terça-feira, 31 de julho de 2018

A ESQUIZOFRENIA DA DIREITA

No primeiro teste de fogo real de Jair Bolsonaro nestas eleições, a aparição diante de jornalistas no programa Roda Viva, da TV Cultura, o eleitor ficou sem saber o que, de fato, planeja para os temas que afetam seu cotidiano o líder das pesquisas, na ausência de Lula. Que ele defende a ditadura e a tortura, odeia a esquerda (e qualquer pauta progressista e pró-direitos humanos) e quer que todos tenham o direito de usar arma de fogo, já se é sabido. É na polêmica, campo onde cresceu e apareceu, que ele brilha para sua plateia de fiéis seguidores, que nesta segunda mais uma vez mostraram sua musculatura e ajudaram a atração a ser a mais recordista de audiência entre todos os presidenciáveis. Mas, quando deixa de ser a caricatura já conhecida da Internet é que o candidato se perde e falha em apresentar propostas para melhorar a educação, a saúde e a economia. Ao que parece, recorrerá, para isso, a uma ampla rede de postos Ipiranga, expressão usada por ele para se referir a seus futuros ministros, caso eleito. Para o longevo legislador (deputado federal desde 1991), as políticas públicas parecem ser seu calcanhar de Aquiles.
(...)

Talita Bedinelli, El País, São Paulo, 21/07/2018, 18:15 hs

MICHAEL FLOHR


Mapa-mundi

O sistema:
Com uma das mãos rouba o que com a outra empresta.
Suas vitimas:
Quanto mais pagam, mais devem.
Quanto mais recebem, menos têm.
Quanto mais vendem, menos compram.


Eduardo Galeano

segunda-feira, 30 de julho de 2018

RECLAME

se o mundo não vai bem
a seus olhos, use lentes
...ou transforme o mundo.

ótica olho vivo
agradece a preferência


Chacal

domingo, 29 de julho de 2018

ECLIPSE TOTAL


A MEDICINA  CURA?

O termo "cura", conotado à Medicina, não tem expressão prática que lhe autentique credibilidade. Ou seja, "curar" em medicina aplica-se na maior parte dos casos ao espectro vastíssimo das doenças infecto-contagiosas e/ou aos procedimentos cirúrgicos tecnologicamente cada vez mais aperfeiçoados.  Não quer dizer que a medicina seja desimportante ou não ajude, ao contrário. Mas ela não é a Saúde: são dois conceitos que colam um no outro e a separação só ocorre ao concebermos a instituição-Medicina, antes de tudo, como forma social que precede e condiciona as práticas clínicas e/ou cirúrgicas. Desse modo, a medicina que cura pode (ou deveria) ser substituída por uma sociedade "sem cura" pois isso já é a própria cura implicada como condição de vida das populações: educação, saneamento básico, trabalho, salários, gestão competente da coisa pública, habitação, segurança, etc. Outra ética! 

A.M.
Eu quero beijos intermináveis, carinho na nuca, abraço aconchegante, sorrisos sem porquês, eu te amo inesperado, beijos na testa, mãos dadas, dedos entrelaçados, corpos colados, suspiros sem perceber… Eu quero apenas um amor pra ser feliz, sorrir de verdade com um motivo.
(...)

Caio Fernando Abreu

PAULA MORELENBAUM - Samba em Prelúdio

VICE, NÃO

A busca por um(a) candidato(a) a vice-presidente nas eleições brasileiras segue desta maneira: Jair Bolsonaro (PSL) já ouviu três nãos seguidos – o do senador Magno Malta (PR), o do general Augusto Heleno (PRP) e o do general Hamilton Mourão (PRTB) – e está perto de ouvir um quarto, o da professora de direito Janaína Paschoal (PSL). Geraldo Alckmin (PSDB) levou um fora, o do empresário Josué Gomes (PR). Ciro Gomes (PDT) foi sondado, mas caiu em um truque do centrão e, agora, não está entre os mais procurados. Marina Silva (REDE) já falou em oferecer a vaga de vice ao PV. Álvaro Dias (PODE) e outros representantes de partidos pequenos buscam uma solução caseira com a formação de chapas puro-sangue.
Na eleição mais incerta desde 1989, os principais concorrentes ao Planalto se deparam com uma série de dificuldades para encontrar um(a) companheiro(a) de chapa. Para despistar quem os questiona sobre o assunto costumam seguir o mesmo rumo de Alckmin, dizendo que ainda falta muito tempo para essa decisão ser tomada – quando na verdade o prazo para o fim das convenções termina no dia 5 de agosto (daqui a uma semana) e o de inscrição de chapa em 15 de setembro. “Não temos pressa. Ainda temos até o dia 4 para nos decidirmos”, afirmou o tucano nesta quinta-feira, durante o anúncio do apoio do centrão à candidatura dele. Poucas horas depois, Josué Gomes enviou uma carta agradecendo o convite e se recusando a concorrer como vice do tucano.
(..)

Afonso Bentes, El País, Brasília, 29/07/2018, 18:21 hs
A RESISTÊNCIA

A adolescente Ahed Tamimi, de 17 anos, ícone da resistência palestina contra a ocupação israelense, foi libertada na manhã deste domingo (29), depois de passar quase oito meses presa em Israel. A garota foi detida em dezembro de 2017, depois de enfrentar soldados israelenses no pátio de sua casa, na Cisjordânia - imagens que viralizaram no mundo inteiro.

A mãe de Ahed, também detida ao se envolver no confronto, deixou a prisão Sharon, em Israel, neste domingo. Elas encontraram familiares na cidade de Nabi Saleh, Cisjordânia, onde vivem.

