sábado, 30 de junho de 2018

RESPONSABILIDADE INVERTIDA

O Brasil vive um momento particularmente instrutivo. Sem rodeios ou meias palavras, parece ter chegado o tempo de se pôr as cartas na mesa: a fatura da inconsequência das elites políticas e econômicas será, uma vez mais, quitada pelo povo. A inversão do ônus da responsabilidade de ações que resultaram na degradação das instituições no país está em curso.

Impulsionada por essa tendência, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou a PL 580/2015, que altera a lei de execução penal para que os/as encarcerados/as passem a ressarcir o Estado pela sua manutenção no sistema prisional. Na justificativa da proposta, sinaliza-se que a transferência dos custos do cárcere para os/as presos/as abre espaço para o investimento em outras áreas estratégicas. Nas declarações de muitos senadores/as, está a preocupação de se evitar que o erário seja onerado com a manutenção das “mordomias” patentes nos presídios brasileiros.

Essa pauta está alinhada à uma agenda governamental que trabalha por meio de ações truculentas. Não nos deixa mentir a intervenção militar deflagrada no Rio de Janeiro em fevereiro desse ano. O desfile de tanques de guerra; a humilhação das revistas e o toque de recolher impostos às periferias negras da cidade foram as cenas televisionadas para se sinalizar a firmeza do golpe. Os resultados mais palpáveis desse espetáculo bélico são as pilhas de corpos desumanamente descartados, como no caso que deixou a Maré de luto pelo assassinato de Marcus Vinicius da Silva no último dia 20. Com o slogan do controle e do extermínio, cobra-se o pedágio de quem mais sofreu com as artilharias pesadas da alardeada corrupção.
(...)

Ana Flauzina, El País, 29/06/2018, 15:03 hs
Amor à primeira vista

Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.

Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?

Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.

Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.

Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.

Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?

Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.

Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.


Wislawa Szymborska (tradução de Julio Sousa Gomes)

NELSON E O FUTEBOL

“Garrincha não acredita em ninguém e só acredita em si mesmo. Para ele, Pau Grande, a terra onde nasceu, vale mais que toda Europa. Com esse estado da alma, plantou-se em campo para enfrentar os russos. Outros poderiam tremer. Ele jamais. Perante a plateia internacional, era quase um menino. Tinha essa humilhante sanidade mental do garoto que, em Pau Grande, na sua cordialidade indiscriminada, cumprimenta até cachorro.”

“A realeza é, acima de tudo, um estado de alma. Pelé se sente um Rei, da cabeça aos pés! Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. Sua cabeça, mão e ombros, sustentam coroa, cetro e um manto invisíveis. Dir-se-ia um Rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, ponham-no em qualquer lugar e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte ao redor.”

“Diante do defunto, diante do ser transfigurado verifiquei o seguinte: não há morto canastrão. Vestido de noivo, com sapatos engraxados, ele tinha a face, o perfil de um grande ator. Era um perna de pau, apenas um perna de pau. Mas no caixão, apresentava uma nobre e taciturna máscara cesariana. Cheguei a seguinte conclusão: todo morto é um César.”

“A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural.”


Nelson Rodrigues

NDT - Shut Eye - Sol León & Paul Lightfoot

DESAFETOS DA PSIQUIATRIA

Não há, nos livros de psiquiatria clínica, algum capítulo voltado ao estudo dos afetos. Nos dias atuais fala-se muito sobre as sinapses. Em psicopatologia, outrora, havia sim algumas considerações sobre os afetos do paciente. No entanto, elas não dizem o que é de fato o afeto, ou seja, não há um conceito de afeto. Em troca, é dito que afeto é o que não é pensamento, memória, consciência, atenção, sensopercepção, inteligência... Uma definição pelo negativo, imaginária e urdida num vazio histórico-conceitual, expõe à luz do dia a fraude teórica dessa especialidade médica. Por que é essencial discutir o conceito de afeto? Porque é através dele que se dará (ou não) o vínculo terapêutico com o paciente, ou mais precisamente, a construção da relação de ajuda médico-paciente. Este fato é acrescido pelo dado empírico de que na clínica é muito comum a condição de involuntariedade do paciente: ele não quer saber de tratamento, não se acha doente, acha que sempre tem razão, não responde às perguntas, não quer sair de casa, etc...

A.M.
As três palavras mais estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum ser.


Wislawa Szymborska ( tradução de Regina Przybycien)

CARYBÉ


815.000.000

Não há outra maneira de dizer. Não há atenuante. Em um mundo que produz alimentos suficientes para dar de comer a todos os seus habitantes, a fome nada mais é do que um crime.

Todos os dias, assistimos do conforto de nossas poltronas e a uma distância segura proporcionada pelas telas da televisão o desespero de pessoas pobres e vulneráveis que são forçadas a migrar nas condições mais humilhantes. A maioria delas são provenientes de áreas rurais.

Temos que fazer mais por essas pessoas. Não podemos permitir, nem nos permitir, que elas fiquem para trás.

