quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

LEVE, O CORPO

 (...) Com isto concluo e pronuncio meu julgamento: eu condeno o cristianismo; lanço contra a Igreja cristã a mais terrível acusação que um acusador já teve em sua boca. Para mim ela é a maior corrupção imaginável; busca perpetrar a última, a pior espécie de corrupção. A Igreja cristã não deixou nada intocado pela sua depravação;transformou todo valor em indignidade, toda verdade em mentira e toda integridade em baixeza de alma. Que se atrevam a me falar sobre seus benefícios “humanitários”! Suas necessidades mais profundas a impedem de suprimir qualquer miséria; ela vive da miséria; criou a miséria para fazer-se imortal... Por exemplo, o verme do pecado: foi a Igreja que enriqueceu a humanidade com esta desgraça! – A “igualdade das almas perante Deus” – essa fraude, esse pretexto para o rancor de todos os espíritos baixos – essa idéia explosiva terminou por converter-se em revolução, idéia moderna e princípio de decadência de toda ordem social – isso é dinamite cristã... Os “humanitários” benefícios do cristianismo! Fazer da humanitas uma autocontradição, uma arte da autopoluição, um desejo de mentir a todo custo, uma aversão e desprezo por todos desejos bons e honestos! Para mim são esses os “benefícios” do cristianismo! – O parasitismo como única prática da Igreja; com seus ideais “sagrados” e anêmicos, sugando da vida todo o sangue, todo o amor, toda a esperança; o além como vontade de negação de toda a realidade; a cruz como símbolo representante da conspiração mais subterrânea que jamais existiu – contra a saúde, a beleza, o bem-estar, o intelecto, a bondade da alma – contra a própria vida... Escreverei esta acusação eterna contra o cristianismo em todas as paredes, em toda parte onde houver paredes – tenho letras que até os cegos poderão ler... Denomino o cristianismo a grande maldição, a grande corrupção interior, o grande instinto de vingança, para o qual nenhum meio é suficientemente venenoso, secreto, subterrâneo ou baixo – chamo-lhe a imortal vergonha da humanidade... 
(...)

F. Nietzsche in O Anticristo

LOUI JOVER


ANTI-IMPEACHMENT PARA BOLSONARO?

Em agosto de 2018, Eduardo Bolsonaro disse à Folha de S. Paulo: “Sempre aconselhei o meu pai: tem que botar um cara faca na caveira pra ser vice. Tem que ser alguém que não compense correr atrás de um impeachment”. Depois de várias tentativas fracassadas, Jair Bolsonaro acabou escolhendo o general da reserva Hamilton Mourão para ser seu vice na chapa que acabou vitoriosa. Ele atendia ao requisito exposto pelo terceiro filho, o de proteger o presidente, a partir da sombra das Forças Armadas.
Por um lado, um país que viveu 21 anos de ditadura militar, no qual centenas foram sequestrados, torturados e mortos, deveria ter resistência à volta de um general no comando da nação. Até então, os defensores do retorno da ditadura militar formavam um grupo minoritário, meio amalucado e sempre apontado nos movimentos da “nova direita”, na Avenida Paulista, epicentro das manifestações de rua no Brasil. Por outro lado, o vice estaria sintonizado com os quartéis para garantir a presidência, muito mais do que um capitão que chegou a ser preso por indisciplina e que, nas últimas três décadas, tornou-se político profissional. O vice “faca na caveira” seria um seguro anti-impeachment para Bolsonaro.
(...)

Eliane Brum, El País, 31/01/2019, 15:57 hs
Eu era muito jovem para ter um carro, então transava com as moças no banco de trás de minha bicicleta.

Woody Allen

PHILIP GLASS: Zoe Goes To the Restaurant (No Reservations)

Quando se trabalha, a solidão é, inevitavelmente, absoluta. Não se pode fazer escola, nem fazer parte de uma escola. Só há trabalho clandestino. Só que é uma solidão extremamente povoada. Não povoada de sonhos, fantasias ou projetos, mas de encontros. Um encontro é talvez a mesma coisa que um devir ou núpcias. É do fundo dessa solidão que se pode fazer qualquer encontro. Encontram-se pessoas (e às vezes sem as conhecer nem jamais tê-las visto), mas também movimentos, ideias, acontecimentos, entidades.
(...)

G. Deleuze e C. Parnet in Diálogos
Água e sal

digo que foi o vento:
inundou meus olhos
de sal

(esse vento do mar
você sabe...)

mas é mentira:
não são lágrimas
de sal
é a pungência do azul


Carlos Machado

OUTRO MUNDO AQUI MESMO

Os psicofármacos, tão apreciados pela psiquiatria biológica, já enviam sinais de exaustão em suas pesquisas bioquímicas. E nos resultados terapêuticos. Faz anos que "nada há de novo no front." A psicofarmacoterapia, como se sabe, voltada à supressão ou melhora dos sintomas mentais (delírios, alucinações, ansiedades, pânicos, fobias, depressões, etc), ocultou o fato de que o paciente é um sintoma da erosão de sentido dos tempos modernos. Antigamente se aguardava a notícia da cura da esquizofrenia.  Impossível, hoje: o mundo mudou e, ele próprio, tornou-se esquizofrênico. 

A.M.


