sábado, 31 de agosto de 2019

El Ultimo Tango en Paris - Gato Barbieri (música de la película)

TIROS NOS EUA

As polícias de Odessa e de Midland, no Texas, nos Estados Unidos, informaram neste sábado (31) que a região entre as duas cidades foi alvo de um ataque a tiros. Um porta-voz da polícia de Odessa disse em entrevista coletiva que o incidente deixou 5 civis mortos e 21 feridos, mas ressaltou que o número ainda pode aumentar no decorrer da apuração.
(...)

Por G1, 31/08/2019, 19:05 hs

ESTUDOS SOBRE O SUICÍDIO - I

Em face da complexidade do tema "suicídio", optamos por usar duas linhas extremas de análise. Elas servem de marcação do suicídio como objeto múltiplo de pesquisa. São extraídas das perguntas: 1-questão teórica: a vida merece ser vivida? 2- questão empírica: alguém quer se matar agora: como devo agir? É evidente que as duas linhas estão entrelaçadas. Mas o que interessa nesse artifício expositivo é pensar, simultaneamente, o tema desde a mais louca abstração até a mais concreta atitude. Isso captura o pensamento lá onde ele está imerso na vida e a  própria vida está imersa no pensamento. Trata-se, pois, de uma equação simples: vida=pensamento.

A.M.

BORIS DENEV


HORÓSCOPO

Há duas ou três promessas
espreitando o dia.
Indício de visitas
e incêndios.
Saúde, mas nenhuma alegria.
Distrações e alegrias no trabalho.
No amor talvez não seja bem isso.
Indiferença não é uma saída nessa hora.
Família e dívidas preocupam.
Os astros continuam rodando à toa.
Impossível domar
a fera que te habita
o signo inexato.


Ana Maria Marques

Ninguém avança pela vida em linha reta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutavelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar.
(...)

Henry Miller

A IMAGEM SOBERANA

Impossível negar: a nível planetário, uma tecnologia da imagem veio para ficar. Ela compõe talvez a face mais concreta das "conquistas"da modernidade. Tudo é imagem. Um universo imagético torna-se a própria subjetividade. Não a entidade-do-eu, não a consciência, não a  racionalidade, mas o processo da subjetivação veloz e incessante que nos afeta e nos constitui. O real é cada dia mais artificial. A sensação subjetiva ("eu existo, eu penso") e a correlata certeza de quem sou, são hoje sustentadas pela realidade da imagem, pela verdade da imagem. Tal verdade, sem que eu perceba, passa a ser a minha verdade, mesmo a mais íntima.  Devastação do pensamento e até do inconsciente representativo (freudiano). Caminhamos, então, para o fim da divisão mundo interno-mundo externo.Nesse ponto, a referência à esquizofrenia é inevitável: há um estilhaçamento da personalidade em prol de uma profunda erosão do sentido. Aniquilamento da linguagem verbal, dissolução de crenças e valores. Convite ao fascismo e demonização da mídia, mesmo nas esquerdas. Um gigantesco buraco ontológico sustenta o reino encantado das imagens: telefone fixo, internet, redes sociais, celular, zap, televisão, cinema, vídeo, videogame, fotografia, etc, tanto faz. Imagens, imagens, tão só imagens devoram tudo, arrastam tudo, significam tudo, inclusive eu escrevendo e você lendo esse artigo agora. No entanto, tal estado de coisas não é um mal em si mesmo. Pois, se somos dominados "por dentro" no mais fundo da interioridade psíquica, algo se anuncia talvez naquilo que Nietzsche chamou de "a transvaloração dos valores". A alma em revolta.

A.M.
A CHEGADA DE DORIAN

O comportamento de Dorian é imprevisível. Depois de ser considerado uma séria ameaça para Porto Rico, ilha que se salvou de seu trajeto, não se sabe qual cidade do sudeste dos Estados Unidos ele atingirá. Os especialistas calculavam que o furacão de categoria 4 (de um máximo de 5) chegaria à Costa Leste no domingo, mas nesta sexta-feira adiaram para segunda ou terça. O Estado da Flórida foi declarado zona de emergência, assim como 12 condados da Geórgia, mas as autoridades não deram ordem de evacuação. “A maior preocupação será a câmera lenta de Dorian quando estiver perto da Flórida, o que vai expor algumas zonas do Estado a um risco maior de um evento prolongado de ventos fortes, ondas perigosas e intensas chuvas”, informou o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC). 
(...)

Antonia Laborede, El País, Washington, 31/08/2019, 12:11 hs

PHILIP GLASS - Etude No. 5

OUTRA PSICOPATOLOGIA

(...)
A psicopatologia, descolada da psiquiatria, passa a ter vida própria. Uma psicopatologia órfã. Afirmá-la requer sobretudo a capacidade de criar condições para o pensamento. Não fazer refletir, mas fazer pensar a saúde mental ao mesmo tempo com e sem as categorias psiquiátricas. Deixar-se levar num paradoxo enunciativo vindo do mundo das psicoses. Isso corre o risco do non sense.  A clínica da diferença começa com as psicoses e, daí, com a quebra das significações dominantes. Há questões práticas e imediatas.O que fazer dos enunciados psiquiátricos encharcados de moral, mas que, por vezes, prestam socorro ao paciente em situações-limite?Um problema. O problema é o sentido. Pensar é criar, "seguir sempre a linha de fuga do vôo da bruxa". Esta frase intrigante traz o pensamento para a dissolução dos códigos psiquiátricos. "O que fazer com os doentes sem a psiquiatria?", diria o bom senso das instituições. Ora, já que a psicopatologia tornou-se órfã, os seus compromissos passam a ser outros. A ética precede a técnica. Estamos em outra.
(...)

