quarta-feira, 30 de outubro de 2019

ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Manuel Bandeira
A CRISE DO CHILE

A maior crise política e social já sofrida pelo Chile desde o retorno à democracia em 1990, que deixou pelo menos 20 mortos, levou o presidente Sebastián Piñera a tomar uma decisão inédita: o país não será anfitrião nem do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), em novembro, nem da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP25), em dezembro, duas grandes reuniões internacionais das quais participariam importantes líderes mundiais.

Ao anunciar sua decisão em La Moneda nesta quarta-feira, o presidente disse que o Governo adotou essa medida “com profunda dor”. “Sentimos e lamentamos profundamente os problemas e os inconvenientes que esta decisão vai significar tanto para a APEC como para a COP. Mas, como presidente de todos os chilenos, tenho sempre de colocar os problemas e os interesses dos chilenos, suas necessidades, seus desejos e suas esperanças, em primeiro lugar”, declarou.

O anúncio ocorre quase duas semanas após a explosão dos protestos, que começaram pelo aumento da tarifa do metrô de Santiago, mas revelam um profundo sentimento de frustração da população que se sente à margem do caminho de desenvolvimento do país nos últimos 30 anos. Os protestos não pararam. Piñera anunciou um pacote de medidas sociais e, na segunda-feira, mudou oito pastas de seu Gabinete, incluindo as de sua equipe política e econômica. Mas não foi suficiente: as manifestações continuam diariamente tanto em Santiago quanto nas outras grandes cidades do país. Segundo informações oficiais do Executivo, além dos 20 mortos, 473 civis e 745 policiais e membros das Forças Armadas ficaram feridos em incidentes ocorridos nas mobilizações. Entre os dias 20 e 27 de outubro, 9.696 pessoas foram detidas, das quais 389 continuam em prisão preventiva e 778 tiveram sua detenção declarada ilegal. O Ministério do Interior apresentou 228 acusações.
(...)

Rocio Montes, El Pais, Santiago do Chile,30/10/2019,18:16 hs

MARIELLE


terça-feira, 29 de outubro de 2019

SEROTONINA COM FARINHA

Não existe A depressão. Existem as depressões. Isso faz toda a diferença na hora de diagnosticar uma depressão, pois ela é composta por linhas singulares (e múltiplas) do desejo. O mecanismo de achatamento existencial  produzido sobre os pacientes faz por tornar a depressão uma doença das sinapses enguiçadas. Com todo o respeito às sinapses, elas só funcionam graças ao que chega de fora, ou seja, do  mundo. No entanto,  ainda não dissemos nada do assassinato de almas perpetrado em nome da ciência... 

A.M. (republicado)

DEBUSSY - Rêverie

O LEÃO E AS HIENAS : A PARANÓIA

BRASÍLIA — O presidente Jair Bolsonaro publicou um vídeo nas suas redes sociais, na tarde desta segunda-feira, em que um leão, representando o próprio, é cercado por hienas. Os animais são identificados como diversas entidades e movimentos, entre eles o Supremo Tribunal Federal (STF), a Organização das Nações Unidas (ONU) e o PSL, seu partido. Logo após a publicação, cerca de duas horas depois, o vídeo foi apagado da conta do presidente.

Na produção, o leão ("presidente Bolsonaro") é ameaçado por partidos como o PT, PCdoB, PSOL, PDT e PSDB e veículos de comunicação como a TV Globo, os jornais "Folha de S.Paulo" e "O Estado de S.Paulo" e a revista "Veja".

Também integram o bando que ronda o "presidente" entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Força Sindical, além da organização-não governamental (ONG) ambientalista Greenpeace e dos movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Brasil Livre (MBL). Menos palpáveis, feminismo, "isentão" e a Lei Rouanet também são representados como hienas.
(...)

Gustavo Maia, O Glob, 28/10/2019, 19:48 hs

domingo, 27 de outubro de 2019

Anônimo

Onde você estava no dia onze de agosto de mil
[novecentos e trinta e quatro?
No Natal de setenta e sete,
no inverno de mil duzentos e treze?
Onde você se encontrava na madrugada do dia

[vinte para o próximo dia,
primeiro de janeiro do ano passado,
primavera de sessenta e nove
do século quarto?

Onde você passava quando já era tarde
e ninguém te chamava
naquela noite dos anos dourados?
Quando tudo acontecia e sumia sem deixar
[rastros, por onde você andava?


Bruno Brum
VIOLAÇÃO DO ESTADO LAICO

A Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) pediu na Justiça a condenação da União e dos presidentes da República, do Senado e da Câmara dos Deputados por violação ao princípio do Estado laico. A informação é do jornal Folha de São Paulo.

A ação foi movida por causa da viagem de autoridades para a canonização de Irmã Dulce no Vaticano. Na ação civil pública, protocolada na terça-feira (22) na Justiça Federal da 1ª Região, a entidade reivindica que Jair Bolsonaro (PSL), Davi Alcolumbre (DEM-AP) e Rodrigo Maia (DEM-RJ) sejam obrigados a devolver aos cofres públicos a verba gasta com a permissão deles.

A delegação oficial do governo brasileiro foi chefiada pelo vice-presidente da República, Hamilton Mourão. Bolsonaro não compareceu. "Ao subvencionar a viagem de autoridades brasileiras para uma cerimônia de caráter estritamente religioso, o Estado brasileiro e seus representantes ofendem a laicidade do Estado e, consequentemente, o patrimônio público e os interesses difusos da coletividade", afirma a petição.
(...)