Fazer vista grossa e não debater as causas mais profundas de como erradicar a fome e a pobreza é algo criminoso. Sabemos como fazê-lo. Sabemos o que funciona. Mas não teremos sucesso se a violência continuar, se os conflitos não terminarem.

Os dados mais recentes da FAO indicam que, após quase uma década de declínio, o número de pessoas afetadas pela fome no mundo aumentou novamente, com 815 milhões de habitantes sofrendo de desnutrição crônica em 2016. Em 2017, 124 milhões necessitaram de assistência alimentar de emergência, em comparação com os 108 milhões de 2016.
(...)

Jose Graziano da Silva e Adolfo Pérez Esquival, El País, 26/06/2018,13:22 hs

sexta-feira, 29 de junho de 2018

O sotaque das mineiras 

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar lindo (das mineiras) ficou de fora? 
Porque, Deus, que sotaque!
Mineira deveria nascer com tarja preta avisando:
ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? 
Assino achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas.
Preferem abandoná-las no meio do caminho, não dizem:
pode parar, dizem: 'pó parar'. 
Não dizem: onde eu estou?, dizem: 'ôncôtô'.
Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem lingüisticamente falando, apenas de uais, trens e sôs. 
Digo-lhes que não. 
Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade.
Fala que ele é bom de serviço.
Pouco importa que seja um juiz ou jogador de futebol.
Mineiras não usam o famosíssimo 'tudo bem'. 
Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra:
- 'Cê tá boa?'.
Para mim, isso é pleonasmo.
Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.
Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. 
Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: 
- 'Mexe' com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc.).
O verbo 'mexer', para os mineiros, tem os mais amplos significados..
Quer dizer, por exemplo, trabalhar. 
Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido.
Querem saber o seu ofício.
Os mineiros também não gostam do verbo conseguir.
Aqui ninguém consegue nada.
Você não dá conta.
'Sôcê' (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz: 
- 'Aqui', não vou dar conta de chegar na hora, não, 'sô'.
Esse 'aqui' é outro que só tem aqui.
É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase.
É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção. 
É uma forma de dizer:
- Olá, me escutem, por favor.
É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.
Mineiras também não dizem apaixonada por.
Dizem, sabe-se lá por que, 'apaixonada com'.  
Soa engraçado aos ouvidos forasteiros.
Ouve-se a toda hora:
- Ah, eu apaixonei 'com' ele...
Ou: Sou doida 'com' ele (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro).
Elas vivem apaixonadas com alguma coisa. 
Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe.
É um tal de 'bonitim', 'fechadim', e por aí vai.
Já me acostumei a ouvir:
- E aí, 'vão?'. Traduzo:
- E aí, vamos?
Não caia na besteira de esperar um 'vamos' completo de uma mineira. 
Não ouvirá nunca.
Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira.
Nada pessoal.
Aqui certas regras não entram.
São barradas pelas montanhas.
Por exemplo, em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer:  
- Eu preciso 'de' ir.
Onde os mineiros arrumaram esse 'de', aí no meio, é uma boa pergunta.
Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe.
Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. 
Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. 
Entendam...
Você não precisa ir, você precisa 'de' ir.
Você não precisa viajar, você precisa 'de' viajar.
Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará: 
- Ah, mãe, eu preciso 'de' ir? 
No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um 'tanto de coisa'.
O supermercado não estará lotado, ele terá um 'tanto de gente'.
Se a fila do caixa não anda, é porque está 'agarrando' lá na frente.
Entendeu?
Agarrar é agarrar, ora!
Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena,  suspirará:
- 'Ai, gente, que dó'. 
É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.
Não vem 'caçar confusão' pro meu lado. 
Porque devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro 'caça confusão'.
Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele 'vive caçando confusão'. 
Para uma mineira falar que algo é muitíssimo bom vai dizer:
- 'Ô, é sem noção'.
Entendeu?
É 'sem noção! 
' Só não esqueça, por favor, o 'Ô' no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, 
entendeu?
Capaz...
Se você propõe algo ela diz:
- 'Capaz'!!!
Vocês já ouviram esse 'capaz'?
É lindo.
Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer 'ce acha que eu faço isso!?'
Com algumas toneladas de ironia...
Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá:
-'Ô dó dôcê'. 
Entendeu?
Não?
Deixa para lá.
É parecido com o 'nem...'.
Já ouviu o 'nem...? 
' Completo ele fica:
- Ah, 'nem'...
O que significa?
Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum.
Você diz:
- Meu amor, 'cê' anima 'de' comer um tropeiro no Mineirão? 
Resposta:
- 'Nem...'.
Ainda não entendeu?
Uai, nem é nem.
A propósito, um mineiro não pergunta:
- Você não vai?
A pergunta, mineiramente falando, seria:
- 'Cê' não anima 'de' ir?  
Tão simples.
O resto do Brasil complica tudo.
É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...
Falando em 'ei...'.
As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o 'ei' no lugar do 'oi'. 
Você liga, e elas atendem lindamente:
- 'Eiiii!!!', com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade...
Tem tantos outros...
O plural, então, é um problema.
Um lindo problema, mas um problema. 
Sou, não nego, suspeito.
Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.
Aliás, deslizes nada.
Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. 
Se você, em conversa, falar: 
- Ah, fui lá comprar umas coisas...
- 'Que' s coisa?' - ela retrucará.
O plural dá um pulo.
Sai das coisas e vai para o que.
Ouvi de uma menina culta um 'pelas metade', no lugar de 'pela metade'. 
E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa,confidenciará:
- Ele pôs a culpa 'ni mim'.
A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas.
Ontem, uma senhora docemente me consolou:  
'preocupa não, bobo!'.
E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam.
Talvez se espantassem se ouvissem um: 'não se preocupe', ou algo assim.
A fórmula mineira é sintética. 
E diz tudo.
Até o tchau, em Minas, é personalizado.
Ninguém diz tchau pura e simplesmente.
Aqui se diz: 'tchau pro cê', 'tchau pro cês'.
É útil deixar claro o destinatário do tchau.
Trem bão tambem demais sô....