Emocionada, ao chegar ao local, Ahed abraçou membros de sua família e foi seguida no caminho até sua casa por uma multidão. "Queremos viver livres!", gritavam manifestantes.

A garota agradeceu o apoio e, diante de um mar de câmeras, conversou com jornalistas. "A resistência continua até que a ocupação termine", declarou.

A jovem também encontrou amigos que perderam familiares no confronto com soldados israelenses. Em seguida, se digiriu à cidade de Ramallah, onde colocou flores no túmulo do ex-presidente palestino Yasser Arafat. Na sede da Autoridade Palestina, foi recebida pelo presidente Mahmoud Abbas.
(...)

Globo.com, por RFI, 29/07/2018, 08:34 hs,atualizado há uma hora

NICOLAS KRASSIK & JOÃO BOSCO - Da África à Sapucaí.

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
– Eu faço versos como quem morre.


Manuel Bandeira
O PRESTÍGIO DO PRESIDIÁRIO E O PLANO B

(...)
Na galeria dos vitoriosos perdedores, Marina só não conseguirá superar Lula. Preso em Curitiba, o pajé do PT leva sua candidatura cenográfica às fronteiras do paroxismo. Lidera as pesquisas. Mas sabe que a ficha suja levará a Justiça Eleitoral a excluir sua foto da urna. Se tudo correr como planejado, deflagrará o Plano B do PT em meados de setembro. É como pedisse aos brasileiros para esquecer que Dilma, seu último poste, resultou num inesquecível curto-circuito.
É grande o prestígio do presidiário do PT. Entretanto, segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada no mês passado, 51% dos eleitores informam que não entregariam o seu voto a um candidato indicado por Lula. Impossível prever quem será o próximo presidente. Mas já é possível constatar que o curral diminuiu.
(...)

Do Blog do Josias de Souza, 29/07/2018, 06:00 hs

sábado, 28 de julho de 2018

MAHLER -: Adagietto Symphony 5 - Karajan

SEMPRE JAMAIS

A sensibilidade está exposta. Sem referências de sentido nem valor prévio. Por isso, de todo lado chegam fluxos de signos em velocidades infinitas. Muitos atravessam a barreira da pele na alma inquieta. Atenção, perigo! É que eles, os signos, se tornam raízes afetivas plantadas em vontades débeis. Um mundo pétreo esmaga olhos miúdos afeitos a viagens no corpo intenso. No entanto, agora algo mudou, alguma coisa não nomeada escapou desse arrastão sinistro. Isso atravessa superfícies corporais que ardem, gritam e fazem das manhãs frias um caminho de luares errantes. Trata-se do acontecimento. Ele fala por mim, fala para mim de dentro do verbo que não diz o próprio nome. Ao lhe encontrar, tudo recomeça: o brilho das canções sem origem, sem destino, mas tatuadas no céu da experiência, surge na delicadeza e numa alegria solta no ar. Enfim, a sensibilidade exposta recolhe em si orquídeas brancas e eternas. Ninguém soube e jamais saberá suas razões para amar. 

A.M.   
Descobrimento da Poesia

Quero escrever sem pensar.
Que um verso consolador
Venha vindo impressentido
Como o princípio do amor.

Quero escrever sem saber,
Sem saber o que dizer,
Quero escrever urna coisa
Que não se possa entender,

Mas que tenha um ar de graça,
De pureza, de inocência,
De doçura na desgraça,
De descanso na inconsciência.

Sinto que a arte já me cansa
E só me resta a esperança
De me esquecer do que sou
E tornar a ser criança.


Dante Milano

VICTOR BAUER


GENEALOGIA DA DIREITA

(...)
No início de 2000, Bolsonaro defendeu a pena de morte para qualquer crime premeditado e a tortura em casos de tráfico de drogas, afirmando que “um traficante que age nas ruas contra nossos filhos tem de ser colocado no pau de arara imediatamente. Não tem direitos humanos nesse caso”. Para sequestradores, indicava: “O cara tem de ser arrebentado para abrir o bico”. Atacou homossexuais, dizendo não admitir “abrir a porta do meu apartamento e topar com um casal gay se despedindo com beijo na boca, e meu filho assistindo a isso”. Reclamou dos que têm pouco dinheiro: “Pobre não sabe fazer nada”.

Deputado federal em sétimo mandato, fez discursos no plenário em que qualificava adversários como “canalha”, “patife”, “imoral”, “terrorista” e “delator”. Cunhou cartazes debochados quando da discussão legislativa sobre desarmamento — “Entregue suas armas: os vagabundos agradecem” — e desaparecidos políticos — “Araguaia: quem procura osso é cachorro”.

Ria com prazer ao ver seu nome associado à violação dos direitos humanos. Abertamente já defendeu a pena de morte, a prisão perpétua, o regime de trabalhos forçados para condenados, a redução da maioridade para 16 anos e um rígido controle da natalidade como maneira eficaz de combate à miséria e à violência.

Debochou das acusações de nepotismo quando empregou parentes em seu gabinete e procura transferir prestígio para os filhos na política — Flávio, de 37 anos, é deputado estadual fluminense e candidato ao Senado; Eduardo, de 34, é deputado federal por São Paulo; Carlos, de 32, é vereador no Rio de Janeiro. Bolsonaro se refere aos filhos como 01, 02 e 03, na ordem crescente de idade.

Seu passado antes da carreira política estridente segue nebuloso. Em busca dele, ÉPOCA investigou por dois meses as origens dos Bolsonaros, flor emergente de Eldorado-Xiririca.
(...)

