sábado, 29 de fevereiro de 2020

Sem ninguém por perto

Admiro as plantas que vivem neste apartamento.
Sem água fresca, cortinas fechadas, pouca conversa.
Respeito estas plantas: pequenas, robustas, teimosas.
Sem ninguém por perto quando o sol castiga.
Sem quem abra a janela para entrar a brisa.
Sobre a mesa da sala, no banheiro, na varanda.
Em silêncio, orgulhosas.
Não morreriam a troco de nada.


Bruno Brum

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O HORROR À LOUCURA

O instrumento clínico da psiquiatria é a psicopatologia. Ou, pelo menos, deveria sê-lo. Sem a psicopatologia a intervenção sobre o paciente resume-se a julgar e controlar o seu comportamento. Por vezes reproduz uma ação policial. Em termos técnicos, a legitimação científica de tal violência conta com o uso de psicofármacos injetáveis. Seda o paciente e alivia o incômodo do técnico ao estilo magarefe. Trata-se  da psiquiatria do século XIX, atualizada com o nome de "biológica", cujo modelo opera explícito em manicômios, hospitais gerais e samus. Em contrapartida, os centros de atenção psicossocial (Caps) nascidos em 1986 com o objetivo, entre outros, de quebrar a razão dessa prática...

A.M.

AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.


Carlos Drummond de Andrade

VICTOR BAUER


MORRER É NASCER

Há duas semanas escrevi neste jornal um artigo sobre o colapso da esquerda nacional (“Como a esquerda brasileira morreu”) que foi objeto de vários comentários e críticas. Um dia após a publicação do artigo, o mesmo EL PAÍS publicou uma pesquisa que mostrava como, caso a eleição fosse hoje, Bolsonaro venceria em todos os cenários. Creio que tal coincidência seja uma boa resposta para quem procura desprezar a gravidade da situação.

De toda forma, gostaria inicialmente de agradecer grande parte das críticas que recebi. Mesmo sendo as vezes duras, muitas levantaram questões absolutamente relevantes que me levaram a considerar pontos que não havia relevado. Há outra parte de críticas que se compraz em abusar de certos estereótipos que apenas mostram mais sobre o espírito de quem fala do que sobre o objeto analisado. Não há como responder a este grupo. Gostaria pois de levar em conta algumas das críticas relevantes a fim de dar sequência a um debate que creio ser necessário prosseguir.

Primeiro, alguns creem ser sintoma de melancolia e “desabafo” falar em morte da esquerda nacional. Até mesmo ironias a respeito do fato de eu ter anteriormente insistido no esgotamento de outros processos históricos, como a Nova República e os acordos imanentes à democracia liberal foram levantados como marcas de uma fixação necrofílica. Bem, não é de hoje que se insiste haver em certos setores desse país uma espécie de déficit de negatividade, ou seja, certa dificuldade estrutural de assumir a necessidade de afirmar esgotamentos, recusas e términos (se alguém ainda está disposto a afirmar que a Nova República vive, por exemplo, eu realmente gostaria de saber onde os argumentos foram encontrados).

Lembraria que clinicamente “melancolia” é exatamente a incapacidade de se liberar da fixação a objetos perdidos, não a decisão de se recusar a carregar o que está morto. Por mais que alguns se comprazem com as máscaras da euforia, há mais melancolia neste entusiasmo do que poderia aparentar. É, na verdade, sintoma de melancolia não encarar as derrotas quando elas ocorrem, não querer ir até o fundo das derrotas a fim de compreender sua real extensão. Contra essa leitura, há de se lembrar que, em uma vida, morre-se várias vezes. Um dos piores erros é acreditar que só se morre no fim. Morre-se várias vezes e esta é, muitas vezes, a condição de realmente continuar e se transformar.

Nesse sentido, afirmar que a esquerda nacional morreu não é expressão alguma de prazer infantil de contenda. Antes, é fruto da compreensão de que a sobrevivência da esquerda nacional depende do reconhecimento de sua morte. Dizer claramente “nós morremos” é a primeira condição para nos livrarmos do que nos matou. Quem se recusa a pensar dialeticamente nessas circunstâncias desconhece a dinâmica de processos históricos. E nossa morte não foi apenas um acidente externo, ela tem causas internas. O jogo do “estamos sendo atacados por fascistas, agora não é hora de assumir nossa auto-crítica” é suicida, é o verdadeiro suicídio. Se o fascismo nacional voltou, se ele teve força para voltar, foi porque ele foi o primeiro a sentir o cheiro de nossa morte. De toda forma, em uma época em que até Armínio Fraga se diz de esquerda, o melhor a fazer é dizer que ela morreu, para poder salvá-la.

Diria ainda que há um fenômeno brasileiro aqui. Não creio ser correto colocar a conta do colapso da esquerda nacional na conquista do imaginário social pela indústria cultural, pela sociedade de consumo e suas formas de regressão. Esse diagnóstico já existia desde os anos cinquenta pelas mãos dos frankfurtianos e muita coisa ocorreu depois. Por outro lado, sendo esse fenômeno algo mundial, seria difícil explicar por que a esquerda reabre caminhos promissores no Chile, mostra-se viva no Líbano e, pasmem, começa a levantar a cabeça nos EUA.

Mas poderíamos nos perguntar se estamos realmente diante de uma morte, ao invés de uma simples derrota. Gostaria de insistir que o que ocorre agora não é simplesmente uma derrota. É o esgotamento de um ciclo hegemônico que se confunde com a história da esquerda nacional. A esquerda já conheceu várias derrotas, mas nunca conheceu um esgotamento semelhante a este. Nossas derrotas eleitorais, ou mesmo nossa derrota histórica diante do golpe de 64, não implicaram na incapacidade de projetar alternativas globais no futuro. A esquerda nacional conseguiu preservar durante décadas essa força de projeção, levando setores expressivos da sociedade a sonharem com um futuro radicalmente distinto do presente. Quando, ao contrário, nosso horizonte de expectativas foi submetido a uma retração cada vez maior (tema tratado inicialmente por Paulo Arantes), ficou claro que estávamos a entrar em algo de outra natureza. O nome desta “outra natureza” chama-se, infelizmente, “morte”.

Neste sentido, não é correto falar de precipitação, como se afinal estivéssemos jogando a toalha depois de apenas um ano de Governo Bolsonaro. Primeiro, não se trata de jogar toalha alguma, mas de saber qual o trabalho crítico necessário para não nos satisfazermos com ações desprovidas de força efetiva. Segundo, não se trata de algo ligado ao Governo Bolsonaro, mas à incapacidade da esquerda nacional reagir com uma mobilização compacta de ações, práticas de governo e conceitos que apontem efetivamente para uma sociedade globalmente distinta dessa que vemos no presente. Qual é a política econômica alternativa da esquerda nacional? Qual seu horizonte de reconstituição institucional? Nada disso é claro e nós nos recusamos a aprofundar tais debates.

