sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O MENSALÃO RESPIRA SEM APARELHOS

PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE

O Estado, sua polícia e seu exército formam uma gigantesca empresa de anti-produção, mas no seio da própria produção, e condicionando-a. Encontramos aqui uma nova determinação do campo da imanência propriamente capitalista: não apenas o jogo das relações e coeficientes diferenciais dos fluxos descodificados, não apenas a natureza dos limites que o capitalismo produz numa escala cada vez mais larga enquanto limites anteriores, mas a presença da anti-produção na própria produção. O aparelho de antiprodução não é mais uma instância transcendente que se opõe à produção, limita-a ou a freia; ao contrário, ele se insinua em toda parte na máquina produtora, e a esposa estreitamente para regrar sua produtividade  e realizar sua mais-valia (...) (...) É claro, o cientista não tem enquanto tal nenhuma potencialidade revolucionária, ele é o primeiro agente integrado da integração, refúgio da má consciência, destruidor forçado da sua própria criatividade. (...)

G. Deleuze e F. Guattari - do livro O anti-édipo
ATENDIMENTO PRAGMÁTICO

Paciente- Dr., não acredito em mais nada. Quero morrer.
Psiquiatra - Vou lhe passar  um comprimido de  rivotril- 2 mg,  três  vezes ao dia. 

Paciente- Isso resolve, doutor?
Psiquiatra-Resolver mesmo, não. Mas é a única saída.

Paciente- Como assim, doutor?
Psiquiatra-Vá por mim. Falo por experiência própria...

Paciente-?
Psiquiatra-!

GAROTA DE IPANEMA

IMPÉRIO: A NOVA ORDEM MUNDIAL

Não creio que os migrantes fujam somente da miséria; penso que eles buscam liberdade, saber e riqueza. O desejo é uma prática construtiva, e ele é tanto mais forte quanto mais está implantado na pobreza: a pobreza, de fato, não é simplesmente miséria, mas é a possibilidade de muitíssimas coisas, que o desejo indica e o trabalho produz.

A. Negri -  do livro  Cinco lições sobre Império (*)

(*) Hardt, M. e Negri, A. - Império, tradução: Berilo Vargas, Rio de Janeiro, Record, 2001.
O TEMPO DA VIDA

O universo dura. Quanto mais aprofundamos a natureza do tempo, mais compreendemos que a duração significa invenção, criação de forma, elaboração contínua do absolutamente novo (...)

H. Bergson - do livro A evolução criadora
ÉTICA DO ENCONTRO

As críticas à psiquiatria vêm   de múltiplos  lugares e enfoques. Faz-se  necessário situá-las    a partir  da  inserção sócio-político-institucional  daquele que fala; de onde? o que quer? o que busca ? qual a sua prática clínica?  Só assim, poderemos  avaliar   éticamente (*) seu  discurso.

(*) Referimo-nos a uma ética  extraída  do  Encontro com o paciente, emergindo daí...

Antonio Moura

SOBRE A PSIQUIATRIA - Thomas Szasz

POESIA DO DIA


burocratizar o pensamento
quem faz melhor
que a academia
no seu dia-a-dia?

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

MINI-ENTREVISTA

Pergunta - Você usa o diagnóstico "cidológico" com seus pacientes?

Antonio - Olha, a CID tem um status jurídico internacional. Daí, não há como escapar inteiramente dos seus efeitos, inclusive sobre o paciente. Em certos contextos,ela  poderá  ser usada, como por exemplo,  num caso de avaliação psiquiátrica solicitada pelo juiz. Ou numa perícia médica. Bom, há  situações  pontuais, focais... No entanto, na clínica que busca as vivências  múltiplas do paciente,  a CID é apenas uma contra-referência para  um bom  Encontro,  ou seja, uma organização de linhas enrijecidas (molares) que imobilizam o fluxo desejante.  

AS MULTIPLICIDADES

O cérebro mente porque ele costuma ser conduzido pela consciência, e não o contrário. A consciência é uma representação do mundo e com base nisso,  "se apossa" do cérebro. O que se diz do cérebro está assim marcado pela visão da consciência. As máquinas pets e similares reproduzem  esta  visão humana, demasiado humana. Propomos, então,  substituir a pseudo- equação cérebro=mente  pelo conceito-operatório de subjetividade, ou mais precisamente, de modos de subjetivação. Eles estão  povoados de multiplicidades.  Isso   é o real.  Não existe o indivíduo, a não ser como produto das formações de poder do capital: o consumidor de ordens implícitas e de tantas coisas mais...

Antonio Moura
PERCEBER O IMPERCEPTÍVEL

O movimento está numa relação essencial com o imperceptível, ele é por natureza imperceptível. É que a percepção só pode captar o movimento como uma translação de um móvel ou o desenvolvimento de uma forma. Os movimentos e os devires, isto é, as puras relações de velocidade e lentidão, os puros afectos, estão abaixo ou acima do limiar de percepção. Sem dúvida, os limiares de percepção são relativos, havendo sempre, portanto, alguém capaz de captar o que escapa a outro: o olho da águia.