Bruno Abbud e Cleide Carvalho, El País, de Eldorado, São Paulo, 28/07/2018, 12:48 hs



CHARLES CHAPLIN - 'O Grande Ditador, 1940

Opinião sobre a pornografia

Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.
Para aqueles que pensam, nada é sagrado.
O topete de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,
o tatear indecente de temas delicados,
a desova das idéias–é disso que eles gostam.
À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triangulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros (…)
Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória (…)
É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece (…)


Wislawa Szymborska
O CRIME COMPENSA

Condenado em segunda instância a 30 anos e 9 meses de cadeia, José Dirceu deveria estar atrás das grades. Mas ele desfruta, veja você, de uma temporada de férias. Graças à generosidade da Segunda Turma do Supremo, que o libertou no mês passado, o ex-chefão da Casa Civil de Lula trocou a hospedaria da Papuda, o presídio de Brasília, pelo conforto da casa de um empresário-companheiro no interior da Bahia. Dirceu passeia, se reúne com políticos locais e até dá entrevistas.

No Brasil, os crimes praticados acima de um certo nível de poder e renda não costumavam ser punidos. A Lava Jato melhorou o que era muito ruim. Mas a situação continua precária. O baixo risco de punição, sobretudo da criminalidade de colarinho branco, funciona como um incentivo à prática generalizada dos crimes do poder.

Quem olha para as alianças eleitorais de 2018 percebe que ainda é grande a quantidade de corruptos em plena atividade. Ao libertar Dirceu, que coleciona sentenças no mensalão e no petrolão, a Segunda Turma do Supremo revela que, no Brasil, continua sendo mentirosa a tese segundo a qual o crime não compensa. É que, quando compensa, ele muda de nome. Quando a punição é inexistente ou cenográfica, o nome do crime é  impunidade.

Do Blog do Josias de Souza, 27/07/2018, 20:00 hs

sexta-feira, 27 de julho de 2018

UMA BOLA MOLHADA E GIRATÓRIA?

PENSAR SEM IMAGEM

O que é pensar? Pensar não é reconhecer um objeto (identidade estável, bom dia vizinho!) mas criá-lo. Pensar é criar.  "Seguir sempre a linha de fuga do vôo da bruxa" é o ato de pensar antes do pensamento. Efeito de sentido. No cotidiano moderno o ato de criar foi substituído pelo ato de consumir. Consome-se tudo, inclusive a imagem (produzida) de si mesmo. Produção de subjetividade. Poderes se alimentam disso, investem nisso para dominar sem que se perceba. Ordens monstruosas são ditadas aos estratos subjetivos mais íntimos. Ele é gente boa mas vai votar no fascismo. Como é possível? Outrora havia masmorras, chicotadas, escravidões e servidões explícitas. Hoje não. Há muito os tempos mudaram. Lutas sociais (minorias) que não incluam almas torturadas (subjetividades) estancam no dualismo direita/esquerda. Tudo fica estéril e violento. Estamos em outra.

A.M.
rápido e rasteiro

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida


Chacal

EMIL NOLDE


quinta-feira, 26 de julho de 2018

CIRO COMEÇA A SE ENFORCAR COM A PRÓPRIA LÍNGUA

A sucessão de 2018 está diante de uma versão eleitoral da Lei de Murphy, aquela segundo a qual “quando uma coisa pode dar errado, ela dá errado.” Até bem pouco, Ciro Gomes parecia ser o único candidato em condições de ampliar sua base eleitoral. De repente, a coisa desandou. Nada a ver com a perda do apoio do centrão para Geraldo Alckmin. O grande problema de Ciro é, novamente, a língua de Ciro.

Autoritário ou enérgico? Arrogante ou determinado? Imprudente ou corajoso? O estilo de liderança a que se propõe Ciro Gomes constitui um enigma. Seus rivais apregoam que as primeiras alternativas são as verdadeiras. Ciro seria truculento e aventureiro. Ciro tenta demonstrar que as segundas opções é que são corretas. Seria brioso e arrojado. Mas não insensato.

O problema é que a língua de Ciro se expressa como se desejasse amarrar um nó no pescoço do dono. Em sua penúltima temeridade, a língua do candidato e disse que Lula “só teria chance de sair da cadeia se a gente assumir o poder”, pois vamos devolver juízes e Ministério Público “para a caixinha.”

A coisa foi filmada. Mas Ciro atribuiu a má repercussão à imprensa, que teria retirado as frases do seu contexto. O candidato ainda não percebeu. Mas repete agora o mesmo erro de sucessões anteriores. O erro da autocombustão.

Do Blog do Josias de Souza, 25/07/2018, 23:28 hs

quarta-feira, 25 de julho de 2018

DEZ ANOS APÓS A CRIAÇÃO DO FEMEN

A ativista ucraniana Oksana Shachko, uma das fundadoras do grupo feminista Femen, suicidou-se em Paris. A informação foi confirmada nesta terça-feira, 24, à imprensa ucraniana por outra das criadoras do movimento, Anna Gutsol. Os amigos parisienses do Shachki, segundo relato de Gutsol, passaram três dias tentando contato com ela antes de encontrarem o corpo. Ela havia sido vista pela última vez em uma festa e, na noite de segunda, esses amigos resolveram ir até o apartamento dela, onde arrombaram a porta e acharam o corpo da ativista, de 31 anos.

“Disseram que havia um bilhete. À noite a polícia levou o corpo de Oksana. Segundo a versão preliminar, trata-se de um suicídio", disse Gutsol ao canal da TV 112 Ukraina. O popular jornal russo Moskovski Komsomolets informa que a ativista já tinha tentado suicídio em pelo menos duas outras ocasiões nos últimos dois anos.

Shachko nasceu em 1987 na cidade do Khmelnitski, no oeste da Ucrânia e, em 2008, criou o Femen com suas amigas Anna Gutsol e Aleksandra Shevchenko. Em 4 de março de 2012, dia em que a Rússia realizava eleições presidenciais, foi detida numa seção eleitoral de Moscou por protestar contra o então candidato Vladimir Putin. Pouco depois, foi deportada a Ucrânia, e em 2013 emigrou para a França, onde obteve o status de refugiada política.

