sexta-feira, 5 de junho de 2020

LINHAS PARA O MÉTODO DA DIFERENÇA EM PSIQUIATRIA CLÍNICA

É possível estabelecer algumas linhas (práticoteóricas) para o método da diferença em psiquiatria clínica. São elas. 1-Contextualizar o encontro com o paciente: onde? quando? com quem? por que? para que? 2- Considerar os afetos em jogo, incluindo os do paciente e do técnico. Não como algo mau-em-si ou bom-em-si, mas como uma positividade, o que move as condutas. Trata-se do desejo. 3- Estabelecer hipóteses diagnósticas conforme a chave semiológica "função versus essência". Fazer prevalecer a função terapêutica. 4- Adotar uma atitude expectante (ao modo fenomenológico) expandindo-a como percepção do imperceptível: a espreita. 5-Percutir os sintomas a partir da vivência que o paciente traz do sintoma. Ou seja, retirar o sintoma da grade biomédica (uma doença) e tratá-lo como modo de existência: "eu sou meu delírio".6-Tentar, na medida do possível, inverter com o paciente para além da empatia. Não sentir o que o outro sente (isso é impossível) mas sentir com o outro. Trata-se de um cuidado, mesmo nas situações mais adversas e estranhas. 7- Evitar a auto-identificação em papéis sociais contrários à expressão da diferença, e que estão contíguos ao de psiquiatra biológico. Não ser, pois, juiz, policial ou sacerdote, entre outros. 8-Conectando com o ítem 1, avaliar que forças institucionais fazem o paciente falar uma verdade que não é a dele. Criar condições para ele falar em seu próprio nome. 9- Usar o poder psiquiátrico como um contra-poder a favor da expressão do corpo singular. Um exemplo é o do paciente impregnado devido a prescrição errada de psicofármacos. A correção deve ser acompanhada de uma orientação técnica ao próprio paciente ou a familiares. 10- A subjetividade precede os sintomas ou os diagnósticos à la CID - 10. Ou seja, ninguém é bipolar mas é produzido bipolar. Tudo é produção, inclusive de doenças. 


A.M.

POEMA SOBRE A RECUSA

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.


Maria Tereza Horta

terça-feira, 2 de junho de 2020

NÃO ACABOU, TÁ COMEÇANDO
(...)
A maioria brasileira que ainda não tem voz saberá como rejeitar esse individualismo possessivo que é a verdadeira forma de violência. Pois o verdadeiro embate é pela construção de uma liberdade real que nunca aceitará que mais de 28.000 brasileiras e brasileiros mortos é uma fatalidade natural, como a queda das folhas no outono.

Para finalizar, não podemos mais aceitar as chantagens que nos foram impostas. Nossas ações devem ser mais efetivas a partir de agora. Redes de boicotes a empresas que sustentam essa política da morte, manifestações de rua pelo impeachment do Governo que respeitem exigências de segurança sanitária (como vimos em Israel). Pois a queda desse Governo não será apenas a queda desse governo. Será dar a maioria sua verdadeira força de recusa e abrir o caminho para que ela possa começar a criar.

Vladimir Safatle, El País,01/06/3030, 15:44 hs 

domingo, 31 de maio de 2020

Para mim o
amor
fica-me justo
Eu só visto
a paixão
de corpo inteiro


Maria Teresa Horta

sábado, 30 de maio de 2020

O PACIENTE DA TESOURA

Há algum tempo atendi um paciente que chamo de "o homem da tesoura no crânio". É que ele dizia ter uma tesoura encravada no crânio. Alguém (que ele não sabia quem) havia feito isso enquanto ele dormia. Trouxe para a entrevista um calhamaço de exames complementares do cérebro (EEG, Tomografia, RNM, etc). Olhei um a um os exames e em todos os laudos estava escrito"exame normal". Perguntei-lhe: se os exames estavam normais por que ele achava portar uma tesoura no crânio? Respondeu mais ou menos o seguinte: "Doutor, a tecnologia de imagem está ainda pouco evoluída. A tesoura está num canto do cérebro de difícil acesso para que possa gerar imagens; por isso dá normal". Diante de tal resposta, não insisti em tentar convencê-lo. Isso foi um grande aprendizado. Nunca mais tentei convencer algum eleitor/seguidor de Lula ou Bolsonaro. 

A.M.

Documentário: A 'Noite dos Cristais' - Kristallnacht

sexta-feira, 29 de maio de 2020

JOELHO

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.


Maria Teresa Horta

CHRISTINE NGUYEN


A RAZÃO NA VALA COMUM

A voz da direita brasileira no poder, a qual convencionou-se chamar de "bolsonarista", está fora do universo democrático. Isso inclui não apenas a palavra dos poderes oficiais, mas o agenciamento microfascista (infernal) das subjetividades amestradas: apoiadores, seguidores, fiéis, eleitores for everyoutoubers,  redes sociais enlouquecidas, cidadãos dos mais variados matizes, quase todos bem intencionados, etc. Assim, não são dilemas da consciência, erros de julgamento, questões do ego, caráter, personalidade, ou até mesmo casos de psicopatia e/ou psicose. Nada de psicopatologia clínica. Isso é ou deveria ser política. No entanto, se esta se tornou "uma pedra no meio do caminho", cai fora o jogo democrático. Não mais política, mas polícia. 