Deleuze e Guattari - do livro Mil platôs

OLHA MARIA

O PRISIONEIRO

Lembro-me da minha primeira  manhã no presídio. No corpo da guarda, à porta do presídio, o tambor tocou a alvorada e dez minutos depois o oficial das sentinelas abriu os barracões. À luz baça de uma vela os presos se foram levantando das suas esteiras. Na sua maioria mostravam-se taciturnos e ainda com sono. Bocejavam, espreguiçavam-se e franziam as frontes estigmatizadas. Alguns persignavam-se, outros começavam a armar brigas com os outros.Lá dentro fazia um calor horrível (...)

Dostoiévski - do livro Memórias da casa dos mortos
A LINHA ESQUIZO 

                                                        Antonio Moura


                          Sabemos que   a   Consciência   é  regida  por  representações    da  realidade. Ela  traz   a certeza  de si   ancorada       no     eu,  (que  também  é  uma  representação),  estanca  os devires e  fabrica   impressões  de  identidade.  Isto é  uma    mesa.  Aquele  é  o  paciente.   A suposta  identidade  do   outro   vem   atada  a  um  modelo  cognitivo  único: a  razão.   Institui-se,   assim,      o  hábito      de   que  o pensamento   é  um decalque  do  real.  Contudo,  pensar    é possível   “encontrando”  o lado de  fora,  a linha  do Fora. O  que  é  isso? Chamamos a  mente  de  subjetividade. Ela  expressa  um mundo  próprio  mediante a  criação  de   processos  singulares. Rigorosamente, não    “dentro” nem “fora”  da  subjetividade.   A expressão “no  mundo”     é  um mundo, mesmo  que  seja     delirante. O eu  se esfuma  em proveito de  linhas de  vida   que   escorrem  pelo  corpo. O centro  deixa  de ser  o eu para  ser     o corpo- superfície onde se inscreve o desejo. O corpo  é  o desejo. Aqui se  traçam e   se trançam     linhas  existenciais. Seguindo  Deleuze, são  3  as   linhas que   nos  constituem.   Enroladas umas  nas  outras, às vezes   indiscerníveis para  um olhar-clichê.   Temos:  a  linha molar  (ou sedentária), a molecular  (ou  nômade) e  a  de fuga. Vejamos algumas de suas  características  no campo  da  saúde  mental, mais especificamente no  paciente.  A linha  sedentária  estabelece  um papel social   “estável”   hoje  nomeado  “portador  de  transtorno  mental”. A linha nômade   expressa  singularizações   que  escapam à  forma-doença. São estilos de  vida,   maquinando  uma certa arte,  talvez  a arte de viver. Por  fim, a  linha de  fuga; a mais inesperada e louca: traduz universos  insólitos  não   sonhados pela  organização  molar.É o mundo abstrato  das  formas  não instituidas. Tudo  isso  compõe   os  processos subjetivos. A linha  de  fuga, sem  dúvida, a  mais estranha  e arriscada,  traz a questão  da loucura  para dentro  da Clínica. Deste modo, a avaliação  da Consciência é  apenas um elemento ( dos  mais  frágeis) para  se poder dizer  “quem é o paciente?” A sua  identidade, estabelecida pela  razão  psiquiátrica e  por todas as  razões  de mando e comando, revela-se  uma    linha  pronta  a se  encaixar  no  molde diagnóstico. Qual  o  CID?    Falamos  de outra  coisa,  talvez inominável. Portamos   a  Consciência  e suas representações da  realidade  porque  a  tal Realidade não é  a “nossa”  e sim a que nos  fazem acreditar. O paciente recusa-a. Ele   escapa por   linhas-sintomas  (o delírio, a alucinação, etc) nem sempre criativas, e muitas  vezes  destrutivas para  si  e para  os outros. As  linhas  moleculares (singularizações)  se  tornam  meras  esquisitices e as linhas  de  fuga  buracos  negros enregelados e malditos. A linha esquizo  passa  então   a ser  a entidade  clínica  tão cara  à psiquiatria e  aos  seus  axiomas. Veja:  é    esquizofrenia!  Apesar  disso, ela é  a  linha  do  Fora ( onde  é  possível  pensar)   pois está em  contato com  forças inumanas. O Inconsciente não freudiano,  reservatório de  multiplicidades  pulsantes,  está  aí, mesmo sem ser  visto. A arte, mais uma vez, comparece. Seus  paradoxos e  expressões   são  uma  linha  esquizo  se  esboçando, se  fazendo..
POESIA DO DIA


eu semeio o vento
na minha cidade 
vou pra rua e bebo
a tempestade


Chico Buarque

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

MILAGRE DOS PEIXES

UM CONCEITO FURADO

Transtorno mental é um construto pseudo-teórico  "filho" da  psiquiatria e    suas agências sociais   de apoio irrestrito. Não existe "transtorno mental" e sim modos de subjetivação, vivências  compostas  por linhas do desejo (afetos) e linhas de crença (pensamento). Isso pode se condensar na organização do eu-paciente, um eu-submetido à Ordem. Tudo  funciona  enxertado nos processos de produção da vida social, hoje, chamada  capitalismo. Desse modo, o paciente carrega em si mesmo o peso das instituições que o codificam  como   a Realidade Definitiva. Ora, não existe realidade definitiva. Só há o  devir, a irreversibilidade...

