segunda-feira, 30 de abril de 2012

O TRABALHO DA DIFERENÇA

 (...) Dessa  perspectiva, o trabalho com o paciente é essencialmente o de  resgatar a capacidade de  criar a  si mesmo e  ao mundo, o  qual  na verdade é ele próprio. Promover  condições  de movimento, não  só  como deslocamento espacial, mas  como devir. Esse é  o campo da  subjetividade  que chamamos de  processo. A psiquiatria  desconhece   o conceito de    “devir”  porque  opera  num universo de  totalidades  identitárias  -  o-portador-de-transtorno-mental,   a doença mental, a esquizofrenia,  o sintoma, a  cura,   etc -  que  é o da     representação. Desse  modo, não há  chance de  se  conceber o devir como instância vital, carnal.   A psicopatologia    desaparece   e no seu   lugar surgem unidades  reificadas  da mente que  respondem  aos  estímulos     acionados. No entanto, o devir é  uma  conexão entre elementos  heterogêneos. O que  está  em jogo  é o movimento, a mudança  e sobretudo, a multiplicidade.  Numa  clínica  do Encontro   isso   expressa   intensidades criativas.  Os  devires entram em cena à medida  em que  a  subjetividade   “egóica”   se   desfaz. Daí, o cérebro, a consciência e  o  eu    passam a fazer parte dos devires e não o contrário. O que  vem primeiro é  o Tempo, a passagem. Em que isso interessa  à psicopatologia, e por extensão, à  clínica  dos  transtornos mentais?
(...)
Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria
Deleuze sobre a Palestina
RELANÇAMENTO DO LIVRO

TRAIR A PSIQUIATRIA

Dia - 23/05/2012 - 4ª feira
Hora- 19,00 hs
Local - Livraria Cultura - Salvador Shopping
Salvador - Bahia

Conceito de vivência

                                                      
Usamos o conceito de vivência articulado aos problemas da clínica psicopatológica. Esta  se compõe de linhas do desejo (afetos) e linhas do pensamento (crenças). Assim, o paciente, antes  de tudo,  sente e   acredita. Sua  vivência observada na clínica não é  A vivência, mas uma vivência ou vivências que  se expressam em signos  nem sempre significantes. Tal perspectiva faz do exame  psíquico um Encontro, podendo este ser  bom ou mau  a depender dos afetos e das crenças postos  em jogo. Isso  requer  do técnico entrar em contato muitas  vezes com um mundo que  compreende algo incompreensível à consciência. Afeto e pensamento, desejos e crenças são territórios existenciais que  fazem viver. As vivências  são singularidades
(...)
Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria
sem humanismo
Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.


F. Pessoa

MOLEJO

UM  ESPORTE  DIFERENTE

Nenhum esporte provoca mais paixões do que o futebol. Este é um fato  facilmente observável. Especulando sobre o tema, destaco algumas "explicações".1-o futebol trabalha com os pés e as pernas, órgãos com pouca precisão de movimentos, se compararmos com as mãos; 2-possui um nº elevado de jogadores (22), o que implica em muitas possibilidades e variáveis em cada jogada; 3-adota  um sistema de regras por vezes confuso, impreciso, como é o caso de um falta (foi falta ou não foi falta? foi penalty ou não?), o que faz com que o juiz erre com frequência(o célebre juiz ladrão...) que nem sempre é ladrão; 4- Atrelado ao ítem anterior, temos o fato de que o ERRO faz parte do jogo; dir-se-ia que é um jogo meio torto, malandro, dissimulado, e não é por acaso que deu certo no Brasil; 5- a arte junto à técnica, muitas vezes superando-a, como é o caso dos grandes jogadores; ¨6- por fim, mas não a última "explicação" (há dezenas...) tudo isso se conjuga para o resultado final de uma partida ser IMPREVISÍVEL, mesmo que os dois times sejam de qualidades técnicas muito discrepantes; no basquete, por exemplo, dois tipos muito discrepantes em técnica tornam o jogo previsível e monótono; no futebol, "tudo é possível", ao ponto do grande Nelson Rodrigues, amante do futebol, criar o personagem Sobrenatural de Almeida para explicar o inexplicável, como, por exemplo, foi possível o gol do Bahia, ontem, aos 43 min. do 2º tempo. Ms há muito mais a discutir...

Antonio Moura




P.S. - Nelson Rodrigues dizia que o juiz ladrão faz parte do jogo; sem ele, o futebol não é futebol.

DALI

domingo, 29 de abril de 2012

ANÚNCIO

"Trair a psiquiatria" é um livro para todos. Com isso, quero dizer que ele  tenta fugir das categorias  epistemológicas estancadas nas  profissões do eu. O que importa mesmo é que esse livro traz a inconformidade em carne viva, tanto em ralação à psiquiatria biológica, quanto à cultura psi dos dias que correm e que tornou possível (via negociatas políticas) a hegemonia do remédio químico, do diagnóstico fabricado e da semiologia psicopatológica destruída. É contra-indicado para corações delicados e apegados a teorias para além do corpo, para aduladores do poder e  para idólatras da técnica pura.