O Femen é um movimento feminista de origem ucraniana, cujas ativistas mostram os seios durante protestos contra o que consideram atitudes machistas. Sua peculiar forma de atuação, com punho erguido, seminuas e levando coroas de flores, junto com sua oposição aos militantes antiaborto e à Igreja, são suas marcas identitárias.

El País, Agências, Kiev, 25/07/2018, 09:40 hs

INFORMAÇOES


terça-feira, 24 de julho de 2018

Queria apenas tentar
viver aquilo que brotava 
espontaneamente de mim.

Porque isso me era 
tão difícil?

A ave sai do ovo,
o ovo é o mundo.

Quem quiser nascer tem
que destruir o mundo.


Hermann Hesse

POLÍTICA DO ÓDIO

Entre os símbolos da liturgia da morte adotada pelo militar de extrema direita brasileiro, Jair Bolsonaro, candidato à presidência da República, figura agora também a imagem de uma menina de cerca de quatro anos imitando com os dedos polegar e indicador de sua mão direita o gesto de disparar um revólver. Foi ele quem lhe ensinou enquanto a segurava nos braços, rindo entretido.
Questionados sobre a cena que horrorizou não poucos, os assessores de Bolsonaro explicaram que podia ser interpretada como um “gesto cristão” de bravura. Que eu saiba, e estudei os evangelhos durante anos, o único símbolo de violência no cristianismo é o de Cristo na cruz, um inocente condenado à morte. O restante da simbologia dos seguidores do Nazareno é impregnado de paz e perdão, não de violência ou vingança.
(...)

Juan Arias, El País, 23/07/2018, 21:11 hs

segunda-feira, 23 de julho de 2018

HAUSER - Oblivion (Piazzolla)

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
(...)

Clarice Lispector

domingo, 22 de julho de 2018

...E ALGO MAIS

SÃO PAULO — Eles já foram de direita, de esquerda, democratas cristãos, verdes, socialistas e algo mais. Ao contrário de eleições anteriores, lideradas na maior parte do tempo por políticos de PT e PSDB, neste ano os três candidatos que aparecem nas primeiras colocações nas pesquisas, nos cenários sem o ex-presidente Lula, têm um histórico de mudanças de partidos. Juntos, Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) passaram por 15 siglas diferentes.
(...)

Jussara Soares, O Globo, 22/07/2018, 12:01 hs



GRANDES ESCRITOS


sábado, 21 de julho de 2018

Você acha que está vivo, porque você respira o ar? Que vergonha, estar vivo de uma forma tão limitada. Não fique sem amar, então você não se sentirá morto. Morra apaixonado e permanecerá vivo para sempre.

Rumi

NDT - Dutch Season

PIRATA

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 20 de julho de 2018

"O STALINISMO AINDA PERDURA"

O historiador britânico Simon Sebag Montefiore é um dos grandes conhecedores da Rússia atual. Natural de Londres, onde nasceu em 1965, é autor de um livro imprescindível sobre o stalinismo, 'Stálin - A Corte do Czar Vermelho', e de uma sólida construção histórica da cidade de Jerusalém. Recentemente, também publicou 'Os Romanov 1613-1918' e 'Catarina, a Grande, & Potemkin', todos lançados no Brasil pela Companhia das Letras. "Queria explicar a raiz da Rússia de hoje, como a Rússia se converteu em Rússia, Putin em Putin e por que existe hoje uma autocracia por lá. Senti que a melhor forma de chegar a entender isso era compreendendo as tradições russas", explicou ao EL PAÍS durante um evento no ano passado. Agora, ele participa da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no dia 28, às 12h. Leia a entrevista abaixo.

Pergunta. O que descobriu nessa pesquisa que não se sabia até hoje?

Resposta. Existem muitos episódios surpreendentes. O mais interessante é ver o ciclo da história da Rússia: após grandes revoluções e períodos de instabilidade e após experimentar a democracia, retoma um velho hábito e volta à autocracia.

P. Por que a Rússia sente e transmite a ideia de que é uma exceção?

R. Acho que todos os países são excepcionais. A Rússia é uma civilização diferente, essa é a questão. Não faz parte da civilização latina, como nós. É uma cultura diferente com origens diversas, como uma vez Putin disse a um presidente norte-americano: “Nós nos vemos como vocês, mas não somos vocês”. Essa é uma das lições do livro.

P. Que Romanov o senhor acha que tem mais vigência atualmente?

R. Eu diria que Nicolau I, porque aplicava políticas semelhantes às que vemos, de alguma forma, em Putin. Ele dominou os países ocidentais e suas consignas eram as mesmas: “Autocracia, nacionalismo e ortodoxia”. Também embarcou em grandes aventuras no estrangeiro, aventuras titânicas, guerras. Era um personagem muito conservador. Acho que Nicolau I foi o líder mais parecido ao que têm hoje.

P. Os Romanov podem ser comparados a que família de políticos e personagem político hoje em dia?

R. Não vejo uma família per se, mas evidentemente Donald Trump quer ser o primeiro czar americano. E, de fato, possui alguns requisitos da figura do czar.

P. A Rússia parece ter conseguido colocar quem ela queria na Casa Branca. Como a chegada de Donald Trump afeta a Rússia?

R. Acho que os russos foram muito eficientes porque sua política se baseia em quebrar a cultura ocidental e gerar mais confiança neles mesmos. Hoje em dia essa estratégia é fácil de acontecer, porque no Ocidente algumas pessoas experimentam uma sensação de ódio contra si mesmas e um grande ódio ao sistema. Isso complicou tudo para nós, as decisões são mais difíceis de se tomar e a democracia não demonstrou ser o melhor caminho para facilitar esse processo. Uma das grandes lições do momento é que, apesar de pensarmos que a Internet era um motor para o progresso, na realidade é uma ferramenta de desinformação, mentiras e totalitarismos.