É sabido que muitos se insurgem contra o uso de palavras no singular. Esses insistem que sempre houve “esquerdas”, que não faz sentido algum em falar do destino de alguma entidade quase dotada de unidade metafísica como a “esquerda”. No entanto, há um precisão necessária aqui. Ninguém negaria que a história da esquerda nacional é múltipla e internamente conflituosa. Mas isto não significa a inexistência de um modelo hegemônico que não apenas incarna-se periodicamente em múltiplos atores distintos, mas que organiza todos os outros a partir da relação a si, produzindo dois movimentos possíveis: a aproximação articulada que reforça o campo hegemônico (como um planeta que atrai corpos menores) ou o distanciamento que equivale a assunção de uma posição radicalmente minoritária. A história da esquerda brasileira realmente se confunde com os modelos de governabilidade e mobilização próprios ao populismo de esquerda. Este populismo não conseguirá mais ser reeditado porque agora temos um fascismo popular produzido pela duplicação do tipo de liderança que o lulismo representou. A tentativa de reeditar seus modelos heteróclitos de aliança não é astúcia de governabilidade. É só a expressão de que o que faremos é o que já fizemos, que nosso futuro é igual nosso passado. É possível desconfiar desse diagnóstico vendo nele apenas a milésima reedição do mantra uspiano contra o populismo. Algo que expressaria o verdadeiro DNA anti-varguista do setor paulista da intelectualidade nacional, setor no fundo impulsionado pela nostalgia da perda da hegemonia paulista na política brasileira. No entanto, seria intelectualmente mais honesto compreender esta longa luta contra o populismo como o sintoma da consciência do sistema de paralisia que aprisiona as forças transformadoras deste país há décadas, como o sintoma do movimento de repetição histórica que nos subsume (mesmo que seja verdade que há impactos regionais distintos da mesma política, como mostra Patricia Valim, e isto precisa ser melhor pensado). Um sintoma que ganhou realidade mundial a partir do momento que várias forças de transformação no mundo assumiram para si estratégias populistas de esquerda. Eu mesmo acreditei, no passado, que elas poderiam ser localmente úteis em casos como na Grécia (Syriza) e Espanha (Podemos). Há de se reconhecer atualmente que os resultados foram decepcionantes. Ninguém precisa de uma versão hypster do PSOE ou de uma esquerda que finge fazer consultas populares para depois esquecê-las.

Isto não significa dizer que não há lutas, que as lutas atuais não são decisivas e importantes. Todos nós estamos envolvidos em várias lutas, em várias frentes, em um ritmo muitas vezes frenético. Todas elas são grandiosas. Mas a questão é outra. As múltiplas lutas não conseguem mais entrar em um processo de acumulação e unificação. Elas não entram em constelação. Conseguimos colocar um milhão de pessoas nas ruas em defesa da educação pública, mas não há sequência. Não há dia seguinte, não há acúmulo de lutas e, com isto, capacidade de bloquear as políticas destrutivas do governo. Um milhão de pessoas na rua transforma-se em uma resistência pontual. Seria o caso de se perguntar a razão para tanto.

Isso nada tem a ver com alguma contraposição entre luta de classe e lutas por reconhecimento (que alguns infelizmente insistem em chamar de “lutas identitárias”). É verdade que há os que, de forma equivocada, insistem na pretensa morte da “velha” esquerda ligada à centralidade do trabalho e da luta global contra o capitalismo. Mas temo que, em um momento histórico no qual assistimos a intensificação dos regimes de trabalho e o achatamento geral dos salários, falar que o trabalho perdeu sua centralidade e relevância só pode ser fruto de um delírio acadêmico que alguns compram como a última moda.

Se há algo que as manifestações vitoriosas no Chile mostram bem é que lutas de reconhecimento como as lutas feministas, indigenistas, anti-racistas são um desdobramento necessário e decisivo da luta de classe. Elas são figuras da luta de classe. Não há contraposição alguma aqui, a não ser no sonho macabro de alguns liberais (assumidos ou não) que querem retirar dessas lutas sua potência efetiva de transformação global. Concretamente, isto significa, por exemplo, que a derrota na luta contra a reforma da previdência é, imediatamente, uma derrota da luta anti-racista. Pois são os negros e negras um dos setores mais espoliados e precários do mundo do trabalho. São elas e eles que sentirão de maneira mais forte as consequências dessas políticas de concentração e destruição dos direitos trabalhistas. As derrotas na flexibilização dos direitos trabalhistas são derrotas da luta feminista, pois as mulheres serão as primeiras a sentir de forma violenta o significado de tal “flexibilização”. O que o Chile nos mostrou é que, por exemplo, a luta feminista demonstra sua força máxima quando ela expõe sua dimensão de luta de classe contra o modelo econômico que nos destrói.

Ou seja, o fato de que a multiplicidade das lutas no Brasil não consigam convergir em um campo comum de combate às forças que espoliam os 99% é um signo fundamental da atrofia que ocorre quando um modelo hegemônico morre. Pois isto ocorre devido ao fato da esquerda brasileira ter usado, até agora, as lutas de reconhecimento de forma compensatória. Como ela não tem nenhum horizonte concreto de transformação econômica, como ela teme dizer em alto e bom som que é anti-capitalista, como ela é a última a realmente defender a necessidade de refundação da institucionalidade política nacional, como ela não consegue criar estruturas e organizações que sejam radicalmente democráticas, como ela não consegue mais criar solidariedade genérica com aqueles que “não são como nós”, a esquerda nacional se viu obrigada a expor de forma isolada o único setor no qual ela tem capacidade de transformação, a saber, este ligado às dinâmicas sociais de reconhecimento. Assim, ela acabou por limitar a força efetiva dessas lutas.

Isso não significa estar fixado em um paradigma de ação revolucionária que seria, ao mesmo tempo, inefetivo e perigoso. De toda forma, é realmente engraçado como vivemos em uma era de sinais trocados. A extrema-direita no mundo inteiro não teme em dizer que estão a lutar por uma “revolução” que possa dar ao povo a voz que eles nunca tiveram. E, com esta revolução conservadora, eles ganham eleições que constroem adesão popular real. Só certos setores hegemônicos da esquerda acredita que isto é uma conversa de centro acadêmico ou que a verdadeira revolução é esta de novas subjetividades que estaria pretensamente a ocorrer enquanto a espoliação é cada vez mais brutal e o horizonte anti-capitalista encontra-se, em larga medida, recalcado e vergonhosamente intocado.

Por fim, seria o caso de levar em conta as acusações de que intervenções públicas desta natureza são contra producentes porque não indicam caminhos concretos a serem seguidos, por se contentarem com chamados abstratos a “rupturas”. É difícil ouvir tais colocações sem lembrar de dois fenômenos. Primeiro, essa luta contra as “ideias abstratas” era, na verdade, um tema conservador. Lembrem, por exemplo, de Edmund Burke a discursar contra as “ideias abstratas” de igualdade vindas da cabeça de filósofos ociosos que acabaram por criar caos revolucionário no mundo do final do século XVIII e começo do XIX. Ou seja, a história demonstra, e isto os conservadores sabem muito bem, que “abstrações” tem muito mais força do que alguns estão dispostos a acreditar. Seria melhor que os setores progressistas da sociedade brasileira parassem de mimetizar o anti-intelectualismo dos conservadores.

Segundo, peço licença para lembrar do que aconteceu um dia com Sigmund Freud. Diante de uma paciente histérica, que passou a história com o nome de Dora, Freud não teve ideia melhor do que dizer a ela o que ela realmente desejava, esperando que isso a levasse a suspender sua forma de destruir seu próprio desejo. O resultado não poderia ser outro que um fracasso. Dora não precisava de alguém para dizer o que fazer ou para enunciar seu próprio desejo. Ela precisava de alguém que pudesse ajudá-la a produzir um processo que lhe permitisse alcançar por si mesma a enunciação de seu desejo. Ao falar em seu nome, Freud destruiu toda possibilidade de experiência para Dora. Lembro disso apenas para insistir que não há sentido algum em enunciar “propostas” em artigos de jornal. Não é de propostas que necessitamos, mas de processo. Ou seja, de um processo aberto que permita a implicação popular na constituição coletiva de um campo de ações concretas de governo. É ele que nos falta. Nos falta suas estruturas, seu tempo, suas transversalidades.