A. M.

MARISA, É VOCÊ

LINHAS SINUOSAS E CRUÉIS DO DESEJO

-Você não pode me falar assim; não é lícito que me fale assim. Por que me ofende? Por que me ofende precisamente aqui, diante do senhor advogado, que tolera nossa presença, a sua e a minha apenas por piedade? Você não é melhor do que eu, porque também você está acusado e ambos temos um processo. Se você, apesar de tudo, é um senhor, eu sou tão senhor quanto você, se não ainda mais. Por isso quero que quando falem comigo, tratem-me como tal e especialmente você.
(...)
F, Kafka - do livro O processo

ELIS - VENTO DE MAIO


O DESIGUAL

A diferença não é o diverso. O diverso é o dado. Mas a diferença é aquilo pelo qual o dado é dado. É aquilo pelo qual o dado é dado como diverso. A diferença não é o fenômeno, mas o número mais perto do fenômeno. Portanto, é verdade que Deus faz o mundo calculando, mas seus cálculos  nunca estão corretos, e é mesmo esta injustiça no resultado, esta irredutível desigualdade, que forma a condição do mundo. O mundo "se faz" enquanto Deus calcula; não haveria mundo se o cálculo fosse correto. O mundo é sempre assimilável a um "resto", e o real no mundo só pode ser pensado em termos de números fracionários ou mesmo incomensurável. Todo fenômeno remete a uma desigualdade que o condiciona. Toda diversidade e toda mudança remetem a uma diferença que é sua razão suficiente.
(...)
G. Deleuze - do livro Diferença e repetição
o dia nasce nas veias
à meia noite voltamos
aqui estão todos
menos a humanidade
copo de lágrima seca
espera sem fim
o sol brilha como nunca
no  esquecimento
das tardes mornais



sábado, 28 de abril de 2012

BELCHIOR - CORAÇÃO SELVAGEM

MICRO-MAIS: O CORPO-SEM-ÓRGÃOS

As linhas do delírio são as mesmas do desejo. Uma conexão aqui, outra aí,  perfazem a construção de um  sentido (ou mais que um ) para  viver. Inevitável  aderir ao acontecimento puro como aquilo que passa e não passa. Encravado nesse paradoxo,  o sentido revela-se  frágil:  tomado numa superfície existencial regida por códigos fixos, sistemas fechados,cérebros mecânicos,cisternas abertas,  políticas do eu, o que lhe resta é encetar linhas de fuga que façam explodir delicadamente as ilusões do cristianismo e das suas metástases elegantes. Ora, voltemos: as linhas do desejo são as mesmas do delírio. A questão é a do fazer: "nunca deixarão você experimentar em seu canto".

A. M.

PHILIP GLASS : Sons of the silent age

O TRABALHO DA DIFERENÇA


Ora,  um dado que se  constata   ao longo  dos  últimos   quinze  anos   é o  desaparecimento gradual da  psicopatologia  como um saber  ligado aos  processos  subjetivos. No seu lugar um corpo neurológico vem substituindo o “espaço psíquico”, ligando o sintoma a uma causa  ( ou várias)  fisicamente demonstráveis. Esse  viés  mecanicista da  psiquiatria é antigo  e   já  foi apontado muitas  vezes. O que  há de novo é a subsunção da mente pelo cérebro  como chave metodológica   para acessar um  objeto passivo (o próprio  cérebro),  as  avaliações   por imagem (diagnóstico) e as  manipulações  por   remédios  químicos (tratamento). Apesar  disso, não  há  nos   textos    uma  questão  contra as neurociências. Elas, por  certo,   obtiveram  avanços importantes na descrição/compreensão do funcionamento cerebral.  No entanto, o viés  metodológico  neurocerebral   fez a  psiquiatria   “denegar”    processos  coletivos e o mundo psíquico  que  também  constituem a  subjetividade. O que  se obteve , por exemplo, em relação ao tratamento químico das  depressões, não pode ser   desvinculado dos  diagnósticos errados quanto  ao tipo clínico da  depressão. E mais: deixa  de  conceber  a depressão em seus aspectos     múltiplos  e  próprios da nossa  época. Um tronco fértil  da  pesquisa clínica  e  etiológica  é  assim   abandonado...
(...)
Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria
TRAIR A PSIQUIATRIA 
LANÇAMENTO EM SALVADOR
DIA  23/05/2012 - 19,30 hs - LIVRARIA CULTURA

GOYA

sexta-feira, 27 de abril de 2012

LIMITES 

Partamos de um  exemplo clínico: o paciente delirante (não maníaco)  dito esquizofrênico: ele é tomado pelo delírio,  é o próprio delírio vivido com um matiz afetivo místico, digamos. Ele não sofre, não quer ver psiquiatra na sua frente, não se acha doente, ao contrário, quer apenas pregar a sua verdade, transformá-la em ação,  Ou talvez não. Talvez prefira guardá-la, tão preciosa que é, para si mesmo, a qual é evocada nos momentos mais solitários e intensos. Ora, o modelo biomédico da psiquiatria (a busca das sinapses espertas)  encontra aí o seu limite terapêutico mais constrangedor. A psiquiatria se revela não mais que  um aparelho encolhedor de mentes.

A. M. 

ENCURRALADO

a realidade é veloz
só a voz do tempo
nos contempla

CÉU - JAZZ OPEN STUTTGART

Auto-entrevista - nº  1    sobre  a  Clínica  da  diferença -  30/08/2007 

Pergunta- O que  é  a Clínica  da  diferença?

Resposta –É  um pensamento  imediatamente  prático,  voltado  ao  paciente  e  à  sua realidade. Há, aqui,  um   paradoxo  intencional; uso   o  termo “pensamento”  pois considero  as abstrações  teóricas  perfeitamente  inseridas na  afirmação  de práticas clínicas  e  mais que  isso, em práticas  de vida. A clínica  é  tão  só  um recorte  num campo muito  mais  vasto  do que  os aparelhos  teóricos  das  ciências   biológicas,  ou   mesmo humanas  querem nos fazer acreditar.  Para se   chegar  ao  paciente, muitos  instrumentos  conceituais podem servir. O critério passa  a ser  ético-estético e político. A  técnica  vem “depois”.