A.M. in Linhas da diferença em psicopatologia

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Não sou cristão, nem judeu,
Nem mago, nem muçulmano.
Não sou do Oriente, nem no Ocidente,
Nem da terra, nem do mar.
Não sou corpo, não sou alma.
A alma do Amado possui o que é meu.
Deixei de lado a dualidade,
Vejo os mundos num só.


Rumi

RUMEN NIKOLOV DIMITROV


VIDAS PERDIDAS

(...)
Cinco pessoas foram atingidas por balas perdidas no Rio nos últimos três dias:

Emerson Conceição da Silva, de 26 anos, baleado na nuca na Avenida Pastor Martin Luther King;
Lauane Cristina Machado Batista, de 7 anos, foi atingida durante uma troca de tiros na Vila Cruzeiro;
Antônio José Alves Barbosa, de 60 anos, foi baleado dentro de casa, no Complexo do Alemão;
Elaine Cristina Melo, de 37 anos, foi atingida no pescoço quando trabalhava em uma empresa de transporte no Rio Comprido;
Um homem não identificado, que foi atingido durante uma operação na comunidade do Vidigal;
(...)

Por Bom Dia Rio, Globo.com, 30/08/2019, atualizado há 20 min

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

E' Preciso Perdoar (Alcivando Luz - Carlo Coqueijo) BandazZ Bossa in a j...

SOBRE OS AFETOS

Questão técnica : em psiquiatria clínica uma teoria da afetividade é essencial para estabelecer a relação com o paciente. Trata-se de uma análise dos afetos (bons e maus, construtivos e destrutivos) ; isso move a relação de cuidado. Questão ética: ao analisar seus próprios afetos, o psiquiatra se implica no trabalho com o outro como sendo um trabalho consigo mesmo. Questão política: entre as forças que compõem a relação vertical médico-paciente, é possível fazer um combate contra o poder que é a própria luta (invisível) pela saúde. Questão estética: na medida em que o psiquiatra é afetado pelo outro, torna-se um criador de formas de sensibilidade clínica até então atrofiadas pela medicina. Uma arte.

A.M. 
Interferências

Entre a sombra projetada sobre os desvãos da calçada
          e quem vem do outro
lado da rua, um ônibus.
Um ônibus trazendo setenta e cinco passageiros.
E o pior: 
Isso ainda não nos leva a nada.


 Bruno Brum

CARTOLA - O mundo é um moinho

HISTERIA, HOJE

A histeria, patologia que "deu origem" à psicanálise no final do século XIX, se expressa hoje, mais que nunca, numa espécie de cipoal da clínica psicopatológica. Suas formas de expressão mudaram. Não se pode,pois, dizer que ainda exista uma entidade chamada histeria, ao modo de Freud. O que, então, existe? Uma profusão de linhas-sintomas disseminadas pelo corpo, constituindo-o: são as clássicas "somatizações conversivas" e/ou as "dissociações da consciência". Na prática, os quadros psiquiátricos ditos graves (psicoses de variados matizes, transtornos do humor - mania ou depressão - transtornos da personalidade, etc) costumam substituir a hipótese diagnóstica de uma histeria, e preencher o vazio nosológico,  suscitando o emprego de mais e mais remédios químicos, mais e mais controle social, mais e mais preconceito moral, até que os pacientes deixem de incomodar a ordem da razão e as instituições que lhe são correlatas, bem como sejam “aliviados” dos sintomas incapacitantes para a vida autônoma. Fora da especialidade psiquiátrica, a histeria se expressa em fibromialgias, enxaquecas, algias múltiplas, parestesias, vastas extensões da pele, músculos e ossos em organismos codificados por univesos virtuais. A autoflagelação pode ser vista como a busca de certezas “de que estou vivo”. Na esteira de tais sintomas, não é de admirar que a ideação suicida “evolua” ao ato suicida. A experiência de nove anos de Caps nos mostra isso. Em suma, enquanto forma de ações-no-mundo ( organismo) e fluxo de imagens (consciência), a histeria pode “simular” rigorosamente qualquer transtorno mental, desconcertando a avaliação psiquiátrica, ainda mais em tempos de declínio da pesquisa psicopatológica. A psiquiatria acadêmica, neurobiológica e canônica costuma substituir sua monumental ignorância sobre os processos subjetivos de singularização existencial por condutas de imbecilização dos pacientes.

A.M.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

DIAGNÓSTICO COMO COMBATE

A questão do "diagnóstico psiquiátrico" não é só clínica. É também, e, principalmente, político-institucional. Isso se deve ao fato da "forma-psiquiatria" haver construído o diagnóstico como uma prática social de poder e controle moral sobre os pacientes, bem como linha de ascenção da psiquiatria a uma credibilidade científica e daí acadêmica. Da segunda metade do século XIX com o diagnóstico de "demência precoce" (Kraeplin) até o início do século XX, substituindo-o pelo de "esquizofrenia" (Bleuler), a psiquiatria se instala como "ciência". A partir daí ela passa a dispor do seu principal objeto de pesquisa (a esquizofrenia) e intervenção prática (a internação hospital), galgando o status de especialidade médica.  Em fins do século XX (a chamada década do cérebro - anos 90) as pesquisas neurocerebrais sacramentam não só a esquizofrenia, como todas as patologias mentais como sendo doenças do cérebro. Até mesmo um pânico. As consequências desses fatos foram e são devastadoras para a pesquisa em psicopatologia clínica e teórica, bem como quanto à intervenção sobre o paciente no campo da saúde mental. A psicopatologia clínica, a que busca dar voz ao sujeito, entrou em franco declínio, beirando hoje o aniquilamento total. Quem fala é o cérebro. Desse modo, o debate sobre o diagnóstico clínico em psiquiatria tornou-se essencial para uma crítica ativa e um trabalho prático com o paciente. Trata-se de uma microestratégia de combate, muitas vezes invisível, muitas vezes ao modo de um agente de saúde mental infiltrado na teia psiquiátrica... É que as formas de violência subjetiva legitimadas e institucionalizadas cientificamente já não apenas vivem nos quartos sombrios dos manicômios, nas masmorras ocultas, nos corredores infectos, nos quartos-forte dos hospícios, mas se expandem e se mostram à luz do dia, à luz do sol, inclusive em ambulatórios, caps, consultórios, postos de saúde, e em todos nós.