A cada dia que passa, fica mais claro que o Brasil é um laboratório mundial para um modelo de articulação entre neoliberalismo e fascismo. O termo “fascismo” não é, aqui, uma concessão retórica. Ele é o nome de um processo em curso que paulatinamente ganha forma. Um processo dessa natureza só pode ser parado de duas formas: através de uma catástrofe (como uma guerra) ou através da consolidação de uma real força de contraposição radical. Uma força que possa contrapor à revolução conservadora uma revolução real. Mas, para tanto, essa força precisa atuar na duas frentes que sustentam o modelo, ou seja, ela precisa desmontar o necroestado que agora não tem medo de dizer seu nome nem de esconder suas técnicas reais. Necroestado que vulnerabiliza os mais vulneráveis, que elimina os que nunca foram realmente reconhecidos pela sociedade brasileira como sujeitos. Mas ela precisa também destruir o modelo econômico que o financia e necessita dele para amedrontar a sociedade enquanto garante ao sistema financeiro nacional lucros nunca dantes vistos na história deste país. Os mesmos grupos, bancos e empresas que atualmente aplaudem a política econômica em curso fingindo não ver a violência e a destruição próprias a esse Governo são aquelas que há quarenta anos atrás forneceram dinheiro para a ditadura montar aparatos de crimes contra a humanidade, tortura, desaparecimento e estupro. Ou seja, não é exato dizer que eles são indiferentes à violência estatal. Na verdade, eles sabem muito bem que necessitam de tal violência para conseguir os lucros que hoje recebem. Sem ela, a sociedade se voltará contra os interesses de sua elite rentista e seus operadores.

Mas essa força que usa a organização compacta e a imaginação política convergente para traçar um horizonte de desejos e lutas para fora do capitalismo, digamos claramente, ainda não existe. Ela só existirá se aceitarmos fazer o luto de nós mesmos, o luto do que fomos até agora.


Vladimir Safatle, El País, 27/02/2020, 10:00 hs

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

IVALD GRANATO


UMA ESTRANHA ESPECIALIDADE 

O que é involuntariedade em psiquiatria? É o fato do paciente não se achar doente, não se perceber como um doente, não se sentir doente, e, portanto, não querer tratamento. A aproximação de um técnico que lhe ofereça ajuda (talvez um psiquiatra) lhe provoca rechaço, negativismo, indiferença, ou até hostilidade/agressividade. Este é um dado muito comum observado no campo da psicopatologia clínica, o qual, entre outros efeitos concretos, atesta a insuficiência do modelo biomédico nas práticas de saúde mental. Citando ao acaso, é possível incluir os quadros de transtornos da personalidade, dependências de drogas, demências graves, retardos mentais, psicoses de variadas etiologias e semiologias (com sintomas positivos ou negativos, em especial as esquizofrenias), delírios sistematizados crônicos, transtornos do humor  (formas de mania excitada e mania psicótica, e até mesmo depressões), entre outros quadros mal diagnosticados, com diagnóstico obscuro, ou até sem diagnóstico. O essencial a considerar é que a maioria não quer tratamento, nem sabe do que se trata, ou do que se passa. Ora,  como é possível que exista uma especialidade médica cujos pacientes não apenas não querem tratamento, como também não se sentem doentes? Na maioria dos quadros arrolados, a busca de tratamento é, sim, da família, ou dos que estão à volta (amigos, colegas, vizinhos, etc) e não do próprio paciente. Por que?

A.M.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Mundo pequeno

IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos de
um mar extinto. Caminha sobre as conchas dos
caracoes da terra. Certa vez encontrou uma voz sem
boca. Era uma voz pequena e azul. Não tinha boca
mesmo. “Sonora voz de uma concha”, ele disse.
Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: “Aromas de tomilhos
dementam cigarras”. Conversava em Guató, em
Português, e em Pássaro.
Me disse em língua-pássaro: “Anhumas premunem
mulheres grávidas, três dias antes do inturgescer”.
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
“Borboletas de franjas amarelas são fascinadas por
dejectos”. Foi sempre um ente abençoado a garças.
Nascera engrandecido de nadezas.


Manoel de Barros

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

SOBRE A DIFERENÇA

Pergunta-se o que é a diferença.  A diferença não é o indivíduo, não é a pessoa, não é algo fixo e estável onde se possa ancorar o corpo e a alma exaustos. Nem tampouco ver, assuntar, medir, pesar, adjetivar, qualificar. Ela não é do campo do substantivo nem do adjetivo, nada tem a ver com alguma substância dura, pétrea, imóvel, formatada em ideais de valor de troca. Nada a ver com a troca, pilar e essência do capital em seu cortejo mortuário. Ela não é o ser-diferente, até porque não há o ser. Não é o estranho-em-nós. Já somos de antemão  e suficientemente estranhos, estranhos a nós e ao mundo. Não há cálculos para identificá-la. Quando há, dão sempre errado, as contas não fecham, tudo se frustra e se decompõe. Ao inverso e bem mais além aqui mesmo, há somente corpos, corpos de corpos, corpos no interior de corpos, devires, processos, passagens, relâmpagos, vertigens, intensidades, frêmitos, respirações, ardores, ardências, nomadismos, viagens anômalas no mesmo lugar. Da diferença não se alimenta o narcisismo porque não existe o narcisismo num universo terráqueo, o dela, este sim, verso encantado, encantador e cantador em estradas desertas. A diferença é o bicho. Não tem forma, não é identificável pela percepção de representações exatas ou imagens-clichês. A diferença é o bicho na espreita. Percorre o mundo em linhas finas de sensibilidade. Com delicadeza foge de todos os dualismos, de todos os títulos, de todas as hierarquias, de todos os senhores, de todas as pátrias, de todas as pretensões e boas intenções da racionalidade, da consciência e do pensamento da autoridade, mesmo a mais admirável e mansa. Brinca com o poder, com a morte e com o amor. Faz disso a própria natureza do seu percurso invisível e silencioso pelos caminhos desconhecidos do Encontro. Composta de multiplicidades ingênuas e encravada na irreversibilidade do tempo, se tece e se faz inglória e pura. Mas quem a suporta?

A.M.

GRANDES ESCRITOS


A constância é contrária à natureza, contrária à vida. As únicas pessoas completamente constantes são os mortos.

Aldous Huxley
MULTA DE 9 MILHÕES E MEIO DE REAIS

O sargento Manoel Silva Rodrigues, da Força Aérea Brasileira (FAB), aceitou nesta segunda-feira uma pena de seis anos de prisão e multa de dois milhões de euros (9,5 milhões de reais) num julgamento por tráfico internacional de drogas realizado em Sevilha. Rodrigues foi preso pela Guarda Civil espanhola com 39 quilos de cocaína em três malas, quando participava da tripulação de um dos aviões da FAB usados pela comitiva do presidente Jair Bolsonaro, no que seria uma breve escala rumo a Osaka (Japão), afinal cancelada. As investigações da Guarda Civil apontaram que ele pretendia vender a droga a um intermediário em Sevilha, no sul da Espanha.

A cocaína, embalada em 37 tabletes distribuídos em uma mala, uma bolsa para ternos e uma mochila, tinha pureza de 80% e um valor de mercado estimado em 1,4 milhão de euros (6,65 milhão de reais), segundo os especialistas policiais. “A pessoa que me entregou isso no Brasil me disse que seu destino era a Suíça e que eu devia trazê-la para a Europa (…). Eu estava passando por dificuldades econômicas. Estou há 20 anos na FAB e nunca tive nenhum processo, mas um militar no Brasil não tem um salário bom. Sempre compro coisas nas minhas viagens, como celulares, e as revendo para ganhar um extra”, alegou Rodrigues durante o julgamento na Audiência de Sevilha, que proferiu a sentença.