P- Você  poderia detalhar   um pouco  mais  as  ações  práticas?
R- Sim.  Esquematicamente, posso  dizer  que um trabalho  prático   em saúde  mental   se  baseia na   concepção do  paciente a  partir  da   vivência  no  lugar     do sintoma.  Do  encontro  no  lugar     do  exame. E do  diagnóstico-função no lugar  do diagnóstico-essência. Esses três  conceitos  interagem entre  si  na  construção de  territórios de vida, ou  seja, onde  e por onde o paciente  constrói   a  si  mesmo  e  seu  mundo de forma  singular.

P- É possível  detalhar   melhor  esses  conceitos?
R- De forma  resumida, posso   dizer  que  a Vivência  prioriza  o sentimento  que  o paciente  experimenta  em relação a si, ao  mundo e  até  sobre   sua  suposta  doença. Aí   se  produz    o  desejo. O Encontro  seria a ligação que  se estabelece  entre  o paciente   e o técnico, na  medida em que  este último  de fato    deseje    ajudá-lo. Por  último, o Diagnóstico-função é  uma  “leitura”, sempre parcial, do que  acontece  ao  paciente, voltada  para  objetivos  funcionais do  concreto  imediato.  Sendo assim, ele  poderá  mudar,     a  depender  das circunstâncias.
P- Você   citaria    outros  elementos  teóricos  importantes?
R- Há  muitos  elementos   que    deverão  ser  criados  à  medida  em que  se   produza  uma  prática. Posso  citar , por  exemplo,  ainda no interior  de  um certo  dualismo, que ao  invés   do  cérebro,  coloco   a subjetividade. No lugar  dos  fármacos, a psicoterapia  (ou as  psicoterapias).  Contudo , é  bom  registrar  que  nem o cérebro   nem   a farmacologia são  negados  ou  recusados, mas, ao  contrário, inseridos numa  proposta mais ampla na  qual a  transdisciplinaridade é  o fio condutor do  método, ou  o próprio  método.
P- A  partir   de  que  autores  você   estrutura  essas  idéias?
R- Haveria   que  citar  muitos  nomes. Contudo, destaco os  que  são, sem  dúvida, essenciais  para  construção    da  base  teórica:  Michel Foucault, Gilles  Deleuze  e Félix  Guattari. Acrescento também  a  contribuição  da  Análise  Institucional (Gregório Baremblitt, entre outros) e o pensamento  de  Jacob  Levi  Moreno, criador  do  psicodrama.
P-O seu  discurso  é contra  a psiquiatria?
R-  De modo  algum. A  psiquiatria  jamais  é  recusada   em sua  contribuição  científica  e tecnológica.  Trata-se de  outra  coisa. Ela é, isto sim, interpelada e  posta  no seu  “devido  lugar”,  submetida  às  injunções sócio-histórico- político-econômicas. Buscamos  retirar  o caráter de essência  intocável do  saber  psiquiátrico e    conectá-lo  com  saberes múltiplos vindo de áreas  heterogêneas. Assim, talvez  seja   possível “oxigenar” as concepções e  as  práticas   psiquiátricas  sobre os  transtornos mentais. Essa  é  a idéia.

P- Como  você    vê  o  uso  dos  psicofármacos  em patologia  mental?
R-Considero uma opção  terapêutica  muito  útil  na  medida  que sejam observados  critérios  clínicos como a ética,  o diagnóstico, as  circunstâncias  do  atendimento, a relação de poder  médico-paciente, entre  outros.

P-  Na sua  proposta,  há um uso insistente  do termo “subjetividade”. Por  quê?
R- Na verdade, a  subjetividade  em Saúde  Mental costuma  ser  considerada a  partir do que  a psiquiatria, enquanto  instituição hegemônica, estabeleceu. Ou seja, haveria   uma “subjetividade-doente mental”   vista   como  fato    natural. Tudo  gira  em torno desta  premissa, inclusive  os  que  lidam  com o paciente e  o próprio  paciente.  Eles   passam a ser  psiquiatrizados.  No entanto, outras  subjetividades  existem, pelo  menos  virtualmente, esperando apenas condições para se afirmarem. E tal  afirmação  só  virá   com  práticas  sociais concretas.

P- Qual   o papel  do  psicólogo  na  equipe  técnica em Saúde  Mental?
R- Acrescento ao “papel”,    a  “função”  e o    “ lugar” de psicólogo.   O papel remete a sua  inserção no  universo  social (simbólico).  A função é o  lado   propriamente  técnico. Quanto ao  lugar, diz respeito  à   sua   inserção  nas   relações de poder.  O psicólogo trabalha com esses 3  níveis interligados. Penso  que devido às condições institucionais  psiquiátricas,  o  “lugar”  do  psicólogo é  crucial para  a  prática.  Assim, para que   a  sua  fala seja  levada  em conta  e portanto o papel e a função se dêem em  benefício do  paciente, o psicólogo terá  que conquistar  um  espaço onde o saber sobre  a  loucura  lhe  autentique  verdades não psiquiátricas.

