  misturam     linhas  “normais”   e   “anormais”   da  subjetividade. O exame passa    a ser um não-exame,   um Encontro.      Há,  pois,   que   percorrer   o   “como  se  dá”    do   Encontro,    ou seja,  expressar   o    que  foge   ao     enquadre   da psiquiatria   científica.  Ainda  assim,  não  formulamos   uma   crítica  ao  exame mental  clássico.  Este   é apenas  o   que  é   possível  ser.  Mas   ele   “pertence” ao  Encontro e não  o contrário.    Está  autolimitado pela visão  médica da  subjetividade.   Bem   mais,    importa  afirmar um método e um  estilo  de operar a clínica. O que fazer da   loucura   ou da angústia?  

A. M.

VINICIUS DE MORAES - SAMBA DA BENÇÃO

 DEZ ERROS SOBRE A ESQUIZOFRENIA

Erro 3-Não escutar o esquizofrênico.
Causa:  concepção  médica que  prioriza o sintoma em detrimento  da vivência  do  paciente, o que  implica na  busca  da  exclusão  do  primeiro.

A. M.

sábado, 24 de março de 2012

NÃO HÁ  FALTA

Tinha saído de uma longa bebedeira, durante a qual perdi um emprego mixa, o meu quarto e (talvez) a cabeça. Depois de passar a noite dormindo num beco, vomitei no sol, esperei cinco minutos e aí então acabei com o resto da garrafa de vinho que achei no bolso do paletó. Comecei a andar pela cidade, assim, ao léu. Enquanto caminhava, me veio a sensação de que estava percebendo, em parte, o sentido das coisas. Claro que não estava. Mas ficar lá parado, no beco, não resolvia nada.
Andei bastante, com pouca lucidez. Considerei vagamente, a fascinante possibilidade de morrer de fome. Só queria encontrar um lugar pra deitar e ficar esperando. Não sentia nenhum rancor contra a sociedade porque não fazia parte dela. Há muito tempo que já tinha me conformado com esse fato.
 (...)

C. Bukowski - do livro Fabulário geral do delírio cotidiano

VOU TE CONVIDAR - VANGE MILLIET

O CÍRCULO DA DEPENDÊNCIA ABJETA

Existe o corporativismo psiquiátrico. À parte as habituais alianças liberais com a Medicina e a tradicional  e estratégica  oposição  ao Estado burguês,  o corporativismo psiquiátrico se alimenta de um discurso de verdade sobre a loucura e seus assemelhados. No campo da  Saúde Mental,  põe à serviço  o profissional a quem o portador de transtorno mental deve recorrer.Ou seja: se está louco procure um psiquiatra. Tal assertiva baseia-se na naturalização dos códigos sociais em torno da figura do psiquiatra e do valor da psiquiatria enquanto  instrumento de controle das condutas ditas  irracionais. Simples assim. Mas, funciona... quem duvida?

Antonio Moura

TITÃS - MARVIN

VIAGENS DE MIGUEL


Miguel já fez 1 ano e 15 dias. Acompanho as suas aventuras. Passo a passo, vou tentando livrá-lo de apuros, quando, por exemplo,  aperta o dedo na porta do armário ou não consegue abrir uma gaveta, apesar de desejar  muito, o que expressa com gritos intensos e sons desarticulados. Aqui a ali, suas alegrias  e insatisfações caminham juntas e fusionadas, às vezes sendo difícil separá-las. Miguel sorri e gargalha, e logo em seguida chora choros variados, a depender do desejo impedido, cortado. Não importa: o desejo faz a curva e retoma um percurso que produz uma nova linha, por exemplo, apertar o botão play do computador. No meio de tudo isso, o que vem  me  encantando são os movimentos que  Miguel ensaia ao ouvir uma música. Parece até  que ele já conhecia João Bosco e Carlos Santana : uma familiaridade rítmica inunda o seu corpo, tal como uma corrente elétrica ou ondas de um  mar revolto. Miguel é um ser metafísico, como toda criança é. Me desdobro e me dispo de racionalizações adultas para acompanhá-lo sem julgamentos e clichês estéreis de  um  humanismo esgotado.


