domingo, 31 de março de 2013


Surpresa

Morto ficou na rua 
com um punhal no peito. 
Não o conhecia ninguém. 
Como tremia o farol, 
mãe! 
Como tremia o pequeno farol 
da rua! 

Era madrugada. Ninguém 
pôde assomar-se a seus olhos 
abertos ao duro ar. 

Que morto ficou na rua, 
que com um punhal no peito 
e que não o conhecia ninguém. 

Frederico Garcia Lorca

GOLPE DE 64

49 anos depois, o que mudou?


UTOPIAS REAIS

"Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes."

Paulo Freire

JOÃO DONATO - Nasci para bailar



NÃO ERA QUESTÃO DE ECONOMIA

"Nunca fui elegante. Minhas camisas eram todas desbotadas, encolhidas, surradas, e já tinham cinco ou seis anos. Minhas calças, a mesma coisa. Detestava as grandes lojas, detestava os vendedores, eles se faziam de superiores, pareciam conhecer o sentido da vida, tinham uma segurança que me faltava. Meus sapatos eram sempre velhos e estropiados, e eu detestava lojas de sapatos também. Nunca comprava nada de novo, a menos que as minhas coisas já estivessem completamente inutilizadas - automóveis inclusive. Não era questão de economia; é que eu não era tolerava ser um comprador na dependência dos vendedores, aqueles caras tão altivos e superiores. Além disso, eu perdia tempo, um tempo em que eu podia muito bem estar de papo pro ar, bebendo."

Charles Bukowski

VLADIMIR VOLEGOV


ÉTICA DO COLETIVO

Hoje,  a psiquiatria biológica (a  que usa o cérebro como objeto quase exclusivo de pesquisa)  organiza-se como segmento técnico-profissional devoto de uma espécie de  "fundamentalismo orgânico-cerebral". Seu discurso atinge em cheio os poros da sociedade civil, fazendo do cidadão-homem-comum-paciente um repassador de neuro-clichês ou mero repetidor de ordens implícitas. Sob tais condições,  afirmar uma clínica da diferença é criar uma  ética do coletivo, ou seja, das multiplicidades. Dito de outro modo, é ir na contra-corrente de um modo de pensar hegemônico e totalitário.

A.M.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Manoel de Barros

KEN ROBINSON e o TDAH



ESTRADAS...

"Qual é a sua estrada, homem? - a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada... Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Como, onde, por quê?"

Jack Kerouac

JOÃO BOSCO - Perfeição



"Faço análise há trinta anos e a única frase inteligente que já ouvi do meu analista é a de que preciso de tratamento".

Woody Allen
PSIQUIATRIA DAS MULTIPLICIDADES

Sob as condições institucionais e epistemológicas da psiquiatria Estabelecida, não há "lugar"para a diferença. Ou seja, pensar outras formas de trabalhar com o paciente implica em sair da órbita do método científico (sem desprezá-lo...) e traçar linhas rizomáticas com outros saberes. Falamos, não de outra clínica, mas de outras clínicas, multiplicidades em ato.Desabam os especialismos. No entanto, será ainda possível  'fazer" psiquiatria? Sim, uma psiquiatria coletiva. A produção como desejo, o desejo como produção, ao modo de Deleuze-Guattari. Na psicopatologia clínica,  há um caldeirão de somatoses à espera do psiquiatra:  retardos mentais com crises convulsivas, epilepsias, certas psicoses agudas, depressões profundas, demências graves com agitação psicomotora, tumores cerebrais, outras afeções cerebrais, etc, enfim, o famoso capítulo da CID 10, ítem F, "Transtornos mentais orgânicos" expresso em complicações mentais de toda ordem. Elas demandam (não só, claro...) um passador qualificado de remédios químicos. Por que não um psiquiatra?

A.M.

sábado, 30 de março de 2013

TRANSTORNADOS PELO CAPITAL



LONGE DO EQUILÍBRIO

"A felicidade real sempre parece bastante sórdida em comparação com as supercompensações do sofrimento. E, por certo, a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade. E o fato de se estar satisfeito nada tem da fascinação de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate contra a tentação, ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa."

Aldous Huxley

WILLIAM BLAKE

Jacob, s Ladder to Heaven


Nada, Esta Espuma

Por afrontamento do desejo 
insisto na maldade de escrever 
mas não sei se a deusa sobe à superfície 
ou apenas me castiga com seus uivos. 
Da amurada deste barco 
quero tanto os seios da sereia.

