quarta-feira, 31 de outubro de 2012


"Vocês riem de mim por eu ser diferente, e eu rio de vocês por serem todos iguais."


Bob Marley

ERROLL GARNER - I get a kick out of you


Alguns amigos me dizem: Não bebas mais Khayyam.
Respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem
as rosas, as tulipas, os jasmins;
ouço até o que não me diz a minha amada.

O. Kayyam
DEVIR-FEITICEIRO

(...) (...) Atender o paciente é encontrar a loucura. Interessa (ou deveria...) pois, ao psiquiatra,  sair de si na direção de um campo vivencial movediço, sem garantias prévias, sem receitas ou  protocolos técnicos. Sob tais condições, torna-se um feiticeiro.Carrega o seu balaio de conceitos na espreita de mais um Encontro em que possa usá-los. 
(...)
A.M.

FRANCIS BACON


terça-feira, 30 de outubro de 2012

SOBRE O "BORDERLINE"

(...) (...) Retornemos ao borderline: ele pode ser  considerado  como a instabilidade em pessoa  concretizada em impulsos violentos e tão surpreendentes quanto danosos ao outro. Os afetos  parecem vir em estágio bruto e  numa corredeira sem freios. O encontro é com um  chão movente.  Não há um  ou mais  problemas, mas  uma problematização contínua. Não se trata de um mero jogo de palavras. É toda a  inserção no mundo, e mais, o seu mundo constituído que é o da instabilidade afetiva. Ao falar de si num tom de passado e no fulcro das relações afetivas, fica evidente  o  dado assombroso que é o da inexistência  de  um território   onde enganchar a relação pessoal, um vínculo. Um vazio brutal lhe constitui. Um paciente afundado na solidão? Não é possível  vê-lo desse modo,  pois seria  fincar a estaca da   moldura humanista sobre  uma alma em desgoverno.O encontro com a loucura não é um exame das funções psíquicas nem do comportamento observável. O encontro é um devir,  aquilo   que  tenta  captar do paciente fluxos do desejo.  O paciente não se reduz ao eu, ainda que este esteja  preservado. Ele consegue falar, dizer como está, conversar. Seu corpo oscila entre uma inexpressão e uma expressividade dramática. Contudo, a dramaticidade não é  “fingida”. Assume seu discurso com se fosse ele próprio levado por uma onda de emoção. Adiante, sem que se lhe estimule, estanca o ritmo e se faz imóvel numa atitude que suscita dúvidas. Elas oscilam entre o que diz  de si e o que se esconde em dobras subjetivas opacas. O borderline é um ser errante de difícil ajuda pelo aparelho biomédico. Talvez  seja  usado algum remédio químico. Aí ele se curva para além das dobras  a  que aludimos. Torna-se  paciente de um cansaço adicional  (a sedação)  ante saídas  difíceis  da problemática. 
(...)
A.M.

J. GILBERTO e CAETANO - Chega de saudade


O FIM DA PSICOPATOLOGIA

(...) (...)A psicopatologia é uma disciplina  ministrada em muitos cursos universitários. Tem a medicina como referência clínico-conceitual e o conteúdo psicopatológico se expressando como reprodução do conteúdo psiquiátrico. Ensinar psicopatologia acaba sendo ensinar psiquiatria  clínica. Trata-se  de  uma realidade  fácil de  ser  observada nos cursos  referidos. A alternativa  à psiquiatria oficial costuma surgir das psicanálises ou de psicopatologias com inspiração psicanalítica. A equação psicopatologia=psiquiatria tem uma história que começa no século XIX na Europa. A psiquiatria se estabelece como especialidade médica e para conseguir atuar  na prática  clínica, inventa um instrumento semiológico, a psicopatologia. Ele servia para  avaliar  o paciente  e a sua suposta  doença, o que em última  instância  consistia em  controlá-lo. 
(...)
A.M.

AS PONTES DE MADISON



Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida.

Omar Kayyam

METROPOLIS

Imagem de Fritz Lang - 1927

VAZIOS TEÓRICOS 

“Os Transtornos da Personalidade deveriam ter como ponto de partida o conceito de personalidade, por sua vez muito maltratado. Em geral, os psiquiatras estudam TP sem esboçar qualquer definição de personalidade. Nem propõem a escolha de uma das suas muito numerosas definições (Alport contava em 1937 mais de 50 definições; Alonso Fernandez, em 1973, falava de várias centenas  de definições)", Sonenreich, C., Estevão, G. e Artenfelder, L de M., Psiquiatria: propostas, notas, comentários, São Paulo, Lemos Editorial, 1990, p.154.
(...)
A.M.

HELIO DELMIRO - Samba em prelúdio


"Não ter vaidades é a maior de todas."

Millor

MAURO FERREIRA

Pedras à Beira-Mar

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

SUBJETIVIDADE A-SUBJETIVA: ANOTAÇÕES

O  nosso problema é o conceito de subjetividade fabricado  em meio a um conjunto de nomes da  clínica que a psiquiatria  entronizou como sendo “A  clínica dos transtornos mentais”. Ela  começa  com as condutas socialmente inadequadas, o que se consuma no diagnóstico (impreciso) de   psicose, mas se expande, incluindo até mesmo  quadros  não  psicóticos. Sua ambição é abarcar a  gama das condutas  humanas num sistema  classificatório.  É uma clínica estagnada no ponto em que o cérebro estabelece limites anátomo-fisiológicos (e estruturais) ao pesquisador.  Entretanto, como no caso dos afetos. precisamos de uma máquina  teórica que  capte a velocidade do universo   subjetivo,  traga respostas do que se passa na Vivência. E que não se  reduza  às  cintilações  fisico-químicas do organismo, nem mesmo ao imaginário do eu ou às regras de conduta  na  sociedade. Buscamos outra coisa. Para que isso seja possível, é necessário considerar o  processo  de produção  desejante em  situações  concretas.
(...)
A.M.