Antonio Moura
O NÃO-PATOLÓGICO

A pesquisa dos chamados transtornos mentais implica em  se considerar o não-patológico. Do contrário, cai-se numa psiquiatrização  tosca  e produtora   de doentes  em série. O campo das depressões ilustra bem esse dado.  Pichon  Rivière já falava das depressões como uma linha existencial  que percorre a condição humana desde o nascimento.Há sempre perdas, rompimentos, cortes, fissuras ocultas, enfim, a irreversibilidade da vida atuando em Formas  aparentemente eternas. Na base da psicopatologia, o Trágico  silencioso...

A. M.
uma rosa é uma rosa é uma rosa 
SERÁ POSSÍVEL UMA NOVA CIÊNCIA?

A ciência clássica visa sempre descobrir a verdade única do mundo, a única linguagem que decifra a totalidade da natureza - hoje, diríamos, o nível fundamental de descrição - a partir da qual tudo o que existe pode, em princípio, ser deduzido. A ciência clássica postula sempre a monótona estupidez do mundo que ela interroga (...) (...)  O século XIX acreditou descobrir que a verdade é triste; o progresso da ciência acaba por ser sempre o mesmo, quaisquer que sejam as convicções pessoais do cientista; o que a ciência clássica toca, seca e morre. Morre para a diversidade qualitativa, para a singularidade, para tornar-se a simples consequência de uma lei geral (...)

I.Prigogine e I Stengers - do livro A nova aliança - metamorfose da ciência
           DEVIR-ALUNO


1-A máquina binária -  Antes da pessoa do professor e do aluno existe a máquina binária do ensino obrigatório que estabelece as condições organizacionais para  aprender e ensinar. Diz-se o que é aprender e o que é ensinar, e esse enunciado implícito é aceito como um fato natural. A boa vontade de um professor em ser um bom mestre (=passar os conteúdos), bem como a disposição do aluno em aprender(=acumular os conteúdos), não significa que o pensamento esteja presente. Não significa também que haja criação ou produção de conhecimento, mesmo que o ensino esteja acoplado a alguma pesquisa. Há outras variáveis em jogo.  Tais variáveis  vêm da instituição educacional e superpõem-se  sobre o ensino, sobre o ato de ensinar, como se ensinar e educar fossem a mesma coisa. Educar remete à Educação, à forma-Educação, poderosa instituição milenar que se reproduz  em práticas escolares; este é  o seu ponto de aplicação talvez mais efetivo,  a  superfície de inscrição do desejo de saber, aí onde a materialidade da aula  encontra  uma  expressão acabada e direta. Ou seja: o professor é quem ensina porque sabe; o aluno é quem aprende porque não sabe.
É a máquina binária professor-aluno   funcionando em toda a parte onde existe escola. Não  se trata, pois, de considerar as pessoas, boas intenções  etc,  ao jeito humanista de ver as coisas.  A máquina produz as pessoas, ou melhor, as pessoas   são peças que se ligam umas às outras para a produção de subjetividades em série, prontas para o Mercado. Isto não significa que, em termos da experiência do professor e da experiência do aluno, haja uma passividade em relação ao que acontece em torno. Pelo contrário, a pessoa, tendo  um  universo de  representações e  imagens ao seu dispor, mormente quando estimulada  pela atividade intelectual, acredita estar agindo, quando é agida. Acredita estar controlando, quando é controlada. Acredita estar mandando quando é mandada. Tudo ocorre num campo invisível, onde só as forças tem acesso e funcionam em regimes subjetivos ou de subjetivações. A pessoa é o indivíduo e este é o sujeito, num encadeamento natural  para que  o ato de ensinar/aprender  se faça sem problemas. Esta  máquina está ligada a outras máquinas, isto é,  a instituições:  são formas sociais, cristalizações de processos, outrora, talvez, de criação. A escola, a educação, o eu, a avaliação, a aula,  a divisão público/privado, entre outras, são formas sociais que, como trilhos dispostos sobre o caos, orientam o rumo do ensino e do aprendizado  para  um objetivo maior, transcendente, e por isso, intocável: o acúmulo de conhecimento.
Um desejo de ensinar e um desejo de aprender se conjugam para estabelecer a superfície do Encontro professor-aluno. Como dissemos , a superfície é uma máquina, na medida em que antes das pessoas, estão as instituições.  Elas se imiscuem numa produção incessante de consumo. Consumir o ser. Ser alguma coisa para o mercado. Esta é a regra que vem de fora mas que está dentro da máquina. É o seu próprio combustível. Pelo menos, em tempos de hoje, o Mercado é a lei das visibilidades expostas na vitrine das técnicas: quem serei amanhã? como sobreviverei? A visão do mestre como sacerdote, e da educação como o lugar da salvação, foi  devorada  pelo  Mercado onipresente. Daí,  falar da máquina binária requer falar  da máquina ternária, onde se insinuam relações de troca e mais profundamente relações de poder. Um lugar espera o professor com o script marcado, tanto mais, ou quanto mais ele inove ou queira inovar métodos e técnicas em sala de aula. A sala de aula é  o rosto do mercado travestido em rigor pedagógico; este disfarça o rigor mortis do desejo.  Nestas condições, ser professor é seguir a pedagogia da falta, para a qual falta  conhecimento ao aluno, falta responsabilidade ao aluno, falta compromisso ao aluno, sendo  necessário   preeenchê-lo,   enchê-lo. De idéias, conceitos, opiniões. E o pensamento?
(...)