O sargento, alvo de um processo interno que pode resultar na sua expulsão da FAB, contou que deveria entregar a droga a um desconhecido num hipermercado Alcampo de Sevilha, na tarde de 25 de junho. “Tinha que ir com roupa de camuflagem, com uma camisa verde, e a outra pessoa me conheceria por uma foto. Marcaríamos no Burger King, e ele me faria um gesto (…). Foi a primeira e única vez em minha vida que fiz uma coisa errada dessas”, afirmou o militar, que se disse “profundamente arrependido”. “Peço perdão ao Estado e ao povo espanhol por colocar isto em seu país (…). O castigo é justo”, acrescentou, segundo a agência EFE. O militar, em prisão preventiva desde sua detenção, pretende cumprir a pena na Espanha e depois retornar ao seu país para estar com sua família, segundo afirmou no julgamento.

Os guardas civis do controle alfandegário do aeroporto sevilhano abriram as malas do militar porque, ao passar no controle de raios X, Rodrigues disse que estava levando queijos. “É proibido introduzir alimentos de origem animal de países de fora da União Europeia”, observou um dos agentes no julgamento. “Os tijolos com a droga estavam empilhados como uma enciclopédia”, explicou de forma gráfica.

O Ministério Público de Sevilha inicialmente pediu uma pena de oito anos de prisão e quatro milhões de euros de multa, mas reduziu o pedido para seis anos e dois milhões porque o militar admitiu os fatos e mostrou arrependimento. O promotor do caso salientou que o militar processado lhe pareceu “sincero”. As investigações para averiguar o destino final da droga não deram resultado. O sargento provavelmente se declarará insolvente para evitar a multa imposta pela Sétima Seção da Audiência de Sevilha.

Javier Martín Arroyo, El País, Sevilha, 24/02/2020, 11:41 hs
A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não!
Este eu mesmo carrego!


Paulo Leminski

POR QUE?

Fotografia: John Florea

O que eu gosto do teu corpo...

O que eu gosto do teu corpo é o sexo.
O que eu gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boca é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.


Júlio Cortázar
A DIFERENÇA NA SAÚDE MENTAL - VIII

Conforme a diferença, o diagnóstico psiquiátrico é funcional e não essencial. Isto significa dizer que a pergunta-chave passa a ser: a quem ou para que serve tal diagnóstico? Ora, a psiquiatria tem ao seu dispor um manancial extensíssimo de diagnósticos. Eles compõem um sistema de registro de sintomas. Objetivam um controle sobre os corpos e as mentes. Tudo, claro, com respaldo jurídico e institucional.  Por outro lado, a diferença em saúde mental vai na contra-corrente. Não que traga uma verdade pronta para se opor à verdade da psiquiatria. Nada seria mais tosco. Ao contrario, a diferença não usa o conceito de verdade, e sim o de criação. Neste sentido a prática da diferença em psicopatologia se caracteriza pelo ato de experimentar o novo, inventar, arriscar. Adota o critério da ética pela vida e da estética dos corpos em relação. Em outros termos, a diferença na psicopatologia é a clinica da diferença! Ai a potência de cuidar do outro (e de si mesmo) se traduz numa ética de viver. E que o Encontro com o outro (não só a pessoa do paciente, mas o mundo) expresse um estilo singular de captar signos (mesmo os terríveis) e transformá-los em arte. A diferença é produção de arte.

A.M.

1917 - direção de Sam Mendes, 2019

LIVRES PARA OBEDECER

Os nazistas não eram extraterrestres. Eram homens e mulheres de carne e osso, como nós. Não exatamente monstros. São nossos contemporâneos. Como escreve o historiador francês Johann Chapoutot em referência a uma figura do nacional-socialismo que depois prosperou na democracia, algumas biografias “têm quase o valor de uma parábola para ler e entender o mundo em que vivemos”.

O estudo daqueles 12 anos – entre 1933 e 1945, quando Adolf Hitler tomou o poder na Alemanha, perseguiu as minorias, iniciou a Segunda Guerra Mundial, tentou e quase conseguiu o extermínio total dos judeus da Europa e terminou com a derrota e a destruição de seu país – é inesgotável. E na França, que foi ocupada e colaborou com a Alemanha de Hitler, um enfoque recente é a exploração da atualidade do nazismo. O último exemplo é o ensaio de Chapoutot, Libres d’obéir. Le management, du nazisme à aujourd’hui (Livres de obedecer. A gestão de empresas, do nazismo à atualidade, sem tradução ao português, publicado em francês em janeiro pela editora Gallimard).

É um livro breve, denso, escrito com energia e documentado: 142 páginas de texto, 18 de bibliografia e notas. Conta a história de Reinhard Höhn (1904-2000), um respeitado jurista e historiador militar, e general das SS. Com o fim da guerra, e após um breve período de ostracismo, fundou a escola de negócios de Bad Harzburg, na qual se formaram as elites empresariais da República Federal da Alemanha (RFA). E assim contribuiu decisivamente para modelar o capitalismo alemão do pós-guerra.

Libres d’obéir não é uma biografia de Höhn, e não é uma tentativa de demonstrar que a gestão empresarial tem origens nazistas, o que seria falso, de acordo com o autor, pois já existia várias décadas antes. É uma análise pormenorizada, através da figura de Höhn, da continuidade entre os métodos organizacionais do nacional-socialismo – métodos e ideias que Höhn teorizou antes da guerra – e o mundo empresarial e o liberalismo econômico contemporâneos.

Chapoutot desmente um lugar comum: que o totalitarismo nazista era estatista, ou seja, que dava um papel preponderante ao Estado. Afirma o contrário: que o Estado se identificava com um velho mundo burocrático e estrangulado. E que era a superação das regulamentações absurdas e a liberação das forças criativas da comunidade o que, em uma luta darwinista, permitia o triunfo da Alemanha. Essa ideia teve uma tradução administrativa: a criação de inúmeras agências públicas que, fora do mamute estatal, competiam entre si. E se traduziu em uma nova organização do mundo trabalhista que procurava combinar os objetivos rígidos com a flexibilidade e a autonomia para aplicá-los.

Höhn, ideólogo da administração alemã sob o nazismo, voltou a sê-lo a partir dos anos cinquenta na Akademie für Führungskräfte, por onde passaram 600.000 dirigentes das principais empresas do país. Caiu em desgraça nos anos setenta, com a revelação de seu passado e o surgimento de novos métodos de gestão, mas sua marca não desapareceu. Ele continuou ativo até os anos noventa.

O método de Bad Harzburg prescrevia “a administração por delegação de responsabilidade”, escreve Chapoutot. O funcionário não era um “subordinado” e sim “um colaborador”, “uma pessoa que age e pensa de maneira autônoma”, acrescenta citando Höhn. E o coloca em relação com o chamado “ordoliberalismo” e a “economia social de mercado” da RFA. E com um de seus pilares: a Mitbestimmung ou decisão em conjunto, que permite aos trabalhadores ter voz na gestão da empresa: a busca do consenso – e do consentimento do súdito ou governado, a “liberdade de obedecer” do título – é essencial, segundo o autor, tanto antes como depois da guerra.

A operação de Chapoutot – se fixar em um detalhe, amplificá-lo com lupa e mostrar a “contemporaneidade” e “modernidade” do nazismo – é semelhante à feita por Éric Vuillard no romance A Ordem do Dia, premiado com o Goncourt. Vuillard se debruça sobre uma cena: a reunião, em 20 de fevereiro de 1933, entre Hitler e os principais empresários alemães. Muitas dessas empresas não desapareceram entre as ruínas de 1945. “Não podemos achar que tudo isso pertence a um passado distante”, escreve Vuillard. E diz que o filho de um dos próceres de 1933, Alfried Krupp, “se transformará em um dos homens mais poderosos do mercado comum, o rei do carvão e do aço, o pilar da paz europeia”.