P-O que  causa  os transtornos  mentais?
R- A  etiologia  é  sempre  multifatorial, mesmo que  pareça se  referir  a um só  fator, como por  exemplo  o orgânico. Este é  mais  visível e até  certo ponto mais  “fácil” de   ser  detectado.  Contudo, há  muito mais a ser  pesquisado.   Os  múltiplos   fatores  são subdivididos neles  mesmos,    em arranjos transdisciplinares. Isso   quer  dizer  que  não  há  fronteiras  nítidas entre  as   disciplinas, nem sequer existem disciplinas,  se  pensarmos e trabalharmos  segundo   numa  ótica   verdadeiramente  transdisciplinar. Entramos   num universo  sub-representativo.Tudo  passa a   ser   mistura. Desabam  as  especialidades e  os  especialismos.

P- Poderia  explicar melhor  o que você  chama  de  universo   “sub-representativo”?
R-  Trata-se    do mundo   que     escapa   à  Identidade  do conceito,  (sustentada  pelo  verbo   Ser),   como quando    se diz  “ser-doente-mental”  ou  “ ser-psiquiatra”. Ele  está   aquém da  “representação da  Realidade”,  ou seja, fora  das  coordenadas   estáveis  da   razão, para  além   da  relação  do  conceito  com a  coisa. O  grande  desafio seria  descolar  o conceito  da  coisa, fazer  o conceito  delirar.  É um mundo  constituído por  processos, movimentos, devires, singularidades. Enfim, temos   o  campo   das multiplicidades, um campo    que se opõe  aos dualismos  estabelecidos, como  doente/sadio,  corpo/mente, racional/irracional, etc.
P- Este  seria  propriamente o  universo  da  diferença?
R-Sim, sem  dúvida. Mas, pela própria  natureza do  seu  funcionamento, é um mundo a  se  fazer, a  se  construir. Nada está  dado  de uma  vez  por  todas. Neste sentido,  a  Saúde  Mental, vista como  uma   instituição, passa a ser questionada  em suas  bases histórico-sociais. Pergunta-se-ia :a  quem   efetivamente  serve   a clínica?  Para  que  serve?  São questões  que  se desdobram em  muitas  outras.  Elas  se  unem  na  busca  de  uma   ética  pela   Vida.

P- Como  o   você  avalia   o ensino  da  psicopatologia   para  não-psiquiatras?
R- Ora, sabemos que   uma  longa  tradição   estabeleceu a  psicopatologia como a  base conceitual   da  psiquiatria. Sendo assim, no contexto  presente    é fabricado e   entregue (como   uma  Verdade)   o pacote da psiquiatria biológica, esperando-se  que os    neófitos  da  mente  respondam  amém.  Proponho  outra  coisa: um pensamento  que  brote diretamente  das  características   de  cada  área. Assim, a  psicopatologia  serviria   à   psicologia, à  enfermagem,  à  terapia  ocupacional,  etc, e  não o contrário.

P- Você  se  referiu  várias  vezes  ao conceito  de  ”vida”.  Por  quê?
R- É claro  que nessa  ênfase  filosófica, trago  a influência  de pensadores  como Espinosa, Nietsche e  Deleuze. Ora,  no contexto  da clínica, mais  que  nunca  estão  em jogo  questões  como:  que  tipo  de  vida  é  essa?  O que  é,  como e   para  que  viver? Qual a função do  técnico sobre  isso?  Promover a  vida? Como  promovê-la,  se  tudo  em volta   faz  por  negá-la?  Então, falar  em vida  significa  ir  além  dos  reducionismos que  assolam as práticas  em saúde mental. Biologicismo, farmacologismo, cognitivismo,  edipianismo e  tantos  outros...

P- Vamos encerrar  por  aqui  esperando  revê-lo  em outra  oportunidade. Gostaria  de  acrescentar  algo?
R-Apenas  agradecer  pela  oportunidade e  desejar ao  jovem  estudante que  antes de  tudo  busque  pensar  por  si  mesmo, ainda  que  precise    pensar  contra  si  e  contra  tudo  que o senso  comum e o  bom senso das  instituições  ensinaram. Não  é  fácil. 

Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria

TARSILA DO AMARAL

quinta-feira, 26 de abril de 2012

RELANÇAMENTO DO   LIVRO "TRAIR A PSIQUIATRIA"
DIA 23 DE MAIO DE 2012 -  19,30  hs - LIVRARIA CULTURA - SHOPPING  SALVADOR

SALVADOR - BAHIA

PINK FLOYD - Keep talking

DELIRAR   É  SAIR   DOS  TRILHOS


(...) (...)Recapitulando, temos: 1-  Delirium; 2-  Delírio primário; 3-Delírio crônico e 4-Delírio  secundário. Esta  é uma classificação embasada  na  vivência  do paciente que   afinal, é a  Clínica.  Não pressupõe um Sistema Oficial do Diagnóstico, ao qual teria que se  dobrar. Além disso,  as formas  são  passíveis  de se transformar uma  na  outra.  Agrupá-las em  4  significa  apenas estabelecer  um plano  fixo para  a prática   clínica. As linhas singulares de  cada  paciente  percorrem  esse plano  como uma  instância subjetiva  que  não se  enquadra em moldes diagnósticos “essenciais”.  Isso  vai na  contra-corrente da  CID-10. Quanto aos  processos  afetivos, há    peculiaridades  em  cada um dos  delírios.
(...)
Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria
Salva - dor
ÉTICA DO GUERREIRO