P. No ano passado, se comemorou o centenário da Revolução Russa. O que está vigente 100 anos depois?

R. Até certo ponto, o stalinismo ainda perdura. O Estado russo criado à época ainda existe. Em 1991, o Partido Comunista desapareceu, mas o serviço secreto continua sendo o mesmo. Toda essa cultura da guerra é um conceito bolchevique, por isso os russos são muito mais sofisticados nesse aspecto. Por exemplo, nos Estados Unidos temos o Vale do Silício e, entretanto, nunca nos ocorre fazer as coisas que os russos fazem.

P. Que personagem da Revolução Russa o senhor considera mais atrativo?

R. Nenhum dos bolcheviques. Talvez Nikolai Bukharin fosse um dos melhores, mas mesmo ele acreditava em coisas como expurgos maciços. É difícil sentir simpatia por qualquer um deles e a maneira como pensaram que a sociedade deveria ser reinventada, através da violência, o assassinato e a prisão. Talvez Alexander Kerensky fosse o mais moderado.

P. Quando a utopia soviética se perverteu?

R. Bem rápido. Sempre esteve viciada pelo leninismo, que por sua vez tergiversou os ideais do comunismo. Eu diria que foi perversa desde o começo.

P. Se Trotsky não fosse assassinado algo teria mudado?

R. Não, porque era mais um showman do que um político. Nunca se preocupou em construir alianças. Estava interessado em instaurar uma máquina política ao redor de si mesmo e esperava que as pessoas o aceitassem porque era brilhante.

P. O que resta de Stalin hoje em dia?

R. De alguma forma, o terror que gerou ao seu redor. Por outro lado, foi o mais bem-sucedido líder russo da história depois de Gengis Khan.

P. Como o senhor vê o futuro da Rússia?

R. A longo prazo, acho que continuará se desenvolvendo porque é um país sofisticado. A curto prazo, sou pessimista, porque há uma grande fuga de talentos, todas as pessoas inteligentes e liberais abandonam o país. O Governo está se transformando em um Estado centrado em um só homem. A possibilidade de colapso é real.

P. Como definiria Putin?

R. É um político muito talentoso e sabe ler as pessoas, mas em última instância isso já não basta. O sucesso que alcançou ao criar um Estado centrado em si mesmo lhe impede de correr qualquer risco. Está constantemente procurando a forma de se manter no poder.

P. Qual acha que é a intenção de Putin, criar uma Rússia ao estilo soviético, imperial, algo diferente, que ainda não foi visto até agora?

R. Acho que procura um híbrido entre os Romanov e o sistema soviético. Mas não é a repetição de nada, porque conta com a fachada das eleições e da democracia. Tem a popularidade e a organização que a figura do czar nunca teve, e seu regime é muito mais popular do que foi a União Soviética. A diferença é que ele não assassina as pessoas como o czar fazia, ainda que tenha conseguido se projetar como tal. A Rússia não é um Estado totalitário.

P. A Rússia hoje é mais poderosa do que nunca?

R. Sim, porque agora tem a capacidade de agir e influenciar. Antes da vitória de Trump, os Estados Unidos estavam de alguma forma paralisados pelo peso de seus extremismos. Agora a Rússia se aproveitará se Trump recorrer de novo à força dos Estados Unidos. Quem sabe.


Javier Lafuente, Cartagena das Índias, El País, 20/07/2018, 10:57 hs

MICHAEL FLOHR


A Morte é um favor para nós,
mas nossas balanças perderam seu equilíbrio.
A impermanência do corpo deveria dar-nos grande clareza,
aprofundando em nossos olhos e sentidos a maravilha
desta misteriosa existência que partilhamos e pela qual
certamente estamos apenas passando.
Se eu estivesse na Taberna essa noite Hafiz pediria bebidas
e enquanto o Mestre enchesse os copos,
eu seria lembrado que tudo o que sei da vida e de mim próprio
é que nos somos apenas um vôo de vinho dourado entre seu jarro e seu copo.
Se eu estivesse na Taberna essa noite pagaria uma rodada
a todos neste mundo porque o nosso casamento com a
beleza cruel do tempo e do espaço não pode durar muito.
A Morte é um favor para nós, mas nossas mentes perderam seu equilíbrio.
A existência milagrosa e a impermanência da forma
sempre fazem dançar e cantar aos Iluminados.

Hafiz

CENTRÃO VAI DE ALCKMIN


Clínica dos afetos - II

A clínica dos afetos poderia ser chamada "clínica da diferença" ou "clínica das multiplicidades". A opção por "afetos" deve-se à estratégica de análise da psicopatologia que sustenta (ou deveria) a psiquiatria clínica. Veja: um paciente (qualquer...) está sob influência incessante de forças que se traduzem no corpo, na alma, na conduta, na existência enquanto afetos, intuições, sentimentos, tendências, emoções, impulsos, instintos, quer sejam criadores e/ou destrutivos. Tal perspectiva metodológica busca eliminar a visão do transtorno mental como evento extra-territorial (fora do meio em torno) o que faz por encaixotá-lo em modelos enrijecidos, frios, assépticos, desnaturados, seja o da visão médica, seja o de outras metodologias como a da terapia cognitivo-comportamental (TCC), sem dúvida, um monumento ao conformismo tornado ciência. Uma clínica dos afetos começa com os afetos em jogo postos pelo próprio técnico em saúde mental. O que Freud chamava de contratransferência pode ser ampliado por uma atitude de implicação ético-estética no que acontece ao Outro, sabendo que este Outro somos nós.