BNews, 27/10/2019

sábado, 26 de outubro de 2019

A ESQUERDA NO URUGUAI

Neste domingo, 27, os uruguaios votam nas suas eleições mais incertas, com a Frente Ampla (FA) em retrocesso e a direita apostando na união para impedir o quarto governo consecutivo da esquerda. Em meio às tensões no Chile, Equador, Argentina e Bolívia, um dos momentos mais duros da campanha uruguaia foi a publicação de um vídeo do Partido Nacional que mostrava os erros e fracassos do Governo, tendo como pano de fundo a valsa Danúbio Azul, de Johann Strauss. A FA respondeu a essa “campanha negativa” com outro vídeo, destacando suas conquistas com a mesma melodia, só que num trecho mais rápido. 

Desta vez, porém, o tradicional fair play da política uruguaia esconde uma eleição crucial e até mesmo trepidante em seus últimos momentos, pois tem sido disputada palmo a palmo, casa por casa. A governante Frente Ampla tenta conseguir mais eleitores, enquanto os três partidos da direita realizam contatos para organizar uma coalizão e se impor no quase certo segundo turno, previsto para novembro. Ninguém sabe o que acontecerá, mas as pesquisas indicam um mau resultado para a FA, que poderia perder a presidência e a maioria no Parlamento.

Em muitos sentidos, o Uruguai se dá ao luxo de ter uma eleição como as do século XX, com uma clara leitura a partir das dinâmicas de classe social, divisões entre esquerda e direita, centro e direita, e partidos fortes que conseguem interpretar a sociedade. 

O retrocesso eleitoral da FA é o elemento-chave da contenda, com a emergência de um grupo de desencantados com a esquerda.
(...)

Magdalena Martínez, El País, Montevidéu 26/10/ 2019 - 11:50hs

VICTOR BAUER


Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.

Woody Allen
VIAGENS DE MIGUEL

Miguel é a velocidade. Acorda com o tempo que lhe circunda e faz o tempo. Isso estimula o seu apetite de viver. Mesmo o acordar chorando se dissolve à medida em que percebe e deseja objetos, coisas, pessoas, meios que o constituem como ser vivo. Me chama de Antonio e cola o nome sobre o pai; isso me deixa atônito. Miguel capta o real para além dos enquadres toscos da razão. E me surpreende. Apesar do esforço em segui-lo, continuo um idiota adulto-racional buscando respostas exatas. No entanto, Miguel expande o desejo até paragens desconhecidas.O que ele pensa que é? Nunca saberei. Daí tento me recolher à insignificância dos homens cansados de viver a forma do Mesmo. Tento ser outra coisa,  devir-outro. Miguel se aproxima e diz: "pai, viaje comigo, seja a ventania; nos encontraremos onde o vento faz a curva". Resolvi aceitar a sugestão-bebê e lá me fui rumo à respostas que são eternas perguntas, não mais. A madrugada chegou e fomos dormir sem sonhos. Fabricar a manhã tornou-se um jazz ou um blues... ou um samba.

A.M.


Obs. - postagem original de 3 de novembro de 2012 (sábado)

CHAPADA


Aqueles que escapam do inferno
nunca falam sobre isso
e nada mais incomoda eles
(...)
Quero dizer, coisas como
falta de uma refeição,
ir para a cadeia,
bater seu carro
ou mesmo morrer.

Quando você perguntar-lhes,
"como as coisas estão indo? "
eles vão responder: "bem, muito bem ... "

Uma vez que você foi para o inferno e voltou
é o bastante
é a mais silenciosa celebração conhecida.

Uma vez que você foi para o inferno
e voltou, você não olha para trás
quando o chão range.
o sol está no alto a meia-noite

E coisas como os olhos de ratos
ou um velho pneu em um terreno baldio
pode torná-lo feliz.
(...) Uma vez que você foi para o inferno
e voltou.

Charles Bukowski
QUANDO AS RUAS QUEIMAM

“Um mar de tranquilidade”. Fora assim que o presidente chileno Sebastian Piñera havia definido seu país, antes da população ir às ruas para não mais sair, queimar prédios, desafiar toques de recolher, decretos de emergência e ser assassinada pelo seu próprio governo. Até agora 18 mortos, sendo uma criança de quatro anos: algo que seria mais correto descrever como um puro e simples massacre. Depois do exército cometer tais assassinatos, vimos Piñera em cadeia nacional pedindo perdão pela insensibilidade diante dos problemas sociais que ele aparentemente sequer sabia existir.

De fato, os que nos governam parecem ter uma definição muito peculiar de tranquilidade. Isto já aconteceu outras vezes. Em 2011, os países árabes pareciam “tranquilos” até que um trabalhador tunisiano ateou fogo em seu próprio corpo, imolando-se em praça pública, abrindo uma sequência de mobilizações populares que derrubou governos e colocou novamente a política nas ruas. Essa sequência de insurreições acabou por chegar até mesmo ao Brasil, que em 2013 vendia para o mundo interior a versão de que era “um mar de tranquilidade” e de estabilidade tropical.

Agora, talvez estejamos diante de uma segunda onda de insurreições que parecem seguir, mais ou menos, o mesmo padrão, seja no Chile, no Equador, na França, no Líbano. Começa-se com uma rebelião contra um medida econômica punitiva para os mais pobres: aumento de imposto de gasolina, aumento de passagens de transporte público, criação de taxa em uso de Whatsapp. A pauta parece pontual mas ela rapidamente se alastra expondo um descontentamento profundo e estrutural com as condições econômicas e sociais. Os governos imediatamente agem mobilizando aparatos impressionantes de violência e controle. A França dos coletes amarelos conta presos em manifestações aos milhares. Cenas de jovens secundaristas de Mantes-la-Jolie de joelhos, em fileira e com as mãos na cabeça circundados por policiais rodaram o mundo. Não por acaso, elas pareciam saídas da Segunda Guerra.

Depois de compreender a ineficácia da violência extrema, os mesmos governos passam à negociação. Mas agora descobrem que de nada adianta voltar atrás nas medidas econômicas. A população quer o fim desses governos, ela sabe que as decisões serão sempre tomadas ouvindo interesses que lhes são contrários. Um setor fundamental da sociedade descola-se da sua aderência aos princípios gerais da governabilidade. Ela está disposta a seguir novos rumos.