A.M.


P.S. - texto republicado
O amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige, nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A VINGANÇA FASCISTA


Os termos "esquerda" e "direita" tornaram-se anacrônicos, mas não as posições políticas a que eles remetem. Posições políticas são sempre atuais. Elas remetem a um presente que não passa e passa. Um assombroso paradoxo, uma abertura ao porvir. Deleitando-se no funeral petista é possível ver as cenas abomináveis daqueles que nunca aceitaram a mais simples hipótese de tudo mudar, entendendo "tudo" como o real-social em expressões concretas como a fome, a miséria, a divisão de classes, o desemprego, o preconceito, a violência...entre outros horrores menos votados. Portanto, existe sim, e ressurgindo das trevas, uma Direita fascista disseminada pelos quatro cantos do país. Ela se explicita em máscaras discursivas. E despudoradas. Não é difícil reconhecê-la.

A.M.

MICHAEL FLOHR


domingo, 25 de agosto de 2019


Convenientemente aplicado a qualquer situação, o amor vence sempre. É um fato que se verifica empiricamente. O amor é a melhor política. A melhor não só para os que são amados, mas também para quem ama.Pois o amor é um potencial de energia.
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A felicidade real sempre parece bastante sórdida em comparação com as supercompensações do sofrimento. E, por certo, a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade. E o fato de se estar satisfeito nada tem da fascinação de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate contra a tentação, ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.

Aldous Huxley
PARA ALÉM DA CRÍTICA


A nossa crítica à psiquiatria não é uma crítica, é uma clínica. Ora, é comum à Crítica expressar um elemento paranóide que toma o seu objeto como perseguidor. Não é o caso. Além disso, sob as condições atuais do capitalismo axiomático aparentemente vencedor, a Crítica se torna um dispositivo social inofensivo e que adocica o discurso midiático em redundâncias sintáticas, semânticas e performáticas. Uma dominação semiótica se instala como verdade. Confira as ladainhas (reportagens) globais. Isso vai até o infinito...como efeito subjetivo. Mas há outros discursos mais pomposos. A universidade, por exemplo, traz uma verdade revelada e cauciona a psiquiatria oficial como transcendência do Conhecimento. Desse modo, aquieta paixões e resfria intensidades da prática clínica. Ao contrário, buscamos o avesso da história psiquiátrica canônica como ação de resistir aos biopoderes no interior da própria psiquiatria, da própria clínica, da  psicopatologia agonizante: um Caps.  

A.M


sábado, 24 de agosto de 2019

MARISA MONTE - Amor I love you

Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
— Sei que não vou por aí.

José Régio

O que é um Rizoma? (legendado) - Alexander Kluge e Joseph Vogl, Prime Time

LINHAS DA DIFERENÇA EM PSICOPATOLOGIA

A clínica das psicoses não é propriedade da psiquiatria.Ou, pelo menos, não deveria sê-lo. Neste sentido, talvez seja possível deslocar a questão. De início, não perguntar o que são as psicoses, mas como trabalhar com elas? Trata-se de inventar um método. Desafio que se apresenta como clínica do trágico: o desconhecido, o irreversível, o caos e o acaso. Desejar, amar, viver, morrer, etc: o infinitivo dos verbos compõe a ação. Faça alguma coisa! Onde a psiquiatria diz páre que aqui só o remédio dá jeito, pensar em dar um jeito no remédio como elemento às vezes dispensável (ou nocivo) ao processo terapêutico. A psicofarmacoterapia não é, pois, A clínica, mas apenas um componente ao qual se dobram (sob as condições da forma-hospício) os procedimentos tidos como coadjuvantes do tratamento. Mas é possível se pensar como rizoma(*). Ou seja, não uma só clínica  ( um centro) mas "n" clínicas descentradas. Psicoses singulares, linhas da diferença.

A.M.


(*) ver  vídeo acima.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

ISSO É ANTIGO

Um deles

Os que acreditam fazem perguntas aos que parecem acreditar.
Os que parecem, parecem não ouvir.
Os que ouvem permanecem calados.
Os que respondem parecem não acreditar no que dizem
os que perguntam.
Todos parecem em silêncio.