P.S. - texto revisado e republicado.
A IMPERATRIZ E A SANTA

RIO — A Imperatriz Leopoldinense não quer saber de briga com a Igreja Católica. Um padre e uma advogada da Arquidiocese do Rio visitaram na quarta-feira o barracão da escola, para analisar os planos de levar uma imagem de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos para a Avenida. O convite foi feito pelo diretor de carnaval da verde e branco, Wagner Araújo. A imagem da santa foi esculpida em madeira maciça por um artesão em Belém do Pará. Ela mede 1,90 metro de altura. No Brasil, apenas duas igrejas têm como padroeira Nossa Senhora do Rosário dos Pretos: uma no Rio, na Rua Uruguaiana, e outra em Salvador — ambas do século XVIII. No passado, essas igrejas abrigavam negros e pardos que eram proibidos de rezar nos templos frequentados por brancos. Na de Salvador, há até hoje uma missa que mistura rituais do candomblé.
No encontro de quarta-feira, a equipe dos carnavalescos Mário Monteiro e Kaká Monteiro explicou aos representantes da Igreja que a santa virá na parte de trás de um carro alegórico que representa um navio negreiro.
O padre Júlio e a diretora jurídica da Arquidiocese do Rio, Claudine Milione Dutra, fizeram perguntas sobre as fantasias que os integrantes da escola vão usar no entorno da santa. Eles também quiseram saber se haverá, por perto, alguma passista de biquíni, por exemplo — o que foi negado pela escola. Os dois receberam os croquis do desfile, que foram levados para seus superiores, inclusive o cardeal dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio.
— A princípio, não vimos qualquer problema. Mas precisamos analisar melhor os desenhos — disse Claudine Dutra.

Bruno Alfano, O Globo, 31/01/2019, 02:36 hs

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

CORCOVADO ANDREA MOTIS JOAN CHAMORRO QUINTET & SCOTT HAMILTON

VIDA E ELETRODOMÉSTICOS

Aos que acompanhamos a tragédia da represa da mineradora Vale que desmoronou em Minas Gerais, e o número de vítimas mortais que aumenta a cada momento, só resta a indignação, a dor e a solidariedade com as famílias enlutadas. Indignação porque a catástrofe poderia ser evitada, como indicam todos os especialistas, e dor e solidariedade com as famílias em pranto.

Ficou evidente, apenas três anos depois do crime de Mariana, cujas feridas continuam abertas, que mais uma vez o lucro e a corrupção prevaleceram sobre a preocupação quanto a possíveis vítimas. E isso gera indignação e desespero para aqueles que se viram afetados e se sentem imponentes frente a esses gigantes complexos mineradores protegidos pela impunidade.

Em meio ao luto vivido pelo Brasil e ao sentimento de impotência que sacode as pessoas normais, a grande solidariedade das pessoas com as famílias atingidas serviu como único sopro de esperança de que a consciência solidária dos brasileiros não morreu e continua palpitando frente à dor causada pela avareza do capitalismo selvagem.

Em meus muitos anos de jornalismo, estou acostumado a relatar e analisar muitas outras catástrofes mundo afora, mas mesmo assim houve uma declaração de um político mineiro que me causou um mal-estar difícil de expressar. Eu a li no blog do jornalista, escritor e agudo polemista Reinaldo Azevedo. É um tuíte de Evandro Negrão Jr., vice-presidente do partido Novo no Estado de Minas, cenário da tragédia. Precisei ler várias vezes o texto, que Azevedo qualificou como “latrina”, para me convencer de que não estava alucinando.

Nele, o político, correligionário do atual governador de Minas, Romeu Zema, escreve que de fato os mortos de Brumadinho dão pena, mas que o importante é essa maravilhosa empresa que arranca minérios do coração da terra. Ou será que os brasileiros preferem ficar sem carros e sem geladeiras em vez de perder um punhado de vidas? E conclui que o importante é que a empresa retome sua atividade o quanto antes, para continuar produzindo materiais sem os quais ficaríamos privados de eletrodomésticos.

E as vítimas? Que a Vale pague uma multa. O político foi até generoso com os mortos: pede que seja uma “grande multa”. E a prisão para os possíveis responsáveis? Isso seria um castigo exagerado para uma empresa tão fantástica que, conforme escreve, torna o mundo “muito melhor”.

Não, não é uma fake news. Eis o texto literal:

“Lamentável, muito dolorido e MUITO sofrido o desastre de Brumadinho, mas n/ podemos demonizar a Vale. É uma baita empresa, sem minério n/ tem carro, avião, nem geladeira e o mundo é muito melhor c/ empresas como ela do q sem. Ela errou, deve pagar 1 grande multa e voltar a funcionar asap.”

Enquanto a vida de um só ser humano valer menos que um eletrodoméstico, continuaremos todos apanhados e sem esperança de redenção no túnel sem saída da barbárie. O texto do político do Novo é a melhor elegia do capitalismo em estilo puro, para quem o lucro é seu único bezerro de ouro digno de culto. O resto, o pranto das pessoas que tiverem que ser sacrificadas em seu altar, são um apêndice, um parêntese, uma insignificância. Menos que uma geladeira.

Afinal, o que são algumas dezenas de vítimas a mais ou a menos, em um país com mais de 200 milhões, frente à felicidade de poder ter nossas casas repletas de eletrodomésticos? Não se trata de condenar o sistema capitalista, sempre melhor que o da Coreia do Norte, mas sim de fazermos isso convencidos de que uma só vida humana sempre continuará valendo mais que todo o ferro e o ouro do mundo.