A.M.
A INCITAÇÃO AO GOLPE

(...)
Para Oscar Vilhena, professor da FGV Direito em São Paulo, Bolsonaro e seu clã, ao invocar o 
artigo 142 da Carta, usam a “interpretação de quem conspira contra a democracia e não é capaz de interpretar um artigo dentro do quadro geral da Constituição”. “Trata-se de uma interpretação enviesada de que seriam as Forças Armadas, e não o Supremo, que têm a última palavra sobre a defesa da Constituição”, diz Vilhena.

“Ele está claramente incitando golpe, ele e o filho [Eduardo]”, disse o advogado especializado em direito público Marco Aurélio de Carvalho. A mesma opinião tem Cezar Britto, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. “Em nenhuma hipótese as Forças Armadas podem atuar a pedido dos poderes. Elas podem atuar para garantir a democracia, mas nunca contra a democracia”.

O advogado constitucionalista Guilherme Amorim Campos da Silva concorda que “não existe intervenção militar constitucional, como tem pregado o presidente”. Ele acredita que o mandatário está incorrendo em crime de responsabilidade ao quebrar o juramento de defender a Constituição. “As Forças Armadas entram em ação a pedido de algum dos poderes constituídos, para garantir a institucionalidade do país, e não para atuar como força autônoma ou soberana sobre os demais”.

Na opinião do criminalista José Carlos Abissamra Filho, diretor do Instituto em Defesa do Direito de Defesa, o presidente tem ficado sozinho politicamente e vem tentando se vincular à instituições que gozam de prestígio social, como Polícia Federal e Forças Armadas. “Ele vem pedindo esse apoio das Forças Armadas há algumas semanas já. Essa é mais uma tentativa. Está esperando para ver se as Forças Armadas vão dar. Eu não vejo clima para que isso ocorra”.

O constitucionalista Erick Pereira segue na mesma linha. Para ele, Bolsonaro faz um discurso “intimidador, mas inexequível”. “Não tem espaço constitucional para isso. Apenas se for ato de violência ditatorial e este não precisa da Constituição”. Outro especialista em direito público, Cristiano Vilela diz que o presidente tem andado no limite da incitação a um golpe. “Ele tem feito isso regularmente. Tem dado declarações que deixam a entender, mas sem dizer literalmente”
(...)

Afonso Bentes e Carla Jimenez, El País,Brasília e São Paulo, 28/05/2020, 23:45 hs

quinta-feira, 28 de maio de 2020

quarta-feira, 27 de maio de 2020

RIZOMA

Tudo se conecta com tudo. A lei do acaso absoluto. Baralho de cartas: a sorte. Mesmo um minúsculo grão do real, eis a sombra dos valores perdidos, a melancolia alegre. É tudo menos um. Contradições são para rir. Esse é o método: tornar possível "pensar". Isso dá trabalho, exige sensibilidades finas e abertas. Morrer também. Então, o caos se apresenta como destruição do eu e das formas sociais estáveis. Em todo o campo social, a qualquer hora, sem garantias de verdade, o caminho é o descaminho: força de criar. A certeza, a incerteza: o amor.  O território, a terra: alimento dos deuses. O real dói, mas é o que  resta: desejar.

A.M.

ODILON REDON


PF NAS RUAS


A Polícia Federal realizou buscas e apreensões nesta quinta-feira (27) no âmbito do inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) que apura produção de informações falsas e ameaças à Corte -- conhecido como "inquérito das fake news".

Entre os alvos estão o ex-deputado federal Roberto Jefferson; o empresário Luciano Hang, dono da Havan; os blogueiros Allan dos Santos e Winston Lima. Eles são aliados do presidente Jair Bolsonaro.

As medidas foram autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do caso.

As buscas com relação a Jefferson foram realizadas em dois endereços dele: um na cidade de Comendador Levy Gasparian e outro em Petrópolis (ambas no Rio de Janeiro).

Hang teve buscas em dois endereços em Brusque e um em Balneário Camboriú, em Santa Catarina.

Além desses dois estados, mandados foram cumpridos em São Paulo, no Mato Grosso, no Paraná e no Distrito Federal.

Ao todo, a operação tem 29 mandados de busca e apreensão.

(...)

Gabriella Palma,Márcio Falcao e Isabela Camargo,TV GLOBO e GloboNews, Brasília,27/05/2020, atualizado há 5 min.

terça-feira, 26 de maio de 2020

VÍRUS WITZEL 

A Polícia Federal investiga o desvio de dinheiro público na área da saúde no Rio de Janeiro em meio à pandemia do coronavírus. Desde o início da manhã desta terça-feira, policiais federais cumprem 12 mandados de busca e apreensão em vários endereços no Rio de Janeiro e em São Paulo, entre eles no Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador Wilson Witzel, e no Palácio da Guanabara, sede do Governo fluminense. Embora as operações da PF sejam sigilosas, a deputada federal Carla Zambelli citou que governadores seriam investigados e que haveria uma operação em andamento (que ela chamou de Covidão), em entrevista a uma rádio na véspera da Operação Placebo. Witzel é desafeto do presidente Jair Bolsonaro, de quem Zambelli é aliado. O Brasil soma 23.473 mortes pela covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde, sendo 4.105 vítimas no Estado do Rio.
(...)