A.M.
BANCADA OCULTA E GUERRILHA VIRTUAL

Frustradas as tentativas de firmar alianças, Jair Bolsonaro se equipa para realizar uma campanha solo. Pra tentar se vacinar contra a pecha de sectário, compõe uma bancada suprapartidária de apoiadores ocultos. E espera contar com uma “guerrilha virtual” de internautas dispostos a defendê-lo espontaneamente dos ataques que receberá de adversários durante a campanha.

“Nossa bancada já soma 112 parlamentares”, disse ao blog o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), articulador de Bolsonaro no Legislativo. “Está em curso um movimento que vai nos permitir, até 8 de agosto, anunciar o apoio de algo como 150 parlamentares, talvez um pouco mais.” Os congressistas se achegam a Bolsonaro com o compromisso de que seus nomes sejam mantidos em sigilo pelo menos até um eventual segundo turno. Leva o rosto à vitrine quem quer.

Bem posicionado nas pesquisas, Bolsonaro dispõe de algo como sete segundos no horário eleitoral. Não terá como responder no rádio e na TV a eventuais ataques de rivais com mais tempo de propaganda. Embora reconheça que o nanismo eletrônico é preocupante, Lorenzoni acredita que Bolsonaro conseguirá superar o obstáculo.

“Ele tem um impressionante volume de apoiadores na faixa etária dos 16 aos 24 anos”, afirmou o deputado. “Essa gurizada realiza um trabalho muito forte na internet. Coisa espontânea, voluntária. É uma verdadeira guerrilha virtual a favor do Bolsonaro. Defende o candidato de forma apaixonada. Isso tem e continuará tendo um poder muito grande na campanha.”

O repórter recordou a Lorenzini que, na sucessão de 2014, a candidatura de Marina Silva foi passada no moedor pelo marketing da campanha petista de Dilma Rousseff. O deputado avalia que Bolsonaro não corre o mesmo risco. “Até a eleição passada, alguns partidos ainda gozavam de credibilidade. Hoje, a sociedade não acredita em nenhum partido tradicional. As pessoas tendem a desacreditar de qualquer coisa que venha dos partidos políticos.”

Por que a bancada pró-Bolsonaro é oculta? “Temos um compromisso de confidencialidade com cada um”, declarou Lorenzoni. “Desde novembro do ano passado, fizemos 11 cafés da manhã, almoços e jantares de parlamentares com o nosso candidato. Foram filmados e fotografados. Dizia-se que um governo do Jair Bolsonaro não teria governabilidade. Pois já termos do nosso lado 112 parlamentares. Teremos 150 até 8 de agosto. Há apoiadores de todos os partidos, exceto do PT, PCdoB e PDT.”

Lorenzoni prosseguiu: “A confidencialidade é necessária porque não queremos criar problemas para os parlamentares em seus partidos. Há três tipos de apoiadores: os que declaram sua opção abertamente; os que evitam se expor em respeito às alianças dos seus partidos, mas liberam seus grupos para fazer campanha pelo Bolsonaro; e os que se comprometem a arregaçar as mangas no segundo turno. Não tenho dúvidas de que, uma vez eleito, o Jair Bolsonaro terá uma base de 350 parlamentares.”


Do Blog do Josias, 20/07/2018, 03:12 hs

GEORGII CHERKIN (piano) - Moonlight Sonata

REZE


Eleições 2018: partidos fazem convenções para definir candidatos

Data Partido Pré-candidato a presidente Local da convenção
20/07 PDT Ciro Gomes Brasília (DF)
20/07 PSC Paulo Rabello de Castro Brasília (DF)
20/07 PSTU Vera Lúcia São Paulo (SP)
21/07 PSOL Guilherme Boulos São Paulo (SP)
21/07 Avante Sem pré-candidato Belo Horizonte (MG)
21/07 PMN Sem pré-candidato Brasília (DF)
22/07 PSL Jair Bolsonaro Rio de Janeiro (RJ)
28/07 Democracia Cristã José Maria Eymael São Paulo (SP)
28/07 PTB Sem pré-candidato Brasília (DF)
28/07 PV Sem pré-candidato Brasilia (DF)
28/07 PSD Sem pré-candidato São Paulo (SP)
01/08 PCdoB Manuela D'Ávila Brasília (DF)
02/08 MDB Henrique Meirelles Brasília (DF)
02/08 DEM Rodrigo Maia Indefinido
02/08 PP Sem pré-candidato Brasília (DF)
04/08 PT Luiz Inácio Lula da Silva São Paulo (SP)
04/08 PSDB Geraldo Alckmin Brasília (DF)
04/08 Novo João Amoêdo São Paulo (SP)
04/08 Rede Marina Silva Brasilia (DF)
04/08 Podemos Álvaro Dias Curitiba (PR)
04/08 PPS Sem pré-candidato Brasília (DF)
04/08 PR Sem pré-candidato Brasília (DF)
05/08 PRTB Levy Fidelix São Paulo (SP)
05/08 PSB Ainda sem definição Brasília (DF)

quinta-feira, 19 de julho de 2018

guarda-roupa

seu vestido de verão
sem você dentro
não é um vestido de verão
porque no vestido o verão
era você


Ana Martins Marques

ODILON REDON


SUJOS E MAL LAVADOS

(...)
Fala-se muito em coalizão partidária e programa de governo. Mas a ausência de ideias denuncia, por assim dizer, o embuste. Ganha trinta segundos no horário eleitoral quem for capaz de explicar o que une o centrão além do propósito de invadir cofres públicos. Se alguém não estiver ligando o nome à pessoa, basta recordar que o grosso do atual centrão fez as vezes de milícia parlamentar de Eduardo Cunha, esticando-lhe o mandato e acompanhando-o até a porta da cadeia.