Ana Cristina César

SARTRE, FOUCAULT e DELEUZE

Máquinas Intempestivas


A INDIFERENÇA DA PSIQUIATRIA BIOLÓGICA

(...) ”Eu sou  meu  delírio”, “Eu sou minha tontura”, etc. As linhas singulares estão  embutidas e só se mostram ao exame quando as  relações com o mundo (o que  inclui o próprio  eu) acontecem e se  firmam como referências de verdade. O paciente diagnosticado pela psiquiatria biológica traça linhas singulares na esteira do diagnóstico e/ou dos signos que remetem a esse  diagnóstico. Linhas  singulares são  modos de ser que se expressam  no desempenho de papéis sociais. Sendo assim, o papel social “portador de transtorno mental” acaba sendo um modo de subjetivação exclusivo, capturando linhas singulares e as desfigurando na pessoa do doente. Apesar disso, não queremos colocá-las como o “lado não doente” do paciente. Elas constituem, sim, o paciente, elas são a materialidade do paciente em termos de processo subjetivo, devir, acontecimento, o que implica numa ótica de outra natureza em relação ao fenômeno da loucura. Mudança de perspectiva sobre a saúde mental. A psiquiatria Estabelecida estanca nesse  ponto porque não dispõe de instrumentos conceituais para pensar e fazer a diferença. Nem é esse o seu mister. Além  disso,  compromissos morais  e políticos  lhe  travam  a percepção do  Outro.
(...)
A.M.

ENCURRALADO - S. Spielberg


ENCONTRO SEIS DE ABRIL - SÁBADO-10 HORAS
CLÍNICA ETHOS - SALA VALTER RODRIGUES - VITÓRIA DA CONQUISTA
ANTONIO A. DE MOURA
A "DIFERENÇA" NA PSIQUIATRIA
ENTRADA FRANCA

A REALIDADE É DOIDA VARRIDA - Marcos Fayad



"Não gosto de lágrimas, ainda em olhos de mulheres, sejam ou não bonitas; são confissões de fraqueza, e eu nasci com tédio aos fracos. Ao cabo, as mulheres são menos fracas que os homens,ou mais pacientes, mais capazes de sofrer a dor e a adversidade..."

Machado de Assis

Que é isto que aperta meu peito?
Minha alma quer sair para o infinito ou a alma do mundo quer entrar em meu coração?

R. Tagore

PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE

Oficiais da Coréia do Norte em protesto na manhã de ontem

sexta-feira, 29 de março de 2013

COMO ESCONDER UM ELEFANTE

"Até para Freud o corpo era a morada do diabo. Nele residiam as paixões, que se opunham à razão luminosa e benigna. Com a revelação freudiana ele se transforma no oposto. Porque ela deixa evidente um fato. Podemos nos enganar sobre nossos desejos mas não quanto à forma que nos sentimos.
O sentir-se bem, mal, pesado, leve etc, passa a desempenhar o papel de referência de verdade porque é em torno dele que se reconstrói o estar no mundo do analisando; A eficácia dessa estratégia verificada na prática corrói os pilares que sustentam a hegemonia da razão consciente. Na sua queda, ela leva consigo o fundamento ético da dominação de classe (baseada na classe dominante "esclarecida" conduzindo os que vivem na escuridão).
Esta descoberta radicalmente inovadora é escondida por uma manobra inteligentíssima como quase tudo o que devemos a Freud, ou seja, sua recusa em considerar uma psicologia psicanalítica, mantendo a psicanálise como um tratamento e uma psicopatologia que consegue transformar o virulento inconsciente em um animal de laboratório, ou melhor, de divã.
Assim o elefante desaparece num passe de mágica. O diálogo não se dá entre a psicanálise e a civilização mas entre o analista e seus louquinhos."

André Gaiarsa

GUSTAVE COURBET



Mulher Nua com Cão


Um livro de poesia na gaveta não adianta nada,
lugar de poesia é na calçada...

Sérgio Sampaio

FELIZ ANIVERSÁRIO, SALVADOR

464 aninhos

DIFERENÇA E PSIQUIATRIA

A diferença na psiquiatria acontece instrumentalizada pelo conceito de rizoma. Deleuze-Guattari criaram condições teóricas para um atravessamento de mundos.  E se tudo se conjuga na clínica, há que afirmar o conceito de loucura "antes"do de  transtorno mental. Não é fácil. Os códigos sociais traçam linhas identitárias referentes a qualquer fluxo que escorra ou que vaze fora do controle. Sob as condições do "capitalismo aparentemente vencedor", anuncia-se a verdade da razão técnica. Quem discorda? Quem arrisca?