Juan Arias, El País, 28/01/2019, 22:54 hs

ALÉM DA IMAGINAÇÃO - Um pouco de paz e sossego

Eu não sei se tem alguém do outro lado da linha, mas ser um agnóstico significa que todas as coisas são possíveis, mesmo Deus. Este mundo é tão estranho, tudo pode acontecer, ou não acontecer. Ser um agnóstico me permite viver em um mundo mais amplo, em um mundo mais futurístico. Isso me faz mais tolerante.


Jorge Luis Borges

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

SALÁRIOS PARCELADOS
(...)
Trabalhando incansavelmente em um resgate perigoso que envolve lama e uma área de risco, os esforços dos bombeiros são reconhecidos por muitos moradores e familiares de desaparecidos que assistem dos bairros e estradas o sobe e desce constante de helicópteros. A missão dos bombeiros mineiros, no entanto, não tem sido valorizada adequadamente pelo Estado de Minas Gerais, que vive uma crise fiscal. Atualmente os salários dos bombeiros estão sendo parcelados e a quitação integral do 13º salário de 2018 está atrasada, e sem perspectiva de ser recebido em curto prazo.

Heloisa Mendonça, El País, Brumadinho, 28/01/2019, 17:02 hs

O MÉTODO DA DIFERENÇA EM PSIQUIATRIA CLÍNICA - II

O desejo é produção, não produto. Uma assertiva (simples) que resume o método da diferença em psiquiatria clínica. Fazer circular o desejo é criar modos de existência para o chamado portador de transtorno mental. Como o conceito de transtorno mental não explica nada, ele, sim, é que deve ser explicado. Tal explicação (por que alguém quer morrer? por que alguém delira? por que alguém usa cocaína?  por que alguém tem medo de tudo? por que alguém está deprimido? por que alguém ouve vozes? etc) já compreende a produção do novo, mesmo que esse "novo" se mostre impossível, estranho, até envolto em non sense. É o caso das psicoses. Daí a luta coletiva da e na saúde mental (mesmo quando operada por uma só pessoa) se expressar em atos de resistência. Resistir à vergonha, à infâmia, à corrupção, à fome, ao cinismo do capital, à desigualdade... Isso leva ao encontro com o paciente: uma vida.

A.M.

JUAN CARLOS BRAMBIYA


Oh minha senhora ó minha senhora

Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora 
minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso
redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal
vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais
de...não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha
não precisa também de despir o que é isso é verdadeiramente fora
de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante
emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o
que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlegos
sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente
na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito
Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh...esses seios são
seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád...tanta nudez me
deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja

Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu...


Carlos Drummond de Andrade
MILÍCIAS

5. Os milicianos tomam para si a função de garantir segurança pública, tirando essa atribuição das mãos do Estado. A senhora enxerga que esse modelo de privatização da segurança está em crescimento no Brasil? 
Nós, que investigamos essa área, sempre ficamos impressionados com a existência de um número maior de seguranças privados do que de policiais no Rio de Janeiro. Sempre houve um número enorme de seguranças privados. O que é apavorante agora é o fato de que essa privatização foge completamente de qualquer controle institucional e formal. Além do mais, não sabemos quais são as relações entre empresas privadas de segurança e a milícia, mas provavelmente existem. Provavelmente há troca de pessoal e troca de informação.

Alba Zaluar, trecho de entrevista a Matheus Rocha, Época, 29/01/2019, 06:00 hs

domingo, 27 de janeiro de 2019

Quando todo mundo quer saber é porque ninguém tem nada com isso.

Millôr Fernandes
O CÉREBRO MENTE

A psiquiatria é uma especialidade médica híbrida. Funciona na zona de fronteira entre as ciências humanas e as biológicas. Contudo, mais importante para a prática clínica (ou seja, aos efeitos sobre o paciente) é  o fato de ser ela uma forma social que se nutre dos códigos sociais estabelecidos. Exemplo simples é o da moral. A psiquiatria guia-se pela moral como pressuposto implícito dos seus enunciados diagnósticos, os quais inscrevem-se no fenômeno mais amplo de medicalização da sociedade. Para que tal empreendimento "dê certo",  conta com a reverência das pessoas em geral a uma neurocientificidade reducionista e à figura do psiquiatra como ponto de subjetivação mantenedor da ordem. São linhas semióticas (produzem significados) que circulam entre os técnicos de saúde mental num circuito de naturalização a-histórica da medicina, e por extensão da própria psiquiatria. Daí, a assepsia tecnocientífica da psiquiatria biológica esconder a função da clínica-do-remédio-químico como produtora social de fármaco-subjetividades. Para o paciente e familiares, vulneráveis aos fluxos da loucura, a saída terapêutica passa a ser o psiquiatra que apenas medica, ainda que isso mortifique o desejo. Ou justo por isso. O chamado paciente crônico é produzido, estigmatizado como crônico pelas vias do diagnóstico "cidológico" e pela farmacoterapia contensora dos processos subjetivos singulares.


A.M.