Carlos Drummond de Andrade

MARIA BETHÂNIA & PAULINHO DA VIOLA - Tudo é Ilusão

INTERNET ASSASSINA

(...)
A internet nasceu como pátria do livre fluxo de informações. Se você não sabe como enrolar o cabo do fone de ouvido para que caiba na caixinha original, alguém na internet explica. Se quer descobrir qual a razão para tomar cloreto de magnésio, surgirá quem prometa equilíbrio e vigor a cada colherada. Se você disser, no entanto, que está sofrendo com a depressão, haverá quem tentará incitá-lo a se matar. Os psicólogos definem tal comportamento como efeito de desinibição on-line, no qual fatores como anonimato, invisibilidade, solidão e falta de autoridade eliminam os costumes que a sociedade construiu milenarmente. Por meio de telefones celulares inteligentes, tal desinibição está se infiltrando no dia a dia de todos.

No mundo digital, troll era inicialmente o método de pesca em que ladrões on-line usam iscas — uma foto fofa ou promessa de riqueza — para encontrar vítimas. A palavra se origina de um mito escandinavo que vive nas profundezas. Passou a simbolizar também os monstros que se escondem na escuridão da rede e ameaçam as pessoas. Os trolladores da internet têm um tipo de manifesto, em que afirmam que agem para o “lulz”, a zoeira, numa tradução livre. O que os trolls fazem na busca do “lulz” vai de brincadeiras inteligentes — como os memes da tomada de três pinos — a assédio e ameaças violentas. Abusam do doxxing — a publicação de dados pessoais, tais como números de carteira de identidade, CPF, telefones e contas bancárias — e de trotes como pedir uma dezena de pizzas no endereço de uma vítima ou ligar para a polícia denunciando supostas plantações caseiras de maconha.
(...)

Daniel Salgado, Igor Mello e Marcela Ramos, Época,29/06/2018, 13:26 hs
O homem culto é apenas mais culto; nem sempre é mais inteligente que o homem simples.

Hermann Hesse

FREUD EXPLICA


Ciuminho básico

escuta
calado
a proposta rude
deste meu
ciúme:

vou cercar tua boca
com arame farpado

pôr cerca elétrica
ao redor dos braços
na envergadura
pra bloquear o abraço

vou serrar teus sorrisos
deixar apenas os sisos

esculhambar com teus olhos
furá-los com farpas
queimar os cabelos

no pau acendo uma tocha
que se apague apenas
ao sinal da minha xota

finco no cu uma placa
"não há vagas, vagabundas"
na bunda ponho uma cerca

proíbo os arrepios
exceto os de medo

e marco no lombo, a brasa,
a impressão única do meu dedo.


Ana Elisa Ribeiro

quinta-feira, 28 de junho de 2018

VIVA A DEMOCRACIA !

A mais nova pesquisa do Ibope informa que 41% dos eleitores estão sem candidato. Os otimistas dirão que não há motivo para pessimismo, pois o grande número de desorientados constitui uma oportunidade fantástica para o surgimento de alguma orientação. Mas a grande verdade é a seguinte: há na praça pelo menos 20 presidenciáveis se oferecendo para assumir o volante. Mas nenhum deles oferece um itinerário capaz de seduzir o pedaço do eleitorado que não enxerga um rumo.

A redemocratização brasileira é uma conquista relativamente recente. Eu mesmo, com minha barba branca, votei pela primeira vez em 1989, já na bica de completar 28 anos. Gostaria de ter votado antes, mas a ditadura militar não deixou. Ainda me lembro da solenidade que envolvia o ritual do voto. O eleitor era movido pela suposição de que sua preocupação era útil. Isso acabou.

No momento, o eleitor se vê numa encruzilhada. Entre opções lamentáveis e impensáveis, ele prefere o exílio do voto inválido. Em três décadas de redemocratização, a devoção ao voto virou ceticismo, converteu-se em nojo e já vai se consolidando como um transtorno. Nunca foi tão fácil como agora, a apenas quatro meses da eleição, compreender a tese de Churchill —aquela segundo a qual a democracia é a pior forma de governo salvo todas as demais. Quase metade do eleitorado cogita jogar o voto pela janela. Trata-se de um direito. Viva a democracia!