OS DOGONS DO MALI




ANTI-ÉDIPO ... o desejo e a vontade

Bem gostaria eu, de ter uma outra palavra, que pudesse ter a definição do que é DESEJO.
E porque não o faço em vão, continuarei a afirmar o que escrevi no comentário em ANTI-ÉDIPO... [01] sobre o que é para mim o DESEJO, da forma o mais simples possível. Exactamente para que haja um entendimento dessa mesma comunicação escrita nos vários tipos de vocabulário das diversas formações académicas, profissionais e sociais e, que nos assistem beneficamente nestas novas formas de procurarmos uma qualquer VERDADE única. E porque dela necessitamos para melhor vivermos uns com os outros, a igualmente tendermos para ela através do natural processo da evolução e até porque é da VERDADE que provimos (em devir). Embora a maior parte das vezes, nem sequer nos apercebermos dessa tal ordem-natural e até a negligenciamos conscientemente. E é neste estatuto de tantos pronunciados que o Desejo é constantemente acometido e sempre num qualquer outro uso de significados que não o seu. E como é esta a única palavra que temos, dentro dessas designações do que é o seu significado, irei assim com todo o cuidado dar-lhe o seu devido valor naquela que é para mim a crucial imagem do Desejo no lugar adentro desse mesmo sentido.
É habitual dizer-se: - Tens de ter força de vontade! E desde muito criança que eu perguntava a mim mesma, mas como é que se tem força de vontade, se há pessoas que não gostam do que estão a fazer em suas vivências? E observava as pessoas que não conseguiam ter essa tal de dita força de vontade e, não a tinham, precisamente porque não conseguiam ser elas mesmas, por tão hostilizadas ou porque com personalidades não combativas ou não agressivas e por sensíveis, a serem tidas de fracas, tinham sempre de se artificializar a serem obrigadas a imitar um qualquer modelo já existente e até a seguirem rumos de vida de contra-natura em suas formas de ser e estar.
E todas estas dúvidas resultaram no seguinte, sim até poderemos ter essa tal, de dita força de vontade, mas a valorizar para primeiro plano, o DESEJO e o DESEJAR . E o DESEJO o que é? Muito cedo comecei por entender que o Desejo era o Melhor ou a excelência do nosso interior (Pensar) e só conseguiríamos ter força de vontade se estivéssemos bem com essa tal interioridade ou esse TODO interior presente no DESEJO. Ao passo que tudo aquilo que nos era imposto pelos outros como obrigatório, a todos a níveis, para se viver em subsistência, social ou hierarquicamente, seria a tal de dita VONTADE. E essa Vontade, que os outros nos impunham poderia ser terrífica e poderia ser prejudicialmente perigosa, em que as pessoas tornavam-se tendencialmente más dependendo dos interesses e proveitos e muito raramente se tornariam boas, somente se houvesse uma contradição dessa Vontade a enaltecer o Desejo como prioridade. Os desejos ou o DESEJO são pois, tudo aquilo que de melhor existe dentro de nós ou seja, tudo aquilo de que somos feitos em VERDADE e se bem “alimentados” será então possível existir essa tal de dita Força de Vontade. E quando eu digo bem alimentados refiro-me ao ter-se a possibilidade de imaginar (sonhar), criar e cuidar, só presente no que é artístico e que por sua vez, se manifesta quer pela contemplação, concepção ou realização artísticas.
E a generalidade das pessoas (o povo) sempre utilizaram formas de compensar esta austeridade da Vontade que lhe era imposta pela sociedade, pelos outros em qualquer tipo de poder. Há poucas décadas atrás, os tempos livres eram ocupados com trabalhos manuais, com o tricot, com o crochet, bordavam, costuravam, cantavam e eles até faziam arranjos na casa e bricolage. Com a divisão ou não de tarefas em comunidade ou em família, sempre houve uma forma de compensação da hostilidade laboral presente na Vontade, através de trabalhos caseiros e (ou) artesanais, com alguma criatividade. Cuidava-se assim de quase tudo o que nos rodeava e das crianças principalmente, ensinando-lhes esta evolutiva e saudável forma de estar. Os tempos actuais levam-nos para o tempo perdido de nada se fazer e de nada se transmitir, o tempo da distracção e do passatempo, o tempo do lazer pelo gozo, o tempo de viajar e de tudo conhecer similar e rapidamente da forma mais homogénea possível a nada se aprender de novo. Mas e a mente? A mente tem de se ocupar criando, fazendo e aperfeiçoando. E o que se está a passar com a mente neste momento? Tudo está e é feito maquinalmente e têm de existir muitos, muitos produtos em muitos consumidores. E até surgiu a Psicanálise que ajudou ainda mais à afirmação desta consumação, somos assim, as tais máquinas desejantes que se refere Deleuze em ANTI-ÉDIPO. Em que o desejo em criatividade alterou-se com a ajuda da psicanálise para ser de tido numa maquinização do desejo por gozo em Poder da Vontade.
E o desejo relativamente à sexualidade e não só, para quem pensa a vida psicanaliticamente poderá estar a cometer um gravíssimo erro quando se declara que «o desejo é falta».
E nestes dois excertos do ANTI-ÉDIPO que se seguem (respectivamente da pg. 33 e da pag. 375) dá para exemplificar em como a psicanálise recorre ao Desejo tentando confundi-lo, a torná-lo exteriorizante e até a promiscuí-lo. É que o DESEJO (no singular) nunca é desejo de algo que falta, somente se lhe alterarmos o significado e o associarmos à Vontade (no colectivo) exteriorizante e objectiva, por poder em obstinada posse de objectos e coisas, tão usado no consumismo esquizofrénico e deprimente das actuais sociedades:
Em ANTI-ÉDIPO o que DELEUZE E GUATTARI nos propõem é pensar-se uma ontologia para além da Psicanálise e para além das categorias do sujeito e objecto. E porque o Desejo não é o que resulta de nossa interioridade reprimida pela sociedade.
Concordo assim com DELEUZE quando diz que o desejo pode sim ser fuga e não falta e, que é possível pensar um Desejo, não carecendo de nada.
E exactamente porque o DESEJO nem sempre necessita da Vontade, mas a Vontade essa sim, é que necessita de Desejo, para que exista a Vontade (em Boa-Vontade) para um Bem-Comum a todos.
A Escola, o Ensino e a Educação terão de se reger de outros moldes e é por isso que eu sou uma grande crítica da Psicologia e da forma como ela segue o seu caminho, e sobretudo critico a psicanálise, apoiando-me assim naqueles que a reprovam e que têm obra nesse sentido. Porque quando leio Melanie Klein, Lacan ou Freud são leituras pouco edificantes do ser. É como que tenhamos de ser obrigados a ter de nos sentirmos a mais à face da Terra. E se eu não penso o Desejo maquinal pelo papá-mamã dessa forma tão escabrosamente esquizofrénica de todos nos estarmos para aí sempre a olharmo-nos uns aos outros como deficientes e a ver onde estão os tais defeitozinhos a nos superiorizarmos uns aos outros pela falta, ou as insuficiências e carências lamechas, para ora virem dar pancadinhas nas costas ora virarem costas e entrar-se numa outra retórica, então quererá dizer que nada tenho a ver com as teorias de Freud e sinto-as absurdas e perigosas por tão indesejáveis. O que a Psicanálise faz é a desqualificação das potenciais capacidades de se pensar livremente. É uma dependência ou submissão a ideias ou conceitos opressivos de se SER.
Muito há para fazer nestas áreas das Humanidades e que considero essenciais para que não acertem passo com o que com elas próprias já não se acertam e com o que até sabem que está comprovadamente errado!
É uma questão de tempo! E aqui estamos todos nós para que essa comunicação exista, e quem sabe, até possa surgir uma outra palavra em antónimo à psicanálise e que possa dignificar o Ser, sem as tão habituais e assomadas fabricações de se pensar a não-Ser.