Ele bateu de leve no meu peito.
-Se o seu avô e seu pai estivessem tentando ser guerreiros impecáveis - continuou Dom Juan - não teriam tempo  para briguinhas mesquinhas. É preciso todo o tempo e  toda  a energia que tivermos para vencer a idiotice dentro de nós. É isso que importa. O resto não tem importância. nada do que o seu avô ou seu pai disseram sobre a Igreja lhes deu bem-estar. Mas ser um guerreiro impecável, ao contrário, lhe dará vigor e juventude e poder. portanto, é justo que você escolha sabiamente.
(...)
C. Castaãneda - do livro O segundo círculo do poder

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A FARSA DA ESQUIZOFRENIA

Psiquiatras inventam uma esquizofrenia para o atirador norueguês Andrers Behring
Atirador da Noruega acusa os psiquiatras de inventar para fazê-lo passar por louco
OSLO — Anders Behring Breivik, que admitiu ser culpado pela morte de 77 pessoas em dois ataques no ano passado na Noruega, acusou nesta quarta-feira os especialistas psiquiátricos de inventar coisas com o objetivo de fazê-lo passar por demente.
"São invenções mal intencionadas", declarou Breivik ao comentar avaliações psiquiátricas divulgadas no ano passado sobre sua condição psicótica. "Talvez não seja algo mal intencionado, mas certamente é falso", acrescentou.
Nomeados pelo tribunal de Oslo para examinar a saúde mental do réu, os psiquiatras Synne Soerheim e Torgeir Husby concluíram, em novembro passado, que Breivik sofre de "esquizofrenia paranoide".
"80% do conteúdo das entrevistas (mantidas pelos psiquiatras) foram inventados", enfatizou o extremistas de direita de 33 anos.
Segundo ele, os dois especialistas fizeram um trabalho precipitado.
"Eles estavam emocionalmente influenciados (pelos ataques de 22 de julho de 2011) e não tinham competência para avaliar um autor de violência políticas", explicou.
"Se eu tivesse lido a descrição da pessoa descrita (no relatório médico), eu teria concordado: esta pessoa é um caso psiquiátrico", afirmou. "Mas a pessoa descrita neste relatório não sou eu", acrescentou.
Nomeados pelo tribunal de Oslo para examinar a saúde mental do réu, os psiquiatras Synne Soerheim e Torgeir Husby concluíram, em novembro passado, que Breivik sofre de "esquizofrenia paranoide".
"80% do conteúdo das entrevistas (mantidas pelos psiquiatras) foram inventados", enfatizou o extremistas de direita de 33 anos.
Segundo ele, os dois especialistas fizeram um trabalho precipitado.
"Eles estavam emocionalmente influenciados (pelos ataques de 22 de julho de 2011) e não tinham competência para avaliar um autor de violência políticas", explicou.
"Se eu tivesse lido a descrição da pessoa descrita (no relatório médico), eu teria concordado: esta pessoa é um caso psiquiátrico", afirmou. "Mas a pessoa descrita neste relatório não sou eu", acrescentou.
Protestos por melhores salários deixa feridos na Bolívia.