Vuillard é um romancista sutil, um estilista habilidoso e Chapoutot, um historiador rigoroso e respeitado. Poucas semelhanças com Philippe de Villiers, figura destacada do soberanismo eurocético, criador do parque histórico Puy du Fou e autor do ensaio J’ai tiré sur le fil du mensonge et tout est venu (Puxei o fio da mentira e tudo veio, não traduzido ao português, publicado em 2019 em francês pela Fayard). Seu registro é outro. Tenta desacreditar o projeto europeu e, para isso, denuncia – entre meias verdades e mentiras, como disseram vários historiadores no Le Monde – os pais fundadores da União Europeia como ex-nazistas e colaboracionistas (Walter Hallstein e Robert Schuman) e agentes da CIA (Jean Monnet). “O gene de desconstrução que enfraquece a União Europeia estava no DNA dos pais fundadores”, declarou ao Le Figaro.

Com rigor e estilo, e utilizando interpretações enviesadas e próximas às teorias da conspiração, aflora um traço comum: a associação de ideias mais ou menos explícitas, entre o mundo de ontem e o de hoje, entre o nazismo e o liberalismo, entre o nazismo e a UE.

Marc Bassets, El País, Paris - 23/02/2020, 15:39 hs



sábado, 22 de fevereiro de 2020

CEARÁ VIOLENTO

O Ceará registrou, pelo menos, mais 22 homicídios entre a tarde de sexta-feira (21) e a manhã deste sábado (22), em meio à paralisação de policiais no estado. Com isso, sobe para 73, no mínimo, o número total de assassinatos contabilizados no estado durante o motim dos agentes de segurança, que teve início na terça-feira (18). Neste quinto dia de movimento, batalhões em Fortaleza, na região metropolitana e no interior permanecem fechados e com PMs amotinados.
(...)

Por G1 CE, 22.02/2020, atualizado há 52 minutos

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Os homens são da Terra, as mulheres são da Terra. Lidem com isso.

George Carlin

Por Acaso no Rival - João Bosco e Hamilton de Holanda (Parte 1/5)

O PÊNALTI : TRISTEZA E JÚBILO

Este é um lance mortífero. Todos o desejam a favor do seu time, claro. Ou o temem. A qualquer hora do jogo, o pênalti acontece como uma dádiva ou um castigo. Dá até para se ouvir o grito escandido da torcida: “ É PÊÊÊÊ-NAL-TI ! ”, mesmo quando não foi e ao mesmo tempo foi. Pois bem, o pênalti, afinal, foi pênalti (pelo menos segundo a lei do juiz) e marcado em cima do lance. Por alguns minutos, o alarido da multidão constitui o preâmbulo sonoro do que está por vir, espécie de anti-clímax. Quem vai bater? Não o presidente do clube, como sugere Nelson Rodrigues, mas um “simples” jogador, o eu-responsável sobre o qual irão pesar todas as energias, positivas ou negativas (“vai fazer, vai perder”). Alguns preparativos rápidos: ninguém deve ficar na grande área, senão o batedor. Sob os três paus, o goleiro, quase sempre assustado. Na verdade, os dois protagonistas estão assustados. Creio que o goleiro carrega uma certa leveza de consciência. Se está em nítida desvantagem (a chance é muito maior de haver gol), em compensação o goleiro pode encarnar um "franco atirador", no sentido de que que está desobrigado de defender o chute. Se defender, será um herói. Se não conseguir, ora, seria muito difícil, tá desculpado. Desse modo, a torcida aceita melhor uma não-defesa do que um não-gol após efetuada a cobrança. Na cena do pênalti, há mil personagens. Entre elas: 1- o batedor; 2-o goleiro;  3-a torcida do time beneficiado; 4- a torcida do time penalizado; 5- o juiz e 6-outros : o amante do futebol pelo futebol, o gandula, o repórter ou o câmera atrás do gol, o torcedor ouvindo pelo rádio fora do estádio, vendo pela TV, etc. Não há como explorar tantos afetos. Fiquemos nos cinco primeiros. O batedor, claro, está como que atado às circunstâncias do jogo. Observemos que uma decisão por pênalties (critério de desempate) é completamente diferente de um pênalti no meio do jogo. Que seja esse último. O batedor encarna o suspense coletivo. Nos seus pés e mente, a ação inicial que tornará possível a resposta definitiva à pergunta: “foi gol?” Ele tem sete metros à frente e um obstáculo sombrio. Há muitas manhas nesse momento. A história do futebol é pródiga em descrevê-las. O que nos parece essencial (e óbvio) no batedor é a vontade de colocar a bola lá dentro.  Talvez enfiá-la junto com o goleiro, se o chute for tão forte que o empurre. Mas, o que acontece em geral é a bola ir no canto ou no cantinho. Na "gaveta" é mais difícil porque arriscado. Certos batedores dirão que mais vale o tiro forte. Há outras manhas sutis (como, por exemplo, observar o movimento prévio do goleiro: pra que lado vai cair? ou a clássica "paradinha" que exige boa dose de técnica). De qualquer modo, o batedor é um homem angustiado que quer resolver logo isso. Carrega mais pressa que o goleiro devido ao peso da responsabilidade. Tudo tem que ser rápido. Bater logo, fazer logo, comemorar logo! Quanto ao goleiro, está “abandonado” sob o seu arco, vulnerável e pronto a aceitar o que vem de lá, a bola e o chute. Pegar um pênalti é uma sensação indescritível, demonstração de força, potência. Há goleiros que ficam em transe, saem de si, batem forte no peito, sentem-se guerreiros, viajam pelas estrelas, agradecem aos deuses, a Deus, aos céus, a tudo que os transcende. Berram e correm como loucos. Compreensível: ele, que é um personagem maldito (não pode falhar em nenhum momento)  assume agora o poder do milagre. Este é um instante que jamais deverá ser esquecido, o da DEFESA, ainda que, por vezes, a bola possa apenas ter roçado em sua perna e ido pra fora. Que importa, se não entrou?Continuando, temos a personagem Torcida 1: ela deseja o pênalti convertido em gol, e entra num suspense atroz, só quebrado pelo apito do juiz e o desfecho do lance. A Torcida 1 explode num grito de gol ou num lamento gutural, expressando a enorme frustração do GOL QUE NÃO VEIO. A outra, a Torcida 2, a que não quer o pênalti convertido, explode de alegria pela perda do gol fácil, ou murcha de pronto devido ao gol do adversário. São imagens duplas em espelho, refletindo um binarismo torcedor. É uma organização “essencial” do espetáculo que estanca no momento do chute fatal. Por fim, temos o juiz, a  “última” personagem da Cena trágica. Ora, para ele, o pênalti só é complicado quando a marcação foi duvidosa (pareceu falta, mas não foi, dentro da área ou não, simulação, etc). O ato em si de ordenar a cobrança da falta máxima é simples e fácil para o árbitro. Quanto às outras personagens, encarnam afetos conhecidos, desconhecidos, bizarros e inomináveis, já que acolhem os efeitos do gol ou do quase-gol numa euforia ou num lamento insondáveis. É o futebol, É O FUTEBOL, meu caro, por tudo isso e muito mais, o mais belo esporte jamais inventado.

A.M.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

LOUI JOVER


A  PSIQUIATRIA REJEITA A LOUCURA

Chamamos caos de loucura. Ou vice-versa.Os sintomas constituem transtornos (ou síndromes) sobre um fundo existencial  que  é o caos.  Este é  um operador  a-significante,  ou  melhor, nada significa. Remete ao puro contato com a vivência expressa no momento do exame. Desse modo, o exame físico, paradigma da medicina, é inadequado e grosseiro para estabelecer um vínculo terapêutico com  o paciente e  até  mesmo estabelecer um diagnóstico. A loucura extrapola   os limites do pensar médico.Por isso, incomoda.
(...)