Do Blog do Josias de Souza, 28/06/2018, 21:10 hs

VICTOR BAUER


O amor também é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável). O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade.
(...)

Caio Fernando Abreu
A JUSTIÇA INJUSTA

A única coisa que Heberson Lima de Oliveira tem em comum com José Dirceu de Oliveira e Silva é o sobrenome Oliveira. No mais, eles são bem diferentes. No mesmo dia em que o condenado Dirceu saiu da cadeia por ordem do STF, o STJ reconheceu o direito dos filhos de Heberson a uma indenização pela prisão indevida do pai. Dirceu pegou 30 anos e 9 meses por ter mordido propinas de R$ 15 milhões. Herberson, acusado injustamente de estupro, pede R$ 170 mil por ter ficado 2 anos e 7 meses em cana até o reconhecimento de sua inocência.

Diz a Constituição que todos os brasileiros são iguais perante a lei. Mas a Justiça se encarrega de acentuar as diferenças. Dirceu é tratado como inocente mesmo com prova em contrário. Heberson é do tipo que vai em cana como prova em contrário. Dirceu, condenado em segunda instância, contesta o tamanho do castigo e recebe o alvará de soltura. Heberson, inocentado, recebe do Estado um segundo castigo.

Na prisão, em 2003, Heberson foi estuprado por seis dezenas de detentos. Contraiu o vírus HIV. Passados 15 anos, luta contra a doença, a pobreza e o Estado do Amazonas, que guerreia na Justiça para não pagar a indenização. A cifra caiu na segunda instância de R$ 170 mil para R$ 135 mil. Mas o Estado recorreu aos tribunais de Brasília. O STJ mandou pagar. Os filhos de Heberson não receberão nenhum centavo. Falta ouvir o STF. Quando? Não há previsão. O Supremo tem mais o que fazer. No momento, alguns de seus ministros molham a toga soltando corruptos.


Do Blog do Josias de Souza, 28/06/2018, 01:31 hs

quarta-feira, 27 de junho de 2018

JOÃO BOSCO - Corsário

Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.

Eduardo Galeano
O DIAGNÓSTICO DO CEARENSE

Familiares e amigos do estudante Leonardo Pestana, internado em 16 de junho em uma clínica psiquiátrica em São Petersburgo, na Rússia, seguem sem conseguir contato com o cearense. Segundo Ítalo Marciel, amigo de Leonardo, a última vez que a família conseguiu contato com o estudante foi em 18 de junho.

O cearense de 27 anos foi internado em uma clínica psiquiátrica após um desentendimento com autoridades no aeroporto. A dona de casa Fátima Pestana, mãe do rapaz, disse ele se preparava para embarcar de volta ao Brasil, quando foi detido.

Ítalo comentou que uma médica da família conseguiu falar com os médicos da clínica psiquiátrica nesta segunda-feira (25). Contudo, a família e os amigos seguem sem saber o diagnóstico do cearense.
(...)

Por G1 CE, 27/06/2018, atualizado há 6 hs

terça-feira, 26 de junho de 2018

Fábula de um Arquiteto

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.


João Cabral de Melo Neto

DEVIR-LUA


O QUE É DEVIR

Devir é o conteúdo do desejo. Portanto, "devir" não tem forma. É bem possível dizer "tornar-se". Em português significa o que é ser sem ser : processo, movimento, mudança, vertigem, irreversibilidade. O que somos, senão passagens e travessias? A arte o diz. Devir é um conceito deleuziano. Ele atravessa vidas. Se você olha para a lua, se você olha para o céu, se você olha para a noite, é possível entrar num devir-lua, num devir-estrela, num devir-noite, tudo isso, bem entendido, opaco aos seguidores da racionalidade tecnológica. Vamos por esta senda insólita, estamos por aqui neste não-lugar, certamente com poucos seguidores. No entanto, um delírio do infinito guia o mais minúsculo gesto de amor.

A.M.
MENTIRAS VERDADEIRAS

Na internet podemos encontrar uma irônica frase do escritor americano Mark Twain (1835-1910): “Uma mentira pode estar na metade da viagem ao redor do mundo enquanto a verdade ainda está colocando seus sapatos”. Mas, 108 anos após a morte de Twain, essa “viagem” pode ocorrer em poucos minutos graças às redes sociais, sobre as quais o ensaísta italiano Umberto Eco (1932-2016) disse que “dão o direito de fala a legiões de idiotas, tal como o idiota do vilarejo, que antes falava só no boteco depois de um copo de vinho, sem prejudicar a comunidade (...) Mas agora ele tem o mesmo direito a falar que um prêmio Nobel. A internet promoveu o tonto da aldeia ao nível do portador da verdade”.