Com poucas variações, esse mesmo condomínio parlamentar dá as cartas há muito mais tempo do que o Tesouro Nacional poderia suportar. Sob FHC, a convivência com a intelectualidade tucana proporcionou ao centrão um excelente merchandising. Sob Lula, o Planalto de fachada operária resultou em ótimos negócios. Sob Dilma, o centrão desistiu de terceirizar o poder ao petismo. Substituiu a preposta de Lula, sem talento para a administração do balcão, por Michel Temer, especialista na matéria.

Nem as almas mais ingênuas acreditariam que partidos identificados com o suborno, o acorbertamento, o compadrio, o patrimonialismo e o fisiologismo percorrem os bastidores das negociações presidenciais com a disposição de passar os próximos anos dedicando-se a outra atividade que não seja a perpetuação dos vícios. Pode demorar mais alguns dias para acomodar todos em suas marcas e decidir quem, afinal, vai levar o tempo de TV do bloco.

Quando a cortina finalmente for aberta, a primeira cena deve ser divertida. Alguém deve achegar-se à boca do palco para anunciar: “Nós apoiaremos…” Ao fundo, os dois candidatos ajustarão a peruca e escolherão o nariz que utilizarão na campanha.


Do Blog Do Josias de Souza, 19/07/2018, 04:36 hs

TOM JONES & JEFF BECK - Love Letteres

quarta-feira, 18 de julho de 2018

PASSAGEM DO POEMA

O olhar no escuro, 
Não dormir, esperar, acordado na noite. 
Um verso feito em gesto rápido 
Traça nas trevas do cérebro o rabisco de um raio. 
É um poema ou talvez lá fora a tempestade? 
As portas se abrem sozinhas com violência.
Passam vultos que não existem.

Meu corpo parado, entanto corro livre pelos descampados.
Estende-se a perder de vista a dolorida praia. 
O mar avança pela areia com as patas de seus cavalos.

Não fujas da vida, espírito!
Volta, covarde!

Apagadas visões 
Não tirarão teu brilho, realidade!

A poesia me leva a perdidos caminhos
De onde volto mais só, mais desesperançado. 
De tudo resta apenas a página rabiscada. 
Deixo cair da mão o verso que se parte. 
Outro me foge escrito sem palavras, 
Buscando outros sentidos...

O verso é feito do ar que se respira.

Correi, correi, ó versos sem palavras...


Dante Milano

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Há sinais alarmantes de que o mundo está se tornando cada vez mais volátil e turbulento. O ano de 2016 teve mais conflitos violentos que qualquer período das últimas três décadas – a maioria na África Subsaariana, no Norte da África, no Oriente Médio e no Centro e Sul da Ásia. De acordo com o relatório recém-lançadoStates of Fragility, o crescimento do terrorismo e o aprofundamento da volatilidade geopolítica contribuíram para o aumento desta fragilidade. Ao menos 560 mil pessoas sofreram mortes violentas em função de guerras e ações terroristas, e 68,5 milhões foram obrigadas a se refugiar em outros países ou a se deslocar internamente.
Embora insuficiente, a violência organizada é uma condição necessária da fragilidade. Marcados por um crescente autoritarismo, baixo crescimento, deterioração das instituições e, em muitos casos, por prolongados conflitos de baixa intensidade, Estados e cidades frágeis precisam lidar com a propagação de riscos que são cada vez menos capazes de administrar, absorver e mitigar. Dos 27 países constantemente considerados como cronicamente frágeis pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), 19 não estão em guerra.
(...)

Robert Muggah, Época, 17/07/2018, 13:16 hs


terça-feira, 17 de julho de 2018

Você pode saber o valor de toda e qualquer mercadoria. Mas se você não sabe o valor da sua alma, é tudo bobagem.

Rumi

J. MURILO


O CAMALEÃO ESPERTO (*)

Desdenhado por Lula, Ciro Gomes deixou de lado o PT. Passou a flertar com o que restou da chamada esquerda. Não houve amor à primeira vista. E o candidato piscou para o centrão. Impôs condições. Eventuais alianças com legendas como PP, PR e DEM só seriam cogitadas depois de um acerto com PCdoB e PSB, “porque a hegemonia moral e intelectual do rumo estará afirmada.” Às vésperas da convenção que o confirmará como presidenável do PDT, Ciro exibe uma solidão hegemônica. Trata inimigo como irmão. E troca a retórica da moralidade por alguns segundos adicionais de propaganda eleitoral no rádio e na TV.

No último sábado, Ciro reuniu-se com os caciques do centrão —os mesmos que depuseram Dilma Rousseff e evitaram a queda de Michel Temer, chamado por Ciro de “escroque” e “golpista”. Reiterou no encontro a disposição de suavizar suas propostas econômicas antiliberais. Nas últimas 48 horas, Ciro cortejou a cúpula do PCdoB. Primeiro, visitou o único governador da legenda: Flávio Dino, do Maranhão. Nesta terça-fera, deixou-se fotografar ao lado da presidente do partido, Luciana Santos; do antecessor dela, Renato Rabelo; e de Renildo Calheiros, irmão de Renan Calheiros e membro do comitê central do PCdoB.

Em mensagem postada no Twitter, Ciro anotou: ''Informei aos companheiros do PCdoB todos os últimos passos que tenho dado em direção a construir as bases de um novo projeto nacional de desenvolvimento… Quer dizer: o programa de Ciro pode ser algo tão difuso que se ajusta a qualquer ideologia —da direita pró-Temer à esquerda órfã de Lula. Caso o candidato consiga compor algum tipo de coligação, o eleitor estará autorizado a suspeitar que o acordo será baseado em qualquer coisa, menos em “hegemonia moral e intelectual.”