Alice Valente

domingo, 28 de outubro de 2012



“TRAIR A PSIQUIATRIA” – SINOPSE 

O livro  consiste basicamente de uma crítica à psiquiatria atual. Tal crítica é feita por um psiquiatra. Paradoxo aparente, já que,  exatamente por ser psiquiatra a sua escrita toma o sentido de uma posição afirmativa. O autor aponta, entre outras questões, para 1-as alianças da psiquiatria com os laboratórios farmacêuticos internacionais; 2-a fabricação, em larga escala (via CID-10 e DSM-IV), de diagnósticos que darão “suporte” ao uso quase exclusivo de remédios químicos como opção terapêutica; 3-a coisificação da subjetividade humana na imagem neuro-científica do cérebro, tomando este como origem única dos complexos problemas  mentais; 4-as fragilidades conceituais da pesquisa psicopatológica, camufladas pelo poder psiquiátrico e referendado por instituições sociais como a escola, a família, o direito, etc. 5-propostas concretas de como trabalhar de novas  maneiras com o paciente, o que ele intitula “clínica da diferença”.

Obs.: O livro pode ser adquirido na Livraria Cultura (SP e filiais) inclusive via Internet, ou com o próprio autor -mouriano@ig.com.br

DEVIR-ÁGUIA


CONDOLÊNCIAS SOTEROPOLITANAS

Olá, Boa Terra, lamentei o seu drama!
Neste segundo turno, ter que escolher
entre o Horroroso e o Terrível não deve ter sido lá muito fácil...

A.M.

DELEUZE e a Esquerda


DO PODER

O homem branco, ocidental,cristão, heterossexual,casado,dispondo de um capital cultural e de um volume de bens materiais codificados,aparece como modelo a quem se reserva a utilização e a detenção dessa violência social autorizada e legitimada.Aqueles sobre os quais ela se exerce são com muita frequência seu contraponto,sua contradição: as mulheres, as pessoas de cor,os jovens, os adolescentes ou os velhos, os muçulmanos - que se pense na acepção deste termo dentro dos campos de concentração - os homossexuais, os incultos, os analfabetos, os pobres, os deficientes físicos e mentais, e aqueles que eu chamaria, de modo geral, os celibatários para inscrever sob essa rubrica todos que assumem fundamentalmente e visceralmente sua parte de solidão, sua identidade como indivíduos soberanos e rebeldes,solares e solitários.
(...)
Michel Onfray - do livro A política do rebelde - tratado de resistência e insubmissão
"Inúmeros artistas contemporâneos não são artistas e, olhando bem, nem são contemporâneos".