A. M.

MARANGUAPE DE CHICO

DEZ ERROS SOBRE A ESQUIZOFRENIA

Erro 2 - Acreditar que  a origem  da  esquizofrenia   está  apenas  no cérebro.
Causa:  epistemologia  psiquiátrica  com visão tosca  acerca da etiologia dos  transtornos  mentais, não  considerando  a  co-existência  de múltiplos  fatores  envolvidos.

A. M.

sexta-feira, 23 de março de 2012

GRANDE CHICO ANÍSIO

DAS SINGULARIDADES

Alguma coisa que não é nem individual nem pessoal e no entanto, que é singular, não abismo indiferenciado, mas saltando de uma singularidade para  a outra, sempre emitindo um lance de dado que faz parte de um mesmo lançar sempre fragmentado e reformado em cada lance. Este novo discurso não é mais o da forma, mas nem muito menos o do informe: ele é antes o informal puro. "Sereis um monstro e um caos"... (...) (...) É esta singularidade livre, anônima e nômade que percorre tanto os homens, as plantas e os animais independentemente das matérias de sua individuação e das formas de sua personalidade (...)

G. Deleuze - do livro Lógica do sentido

UMA LIÇÃO PARA NÃO ESQUECER

CARTER E A DESCIDA AOS INFERNOS

Terrível é a lembrança daquela tenebrosa descida em que as horas passavam enquanto Carter girava e girava descendo, às cegas, por aquela interminável, íngreme e escorregadia espiral. Os degraus eram tão gastos e estreitos, e tão engordurados pelo gotejar dos subterrâneos da terra, que o viajante jamais saberia exatamente quando esperar uma queda vertiginosa e  um choque no fundo do poço e igualmente não saberia quando e como os esquálidos guardiães cairiam repentinamente sobre ele, se houvesse algum deles de vigia nesta primitiva passagem. Ao seu redor, persistia apenas o odor sufocante de abismos profundos e ele sentiu que o ar dessas asfixiantes profundezas não era próprio para a humanidade (...)

H.P. Lovecraft -  do livro À procura de Kadath
DEZ  ERROS  SOBRE A ESQUIZOFRENIA

Erro 1-Diagnosticar como  esquizofrênico quem não é.
Causas:  imprecisão    do conceito  de  esquizofrenia; extrema  variabilidade da sintomatologia clínica;  semelhança com outros  quadros  psiquiátricos, notadamente  os  psicóticos.
(...)