Este é um ponto central para compreendermos essa segunda leva de insurreições mundiais: elas recolocam em circulação a experiência da luta de classes e de recusa a ser governado por quem tem compromisso com políticas de empobrecimento. Muitos analistas percebem termos dessa natureza como resquícios arcaicos de algum Museu das Ideias Perdidas. Sua aderência à crença de que a história terminou na defesa da democracia liberal tal como a conhecemos até agora os impede de compreender o sentido de processos de desidentificação generalizada com o poder. Processos que eles procuram colocar todas na conta do “populismo” e de formas de “regressão” das massas para fora dos acordos de gestão que pareciam aceitos por todos.
(...)

Vladimir Saflate, El País, 24/10/2019, 11:49 hs

UM MILHÃO NAS RUAS DE SANTIAGO


UM ESPORTE  DIABÓLICO

Nenhum esporte provoca mais paixões que o futebol. Este é um fato facilmente observável na  sua história nacional, internacional e no andamento , por vezes, surpreendente, das partidas: um gol nos acréscimos... ou para além dos acréscimos? Viajando sobre o tema, algumas "explicações"; 1-o futebol trabalha com os pés e as pernas, órgãos com pouca precisão de movimentos, se compararmos com as mãos; 2-possui um número elevado de jogadores (22), o que implica em muitas possibilidades e variáveis em cada jogada, em cada jogo; 3-adota  um sistema de regras por vezes confuso, impreciso, como é o caso de uma falta (foi falta ou não foi falta? foi penalty ou não foi?), o que faz com que o juiz erre com frequência(o célebre juiz ladrão...) que nem sempre é ladrão; ele tem que pensar rápido e muitas vezes julga errado; normal. 4- atrelado ao ítem anterior, há o fato de que o erro do juiz faz parte do jogo; dir-se-ia que é um jogo meio torto, malandro, dissimulado, e não é por acaso que deu certo no Brasil; mas hoje, na era VAR, será que o futebol tornou-se uma ciência exata? Não parece, pois apesar da quantidade de árbitros (7 ou 8?), continua havendo erros ... talvez até mais... 5- a arte lhe é um componente essencial, muitas vezes superando a técnica, como é o caso dos grandes jogadores; ¨6-a dimensão psicólogica, por isso mesmo, instável, influi diretamente no desempenho dos atletas; 7- por fim, mas não a última "explicação" (há dezenas...) ,tudo que foi dito se conjuga para o resultado final de uma partida ser imprevisível, mesmo que os dois times sejam de qualidades técnicas muito desiguais; no basquete, por exemplo, dois times muito discrepantes em técnica tornam o jogo previsível, monótono, quase insuportável; no futebol, não, pois"tudo é possível", ao ponto de Nelson Rodrigues, amante confesso desse esporte, criar o personagem Sobrenatural de Almeida para explicar o inexplicável: como foi possível o Brasil perder a Copa de 1950 para o Uruguai em pleno Maracanã ? Mas há muito mais a discutir... de forma leve e livre, claro.

A. M.


Obs. - texto revisado e ampliado.


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Respeito

Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.


Manoel de Barros

O JUGO DO ÓLEO


Viver agora, tarefa dura. De cada dia arrancar das coisas, com as unhas, uma modesta alegria; em cada noite descobrir um motivo razoável para acordar amanhã. Mas o poço não tem fundo, persiste sempre por trás, as cobras no fundo enleadas na lança. Por favor, não me empurre de volta ao sem volta de mim, há muito tempo estava acostumado a apenas consumir pessoas como se consome cigarros, a gente fuma, esmaga a ponta no cinzeiro, depois vira na privada, puxa a descarga, pronto, acabou. Desculpe, mas foi só mais um engano? E quantos mais ainda restam na palma da minha mão?

Caio Fernando Abreu

ANDRE KOHN


CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA - 3

Sob as condições do capitalismo, a potência dos afetos é reduzida a estágios vizinhos do zero. Basta citar, entre muitos exemplos, os grandes desníveis sócio-econômicos mundiais, a servidão voluntária e a violência naturalizada. Sob as condições da esquizofrenia, a potência dos afetos é reduzida também a estágios vizinhos do zero. Basta verificar os clássicos "estados residuais esquizofrênicos", a apatia profunda.  O que o delírio tem a ver com essas "duas" realidades? Vejamos: os afetos (desejos) são o que movem o delírio, e por extensão, a realidade (do capital e da clínica). Se esses afetos estão despotencializados, a realidade, apesar de parecer forte, natural e imutável, também está. É preciso defender os fortes dos fracos, como diria Nietzsche. Expresso concretamente em consumidores apassivados (cidadãos e/ou pacientes), e à serviço das estruturas conservadoras (instituições de toda ordem, o Estado incluído), o delírio e sua produtividade desejante rodopia em torno de si mesmo. O desejo sofre por ser interrompido. Seja na luta política ou na pratica clínica, as rupturas para o Novo só acontecem quando o desejo funciona como processo e não como forma estável (o diagnóstico psiquiátrico?). Desejar é, então, delirar. Tal concepção foge aos dualismos normal/anormal, racional/irracional, subjetivo/objetivo, homem/mulher, etc, em prol de um funcionamento construtivista do desejo. Pois este não é algo natural e sim construído, maquinado, agenciado conforme as circunstâncias das forças em relação. Revoluções (de qualquer tipo) são produções desejantes, mesmo que traídas.No campo da psicopatologia clínica, o delírio do paciente (se houver) será avaliado ao início segundo coordenadas ético-políticas, antes que técnicas. Estas são importantes, claro, mas deverão estar à serviço do desejo-produção e não o contrário. Estão aí alguns conceitos básicos para o trabalho de uma psiquiatria materialista, ou seja, a que põe o desejo na produção e a produção no desejo, ao dizer de Deleuze-Guattari nas páginas luminosas do Anti-édipo.