Bruno Brum

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

O HOLOCAUSTO DA AMAZÔNIA

Quando a noite caiu sobre a cidade de São Paulo, às 3 da tarde, sendo uma de suas possíveis causas o encontro da frente fria com a fumaça das queimadas, muita gente se assustou com o que parecia um anúncio do fim dos tempos. Era algo parecido, se recuperarmos o sentido original da palavra holocausto: tudo queimado, no sacrifício dos tempos antigos entre os hebreus. Com duas diferenças: uma, que a holah do sacrifício judaico tinha o sentido de reparação, visava uma expiação geral dos pecados; outra, que depois do nazismo sacrificar milhões de judeus, a palavra ganhou um significado mais sinistro, e passou a ser tomada como qualquer grande e sistemática destruição  —sem importar a causa— até o extermínio. Eis o que acontece hoje: o holocausto da Amazônia.
Desde muito jovem me dediquei a pensar o significado da floresta, para além da economia e das dimensões materiais. Em 15 de julho de 2008, retornando ao Senado logo após deixar o Ministério do Meio Ambiente, publiquei um artigo intitulado Atrás de uma borboleta azul em que lembrei minha identificação irredutível com as milhões de pessoas que nascem e vivem na floresta. Dizia: “florestas não são apenas estatísticas. Nem apenas objeto de negociações, de disputa política, de teses, de ambições, de pranto. Antes de mais nada, são florestas, um sistema de vida complexo e criativo. Têm cultura, espiritualidade, economia, infraestrutura, povos, leis, ciência e tecnologia. É uma identidade tão forte que permanece como uma espécie de radar impregnado nas percepções, no olhar, nos sentimentos, por mais longe que se vá, por mais que se aprenda, conheça e admire as coisas do resto do mundo.” Passou-se mais uma década, mas mantenho o sentimento.
(...)

Marina Silva, El País, 21/08/2019, 21:46 hs

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

JEREMY MANN


ANTI-RECEITA EM SAÚDE MENTAL

Não demonizar a psiquiatria. Não desenvolver com ela uma relação persecutória. Não lhe fazer uma crítica piedosa, reativa, ressentida.Não se dobrar ao poder psiquiátrico, mas tampouco  reproduzi-lo. Não personalizar a crítica, não focá-la no psiquiatra, na sua pessoa. Não cair no jogo das identidades profissionais. Não se nivelar éticamente, políticamente, estéticamente, clinicamente, à psiquiatria. Sequer falar da psiquiatria, não comentar nem mesmo a sua  monumental ignorância teórica. Para além e aquém, fazer um trabalho talvez invisível., mas profícuo. Com os pacientes. Experimentar no seu canto o silêncio dos afetos. Sobretudo não atacar a psiquiatria, mesmo que ela ataque a vida, o corpo e seus devires. Expulsar o Crescêncio dentro de nós. Ser o técnico (o mais sóbrio e o delicado) em saúde mental. Despsiquiatrizar o universo, o mundo, os corações. Sabemos que há mais o que fazer, muito o que fazer. Produzir outras coisas, fazer a diferença... num mundo indiferenciado.E não esperar reconhecimento, prestígio e poder. Estas são visões da consciência e do euzinho privado, signos de um capitalismo subjetivo. Quem trabalha com saúde mental é outra coisa. Trata-se de uma invenção de mundos e de si. Poucos suportam.


A.M.
Roube um pouco e eles te jogam na cadeia, roube muito e eles te fazem rei.

 Bob Dylan

terça-feira, 20 de agosto de 2019

NARA LEÃO & ROBERTO MENESCAL - O barquinho , O pato , Manhã de carnaval

A DIFERENÇA NÃO TEM IDENTIDADE

O olhar da diferença é um olhar cego. Ele não enxerga, apenas vê. Percebe impressões vagas e exatas. Trabalha nos detalhes ínfimos das coisas. Funciona como quando se diz que "o amor é cego". Não que a diferença seja o amor, até porque este não existe como coisa, substância, essência, objeto sólido, mas como amar, acontecimento. Mais ainda, amar o acontecimento como o que não retorna jamais, e que sempre virá com a manhã da noite mais profunda e leve.No exercício dos seus paradoxos, nas cambalhotas do pensamento da alegria,  o olhar da diferença é mais que um olhar, muito mais que a própria perspicácia desse olhar. É que ela se orienta por sensações. Questão ético-estética: a potência, enfim. É uma prática de vida, um estremecimento, um frêmito, um grito silencioso, um instante lunático aterrisado nas horas que Virgínia Woolf captou com todas as suas forças, com todo o esplendor da poesia que viveu. 

A.M.
confissão

eu teria sido puta
na maior boa vontade
faltaram-me os atributos
e também alguma audácia

(sempre achei as putas lindas
mas só faço amor de graça)


Líria Porto

SEM OPOSIÇÃO

(...)
Sem dúvida, o Presidente tem o direito de dizer que foi escolhido nas urnas com 53% dos votos, que significaram 57 milhões de eleitores. Nesse sentido o problema não é seu. Os que votaram nele sabiam o que pensava, ainda que talvez considerassem seus desatinos de campanha como inócuos e puramente eleitoreiros. O problema, agora que se sabe a que ele veio, e que se permite insultar impunemente gregos e troianos começando pelas instituições bases da democracia, mais do que seu, é da oposição.
Essa oposição, que está muda e parece impotente e distraída, demonstra esquecer a lição da história. Em todos os movimentos autoritários do passado moderno, os grandes sacerdotes da violência começaram sendo vistos como algo inócuo. Como simples fanfarrões que ficariam somente nas palavras. Não foi assim e diante da indiferença, quando não da cumplicidade da oposição, acabaram criando holocaustos e milhões de mortos, de uma e outra vertente ideológica.
(...)