A. M.

JOÃO BOSCO - TERRA DOURADA

quinta-feira, 22 de março de 2012

O PAVOR AO DESEJO

Contra a  psicanálise dissemos somente duas coisas: ela destrói todas as produções de desejo, esmaga todas as formações de enunciados. Com isso ela quebra o agenciamento sobre suas duas faces, o agenciamento maquínico de desejo, o agenciamento coletivo de enunciação. O fato é a que  a psicanálise fala muito do inconsciente, ela até mesmo o descobriu. Mas é, praticamente, sempre para reduzi-lo, destruí-lo, conjurá-lo. O inconsciente é concebido como um negativo, é o inimigo (...)

G. Deleuze do livro Diálogos

LOREENA MACKENNIITT - MARCO POLO BARAKA

O que é uma equipe técnica em saúde mental?

Se retirarmos a essência do grupo enquanto conceito e frente ao que a psicose nos traz de não-essência, dizemos que toda equipe é uma montagem, um artifício, um dispositivo-de-ação trabalhando e trabalhando-se num processo de produção da superfície da Clínica (...)

Antonio Moura -  do texto A equipe técnica numa enfermaria psiquiátrica

CARLOS SANTANA - Maria Maria

UM DIAGNÓSTICO FURADO

O diagnóstico de esquizofrenia serve pouco ao paciente. Em muitos casos o prejudica. Preferimos usar o diagnóstico de uma PSICOSE GRAVE. Este diagnóstico implica em considerar: 1-o sofrimento do paciente; 2- capacidade de autonomia social; 3-  capacidade de desempenho de papéis sociais; 4-capacidade laborativa; 5- funções cognitivas; 6- formas de comunicação com as pessoas  (relações interpessoais); 7-nível de auto-observação e auto-crítica; 8- formas de inserção do delírio na produção social-subjetiva; 9-vivência (crenças e afetos) dos sintomas ditos psicóticos: delírios e alucinações; 10-adesão ao tratamento proposto. Haveriam outros ítens a serem pesquisados. O essencial, contudo,  é buscar linhas de singularização existencial que atravessam e  precedem os  sintomas. 

A. M.

PINK FLOYD - SPEAK TO ME

O GRUPO COMO AÇÃO SINGULAR

Deleuze disse certa vez que o poder, ao tomar como objetivo a própria vida - questão contemporânea da subjetividade - se a controla, igualmente suscita uma vida que resiste ao poder, subvertendo os diagramas até então inquestionados e reconhecidos. Novos dispositivos então se inventam: eles agem contra o tempo e sobre o tempo, em favor - espera ele, espero eu - de um tempo por vir, o dos dispositivos...  em ação... pelo múltiplo, o singular , a festa... a vida como obra de arte.

Regina de Barros - do texto Dispositivos em ação: o grupo

quarta-feira, 21 de março de 2012

HENRY MILLER

CIDOLOGIA FANTÁSTICA

Não existe apenas o psiquiatra cidológico. Este pouco valeria se não houvessem  outros  técnicos  também cidológicos,  dando-lhe  apoio institucional  e conferindo prestígio social e científico às suas ações. Podemos, pois,  dizer  que há um Movimento Cidológico, uma cidologia  militante    constituindo   o campo da Saúde Mental. Conexões jurídicas, policiais, familiares, escolares, entre outras, fazem deste Movimento um contra-movimento à produção da diferença. Um dos resultados mais evidentes é a existência vegetativa e iatrogênica   de ambulatórios de psiquiatria disfarçados de Caps . Contudo,  há muito mais...