Esse é o caso de informações falsas que são divulgadas e repetidas ad nauseam como verdadeiras. São as mentiras nas quais muitas pessoas querem acreditar porque são funcionais para seus preconceitos, medos ou suas convicções ideológicas. Espécies de “falsidades com adoçante”, enviadas por amigos ou um parente de um conhecido de um colega do vizinho do ex-marido da filha da tia Teresinha, que mora em Santa Etelvina do Paranaquiaba. Isto é, uma endogamia informativa, já que essas informações são compartilhadas por membros de redes que têm confiança uns nos outros. E, quanto mais retuítes ou “curtidas” uma informação tenha, maior credibilidade adquire — numa espécie de “certificação” conferida por pessoas por uma questão de fé, sem qualquer evidência que a confirme.
(...)

Ariel Palácios, Época,24/06/2018, 10:57 hs

domingo, 24 de junho de 2018

Sonho é comer um churrasco preparado por gaúchos, numa praia do nordeste, com mulheres mineiras, organizado por paulistas e animado por cariocas.

Pesadelo é comer um churrasco preparado por mineiros, numa praia gaúcha, com mulheres nordestinas, organizado por cariocas e animado por paulistas.


Luis Fernando Verissimo

ADONIRAN BARBOSA - Saudosa Maloca

Boca de Cena

Se você quiser
serei discípulo de Molière.
Montarei fina comédia
no palco onde toda noite
você ensaia seu pequeno drama.


Eudoro Augusto
A comunidade é uma coisa muito bela. Mas o que vemos florescer agora não é a verdadeira comunidade. (…) O que hoje existe é simplesmente o rebanho. Os homens se unem porque têm medo uns dos outros e cada um se refugia entre seus iguais: rebanho de patrões, rebanho de operários, rebanho dos intelectuais…E por que tem medo? Só se tem medo quando não se está de acordo consigo mesmo.
(...)

Hermann Hesse

ALÉM DA IMAGINAÇÃO - Dia do Exame

sábado, 23 de junho de 2018

ISSO NÃO PARA

O homem suspeito de matar a mulher e depois levá-la para uma UPA, em Salvador, teve a prisão preventiva decretada pela Justiça, durante uma audiência de custódia realizada na tarde deste sábado (23). Jairo Hernandes Gonçalves foi preso em flagrante na noite do crime e segue no Complexo Penitenciário da Mata Escura.

Isabel Cristina Moraes, de 35 anos, morreu na sexta-feira (22). Ela foi enterrada na tarde deste sábado, no cemitério do Campo Santo, no bairro da Federação, na capital.

Isabel era recepcionista. Ela e Jairo começaram a namorar ainda na adolescência, há mais de 20 anos. Ela deixou duas filhas, uma de 15 e a outra de 17 anos, fruto do relacionamento com o suspeito. A família de Isabel diz que, antes de morrer, a vítima já havia sido agredida diversas vezes pelo companheiro. Ela era a mais velha de quatro irmãs.

"Ele destruiu uma família. Ele destruiu a vida das minhas sobrinhas, que estão na flor da idade. É mais um caso de um homem covarde", disse Maraísa Bramont, irmã da vítima.
(...)

Por G1, Ba, 23/06/2018, 19:42 hs
...Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.

Rumi
O MURO DOS ALPES DIVIDE A EUROPA

O périplo de Blessing Mathew acabou num canto do cemitério de uma cidade distante nos Alpes franceses, a poucos quilômetros da fronteira italiana. Não há lápide em sua tumba: só um monte de terra, flores secas, uma vela apagada e uma folha impressa e plastificada onde se lê: “Blessing. 21 anos. 2018”.

A montanha pode ser cruel. Blessing Mathew, uma mulher nigeriana que morreu em maio quando finalmente havia conseguido colocar o pé na França, é uma de suas vítimas mais recentes.

Os Alpes são a parede que divide a França da Itália – 515 quilômetros de norte a sul – e um motivo de tensão devido aos imigrantes que atravessam a montanha todos os dias: uma fratura não só geográfica, mas também política dessa Europa desorientada e temerosa.

Roma considera que arca com o peso de demasiados imigrantes. Sua rejeição orgulhosa à entrada do barco Aquarius em seus portos a colocou na vanguarda da Europa anti-imigração. Paris enfrenta a repreensão do duplo discurso: critica a Itália por rechaçar o Aquarius e, ao mesmo tempo, intensifica a vigilância em suas fronteiras. No departamento dos Alpes Marítimos – o mais meridional dos que tocam a fronteira italiana –, as autoridades prenderam em 2017 cerca de 50.000 estrangeiros cruzando a divisa sem documentos, uma cifra recorde segundo dados das autoridades fronteiriças. A França devolveu 98% deles à Itália, que cooperou nos procedimentos, segundo declarou em dezembro o governador do departamento, Georges-François Leclerc, à rede France Bleu Azur.
(...)

Marc Bassets, El País,Menton, 23/06/2016, 12:00 hs

MSTISLAV PAVLOV


Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades.