Antonio Moura

Sobre  os  corpos
                                                   
                                                       Antonio Moura



                 O  corpo-sem-órgãos   (CsO) é um anticonceito,   limite  intransponível da experiência.  Processo esquizofrênico.  No caso da  entidade  clínica    é   prática de  vida  que  aparentemente fracassou.  Mesmo    assim permanece ativo  enquanto  coleção  de  linhas existenciais sem contorno, fluxos  nômades, gritos. São as máquinas  do desejo.     A  subjetivação é,  pois,   uma   dessubjetivação  incessante. Somos  todos esquizos.  Considere   o  seu próprio  corpo. Ele  é  invenção   de  mundos.     Não    o corpo  do  qual  a medicina,  papai-mamãe  e  a escola   gostam.  É outra  coisa,  uma  política. Aparece  aqui e  ali em situações de  grande  responsabilidade moral – para  desfazer  a  moral.  Se  você   perguntar qual  o meu  corpo , eu  lhe  direi:  sigo os   afetos:  uns  me  encantam, outros  são  insuportáveis. Risco  dos  encontros, puro desejo escorrendo  cruel. Veja  o paciente.  Seu  corpo liga-se ao mundo dos  códigos estáveis. Eles  são  usados  para a  repetição  do Mesmo. A antiprodução  é, assim,    inserida   na produção.  Convite ao normal. Mas,  o que  aconteceria  se  milhões de corpos sem órgãos  fossem movidos ao combustível alegria? O corpo  seria  o  de uma dançarina saltando  na relva?  O  de  um  soldado  numa  trincheira? Ora,  os  corpos  são invisíveis. Sua potência  esgueira-se  por  entre  as  franjas da  racionalidade  proprietária do  eu.   Não  há  corpos opacos.  Somos  fibras   de luz e só  os videntes  enxergam  para além de  toda  moral e de  toda  técnica. O  CsO é  uma política  de guerreiros  esquizos. Eles  não se  deixam ver.  Usam máscaras rentes   à  pele. Você nem sabe que  é um. Mas,  não anuncie a sua  chegada,  não  reclame, não ressinta. Cultive  o segredo. Faça  rizomas. 

CRY ME A RIVER - Diana Krall

OS FÁRMACOS, AINDA...

Ouvindo uma aluna em sala de aula, me  chegou a impressão de que a posição que defendo em relação aos fármacos não é clara. Então,  vamos lá, rapidamente: 1- Os psicofármacos são avanços tecno-científicos inquestionáveis; mas isso é insuficiente; e o uso? 2-O problema é o da clínica, ou seja, prescrever fármacos de modo punitivo, em excesso, sem diagnóstico, ou com diagnóstico errado; 3-Ou prescrever fármacos quando a indicação é a psicoterapia; 4-Ou prescrever fármacos quando nem a psicoterapia é indicada. 5-A visão e a prática farmacológica são tributárias de uma epistemologia mecanicista, portanto, limitadíssima na apreensão da vivência do paciente; 6-Em face da inserção de poder da psiquiatria, a insuficiência  dos fármacos transforma-se em danos reais ao paciente, naquilo que chamamos de psiquiatrização subjetiva. 7-Há muita mais a dizer; creio que será necessário voltar ao assunto.

Antonio Moura
O CÉREBRO E O EXTERIOR

Não sou neurofisiólogo, mas fiquei fascinado ao encontrar no cérebro uma atividade de base altamente instável, como no caso do clima. O mundo exterior permite polarizara  esta atividade de base numa direção ou noutra e chegar às atividades cognitivas.

Ilya Prigogine - do livro O nascimento do tempo

POESIA DO DIA

Viva o Brasil
Onde o ano inteiro
É primeiro de abril

Millor Fernandes

terça-feira, 27 de setembro de 2011

BARRAVENTO - dirigido por Gláuber Rocha - 1962

ESCREVER...

Escrever é entregar-se ao fascínio da ausência de tempo. Neste ponto, estamos abordando, sem dúvida, a essência da solidão. A ausência de tempo não é um modo puramente negativo. É o tempo em que nada começa, em que a iniciativa não é possível, em que, antes da afirmação, já existe o retorno da afirmação. Longe de ser um modo puramente negativo é, pelo contrário, um tempo sem negação, sem decisão, quando aqui é igualmente lugar nenhum, cada coisa retira-se em sua imagem  e o "Eu" que somos reconhece-se ao soçobrar na neutralidade de um "Ele" sem rosto. O tempo da ausência de tempo é sempre presente, sem presença. Esse "sem presente" não devolve, porém, a um passado (...)

Maurice Blanchot - do livro O espaço literário

ZABRISKIE POINT- filme de Antonioni - 1970

TIRANIA DO CÉREBRO

Os estudos do funcionamento e da estrutura do sistema nervoso central, com tecnologia atual, trazem somente informações, não conhecimentos (Andreasen, 1994). Enquanto isso, uns esperam, com  tais investigações, desvendar os "últimos mistérios' do cérebro e da mente ou falam de "novos paradigmas" (Fuente, 1997); outros festejam as descobertas, mas não a as consideram apenas aptas a resolver os problemas da clínica psiquiátrica. Avanços no campo genético, neuroquímico, neuroimagem foram obtidos com respeito à esquizofrenia. Porém, os avanços na terapia psicossocial e na pesquisa de serviços, que também foram proeminentes no V congresso Internacional sobre esquizofrenia (1995) não podem ser colocados na sombra pela perspectiva biomédica (Buckley, 1995). Os estudos  com neuroimagens são dos mais notáveis e empolgantes. Pode-se, contudo, observar que, depois de mais de 20 anos de PET, MRI, SPECT, EEG,tomografia computadorizada, pouco foi obtido para o diagnóstico clínico da esquizofrenia e da depressão. Somente mais para o conhecimento do funcionamento cerebral, para meditações especulativas, que para a construção de hipóteses significativas, testáveis e validáveis com amostras de casos (...).