A.M. in Trair a psiquiatria
O perdão está dado;
O traidor está curado;
O amor sentou-se
de pernas abertas
diante de mim.

Vem cá, morena.
Ele é brega.
Vá, são todos iguais,
mas uns são mais.

Lamento,
mas, se virar poema,
já é vantagem.
Melhor que virar
pura bobagem.


Ana Elisa Ribeiro

GERALDO VANDRÉ - A Resistência pela música

À MEIA NOITE LEVAREI SUA ALMA

Unhas assustadoramente grandes, barba, cartola e roupas pretas compõem a aparência de uma figura inconfundível. Zé do Caixão se tornou tão famoso que o personagem se confunde com o criador. Considerado o pai do cinema de terror brasileiro, estrela de seis filmes e premiado internacionalmente, Zé é obra de José Mojica Marins, ator e cineasta que morreu na tarde desta quarta-feira, 19 de fevereiro, aos 83 anos, em São Paulo, em decorrência de uma broncopneumonia. Marins estava internado há cerca de 20 dias no hospital Santa Maggiore, desde que contraiu uma infecção que evoluiu para pneumonia. Ele deixa sete filhos, 12 netos e uma carreira que o coloca entre os cineastas mais notórios da história.
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Diogo Magri, El País, São Paulo, 20/02/2020, 14:26 hs

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A  DANÇA  DOS  CORPOS

A medicina trabalha com o corpo-organismo. Este é o seu objeto. Não apenas numa relação de exterioridade entre o médico e o seu paciente. Também numa implicação clínico-afetiva. Contudo, é preciso escapar do raciocínio tosco da visão humanitária e bem intencionada da medicina. Se ela é uma instituição como tantas outras, é preciso captar o real em si mesmo. Algo mais profundo e menos evidente acontece, dado que Michel Foucault aponta em suas pesquisas. Isso diz respeito às relações de poder. Elas preenchem a teia institucional de tão prestigiosa carreira. Tal ato profissional (técnico) intervêm no organismo humano, que por sua vez é de antemão produzido por formações do poder médico interessadas em identificá-lo individualmente. Eis "o doente paciente". Uma das consequências desse fato aparentemente banal é a surdez médica à fala do outro, já que o suposto saber ("ouça o médico porque ele estudou!") dispensa as linhas vivenciais singulares daquele que sofre e portanto encontra-se vulnerabilizado. Assim, o Organismo, concebido como uma organização/sistema dos órgãos, é o que interessa ao médico na ação clínica e/ou cirúrgica de curá-lo ou pelo menos de melhorar a sua qualidade de vida. No entanto, funcionando no lusco-fusco dos afetos oprimidos, e lado a lado com o Organismo hegemônico das praticas médicas, há o corpo invisível das intensidades afetivas, o corpo sem forma, o corpo das potências irradiantes, o corpo erógeno, o corpo composto por fibras de Luz (como diria Castañeda), o corpo vibrátil, expansivo, dançante, corpo funcionando sob o combustível desejo. Não se trata, claro, de um corpo latente ao modo da psicanálise mais antiga, a chamada "outra cena". Nada mais enganoso. O corpo está aí, está aqui, está entre nós rosnando sem cessar suas animalidades envolventes. Trata-se do corpo como expressão no mundo, numa palavra, a materialidade do espírito, o corpo-criança e sua alegria sustentada no sem-sentido do nada. A medicina não enxerga esse corpo porque os seus técnicos não foram treinados para tal, e porque suas bases epistemológicas desmoronariam se aceitassem e promovessem o que pode um corpo (como diria Espinosa).

A.M.

Can't take my eyes off you Flash Mob.

DESCENDO MAIS

Jair Bolsonaro desceu mais um nível em sua narrativa agressiva, e desta vez atingiu dois alvos. A imprensa e as mulheres. Na manhã desta terça-feira, o presidente insultou a jornalista da Folha de S.Paulo, Patrícia Campos Mello, com ironias de insinuação sexual. “Ela [a repórter] queria um furo [uma exclusiva, no jargão jornalístico]. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”, disse, rindo, a um grupo de simpatizantes em frente ao Palácio da Alvorada, num proposital jogo de palavras que sugere a troca de uma informação por oferta de sexo. A declaração foi em referência ao depoimento falso de Hans River do Rio Nascimento, um ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp, dado na semana passada na CPMI das Fake News no Congresso. A Folha desmentiu ponto a ponto todas as declarações de Nascimento no mesmo dia do seu depoimento.
O insulto vem na esteira da crescente escalada do presidente —e seus filhos e seguidores— contra a imprensa. Na semana passada, o deputado federal Eduardo Bolsonaro havia feito mesmo, ao ir ao Twitter insinuar que Campos Mello teria sugerido um encontro sexual em troca do acesso a informações. A publicação foi um gatilho para a disparada de uma campanha difamatória, com mensagens misóginas e até ameaças de bolsonaristas à jornalista nas redes sociais.
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Marina Rossi, El País, São Paulo, 18/02/2020, 12:23 hs

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Um songo

Aquele homem falava com as árvores e com as águas
ao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra.
mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis lingüísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Até pedra criava rabo!
A natureza era inocente.


Manoel de Barros
A DIFERENÇA NA SAÚDE MENTAL - VII

"Loucura" não é um conceito médico. No entanto, ele é utilizado pela medicina psiquiátrica com outro nome: psicose. Na pratica clínica esse diagnóstico (psicose) faz por autorizar a intervenção médica sobre a conduta de alguém. Não que em muitas situações isso não seja indicado e válido. A questão é outra. A loucura, numa clínica da diferença, é a referência empírica e teórica para se estabelecer uma ética de cuidado ao paciente. Assim, é preciso estender o conceito de "loucura" a uma psicopatologia que sirva ao paciente e não às instituições que o sustentam como subjetividade "inferior". Loucura é a experiência de desorganização psíquica fora dos padrões sociais vigentes. Esse fato precede a manobra diagnóstica psiquiátrica de capturar (e talvez internar) o chamado portador de transtorno mental. É que a loucura se constitui como caos não necessariamente visível ou mais precisamente como complexo de forças que se aliam, se chocam, se roçam, se alimentam umas das outras no que chamamos (cf. Deleuze-Guattari) de inconsciente produtivo. Não seria tão só o paciente a sofrer os seus efeitos. E não seria a psicanálise a única autorizada a pesquisá-los. Esse é o inconsciente à luz do dia, ao alcance de todos e assunto coletivo para seres viventes. Pensar desse modo (louco?) é pensar diferente com toda a potência de uma clínica nova.

A.M.
MILITARES NO PODER

Nunca desde os tempos da ditadura militar existiu no governo brasileiro uma presença tão maciça das forças do Exército ocupando os cargos de importância como no atual do capitão Jair Bolsonaro. Pela primeira vez na democracia, temos um militar nos três primeiros postos do Governo: o presidente, o vice-presidente e o ministro da Casa Civil, o recém nomeado general Walter Souza Braga Netto, que atuou como interventor federal no Rio de Janeiro e que agora assume no lugar de Onyx Lorenzoni. O cargo de chefe da Casa Civil é considerando como uma espécie primeiro-ministro.