El País, São Paulo, Brasília, Madri, 26/05/2020, 13:26 hs


JOÃO BOSCO - Quantos Rios

Quantos Rios

Rio
Que não é só um
Que não cabe olhar
Rio
Que é de cada um
Se transforma o olhar
Rio
Que é além de mim
E de ti, também
Que é aquém de nós
Salva a sós

Cidade
Unida pelos motoboys
E pelas sonâmbulas vãs
Que vão varando a Grota Funda
Desde a praia de Copacabana
Noite adentro até o amanhecer

Rio
Quantos rios cabem em ti
Da Gávea a Meriti
Não se pode entrar
Duas vezes no
Mesmo rio


João Bosco e Chico Bosco

segunda-feira, 25 de maio de 2020

CENTRÃO

Uma Arte

Não é tão difícil dominar a arte de perder;
tanta coisa parece preenchida pela intenção de ser perdida
que sua perda não é nenhum desastre.

Perca alguma coisa todo dia. Aceite a novela das chaves perdidas,
a hora desperdiçada, aprender a arte de perder não é nada.

Exercite-se perdendo mais, mais rápido:
lugares, e nomes e... para onde mesmo você ia viajar?
Nenhum desastre...

Perdi o relógio de minha mãe. E olha, minha última e
minha penúltima casas ficaram para trás.
Não é difícil dominar a arte de perder.

Perdi duas cidades, adoráveis. E, mais ainda, alguns domínios,
propriedades, dois rios, um continente.
Sinto sua falta, mas não foi um desastre.

- Até mesmo perder você (a voz gozada, o gesto que
eu amava) eu não posso mentir. É claro que não é tão difícil dominar
a arte de perder apesar de parecer (pode Escrever!) desastre.


Elizabeth Bishop

domingo, 24 de maio de 2020

LOUI JOVER


O QUE SERÁ

Há qualquer coisa no ar, no ar dos tempos. Impossível saber do que se trata. Nem mesmo importa saber ou cogitar se é uma coisa palpável para poder organizar a mente. E controlar. Mas não há controle. Apenas o fato de que são estranhas sensações. Elas percorrem o corpo dos poros abertos. À flor da pele há alguma coisa, sentimos, não identificável, fugidia, errática, talvez invisível. Atravessa espaços e chega às colinas verdes de um pensamento sem imagem, sem rumo, sem formas estáveis. Fala de anjos, forças cósmicas, deuses errantes, musas na floresta, seres inefáveis, estados dionisíacos.O que será? Talvez uma canção ao longe se aproxime e estabeleça um ritmo de dança para entender o que não é para entender. Tudo é mistério. É preciso escutar vozes para conseguir dizer: há um fluxo cósmico no ar dos pulmões tecendo o brilho da manhã nascente. E se o dia afinal chega (como agora), segue e prossegue sem volta. Isso faz com que cada segundo intua e eternize a carne dos sonhos: sim, existe alguma coisa sem nome embriagando a existência. Ela inventa o sol, as estrelas ocultas e faz escorrer signos de alegria para brincadeiras (inocentes) do que é viver.

A.M. 
O PICO

Estimativas feitas pela cúpula da área de saúde dos maiores estados e por redes de hospitais privados preveem que o pico das mortes por Covid-19 no Brasil acontece nesta semana que começa hoje — cerca de 5,5 mil óbitos em uma semana, quase quatro vezes mais do que se projeta para o finalzinho de junho.

As mesmas estimativas apontam que o número de mortos no país, hoje em torno de 22 mil, chegará a 39 mil em 28 de junho. A quantidade de novos casos confirmados de coronavírus em uma semana também atinge seu pico nos próximos dias: cerca de 80 mil.

Dentro de um mês, a previsão é que sejam 21 mil novos casos novos por semana. O ápice de novos casos confirmados da doença em São Paulo foi na semana que passou; no Rio de Janeiro será nesta que entra agora.

Nunca é demais repetir que previsões como essas são baseadas nas condições atuais de isolamento social. Se abrir geral, como quer Jair Bolsonaro, tais projeções valem tanto como uma nota de US$ 3. 

Lauro Jardim, O Globo, 24/05/2020,06:00 hs

Ivermectina contra a Covid-19

sexta-feira, 22 de maio de 2020

A APOSTA

A nota divulgada há pouco pelo general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, classifica a possibilidade de apreensão do celular do presidente da República como uma "evidente tentativa de comprometer a harmonia entre os poderes". E avisa que qualquer iniciativa nesse sentido poderá ter "consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional".

Não se trata de blefe.

O presidente Bolsonaro decidiu que não entregará seu telefone celular à Justiça nem mesmo diante de determinação da Corte. "Quem irá cumprir a ordem?", comentou em tom de desafio um assessor presidencial.

Não por acaso a nota de "alerta" divulgada pelo Palácio não foi assinada pela Advocacia Geral da União, como seria a praxe, nem pela Secretaria de Comunicação.

O general Augusto Heleno endossa cada palavra do presidente.


Thais Oyama, do UOL, 22/05/2020, 15:59 Hs
JAIR E O CENTRÃO

Um mês após dar início às negociações com o centrão para se manter no poder e evitar um processo de impeachment, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) já cedeu ao menos quatro cargos de segundo e terceiro escalões, que, juntos, gerenciam cerca de 73 bilhões de reais da União —o equivalente a 2% do Orçamento federal. Todos foram ocupados por afilhados de políticos do Nordeste, região que é majoritariamente administrada por governadores opositores a Bolsonaro e onde ele teve menos votos na eleição de 2018.