Carol Sonenreich, Giordano Estevão e Luis Altenfelder - do livro - Psiquiatria, propostas, notas, comentários - 1999.
POESIA DO DIA


tudo que acontece
nasce
fora do eu

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

MINI-ENTREVISTA - II

Pergunta-O que o sr. acha dos avanços da neurociência?
Antonio- Muito interessantes.  Estes avanços  servem  à psiquiatria. No entanto, talvez seja preciso dizer uma obviedade: a neurociência não é a psiquiatria. Se a equação neurociência=psiquiatria é entronizada e usada como paradigma de verdade (a reificação do cérebro), estamos diante de uma negação absoluta  da subjetividade. Não haverá  o psíquico nem o coletivo como vetores etiológicos.É o fim da psicopatologia  e de um  saber  extraído  da experiência da loucura.
LINHAS DE FUGA

Uma fuga é uma espécie de delírio. Delirar é exatamente sair dos eixos (como "pirar" etc). Há algo de demoníaco, ou de demônico, em uma linha de fuga. Os demônios distinguem-se dos deuses, porque os deuses tem atributos, propriedades e funções fixas, territórios e códigos: eles tem a ver com os eixos, com os limites e com cadastros. É próprio do demônio saltar os intervalos, e de um intervalo a outro. "Que demônio deu o maior salto?", pergunta Édipo. Sempre há traição em uma linha de fuga. Não trapacear à maneira de um homem da ordem que prepara seu futuro., mas trair à maneira de um homem simples, que já não tem passado nem futuro. Trai-se as potências fixas que querem nos reter, as potências estabelecidas da terra.

G. Deleuze e C. Parnet - do livro Diálogos
POESIA DO DIA


o brasil dos calmos
dos pregadores da paz
dos anunciadores do milênio
dos idólatras da modernidade


dos educados


afasta de mim
esse cálice

domingo, 25 de setembro de 2011


       Ética  e  Clínica-1

                                     Antonio Moura

              Diante do  paciente, é possível  operar   uma  ética não  pronta. Nada   de   manuais ou   códigos  recitados    pela   Academia. Há  uma  não pessoa na  pessoa  à nossa  frente. Tal  paradoxo encarna  um  anti-humanismo visceral. O que  está  em jogo  não  é o   indivíduo, mas   uma   vida.  A  que isso  leva?
              Isso  leva  à  busca  de um  aumento da  potência de existir, tal  como  ensinou  Espinosa.    Na prática clínica     remete a    aspectos  empíricos  e   imediatos. Quem  é  o  paciente?  Quem  sofre?  Ele  mesmo  nos  procurou?  Por  quê? Para  quê?   Ele  quer viver? O  que  é  viver?  São perguntas  elementares     para  a   formulação de uma  ética   de vida.  A  potência  de viver  ocupa um lugar de  destaque na  questão de uma  clínica  da  diferença.    Vale   para o   paciente  e  para o  psiquiatra.   Num    meio clínico   encharcado   de      psiquiatria,  reina  a  ética   médica   envelhecida.      Escapar  dela     e   propor outra  coisa...   seria   possível? 
             Talvez  uma  clínica  que   trabalhe  a   produção   de  novas  maneiras de viver...  Ora,  a  psiquiatria   está morta como  pensamento [1].   Para  turbinar novas  práticas,   iniciemos   pela  ética:  o Encontro com  o paciente  traduz esse  projeto: a  materialidade   da  relação passa  a ser  constituída  por  afetos que  circulam nos  dois  sentidos. É  claro  que  pela sua  própria  definição,  há os bons e os  maus afetos.  Os  que  constroem e  os que  destroem.
            Desse  modo,  antes   da   técnica  é  preciso  compor   linhas de  vida. Implica em  dizer que  o  trabalho  com o paciente  segue   a  arte  como  experimentação. Experimente,  não  interprete,  diz  Deleuze.   Os dados da  história pessoal  e  das contingências atuais estão baralhados  na  superfície  do Encontro. O  trabalho,  no caso do  psiquiatra,  será o de   destruir  formas sociais rígidas (por exemplo, o  afã  de  medicar,  o diagnóstico  cidológico,  o  corporativismo médico, etc) e  criar  dobras, saídas, mesmo  ínfimas  e imperceptíveis, para os  impasses  existenciais.
            Atender o paciente é encontrar  a  loucura.  Interessa,   pois,   ao   psiquiatra,  sair de si  na   direção de  um  campo vivencial   movediço, sem  garantias  prévias,  sem  receitas  ou   protocolos   técnicos. Sob  tais  condições,  torna-se  um  feiticeiro.  Carrega  o  seu balaio  de  conceitos na  espreita de mais  um  encontro em que  possa usá-los.