A.M.

MAS SEMPRE EXISTE ALGUÉM QUE SE SENTE REPRESENTADO POR FELICIANO




Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco, 
Este ambiente me causa repugnância... 
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia 
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas 
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los, 
E há-de deixar-me apenas os cabelos, 
Na frialdade inorgânica da terra!

Augusto dos Anjos

ESTAMIRA


A produção do sentido


PELAS SENDAS DE MALDOROR

(...)Queira o céu que o leitor, tornado audaz e momentaneamente feroz à semelhança do que lê, encontre, sem se desorientar, o seu caminho abrupto e selvagem através dos lodaçais desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno; pois que, a não ser que utilize na sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sua desconfiança, as emanações mortais deste livro irão embeber-lhe a alma, como a água ao açúcar. Não convém que toda a gente leia as páginas que se seguem; só alguns hão-de saborear sem perigo este fruto amargo. Por consequência, ó alma tímida, antes de penetrares mais longe em tais domínios inexplorados, dirige os teus passos para trás e não para a frente. Ouve bem o que te digo: dirige os teus passos para trás e não para a frente, como os olhos de um filho que se afasta respeitosamente da contemplação augusta do rosto materno; ou, antes, como a visão ao longe de friorentos grous em grande meditação, que, em tempo de Inverno, voam poderosamente através do silêncio, com todas as velas tensas, para um ponto determinado do horizonte, donde parte repentinamente um vento estranho e forte, precursor da tempestade(...)

Lautréamont

lar doce lar

Minha pátria é minha infância
Por isso vivo no exílio.

Cacaso


MAQUIAVÉLICAS

"Tendo o príncipe necessidade de saber usar bem a natureza do animal, deve escolher a raposa e o leão, pois o leão não sabe se defender das armadilhas e a raposa não sabe se defender da força bruta dos lobos. Portanto é preciso ser raposa, para conhecer as armadilhas e leão, para aterrorizar os lobos."

Maquiavel

ÓDIO À DIFERENÇA

"Há bastante deslealdade, ódio, violência, absurdo no ser humano comum para suprir qualquer exército em qualquer dia. E o melhor no assassinato são aqueles que pregam contra ele. E o melhor no ódio são aqueles que pregam amor, e o melhor na guerra, são aqueles que pregam a paz. Aqueles que pregam Deus precisam de Deus, aqueles que pregam paz não têm paz, aqueles que pregam amor não têm amor. Cuidado com os pregadores, cuidado com os sabedores. Cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros. Cuidado com aqueles que detestam pobreza ou que são orgulhosos dela. Cuidado com aqueles que elogiam fácil, porque eles precisam de elogios de volta. Cuidado com aqueles que censuram fácil, eles têm medo daquilo que não conhecem. Cuidado com aqueles que procuram constantes multidões, eles não são nada sozinhos. Cuidado com o homem comum, com a mulher comum, cuidado com o amor deles. O amor deles é comum, procura o comum, mas há genialidade em seu ódio, há bastante genialidade em seu ódio para matar você, para matar qualquer um. Sem esperar solidão, sem entender solidão eles tentarão destruir qualquer coisa que seja diferente deles mesmos."

Charles Bukowsk

quinta-feira, 28 de março de 2013

CHUVA NO NORDESTE...



O FÁRMACO-ROSTO

A clínica psicopatológica tornou-se a clínica psicofarmacológica. Isso não é um mal em si, mas um fato da cultura médica que incide sobre o trabalho com o paciente. Em termos  empíricos, o próprio  paciente torna-se um produto de forças institucionais; elas fabricam a clínica e por extensão o paciente. Tais forças  se explicitam na  psiquiatria,  são  a  psiquiatria. No espaço do atendimento, do exame, do encontro com o paciente, elas se concretizam como rostidade farmacológica. É um regime de aparência corporal, semiótica, que traça uma linha terapêutica antes mesmo de começar o tratamento. As psicoses, por excelência, são  objeto desse processo de rostificação. A cena extremada,  o paciente  impregnado por neurolépticos (alterações  extra-piramidais)  e outros signos menos perceptíveis, compõem a visibilidade do espaço clínico. Assim, fazer psiquiatria nos dias atuais tem  a opção farmacológica como palavra de ordem: prescreva mais e mais remédios químicos. Isso não  vale apenas para os que estão científico  e juridicamente autorizados a  fazê-lo, mas para todos os que lidam com a loucura. Nosso foco pode ser a chamada “equipe técnica” em saúde mental. Todos medicam,  todos estão medicados, medicalizados numa produção subjetiva  inconsciente e incessante. Isso é de uma tal obviedade que se esconde em cotidianos naturalizados. Uma espécie de ordem  programada se impõe como desejo psiquiátrico único e totalizante (...)