A  CLÍNICA PRODUZIDA  
                                                                         



A  clínica psicopatológica tornou-se a clínica psicofarmacológica. Isso não é um mal em si, mas um fato da cultura médica  que incide sobre o  trabalho com o paciente. Em termos  empíricos, o próprio  paciente torna-se  um produto de forças institucionais; elas  fabricam a clínica e por extensão o paciente.  Tais forças  se explicitam na  psiquiatria,  são  a  psiquiatria [1].  No espaço do atendimento, do exame, do encontro com o paciente, elas   se concretizam  como rostidade  farmacológica.  É  um regime de aparência corporal,  semiótica,   que traça uma  linha terapêutica antes mesmo de começar o tratamento. As psicoses,  por excelência,    são  objeto   desse processo  de  rostificação. A cena extremada,  o paciente  impregnado  por   neurolépticos  (alterações  extra-piramidais)  e outros  signos  menos perceptíveis, compõem a visibilidade do espaço clínico. Assim, fazer  psiquiatria nos dias atuais tem  a opção farmacológica como  palavra de ordem: prescreva mais  e mais  remédios químicos. Isso não  vale apenas   para os que estão científico  e   juridicamente   autorizados a  fazê-lo, mas para todos os  que lidam com a loucura. Nosso foco pode ser a  chamada “equipe técnica” em saúde mental. Todos medicam,  todos estão medicados,   medicalizados   numa  produção subjetiva  inconsciente e incessante. Isso é de uma  tal obviedade que se esconde em cotidianos naturalizados. Uma espécie de ordem  programada se impõe como desejo psiquiátrico  único e  totalizante. Ora, o desejo não é individual, não é uma essência ou um atributo exclusivo  de alguém.  Ao contrário,  é coletivo  e só  se mostra   individual   como  produto de um segmento dominante. A  forma-psiquiatria é  este   segmento dominante no funcionamento da equipe.  Não importa que os psiquiatras se sintam desconfortáveis com o avanço  da luta antimanicomial [2] . Afinal,   a psiquiatria mantém um  status   baseado  na medicina,   o  que   opera   efeitos concretos,   entre eles, o da farmacologização  subjetiva. Há uma fabricação do rosto do paciente que    funciona em oposição ao rosto   normal [3].  Quem o fabrica? O autor    não  é   identificável.   Uma máquina binária sem forma  (médico-paciente)   é  implantada no seio  da clínica.  Até   fins  dos anos 80  (século XX),  apenas o  louco  dito  psicótico era tornado  “rosto”  pelo uso de  fármacos. Hoje essa manobra atinge  a todos, incluindo os não psicóticos   e   até os  normais.  As pesquisas neuro-científicas  produziram um cérebro-mente, o que  se reflete no uso continuado  de  remédios  e   associações medicamentosas. É óbvio  que o  fármaco atua no sintoma, não mais que no sintoma. Contudo,  isso não significa  obter uma cura ou  sequer uma melhora. A somatória dos  sintomas leva o médico à conexão simples sintoma-fármaco. Daí    o ato de medicar percorrer   um roteiro implícito. Ora,  é muito raro  que o paciente apresente apenas um sintoma. Então  valeria   a  equação “vários sintomas = vários fármacos”?    Não faltam  psicofármacos  para  embasá-la, ao contrário. O paciente vai sendo  rostificado  como um “ser-que-demanda-remédio”,  produzindo  a psiquiatria  e  o psiquiatra num circuito de re-alimentação continua.  A máquina se fecha: uma   produção/produto/produção     tecnicamente monitorada é o  trabalho do psiquiatra   clínico,   o qual     pode   até ser valorizado como ação    visando   o bem do paciente. Isso não impede  que se considere o circuito do fármaco    danoso  à pesquisa sobre a loucura. É que esta não se restringe a nenhuma patologia específica. Ela  é  o despedaçamento do eu e da consciência  enquanto  entidades reguladoras   dos códigos sociais. É também, sob  o olhar biomédico, um  cérebro   funcionando errado.  Mas  não   existe  definição possível nem   semiologia psicopatológica  que esgote  a descrição do seu perfil.   Trata-se  do  caos das significações dominantes, sem que isso implique em designações pejorativas e/ou niilistas.   Assim,  não só o louco é  convertido à categoria de doente  e  o não doente  convertido à categoria de louco,  mas  a psiquiatria   converte-se à   ciência e faz um  trabalho de rescaldo social.  O     que está em jogo    não é o psiquiatra-pessoa. Este obedece, só obedece  (mesmo  sem    saber). A questão  é outra.   São    as relações institucionais,   a   materialidade do ato clínico. O   eu-consciência  sustenta   a psicopatologia. Hoje, a   equação se  alarga.  Temos eu=consciência=cérebro,   base  ontológica    para se passar remédios.   Na ausência  de   uma teoria  psiquiátrica  da subjetividade,  quem responde ao psiquiatra é o “eu-consciência-cérebro”. Este  é  o  “sujeito”.    Eu-consciência para o manejo psicoterápico cognitivista. Cérebro para o  farmacológico, não necessariamente  nesta ordem.   
Voltemos à rostidade. O paciente  é vestido  pela moral (o eu-consciência) e pela química (o  cérebro). Passa a ser   um produto-organismo   disponível para  ser tratado, consertado, adaptado, normalizado. É o   trabalho (duro)  do psiquiatra na linha de frente.  Há,  porém,  outras  linhas   que  chamamos de devires. Elas não  fabricam  o paciente, mas as condições para alguém deixar de ser paciente. Tal perspectiva inclui o   psiquiatra  em    outra   concepção de  doença. Destacamos: 1-O paciente não  é um individuo, e sim uma multiplicidade;    é  irredutível  ao  eu e    à  consciência,  mas    plugado  no   coletivo. É   do  mundo,  é  o mundo.    2- Na entrevista, a sua fala chega misturada a   falas  não verbais  (semióticas);  mil   falas    estão    presentes   em   uma  fala.  3- A  inteligibilidade  do  discurso  está inscrita na  Vivência, e não  o contrário; 4- O uso    prévio  e  exclusivo   de  fármacos  -  por  aparelhos  de medicar  -   produz um rosto-clichê  que  enevoa  a percepção  clínica; 5- Antes de “ser”  um diagnóstico, o paciente é um processo afetivo; pode estar abortado, mas  é um processo;  6- O delírio (se  houver) e o  comportamento   estão   submetidos ao  contexto  onde ele  vive.  Como então, funcionam essas  linhas?  
De início,  assinalamos  que  o   psiquiatra  não   é (ou  não  deveria)    ser  um  passador  de remédios,  um  remedeiro. Ao  contrário, pela  via  do  Encontro, ele busca percutir  linhas  de  vida,  mesmo  que  elas não  se mostrem  de  pronto. Existe  a escuta   expectante   das multiplicidades.  São  falas   que  podem  ser decompostas  em  territórios  existenciais  delicados.  Dobras   subjetivas  para  além     do  olhar-clichê. Por  isso, é preciso  ver  ao  invés de enxergar.  Ver o paciente   como “não paciente”   sem que  isso  seja  uma negação  da realidade. A relação é, pois,   não  hierárquica. A  suposta  ajuda  construída  na  linha  dos devires   torna-se desejo de  ser   o  outro  sem  sê-lo. Não  uma  pessoa  à  frente, mas  linhas  entrelaçadas,  umas  se expressando, outras não. Explorar  os paradoxos na  cena  do  Encontro  implica  em jogar papéis  sociais,  coletivos,  inumanos.   A  questão  passa a ser buscar formas  de expressão. Pode  ser  pela  fala, pelo silêncio, pelo  corpo, pelas  atitudes,  etc.  Importa   a expressão e  a potência de criar que  lhe  é correlata.O paciente cria?   O  que?  Como?  Para que?  Onde?Os devires  invadem o  viver  sem que  os  especialistas  imponham uma ordem. O que se passa? O psiquiatra enlouquece  sem estar louco ou  ser um  doente,  nada  disso. O ponto de  subjetivação é o desejo  como expressão  de modos  de  viver  fora das  coordenadas  estáveis da  razão.  Isso   costuma incomodar as  estruturas   do  eu.  Devir é  expandir-se,    diferenciar-se.  Não  há,  contudo,  um suporte  institucional    para tais  ações.  Elas  arriscam  no  vácuo  o recado   de  uma    novidade  incerta. O   paciente   sem   rosto,   a   vida subjetiva    se  mostrando    às  micro-sensibilidades   que  circulam    entre o  paciente  e  o psiquiatra.  Escutar,  escutar    não  sob     uma  grade   edipiano-cerebral,   mas  à    espreita   do  novo,  do inesperado,  do  indeterminado, do  bizarro.  O  acontecimento  é  uma   linha  de perigo  e   também  a passagem.  Examinar  um  paciente  é  encontrá-lo  no seu  mundo, por mais  longínquo   que  seja.  Isso   exige    tempo,  paciência  e acima  de tudo,  ótimas  condições  de trabalho [4].  Uma  ética do  Encontro  precede   toda  técnica. A  desnaturalização  do  paciente  é  correlata ao  desaparecimento  do  eu-psiquiatra [5].  Este se torna  outra  coisa à  serviço  da  diferença,  uma  dobra existencial  que  se  desdobra  em  outra,  em outras,  em  outros.  
                                                                                                                                                                            