Antonio Moura

OS EDUKADORES

RECEITA EM SÉRIE

Em psiquiatria clínica, é   possível    usar  poucas  associações medicamentosas?  Elas embotam o paciente e o psiquiatra. Nestes casos   um diagnóstico  revelador  do que se passa,  costuma ser  descartado. Se, além do mais,    for   difícil   captar a vivência mórbida,  ficar  na  espreita do acontecimento  já  é um ganho ético.  Escutar  o vento nas orelhas do paciente. Ou  apenas  contemplar o que ele diz e o que  se vê.   Isso basta para começar o trabalho de   garimpagem dos signos. Percutir  as   linhas do   desejo  talvez   faça    surgir   algo  que   não  anseie  por  fármacos (...)

Antonio Moura 

CHEQUE AZUL

ANTI-PARANÓIDE

Para  haver  encontros  que   criem   e  não reproduzam  universos  estáveis,  é  preciso     intercessores. Eles  podem ser  qualquer  coisa  e   são o   que  nos  força  a pensar . No caso  da  clínica, como vimos,  o que  força  a pensar  é  o  delírio  não  medicalizado   que  tem  na esquizofrenia  a  sua  expressão  acabada.  Para  um bom encontro com o paciente,  a loucura-em-nós  é  um   exercício  de  sensibilidade.: uma  ética.    Busca  aumentar  a potência  de  viver.  Por  outro lado  ela  não existe  fora das   linhas  de força que  compreendem  relações de poder. Tais  relações   compõem    a  trama  das  instituições  que  conduzem e/ou  esmagam  a produção desejante.Toda  ética  é  uma   política, ou  mais precisamente, uma  micropolítica  imanente à  clínica. Isso não costuma   se    mostrar    ao olhar   psiquiatrizado  ou  psicologizado .  O  olho psi  é  um olho   homogeneizado  e  homogeneizador. Ele  “persegue”   o semelhante  e o  humano  em toda  a parte. É um olho  paranóide (...)

A. M. 

KEITH JARRET - solo

SEM TRÉGUA

A lei não é pacificação, pois, sob a lei, a guerra continua a fazer estragos no interior de todos os mecanismos de poder, mesmo os mais regulares. A guerra é que é o motor das instituições e da ordem: a paz, na menor das suas engrenagens, faz surdamente a guerra. Em outras palavras, cumpre decifrar a guerra sob a paz: a guerra é a cifra mesma da paz. Portanto, estamos em guerra uns contra os outros; uma frente de batalha perpassa a sociedade inteira, contínua e permanentemente, e é essa frente de batalha que coloca cada um de nós num campo ou no outro. Não há sujeito neutro. Somos forçosamente adversários de alguém.

M. Foucault - do livro Em defesa da sociedade

O PASSADO HOJE

Copacabana - década de 20
FAZER FAZENDO

A  clínica  da  diferença   busca   atuar  em   linhas   existenciais desprezadas  pela  razão.  Lida com  o  incurável,  o imprestável,  e  com  discursos  submetidos  às formações de poder. Requer um  desejo   não apoiado na realidade objetiva  pois  o desejo é a  própria   realidade objetiva.No universo  sedutor-violento  do  capital, a  aposta  num trabalho com  pacientes  graves  capta  o ritmo das  canções  sem  dono. Tudo  é impessoal e coletivo. O trabalho num  Caps    torna-se, então,    a   procura   de saídas não  cadastradas pela psiquiatria  canônica. A ótica  da  diferença é  o  novo.  A  ética  precede  a técnica (...)

A. M.

terça-feira, 20 de março de 2012

ANDRÉIA DIAS - Seu retrato

um   pouco  de  ar
senão eu  sufoco
deleuze  respira

respira  deleuze
esta  canção  doce

e  infernal

TOM ZÉ - SE O CASO É CHORAR

ESTAMOS SEMPRE NO MEIO DAS COISAS

O tema "As depressões" começa com o nexo  estreito corpo-tempo e  suas expressões clínicas. A semiologia do "estar deprimido" (a vivência)  traça  linhas do desejo que estacam  1-  no corpo-organismo;  2- no corpo-cronos,  presídios  camuflados  do   viver.  Escrever  sobre isso: uma gestação  dolorida,  intensa e  sem cais. 