Há quem veja nisso uma trincheira contra os perigos que espreitam a democracia e os que veem como presságio de uma nova ditadura. Os mais otimistas alegam que hoje as forças armadas brasileiras são de uma nova geração formada nos valores democráticos e na modernidade, vacinadas contra as tentações autoritárias e baluarte da democracia. Isso se deve ao apreço atual da sociedade pelos militares, uma das instituições, ao lado da Igreja, mais bem avaliadas nas pesquisas nacionais pela grande maioria dos brasileiros de todas as classes sociais.

E os pessimistas? Eles preferem ver nessa maciça presença dos militares no Executivo e na Administração pública um perigo real à volta do autoritarismo e até uma aprendizagem para que o presidente Bolsonaro prepare um golpe contra a democracia, dominando o Congresso para governar com a força das armas.
(...)

Juan Arias, El País, 13/02/2020, 22:05 hs

NO CALOR DO CARNAVAL!


sábado, 15 de fevereiro de 2020

AS DEPRESSÕES, AINDA

A abordagem psiquiátrica (atual) das depressões costuma reduzir a complexidade da vivência depressiva ao nexo causa-efeito. Isso não é um erro, mas uma questão de método. Atrelada à visão médica dos organismos enfermos, a clínica psicopatológica dos quadros depressivos estanca suas pesquisas no funcionamento bioquímico (daí a opção por fármacos) e no funcionamento psíquico (daí a opção - geralmente secundária- pela psicoterapia). É de notar que em ambas as linhas etiológicas, o erro básico é o de conceber a depressão com uma doença orgânica e/ou como erro em relação ao senso comum (psicológico) da sociedade onde se insere o paciente. A pergunta que circula - mesmo e principalmente entre os familiares do deprimido- é regida por 2 ítens: 1- se você está doente do organismo, tome remédio químico; 2-se o problema é psíquico, não se justifica que alguém que "tem tudo" (saúde física, juventude, consciência de si, etc, a depender), fique deprimido. Tanto num caso como no outro, a vivência depressiva escapa a uma apreensão real do que está acontecendo subjetivamente com o outro, bem como reduz os fatores etiológicos a um binarismo (corpo/mente) estéril. Isso explica -em parte - a cronificação mortificante de muitas síndromes depressivas, na medida em que o paciente não é de fato escutado em sua dor, como não consegue vislumbrar uma saída, ou pelo menos uma melhora importante dos sintomas anti-vida. Em resumo, ao não considerar as depressões como um fenômeno subjetivo que ultrapassa a visão médica mecanicista e reificante, a psiquiatria atual participa de um empreendimento mais amplo, sócio-clínico-institucional e epistemológico de produzir mais ainda deprimidos, muitos deles atolados numa relação de dependência abjeta aos tratamentos, químicos ou não.

A.M.
aumente o volume
do teu grito


 Nicolas Behr

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

DEMOCRACIA EM VIGÍLIA

O Brasil voa hoje às cegas com o Governo de Jair Bolsonaro, em que vigoram políticas públicas baseadas em achismos, contrárias à ciência e à evidência empírica. A cada ataque diário à imprensa, às minorias ou a cada recusa a prestação de contas e manipulação de dados, a atual gestão vai minando a democracia. A avaliação é do economista brasileiro Claudio Ferraz, professor da Universidade de British Columbia, em Vancouver no Canadá. Ferraz, que também é professor da PUC-Rio e especialista em medir o impacto da implementação de medidas e programas, diz que, em sua visão, nem o contrapeso do Congresso é capaz de conter todo o avanço autoritário imposto pelo Planalto. “Não acho que estamos em um momento em que você possa acordar e achar que a democracia não sofre perigo nem probabilidade sofrer algo mais drástico”, pontua.

Heloísa Mendonça, El País, São Paulo, 14/02/2020, 07:43 hs

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A ESCLARECER

Um ar bucólico paira sobre os 37.000 habitantes de Esplanada, a 170 quilômetros de Salvador (Bahia). Na praça do centro do município, margeada por árvores de médio porte, os moradores se reúnem em pequenos grupos para falar sobre o que acontece na cidade. Desde o último domingo não há outro assunto que não o chefe miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, de 43 anos, morto em suposto confronto com forças policiais da Bahia e do Rio, a 8 quilômetros dali. Poucos, no entanto, se mostram dispostos a falar sobre a operação ―ainda cercada de dúvidas— que eliminou o ex-policial próximo à família Bolsonaro. Quando aceitam relatar o que sabem, pedem anonimato ao discorrer sobre a passagem de Nóbrega pela região, incluindo as conexões do miliciano com um político do PSL e um pecuarista.
(...)

Bruno Luiz, El País, Esplanada (Bahia), 12/02/2020, 09:40 hs

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

de repente
tudo ficou broxa
exceto o capital
e sua tocha


A.M.

Rehearsal Claude Pascal - Jiří Kylián (NDT 1/ | Sometimes, I wonder)

A ESQUERDA MORREU

Este é um artigo que gostaria de não ter escrito e não tenho prazer algum em fazer enunciações como a que dá corpo ao título. No entanto, talvez não haja nada mais adequado a falar a respeito da situação política brasileira atual, depois de um ano de Governo Jair Bolsonaro e a consolidação de seu apoio entre algo em torno um terço dos eleitores. Aqueles que acreditavam em alguma forma de colapso do Governo e de sua base precisam rever suas análises. O que vimos foi, na verdade, outro tipo de fenômeno, a saber, a inoperância completa do que um dia foi chamado de “a esquerda brasileira” enquanto força opositora. Não que se trate de afirmar que ela está diante do seu fim puro e simples. Melhor seria dizer que um longo ciclo que se confunde com sua própria história termina agora. O pior que pode acontecer nesses casos é “não tomar ciência de seu próprio fim” repetindo assim uma situação que lembra certo sonho descrito uma vez por Freud na qual um pai morto continua a agir como se estivesse vivo. A angústia do sonho vinha do fato do pai estar morto e nada querer saber disto. Se a esquerda brasileira não quiser ver sua morte definitiva como destino, seria importante se perguntar sobre qual é esse ciclo que termina, o que ele representou, quais seus limites.
(...)

Vladimir Safatle, El País, 10/02/2020, 17:44 hs

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

DOBRAS DA POESIA

O corpo-sem-órgãos (CsO) é o corpo do desejo, o ritmo das intensidades fluidas, o processo esquizofrênico do tempo (repetição e diferença) e não a entidade "esquizofrenia". Neste último caso torna-se prática de vida ante um dualismo que fracassa: ser normal ou ser psicótico. Apesar disso, permanece ativo como coleção de linhas existenciais clandestinas (poéticas) e abstratas (sem forma), fluxos nômades, gritos, sensibilidades. São as máquinas do desejo, são o próprio modo de operar do pensamento, aquele que vive no e do caos. Atenção: não confundir pensamento com consciência. A subjetivação ( um crivo no caos) escapa do eu numa dessubjetivação incessante: quem não é louco? Nada está assegurado. Somos todos esquizos. Considere o seu próprio corpo. Ele  é invenção de mundos feita de dobras insondáveis. Não o corpo do  qual  a medicina, papai-mamãe, a religião e a escola gostam. Este é o organismo capturável e manipulável à serviço do senso comum. Falamos de outra coisa, uma política das subjetividades movidas pelo non sense do desejo. E é Regis Bonvicino que diz 
um poeta
perguntado
sobre política e políticos
respondeu
não estou desinteressado
antes
eles é que são
desinteressantes.

A.M
Furtivo

Passeando num jardim inexistente
Encontrarás uma mulher ausente ...