A.M.
A PARTIDA

Chego à amurada do cais,
Tomo um trago de tristeza.
Vem uma aura de beleza
Entontecer-me ainda mais.

Sinto um gosto de paixão
Dentro da boca amargosa.
Vem a morte deliciosa
Arrastar-me pela mão.

Vou seguindo sem olhar,
Vou andando sem rumor,
Ouvindo a vaga do mar
Bater na pedra da dor.

Vou andando sobre o mar,
Quem sabe onde irei parar?
Vou andando sem saber
Aonde me leva este amor.


Dante Milano

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

MULHERES, NEGRAS E POBRES

O presidente da extrema-direita Jair Bolsonaro comemora que o número de homicídios caiu 20% em 2019 no Brasil e o de estupro 12%, segundo dados compilados pelo Ministério da Justiça, sob o comando de Sergio Moro. Os dados coexistem, no entanto, com fortes sinais de que os feminicídios disparam, pois aumentaram 44% em São Paulo este ano (até agosto, segundo dados compilados pelo site G1). Na comparação entre 2017 e 2018, houve um crescimento de 4% dos feminicídios em todo o país. A cada quatro horas uma mulher é morta por ser mulher, por medo ou por ódio.

O Brasil não é apenas o quinto país com mais feminicídios do mundo, mas esses números podem aumentar, já que parte dos homicídios de mulheres registrados poderiam ser também feminicídios, assim como a maioria dos estupros de mulheres seguidos de morte devem ser consideradas também feminicídios por terem como motivo o ódio e o desprezo pela mulher.

Estamos na paradoxal situação de que enquanto menos homens no Brasil são vítimas mortais da violência, mais mulheres, a grande maioria negras e pobres, são sacrificadas todos os meses no Brasil, onde o Governo tenta introduzir cânones do modelo de família tradicional e cristã, cujos únicos valores são aqueles que vigiam antes da Constituição de 1988, quando se considerava que a mulher existia para servir o homem ou, como reza a doutrina tradicional cristã, para “obedecer ao marido em tudo”.
(...)

Juan Arias, El País, 23/10/2019, 21:10 hs

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A EQUIPE TÉCNICA COMO GRUPO 

O que é involuntariedade em psiquiatria? É o fato do paciente não se achar doente, não se perceber como um doente, não se sentir doente, e, portanto, não querer tratamento. A aproximação de um técnico que ofereça ajuda lhe provoca rechaço, negativismo, indiferença, apatia, ou até hostilidade/agressividade. Este é um signo muito comum observado no campo da psicopatologia clínica, o qual, entre outros efeitos concretos, atesta a insuficiência do modelo biomédico nas práticas de saúde mental. Citando ao acaso, é possível incluir da nosologia psiquiátrica transtornos da personalidade, dependências de drogas, demências graves, retardos mentais, psicoses de variadas etiologias e semiologias (com sintomas positivos ou negativos, em especial as esquizofrenias), delírios sistematizados crônicos, transtornos do humor (formas de mania excitada e mania psicótica, e até mesmo depressões), entre outros quadros mal diagnosticados, alguns com diagnóstico obscuro, outros até sem diagnóstico. O essencial a considerar é que a maioria destes pacientes não quer tratamento, não sabe nem quer saber do que se trata, ou do que se passa. Ora, como é possível que exista uma especialidade médica, estranha especialidade, cujos pacientes não apenas não querem tratamento, como também não se sentem doentes? Na maioria deles a busca por tratamento é, sim, da família, ou dos que estão à volta (amigos, colegas, vizinhos, outros parentes, etc) e não dele próprio. Então, o problema que se coloca é o de que apesar de não querer e/ou desprezar ajuda (ou justo por isso) o paciente vivencia uma qualidade inferior de vida, e pior, pode estar correndo riscos (inclusive de morte) para si e/ou para outros. No nível mais agudo surge então a necessidade de criar um ou mais dispositivos técnicos que dêem conta dos impasses clínicos. A ética se insinua e se afirma como imperativo maior.  Assim, nos parece que as soluções não virão da psiquiatria, (e não falamos só do psiquiatra, mas de todos os demais psiquiatrizados) atolada que se acha na visão organicista da doença. Esbarra no real clínico: o doente não aceita ajuda: o que fazer? Vamos concluir sem concluir: o caps, como lugar do funcionamento de uma equipe técnica transdisciplinar, é movido (ou deveria ser) pelo trabalho coletivo grupal. Ou não será caps. Isso talvez torne possível a invenção de outras clínicas, onde e por onde o grupo seja sujeito de si mesmo e não assujeitado a um modelo de cuidado previamente fixado pela medicina. 

A.M.
Por que você permanece na prisão quando a porta está completamente aberta?

Rumi

LUIZ FUGANTI

PAULO FREIRE: 1964 OU 2019?

Quando os militares tomaram o poder em 1º de abril de 1964, depondo o então presidente João Goulart, Paulo Freire vivia com a família em Brasília, a serviço do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Envolvido com o trabalho de formação de professores em Goiânia, era sua assistente, Carmita Andrade, quem o mantinha informado sobre a intensa movimentação política na capital. Apenas dois dias antes, Carmita havia sugerido que ele voltasse a Brasília de imediato, porque as tensões pareciam se agravar decisivamente. Retornado às pressas, Paulo se surpreendeu ao procurar Júlio Furquim Sambaqui e ser convidado a acompanhar a leitura de uma conferência que o ministro daria dali a alguns dias. O chefe queria sua opinião. Incrédulo com a ingenuidade de Sambaqui, Paulo o alertou para o que lhe parecia um quadro de grave instabilidade institucional — e para a improbabilidade de ocorrer qualquer nova atividade do governo que representavam. No dia seguinte, os militares se instalariam no poder.