Antonio Moura

[1] O  caráter  técnico-científico  da  psiquiatria é  tributário dessas  forças.
[2] Observa-se no  Brasil  atual  uma  oposição  (não  sem  certa animosidade)  entre  psiquiatras  e  “defensores” da  luta  anti-manicomial.
[3] O  rosto  normal  é  o   do  organismo  cognitivo e funcionalmente  correto,  tal  como  busca   a  terapia  cognitivo-comportamental.
[4] Referimo-nos às organizações capsianas,  tanto  à  nível das  condições  materiais  quanto às  salariais.
[5] O  que  não  significa   o desaparecimento  da  psiquiatria...  ao contrário,  falamos de  “outra”  psiquiatria.

terça-feira, 24 de abril de 2012

ELIS - Como nossos pais

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Combate

A situação  é desfavorável. Na academia, os  doutos  idolatram   conclusões de pesquisas . Elas costumam ser   anódinas. Ainda assim, como metodologias,   técnicas,  regras  da  ABNT,  acabam  como  a   glace   do aparelho universitário. Glória. Quase  todos  se dão  bem. Questão de contratos, micro-políticas, influências, esquemas  partidários (ou não), enfim,  pesquisas provando o que  de antemão  se sabia. A realidade é  A realidade. Festival de redundâncias.  E o combate? Para quem acha  que  estamos no melhor  dos  mundos possíveis, não  há. Tudo é  morno . A psiquiatria comparece com sua flor  genética  ornamentando ambientes assépticos.Mas   há  outros  lados. Neles  o combate se dá   nas  sombras  do diagnóstico.Talvez  criar condições de vida  para  os  diagnosticados, fabricar  o contra-diagnóstico como ferramenta conceitual. Ora, se o  diagnóstico é a parte  teórica, buscando   conhecer o que  se passa, isso pode ter linhas de  escape do sistema CID.  Mais uma  vez, a resposta será  construída   no Encontro  com o paciente. É um combate sem  inimigo  pois  este não tem  cara. A psiquiatria é tão apenas  uma frente abstrata  que  se reproduz  em outras  frentes. Nada contra  o psiquiatra. Daí, o diagnóstico, como lugar  do idiota  pensante, merece  ser  recriado.
(...)
A.M.

SEXTA-FEIRA, 13, À NOITE

Corredor de uma universidade federal brasileira, onde se investiga o estupro de uma estudante, ocorrido na última sexta-feira, 13.
TEMPO-CORPO-DEPRESSÃO

Acercar-se  do fenômeno  depressivo é  tentar  definir o humor como  indefinível.  Ora,  se  ele  não  se  presta  a uma definição objetiva, exceto  talvez  nos  casos  graves (psicoses), o acesso  só será possível encontrando o paciente  no seu mundo. As depressões  são  o  corpo organizado  como  totalidade, o corpo-organismo.  Este  corpo está  dentro  do crono-tempo.  Isso  coloca   os modos de subjetivação como modos de corporalização num meio dado.Então, corpo+tempo=circunstâncias  atuais. O organismo  deprimido  comporta  todo  tipo  de sintoma, psíquico ou somático.O delírio  (sendo mais  comum o “secundário”) pode  estar  presente  assim como  manifestações  clínicas  como  as   da histeria conversiva e  os  antigamente  chamados   sintomas  psicossomáticos. O essencial a reter dessas classificações é que há  uma  desvitalização  de  base  nos  processos  subjetivos e que se expressa nos órgãos. Pode ser qualquer  um. O sistema  imunológico é  afetado. 
(..)
Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria

EU TE AMO - TOM JOBIM

segunda-feira, 23 de abril de 2012

CASTIGOS  E   INDULGÊNCIAS

O Estado ameaça: se você não obedecer, tudo se desorganizará, vão ocorrer catástrofes, advirão a fome, as pessoas e caos, enfim, o medo dos castigos o invadirá, e, de fato, você deve temê-los; se você obedecer, pode ter esperança que as recompensas virão. O temor dos castigos  e a esperança das recompensas: são essas as paixões tristes que mais servem aos Estados e às religiões. O Estado determina os prêmios para os submissos e os castigos para os transgressores. Esse mecanismo funciona montado no reconhecimento. Logo, todo homem que está submetido ao reconhecimento, que suplica elogios para viver, é prisioneiro das recompensas e dos castigos. E quão nossa ainda é essa estrutura!
(...)
Luiz A. Fuganti - in Saúde, desejo e pensamento