A.M.

DA SERVIDÃO VOLUNTÁRIA



Farelos do poder


TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.


Carlos Drummond de Andrade

FRANCISCO GOYA

La lucha en la Venta Nueva


"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido."

H.P. Lovecraft

quarta-feira, 27 de março de 2013

ALCEU VALENÇA e ZIZI POSSI



Manifestante é preso após acusar Marco Feliciano de racista
Deputado que preside Comissão de Direitos Humanos suspendeu a sessão e fechou para manifestantes

Evandro Éboli, O Globo

Um manifestante foi preso na tarde desta quarta-feira durante audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. A ordem de prisão foi dada pelo próprio presidente da comissão, deputado Marco Feliciano (PSC-SP), após ter sido chamado de racista pelo manifestante. A polícia agiu em seguida e deteve Marcelo Régis, que participava dos protestos contra Feliciano.
(...)

VIOLÊNCIAS DELICADAS

(...) (...) Concebemos  a psiquiatria  antes de tudo como uma  instituição. É deste modo que ela empreende a pesquisa e o exercício da clínica, minorando sofrimentos e ajudando sujeitos a se reorganizarem psiquicamente. Mas é  também deste  modo que ela desenvolve e exerce práticas de segregação e violência. Por isso não é recomendável substancializá-la como sendo uma coisa nem  considerá-la possuidora de uma “ natureza”. Ela é, isto sim,  processo histórico-social inserido em formações  subjetivas concretas. Para  ser possível  enxergar  deste  modo, partimos de outro lugar do pensamento, ainda que estejamos no mesmo lugar, que é o da clinica  psicopatológica. Iremos ao que está   fora das coordenadas da  razão, o Aberto, para daí extrair acontecimentos, mesmo os menores, e, principalmente, quase imperceptíveis. Assim se  descobrem  mundos  subjetivos insupeitos de existir, e que produzem  realidades radicalmente  distintas  das  vigentes. É  o universo da diferença.
(...)
A.M.

WALTER BALESTRA


terça-feira, 26 de março de 2013


Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei...
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos.

Ana Cristina César


Espera por cirurgia de redução de estômago no SUS chega a 12 anos
G-1

Na semana passada, o Ministério da Saúde ampliou o acesso dos cidadãos à cirurgia de redução de estômago. Acabou o limite de idade, e ela poderá ser feita já a partir dos 16 anos. Mas, na prática, o tempo de espera pela chamada cirurgia bariátrica no Sistema Único de Saúde pode passar de uma década.

Na vida dos muito obesos, não há números pequenos. Eles já são mais de quatro milhões no país. A espera pela cirurgia de redução de estômago pelo SUS demora de três a 12 anos.
(...)

segunda-feira, 25 de março de 2013


"Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno."

Antonin Artaud

BLADE RUNNER



PENSAMENTO RIZOMÁTICO

(...) (...) O pensamento não é arborescente e o cérebro não é uma matéria enraizada nem ramificada. O que se chama equivocadamente de "dendritos" não assegura uma conexão dos neurônios num tecido contínuo. A descontinuidade das células, o papel dos axônios, o funcionamento das sinapses, a existência de microfendas sinápticas, o salto de cada mensagem por cima destas fendas fazem do cérebro uma multiplicidade que, no seu plano de consistência ou em sua articulação, banha todo um sistema, probalístico incerto, un certain nervous system. Muitas pessoas têm uma árvore plantada na cabeça, mas o próprio cérebro é muito mais uma erva do que uma árvore. 
(...)
G. Deleuze e F. Guattari - in Mil Platôs

domingo, 24 de março de 2013

DESEJAR...



A DIREITA PSIQUIÁTRICA

Hoje,  a psiquiatria biológica (a  que usa o cérebro como  objeto quase exclusivo de pesquisa)  organiza-se  como   segmento técnico-profissional   devoto  de  uma  espécie de  "fundamentalismo orgânico-cerebral". Seu discurso atinge em cheio os poros da sociedade civil, fazendo do cidadão-homem-comum-paciente um  repassador de neuro-clichês ou  mero repetidor de ordens implícitas. Sob tais condições,  afirmar uma clínica da diferença é criar uma  ética do coletivo, ou seja, das multiplicidades.  Não é fácil... 