Ao mesmo tempo, o presidente ainda negocia a troca de seu líder na Câmara. O atual, Vitor Hugo (PSL-GO), deve ser substituído por um desses três: Ricardo Barros (Progressistas-PR), Hugo Motta (Republicanos-PB) ou João Roma (Republicanos-BA). Conforme o andamento das investigações contra Bolsonaro e a oscilação de sua popularidade, que está em queda nas últimas semanas, mais dois ou três ministérios ainda podem entrar na conta em troca de apoio parlamentar. O centrão está de olho nas pastas de Agricultura, de Infraestrutura e de Ciência, Tecnologia e Comunicações.

Até o momento, os tentáculos do grupo chegaram a cargos secundários nos ministérios da Educação e de Desenvolvimento Regional. Garigham Amarante Pinto foi nomeado para a diretoria de ações educacionais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). O órgão tem Orçamento de 55 bilhões de reais. Pinto tem como padrinhos o deputado federal Wellington Roberto (PL-PB) e Valdemar Costa Neto, ex-deputado federal, condenado pelo mensalão e eminência parda do PL. Trabalha para a legenda desde 1998, sendo que nos últimos 13 anos chefiou a liderança do partido na Câmara.
(...)

Afonso Benites, El País, Brasília, 22/05/2020, 10:07hs
MÚSICA SURDA

Como num louco mar, tudo naufraga.
A luz do mundo é como a de um farol
Na névoa. E a vida assim é coisa vaga.

O tempo se desfaz em cinza fria,
E da ampulheta milenar do sol
Escorre em poeira a luz de mais um dia.

Cego, surdo, mortal encantamento.
A luz do mundo é como a de um farol...
Oh, paisagem do imenso esquecimento.


Dante Milano

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Rehearsal Mirrors of Life - Juliano Nunes (NDT 2 | Up & Coming Choreogra...

EM NOME DA CIÊNCIA

O corpo vivo, sensível aos magnetizadores, charlatães e outros efeitos placebo, cria obstáculo à conduta experimental, que exige a criação de corpos com o poder de dar testemunho da diferença entre as "verdadeiras causas" e as aparências destituídas de interesse. A medicina, que   extrai sua legitimidade do modelo teórico-experimental, tende a remeter esse obstáculo àquilo que resiste "ainda", mas que um dia se submeterá. O funcionamento efetivo da medicina, definido por uma rede de restrições administrativas, gestionárias, industriais, profissionais, privilegia sistematicamente o investimento pesado, técnico e farmacêutico, pretenso valor do futuro quando o obstáculo estará dominado. O médico, quer não quer se assemelhar a um charlatão, vive com mal-estar a dimensão taumatúrgica de sua atividade. O paciente, acusado de irracionalidade, intimado a se curar pelas "boas" razões, hesita. Onde, nesse emaranhado de problemas, de interesses, de constrangimentos, de temores, de imagens, está a "objetividade"? O argumento "em nome da ciência" se encontra por toda a parte, mas não pára de mudar de sentido.

Isabelle Stangers - in A invenção das ciências modernas

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Não há inimigo insignificante. Todo inimigo é uma potência. O amigo trai na primeira esquina. Ao passo que o inimigo não trai nunca. O inimigo é fiel. O inimigo é o que vai cuspir na cova da gente. Não há admiração mais deliciosa do que a do inimigo.
(...)

Nelson Rodrigues

HENRY ASENCIO


PANDEMIA E PANDEMÔNIO

Tentando pensar a saúde mental no contexto do covid, há várias linhas de análise. Uma delas, talvez a mais evidente, é do significante "morte". Posta como modelo do-vírus-que infecta, sobrevoa a todos como um fantasma. As tecnologias da imagem fazem disso um sentimento. Ora, se o que move os processos subjetivos é o sentimento ("sinto que vou viver", "sinto que vou morrer"), a Realidade é o que vem de fora, e mais, o próprio Fora. Impossível discutir "saúde mental" sem considerar esse Fora (o mundo) que é onde tudo começa e termina. Sob as condições atuais do covid, esse mundo traz o modelo da morte como objeto ou objetivo a nos abater, mesmo que o vírus, de acordo com as estatísticas, tenha uma baixa taxa de letalidade. Não importa. O essencial da informação/comunicação imagética é a chegada de uma certa representação da morte que contagia o psiquismo com efeitos diversos, entre eles, a paranóia, a depressão, a angústia e a fobia. Assistimos, então, a uma espécie de implante diário de uma vivência/percepção de que "estar vivo é estar morto". Esta seria uma formulação absurda se a Consciência, ou seja, se os elementos do bom senso comandassem as ações humanas, mormente no campo da política. Mas as coisas não funcionam assim, ao contrário.

A.M.  
Paquerinha

Ele piscava para todas as meninas.
Eu só piscava pra ele.
Nem todas as meninas correspondiam,
mas algumas iam piscar na cama dele.
Até que eu resolvi acabar com a festa
e dei pra ele um anzol de pescar infernos.


Ana Elisa Ribeiro

terça-feira, 19 de maio de 2020


SEGREDOS DO VÍRUS

O temível inimigo que obrigou bilhões de pessoas a se esconderem em suas casas é uma minúscula bolinha de 70 milionésimos de milímetro. O novo coronavírus, chamado pelos cientistas de SARS-CoV-2, é tão pequeno em comparação ao ser humano como uma galinha com relação a todo o planeta Terra. Esse é o grande adversário da humanidade. O vírus é apenas uma brevíssima mensagem escrita com combinações das mesmas quatro letras. Cada uma delas é a inicial de um composto químico com diferentes quantidades de carbono, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio. Com estas quatro letras (a, u, g, c) está escrito o texto que matou mais de 316.000 pessoas em todo o planeta desde que sua existência foi detectada, há pouco mais de quatro meses.
(...)