O ambiente político tornou-se tenso, com notícias desencontradas de todos os lados: haveria resistência da população? O Governo deposto conseguiria reagir ao golpe de Estado? Diante do clima de insegurança e da incerteza sobre seu futuro no ministério, Paulo pediu à mãe que levasse os filhos dele para Recife, onde mantinha uma casa. Providências tomadas, ele e a esposa, Elza, permaneceram em Brasília, levando uma vida reservada na casa de amigos. Queriam ser notados o mínimo possível.

Com lançamento previsto para 13 de maio, o Programa Nacional de Alfabetização seria extinto em 14 de abril, treze dias depois do golpe militar. O novo Governo aproveitou a ocasião para fazer duras acusações ao trabalho que Paulo e sua equipe vinham desenvolvendo; apontaram o material didático produzido como contrário aos interesses da nação e acusaram seus autores de querer implantar o comunismo no país. Acabava ali o sonho de lançar 60.870 Círculos de Cultura para alfabetizar 1,8 milhão de pessoas ainda em 1964, 8,9% do total na faixa de quinze a 45 anos que não sabiam ler nem escrever. A preocupação maior de Paulo era agora com o imponderável, um futuro incerto e perigoso para ele e sua família diante de tais acusações e do clima de perseguição política que se instalara.

Ao extinguir o Programa Nacional de Alfabetização, os militares respondiam às pressões de parcela conservadora da sociedade brasileira que atacava e desqualificava o trabalho de Paulo Freire. As denúncias passaram a ser instrumento de luta dos partidos políticos que apoiavam o golpe contra as siglas ligadas ao ex-presidente João Goulart. Paulo viu sua situação se tornar cada vez mais complicada.
(...)

Sérgio Haddad, El País, 23/10/2019, 19:36 hs

terça-feira, 22 de outubro de 2019

MADE IN NORDESTE

Divino Amor em Sundance e no Festival de Berlim em fevereiro deste ano — onde também foi destaque o pernambucano Estou me guardando para quando o carnaval chegar —. No coração do mundo, em Roterdã. Bacurau e A Vida Invisível em Cannes. A lista demonstra que 2019 tem sido o ano do reconhecimento internacional do cinema brasileiro por excelência, com filmes que têm pelo menos um elemento em comum: todos os premiados são obras produzidas no Nordeste ou por realizadores nordestinos. Em território nacional, não é diferente. Pacarrete, do cearense Allan Deberton, levou oito kikitos (inclusive o de melhor filme) no Festival de Gramado, em agosto, onde também foi vencedor o curta-metragem Marie, do pernambucano Leo Tabosa.

"Se formos olhar, nos últimos 15 anos, o cinema brasileiro de vanguarda, o cinema que vem ganhando prêmios e reconhecimento nacional e internacional é o cinema nordestino", afirma, sem titubear, Wolney Oliveira, cineasta e responsável pelo Festival Iberoamericano de Cinema Cine-Ceará. Para Karim Aïnouz, cearense diretor de A Vida Invisível—que representará o país na tentativa de uma vaga para o Oscar de melhor filme em língua estrangeira—,  esse sucesso do cinema made in Nordeste é uma “coincidência irônica”, já que o governo de Jair Bolsonaro tem diminuído orçamentos para projetos culturais, e o presidente já ventilou a possibilidade de extinguir a Agência Nacional do Cinema (Ancine).
(...)

Joana Oliveira,  El País, Fortaleza/São Paulo,22/10/2019,09:40 hs

HENRY ASENCIO


PARA ALÉM DA CRÍTICA

A nossa crítica à psiquiatria não é uma crítica, é uma clínica. Ora, é comum à Crítica expressar um elemento paranóide que toma o seu objeto como perseguidor. Não é o caso. Além disso, sob as condições atuais do capitalismo axiomático aparentemente vencedor, a Crítica se torna um dispositivo social inofensivo e que adocica o discurso midiático em redundâncias sintáticas, semânticas e performáticas. Uma dominação semiótica se instala como verdade. Confira as ladainhas (reportagens) globais. Isso vai até o infinito...como efeito subjetivo. Mas há outros discursos mais pomposos. A universidade, por exemplo, traz uma verdade revelada e cauciona a psiquiatria oficial como transcendência do Conhecimento. Desse modo, aquieta paixões e resfria intensidades da prática clínica. Ao contrário, buscamos o avesso da história psiquiátrica canônica como ação de resistir aos biopoderes no interior da própria psiquiatria, da própria clínica, da  psicopatologia agonizante: um Caps.  


A.M
da comida

adão e eva – inocentes
aceitaram da serpente
a maçã que era de deus

(e assim nasceu caim)

que fome filha da puta
gostaram tanto da fruta
mais saborosa que mel

(e assim nasceu abel)


Líria Porto

PINK FLOYD

A IMBECILIDADE PROGRAMADA

A forma-universidade é uma forma de relação social ou uma relação social que se reproduz em metástases intelectuais equivalentes a um modo hegemônico de pensar a Realidade social. Tudo parte de uma Verdade instalada e desejada. Isso tem consequências concretas sobre as cabeças pensantes, ou não, já que os serviços (por exemplo, os de sáude) são utilizados como fontes inesgotáveis de dados (vide pesquisa quanti ou quali) para abastecer teses de doutoramento (ou outras) absolutamente descompromissadas, desconectadas com o devir-social. Este fato é natural, cultivado e naturalizado como Capes, Cnpq, o governo da elite intelectual, o MEC em sua versão humanista. O essencial a reter destas reflexões menores é o de  que a Academia corrobora com brilho o sistema capitalístico universal, ao mesmo tempo em que promove indivíduos inteligentes à serviço de si mesmos e de suas ambições multifacetadas.

A.M.
A diferença entre uma democracia e uma ditadura consiste em que numa democracia se pode votar antes de obedecer às ordens.