A.M. 

ANA CAÑAS - Codinome beijaflor


O QUE É PENSAR?

O pensar que não nos leva a lado nenhum leva-nos
a todo lado; todo o outro pensar é feito sobre
trilhos e, por muito longo que seja o percurso,
no fim ergue-se sempre (...) a rotunda de recolha.
No fim há sempre uma lanterna vermelha que diz:
Pare!

Henry Miller

ROMEU FERREIRA


SEM PALAVRAS

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto
Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.

A.Artaud

WILLIAM TURNER


"Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga."

G. Deleuze

ELIS REGINA - Cais


as   mulheres
são melhores

A.M.

GRANDE BUKOWSKI!!!

"Que sentimentalismo barato. Mas o rosto dela, de Tina, parecia mais de 10 mil filmes de felicidade. Nunca havia visto coisa igual. Tive que me munir de uma couraça de ferro e apertar o estômago, os pulmões e os olhos pra não chorar."

Charles Bukowski

TRIP

"Muitos foram os que desceram pelo abismo do inconsciente sem conseguir voltar. Os manicômios são sua moradias, pois deles são o reino da insensatez. Outros - muitos poucos, apenas os escolhidos - seriam capazes de contar o que há por trás da loucura..."

H.P.Lovecraft

QUADRILHA - C.D. de ANDRADE


O TRABALHO DA CLÍNICA

 (...) (...) Estar  com o paciente é entrar  em contato  com os  fluxos  caóticos da  subjetividade. Podemos  chamá-los de loucura no intuito de borrar os limites  entre o patológico  e o não patológico. Por que isso é necessário?  É que sob a ótica da  “diferença”, os  conceitos se  interpenetram neste sentido - “loucura – subjetividade - transtorno mental” e não  “transtorno mental – subjetividade – loucura” como reza  a concepção  biomédica. Colocar  a  loucura como primado da condição psicopatológica implica numa atitude de aceitação incondicional do paciente como subjetividade que vem de fora, do mundo, do cosmos,  do universo. A loucura é o nosso operador conceitual  na  medida em que  não se  detém em limites  fixados  pela  idéia  de  razão. A psicopatologia prescinde  da  razão como  princípio  norteador, usando-a como linha molar, endurecida, conforme vimos. A  razão  não  é, pois, um mal  em si. Ela é sintetizada  na  produção  desejante como  um  elemento  a mais. Trata-se de um agenciamento de  desejo . O trabalho  da  clínica  é complexo porque  se  relaciona com a não-clínica, daí com a crítica. O conceito de subjetividade do paciente está ligado diretamente à subjetividade dos que estão à sua volta. É neste sentido  que a clínica  é um sistema  aberto inserida em processos institucionais que a atravessam  todo  o tempo. Assim, os  processos  subjetivos  são  fragmentários e fragmentados,  conectando-se com as  linhas  de  um universo virtual. Isso  não depende  da orientação teórica  adotada, mas   de   critérios  ético-políticos inscritos  na  natureza  do Encontro. Uma  subjetividade a-subjetiva  significa  antes de tudo que  ela não está fechada sobre si, ainda que em expressões  patológicas   extremas , como  na  catatonia, no autismo, etc. A-subjetivo  implica em se ver o portador  de transtorno mental como “portando” um mundo, este sim, um transtorno não necessariamente bom ou mau, mas como um Encontro  gerador de  estados  de potência  ou impotência.

A.M.

"A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos."

Marcel Proust

MARIANA AYDAR - Araçá Azul


sábado, 23 de março de 2013

VIOLÊNCIA DOS SIGNOS

"É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós."