Juan Arias, El País, 20/08/2019, 16:23 hs

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

ZDZISLAW BEKINSKI


POLÍTICAS

(...) 
Todos se unem quando se trata  de barrar a loucura. Mesmo os mais  bem intencionados, os  cultos, os do bem, os da academia;  toda  a tralha conscienciosa embuida dos princípios do cristianismo. Esta é a condição. A máquina psi avança naturalmente  nas organizações do capital. Ninguém diz  nada. O silêncio se avulta de cinismos  sofisticados. Ele conhece as linhas  ocultas do sistema  monstruoso. O horror econômico  perde para  o  ético. O  palavrão (ético) converteu-se em mercadoria santa. Por toda a parte o Estado regurgita matérias não comestíveis.  A máquina  psi recebe  comensais  de luxo para  o banquete das auroras  perdidas. Alguém passa  mal. Quem? Levem-no ao laboratório das almas pet. Laudo médico: encontram-se imagens do infeliz vegetando entre florestas que nunca existiram. Não aproveitou o banquete, não riu das criaturas  da noite. Foi excluído. Então, como fazer para não viver morrendo entre os escombros autorizados por decretos estatais?  Militamos por  uma ideia de múltiplas vidas se ligando em direção ao sentido  dos paradoxos. Deleuze é um intercessor que serve de linha do destino, perigosa e rápida, enquanto a polícia do Estado e a do Mercado batem à  porta. Urge a camuflagem  do cotidiano como porta aberta para o infinito. Castañeda, Miller, Prigogine, Guattari, Artaud, Nelson Rodrigues, Klossowski, Lovecraft, Poe, Millor, Foucault e muitos outros, aceleram o processo, produzem a produção, escarnecem o antigo. Tentam criar auroras ensolaradas. Mas no Brasil a  máquina  psi, como sede da  corregedoria do real, breca a saída da porta do infinito. Tornar-se concreto e veloz em práticas políticas cruéis é uma possibilidade.O virtual existe. Marx resiste. Bakunin é um aliado esquizo. A poesia poetiza. Sem tempo, o tempo se angula, se flexiona, se dobra, se faz, se produz. Uma alegria (gratuita) se espraia.
(...)
A.M.
Esse mundo não é meu.
Esse mundo é dos anjos transformistas,
das crianças selvagens
e dos cachorros mancos.

Bruno Brum

GAL COSTA - Vatapá

A melhor maneira de ser feliz é gostar de seus problemas.

Woody Allen

domingo, 18 de agosto de 2019

OS IDÓLATRAS

Identificar o governo Bolsonaro como sendo de extrema direita (ou fascista), pode ter sido interessante (como estratégia da esquerda) durante a campanha eleitoral. Agora não mais. Bolsonaro no poder atende a interesses de segmentos sociais os mais diversificados, incluindo aqueles refratários a uma definição clara, e fora da nomenclatura técnico-política acadêmica. Seria possível elencá-los? Fascista de direita, extrema direita, direita moderada, conservador, liberal, centro, centro-direita, classe média-revoltada-com-a-corrupção, classe-média-empobrecida, ex-rico, evangélico, religioso conservador, religioso-messiânico, proletariado conservador, desempregado, etc. É bom lembrar que nessa visão os epítetos direita e esquerda servem tão só como balizamentos políticos sujeitos a uma análise de conjuntura. Não são essências. O cidadão médio sabe vagamente (quando sabe) o que é ser de direita ou o que é ser de esquerda. Ele quer mais é comida, casa, transporte, roupa, saúde, segurança,educação, esporte, diversão,não necessariamente nessa ordem, exceto pela inclusão da comida como método de sobrevivência orgãnica. A adesão coletiva inflamada e enlouquecida ao atual presidente é correlata a adesão inflamada e enlouquecida ao ex-presidente, o presidiário. No fundo (a história é pródiga em exemplos) a humanidade corre atrás dos seus ídolos como se fossem deuses na Terra.

A.M


P.S. - texto republicado

Bella Figura. Jiri Kylian. Netherlands Dance Theater.

Se for dizer a verdade aos outros, faça-os rir, do contrário eles o matarão.

Oscar Wilde
na  medicina
tudo  começa
com a anatomia

superfícies crespas
objetos sólidos
chanfraduras

mas  ainda  bem
que  o ar  do mundo
abastece os  neurônios


A.M.

DMITRY SPIROS


VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

“O melhor dia da minha vida foi quando eu conheci a Ágatha. O pior foi quando eu a matei”, diz Jhony Marcos Barcelos de Souza, 27, preso há três anos no Centro de Detenção Provisória da Serra, no interior do Espírito Santo. Feminicida confesso, ele assassinou a companheira a golpes de picareta quando ela anunciou a intenção de se separar. “Pra ser sincero com você, estou melhor do que mereço”, afirma em entrevista ao EL PAÍS dentro da unidade prisional que comporta pouco mais de 580 presos, mas abriga 979. Conhecido atrás das grades como Korbãn —palavra hebraica que significa sacrifício, em tradução livre—, Jhony fala em tom calmo: “Eu acho que deveria estar morto. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém”. No Brasil, onde ocorrem 13 feminicídios por dia segundo o Atlas da Violência 2019, o caso de Jhony se soma a outros milhares —4.936 só em 2017 para ser preciso— que fazem do país um dos recordistas em morte de mulheres no mundo.
(...)

Gil Alessi, El País, Serra (ES), 17/08/2019, 22:13 hs

sábado, 17 de agosto de 2019

RECUO E BLINDAGEM

Na avaliação de integrantes da Polícia Federal (PF) ouvidos pelo blog, o recuo do presidente Jair Bolsonaro nesta sexta-feira (16) sobre o comando Superintendência Regional no Rio de Janeiro mostrou que a instituição conseguiu blindar a tentativa de ingerência política.

O blog apurou que, por muito pouco, não houve uma entrega coletiva de cargos de comando da Polícia Federal com a fala de Bolsonaro para substituir o superintendente do Rio de Janeiro pelo superintendente da PF de Manaus.

Na avaliação de um delegado experiente, esse movimento deixaria exposto um Bolsonaro junto ao seu eleitorado contrariando um discurso de campanha de não interferência política em investigações, o que causaria forte desgaste à imagem do governo. Por isso, na avaliação de integrantes da PF, aconteceu o recuo do presidente.
(...)

Gerson Camarotti, Globo.com., 17/08/2019, atualizado há 3 horas.

BEETHOVEN - Silence

Eu moro em mim
Mas ô casa bagunçada.