Manuel Ansede, Mariano Zafra e Artur Galocha, El País, 19/05/2020, 14:54 hs

segunda-feira, 18 de maio de 2020

DITADURA BRANDA

A cada dia que passa, o Brasil acorda com a sensação de que, mais do que uma democracia, vive uma ditadura branda. Eu a chamo de branda porque o presidente Jair Bolsonaro foi eleito nas urnas e porque, teoricamente, as instituições continuam formalmente de pé. Mas não restam dúvidas de que o país tem cada dia mais a sensação de que tais instituições, como o Congresso e o Supremo, estão sitiadas pelas decisões autoritárias do presidente e pelas contínuas ameaças contra elas nas redes sociais.
(...)
Juan Arias, El País, 18/05/2020, 14:47 hs

domingo, 17 de maio de 2020

DONALD JOYCE toca Glass

E minhas próprias coisas eram tão más e tristes, como o dia em que nasci. A única diferença era que agora eu podia beber de vez em quando, apesar de nunca ser o suficiente. A bebida era a única coisa que não deixava o homem ficar se sentindo atordoado e inútil o tempo todo. Tudo mais te pinicando, te ferindo, despedaçando. E nada era interessante, nada. As pessoas eram limitadas e cuidadosas, todas iguais. E eu teria que viver com esses putos pelo resto de minha vida, pensava. Deus, eles todos tinham cus, e órgãos sexuais e suas bocas e seus sovacos. Eles cagavam e tagarelavam e eram tão inertes quanto bosta de cavalo. As garotas pareciam boas à distancia, o sol provocando transparências em seus vestidos, refletido em seus cabelos. Mas chegue perto e escute o que elas tem na cabeça sendo vomitado pelas suas bocas. Você ficava com vontade de cavar um buraco sobre um morro e ficar escondido com uma metralhadora. Certamente eu nunca seria capaz de ser feliz, de me casar, nunca poderia ter filhos. Mas que diabo, eu nem conseguia um emprego de lavador de pratos.Talvez eu pudesse ser um ladrão de bancos. Alguma porra. Alguma coisa flamejante, com fogo. Você só tinha direito a uma tentativa. Por que ser um limpador de vidraças?

Charles Bukowski
para um rosto
desconhecido
de mulher
num bar à noite
                          esta flor


A.M.

LOUI JOVER


ESTUDOS SOBRE O SUICÍDIO - III

O tema "suicídio" é complexo. Sim, porque está em jogo não a morte ("a morte não existe") mas a vida. Vale a pena a vida? Como Camus escreveu, no ato suicida está presente a única questão verdadeiramente filosófica : o valor da vida. Saímos do campo especulativo da morte (o que é isso?) para aterrar nas práticas do mundo. Trata-se de um giro na discussão empírica ( como evitar que ele se mate?) em direção aos processos existenciais que o desejo agencia. O que é viver? Sob o foco da mídia, imagens mortuárias povoam o debate sobre o suicídio e as respostas extraem da agenda biomédica o senso comum dos organismos tidos como doentes. Pesadas carcaças diagnósticas fecham a questão: haveria mais suicidas entre os portadores de transtornos mentais? Ora, os transtornos mentais não são causa nem origem nem explicam nada. Eles é que devem ser explicados. A psiquiatria também. Como o pensamento sobre o suicídio costuma estar atolado na moral, na ciência, na religião e nos interesses do estado, rodopiamos todos num ponto cego de análise. Repetindo: a questão é a da vida! Até porque uma séria limitação do método qualitativo jamais será preenchida nas pesquisas. Ou seja, quem é que fala em nome do suicida exitoso, já que ele não mais está entre nós?

A.M.  
comunicado

tu não sabias –– pois saibas
quem me cura da agonia de viver
é a poesia


líria porto

sexta-feira, 15 de maio de 2020

FOI NELSON


Nelson Teich pediu demissão a Jair Bolsonaro. O motivo, ou melhor a gota d'água, foi a decisão de Bolsonaro de mudar o protocolo de prescrição da cloroquina. 

A recomendação atualmente é que a cloroquina possa ser usada somente em casos graves. Bolsonaro insiste que o protocolo passe a indicar o medicamento também no início do tratamento. Teich não concorda. Hoje à tarde, Teich fala à imprensa para (tentar) explicar o que aconteceu.

Bolsonaro já disse mais de uma vez:

— Dou liberdade aos meus ministros, mas quem manda sou eu.

Teich ficou apenas 28 dias no cargo.

Os favoritos para a sucedê-lo são: o general Eduardo Pazuelo, que Bolsonaro impôs como o segundo de Teich; o eterno candidato Osmar Terra; e o Contra-Almirante Luiz Froes, diretor de Saúde da Marinha.

Froes é quem tem, no entanto, mais chances por ser o preferido do general Braga Netto.