P.S. - Texto revisado e republicado.
Céu

olhando o céu

me digo que é celeste desbotado (têmpera
azul puro depois de um banho gelado)

as nuvens se movem

penso em seu rosto e em você e em suas mãos e
no ruído de sua caneta e em você
mas seu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
eu esperava vê-lo misturado a ela como um
pedaço de algodão iodado dentro do tecido adesivo
sigo caminhando

um coquetel mental embala minha cabeça
não sei se pensar no céu ou em você
e se eu jogasse uma moeda? (cara, você; coroa, o céu)
não! seu ser não se arrisca e
eu te desejo, te de-se-jo!
pedaço de céu do cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor

pensemos nos dois

os dois você + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicoloridas bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe

sim o amor está longe como o mosquito
sim! esse que persegue um outro mosquito perto
do farol amarelado que vigia, sob o
céu negrolimpo, esta noite angustiante
                                cheia de dualismos



Alejandra Pizarnik

(tradução de Natélia Agra e Victor Hugo Turezo)

ROSA PASSOS - Juras

IMPUNIDADE

A tragédia em Brumadinho é resultado, em primeiro lugar, da impunidade do desastre de Mariana. E também de anos de um Estado ausente, incompetente e corrupto. A começar pelo Governo Federal, dominado pela corrupção sistêmica nos últimos anos do PT e MDB. Há de se ressaltar que o defeito da Vale começou lá atrás na privatização malfeita durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, entregue praticamente de graça à iniciativa privada, mas ainda com grande participação do Estado, que não assume as suas responsabilidades perante os desastres.

Ainda é resultado da falência de Minas Gerais pelos governos do PSDB (Aécio Neves e Antônio Anastasia) e do PT (Fernando Pimentel).Tanto que um empresário desconhecido acabou se elegendo governador, Romeu Zema. No primeiro momento, pelo menos Zema e Jair Bolsonaro agiram rápido na tragédia em Brumadinho, 25 de janeiro de 2019. O presidente fez uma declaração pública na TV, criou um gabinete de crise, e visitou de helicóptero a região no dia seguinte ao acidente. Ao contrário de Dilma Rousseff que apenas se pronunciou pelo Twitter e, após críticas, somente uma semana depois fez um sobrevoo na região.
(...)

Francisco Câmpera, El País, 27/01/2019, 00: 18 hs

sábado, 26 de janeiro de 2019

O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.

Nelson Rodrigues

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019


AS AMEAÇAS

BRASÍLIA - "Vou te matar com explosivos", "já pensou em ver seus familiares estuprados e sem cabeça?", "vou quebrar seu pescoço", "aquelas câmeras de segurança que você colocou não fazem diferença". Nos últimos dois anos, o deputado Jean Wyllys  (PSOL-RJ) viveu uma rotina semanal de ameaças de morte . Disparadas pelas redes sociais, no e-mail e telefone do gabinete em Brasília, ou no e-mail pessoal do próprio deputado, os textos levaram a Polícia Federal a abrir cinco investigações sobre as ameaças e obrigaram o deputado a andar com escolta policial desde março do ano passado. 
O GLOBO teve acesso nesta sexta-feira ao conteúdo de dezenas de ameaças contra Wyllys. Marcadas por declarações de ódio e de preconceito, elas se avolumaram ao ponto de fazer o parlamentar desistir de assumir o terceiro mandato como deputado federal, para o qual havia sido eleito em outubro passado com pouco mais de 24 mil votos.
(...)

Bela Megale, Patrik Camporez e João Paulo Saconi, O Globo, 25/01/2019, 15:08 hs

QUADRADOS E ANGULAÇÕES

Casas enfileiradas, casas enfileiradas,
Casas enfileiradas.
Quadrados, quadrados, quadrados,
Casas enfileiradas
O povo tem a alma quadrada
Ideias em fila
E costas anguladas.
Eu mesma verti ontem uma lágrima,
Meu Deus, quadrada.


Afonsina Storni

(tradução de Victor Hugo Turezo)

BARRAGEM DA VALE SE ROMPE

A lama invade Brumadinho/MG  (Globo.com, 25/01/2019, atualizado há 10 minutos)

NEUROTUDO

A neuromania é um dispositivo institucional típico do capitalismo mundial integrado (cf F. Guattari). Antes de ser uma técnica, trata-se de um modo de subjetivação inconsciente que põe o cérebro como órgão responsável pelos destinos da humanidade. É uma armadilha e também uma neuropolítica, uma neuroestética, uma neuropolícia, uma neurofamília, uma neuromídia, etc. Assim vai o pensamento burguês rastreando tudo o que lhe foge ao controle. Não é um mal em si (até porque não existe o mal-em-si) mas apenas um dispositivo do capital pronto para o abate das almas, criaturas solitárias que de algum modo resistem ao assédio mortífero do consumo desenfreado. Portanto, o assunto neuromania compõe o cardápio das ações políticas e micropolíticas do capitalismo no meio científico como sendo a sua verdade inquestionável. Tudo pela cientificidade! A mídia, na condição de agente de imbecilização das massas e das mentes, opera (sem que se perceba percebendo) a função indispensável de tamponar o buracao negro da subjetividade dos dias que correm. Alucinados e delirantes.

A.M.


P.S. - texto  revisado e republicado

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

ISSO É GRAVE

A assessoria do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) informou nesta quinta-feira (24) que o parlamentar não tomará posse para o novo mandato.