Millor Fernandes

WILLIAM TURNER

Castelo Arundel com arco-íris


ÉTICA DO GUERREIRO

A autoconfiança do Guerreiro não é a autoconfiança do homem comum. O homem comum procura certeza aos olhos do observador e chama a isso autoconfiança. O Guerreiro procura impecabilidade aos próprios olhos e chama a isso humildade. O homem comum está preso aos seus semelhantes, enquanto o Guerreiro só está preso ao infinito.

Carlos Castañeda (frases de seu mestre Juan Matus)
APOIO POLÍTICO

Nenhum deprimido é A depressão. Nenhum psicótico é A psicose. Ninguém é A doença. Estas são manobras de substancialização do vivido.Seus autores estão em toda parte onde se trate de esmagar a diferença. A psiquiatria, óbvio, não está só nesse empreendimento mortífero.

A.M.

CARLA BLEY e STEVE SWALLON - Live in Concert


FUNÇÃO DA ARTE NA CLÍNICA

O Encontro é a busca de uma  estética dos  corpos da Instituição Saúde  Mental. Que corpos são   esses que não são só os neuroquímicos? A arte tonifica os organismos programados em séries  exatas, formatados nos limites da pele visível. Esse processo desfaz os corpos, não só os dos  pacientes, mas os dos técnicos, não só os humanos, mas os  inumanos. O que se passa na relação  com o paciente está voltado para fora das coordenadas da razão, até mesmo do  inconsciente   representativo da psicanálise. A arte desfaz para fazer. A produção  da  produção é a arte se  “fazendo  fazer”. 
(...)
A.M.

CLÁUDIO TOZZI

Multidão

sábado, 27 de outubro de 2012

O DESEJO COMO LINHA DE FUGA


(...) (...)Triste é aquele que quer fugir de si mesmo. E quem a isso quer, não faltam os meios: o prazer alienado e narcísico, os fanatismos religiosos ou de mercado ( ou a combinação de ambos) para isso servem; as anestesias ( químicas , sociais , midiáticas, políticas...) também funcionam para quem quer fugir de si mesmo, bem como as MBA’s em autoconhecimento ,ministradas por seus gurus e mestres bem pagos ; igualmente podem servir para fazer fugir de si mesmo o vender-se em troca das medalhas, dos títulos, das propriedades e bens, dos afetos e favores que fazem a glória de Mefistófeles. Em contraste, a prática de afirmação de si e autêntico autoconhecimento é linha de fuga que amplia e potencializa o que verdadeiramente somos. No autêntico autoconhecimento, somos o tema e a variação do tema, nascendo dessa variação um novo tema.O autoconhecimento, como virtude da alma, da qual nascem a generosidade e a salut, não é meio para obtenção de medalhas ou prêmios, pois a virtude, a virtu, é o próprio prêmio, assim como o verdadeiro prêmio do autêntico músico não se mede por quantos discos ele vende, mas pela potência de variação que ele foi capaz de produzir em um tema ,com o qual ele se liga sem interesse, apenas por afeto e amor à música.E isto que não se pode quantificar com números constitui a verdadeira riqueza.
A fuga sem um tema que com ela fuja é um mero fugir de si mesmo, ao passo que um tema sem uma fuga que o faça variar é como uma identidade rígida, máscara mortuária.Fugir não é se afastar, mas fazer avançar a partir de onde se está. E é sempre em um processo que estamos.Uma coisa é fugir de si mesmo, outra é fazer fugir si mesmo lá mesmo onde estamos, para assim fazermos do nosso existir uma singular expressão do Existir da Natureza em seu infinito variar.Como dizia Espinosa, este variar infinito é o tema que nos deve afetar na produção de nossa linha de fuga.
(...)
Elton Luiz Leite de Souza
REDUCIONISMO MÉDICO

A concepção médica inclui a subjetividade no rol dos fenômenos imaginários do paciente. Deste modo, a vida  subjetiva é negada por estar ‘turvando” uma apreensão clínica objetiva da patologia ou é relegada a uma área “fora” da  verdadeira  doença, espécie  de epifenômeno do mundo físico. Tudo isso implica no encaminhamento (se for o caso) do paciente á psicoterapia (técnica emblemática da psicologia) como um campo de pesquisa e terapêutico suplementar às determinações biológicas. Trata-se, efetivamente, de uma visão reducionista e idealista dos modos  de subjetivação.

A.M.
Morro

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

DO EROTISMO


A reprodução faz intervir seres descontínuos (...) (...) O que o erotismo implica é sempre uma dissolução das formas constituídas, ou seja, repetindo, das formas da vida social regular, que fundam a ordem descontínua das individualidades definidas que somos.

(...)
G. Bataille - do livro O Erotismo - o proibido e a transgressão

CARTOLA - O mundo é um moinho

Os sábios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância,
e eram os luminares do seu tempo.
O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,
e depois adormeceram, cansados.

Omar Kayyam - do livro Os Rubayat

MULTIPLICIDADES PAGÃS

A REIFICAÇÃO DO CÉREBRO

As transcendências colocam a subjetividade num lugar“para além”da realidade do mundo. No caso do uso de noções como as de alma,espírito,eu,consciência, razão, isso fica evidente. Contudo, o disfarce advém quando o cérebro é posto como um sistema isolado do que o circunda e o determina, caso dos pressupostos  neuro-científicos.
(...)
A.M.