Charles Bukowski

domingo, 20 de outubro de 2019

Camisa do Bahia traz reflexão sobre preservação do meio ambiente

O Bahia enfrenta o Ceará pela 27ª rodada do Campeonato Brasileiro na segunda-feira (21). A partida, no estádio do Pituaçu, em Salvador, vai ser palco de protesto do ativista time baiano: jogadores vestirão camisa "manchada de óleo".

O protesto contra o vazamento de óleo que toma conta das praias nordestinas vem acompanhado de um manifesto, divulgado neste domingo (20) no site do clube. "Quem derramou esse óleo? Quem será punido por tamanha irresponsabilidade? Será que esse assunto vai ficar esquecido?", indaga a postagem.

"Um convite à reflexão: o que faz um ser humano atacar e destruir espaços sagrados? O lucro a qualquer custo pode ser capaz de destruir a ética e as leis que regem e viabilizam a humanidade? A barbárie deve ser tratada como tal, não como algo natural", finaliza o texto.

Do UOL em São Paulo,20/10/2019, 11:52 hs
PROIBIDO PENSAR

A forma-universidade (e não a organização-universidade) é um conceito da análise institucional que faz pensar a universidade (qualquer uma) como forma de relação social oriunda da Idade Média e "vitoriosa" nos dias atuais. Falamos de uma subjetividade acadêmica daí derivada. Quem ousa contestá-la? Simples: sob o respaldo da uma verdade científica (recheada de axiomas) legitima-se a ordem do intelecto. Apesar disso, ou por causa disso, contesta a ordem estabelecida em teses tão brilhantes quanto condenadas ao bolor. É que a ordem estabelecida não é a do intelecto mas a dos afetos. Numa operação urdida em programas de mestrado e doutorado, delicadamente escurraça o desejo, devires imperceptíveis, incontroláveis, sensibilidades finas, realidades reais, singularidades múltiplas, intensidades criativas, saberes menores, loucuras, inconformismos. Faz da diferença uma maldição.E convence! Você já discutiu (divergindo) ideias com um acadêmico, um pesquisador, um professor? Desista. Trata-se de uma representação esperta da realidade social, um teatro moral agenciado pela máquina acadêmica que diz: não afirme nada, não arrisque nada, não sinta, não crie, aceite o que a razão transcendente enfiou no seu corpo desejante. Diga amém ao capitalismo como religião da mercadoria. Apesar disso, serás doutor em alguma coisa, qualquer coisa, um dia.  

A.M. 

JEREMY MANN


Convite Triste

Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.

Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.


Carlos Drummond de Andrade
RELIGIÃO COMO HORROR

Sobrinho-neto de Silas Malafaia, o modelo Rodrigo Westermann, de 29 anos, está de casamento marcado com o ex-"The voice Brasil" Leandro Buenno. No próximo dia 21 de março, eles vão oficializar a união numa fazenda. Antes de viver abertamente sua sexualidade, Rodrigo conta que teve esconder sua orientação da família, uma das mais tradicionais do mundo gospel.

"Frequentei igreja a vida inteira. Quando descobriram que sou gay, foi um terror psicológico. Me levaram a um terapeuta evangélico. Prometi que iria mudar. Não havia saída, eu tinha só 15 anos. Não tinha autonomia. Precisava obedecer ou ficaria de castigo. Arrumava até namorada de mentira. Só assumi realmente aos 20 porque não aguentava mais. Falei 'ou vocês têm um filho gay, ou não têm mais um filho'. Aceitaram, mas com algumas ressalvas", desabafa.

"A minha verdade vai contra o evangelho. Então, é bem complicado eu manter uma amizade com eles porque não aceitam nada que eu faço. Independentemente de caráter, para eles, eu e Leandro somos muito errados em tudo. Vivo minha vida, tenho meus sonhos e pago minhas contas. Não preciso provar nada para ninguém, mas parece que eu sempre tenho um saldo negativo por causa da religião", conta.
(...)

Extra, Bia Hohen, 20/10/2019, 05:07 hs

GONZAGUINHA

A CADA 46 MINUTOS

Após dez anos consecutivos de alta, a taxa de mortalidade por suicídio nos Estados Unidos, considerando a faixa etária que abrange desde as crianças de 10 anos até os jovens de 24, ultrapassou pela primeira vez a marca dos dois dígitos. Em 2017, o país registrou 10,6 suicídios a cada 100 mil habitantes. Em comparação, a taxa de homicídios caiu após dois anos de alta, e ficou em 7,9 por 100 mil habitantes.

Naquele ano, 6.769 moradores dos EUA nessa faixa etária tiraram suas vidas – 517 deles tinham entre 10 e 14 anos. Os dados foram publicados nesta semana pelo Centro Nacional de Estatísticas da Saúde (NCHS, na sigla em inglês).

No Brasil, os dados mais recentes são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que estima que, em 2018, 11.314 pessoas de todas as idades cometeram suicídio. A taxa média nacional é de 5,4 a cada 100 mil habitantes. Considerando a população mais nova, entre 2000 e 2012 o aumento foi de 65% entre pré-adolescentes de 10 a 14 anos e de 45% entre adolescentes de 15 a 19. O Ministério da Saúde estimou que, em 2016, o país tenha registrado um caso de suicídio a cada 46 minutos.
(...)