Ao G1, a assessoria de Jean Wyllys informou que ele tem recebido ameaças e, por isso, decidiu não assumir o terceiro mandato parlamentar. A posse dos deputados federais eleitos está marcada para 1º de fevereiro. Jean Wyllys recebeu 24.295 votos na eleição de outubro.

Em uma rede social, Jean Wyllys publicou nesta quarta: "Preservar a vida ameaçada é também uma estratégia da luta por dias melhores. Fizemos muito pelo bem comum. E faremos muito mais quando chegar o novo tempo, não importa que façamos por outros meios! Obrigado a todas e todos vocês, de todo coração. Axé!"
(...)

Fernanda Calgaro e Fernanda Vivas, G1, TV Globo, Brasília, 24/01/2019, há 26 min.
Outra cidade

Quando levanto os olhos vejo neve,
neve que vem brilhando da televisão.
Como sempre, cintilam no mapa
os lugares onde não se está.
Certamente sentiria falta do mercado de flores
e de acordar neste oitavo andar
que se abre desafiando o vento.
A verdade é que só houve um dia de neve
e que há uma possível segunda versão
para as coisas conhecidas.
As malas estão feitas desde sempre
e além disso estão no sofá
em posição de espera.
Esse momento dura, se mantém,
é uma maneira de estar:
estar prestes a ser abandonado.
O poço preto das malas feitas,
reverso do desembarque:
o desejo humano pelo incompleto
que se reflete, dizem,
na predileção pelo pequeno,
o breve, o fragmento.


Laura Wittner

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

VICTOR BAUER


ESTÁ MADURO?

O presidente venezuelano Nicolás Maduro acusou nesta quarta-feira (23) os Estados Unidos de dirigirem uma operação para impor um golpe de estado, horas depois de o presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, ter se declarado presidente interino do país.

Os EUA foram o primeiro país a reconhecer Guaidó como presidente interino. Na terça-feira, Maduro já havia ameaçado rever a relação entre os dois países após a divulgação de um vídeo do vice-presidente norte-americano Mike Pence dirigido ao povo venezuelano.

Maduro se pronunciou na sacada do Palácio Miraflores, onde anunciou o rompimento de relações diplomáticas e políticas com os Estados Unidos, e disse que os diplomatas norte-americanos têm 72 horas para deixar a Venezuela.
(...)

Por G1, 23/01/2019, atualizado há 3 menutos
Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel.
(...)

Caio Fernando Abreu

PRIORIDADES


terça-feira, 22 de janeiro de 2019

LIGAÇÕES PERIGOSAS

Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega. As duas mulheres são o elo entre o senador eleito Flávio Bolsonaro e o grupo miliciano Escritório do Crime, um dos mais poderosos do Rio. O grupo é também suspeito de envolvimento no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. Segundo o jornal O Globo, Raimunda e Danielle são, respectivamente, mãe e mulher do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, vulgo Gordinho, tido pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como uma das lideranças do Escritório do Crime. As duas foram lotadas no gabinete do então deputado estadual Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, mas o filho do presidente diz não ter sido responsável pelas nomeações.
Adriano, que está foragido, foi um dos alvos da Operação Intocáveis, realizada nesta terça-feira por uma força-tarefa da Polícia Civil e do Ministério Público. Foram presos cinco suspeitos de integrar a milícia que agia nas comunidades de Rio das Pedras e Muzema. Além do suposto envolvimento no assassinato de Marielle e Anderson, o grupo é acusado de extorsão de moradores e comerciantes, agiotagem, pagamento de propina e grilagem de terras.
(...)

Gil Alessi, El País, São Paulo, 22/01/22019, 15:25 hs
Teatro

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho



Ana Martins Marques

JOÃO BOSCO -Eu Não Sei Seu Nome Inteiro

O QUE É DEPRESSÃO?

Na clínica, o diagnóstico de depressão nem sempre é evidente. Trata-se de uma semiologia complexa. Dizer que o humor está baixo, assim como se diz que os leucócitos estão baixos (leucopenia), é fruto de um pensamento raso em psicopatologia. O afeto (substrato da vivência depressiva) raramente chega em "estado puro" como quando se fala em "tristeza patológica". Esta seria uma visão quantitativa. Ao contrário, numa clínica da diferença o afeto é pesquisado em matizes sutis, linhas expressivas  irredutíveis a um nome, a uma definição. O próprio paciente muitas vezes não sabe dizer o que está sentindo. Os erros diagnósticos costumam ter essa origem. Se ele não sabe dizer o que está sentindo, como o técnico irá saber? Angústia, inibição e certos signos psicóticos são alguns dos afetos que podem substituir e/ou se associar com a hipotimia (humor baixo). Isso exige uma percepção clínica fina.

A.M.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

A beleza é algo que todo mundo almeja, necessita e tenta obter, de alguma forma – seja através da natureza, ou um homem ou uma mulher, ou música, ou qualquer outra coisa. A alma anseia por isso.
(...)

James Hillman

CHRISTINA NGUYEN


Amanhecência

Quero ficar só, 
para respirar a estrela. 
Deixar a noite escorrer a mágoa, 
dissolvê-la em enxurrada. 
Não deixar nada a comprimir o peito. 
Quero a madrugada de tal jeito, 
que a alma possa flanar sem pouso certo 
e sugar o primeiro brilho esperto 
de uma gota. 
Beijar a pétala rota 
pelo mau jeito de um espinho, 
degludir devagarinho 
o mel do espasmo nascente. 
Quero o orgasmo 
do pólen, da semente; 
eu quero o sumo. 
Para recompor a vida, 
pra renascer o afeto, 
pra retomar o rumo. 