ALDOUS HUXLEY - ENTREVISTA - parte 3

PERCEBER O IMPERCEPTÍVEL

O encontro com  o  paciente é o encontro com relações e  práticas que  compõem uma  vida. Esta é  irredutível às linhas  de visibilidade do organismo físico-químico. Não se restringe   ao  corpo visível. (Nenhum espiritualismo em tal observação). Uma  vida enquanto multiplicidade funciona em devires. É o movimento o que conta,  embora não seja percebido.  
(...)
A. M.

domingo, 22 de abril de 2012

JOSHUA REDMAN QUARTET

O SENSO DO RISO

Há sempre uma alegria indescritível que brota dos grandes livros, mesmo quando eles falam de coisas desagradáveis, desesperadoras ou terrificantes. Todo grande livro opera já a transmutação e faz a saúde de amanhã. Não se pode rir senão quando se embraralha os códigos. Se colocamos o pensamento relacionado ao exterior, nascem os momentos de riso dionisíaco, é o pensamento ao ar livre (...) (...) O riso em Nietzsche se volta sempre ao movimento exterior dos humores e das ironias, e este movimento é o das intensidades, das quantidades intensivas (..)

G. Deleuze - in Pensamento nômade

KANDINSKY

O JOGADOR SOLITÁRIO


Partimos do coletivo interiorizado em subjetivações. Desse modo, somos todos multiplicidades expressando maneiras de ser. Crenças, crenças, de  onde  vieram tantas?  O cérebro  é uma crença. Diga em que você acredita. Talvez no remédio para o seu mal,  no seu próprio mal, ou em você próprio. Enfim, as crenças, tão frágeis, tão poderosas, norteiam e fazem consistir  o real. Entre  elas o delírio  insinua-se como tecido de sustentação para um  eu franzino. No entanto, é preciso  viver.A psiquiatria não quer isso.Ela só quer sobreviver às custas da reprodução de uma  dependência abjeta aos seus  remédios. São tratores da mente. Desconsideram a  finura existencial dos  espíritos livres. Anseiam por um mundo clean. Ao contrário, há remédios não cadastrados que impulsionam a mente  para um desmentido  radical. O corpo “essencial” é invisível e não capturável pelos  ardis  da  tecno-medicina.O coletivo é a abstração concretizada na carne, onde vasos, nervos, ossos e vísceras contém o infinito.Chame a aurora no lugar do médico.Confesse ao sol no lugar do psiquiatra. Brinque com a lua  no lugar do hipnótico. Dá certo.
(...)
Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria

A máquina abstrata de rostidade

sábado, 21 de abril de 2012

O SONHO AMERICANO

A psiquiatra estadunidense Nancy Andreasen   pôs  como título do seu livro  (publicado em  2005)  O ADMIRÁVEL CÉREBRO NOVO.  Diz  no prefácio: "O título deste livro, baseado em alguns versos famosos de A tempestade de Shakespeare, foi escolhido para transmitir a sensação de entusiasmo e otimismo que sentem os clínicos e os cientistas que trabalham com doenças mentais: "Admirável mundo novo que tem tais habitantes". (...) (...) Mais adiante ,  dispara uma pérola: "o objetivo do século XXI é encontrar uma "penicilina para a doença mental." E continua : "Esperamos descobrir um admirável mundo novo em que a doença mental, que hoje é dolorosamente comum, se torne infrequente e seja tratada com facilidade"


ALDOUS HUXLEY - Entrevista - parte 2

Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.

Omar Khayyam - do livro Rubaiyat

ULTRAJE


ATENDIMENTO PSIQUIÁTRICO NOVA ERA


-Dr., o que é que eu tenho?
-Você está querendo saber o seu diagnóstico...

-Sim. Já faço tratamento psiquiátrico  há 22 anos... portanto...
-Olha, você tem esquizofrenia indiferenciada, transtorno afetivo bipolar, doença do pânico,  toc, transtorno da personalidade (borderline),  transtorno esquizoafetivo, e...

-Eu tenho tudo isso, doutor?
-Calma; ainda não terminei...

-Tem mais?
-Posso afirmar,  hoje, que você é portador do  transtorno Cid-total,  aquele que engloba todos os demais numa única semiologia clínica.

-Como assim?
-É um transtorno  único, uma  doença única. É rara,  mas é uma novidade rigorosamente científica.   Sua descoberta é bem recente.

-Quer dizer então que eu sou um  doente total?
-As pesquisas indicam que sim, ou pelo menos, caminham nesse sentido. Mas não se assuste. Em compensação  chegou  o psicofármaco total. Veja: basta um comprimido ao dia... e...

-Vou ficar bom, ou pelo menos melhorar, doutor?
-Claro que não. Como irei  viver sem você?

-Mas,... e  a ética médica, doutor?
-Há muito  tempo ela vive no museu dos horrores.

-Pelo que entendi, a ética médica é um horror?
-Isso!!  Afinal você não é um doente qualquer. Você é um  Cid-total...  Já ouviu falar do Mercado?

A DOSE PRECISA