Líria Porto
A diferença, a afirmação e a negação

A diferença tem sua experiência crucial: toda vez que nos encontramos diante de ou em uma limitação, diante de ou em uma oposição, devemos perguntar o que tal situação supõe. Ela supõe um formigamento de diferenças, um pluralismo de diferenças livres, selvagens ou não domadas, um espaço e um tempo propriamente diferenciais, originais, que persistem através das simplificações do limite e da oposição. Para que oposições de forças ou limitações de formas se delineiem, é preciso, primeiramente, um elemento real mais profundo que se defina e se determine como uma multiplicidade informal e potencial. As oposições são grosseiramente talhadas num meio fino de perspectivas encavaladas, de distâncias, de divergências e de disparidades comunicantes, de potenciais e de intensidades heterogêneas; não se trata, primeiramente, de resolver tensões no idêntico, mas de distribuir disparates numa multiplicidade. As limitações correspondem a uma simples potência da primeira dimensão  num espaço de uma dimensão e de uma direção, como no exemplo de Leibniz invocando barcos levados pela corrente, pode haver choques, mas estes choques têm, necessariamente, valor de limitação e de igualização, não de neutralização nem de oposição. Quanto à oposição, ela representa a potência da segunda dimensão, como um desdobramento das coisas num espaço plano, como uma polarização reduzida a um só plano; e a própria síntese se faz somente numa falsa profundidade, isto é, numa terceira dimensão fictícia que se acrescenta às outras e se contenta em desdobrar o plano. De qualquer modo, o que nos escapa é a profundidade original, intensiva, que é a matriz do espaço inteiro e a primeira afirmação da diferença; nela, vive e borbulha em estado de livres diferenças, o que, em seguida, só aparecerá como limitação linear e oposição plana. Em toda parte, os pares, as polaridades, supõem feixes e redes; as oposições organizadas supõem irradiações em todas as direções. As imagens estereoscópicas só formam uma oposição plana e rasa; elas remetem, de modo totalmente distinto, a uma estratificação de planos coexistentes móveis, a uma "disparação" na profundidade original. Em toda parte, a profundidade da diferença é primeira; e de nada adianta reencontrar a profundidade como terceira dimensão se ela não foi posta de início como envolvendo as duas outras e envolvendo a si própria como terceira. O espaço e o tempo só manifestam oposições (e limitações) na superfície, mas, em sua profundidade real, supõem diferenças distintamente volumosas, afirmadas e distribuídas, que não se deixam reduzir à trivialidade do negativo. Como no espelho de Lewis Carroll, em que tudo aparece ao contrário e invertido na superfície, mas "diferente" em espessura. Veremos que isto acontece a propósito de qualquer espaço, o geométrico, o físico, o biopsíquico, o social, o lingüístico (como se mostra pouco correta a esse respeito a declaração de Trubetskoi: "A idéia de diferença supõe a idéia de oposição... "). Há uma falsa profundidade do combate, mas, sob o combate, há o espaço de jogo das diferenças. O negativo é a imagem da diferença, mas sua imagem achatada e invertida, como a vela no olho do boi, o olho do dialético sonhando com um vão combate?
(...)

Gilles Deleuze in Diferença e Repetição, 1968 
PROMESSA DE CAMPANHA

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira (15) que não vai permitir que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) libere verbas para algumas produções com temas LGBT que tentaram captar recursos.
(...)

Por Cesar Soto, G1, 16/08/2019, 22:12 hs

ADRIANA CALCANHOTO - Água Perrier

friagem

tão longas as noites de inverno
e a terra
envolta em luar e em saudade
leva-me a pensar que a vida
embora bela
cantada e decantada pelos poetas
não vale quanto pêsame


Líria Porto
O homem explora o homem e por vezes é o contrário.

Woody Allen
REVOLTRIL

Revoltril é o nome comercial do princípio ativo 68- dimetil revoltricina, medicamento com ação poderosa de anti-revolta sobre todas as modalidades de expressão clínica da revoltite infecciosa ou de causa  idiopática : ansiedade, depressão, delírio, alucinação, insônia, pânico, anorexia e somatoses em geral. O Revoltril foi sintetizado nos laboratórios de Bruxelas em meados dos anos 40 do século XX.  O segredo da sua fórmula permanece sem ser revelado à comunidade científica em função das profundas implicações éticas contidas na busca da felicidade humana na Terra. Testado secretamente em algumas situações de grande sofrimento psicológico, preveniu a eclosão epidêmica da revoltite. Foi, por exemplo, o caso dos campos de concentração nazista, quando e onde os prisioneiros judeus experimentaram essa nova droga e puderam morrer com tranqüilidade nas câmeras de gás. Sem revolta. Animados com tal sucesso, os fabricantes resolveram avançar e aperfeiçoar as pesquisas. Nos anos seguintes, precisamente 1952, apesar da  chegada da clorpromazina,  droga concorrente ao mercado (o nosso amplicitil), a 68-dimetil revoltricina tornou-se a droga de escolha para todos os casos de revoltite, principalmente os quadros graves com evolução crônica, situações dramáticas em que o portador da patologia torna-se um revoltado serial e incurável. Contudo, há registros na literatura médica de que casos assim tiveram que ser tratados com psicocirurgia, o que acerretou na obtenção de efeitos adversos em substituição aos terapêuticos. O paciente virava uma espécie de zumbi. Tal não é o caso do Revoltril. Tudo porque ele age diretamente nos neurônios aflitos, entidades celulares conflituadas entre a entrada dendrítica e saída axônica.  Enfim, Revoltril remove as angústias mais recônditas do sistema cérebro-mente humano. Trata-se de um esforço científico orquestrado por organizações mundiais interessadas no bem-estar da humanidade. O nosso Laboratório, o Bio-Humana-Visa, é apenas a ponta avançada de um programa mais amplo (há outros) e planetário, daí com grande força para dar certo. Revoltril está à venda nas melhores farmácias, desde que seja apresentada receita médica.