Lauro Jardim, O Globo, 15/05/2020, 12:02 hs
AFETOS CLÍNICOS

Para a psiquiatria biológica o exame psíquico implica num juízo moral sobre a alteração de conduta do paciente. A causa dessa alteração se acharia no mau funcionamento do organismo, mais precisamente, do cérebro. Essa tese pode parecer simplista, mas na prática é assim que funciona. Está aí o que justifica o uso de megadoses psicofarmacológicas, bem como a violência simbólica embutida na relação médico-paciente. Talvez a nossa crítica soe piedosa e nada mude, até porque é fácil criticar um pensamento teórico tão raso como o da biopsiquiatria. Então, o que faria tudo mudar? O que seria não-piedoso? Sem dúvida, a questão está por inteiro no trabalho com os afetos que o paciente expressa e a resposta do técnico em termos do que fazer com eles. Trata-se de um campo de pesquisa vasto e complexo. Não surpreende que tal objeto praticamente desapareceu nos primeiros 20 anos de século XXI. É que sua pesquisa põe às claras pelo menos duas linhas de análise: 1- Os afetos "garantem" o vínculo terapêutico técnico-paciente. Na esteira do conceito freudiano de transferência, é possível dizer que eles transbordam a transferência na direção do inominável, do indizível. Perguntar-se-ia: o que sente um suicida? O que sente um psicótico? 2- A linha psíquica tênue entre o patológico e o não-patológico aflora nos sentimentos que são a cultura-em-nós, no caso presente, a capitalística. Desse modo a concepção de transtorno mental, e mais ainda, a de "mental" , migra do cérebro para o mundo. Para o técnico em saúde mental uma escolha ética se impõe.

A.M.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

UMA DOENÇA

Há doenças piores que as doenças.
– Fernando Pessoa

I
Há doenças que são mais que doenças,
que não apenas são à vida infensas
como oferecem algumas recompensas

que tornam mais urgente e mais difícil
o já por vezes inviável ofício
de habitar o íngreme edifício

do não-se-estar-conforme-se-devia
e administrar a frágil fantasia
de que se é o que ninguém seria

se não tivesse (insistentemente)
de convencer-se a si (e a toda gente)
que não se está (mesmo estando) doente.

II
O mundo está fora de esquadro.
Na tênue moldura da mente
as coisas não cabem direito.

A consciência oscila um pouco,
como uma cristaleira em falso.
Em torno de tudo há uma aura

que é claramente postiça.
O mundo precisa de um calço,
fina fatia de cortiça.

III
Nenhuma posição é natural.
Qualquer ordenação de pé e mão
e tronco é tão-somente parcial

e momentânea, uma constelação
tão arbitrária e pouco funcional
quanto a Ursa Maior ou o Escorpião.

Nenhuma é estritamente indispensável.
Nenhuma é realmente lenitiva.
Nenhuma é propriamente confortável.
Apenas uma é definitiva.


Paulo Henriques Britto
IMAGEM-TEMPO

Um clichê é uma imagem sensório-motora da coisa. Como diz Bérgson, nós não percebemos a coisa ou a imagem inteira, percebemos sempre menos, percebemos apenas o que estamos interessados em perceber, ou melhor, o que temos interesse em perceber, devido a nossos interesses econômicos, nossas crenças ideológicas, nossas exigências psicológicas. (...) (...) Civilização da imagem? Na verdade uma civilização do clichê, na qual todos os poderes têm interesse em nos encobrir as imagens, não forçosamente em nos encobrir a mesma coisa, mas em encobrir alguma coisa na imagem. Por outro lado, ao mesmo tempo, a imagem está sempre tentando atravessar o clichê, sair do clichê.
(...)

G. Deleuze in Cinema: imagem-tempo

GEORGI PETROV


NOTURNO COM AR CONDICIONADO

O tédio infinito dos hotéis
de três estrelas, tardes que se estendem
em direção a noites povoadas

por dois ou três garçons indevassáveis
num bar onde nenhum turista húngaro
cochila diante da tevê autista

em que uma locutora silenciosa
exibe a três poltronas de pelúcia
duas fileiras de dentes de carnívora.


Paulo Henriques Britto
A ESCRAVIDÃO APÓS A ABOLIÇÃO

Vicente José da Silva não sabia o que era relógio. Entretanto, quando o sol virava para o outro lado do riacho, sabia que estava na hora de apartar as vacas dos bezerros e selar o animal de seu senhor. Do entardecer ao luar, caminhava descalço por até quatro horas puxando o cavalo que o patrão montava pelas estradas. Por aproximadamente 10 anos, essa foi parte de sua rotina de escravatura em Capela Nova, interior de Minas Gerais, ainda que, naquela época, a abolição, assinada em 13 de maio de 1888, já estivesse prestes a completar meio século no Brasil. “Meus pais sabiam que eu era escravo, mas a gente não tinha escolha”, conta Vicente, hoje aos 92 anos, sobre o período de servidão.

Nascido em 26 de julho de 1927, ele cresceu em casa de pau a pique erguida num pedaço de chão chamado Fartura. A realidade da família de oito rebentos, porém, era de fome e miséria. Os pais viviam e plantavam nas terras de um latifundiário conhecido como Capitão Justo. Em troca, eram obrigados a entregar metade da lavoura ao dono, além de ceder a força de trabalho dos filhos, muitos deles, como Vicente, que ainda eram criança.

Justo ostentava a patente de capitão, mas que foi comprada tal qual um título de nobreza. Quando o Capitão morreu, Jaci, um de seus herdeiros, tomou Vicente como seu criado na fazenda quando ele tinha apenas oito anos. “Pra quem nasceu preto, tipo eu, a escravidão continuava sendo normal. O patrão me levou pra lá e virei escravo dele, meio despistado, porque meus pais tinham medo de ser mandados embora da terra e a gente não ter mais o que comer.”
(...)