Segue-a. Fala-lhe. Espera que ela te olhe,
Beija-lhe a mão antes que se desfolhe,

Depois, no ouvido, dize-lhe o que sentes,
Expressa-lhe, em palavras balbuciantes,

Com voz arfante e comoção sincera
A paixão que te faz tremer os dentes ...´


Dante Milano

Salems Heir - Dark Magic Music

domingo, 9 de fevereiro de 2020

A DIFERENÇA NA SAÚDE MENTAL - VI

Partimos da concepção do paciente como multiplicidade desejante. Trata-se de uma questão prática enfiada na clínica psicopatológica como o que lhe dá sentido e movimento. Falávamos sobre o paciente que "vive em situação de rua". Ora, a "forma-rua", encaixada no pensamento atual da psiquiatria (e suas agências de poder), estabelece uma espécie de clichê urbano que diz: "quem vive na rua sofre de algum transtorno mental". Isso discrepa do fato empírico de quem vive na rua (quem?) segue linhas desejantes da e na própria rua. Impossível separar rua e subjetividade. A rua é a própria subjetividade, ainda que expressa em faces irreconhecíveis pelo senso comum. Buscamos outras potências de viver no interior mesmo do anti-movimento ao capital, operador semiótico planetário. Estamos em outra.A diferença é o diferente sem redundâncias existenciais, somente lógicas. Assim, quando se diz "saúde mental" tudo está em jogo, até esse texto e você leitor.  

A.M.
UMA SÓ VOZ PARA O SER

(...) Com efeito, o essencial na univocidade não é que o Ser se diga num único sentido. É que ele se diga num único sentido de todas as suas diferenças individuantes ou modalidades intrínsecas. O Ser é o mesmo para todas estas modalidades, mas estas modalidades não são as mesmas. Ele é "igual" para todas, mas elas mesmas não são iguais. Ele se diz num só sentido de todas, mas elas mesmas não têm o mesmo sentido. É da essência do ser unívoco reportar-se a diferenças individuantes, mas estas diferenças não têm a mesma essência e não variam a essência do ser  como o branco se reporta a intensidades diversas, mas permanece essencialmente o mesmo branco. Não há duas "vias", como se acreditou no poema de Parmênides, mas uma só "voz" do Ser, que se reporta a todos os seus modos, os mais diversos, os mais variados, os mais diferenciados. O Ser se diz num único sentido de tudo aquilo de que ele se diz, mas aquilo de que ele se diz difere: ele se diz da própria diferença.
(...)

G. Deleuze in Diferença e Repetição 

BAIANA - SYSTEM - Invisível

sábado, 8 de fevereiro de 2020

ENTONAÇÃO

São tantas mudanças que noto
quanto ao que sinto e ao que vejo,
que se eu me lembro de tragédias
pessoais acendo meu cigarro
e saio do poema


Joan Brossa
A DIFERENÇA NA SAÚDE MENTAL - V

Sob o peso e as palavras-de-ordem do diagnóstico psiquiátrico, como trabalhar em saúde mental? É bom lembrar que esse diagnóstico conta com respaldo jurídico, o que faz da clínica psicopatológica um território existencial vazado por forças de toda ordem: coletivas, morais, familiares, pedagógicas, religiosas, estatais, etc. Desse modo, uma clínica que utilize um determinado referencial teórico como verdade inquestionável (axioma) acabará por engessar os processos criativos tanto no paciente quanto no técnico em saúde mental. A diferença, como conceito, é a linha de cuidado que norteará ações práticas múltiplas. Não estamos falando de uma clínica restrita às paredes do consultório, mas da clínica como um sistema aberto aos dados (signos) com que o real se mostra.Tudo é linguagem, mas uma linguagem a-significante que servirá de trampolim para a ação. Voltando ao diagnóstico psiquiátrico, ele é útil em pedaços para a construção dos dispositivos de acesso às subjetividades oprimidas. Frente a um paciente que vive na rua, por exemplo, a quem serve ou para que serve o diagnóstico fechado da psiquiatria e ainda por cima por baixo e por dentro encharcado de moral?

A.M.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

CASABLANCA - direção de Michael Curtiz,1942

MANIFESTO CONTRA O GOVERNO BOLSONARO

Artistas, intelectuais e políticos do Brasil e de diversos países lançam nesta sexta-feira um manifesto contra o cerceamento de instituições culturais, científicas e educacionais, além da imprensa, pelo Governo Jair Bolsonaro (sem partido). No texto, que inclui até o momento cerca de 1.900 assinaturas, os manifestantes convocam a comunidade internacional a se manifestar publicamente contra a censura no país.
Nomes da cultura brasileira como Caetano Veloso e Chico Buarque, estrelas internacionais como Sting e Willem Dafoe e escritores consagrados como o moçambicano Mia Couto e o português Valter Hugo Mãe assinam a carta. Entre os intelectuais estão o linguista Noam Chomky, o cientista político Steven Levitsky —autor do livro Como as democracias morrem— e os historiadores Lilia Schwarcz e Boris Fausto.
Entre os exemplos do que os autores chamam de “escalada autoritária” o texto cita nomeações, tentativas de mudanças em livros didáticos e no conteúdo de filmes e restrição ao acesso a bolsas de pesquisa em universidades. “A administração Bolsonaro deixou claro que não tolerará qualquer desvio de sua política ultraconservadora”, afirma o manifesto. “A partir de um programa moralista e ideológico fechado e compactuado, essa administração busca mudar o conteúdo dos livros escolares, dos filmes nacionais, restringir o acesso a bolsas de estudo e de pesquisa, intimidar o corpo docente, os jornalistas e os cientistas."
(...)

El País, São Paulo, 07/02/2020, 15:01 hs
O tempo

Este verso é o presente.

O verso que você leu é o passado
– já envelheceu depois da leitura.
O que resta do poema é o futuro,
que existe fora da sua
percepção.

As palavras
estão aqui, se você as leu
ou não. E todo o poder terrestre
não pode mudar isso.


Joan Brossa

VÍRUS ANTIGO


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

LIBERDADE SOB COERÇÃO

(...)
Desde o nascimento do capitalismo, os dois caminhos encontrados para modificar a distribuição de incentivos foram a ação dos movimentos sociais e do Estado, essa última frequentemente vindo estabilizar, para bem ou para mal, as conquistas dos primeiros. Isso significa, por exemplo, impor limites à concentração de renda e de propriedade, de modo a manter sob controle a capacidade de alguns poucos atores influírem nas escolhas de todos os outros; um exemplo seria algo comum durante boa parte do século 20, a legislação antimonopólio. Mas significa, sobretudo, diminuir a coerção a que os indivíduos estão expostos, aumentando sua liberdade de escolha e, com isso, diminuindo o poder do capital sobre suas vidas. A construção de um estado de bem-estar social não era outra coisa se não um projeto para realizar isso.

Se o capitalismo tem o poder de nos fazer escolher coisas danosas para nós, é porque ele tem por fundamento uma coerção: ou você trabalha —e quem decide as condições em que se trabalha é o mercado—, ou você não come. Todas nossas escolhas “livres” acontecem sobre o pano de fundo deste mecanismo coercitivo e mais uma série de condições que não escolhemos. Esse é o segredo da “liberdade” propalada pelos liberais. Liberais inteligentes, é claro, entendem perfeitamente bem que, quando falam de escolha racional, estão falando de uma pequena zona de autonomia no topo de uma pirâmide de constrangimentos heteronômicos. É por isto que, para alguém como John Rawls, a defesa da liberdade e de certos tipos de intervenção estatal não só não eram mutuamente contraditórias, mas se implicavam logicamente. Infelizmente, a maioria dos liberais que populam nosso debate público parece tomar isto como desculpa para fazer de conta que o topo da pirâmide flutua no ar. É assim que se acaba discutindo o direito de vender os próprios órgãos sem qualquer questionamento sobre o mundo em que alguém optaria por vender o rim para sobreviver.
(...)

Rodrigo Nunes, El País, 30/01/2020, 18:25 hs