Sophia de Mello Breyner Andresen
A SELEÇÃO DOS HOMENS DE BEM

No gol, com toda a elasticidade moral e verbal para defender, simultaneamente, seus benefícios além do teto e o combate à corrupção, o juiz do auxílio-moradia; na defesa, contra o desarme do atacante de bem, Jair Bolsonaro, que receita porrada para filho gay, desencoraja estupro de mulher feia e não tem a menor ideia do que fazer com a bola no pé; a seu lado vem Datena, que, inspirado na guru Sheherazade, abraça a legítima defesa coletiva (nem que seja para espancar e prender pelo pescoço adolescente negro suspeito); fechando a zaga, o anônimo de bem, oriundo do povo de bem, sempre pronto para obedecer a qualquer orientação de seus parceiros de área.

Ajudando a defesa, dois volantes recuados: Alexandre Frota, um dos atletas com maior versatilidade profissional da equipe, adepto do vale-tudo, contra a pedofilia e a nudez no futebol-arte; e Oscar Maroni, contra a corrupção das menores no esporte, que ganhou lugar no time apenas porque, apesar da falta de charme e traquejo, ofereceu aos companheiros vale vitalício no clube Bahamas. Articulam-se com dois meias de ligação mais assertivos: Celso Russomanno, responsável pela negociação entre o ataque e a defesa e por assegurar que tudo esteja bom para ambas as partes; e Fernando Holiday, que desburocratiza o meio de campo, vigia a doutrinação ideológica do adversário e dá fôlego e jovialidade ao time.

No ataque, para berrar a voz gospel histriônica no ouvido dos zagueiros adversários e questionar a ditadura do futebolisticamente correto, Magno Malta, Silas Malafaia e Marco Feliciano, trio que promete destronar Satanás, proteger a família e os respectivos órgãos excretores contra qualquer investida mal-intencionada por trás, desde que bem pagos pelo cartão de crédito de fiéis torcedores. Todos têm seus esqueletos no armário, mas negam, em nome da palavra de Deus, qualquer irregularidade.

O time conta com a orientação do técnico Marcelo Crivella, contrário ao samba no pé e ao carnaval de vestiário, chamado às pressas para dar uma pintada na fachada do time, que “estava muito feinha”. Seu objetivo cosmético é evitar que “o cidadão de bem sinta vergonha de ser brasileiro”. Tem um enorme banco de reservas a sua disposição.

O homem de bem é o personagem mais popular da agressividade brasileira contemporânea.

A expressão é sedutora e comporta duas interpretações. A primeira ecoa uma tradição valiosa da filosofia política, que elaborou o ideal republicano de “bom cidadão” à luz das virtudes cívicas que este deveria cultivar e praticar no espaço público. As democracias precisam, de fato, de bons cidadãos: aqueles que, no espírito horizontal e igualitário, participam das decisões coletivas, valorizam laços comunitários para além dos laços afetivos e entendem que existe algo chamado interesse público, que não se confunde com a soma de interesses individuais. O bom cidadão não se autoproclama bom cidadão, porque sabe que suas eventuais virtudes não o tornam infalível nem merecedor de tratamento privilegiado. Sabe que tratar qualquer cidadão como um igual é condição de sua própria dignidade.

A segunda interpretação é diversa. Usa a ideia de “homem de bem” com o propósito de diferenciar-se do outro, estabelecer uma hierarquia de status e a partir de então justificar que ao outro seja aplicado um conjunto de regras particular. O outro não comete apenas um ato ilícito eventual, como o homem de bem; tem identidade inferior e, portanto, não merece o mesmo regime político e jurídico. Por narcisismo ou cinismo, o apelo à retórica tribal do homem de bem serve sempre como licença para atacar e vingar-se de um outro que lhe desagrada. É o motor da exclusão, da discriminação e da violência. “Animais degenerados” não estão à altura dos “humanos direitos” e por isso podem ser abatidos.

A primeira interpretação tem sentido moral. A segunda é moralista e descreve perfeitamente a seleção brasileira escalada acima. Não precisam ser convocados para a tribo, pois convidam a si mesmos. Essa é uma das raízes de nossa encruzilhada. Odiamos e violentamos a diferença. E aceitamos essa violência porque “de bem” somos apenas nós, não os outros.


Conrado Hubner Mendes, Época, 21/06/2018, 18:40 hs

MICHAEL NYMAN - Time Lapse

Trágica

meu galego
não conhecia minha ira

era dono do meu corpo
meu espírito de porco

sabia minha ginga
minha pletora, minha míngua

conhecia cada fresta
cada trinca, cada aresta

cada vinco, furo, fissura,
mau humor, amargura

mas da minha ira
condenada ira
ira da maldita

ira de mulher
fêmea exata
ana saliente
uterina, enfezada
ele não sabia nada

(meu galego dorme esta noite num cemitério improvisado)