Do Blog do Josias de Souza, 17/07/2018, 16:19 hs

(*) Título criado pelo blog "O cérebro MENTE"
SEM FUTURO

Uma coisa é uma pesquisa fria revelar que 63% dos jovens brasileiros desejam buscar uma vida melhor fora do país, e outra é ficar cara a cara, como me aconteceu outro dia, com um desses jovens, em carne e osso, um técnico de eletrônica que te olhando com uns olhos visivelmente tristes, confidencia: “Estou pensando em ir embora. Eu estou procurando de Portugal até a Austrália por um lugar onde eu possa desenvolver minha profissão. Aqui, no Brasil, não tenho futuro.” E acrescentou: “Quero viver em um país sério.” Senti pena e raiva ao mesmo tempo.
O Brasil vive, de fato, um grande vazio de liderança política. Deixou de ser não só o país do futuro, como se bradou um dia, mas até mesmo do presente, onde os jovens sentem que muitos dos que os governam pensam mais em como manter seus privilégios e perpetuar-se no poder do que ouvir o que esta sociedade pede e o que rejeita. Talvez fosse isso o que o jovem entendia por um país que não é sério.
(...)

Juan Arias, El País,  17/07/2018, 16:26 hs

MICHEL PETRUCCIANI - Round midnight

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Alguns gostam de poesia

Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.

Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.

De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.


Wislawa Szymborska

RESSACA PÓS COPA


AUTOVERDADE E POLÍTICA

(...)
Embora o conteúdo do que Bolsonaro diz obviamente influencia no apoio do seu eleitorado, me parece que ele é mais beneficiado pelo fenômeno que aqui estou chamando de autoverdade. O ato de dizer “tudo” e o como diz o que diz parece ser mais importante do que o conteúdo. A estética é decodificada como ética. Ou mesmo colocada no mesmo lugar. E este não é um dado qualquer.
Por isso também é possível se desconectar do conteúdo real de suas falas, como fazem tantos de seus eleitores. E por isso é tão difícil que a sua desconstrução, por meio do conteúdo, tenha efeito sobre os seus eleitores. Quando a imprensa mostra que Bolsonaro se revelou um deputado medíocre, que ganhou seu salário e benefícios fazendo quase nada no Congresso, quando mostra que ele nada tem de novo, mas sim é um político tão tradicional como outros ou até mais tradicional do que muitos, quando mostra que falta consistência no seu discurso, assim como projeto que justifique seu pleito à presidência, há pouco ou nenhum efeito sobre os seus eleitores. Porque o conteúdo pouco importa. As agências de checagem são um bom instrumento para combater as notícias e as declarações falsas de candidatos, mas têm pouca eficácia para combater a autoverdade.
(...)

Eliane Brum, El País, 16/07/2018, 15:34 hs
Não entendo o porque das pessoas pensarem sempre no pior e não no mais provável que é pior ainda.

George Carlin
   

domingo, 15 de julho de 2018

ALEXIS ZAITSEV


Por um acaso

Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em consequência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.


Wislawa Szymborska

RIO DE LAMA

Clínica dos afetos - I

Contemplando-se a história da psiquiatria, está ausente o estudo dos afetos. Isto se deve, pelo menos, a que 1- os afetos são expressões subjetivas que estão à margem das codificações científicas; incompreensíveis e opacos. 2- eles implicam, antes de tudo, no funcionamento de relações, o que atinge em  cheio a relação de poder do médico com o paciente, tema constrangedor para o psiquiatra. Estas são linhas de pesquisa que operam a subjetividade e o poder.  Observe o declínio hoje da psicopatologia (onde estariam os modos de subjetivação?) e o lugar científico de uma psiquiatria supostamente asséptica, longe do mundo "sujo" do poder: a neuromania. Ao avesso, uma clínica dos afetos trabalha com os afetos enquanto real único e múltiplo, realidade social, realidade do mundo, vida. Não como uma transcendência (alturas ou profundidades imaginárias) mas como territórios existenciais inseridos num universo planetário cada vez mais esvaziado de sentido (tempos internéticos/capitalísticos).

A.M.
A FOME SE ALASTRA

Ao deixar em 2014 a relação de países que têm mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável, o Brasil atingiu um feito inédito: saiu do Mapa da Fome da ONU. Mas, após três anos do feito, um relatório de 20 entidades da sociedade civil, publicado em julho do ano passado, alertava sobre os riscos de o país retornar ao mapa indesejado.
O economista Francisco Menezes, pesquisador do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e da ActionAid Brasil, fez parte da equipe que elaborou o relatório. Nesta entrevista, o também especialista em segurança alimentar conta que no final deste mês um novo documento atualizado da sociedade civil será lançado. E alerta: “A nossa nova advertência já leva a quase uma certeza”. Essa quase certeza, ele diz, é de que o Brasil voltará ao Mapa da Fome. “Toda a experiência sempre mostrou que os números da extrema pobreza com os números da fome são muito próximos.”
Em relação à pobreza e extrema pobreza, por exemplo, levantamento da ActionAid Brasil indica que nos últimos três anos — 2015-2017 — o país voltou ao patamar de 12 anos atrás no número de pessoas em situação de extrema pobreza. Ou seja, mais de 10 milhões de brasileiros estão nessa condição. “Isso nos leva a crer que aquela correlação pobreza versus fome sugere fortemente que a gente já está, neste momento, numa situação ruim, que deve aparecer com os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares — POF — do final de 2018.”

Thiago Domenici, El País, 14/07/2018, 21:29 hs