KASIMIR MALEVICH

O jardineiro
A SUBJETIVIDADE NÃO É O EU NEM O INDIVÍDUO

(...) (...)  Numa  acepção  inspirada  em  Gilles  Deleuze  e Félix  Guattari, subjetividade refere-se  às  formas de sentir, pensar, perceber e agir que se expressam na relação do indivíduo com  o  mundo. A subjetividade vem de  fora. Ela é  social  e mais  precisamente coletiva. O indivíduo é  uma  espécie  de terminal da produção coletiva da subjetividade. Claro  que o corpo é a referência  maior, pois  não existiria  indivíduo  sem um corpo.  Precisamos ver algo. Mas  esse corpo, com  a sua organização anátomo-fisiológica, está encravado numa rede coletiva de significados não  necessariamente visíveis. Ainda assim, o coletivo  não é algo abstrato, distante de nossas vidas cotidianas. Ao contrário, ele se operacionaliza no e através o funcionamento das instituições, formando linhas de vida no que se chama“subjetivo”. Dizer ”subjetivo=coletivo”é uma equação que serve  para se  pensar a mente e os transtornos mentais. A subjetividade nos governa a partir de determinações que escapam à consciência, ao eu e à razão. Estas categorias são  produtos sociais que servem para manter a estabilidade do cotidiano da civilização onde vivemos.  Funcionam  “naturalmente”. 
(...)
A.M.
PARA ALÉM DAS SINAPES


“Todo  delírio tem  um conteúdo histórico-mundial, político, social, racial: arrasta e  mistura  raças, culturas, continentes, reinos.”


 Deleuze, G. e Guattari, F. , O  anti-édipo, Rio, Imago, 1976, p. 118.

CLARICE LISPECTOR - Entrevista

CLÍNICA DAS MULTIPLICIDADES

Antes da técnica é preciso compor linhas de  vida. Implica em  dizer que o trabalho  com o paciente segue a arte como experimentação. Experimente, não interprete, diz Deleuze. Os dados da história pessoal e das contingências atuais estão baralhados na superfície do Encontro. O  trabalho, no caso do  psiquiatra, será o de destruir  formas sociais rígidas (por exemplo, o afã  de  medicar, o diagnóstico "cidológico", o corporativismo médico, etc) e criar dobras, saídas, mesmo  ínfimas  e imperceptíveis, para os  impasses  existenciais.
(...)
A.M.

Uma noite no Cairo

Noite no Egito. O céu claro e profundo
Fulgura. A rua é triste. A Lua Cheia
Está sinistra, e, sobre a paz do mundo,
A alma dos Faraós anda e vagueia.

Os mastins negros vão ladrando à lua...
O Cairo é de uma formosura arcaica.
No ângulo mais recôndito da rua
Passa cantando uma mulher hebraica.

O Egito é sempre assim quando anoitece!
Às vezes das pirâmides o quêdo
E atro perfil, exposto ao luar, parece
Uma sombria interjeição de medo!

Como um contraste aqueles míseres
Num quiosque em festa a alegre turba grita
E dentro dançam homens e mulheres
Numa aglomeração cosmopolita.

Tonto do vinho, um saltimbanco da Asia
Convulso e rôto, no apogeu da fúria,
Executando evoluções de razzia
Solta um brado epiléptico de injúria!

Em derredor duma ampla mesa preta
- Última nota do conúbio infando -
Vêem-se dez jogadores de roleta
Fumando, discutindo, conversando.

Resplandece a celeste superfície
Dorme soturna a natureza sabia...
Em baixo, na mais próxima planície,
Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.

Vaga no espaço um silfo solitário.
Trôam kinnors! Depois tudo é tranquilo...
Apenas, como um velho stradivario,
Soluça toda a noite a água do Nilo!


Augusto dos Anjos

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

WILLIAM TURNER

Erupção do Vesúvio
SERVOS DA MÁQUINA

(...) (...) Legiões de psiquiatrizados de toda parte ajoelham-se no altar dos psicofármacos e dos   cérebros à mão. Tudo  conspira a favor do consumo de pacotes cientificamente autorizados para ações lucrativas. No entanto, mesmo desbotada e segregada nos grilhões cidológicos ,a diferença  resiste. A ética da potência de viver afirma-se como ética de poetas itinerantes.
(...)
A.M.

DEVIR-ANIMAL


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

CECÍLIA MEIRELES

Motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

JAIR RODRIGUES - Disparada

ENCONTROS NA CLÍNICA

Os  afetos  são a  expressão e a materialidade do desejo no  nível  do encontro entre  os  corpos. Referem-se ao aumento ou a   diminuição da potência  de  existir  do paciente. 

(...)
A.M., cf  Deleuze, G.,Espinosa – Filosofia  prática, S. Paulo, Escuta, 2002, p. 55 a  58 e  73  a  79, principalmente.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O ESTADO MODERNO

UMA CLÍNICA DA DIFERENÇA

A clínica psicopatológica é uma clínica sócio-política. Ou, pelo menos, deveria sê-lo. Não porque leve em conta fatores sociais e políticos, e sim porque toda ela é SÓCIO-POLÍTICA.  Ou seja: ela é atravessada por forças sociais, instituições, linhas existenciais compondo redes complexas na produção de subjetividades. Assim, não é possível conceber a prática clínica como prática ligada a determinada escola de pensamento. Isso seria despencar num pensar doutrinário e fascista. Se assim fosse,só nos restaria um  universo de representação à serviço das forças de conservação do planeta. No entanto, alguma coisa da ordem do desejo vaza...