Por Ana Carolina Moreno, G1, 20/10/2019, atualizado há 3 hs

sábado, 19 de outubro de 2019

A MEDICINA CURA? (VI)

A Medicina pode ser vista como uma instituição, ou uma forma social, ou uma forma de relação social. Há certas "vantagens" ao se adotar essa visão teórica: 1- Retira a medicina de um viés positivista ligado ao progresso da ciência, tornando-a prática social concreta, portanto, sujeita às forças sociopolíticas que a atravessam; 2-Considera o conceito de Saúde como condição para a existência da medicina e não o contrário. Ou seja, dissolve a equação medicina=saúde em prol de uma concepção da Saúde vinculada às determinações coletivas do organismo humano; 3- Faz desse último uma produção de linhas do poder (no estágio do capitalismo industrial) interessadas sobretudo na administração lucrativa da vida humana, proliferando sob a égide de biopoderes : produção da vida "normal"; 4-Concebe a medicina não como uma espécie de sacerdócio (tal como o romantismo a vê : "profissão linda!") mas tão apenas como uma atividade profissional na área da saúde, entre tantas outras. 5-Separa o médico da medicina. Ou seja, não basta ser um "bom médico" em termos técnicos, mas fazer do pensamento médico (se há) ou de algum pensamento, ferramenta conceitual para inventar éticas incompatíveis à lógica mortuária do capitalismo mundial integrado.

A.M.

PAVEL MITKOV


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

incertezas

quanto tempo viverei
uns dez anos talvez menos
quando muito um pouco mais
no carnaval na quaresma
ou até no mês que vem

(se for hoje
é que deu zebra)


Líria Porto
As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido – conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...

Nietzsche
A MEDICINA CURA?

O termo "cura", conotado à Medicina, não tem expressão prática que lhe autentique credibilidade. Ou seja, "curar" em medicina aplica-se na maior parte dos casos ao espectro vastíssimo das doenças infecto-contagiosas e/ou aos procedimentos cirúrgicos tecnologicamente cada vez mais aperfeiçoados.  Não quer dizer que a medicina seja desimportante ou não ajude, ao contrário. Mas ela não é a Saúde: são dois conceitos que se colam um no outro e a separação só ocorre ao concebermos a instituição-Medicina como forma social que precede e condiciona as práticas clínicas ou cirúrgicas. Desse modo, a medicina que cura pode (ou deveria) ser substituída por uma sociedade "sem cura" pois isso já é a própria cura implicada como condição de vida das populações: educação, saneamento básico, trabalho, salários, gestão ética da coisa pública, habitação, segurança, etc. Uma política! Neste sentido, o nosso país tem, hoje, as condições sociais "perfeitas" para desenvolver cada vez mais uma medicina de sintomas (pretensamente curativa) e adequada ao paradigma mercantilista (lucrativo) do capital privado. O SUS passa então (ou passou?) a ser o belo sonho de uma noite de verão vivido dia-a-dia como pesadelo.

A.M.

STACEY KENT - Insensatez

GUERRA SEM FIM

A retirada das tropas norte-americanas do norte de Síria tornou a deixar de pernas para o ar um conflito que afeta diretamente os equilíbrios de poder no Oriente Médio — até o cessar-fogo aceito nesta quinta-feira pela Turquia. O EL PAÍS relata, nos dois lados da fronteira turco-síria, o impacto local das novas alianças: na localidade de Qamishli, habitada por curdos e árabes e por muçulmanos e cristãos, e que sofreu os bombardeios das forças de Ancara enquanto enfrentava os riscos do pacto com Damasco; e em Ceylanpinar, uma das cidades turcas que estão se esvaziando por medo dos confrontos no país vizinho.
Do pânico ao alívio, e à incerteza. Essa é a terrível montanha-russa emocional que sacode os habitantes de Qamishli, uma cidade do nordeste da Síria habitada por muçulmanos e cristãos, por curdos e árabes, na fronteira com a Turquia, cujas forças travam uma ofensiva para assumir o controle de uma ampla faixa de território no país vizinho. Depois da correria provocada pelos bombardeios turcos, a cidade recuperava parcialmente seu ritmo normal nesta terça-feira.
(...)

El País, Natalia Sancha /Sancha Garcia/Andrés Mourenzo, Qamishli (Siria) / Ceylanpinar (Turquía) - 17/10/2019, 23:02 hs

Tocata e fuga

É tudo aquilo que só existe no ar,       
O que de nós, além de nós, se expande.
É a vertigem para o alto, igual à grande         
Tocata e fuga em ré menor de Bach.
É o delírio de um bêbedo num bar...      
É um não sair do chão por mais que se ande...

Tudo que em mim, somente em mim existe,
Me transporta, me absorve, me suspende,
Me faz sorrir embora eu esteja triste,  
Triste naquele universal sentido         
Que a música interpreta e se compreende
Sem que em palavras seja traduzido.

Dante Milano

DIA DO MÉDICO


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

CONCEITO DE ENCONTRO

(...)
O Encontro  é uma política. Ele não se dirige  ao paciente como ser  individual e empírico,  mas  como  processo subjetivo inserido na  trama das instituições. Essa trama é a mesma da qual faz parte o técnico que vai ao paciente.Não se trata de refletir sobre o papel político do  profissional, mas  de tornar as relações de forças a  própria consistência  dessa “etapa” do  encontro. Outrossim, não se trata  de fazer  política fora  do contexto  da  política  (e  qual seria esse contexto? o dos partidos? o do estado? o  dos  sindicatos?) mas  de  fazer da  política algo  intrínseco  ao viver humano. Por  fim, não chamar de  “política” o que  já  não  é  político  mas agir politicamente em estratégias embutidas. Fazer escolhas do tipo: a quem serve esse  encontro? Para que serve? A quem interessa? O  socius,  “grávido”  da política dos corpos, nos  remeterá à ética. O roteiro se tece em linhas de potência (ou de não potência) de existir, fazer, criar,  produzir  o  novo.  
(...)

A.M. in Trair a psiquiatria

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

POR QUE?