Breiller Pires, El País, Belo Horizinte, 12/052020, 23:13 hs

terça-feira, 12 de maio de 2020

Carlos Santana And Wayne Shorter - Apache (Live in rehearsals) Supernatu...

O COMBATE DO DIAGNÓSTICO

A questão do diagnóstico de "esquizofrenia" não é só clínica. É também, e, principalmente, político-institucional. Isso se deve ao fato da "forma-psiquiatria" haver construído tal diagnóstico como uma prática social de poder e controle sobre os pacientes, bem como linha de ascenção da psiquiatria a uma credibilidade científica e daí acadêmica. Da segunda metade do século XIX com o diagnóstico de "demência precoce" (Kraeplin) até o início do século XX, substituindo-o pelo de esquizofrenia (Bleuler), a psiquiatria se instala como "ciência". A partir daí ela passa a dispor do seu principal objeto ( a esquizofrenia) de pesquisa e intervenção prática (a internação hospital), galgando o status de especialidade médica.  Em fins do século XX (a chamada década do cérebro - anos 90) as pesquisas neurocerebrais sacramentam não só a esquizofrenia, como todas as patologias mentais como sendo doenças do cérebro. As consequências desses fatos foram e são devastadoras para a pesquisa em psicopatologia clínica e teórica, bem como quanto à intervenção sobre o paciente no campo da saúde mental. A psicopatologia clínica, a que busca dar voz ao sujeito, entrou em franco declínio, beirando hoje o aniquilamento total. Quem fala é o cérebro. Desse modo, o debate sobre o diagnóstico clínico em psiquiatria tornou-se essencial para uma crítica ativa e  um trabalho prático com o paciente. Trata-se de uma estratégia de combate, muitas vezes invisível, muitas vezes ao modo de um agente de saúde mental infiltrado na teia psiquiátrica... É que as formas de violência subjetiva legitimadas e institucionalizadas cientificamente já não apenas vivem nos quartos sombrios dos manicômios, nos postos de enfermagem, mas se expandem e se mostram à luz do dia, inclusive em ambulatórios, caps, consultórios, postos de saúde, etc.

A.M.


P.S. - Em tempos de covid, o cérebro mente

domingo, 10 de maio de 2020

AMARELHINHA


O QUE É VIVER?

As linhas da diferença estão em toda a parte. No entanto, caso prevaleça o olho paranoico da Consciência, este acesso é impossível. Ao contrário, buscamos o cultivo de percepções finas, sutis, delicadas, para além e aquém das formas subjetivas do eu-importante. As pessoas, em geral, se acham importantes. Queremos o desimportante. Experimentar viver sem clichês, com poucas respostas ou referências de verdade: buscar a diferença. Para isso, dobras psíquicas e corpos intensivos fazem novas conexões afetivas. A diferença é o que sobra dos afetos produzidos ao sabor dos encontros. Um "resto" composto de afetos irá encontrar novos afetos, e assim por diante, numa repetição prenhe de nuances de arte. A diferença é a arte. Não a arte mercantil ou monumental, mas a arte como processo de criação de mundos: um devir-arte.Traçar essa linha, esboçar essa linha de força ativa, linha de potência, linha de vida, quem consegue isso saiu de si. Enlouqueceu de amor ao amar. Uma passagem, uma travessia. A vida, enfim.

A.M.
per si

um vírus emparedou-nos
estamos dentro de casa
prisioneiros de nós mesmos
guardiões do próprio cárcere

(quem não trabalha não come
quem suja limpa)


liria porto

sexta-feira, 8 de maio de 2020

CONCEITO DE FASCISMO

Numa democracia representativa é possível haver um extenso leque de opções político-ideológicas. Da extrema direita à extrema esquerda... muitos são os matizes... condição institucional para o jogo democrático. Isso é "normal" na democracia. No entanto, existe o fascismo e isso não é o normal do jogo. Não é, não segue as regras.Mas, afinal, do que se trata? Ninguém mais do que Félix Guattari furou o nervo da questão. Por isso ele fala de "microfascismos". Assim, a pesquisa sobre o tema incide na detecção de linhas fascistas funcionando na subjetividade. Mesmo a mais bondosa, diga-se. O fascismo é algo interior que vem do exterior. Mas é preciso saber o que são tais "linhas". Veremos: são linhas existenciais prenhes de afeto (sentimento, desejo) que seguem um processo voltado ao fim último onde apoiar as crenças e os valores: um líder, uma doutrina, uma teoria, uma religião, qualquer coisa. O que importa é que tal coisa transcendente funcione como único e inquestionável sentido da existência. Com Mussolini era assim. Com Hitler era assim. Com Stalin era assim.O que os diferencia são os vários contextos sócio-históricos. O que os aproxima é o apego à morte como grito de guerra, morte ao Outro, morte à diferença, morte à singularidade, modelo de vida: a tristeza. Isso é o fascismo, este é o fascismo que nós brasileiros, vivemos agora. Enterrados na cova dos trapaceiros da esquerda, nos restou o fascismo da direita como Salvação idiotizante.O covid adora cortar a respiração.

A.M. 
A REUNIÃO CENSURADA

O Planalto resiste em entregar ao STF o vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril sob o argumento de que o encontro tratou de "assuntos potencialmente sensíveis e reservados de Estado, inclusive de relações exteriores". A Advocacia Geral da União, que representa o presidente da República no inquérito aberto a partir das acusações do ex-ministro Sérgio Moro, pede para ser autorizada a entregar apenas parte do registro da reunião.