[1]   Usamos  “pensamento” no  sentido  deleuziano, ou  seja, um  pensar   não    restrito  a  interioridade de um  sujeito,  mas  voltado ao  encontro  com  o  Fora,    com   as   multiplicidades  do  mundo.    Ver Deleuze, G. e Guattari, F., Mil Platôs-Capitalismo  e Esquizofrenia, S. Paulo, Ed.  34, 1997,  vol.  5, p.43  a 50.

TODAS AS LOUCURAS SÃO INOCENTES

QUAL POLÍTICA?

A organização (mundial e nacional)  da Psiquiatria conta com entidades poderosas que codificam o portador de transtorno mental como objeto de um saber científico. Isso pode confluir, por exemplo, no Congresso Internacional em Buenos Aires em setembro de 2011. Nada contra. A questão é outra:  que forças sociais são mobilizadas? Qual o compromisso ético-político com o paciente? Que base epistemológica dá condição teórica  a uma psicopatologia clínica em Saúde Mental? Existe alguma formulação conceitual sobre a subjetividade-doente mental? Qual formulação? A psiquiatria, enquanto instituição social, é considerada? Ou resta tão somente a especialidade "Psiquiatria" com o seu cientificismo acadêmico estabelecido como verdade? Qual o papel da política no trato dos problemas da Saúde Mental? E por último, mas sem finalizar,  qual o sentido da Clínica nos tempos atuais? Reformar, conformar, adaptar, incomodar  ou  revolucionar?

Antonio Moura
MINI-ENTREVISTA

Pergunta-  Por que, apesar de psiquiatra,  você  critica tanto a psiquiatria?
Antonio- Desculpe, mas o "por que " e o "apesar"  não se aplicam  ao caso. É exatamente por ser psiquiatra que eu critico a psiquiatria.

Paul Barnes tocando Philip Glass

AGIR

Não vejo nenhuma saída na ação individual isolada e solitária, pois ela leva o particular sistematicamente para dentro da boca do lobo. A força individual basta para as tarefas à sua dimensão, ao seu alcance. Mais nada. O exemplo de Thoreau bastaria para demonstrar isso. Este teórico da desobediência civil praticava também aquilo que ensinava. Coisa rara nos filósofos. Também, quando decidiu não mais pagar seus impostos, de tal maneira ele achava essa obrigação iníqua e em contradição com sua idéia da justiça, ele foi obviamente intimado pelas forças da ordem e conduzido à prisão. Lá, como mártir da causa libertária, decidiu ficar, antes prisioneiro em paz com sua consciência que livre e desgostoso dela.

Michel Onfray - do livro A política do rebelde- tratado de resistência e insubmissão
DEPRESSÃO  SUB-CLÍNICA - II

A depressão que estamos tentando evitar pode muito bem ser uma reação prolongada e crônica com o mundo, o lamento e o pranto pelo que temos feito à natureza, à cidade, a povos inteiros - a destruição de grande parte deste mundo. Estamos deprimidos em parte por ser essa a reação da alma ao nosso lamento e pranto inconscientes.

James Hillman - do  livro  Cem anos de psicoterapia... e o mundo está cada vez pior

A GUERRA DOS ROSES

SÓCIO-PSICODRAMA NO SERVIÇO PÚBLICO -10

Após interrupção, por uma semana,  devido a viagem do terapeuta, o grupo retoma o trabalho sobre si... Os papéis sociais de mãe e esposa continuam em destaque.Percebe-se, a essa altura,  surgirem  identificações importantes entre as pacientes.  Os fluxos discursivos já se deslocam da figura do terapeuta como referência (relação-em-corredor) e passam a circular (ainda que timidamente) entre elas. Sair das amarras destes papéis  nos parece ser essencial na composição de forças grupais e no desvelamento da espontaneidade criativa. É com essas forças que pretendemos "acionar" novas subjetividades. Diz  uma paciente: " foi dito aqui que eu precisava  cuidar de mim, só esta semana caiu a ficha... quando desabafei lá em casa, meus filhos deram até risada de mim" . Aparente obviedade de  auto-constatação  não  esconde o fato de uma maior implicação da paciente com a realidade grupal e  o que emana dessa realidade. O eixo condutor das falas do terapeuta é, portanto,  produzir  um campo de liberdade e confiança no grupo. "Aqui me entendem e aqui sou livre". É claro que este é tão só um artifício de preparação para a escolha e trabalho com o protagonista (*) que por certo virá. A conquista de uma "liberdade" é no mundo e não no grupo.

Antonio Moura

(*) Membro  que é "escolhido" pelo grupo para ser trabalhado em destaque na  sessão. ´Trata-se de  uma espécie de representante do  Drama Grupal (e Social) que se expõe e se expressa,     contando  com o grupo como continente afetivo.  Este  lhe "empurra"  na direção de saídas para os problemas trazidos.

COMO RESISTIR?

A imagem do progresso é poderosa. Mesmo as denúncias de tal ou qual episódio outrora considerados por muitos como "progressista" - colonização, desenvolvimento das técnicas, mobilização ideológica - se fazem em seu nome, pois é difícil evitar frases que podem ser abreviadas na forma do tipo: "Antes, nós acreditávamos que..., hoje nós sabemos que...". Até a denúncia da arrogância ocidental, que se acreditou intrinsecamente distinta das outras culturas, não anula a diferença: somos nós que estamos em movimento, que fizemos sofrer e que agora nos tornamos capazes de reconhecer nossos exageros. Nenhuma conclusão "relativista" pode fazer esquecer que, racionalistas ou "relativistas", somos sempre nós que falamos.