Ex-integrante do grupo de K-pop f(x), a artista Choi Jin-ri, mais conhecida por seu nome artístico Sulli, foi encontrada morta por volta das 15h20 desta segunda-feira (3h20 no horário de Brasília), em sua residência na cidade de Seongnam, na Coreia do Sul. Ela tinha 25 anos (na idade internacional). Sulli era reconhecida como uma feminista, que abraçava a causa dos direitos das mulheres em um país considerado conservador no âmbito social.
Segundo a emissora coreana “SBS”, a delegacia de Seongnam apurou as circunstâncias da morte da jovem e encontrou indícios de suicídio. A polícia informou ainda que Sulli sofria de depressão.
(...)
Louise Queiroga, Extra, 14/10/2019, 11:01 hs

domingo, 13 de outubro de 2019

Unidade

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão
O Verão com as suas palmas
os seus mormaços
os seus ventos de sôfrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo

Foi então que minh’alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da
unidade.


Manuel Bandeira

EQM – UM RELATO IMPRESSIONANTE

CRENÇAS: A VERDADE PRODUZIDA


A formação da subjetividade "obedece" às linhas de crença que desde cedo se instalam em todos nós. Esta mulher e este homem que a todo momento estão próximos a você, criança, saiba (acredite): são seus pais, e sobre este significante poderoso incidem crenças sócio-culturais há muito tempo arraigadas. Amai-vos! Ora, este é apenas o início do longo processo de semiotização (fabricação de significados) que se estenderá para o resto de uma vida.Não é um mal em si, até porque não há mal em si, apenas relações, linhas, conexões, agenciamentos, forças. Podemos agrupar tudo isso sob o nome de desejos (ou afetos) que passam a consistir e a constituir o tecido da realidade, a nossa realidade. Assim, para que tal crença (qualquer uma) "pegue" e se conserve numa espécie de  "formol psíquico", é essencial a implantação dos afetos correspondentes.Não que a cada crença haja um afeto que a sustente, mas que os afetos se espraiam num território existencial onde as crenças parasitam a alma e se reproduzem à revelia de um eu (ele próprio uma crença e das mais duras...) que, apassivado, a tudo assiste cumprindo ordens instantâneas e automáticas. Seja você mesmo! Há, pois, ilusões profundamente instiladas na crença em si, na crença no próprio eu-individual (este sou eu...) como senhor-comandante das ações mais elementares ou mesmo as mais complexas. A coisa funciona muito bem ao ponto de  sistemas de crenças como a ciência, a religião, o estado, a escola, as forças armadas, a mídia, e tantas outras, fincarem suas verdades em "regiões" profundas de um inconsciente histórico. Este é opaco à consciência dos seres humanos normais. Por isso estes mesmos seres são dominados e monitorados "por dentro" numa produção subjetiva incessante.

A.M.

FABIAN OEFNER


FALA, ROGER

Um dos dois técnicos negros a comandar uma equipe da Série A do Campeonato Brasileiro, Roger Machado deu uma longa resposta quando perguntado sobre a campanha contra o racismo após Fluminense x Bahia, na noite deste sábado. Ele e Marcão, treinador do Flu, usaram uma camisa estampada com a frase “chega de preconceito”. Em campo, o clube carioca levou a melhor e venceu o Bahia por 2 a 0, com gols de Nenê e Daniel.

O treinador do clube baiano repetiu o discurso que já havia encampado, de que não deveria causar impacto o fato de ter dois negros na área técnica, mas desta vez, em coletiva após a partida, baseou-se em números para escancarar o racismo que está estruturado na sociedade brasileira.

- Com relação à campanha, não deveria chamar atenção ter repercussão grande dois treinadores negros na área técnica, depois de ser protagonistas dentro do campo. Essa é a prova que existe o preconceito, porque é algo que chama atenção. A medida que a gente tenha mais de 50% da população negra e a proporcionalidade não é igual. A gente tem que refletir e se questionar. Se não é há preconceito no Brasil, por que os negros têm o nível de escolaridade menor que o dos brancos? Por que a população carcerária, 70% dela é negra? Por que quem morre são os jovens negros no Brasil? Por que os menores salários, entre negros e brancos, são para os negros? Entre as mulheres negras e brancas, são para as negras? Por que que, entre as mulheres, quem mais morre são as mulheres negras? Há diversos tipos de preconceito. Nas conquistas pelas mulheres, por exemplo, hoje nós vemos mulheres no esporte, como você, mas quantas mulheres negras têm comentando esporte? Nós temos que nos perguntar. Se não há preconceito, qual a resposta? Para mim, nós vivemos um preconceito estrutural, institucionalizado – questionou o treinador.
(...)

GloboEsporte.com, Salvador, 12/10/2019, 22:46 hs

sábado, 12 de outubro de 2019

VERÍDICO

foi comprar açúcar
levou mais de vinte anos

um dia voltou
pôs o pacote sobre a mesa
sentou-se
acendeu o cigarro
e perguntou — o café
vai demorar?


Líria Porto

CRIANÇAS


O QUE É ENCONTRAR

(...)
Sabemos que a Clínica pode adquirir traços reducionistas,  como é  o caso  da  psicanálise.  Aí se destaca a transferência como conceito-chave. Devido a sua importância, a experiência  psicanalítica é muitas vezes posta como A experiência. Mas é possível, considerando-se o delírio, supor que  outros  universos existam. E insistam. O delírio explode a transferência. A psiquiatria, munida  dos fármacos, também realiza um empreendimento  reducionista.  O alvo é o delírio  como sintoma.  Se  riscarmos os  limites,  o encontro dar-se-á com elementos que  extravazam o quadro da clínica psicopatológica, o que torna possível a produção de uma  clínica voltada aos problemas reais do cotidiano. Neste sentido, encontrar é ir ao não-patológico  até então misturado ao patológico. Desejar é encontrar na  medida em que o desejo produz o real, realidade, realidades e não fantasmas. Assim, ir além da  clínica  é  não se aprisionar aos  fantasmas que pululam nas categorias do pensamento da representação. Este é o modelo do pensamento da psiquiatria e dos saberes que lhe servem de apoio teórico, operacional e político.
(...)

A.M. in Trair a psiquiatria