A.M.

ROMEU FERREIRA

o brasil dos calmos
dos pregadores da paz
dos anunciadores do milênio
dos idólatras da modernidade

dos educados

afasta de mim
esse  cálice

A.M.

JOE LOVANO - Portrait of Jenny

O FIM

“Estamos a condenar não atores políticos, mas protagonistas de sórdidas práticas criminosas. Esses deliquentes ultrajaram a República. É o maior escândalo da história.”

Celso de Melo, o decano dos ministros do STF, sobre os mensaleiros condenados por formação de quadrilha.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

DEVIR-LOBO

A PSIQUIATRIA BIOLÓGICA FABRICA A ESQUIZOFRENIA

A loucura é o limite-absoluto da psiquiatria. A partir do século XIX  passa a ser a esquizofrenia. É uma entidade clínica multifacetada e com expressões afetivas no mínimo assombrosas. Além disso, ninguém sabe ao certo o que sente (ou sofre) um esquizofrênico. Seus afetos não se traduzem  num sentimento único  de estar doente. Para responder a essa “ignorância”  clínica,  os aparelhos de captura lançam mão da “necessidade de exclusão” como axioma. “Não sei  o que ele sente, daí nada posso  fazer senão excluir”. Não só  a exclusão   pela   via  do  hospital, mas a exclusão-sem-muros, a exclusão incluida em manuais técnicos e praticada como clínica do cérebro. Falamos de um modelo abstrato  que governa a psiquiatra e suas  práticas sem que  o psiquiatria  disso  saiba. Ele também  é  um  produto...
(...)
A.M.

SEBASTIÃO SALGADO

QUEM SOFRE?

Quando dissemos “ do mundo”, significa que a origem da  doença está  na  sensação de  si que  ele  experimenta, ao tempo em que o mundo  lhe devora, mesmo que  esse  mundo  seja, por  exemplo, um circuito sináptico  no interior do seu  crâneo. O mundo é o paciente  e vice  versa. Essa  é a  base  conceitual para se pensar  o  sofrimento  como  “sentimento do  mundo”ao modo  poético de  dizer. O  paciente recolhe do mundo afetos tristes que o destroem  por dentro. O eu,  um  artefato psíquico útil para a comunicação, é atingido. Ele  não  mais  coordena ações práticas  ou  o faz com dificuldade. Assim, surge a  pergunta  clínica: um  apragmatismo social se revela com que   afetos? O que sente  aquele que  rompeu  com os  códigos  sociais  vigentes? Sente-se  doente?
(...)
A.M.

domingo, 21 de outubro de 2012

O HOMEM URSO

TUDO SE MISTURA

“Pois em verdade-a cintilante e negra verdade que jaz no delírio- não há esferas ou circuitos relativamente independentes: a produção é imediatamente consumo e registro, o registro e o consumo determinam diretamente a  produção, mas a determinam no seio da própria  produção”.

 Deleuze, G. e  Guattari, F.,O  anti-édipo, Rio, Imago, 1976, p.18.

O HORROR DE LOVECRAFT

AVANÇOS DA CIÊNCIA

Um novo transtorno mental foi recentemente descoberto. O seu portador, quando se percebe sem celular, começa a sentir palpitações, suores frios, tonturas, ansiedade, cefaléia, sensação de isolamento social, vazio interior, humor hipotímico, medo do futuro, pressão nos ouvidos,entre outros sintomas..As entidades médicas encarregadas de elaborar a CID-11 já denominaram o distúrbio de TRANSTORNO DE AUSÊNCIA DO CELULAR (TAC). É uma patologia que não faz distinção de sexo, idade, raça ou nacionalidade. É universal. Antecipando a oficialização do Diagnóstico, um dos Laboratórios Farmacêuticos Internacionais iniciará  de imediato a fabricação e comercialização do remédio Celuloxetina - 50 mg.

A.M. 

O CANTO DOS PÁSSAROS

GOLPE BAIXO

O Movimento da Luta Anti-manicomial é visto em alguns meios psiquiátricos como objeto persecutório. Um pensamento malévolo faz  do  nome Luta Anti-manicomial a sigla  LAMA. Diz-se  “o pessoal da  lama”...

A.M.

PABLO PICASSO

Mulheres correndo na praia
A EXISTÊNCIA...

‘Trágico designa a forma estética  da  alegria, não uma  fórmula  médica, nem uma  solução moral da  dor, do medo ou da piedade”,

Deleuze, G., Nietzsche e  a filosofia,Rio, Ed. Rio,1976, p.14.


sábado, 20 de outubro de 2012

ANTI - HUMANISMO : OK

O DESEJO É ÓRFÃO, ATEU E ANARQUISTA

Mas, afinal de contas, o esquizofrênico tem um pai e uma mãe? Lamentamos dizer que não, que ele não os tem como tal. Ele tem somente um deserto e tribos que nele habitam, um corpo pleno e multiplicidades que nele se ligam.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari - do livro Mil platôs

NISE DA SILVEIRA

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A DOBRA SUBJETIVA

A experiência de ensinar é antes a experiência de aprender com os signos. Antecedendo à  partição significante-significado, o signo procede a uma violência constitutiva dessa experiência. Forçar a pensar, como diz Deleuze, é criar um campo tanto mais rico na emissão de signos. A função de professor dobra-se e desdobra-se na sua presença-ausência, descolando-se dos conteúdos e fazendo destes o móvel das práticas do pensar. A subjetivação deixa de ser centrada numa pessoa, seja a do professor, seja a do aluno, e constitui-se como ato de pensar por fragmentos do real.  Um pensar estilhaçado, atravessando campos do saber,  tal como um pássaro  bicando aqui e acolá os materiais necessários à produção de conceitos. 
(...)
A.M.