Flora Figueiredo
O PURO DEVIR

Alice assim como Do outro lado do espelho tratam de urna categoria de coisas muito especiais: os acontecimentos, os acontecimentos puros. Quando digo "Alice cresce", quero dizer que ela se torna maior do que era. Mas por isso mesmo ela também se torna menor do que é agora. Sem dúvida, não é ao mesmo tempo que ela é maior e menor. Mas, é ao mesmo tempo que ela se torna um e outro. Ela é maior agora e era menor antes. Mas é ao mesmo tempo, no mesmo lance, que nos tornamos maiores do que éramos e que nos fazemos menores do que nos tomamos. Tal é a simultaneidade de um devir cuja propriedade é furtar-se ao presente. Na medida em que se furta ao presente, o devir não suporta a separação nem a distinção do antes e do depois, do passado e do futuro. Pertence a essência do devir avançar, puxar nos dois sentidos ao mesmo tempo: Alice não cresce sem ficar menor e inversamente. O bom senso é a afirmação de que, em todas as coisas, há um sentido determináveI; mas o paradoxo é a afirmação dos dois sentidos ao mesmo tempo.
(...)

G. Deleuze, in Lógica do sentido

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


ESCRAVOS MODERNOS

A Tailândia é o principal exportador mundial de atum e um dos maiores exportadores de todo tipo de peixe. Sua indústria pesqueira marinha se presta especialmente à escravidão moderna devido ao seu tamanho, à falta de regulação, à grande capacidade de operações ilegais realizadas sob seu manto e à exploração dos trabalhadores imigrantes.

Há mais de 50.000 embarcações pesqueiras e cerca de 500.000 trabalhadores na indústria. Investigações realizadas por grupos como Greenpeace e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) advertem que a maioria das pessoas que sobem nesses barcos cumprem todos os requisitos para serem consideradas escravos modernos: são forçados a trabalhar sob ameaça, são controladas ou diretamente são propriedade de seus chefes, são tratadas como mercadoria e não podem abandonar seu posto de trabalho.

Qualquer pessoa enganada ou traficada para trabalhar em localidades distantes de seu lugar de origem e que não tenha liberdade de circulação, seja ela física ou financeira, é um escravo moderno.
(...)

El País, 20/01/2019, 16:38 hs

domingo, 20 de janeiro de 2019

Rápido e rasteiro

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida


Chacal
QUEM  ESCUTA O PACIENTE?

A psiquiatria biológica também pode ser chamada de psiquiatria atual, moderna, e por que não dizer, hegemônica. No estudo de um caso, ela prioriza e torna exclusiva a realidade do organismo físico-químico, e mais precisamente, do cérebro, como origem (ou causa) dos chamados transtornos mentais, Trata-se de uma opção epistemológica baseada no modelo biomédico. Não é, pois, um erro, e sim, um método de pesquisa. Neurociência, fisiologia, farmacologia e  genética, entre outras, são áreas do conhecimento usadas para eliminar e/ou reduzir problemas (sintomas) desses transtornos. Ora, devido ao lugar de poder que ocupa a medicina na sociedade, o discurso médico tende ao pensamento único em saúde mental e passa a encarnar e expressar uma verdade subjetivada. Isso é transmitido aos demais técnicos da equipe em saúde mental ( o psiquiatra no topo), à família, à mídia, â escola, e ao próprio paciente. "Eu sou bipolar". Assim, na prática clínica, a dimensão subjetiva (psicossocial) do paciente fica reduzida a um cérebro que funciona mal e daí necessita ser reparado como, por exemplo, se repara um computador. Seria só  isso a vida afetiva, o desejo, a angústia diante do caos social?

A.M.

sábado, 19 de janeiro de 2019

GUERRA FRIA - direção de Pawel Pawlikwski, 2018

Eu certamente tenho regras para viver. A primeira delas: Eu não acredito em nada que o governo me diz.

 George Carlin

Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça.Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem.
(...)

Lygia Fagundes Telles

ANNE BRIGMAN

The bubble (A bolha), 1906 
Escolha

Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas, prefiro
a dura liberdade.
Vôo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.

Opto pela loucura, com um grão
de realidade:
meu ímpeto explode o ponto,
arqueia a linha, traça contornos
para os romper.

Desculpem, mas devo dizer:
eu quero o delírio


 Lya Luft, 
FUNDADOR DO RAPPA

RIO - O compositor, baterista e ativista carioca Marcelo Yuka, fundador do Rappa, morreu, às 23h40 desta sexta-feira, aos 53 anos, em decorrência de um acidente vascular cerebral  (AVC) isquêmico. Ele estava internado no hospital Quinta D’Or, em São Cristóvão, e na madrugada do dia 4 de janeiro entrou em coma induzido. Marcelo Fontes do Nascimento Viana de Santa Ana, o Marcelo Yuka, teve uma trajetória baseada em lutas. Luta pela vida, após ser baleado nove vezes na rua José Higino, na Tijuca (quando saiu de seu carro para tentar proteger uma mulher que estava sendo assaltada), e ficar paraplégico, em novembro de 2000. Teve diversos problemas de saúde desde então — seu último disco, “Canções para depois do ódio”, foi lançado em janeiro de 2017 , quando o músico estava num quarto de hospital, onde passou boa parte do ano anterior.
(...)