Franz Kafka

ISSO FUNCIONA EM TODA PARTE

O desejo maquina entre os corpos e nos corpos. Exposto à luz do dia, mesmo à meia noite, ele  é produção incessante, formigamento nem sempre visível ; "o que não tem governo nem nunca terá". Uma criança. Por que a metamorfose? Não há porque, não há de que, aí onde a gratuidade empurra a existência por e para linhas insólitas.A morte é o morrer, verbo infinito, mesmo que à volta se fale de passados ressentidos  e/ou futuros impossíveis.Como desejar? Não é fácil, mesmo que pareça. Antes de tudo as sociedades modernas fizeram e fazem do consumo a produção de territórios estáveis onde alguém se reconhece: esse sou eu. No entanto, tal reconhecimento de si é tributário de forças sociais que, de longe, fabricam o eu em seus estratos mais íntimos: meu mundo interior,meu ego, minha subjetividade, meu cérebro, minha profissão, meu tudo. A propriedade e a forma das coisas substituem o desejo como produção. Ninguém escuta o que não quer. Prossegue o empreendimento de redução das multiplicidades a afetos encaixotados, represados e “como dói, mas como é bom”. Isso funciona em toda parte onde vive a chamada “pessoa humana”. Mas, onde anda o desejo? Ele costuma ser trocado por dinheiro e transcendências astutas: a Esquerda. Em contrapartida, as novas gerações aceitam o mundo, o melhor dos possíveis e para o qual não há fora, o fora, nem sequer é possível dar o fora. Trata-se de uma espécie de paralisia coletiva do pensamento. Este se revela como técnico-cognição: isso é um celular, esta é uma lição pedagógico-terapêutica-comportamental: “busque não pensar em morrer”. As práticas de vida norteiam-se pelo pensamento da representação: identidades petrificadas, especialismos. Um desejo escorre e explode (falemos do saber do paciente) em redes sinápticas (ou até em redes internéticas) enquanto o deus-capital dita normas implícitas do bom viver. E o mundo rasteja em busca da salvação.
(...)
A.M.

WILLIAM BLAKE




O QUE É BIOPODER? 

"O biopoder, dentro da narrativa do poder em Foucault, pode ser apresentado a partir da comparação com o poder soberano. Dessa maneira, a “velha potência da morte em que se simbolizava o poder soberano” será agora recoberta pela “administração dos corpos [poder disciplinar] e pela gestão calculista da vida [biopoder]” (FOUCAULT, 2007b, p. 152). Nesse cenário, pois, o fato de viver, ou seja, a vida não representará mais esse lugar inacessível e veremos que o biológico passa a ocupar um lugar central na problemática política. Não mais sobre a ameaça de morte veremos o exercício de poder alicerçado, como é o exemplo do poder soberano. Veremos erguer-se o império do biopoder sobre uma instrumentalidade que se encarrega não da morte, mas que se ocupa de conhecer, organizar e controlar a vida.

A análise de Ana Paula Repolês Torres, que toma como ponto de partida o caráter positivo do poder (como produção), em complementação à função negativa (como repressão), sintetiza o itinerário no qual se verifica a articulação entre as características positivas do poder disciplinar (tornar os corpos dóceis e úteis) e do biopoder (como estratégia de governo de uma população). Senão, vejamos:

[...] Foucault passa a considerar o poder como algo positivo, na medida em que o mesmo age sobre indivíduos livres que possuem um poder de transformação, indivíduos que se deixam incitar, seduzir, persuadir, intervindo sobre os corpos de modo a maximizar suas possibilidades, seja por meio da formação do sujeito como individualidade, o que se dá através da sujeição, da formação do homem-máquina pelos mecanismos disciplinares, utilizando-se técnicas de controle detalhado e minucioso que, articuladas a um saber, visam tornar os corpos dóceis e úteis; seja por meio do governo de uma população, da “governamentabilidade”, enfatizando-se aqui a preservação do homem enquanto espécie, ou seja, a ação do governo passa a ser sobre uma pluralidade, entendida esta enquanto massa global, e a intervenção [sic] volta-se para o controle das regularidades, dos nascimentos, das mortes, das epidemias [...]. (TORRES, 2007)

Enquanto o poder disciplinar, como referimos, teve papel fundamental – levando-se em conta o foco sobre o corpo do louco, do delinqüente, da criança aprendiz – para essa tarefa de isolamento e individualização; o biopoder dirigirá seus cuidados aos fenômenos ligados à população, à espécie humana vista como conjunto. O intuito desse cuidado é caracterizado pela pretensão de regulação não mais do gesto que o corpo do indivíduo deve produzir, mas sobre questões como a do nascimento, da mortalidade, a duração (a média do tempo) de vida das populações, enfim: aos fenômenos coletivos mais relevantes para assegurar a existência, a manutenção, a saúde desse corpo social. Isso não significa, contudo, uma substituição ou desativação do poder disciplinar.