A.M., 2013

SEM DESTINO - direção de Dennis Hooper, 1969

descobrimento

a infância é um barquinho
a transportar nossos sonhos
da enxurrada até o rio

a juventude um caiaque
a descer a correnteza
sem pensar em desembarque

a velhice é caravela
terra à vista


Líria Porto

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

SITUAÇÃO-LIMITE

Depois de 14 dias em alto-mar e um em frente à costa da ilha italiana de Lampedusa, vendo uma terra que não estão autorizados a tocar, os 134 imigrantes que permanecem no navio Open Arms chegam ao limite de suas forças, físicas e psicológicas. O psicólogo a bordo da embarcação espanhola, Alessandro di Benedetto, voluntário da organização Emergency, afirmou ao EL PAÍS que as últimas retiradas “a conta-gotas” —nove pessoas na quinta-feira à tarde e outras quatro na madrugada desta sexta— causaram um efeito devastador nos ânimos à bordo. “Nas últimas horas a situação, que por si só já era dramática, ficou insustentável e corremos o risco de viver uma tragédia”, assinalou por telefone do navio.
Di Benedetto, que elaborou o relatório médico que permitiu a retirada de cinco pessoas com seus familiares na quinta-feira à tarde por sofrimento psicológico extremo, contou que à medida que o tempo passa a situação se torna mais crítica: nas últimas horas, registrou “comportamentos agressivos” entre alguns passageiros, tomados pelo desespero. “Houve uma tentativa de suicídio e um pequeno grupo de passageiros tentou se jogar no mar”, afirmou. Ele apontou que “as retiradas em pequenos grupos agravaram a raiva e a frustração dos que continuam a bordo, que pedem constantemente para ser evacuados”. E alertou: “Já é hora de que todos desçam”.
(...)

Lorena Pacho, El País, Lampedusa, 16/08/2019, 18:19 hs
Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver.
(...)

Caio Fernando Abreu

HENRY ASENCIO


ONDE ESTÁ O MOVIMENTO

O teatro é o movimento real e extrai o movimento real de todas as artes que utiliza.
Eis o que nos é dito: este movimento, a essência e a interioridade do movimento, é a
repetição, não a oposição, não a mediação. Hegel é denunciado como aquele que propõe
um movimento do conceito abstrato em vez do movimento da Physis e da Psiquê. Hegel
substitui a verdadeira relação do singular e do universal na Ideia pela relação abstrata do
particular com o conceito em geral. Ele permanece, pois, no elemento refletido da
"representação", na simples generalidade. Ele representa conceitos em vez de dramatizar
Idéias: faz um falso teatro, um falso drama, um falso movimento. É preciso ver como
Hegel trai e desnatura o imediato para fundar sua dialética sobre esta incompreensão e
para introduzir a mediação num movimento que é apenas o movimento de seu próprio
pensamento e das generalidades deste pensamento. As sucessões especulativas
substituem as coexistências; as oposições vêm recobrir e ocultar as repetições. Quando,
ao contrário, se diz que o movimento é a repetição e que é este nosso verdadeiro teatro,
não se está falando do esforço do ator que "ensaia repetidas vezes" enquanto a peça ainda
não está pronta. Pensa-se no espaço cênico, no vazio deste espaço, na maneira como ele é
preenchido, determinado por signos e máscaras através dos quais o ator desempenha um
papel que desempenha outros papéis; pensa-se como a repetição se tece de um ponto
relevante a um outro, compreendendo em si as diferenças. (Quando Marx também critica
o falso movimento abstrato ou a mediação dos hegelianos, ele próprio é levado a uma
idéia essencialmente "teatral", idéia que ele mais indica que desenvolve: na medida em
que a história é um teatro, a repetição, o trágico e o cômico na repetição formam uma
condição do movimento sob a qual os "atores" ou os "heróis" produzem na história algo
efetivamente novo.) O teatro da repetição opõe-se ao teatro da representação, como o
movimento opõe-se ao conceito e à representação que o relaciona ao conceito. No teatro
da repetição, experimentamos forças puras, traçados dinâmicos no espaço que, sem
intermediário, agem sobre o espírito, unindo-o diretamente à natureza e à história;
experimentamos uma linguagem que fala antes das palavras, gestos que se elaboram
antes dos corpos organizados, máscaras antes das faces, espectros e fantasmas antes dos
personagens  todo o aparelho da repetição como "potência terrível". 
(...)

G. Deleuze in Diferença e Repetição, 1968

MISÉRIA É MISÉRIA EM QUALQUER CANTO


olhos cor de mostarda

À porta um sobressalto
por aquele homem eu não esperava
ao fitar-lhe os olhos percebi
vai querer ser dono
de minha alma

em legítima defesa eu lhe disse
a mulher que em mim procuras
não existe

nunca mais o vi
mas para assegurar-me comprei cruz
balas de prata cabeças d´alho
estaca


Líria Porto

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

O ABANDONO DO HOSPITAL

O hospital psiquiátrico mais importante da Venezuela não está passando pelo melhor momento. A instituição, fundada há 126 anos, tornou-se uma "superlotação de seres humanos", nas palavras de enfermeiras que diariamente enfrentam condições de trabalho deploráveis. O Hospital Psiquiátrico de Caracas entra em colapso em meio à escassez de medicamentos e serviços básicos como a luz em meio ao silêncio das vozes do governo sobre uma solução para a crise da saúde pública.
(...)

El País, 12/08/2019, 11:06 hs

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

MUITO CUIDADO

Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça.Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem.
(...)