O Globo, 19/01/2019, 09:13 hs

CIDando Mal

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa? O problema é que tenho de continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar este computador, se eu quiser dar descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles me causem horror. E horror é uma gentileza.
(...)

Charles Bukowski
    
finjo-me esfinge

meia lua meu amor
é tua

a outra metade
guardei-a para o compadre
que me beija a boca
quando chegas tarde
da casa da outra



Líria Porto

LUCROS DIAGNÓSTICOS

A psicopatologia é uma ferramenta essencial da psiquiatria clínica.Ou, pelo menos, deveria ser. No entanto, em neurotempos atuais ocorre o inverso. Não se fala e não se pesquisa psicopatologia. Só há transtornos mentais orgânicos, mesmo não sendo, e suas descrições encaixotadas e encaixotantes. A psicopatologia tornou-se a neuromania dos crâneos. O vazio epistemológico deixado é preenchido pela vontade de controle da psiquiatria cidobiológica. Tal vontade opera no cadastramento dos desvios de conduta, do mau comportamento social, do irracionalismo do eu e se traduz como diagnóstico-verdade, diagnóstico-essência. Entre tantas incertezas, proliferam axiomas eternos. Em tal contexto a loucura se alastra, não como experiência de abertura a novas semióticas, a novas terras aqui-mesmo, ao novo, à mudança, mas como esvaziamento do sentido da existência, fim de mundo, apocalipse, noite eterna. Basta conferir a alta cotação das religiões no mercado espiritual do medo. A ideação suicida, o próprio suicídio, ou a auto-flagelação de jovens, são apenas alguns sintomas da angústia inominável do tecido social em decomposição. Uma psiquiatria sem pesquisa psicopatológica não só cauciona o sofrimento psíquico como o produz em série e dele retira lucro, poder, prestígio, reverência e status social.

A.M.


P.S. - texto revisado e republicado

MULHERES DESARMADAS


Ninguém nega que a mulher tem o mesmo direito que o homem de usar armas para se defender. É verdade, no entanto, que desde os ancestrais até hoje os homens têm sido os donos da violência. Eles caçavam e faziam as guerras. As mulheres cultivavam a terra e estavam sempre mais perto do que cria a vida que do que das coisas que a destroem.

As mulheres sabem que tudo o que está relacionado à violência, começando por aquela levada a cabo contra a mulher, tem o selo da masculinidade. E é mais fácil encontrar um homem acariciando um revólver do que uma mulher. A indústria de armas, entretanto, não se contenta com o pouco apego da mulher aos instrumentos de morte. Na Índia, por exemplo, onde os estupros se multiplicaram nos últimos anos, uma dessas empresas teve a ideia de criar “a primeira arma para a mulher”, um revólver de apenas 500 gramas, “agradável e em um estojo de joalheria vermelho”, diz o anúncio. Recebeu o nome de uma jovem de 23 anos que em 2014 foi estuprada e torturada com uma barra de ferro e jogada de um ônibus em movimento.

“Estou horrorizada e indignada. Batizar uma pistola com o nome de uma vítima é um insulto à sua memória. O Estado está confessando seu fracasso na defesa das pessoas”, escreveu a hindu Binalakshmi Nepram, fundadora da Rede de Mulheres Sobreviventes de Armas. Segundo ela, “uma mulher armada tem 12 vezes mais chances de morrer a tiros”.

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro, católico e evangélico que usa mais o gesto de disparar uma arma com os dedos que o sinal da cruz, aprovou como primeira medida de seu mandato a ampliação da posse de armas aos cidadãos. Nada mais simbólico para um Governo que se manifesta sob o signo da agressividade e no qual as mulheres se sentem marginalizadas.
(...)


Juan Arias, El País, 18/01/2019, 13:02 hs

ERROLL GARNER - Misty

HORROR NO CEARÁ

Há uma guerra virtual dentro da guerra travada entre facções criminosas e o Governo estadual nas ruas do Ceará. Os criminosos se multiplicam em mensagens no WhatsApp e Facebook e amplificam a onda de pavor na qual Fortaleza e outras 50 cidades estão mergulhadas há duas semanas, quando atentados começaram a acontecer. Em contrapartida, o Estado tenta lançar mão de uma artilharia digital pesada para tentar rebater as ameaças. Passou inclusive a oferecer recompensa de até 30.000 reais por informações após uma denúncia feita por aplicativo levar a Secretaria Estadual da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) a um depósito clandestino com mais de cinco toneladas de explosivos.
Em vídeos, áudios e textos, os bandidos mostram como agem e mandam recados audaciosos à população e à alta cúpula da Polícia Militar cearense. “Agora a bagunça vai começar, é de com força”, debocha o membro de uma das facções enquanto filma um ônibus em chamas. “Uns toca fogo na prefeitura, uns toca fogo nos coisa lá dos policial, tá ligado?”, desafia outro, em reprodução das mensagens que mantém as incorreções ortográficas originais.
(...)