Ana Elisa Ribeiro
UM RARO PERSONAGEM


No futebol atual, todo mundo sabe jogar, não tem ninguém mais bobo, times ou países, até alguns de pouca expressão, se destacam, vencem jogos, ganham títulos, produzem zebras, etc. Apesar disso, ou por causa disso, um personagem vem se tornando cada vez mais raro nos gramados. O craque. Sem entrar em maiores definições do que seria um craque, apenas cito Zico, Falcão, Sócrates e Júnior, todos da mesma grandeza, por assim dizer. Há muitos outros, claro, inclusive atuais. Escolhi-os por terem sido companheiros num time artístico e mágico, o de 82. Mas, por que, hoje, faltaria o craque? A resposta inclue o uso do pensamento como método para se entender o que no fundo não é para entender: o drama trágico do futebol. Assistam a jogos, a muitos jogos, se possível ao vivo, senão em vídeos do passado, e vocês verão que em geral, o pensamento vem ficando ausente, mesmo que se mostre sob a expressão de dribles, passes, chutes, gols, lançamentos, toques de primeira. O pensamento é um órgão raro no jogador de futebol e só os mestres, os grandes, os verdadeiros craques o tinham, a daí, a sua superioridade, daí a sua diferença, a extrema singularidade, a arte para além da técnica. O estado atual de formação do jogador, incluindo o condicionamento físico precoce, o avanço da medicina esportiva, da fisioterapia, da educação física, a hegemonia acachapante do mercado capitalístico da bola, o aumento da velocidade da gorduchinha, a consequente redução do espaço euclidiano, o destaque conferido à técnica como atividade essencialmente motora (o jogador talentoso com o olheiro na sua cola) e por fim, (já aí extrapolando o universo do futebol), a fabricação em série, pela cultura do consumo, do idiota perfeito (como diria Nelson Rodrigues), tudo isso formatou o exílio do pensamento. Então eles conseguiram, conseguiram sim, fizeram o pensamento abandonar os campos verdes e cheios de magia, e no seu lugar se instalar a Correria desenfreada (motora e cognitiva) pela busca de títulos que a FIFA, a CBF e outras entidades ritualizam em belas jogadas e lucros desfrutáveis por quem e para quem nunca sequer acertou um bico na pelota, os homens cinzentos.

A.M.

Obs.: texto revisado e republicado.
AGONIA EM LONGA METRAGEM

É dura a vida do PT. O partido mal teve tempo de celebrar a absolvição de Gleisi Hoffmann numa das ações penais ajuizadas contra ela no Supremo e o TRF-4 manda dizer que foi homologada a delação de Antonio Palocci. Como disse o ex-ministro petista ao juiz Sergio Moro, em setembro de 2017, suas confissões têm potencial para “dar mais um ano de trabalho” à força-tarefa da Lava Jato.

A primeira reação de Lula à deduragem de Palocci também soou numa audiência com o juiz da Lava Jato. Acusado pelo ex-amigo de ter celebrado um “pacto de sangue” com a Odebrecht, o líder máximo do PT classificou a delação como “uma coisa quase que cinematográfica.” A definição revelou-se premonitória. Ao avalizar o acordo de colaboração de Palocci, o TRF-4 transformou o drama de Lula num longa-metragem.

Condenado a 12 anos e 1 mês de cadeia no caso do tríplex na praia, Lula deve amargar uma segunda sentença antes da eleição de outubro, dessa vez na ação penal sobre o sítio em Atibaia. Antes disso, a Polícia Federal levará às ruas operações estruturadas a partir da matéria-prima fornecida por Palocci.
A plateia terá, então, uma ideia da duração do filme.

Sabe-se de antemão que o enredo será ornamentado com novos personagens. Lula ganhará luxuosas companhias. Dilma Rousseff é uma delas. Considerando-se o teor dos depoimentos sigilosos de Palocci, a ex-gerentona entrará na trama com a lama na altura do nariz.


Do Blog Josias de Souza, 22/06/2018, 19:10 hs

sexta-feira, 22 de junho de 2018

EMERICO TOTH


FELICIDADE

A doce tarde morre. E tão mansa
Ela esmorece,
Tão lentamente no céu de prece,
Que assim parece, toda repouso,
Como um suspiro de extinto gozo
De uma profunda, longa esperança
Que, enfim cumprida, morre, descansa…

E enquanto a mansa tarde agoniza,
Por entre a névoa fria do mar
Toda a minh’alma foge da brisa:
Tenho vontade de me matar!

Oh, ter vontade de se matar…
Bem sei, é cousa que não se diz.
Que mais a vida me pode dar?
Sou tão feliz!

– Vem, noite mansa…


Manuel Bandeira

NDT- The Hole - Ohad Naharin

O TEMPO NA PSICOTERAPIA

Na prática da psicoterapia aprendemos que o tempo é o tecido da vida. Este dado aparece muito claro no processo de mudança existencial que toda terapia, em maior ou menor grau, promove. Os modos de subjetivação (estilos de viver) tornam-se concretos na medida em que a experiência de si e do mundo se mistura ao tempo-desejo sem forma, numa palavra, aos devires incontroláveis. O corpo que não aguenta mais. Isso implica na abertura de linhas desejantes criadoras de sentido. Portanto, o tempo, assim como H. Bergson o definiu, "é criação ou não é nada". Uma psicoterapia, a que acolhe signos múltiplos oriundos da ciência, da filosofia e da arte, se instala em territórios refratários aos dilemas da consciência. Assim, para muito além da psicanálise, a qual explora ad nauseam um inconsciente representativo, edipiano e familiarista, o método da diferença capta afetos impossíveis de sonhar, mas passíveis de metamorfoses rumo a um outro viver. Isso impõe riscos. Contudo, há regras de prudência (cf. G. Deleuze) elaboradas no interior de uma ética da alegria e de uma estética do novo. Desfaz-se o tempo como alta do tratamento (conceito médico) para uma implicação profunda e inadiável do paciente com a sua própria alma, ou seja, consigo mesmo.