CARLOS LAMARCA

Uma paciente nada paciente, como se diz, usuária do Caps e  militante da luta anti-manicomial... perguntei-lhe: dá pra você escrever algo sobre a "loucura"? Então...

           "O que é Loucura"?
LOUCURA É :- Louco de cocaína,
                            Louco de cachaça,
                            Louco de maconha,
                              Flanelinhas,
                                    PT,
                                Eleições,
                     Brigadeiro, muitas coisas, maluco beleza;
                              Hi! Helo! "go Bannas".
 "Allen Ginsberg e Bob Dylan; sociedade onde cabem os loucos"
                     Só Freud explica a loucura.
                         Ass., AS LOUCAS

O ANTI - LIVRO

Isso funciona.
CÉREBROS À MÃO CHEIA


Há um ponto cego da psiquiatria: não enxergar que é uma instituição antes de ser uma especialidade.  É uma forma de relação social que  se consolidou  no século XIX na Europa e foi exportada para o resto do mundo. Toda  a psicopatologia desse  século foi trabalhada com o fim de lhe dar um suporte epistemológico. Até meados do século XX, com os  trabalhos de K. Jaspers, esse objetivo continuava  sendo buscado. Após o advento dos psicofármacos (1952) e nos anos  90 com as pesquisas neuro-cerebrais, o projeto fracassa. A psiquiatria passa a viver sem a psicopatologia que era por onde se produzia conhecimento.No século XXI ela caminha rapidamente para não ser mais que uma  técnica de manipulação de cérebros.

(...)
A.M.

STEVE SWALLOW e PAULO BELLINATTI

A NATUREZA DO PENSAMENTO

O positivismo organicista encarregou-se de situar o pensamento como uma espécie de secreção cerebral, para a qual acorrem  os médicos e fac-símiles, na ânsia de totalizar o organismo humano. Mas o pensamento não é totalizável, ele, o que circula em outros corpos além do humano, increvendo-se  em linhas irredutíveis a formas estáveis  ou árvores bem desenhadas. Aprendemos com Deleuze-Guattari que o pensamento “não é arborescente e o cérebro não é uma matéria enraizada nem ramificada (...) (...) muitas pessoas tem uma árvore plantada na cabeça, mas o próprio cérebro é muito mais uma erva do que uma árvore”  
(...)
A..M.

VILLA-LOBOS

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

VIAGENS DE MIGUEL


Miguel percebe o imperceptível. Opera num regime de signos fora das coordenadas adultas. Diante disso me sinto um completo idiota que, contudo, quer ser um ex-idiota. A hora é agora e Miguel me ensina o real com as dores alegres que lhe constituem. Óbvio, ele está crescendo. Isso se expressa, sobretudo, mediante linhas incertas do desejo. Na verdade, ele é o desejo em pessoa atravessando a minha vida. Argumento: "Miguel, assim não pode!" No entanto, de nada adianta o corte, o limite,senão o de produzir outros desejos que serão também cortados... a assim por diante. Nessa aventura pai-filho consigo dimensionar o para-além do familiarismo. Fluxos coletivos (multiplicidades) vêm, então, ao encontro de anseios mundanos e cósmicos. Os meus.  Miguel ao lado traz a  impressão de que a Vida é pura alegria e produtividade artística. Sem forma e sem retorno. Como um passarinho errante... 


A.M.

MARTHA ORTIZ


UM CISCO

“Em algum canto longínquo do universo difundido no brilho de  inumeráveis  sistemas solares, houve certa vez uma estrela na qual animais inteligentes inventaram o Conhecimento. Foi o minuto mais arrogante e mais ilusório da “história universal”, mas não foi mais que um minuto. Com apenas alguns suspiros da natureza a estrela se congela, os animais inteligentes logo morrem”   

F. Nietzsche

DIA DO MÉDICO - III

DIA DO MÉDICO - II

DIA DO MÉDICO - I


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Trapo, s.m.

Pessoa que tendo passado muito trabalho e fome
deambula com olhar de água suja no meio das ruínas
Quem as aves preferem para fazer seus ninhos
Diz-se também de quando um homem caminha para
nada

M. de Barros

DIFERENÇA E REPETIÇÃO

ACADEMIA  INTOCÁVEL

O Aparelho Universitário, onde, talvez, fosse (ou devesse) ser o lugar do Pensamento, na verdade, é bem mais uma peça pregada no coração dos súditos orgulhosos do capital. Professores e pesquisadores: Eles pensam que pensam, mas não pensam. Somente reproduzem ordens implícitas. Esta é a sua função. Mestres, doutores, pós-doutores, toda a galera arrogante dos condutores do "pensamento do real", adotam a estratégia do refúgio controlado aos fluxos do Acaso e às intempéries do capitalismo aparentemente vencedor. Todos, ou quase todos,  se protegem. Normal.  É claro que é preciso salvar a própria pele e se dar bem. O custo são as tetas dadivosas do Estado, sempre interessado em prover e promover justificativas honestas (financeiramente à altura, claro...) ao bem do cidadão. Mas o Estado é o monstro, como diz Nietzsche. Diante de tal disparidade de poderes, me recolho à insignificância dos esquizo-negativistas à pesquisa clínica da psiquiatria biológica, aquela mesma, vendida aos Laboratórios Farmacêuticos Internacionais. Nada a dizer. Tudo a fazer.
(...)
A.M.