Bruno de Castro, El País, Fortaleza,17/01/2019, 22:13 hs

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Canção da vez primeira

Guardei-me para ti como um segredo
que eu mesma não desvendei:
há notas na minha viola
que não toquei,
há praias na minha vida
que não andei.

É preciso que me tomes
além do riso e do olhar
naquilo que não conheço
e adivinhei;
é preciso que me cantes
a canção do que serei
e me cries com teu gesto
que nem sonhei.


Lya Luft,
Até o Estado pseudo-popular confabulado pelo sr. Marx é essencialmente uma máquina para do alto governar as massas, através de uma minoria de intelectuais pretensiosos, que acham que sabem o que as pessoas querem mais do que elas mesmas.
(...)

Mikhail Bakunin

LOUI JOVER


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

ISSO NÃO MELHORA

(...)
O aumento da pobreza extrema da América Latina se explica, em boa medida, pela má evolução do Brasil, disparadamente o país mais populoso da região, que entre 2015 e 2017 viu a pobreza extrema saltar de 4% para 5,5% da sua população. “Embora em muitos países tenham ocorrido reduções ou estancamento da pobreza extrema [Paraguai, Colômbia, Costa Rica, Panamá, Chile e Equador], na hora de analisar a situação conjunta da região impacta o que acontece em países com muita população, como o Brasil”, explicou Xavier Mancero, chefe de estatísticas da CEPAL, nesta terça-feira na capital chilena.
(...)

Ignacio Faria/Rocio Montes,El País, México/Santiago de Chile, 16/01/2019, 12:44 hs
LINHAS PARA O MÉTODO DA DIFERENÇA EM PSIQUIATRIA CLÍNICA


É possível estabelecer algumas linhas (práticoteóricas) para o método da diferença em psiquiatria clínica. São elas. 1-Contextualizar o encontro com o paciente: onde? quando? com quem? por que? para que? 2- Considerar os afetos em jogo, incluindo os do paciente e do técnico. Não como algo mau-em-si ou bom-em-si, mas como uma positividade, o que move as condutas. Trata-se do desejo. 3- Estabelecer hipóteses diagnósticas conforme a chave semiológica "função versus essência". Fazer prevalecer a função terapêutica. 4- Adotar uma atitude expectante (ao modo fenomenológico) expandindo-a como percepção do imperceptível: a espreita. 5-Percutir os sintomas a partir da vivência que o paciente traz do sintoma. Ou seja, retirar o sintoma da grade biomédica (uma doença) e tratá-lo como modo de existência: "eu sou meu delírio".6-Tentar, na medida do possível, inverter com o paciente para além da empatia. Não sentir o que o outro sente (isso é impossível) mas sentir com o outro. Trata-se de um cuidado, mesmo nas situações mais adversas e estranhas. 7- Evitar a auto-identificação em papéis sociais contrários à expressão da diferença, e que estão contíguos ao de psiquiatra biológico. Não ser, pois, juiz, policial ou sacerdote, entre outros. 8-Conectando com o ítem 1, avaliar que forças institucionais fazem o paciente falar uma verdade que não é a dele. Criar condições para ele falar em seu próprio nome. 9- Usar o poder psiquiátrico como um contra-poder a favor da expressão do corpo singular. Um exemplo é o do paciente impregnado devido a prescrição errada de psicofármacos. A correção deve ser acompanhada de uma orientação técnica ao próprio paciente ou a familiares. 10- A subjetividade precede os sintomas ou os diagnósticos à la CID - 10. Ou seja, ninguém é bipolar mas é produzido bipolar. Tudo é produção, inclusive de doenças. 


A.M.

GILLES DELEUZE - A Dobra da Dobra

DESPERTAR

O telefone é um susto.
Do outro lado da linha
Alguém articula um bom-dia
rouco de pedra.
Engano
Eu não moro mais aqui.



Eudoro  Augusto
Quero cantar como os pássaros cantam, não se preocupar com quem ouve ou o que eles pensam.

Rumi

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

SMART DRUGS

Os olhos do advogado Waldemar Ribeiro Chaves — um jovem de ombros largos, queixo quadrado e os bíceps de um halterofilista — deixaram escapar um brilho de entusiasmo logo que ele começou a falar sobre o coquetel de comprimidos que toma diariamente, quatro vezes ao dia. São ao menos cinco pílulas, além de outros compostos em pó, que ele consome com água antes de iniciar a rotina de trabalho. Pílulas para, supostamente, melhorar a memória, afiar o raciocínio ou apurar a concentração: “Sem elas, jamais faria meu trabalho na velocidade em que faço hoje”, contou, enquanto organizava o arsenal sobre a mesa do escritório, uma sala com janelas amplas e vista para as ruas bem arborizadas do bairro de Pinheiros, região nobre de São Paulo.
(...)

Rafael Ciscati, Época, 15/01/2019, 17:46 hs

ZDISLAW BEKINSKI


A consciência exata dessa insônia,
a forma certa desse modo, o gesto
seco que rejeita essa necessidade
abjeta de ser quem não se é-

a aceitação completa da vontade
insuportável de querer o que
se quer, a sede obscena de tragar
o copo junto com a bebida- coisas

tão simples, que só pedem a paciência
sábia dos que aprenderam a se aturar,
a santa complacência de quem lambe

as próprias chagas e aprecia o gosto-
não por requinte de nojo, mas só
por nunca haver provado outro sabor.


Paulo Henriques Britto