Isabelle Stangers - do livro As invenção das ciências modernas
POESIA DO DIA

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria, 
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as flores verdes.
Há novas flores, novas flores verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

F. Pessoa

sábado, 24 de setembro de 2011

YOU KNOW I´M NO GOOD - Amy

RIZOMAS

De forma alguma pretendemos ao título de ciência. Não reconhecemos nem cientificidade nem ideologia, somente agenciamentos.O que existe são os agenciamentos maquínicos do desejo assim como os agenciamentos coletivos de enunciação.

G. Deleuze e F. Guattari - do livro Mil platôs
TRANSDISCIPLINARIDADE

O que me interessa não é uma síntese, mas um pensamento transdisciplinar, um pensamento que não se quebre  nas fronteiras entre as disciplinas. O que me interessa é o fenômeno multidimensional, e não a disciplina que recorta uma dimensão nesse fenômeno. Tudo o que é humano é ao mesmo tempo psíquico, sociológico, econômico, histórico, demográfico. É importante que estes aspectos não sejam separados, mas sim que concorram para uma visão poliocular. O que me estimula é a preocupação de ocultar o menos possível a complexidade do real.

Edgar Morin - entrevista - 1981.
DEVIR-MIGUEL

Miguel tem 6 meses. Acompanho o fluxo dos signos que fazem brilhar os seus olhinhos prescrutadores. Busco ser este fluxo torrencial de cores, sons, imagens de um mundo desconhecido e misterioso. Neste circuito de trocas desiguais, apreendo que a vida  supera  as formas constituídas, como por exemplo a idade das rugas ou as dobras da pele recém-nascida. Assim, Miguel expressa o choro semiótico que me converte num sorriso  companheiro. Ele inaugura a cada minuto a viagem das intensidades de um devir-bebê. Não sou mais eu...

Antonio Moura

DRÁCULA - Bela Lugosi

O CONHECIMENTO PSIQUIÁTRICO É SIMPLÓRIO

Assunto  recorrente de debates entre profissionais dedicados à Saúde Mental em todo o mundo, os transtornos de personalidade despertam discussões pela grande indefinição que caracteriza seus aspectos etiológicos, epidemiológicos, classificatórios e terapêuticos. Apesar de recentes tentativas para se estabelecer orientações precisas para seu tratamento, ainda restam controvérsias, dúvidas e discordâncias em grande parte da comunidade científica dedicada ao tema.

Leonardo Sauaia - psiquiatra - do texto Manejo do paciente com transtorno de personalidade in Manejo do paciente psiquiátrico grave,São Paulo, Roca, 2009. (vários autores).

Comentário - 1-os grifos são nossos.
-A Igreja é exatamente aquilo contra o que Jesus pregou - e aquilo contra o que ele ensinou seus discípulos a lutar -

F. Nietzsche - do livro A vontade de poder
POESIA DO DIA

se o amor
em tua porta bater
é bom saber
que de ti
ele zomba
amor não bate
amor arromba

Nildão

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ME DEIXAS LOUCA - Elis Regina

TRAIR A PSIQUIATRIA- III

Trair a psiquiatria é usar pedaços da semiologia psicopatológica inseridos numa superfície que é a da clínica. Para isso ser possível, são construídas linhas de saber  que  destoam  do  conhecimento biomédico, mas  que  com ele confluem em práticas do encontrar. "Práticas do encontro", melhor dizendo,  são clínicas voltadas à potencialização das capacidades socio-desejantes do paciente. Parece óbvio que  a utilização pura e simples de fármacos, atrelada a uma concepção reificante  do cérebro, não alcança  tal  objetivo. Pior: condena os modos de subjetivação (por definição, múltiplos) a um eterno  "eu"   lamuriento  alternando com  remédios químicos.  Trair a psiquiatria, é, pois, não criticar, mas criar  linhas  da diferença num  meio  indiferenciado. Não é fácil...

Antonio Moura

ENTREVISTA COM FOUCAULT

POESIA DO DIA

aos poucos tudo ficou broxa
exceto o capital
e sua tocha

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

NEGAR O PODER 

(...) O que foi questionado é a maneira pela qual o poder do médico estava implicado na verdade daquilo que dizia, e inversamente, a maneira pela qual a verdade podia ser fabricada e comprometida pelo seu poder. Todas as grandes reformas, não só da prática psiquiátrica, mas do pensamento psiquiátrico, se situam em torno desta relação de poder; são tentativas de deslocar a questão, mascará-la, eliminá-la e anulá-la.

M. Foucault - do livro Microfísica do poder
DIAGNÓSTICO PRECOCE


Psiquiatra-O que você sente?
Paciente-Eu tenho esquizofrenia.


Psiquiatra- Isto é um diagnóstico. Quem lhe falou?
Paciente - O sr. mesmo, doutor.


Psiquiatra-Eu? Não lembro.Quando foi?
Paciente-.No ultra-som...


Psiquiatria - Ultra-som?
Paciente-Sim, dr., quando eu estava na barriga da mamãe.


Psiquiatria - Ah, faz muito tempo.
Paciente- Pois é. Muito tempo.

TEMPOS MODERNOS - Chaplin

QUAL  INCONSCIENTE?