O biopoder é uma instrumentalidade que se soma à disciplina, havendo algo como uma sobreposição, uma complementação de táticas. Como nos lembra Machado, a tematização do Estado adquire, a partir de então, uma importância que não existia em Foucault e, por conseguinte, abriu campo para as investigações que se debruçariam sobre práticas de gestão de governo ou aquilo que o filósofo francês denominou “governamentalidade”. Essa análise identificará que a governamentalidade tem como objeto de conhecimento a população, como saber mais relevante a economia e como mecanismo básico de atuação os “dispositivos de segurança”. Em se traçando um novo paralelo com as ciências humanas, levando em conta a forma do biopoder, abre-se espaço para vislumbrar o seguinte:

Se as ciências humanas têm como condição de possibilidade política a disciplina, o momento atual da análise [genealógica de Foucault] parece sugerir que o ‘bio-poder’, a ‘regulação’, os ‘dispositivos de segurança’ estão na origem de ciências sociais como a estatística, a demografia, a economia, a geografia, etc. (MACHADO, 2007, p. XXII-XXIII)

No primeiro volume de História da Sexualidade, bem como em Vigiar e Punir, podemos observar que o desenvolvimento e a proliferação das diversas categorias de anomalias no interior do corpo social – poderíamos pensar na figura do delinqüente aqui – estão relacionadas (e isso é fundamental!) às tecnologias de poder e saber, que delas não só deveriam se ocupar, como, mais importante, eliminar. Em outros termos, podemos dizer que a “expansão da normalização funciona através da criação de anormalidades que ele deve então tratar e reformar. Ao identificar cientificamente as anomalias, as tecnologias do biopoder estão na posição perfeita para supervisioná-las e administrá-las” (DREYFUS e RABINOW, 1995, p. 214). Há um deslocamento onde se emprende o movimento que leva uma questão – permaneçamos no caso do crime e do criminoso – afeta ao campo do discurso político para o campo da linguagem neutra da ciência, alcançando o lugar da problemática técnica e, conseqüentemente, o domínio de intervenção do especialista (DREYFUS e RABINOW, 1995, p. 214).

O biopoder, assim, pode expandir seus domínios sob o slogan da saúde – tornar as pessoas saudáveis –, da proteção, da securitização da vida (a arte de calcular, prever os riscos e os acidentes). De um possível fracasso, importante lembrar, na efetivação desses objetivos de segurança, de proteção da vida, não decorre um destituição de ingerência, um obstáculo ao exercício de controles sobre a população. Tal fracasso poderia sim representar “uma prova da necessidade de reforçar e estender o poder dos especialistas”, de sua intervenção, ou seja, talvez o campo de sua discricionariedade não tenha sido razoável, suficiente à prevenção dos riscos que afligem o corpo social. Em suma: havia “a promessa da normalização e da felicidade através da ciência e da lei. Seu fracasso justificava a necessidade de reforçá-las” (DREYFUS e RABINOW, 1995, p. 215)."
(...)
Tiago Cardoso in A arte de governar na filosofia de Michel Foucault




O Jardim do Amor 

Tendo ingressado no Jardim do Amor,
Deparei-me com algo inusitado:
haviam construído uma Capela
No meio, onde eu brincava no gramado.

E ela estava fechada; "Tu não podes"
Era a legenda sobre a porta escrita.
Voltei-me então para o Jardim do Amor,
Onde crescia tanta flor bonita,

E recoberto o vi de sepulturas
E lousas sepulcrais, em vez de flores;
E em vestes negras e hediondas os padres faziam rondas,
E atavam com nó espinhoso meus desejos e meu gozo.

William Blake

ERASMO CARLOS - Panorama Ecológico



Preferência pela ilusão

Quando comunicou ao povo que a Inglaterra entraria em guerra com a Alemanha, Winston Churchill fez um discurso pedindo “sangue, suor e lágrimas” para conseguirem a vitória. Se estivesse no Brasil diria: “já estamos ganhando a guerra.”

Esta é a impressão que senti ao ouvir os comentários do governo federal sobre o Índice de Desenvolvimento Humano de 2012, que anualmente o PNUD/NNUU estima e apresenta como indicador do desenvolvimento humano de cada país e sua respectiva posição no conjunto das nações. Apesar de sermos a 6ª economia no mundo, somos a 88ª no desenvolvimento humano.

Mas em vez de reconhecer o atraso e fazer um desafio a todos os brasileiros para superarmos esta situação, o governo preferiu falar que havia um erro de cálculo no índice. Isto porque o PNUD tomou por base para todos os países dados do ano de 2005, e em 2011 o Brasil tinha 7,4 anos de escolaridade, não mais os 7,2 anos de 2005. É uma pena que o governo não perceba que 7,4 é uma situação vergonhosa.