A.M.
Sou todos eles, contigo, em ti...

Talvez já tenhas percebido que eu não sou eu. Eu sou a própria voz que ouves quando lês. Hoje, pela primeira vez, quero falar directamente contigo. Quero dizer que existo nestas palavras. Através delas, quero apenas dizer-te que existo. Estou aqui. As palavras que te digo desde que aprendeste a ler, a ouvir-me, são o meu corpo. Eu sou todas essas palavras. Sou as palavras que deixei dentro de ti e que sabes de cor. Sou as palavras que esqueceste. Durante este tempo, disfarcei-me de muitas vozes, de muitos rostos. Sou todos eles, contigo, em ti.


José Luís Peixoto

NOVOS BAIANOS - A Menina Dança

VALE TUDO ELEITORAL

Nem tudo vale em política nem na vida. Não é possível afirmar, como fez Geraldo Alckmin, pré-candidato do PSDB à Presidência, que “Bolsonaro é como o PT”, já que ambas as realidades políticas refletiriam “o atraso” e o “extremismo”.

É possível que Alckmin, diante de sua dificuldade em levantar voo nas pesquisas, esteja tentando abrir espaço para recolher votos de quem rejeita tanto o ex-capitão Bolsonaro como o Partido dos Trabalhadores (PT), ou seja, os anti-Bolsonaro e os anti-PT ou anti-Lula. Pode ser uma estratégia, mas nesse caso parte de uma premissa falsa.

O PT pode ser criticado por muitas coisas, entre as quais ter às vezes esquecido, no afã de querer perpetuar-se no poder, de algumas de suas metas fundacionais como partido nascido para regenerar a política. Os Governos do PT de Lula e Dilma podem ser criticados, mas querer comparar a força histórica do PT com a trajetória sem história de Bolsonaro, ao considerar ambos como o espelho do atraso, é uma afirmação falsa, além de arriscada.
(...)

Juan Arias, El País,22/06/2018, 09:37 hs
Costa RicaXConta Rica! Cunha,Cabral,Maluf,Mantega,Geddel,Paulo Preto etc!

O Futebol brasileiro

A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e, embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.



João Cabral de Melo Neto

RIO - Ricardo Leão

PRODUÇÃO DE VERDADE

A poucos meses das eleições no Brasil, o maior desafio é compreender como as notícias falsas atingem e se deixam influenciar pela internet. Será que estamos preparados para lidar com fake news, bots e perfis falsos?

O primeiro equívoco está justamente em generalizar toda desinformação sob a nomenclatura de “fake news”. Essa expressão, importada da língua inglesa nos últimos dois anos, partia de personalidades e instituições que queriam desacreditar críticas feitas a elas por jornalistas. Essa prática tem como objetivo desviar de potenciais polêmicas e evitar responder sérias investigações. Pensar na segurança e no respeito pelas informações verídicas também é resguardar a diferença entre o termo pejorativo “fake news”, que carrega consigo um peso censor, e desinformação e notícias falsas.

Notícias falsas têm o poder de caminhar com os próprios pés, apelando para o emocional humano. Quando uma notícia falsa com um título sensacionalista ou com um corpo de texto que careça de fontes concorda com determinadas opiniões pré-estabelecidas, ela tem mais chances de ser compartilhada porque, num momento de intensa polarização ideológica, as pessoas estão em busca de cada vez mais argumentos que justifiquem seus posicionamentos. Em resumo, os produtores de notícias falsas se aproveitam da ingenuidade e da falta de autocrítica e de checagem de informações.

À custa dessa ingenuidade, produtores de notícias falsas têm lucrado grandes cifras em apenas alguns meses. De uma maneira muito simples, eles só precisam incorporar plug-ins de propaganda à programação do seu site. Conforme a audiência no site aumenta, maior será sua arrecadação. A disseminação dessas notícias é feita pelas redes sociais, por anúncios pagos, pessoas, bots e perfis falsos. Hoje, considera-se que o Whatsapp deve ser a mais problemática das redes sociais quando se fala em desinformação. Quando as mensagens circulam diretamente entre pessoas, e não num ciberespaço público, não existe um regulador dessas mensagens que possa classificar o que é verdadeiro ou não.

É por isso que o melhor caminho para combater as notícias falsas é a educação, transparência e o exercício de checagem de fatos.
(...)

Site da Vivo, 09/03/2018, acessado hoje