Isso funciona em toda parte, às vezes sem parar, às vezes descontínuo. Isso respira, isso esquenta, isso come. Isso caga, isso fode. Que erro ter dito o isso. Em toda parte são máquinas, de maneira alguma metaforicamente; máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões.

G. Deleuze e F. Guattari  - do livro  O anti-édipo
POESIA DO DIA


o abstrato é o concreto
dos seres invisíveis

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Trair a psiquiatria - II

Trair a psiquiatria é praticar uma psiquiatria descolada do modelo biomédico. Isto significa, ao atender um paciente,  não conversar   com o cérebro, como faz  o psiquiatra remedeiro. Sabemos que  ele  usa  cada frase, cada resposta  como  linha sináptica a ser explorada. Ao contrário, conversar com os modos de subjetivação  é  a  nossa  aposta. Estes modos   se expressam em linhas existenciais singulares. Trair é,  pois,  sobretudo,  fazer o novo. Mas, o que é o novo? 

Antonio Moura

CAMINHOS CRUZADOS

CRIAR É TRAIR

Não acreditamos na crítica como ato que propicie uma criação. A criação é que propicia uma crítica. A criação vem primeiro. Saúde é um conceito nominal. Aparelho engendrado por tecnocratas do estado, vive para a idéia, o imaginário, a transcendência e as boas intenções humanísticas. Com o conceito de mental ocorre o mesmo. Criar nada tem a ver com essa ladainha político-conceitual. A arte de criar conceitos, como diz Deleuze, é a aventura do novo. Em saúde mental, criar é despersonalizar-se sem culpa, ressentimento ou nostalgias egóicas. Começa pela ausência de títulos e pompas. Uma gratuidade.

Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria, a ser lançado em 25/10/2011, em Vitória da Conquista.
De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência.

Millor  Fernandes

POESIA DO DIA


OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais : meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem  enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas  de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns,achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade


terça-feira, 20 de setembro de 2011

SNAKES - David Sanborn

DEPRESSÃO SUB-CLÍNICA

Por toda parte, um coro de profunda  lamentação se inscreve na carne. Psiquiatria, psicopatologia, psicologia, psi-mundo. Deprimidos dos mais variados matizes entoam  o  cântico dos desesperados,   produzindo mais e mais   símbolos arcaicos  da  era niilista. O bigodudo alemão já prenunciara... No entanto, sentir na pele e nas vísceras este desmoronamento de sentido, é essencial  para quem quer  criar, ou pelo menos falar em seu próprio nome. Anunciar "eu não tenho nem pai nem mãe", quem consegue? 

Antonio Moura
FALA, GUATTARI...

Finitude existencial que não apenas aceita a morte e a vida em seu caráter de subjugação, mas que não cessa de intensificá-la, que faz da morte uma potência ativa, ao invés de uma maldição. O perigo de morte que pesa sobre a biosfera poderia então se transformar em uma questão maquínica fascinante, extraordinária. Ao invés de se abandonar ao horizonte de morte capitalístico, uma política de produção de vida é possível, não para repeti-la tal como ela era há cem ou dois mil anos, mas para produzir formas mutantes segundo ordenadas atualmente imprevisíveis.

Félix Guattari - do livro Caosmose: um novo paradigma estético
TRAIR A PSIQUIATRIA - I

Trair tem nessa frase um sentido político. Assim, a psiquiatria é, sobretudo, uma instituição social que só mostra a sua  cara  como especialidade médica. Daí, traí-la é expor as forças que a constituem de dentro, produzindo a ilusão de prática científica. Voltaremos ao assunto...


POESIA DO DIA


nunca vi um esquizofrênico


que não estivesse 
foragido
abatido


ou morto

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

EDWARD MÃOS-DE-TESOURA

O TEATRO DA VIDA

Tudo que existe no amor, no crime, na guerra ou na loucura precisa nos ser devolvido pelo teatro, se ele pretende  reencontrar seu papel necessário.
O amor cotidiano, a  ambição pessoal, a agitação diária só valem enquanto reação a essa espécie de terrível lirismo que existe nos Mitos aos quais aderiram coletividades imensas. (..) (...) Queremos fazer do teatro uma realidade na qual se possa acreditar, e que contenha para o coração e os sentidos esta espécie de picada concreta que comporta toda sensação verdadeira.

A. Artaud - O teatro e a crueldade
SEM FORMA

Pensa-se demais em termos de história pessoal ou universal. Os devires são geografia, são orientações, direções, entradas e saídas. Há um devir-mulher que não se confunde com as mulheres, com seu passado e  seu futuro, e é preciso que as mulheres entrem nesse devir  para sair de seu passado e de seu futuro, de sua história. Há um devir revolucionário que não é a mesma coisa que o futuro da revolução, e que não passa inevitavelmente pelos militantes. Há um devir-filósofo que não tem nada a ver com a história da filosofia e passa, antes, por aqueles que a história da filosofia não consegue classificar.