O TEATRO MÁGICO

DEVIR CIENTÍFICO

(...) (...) Gostaríamos de propor passar da imagem biológica à geológica, porque aquilo que por nós foi descrito é antes da ordem do deslizamento que da mutação. Questões abandonadas ou negadas por uma disciplina passaram silenciosamente para outra, ressurgiram em um novo contexto teórico.
(...)
I. Prigogine e I. Stengers - do livro A nova aliança - metamorfose da ciência

DAVID SIQUEIROS

terça-feira, 16 de outubro de 2012

UM INCÔMODO NA VEIA

O buraco negro na concepção da esquizofrenia reside na idéia de uma Identidade do esquizofrênico de  onde emanariam  os sintomas.Uma transcendência  que seria a do  eu. Contudo, não  há identidade. Os sintomas são signos, multiplicidades. Eles sustentam um real impossível à  razão. Os sintomas são afetos, vivências dos sintomas ou de um sintoma. Todo sintoma chega carregado de intensidade e com um sentido.Uma subjetividade esquizofrênica é sobretudo  uma subjetividade em processo onde circulam intensidades fluidas, soltas e o sentido em produção e destruição  contínuas. Por  isso o esquizofrênico  incomoda a  Ordem. 
(...)
A.M.
"Minta, minta que alguma coisa fica."

J. Goebbels - Ministro de Propaganda de Hitler

NÃO DEIXARÃO VOCÊ EXPERIMENTAR EM SEU CANTO

O ovo dogon e a repartição das intensidades

CIENTISTAS IMPECÁVEIS: O PERIGO

P-  Vc critica a psiquiatria. Mas e  a produção neuro-científica?  Há muitos avanços...
R-  A produção neuro-científica não é  a  produção da psiquiatria. Esta utiliza produtos conceituais importantes para embasar a prática. Ok.  Mas o problema começa quando a prática se reduz a passar remédio. E mais: quando o paciente é pouco escutado. São dois problemas interligados: o passar remédio e a escuta.

A.M.

SAÚDE NO BRASIL

Palmeirina, 80 anos, morre no PAM, S. João do Meriti, Baixada Fluminense, por ter lhe sido injetado café com leite na veia.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

QUAL DEPRESSÃO?

O acréscimo de novos adjetivos ao substantivo “depressão”  é infinito, pois  as  depressões   são  uma  condição humana inscrita no processo vital. Ao mesmo tempo não existe uma identidade, um modelo de “ser humano”, a não ser o modelo outorgado pelos defensores do “humano” como  medida de todas as coisas, os humanistas. Dentro de tal paradoxo, existiria uma espécie de “matriz” subjetiva das depressões? Uma base,uma invariante, uma condição primária –seja  etiológica ou clinica - para o fenômeno depressivo? Ora, as vivências expressas por  pacientes   demonstram que  não. Não  há  A doença  “depressão”  e sim estados depressivos  inseridos em linhas existenciais concretas.É o que chamamos de síndromes.Estas, como as vivências,  precedem as depressões, conectando os estratos  físico-químicos aos  psíquicos  e  aos  coletivos.  Uma atitude trans-disciplinar se impõe na pesquisa. Do contrário o reducionismo  cientificista  vai exibir suas pinças  assépticas,  como no caso da psiquiatria  biológica. 
(..)
A.M.

DIA DO PROFESSOR - III


DIA DO PROFESSOR - II

DIA DO PROFESSOR - I

PSIQUIATRIA DEPRIMIDA

A ciência não é política apenas em função dos usos a  posteriori, mas, principalmente, no caso da  psiquiatria, pelos usos imediatos na relação com o paciente. A depressão bipolar (TAB)  é  um signo da doença médica a qual só um médico, óbvio, está  autorizado  a  tratá-la.  Os investimentos  (não só financeiros) no  biopoder  se expressam na produção de um cérebro-objeto apassivado  e congelado  por imagens diagnósticas.Teórico-experimental,  o método  cumpre a função de melhor  observar e compreender o funcionamento dos  circuitos cerebrais.  Ele  decalca a mente de um  universo neuronal visibilisável. Um novo dualismo (pós-cartesiano) se impõe.De um lado o cérebro. Do outro, o corpo-organismo. Trata-se de uma  psicopatologia neurobiológica ou uma patologia neurobiológica ou simplesmente uma patologia neurológica. É o assassinato da psicopatologia.A psiquiatria da depressão é a depressão da psiquiatria,ou seja, o desaparecimento  de  alguma vitalidade teórica (oriunda  do século XIX) sob a égide da neurociência e os  interesses da indústria  farmacêutica.Onde se originam  as depressões? Inverte-se causa  por efeito. A  neurociência entronizou uma psiquiatria das sinapses. É uma constatação prática. O cérebro de um artista, de um cientista, de um pensador, o cérebro de um apaixonado... não estão doentes, mas sofrem o efeito do universo em volta que os  constitui.Quem vem primeiro é o universo (=matéria), não o cérebro. Ora, o projeto  neurocientífico, em que  pese  as  limitações intrínsecas  ao  método,  é por demais interessante  para ficar   restrito e aprisionado à vontade de controlar da  psiquiatria.  
(..)
A.M.