Além disso, se o IDH considerasse a qualidade da educação e como ela se distribui por classe social, nossa posição pioraria no cenário mundial, até porque nossa qualidade é baixa. Se os ricos têm 13 anos de escolaridade, para a média ser 7,4 anos, os pobres têm que ter escolaridade de apenas 3 ou 4 anos.

Não há justificativa para o governo esconder a realidade por dois motivos: a culpa é histórica e a situação é muito mais grave. Nosso Índice de Desenvolvimento Humano seria muito pior se em seu cálculo fossem considerados, por exemplo, morte por violência, tempo perdido e qualidade no transporte urbano, concentração da renda, degradação urbana e outros problemas sociais que são crônicos e comemorados por não serem ainda piores.
(...)
Cristovam Buarque

PINA BAUSCH - Lilies of the valley



Seios nus na internet — e a jovem da Tunísia é condenada à morte por clérigo muçulmano. A família resolveu interná-la num hospício

Amina, em uma das fotos postadas, diz: "meu corpo pertence a mim e não é a fonte da honra de ninguém"

Ela se chama Amina, tem 19 anos de idade, nasceu e vive na Tunísia, país que, teoricamente, tornou-se uma democracia após a chamada “Primavera Árabe” que derrubou a ditadura do eterno presidente Zine el-Abidine Ben AliAmina, em janeiro de 2011.

Mas Amina cometeu um pecado mortal em uma sociedade islâmica — e por essa razão foi condenada à morte por um sacerdote islâmico, enquanto a família tomou suas providências: rapidamente internou-a em uma instituição psiquiátrica em Túnis, capital do país.

O pecado: a jovem postou fotos suas de seios de fora na web page que ela criou, na Tunísia, para o grupo feminista radical ucraniano Femen, constituído por ativistas que se desnudam em público por diferentes causas, sempre protestando contra algo. Uma das fotos mostra Amina lendo e fumando um cigarro, tendo no peito a inscrição em árabe da frase “meu corpo pertence a mim e não é a fonte da honra de ninguém”. Em outra foto, ela aparece levantando os  dedos médios para a câmera tendo no corpo a inscrição, em inglês: “F…-se a moral de vocês”.
(...)

Coluna do Ricardo Setti -22.03.2013 às 19:43

sexta-feira, 22 de março de 2013


ÉTICA DO GUERREIRO

"A autoconfiança do Guerreiro não é a autoconfiança do homem comum. O homem comum procura certeza aos olhos do observador e chama a isso autoconfiança. O Guerreiro procura impecabilidade aos próprios olhos e chama a isso humildade. O homem comum está preso aos seus semelhantes, enquanto o Guerreiro só está preso ao infinito."

Carlos Castañeda (frases de seu mestre Juan Matus)

DENIS NUÑEZ


CAPSOLÂNDIAS ELEGANTES

Os Caps vieram para substituir os hospícios, ou, falando como a Academia, o modelo hospitalocêntrico. No entanto, hoje, em geral, o que se vê são os Caps funcionarem como prolongamento e reprodução adocicada dos hospícios. Toda uma mentalidade manicomial abastece neurônios cansados. Afora as dificuldades específicas de cada Serviço, de cada equipe técnica (visão psiquiátrica do universo, carência de técnicos bem preparados, baixos salários, descompromisso dos poderes públicos, etc) há um mal estar que atravessa e constitui as formas subjetivas em jogo: o desprezo ético (nem sempre explícito) pelo paciente e o pavor  (inconfessável) à loucura. 

A.M.

Uma Criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira do abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto arealum vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto,
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida;
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a morte; eu direi que é a vida.

Machado de Assis

MANOEL DE BARROS

O poeta do ínfimo


EXTREMOS

"O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão mais inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão."

Clarice Lispector

POR QUE?


A DIFERENÇA AFIRMADA

O problema não é ser isto ou aquilo no homem, mas antes o de um devir inumano, de um devir universal inumano, de um devir universal animal: não tomar-se por um animal, mas desfazer a organização humana do corpo, atravessar tal ou qual zona de intensidade do corpo, cada um descobrindo as suas próprias zonas, e os grupos, as populações as espécies que o habitam. Por que não teria direito de falar da medicina sem ser médico, já que falo dela como um cão?Por que razão não falar da droga sem ser drogado, se falo dela como um passarinho? E por que eu não inventaria um discurso sobre alguma coisa, ainda que esse discurso seja totalmente irreal e artificial, sem que me peçam meus títulos para tal? A droga  às vezes faz delirar, por que eu não haveria delirar sobre a droga?
(...)
G. Deleuze