A. M.

RON MUECK - escultura

UMA ÉTICA DA IMANÊNCIA

O problema ético é inteiramente relevante se for posto no lugar próprio. Libertação não é soltar a alma do corpo; é recuperação da cisão tática entre a alma e o corpo, que parece necessária à disciplina social do jovens. A libertação põe a razão e a cultura não contra Eros, mas à disposição de Eros, do corpo "perverso polimorfo" que sempre retém a potencialidade de um relacionamento completamente erótico com o mundo - não apenas por intermédio  do sistema genital, mas por intermédio de toda a capacidade sensória. A libertação restaura o "narcisismo primário" não só do organismo por si, mas do campo organismo/ambiente. Cabe portanto perguntar como esse "narcisismo" poderia expressar-se éticamente; ou, em outras palavras, qual seria a ética de Eros e da espontaneidade distinta da ética da sobrevivência (...)

Alan Watts - do livro Psicoterapia oriental e ocidental

NADA SERÁ COMO ANTES, MILTON

À ESPREITA

Escutar o paciente é a primeiríssima lição de uma propedêutica médica. Daí, a crítica à não-escuta (em 5 minutos você recebe um tiro...)  ainda está no quadro conceitual da própria medicina, e por extensão,  da psiquiatria.  Contudo,  nem começamos a falar.   Dela.   Só balbucios,  gritos loucos  e  percepções  vagas. 

A. M.

STAGIUM na batucada fantástica


Exame

Ao contrário do que se pensa, o paciente  sabe  de  si e do mundo, mesmo estando  psicótico, principalmente  por   estar  psicótico.  Ele  desvia o rosto dos  enquadres  médicos.  Um caminho em linha faz sentido  duplo. A hierarquização cede espaço. O paciente não é o   do  psiquiatra  e sim do mundo.  Sem médico ou:  não se  sente paciente. Está  fora. Não entra em  compilações clínicas, não é atendido, não precisa, não está  para isso. Um vazio toma conta da sala. Risos imotivados  tem um motivo e  uma interpretação. A psiquiatria a tira por  entre   ampolas da  sala. Quem  fala? Ouve-se um ruído de imagens heréticas. Elas  chegam ao cérebro. Vêm de longe, logo ali. São  feitas  da matéria. Esta  é  invisível.   O  paciente  é  uma imagem, tudo é imagem. Daí,  a sua  presença marcar um grito  que  extrapola   os limites da    clínica. Uma queixa, um comportamento, um sintoma-signo.   Quem fala  coisas fora dos  trilhos?  Qualquer  um pode, desde que a existência brilhe.  A irreversibilidade do fato biológico  ou de qualquer  fato comprova o silêncio  que  banha a hora do desencontro.  Sem que  se perceba, é preciso inverter  a ordem.      Nada mais faz sentido senão a produção   do sentido, mesmo  o sem-sentido. O paciente  está desnorteado ante os   fluxos de verdade   da  saúde  mental.  No entanto,  seu corpo é  um projétil que  se desloca  à velocidade do pensamento:  não se dobra, mas  se desdobra em  imagens atuais. Você não sabe  do que  falo, mas  sabe  do que  sinto em relação a essas  experiências  sem  dono.

A. M.

TUDO PASSA

(...)  a única subjetividade é o tempo, o tempo não-cronológico aprendido em sua fundação, e somos nós que somos interiores ao tempo, não o inverso. Que estejamos no tempo parece um lugar-comum, no entanto é o maior paradoxo. O tempo não é o interior em nós, é justamente o contrário, a interioridade na qual estamos, nos movemos, vivemos e mudamos (...) (...) A subjetividade  nunca é a nossa, é o tempo, quer dizer, a alma ou o espírito, o virtual. O atual é sempre objetivo, mas o virtual é o subjetivo: primeiro era o afeto, o que sentimos no tempo; depois o próprio tempo, pura virtualidade que se desdobra em afetante e afetado, " a afecção de si por si" como definição do tempo (...)

G. Deleuze - do livro Cinema - a imagem-tempo