Lygia Fagundes Telles

terça-feira, 13 de agosto de 2019

CIDA MOREIRA - A Última Sessão de Música

SEM EU

Ao final do expediente no Caps, o psiquiatra se prepara para sair quando um barulho forte invade a sua sala. Veio do lado. Ao avistar um paciente em estado de desespero, choro, agonia e delírio, o psiquiatra viaja nas planícies acinzentadas do seu próprio pensamento, apesar de estar contido nas teias da razão médica. Em torno de si e para si ele se encurva num movimento dolorosamente imperceptível. Pensa em silêncio o próprio silêncio da morte em vida. De há muito sabe (e compreendeu) que não existe a esquizofrenia como entidade clínica, a que é formatada pela ciência biomédica. Isso (evidente) é uma fraude neurofabricada ao longo da história da psiquiatria. No entanto, existe, existe sim a experiência esquizofrênica, a qual se expressa fora dos enquadres normais da convivência humana. Mas ela não está fora da normalidade. Ela, a experiência, é o próprio fora como território afetivo órfão, um traste psíquico (não explícito, claro) de acordo com o código internacional dos transtornos mentais, o CID. A desrazão assombra e desconcerta o senso comum, preciosa linha subjetiva que naturalmente costuma organizar a pessoa e sua conduta civilizada. No universo da loucura a experiência esquizofrênica dilacera o próprio eu, não só cindindo-o, estilhaçando-o, mas fazendo dele um mero joguete das intensidades mais destrutivas. Quem sou senão o produto de mil forças que escapam ao controle? Ao contrário, me controlam, me compõem, me impõem, me levam, me determinam, fazendo do mundo (mesmo um Caps) um lugar onde não mais me reconheço. É essa alma errante que configura o choro convulso no aniquilamento da subjetividade humilhada diante dos homens saudáveis. Que fazer diante de tanto desamparo existencial, psiquico, social, linguístico, ontológico e espiritual? Do outro lado da rua, do outro lado do muro chega a notícia de que não podem ajudá-lo porque ele tem um transtorno da personalidade. Um estigma científico. O horror de tal notícia ecoa nos tímpanos estourados de uma psiquiatria que já "não ouve vozes", pelo menos não mais a voz dos seus pacientes. Um pouco mais tarde o psiquiatra fica sabendo que aquele era o seu dia, o dia do psiquiatra...

A.M.
Glória morta

Tanto rumor de falsa glória, 
Só o silêncio é musical,
Só o silêncio,
A grave solidão individual,
O exílio de si mesmo,
O sonho que não está em parte alguma.

De tão lúcido, sinto-me irreal.


Dante Milano

PAVEL MITKOV


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O QUE EXISTE

A subjetividade não existe. Ou melhor, não existe como Coisa, mesmo a mais valiosa. Isto quer dizer que ela não é redutível a um objeto sólido, visível, que obedece à construção de uma forma estável e eterna. Tampouco é detentora de uma natureza ou de uma essência última que traria a raiz-mãe dos seus segredos, como se estes fossem revelados à medida em que se adentrasse às linhas de expressão objetiva. Tais considerações conceituais remetem a uma concepção positivista, a qual, lastreada pelo progresso científico, aponta aos pesquisadores da clínica psicopatológica o alvorecer de uma verdade intocável. É o sonho delirante parido do casório do cristianismo com a ciência (a pessoa humana+o comportamento) que desemboca em nossos dias na face cruel da angústia encarnada na dor de existir: a depressão. Esta é anestesiada por remédios não apenas químicos (há milhões...) no consumo sedutoramente apavorante do circuito do capital. No fim, ao contrário do que dissemos ao início, a subjetividade é, isto sim, uma Coisa codificada segundo o enquadre teórico que a concebe. No entanto, bem mais ou bem menos que tal dado, que importam as teorias, as doutrinas, os dispositivos conceituais, as escolas científico-filosóficas, se ela é apenas uma peça bem azeitada às linhas de montagem nas indústrias da alma?

A.M.
BOLSO E HUGO: SEMELHANÇAS

Nas eleições presidenciais de 1998, 56% dos eleitores venezuelanos decidiram dar uma chance ao ex-militar Hugo Chávez, um antipolítico que prometia acabar com a "velha política" e a corrupção. O discurso inflamado e as convicções autoritárias de Chávez foram a estratégia acertada em uma eleição marcada pela ampla insatisfação com o sistema político tradicional e o desejo de ruptura. No ano seguinte, em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o então deputado e ex-militar Jair Bolsonaro chamou o líder venezuelano de uma "esperança para a América Latina." Foi além: "Gostaria muito que esta filosofia chegasse ao Brasil. Acho ele ímpar. Pretendo ir à Venezuela e tentar conhecê-lo”. De fato, apesar de declarar o chavismo como grande inimigo ao longo dos últimos anos, Bolsonaro compartilha várias características com o ex-presidente venezuelano.

Uma dos traços que o brasileiro tem em comum com o fundador do chavismo — e que não costuma ser lembrado — é uma conturbada relação com o mundo acadêmico e o pensamento crítico. Por exemplo, Bolsonaro já criticou a autonomia das universidades federais — garantida pela Constituição — e seu Governo fez ameaças de que instituições fazendo “balbúrdia” teriam suas verbas reduzidas, tendo como alvo principal as ciências humanas, área que supostamente teria forte influência de doutrinação marxista. Como um político da oposição venezuelana me disse durante minha recente visita a Caracas, "Bolsonaro é um aliado importante na luta contra a ditadura aqui, mas é claro que sua retórica me lembra a de Hugo Chávez."
(...)

Oliver Stuenkel, El País, 19/08/2019, 19:51 hs