G. Deleuze e C. Parnet - do livro Diálogos
POESIA DO DIA

Para entrar em estado de árvore é preciso partir de
um torpor animal de lagarto às três horas da tarde, 
no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em
nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato
sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

Manoel de Barros

domingo, 18 de setembro de 2011

LOVE LETTERS - Diana Krall

LIVRAR-SE DO EU

Ele tinha dito que tudo que eu fizesse deveria ser um ato de feitiçaria. Um ato livre de expectativas invasoras, de medo de falhar, de esperanças de sucesso. Livre do culto do eu; tudo que eu fizesse deveria ser improvisado, um trabalho de magia onde eu me abrisse livremente para os impulsos do infinito.

Carlos Castaneda - do livro O lado ativo do infinito
O NÃO-EQUILÍBRIO

A mim ocorreu-me a idéia de que é a função que cria a estrutura. Vejamos uma cidade: a cidade só vive porque opera intercâmbios de matérias-prima ou de energias com o campo que a circunda. É a função que cria a estrutura. Mas a função, o fluxo de matéria e energia, é evidentemente uma situação de não-equilíbrio.

Ilya Prigogine - do livro O nascimento do tempo
Não devemos resistir às tentações: elas podem não voltar.

Millor Fernandes

THE LAND - Paul Barnes toca Glass

SOBRE O DESEJO

A idéia de Deleuze e Guattari é a de que não existe um mecanismo universal de estruturação do sujeito. Existem fórmulas múltiplas, históricas, de produção de subjetividades e modos de subjetivação. O Édipo como equipamento produtor do sujeito não é uma forma universal, ubíqua e onipresente, senão uma forma produzida dominante. Existem inúmeras formas de produção de subjetivação. Mas estão, em geral, submetidas, subjugadas, hegemonizadas pelo Édipo, pelo modo edipiano de produção da subjetividade, que é uma forma de captura do desejo como restitutivo, narcisístico, sem objeto, e que tem sua continuidade assegurada pela não-obtenção dos seus objetos. As outras formas de subjetivação, não, pois o Desejo funciona de  outra maneira, tem outra natureza. Sua potência é inesgotável. Não porque não atinge seu objetivo, mas por formar parte da essência de seu ser. Ele é produção, só sabe produzir, devir.

Gregorio Baremblitt - do livro Cinco lições sobre a transferência


O  diagnóstico  psiquiátrico:  crítica e clínica (*)

                                                                  
                                                                        Antonio Moura
            

            

             Há   muitos diagnósticos  em  psiquiatria. Eles  buscam  conhecer  o que se passa  com o paciente.  Este  é, pelo  menos,   o discurso do humanismo científico, sempre  interessado  em promover a melhora, o alívio dos  sintomas e, se possível, a cura  do  paciente. 
           Contudo, a  prática  clínica[1]  mostra que  o diagnóstico psiquiátrico  é,  antes, uma  palavra  de ordem, pela  qual e  na   qual o  efeito-psiquiatria  cola no paciente. Neste  sentido, a relação dita terapêutica se  constitui como  um  invólucro  dos poderes  que  lhe  dão   um  suporte  de  verdade. O  ato  médico-psiquiátrico é encharcado  de moral e de  compromissos micro-políticos (não  explícitos) com a  Ordem  Estabelecida.   Sendo assim, o diagnóstico não é um ato  puro   de cognição do Outro, ou  seja, não    busca,  em princípio,  reconhecer  e  conhecer  o  Outro para  tratá-lo  com técnicas  científicas. Então,  o que  busca?
          O  controle.
          Tudo parte do  significado que  é  conferido  à   loucura. Conotada  à  fabricação  da  doença   mental ao   longo  do  século  XIX [2], ela   é hoje   o  des-controle do  sistema   cérebro/mente  (e    tudo  que isso  implica) tomando-o  como   lesionado. Grosso modo, é  esta    a neuro-concepção que  embasa  os  trabalhos da  psiquiatria  dita  biológica.   Os  diagnósticos se  sucedem    na esteira de  um  esquematismo    cidológico  totalitário. Duas  questões,  no entanto,   se  impõem  : 1-qual a etiologia (como aparelho  teórico)  dos  transtornos  mentais? 2-a quem servem  os  diagnósticos, dispondo de    tão  extraordinária variedade  semiológica?
       Na  borda da idéia de loucura, a   nossa  referência  é  a clínica, ou seja,  o Encontro  com  o paciente. Etiologia  e diagnóstico aí    estão presentes  apenas  como  referência  de  uma  verdade pontual , relativa  e fragmentária. Ora, se  a  etiologia da psiquiatria biológica  é reducionista   e o  diagnóstico é focado apenas nos  sintomas, o remédio químico  irá  tamponar a  riqueza  vivencial do  paciente.
        Crítica  ao diagnóstico  psiquiátrico? Sim, pois  ele é pseudo-etiológico ou escancaradamente sintomático  (não-etiológico). E qual a  clínica? Ah, outras  clínicas  (usando a ciência, a filosofia  e a arte)    em contextos e conexões  singulares. No fundo, a loucura  assombra  o  olhar   da  razão médica,   e  por  isso  é    referência-base para outras  clínicas.  Quais? Ao fim do ato de  inventá-las  saberemos. Antes,  impossível.



[1] Chamamos  essa   prática  clínica  de   uma relação “verticalizada”  de poder.
[2] Ver  Foucault, M., O  poder  psiquiátrico, S. Paulo, Martins Fontes, 2006.


(*) do livro Trair a psiquiatria, a ser lançado em Vitória da Conquista em 25/10/2011 na Livraria Nobel.