Já se sabe que o vídeo — além de trazer a suposta ameaça do presidente de demitir Sérgio Moro caso ele não concordasse com a substituição do delegado Maurício Valeixo- mostra uma reunião pródiga em palavrões e menções a assuntos que o governo preferiria tratar em volume baixo, como os acordos com o Centrão.

E também é sabido que a China foi citada na reunião em termos pouco elogiosos — pelo próprio Bolsonaro e logo na abertura do encontro. Mas a frase mais potencialmente danosa dita na mesa não saiu da boca do presidente, e sim do seu ministro da Educação. Depois de comentar medidas tomadas pelo STF que desagradaram o governo, Abraham Weintraub afirmou que a Corte era composta por onze filhos da puta. Um deles é o destinatário do vídeo. E ainda pode compartilhar com os outros dez o comentário "sensível" do ministro.

Thays Oyama, UOl, 08/05/2020, 09:33 hs

BANKSY


O EXEMPLO DE NITERÓI

Enquanto a cidade —e todo o Estado— do Rio de Janeiro se aproxima do colapso sanitário, do outro lado da ponte a cidade vizinha mais rica parece enfrentar a pandemia de coronavírus com um pouco mais de tranquilidade. O município de Niterói, conhecido por ter o sétimo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) mais alto de todo o país, vem buscando desde janeiro se antecipar à covid-19 com uma série de medidas sociais, econômicas e sanitárias. Com 500.000 habitantes, foi a primeira cidade a adquirir testes rápidos —um total de 50.000― da China e da Coreia do Sul com o objetivo de testar 10% de sua população ao longo de dois meses.
(...)

Felipe Betim, El País, São Paulo, 07/05/2020, 11:23 hs

quinta-feira, 7 de maio de 2020

COVID: AFETOS E CRENÇAS

Em tempos covídicos, a saúde mental é atingida em cheio. Esse fato óbvio nos conduz a buscar uma psicopatologia que se constitua no próprio universo do vírus, não como causa de certa patologia mental ou um sintoma, mas como linha psíquica do sofrimento atual. O universo da pandemia é claramente um universo paranóico. Isso leva a que afetos contagiem (infectem) efeitos de subjetivação sobre cada indivíduo. O medo (tornado crônico) do invisível, o medo do outro, o medo de si mesmo, a suspeita insistente, a desconfiança a priori, a contenção dos corpos, a compulsão com a assepsia, a angústia ( um mal estar indefinido), a obsessão com o pessimismo e a morte, entre outros...  são afetos negativos, destrutivos. Junto com eles, ou misturadas a eles, nos chegam as imagens, mil imagens produtoras de crenças. Informar e comunicar: o objetivo. Elas são veiculadas por tecnologias de ponta onde a mídia, a internet, os celulares e toda a parafernália on line se corporifica como verdade do mundo a se aceitar sem crítica. Assim, as crenças induzem ao medo e o medo induz às crenças. Um círcuito de realimentação discursiva se instaura como subjetividade isolada, ilhada, confinada, apavorada, o que irá nutrir e abastecer depressóes, delírios, alucinações, fobias, ideações suicidas, lacunas de memória, pânicos, auto-mutilações, insônias, apragmatismos sociais, somatizações, conversões e dissociações histéricas... Enfim, fica evidente que a saúde mental não é a saúde do cérebro mas a saúde do mundo social onde o cérebro, sim, está enfiado. Sem remédio.

A.M.

PHILIP GLASS - Prophecies

quarta-feira, 6 de maio de 2020

OH! LULA...

Em julgamento virtual, a 8a Turma do Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF-4) manteve condenação do ex-presidente Lula no caso do sítio de Atibaia (SP) a 17 anos de prisão.
Por unanimidade, os desembargadores negaram os recursos apresentados pela defesa do petista. Na última petição apresentada ontem à noite, os advogados de Lula solicitaram suspensão do julgamento virtual com base no depoimento do ex-ministro Sergio Moro do no último sábado (2). A defesa alegou que a oitiva de Moro era um novo acontecimento relacionado ao processo de suspeição do ex-juiz da Lava-Jato, que aguarda julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF).
(,,,)

Bela Megale, O Globo, 05/05/2020,16:09 hs
Clínica dos afetos - II

A clínica dos afetos poderia ser chamada "clínica da diferença" ou "clínica das multiplicidades". A opção por "afetos" deve-se à estratégica de análise da psicopatologia que sustenta (ou deveria sustentar) a psiquiatria clínica. Veja: um paciente (qualquer...) está sob a influência incessante de forças que se traduzem no corpo, na alma, na conduta, na existência enquanto afetos, intuições, sentimentos, tendências, emoções, impulsos, instintos, quer sejam criadores e/ou destrutivos. Tal perspectiva metodológica busca eliminar a visão do transtorno mental como evento extra-territorial (fora do meio em torno) o que faz por encaixotá-lo em modelos enrijecidos, frios, assépticos, desnaturados, seja o da visão biomédica, seja o de outras metodologias como a da terapia cognitivo-comportamental (TCC), sem dúvida, um monumento ao conformismo tornado ciência. Uma clínica dos afetos começa com os afetos em jogo postos pelo próprio técnico em saúde mental. O que Freud chamava de contratransferência pode ser ampliado para uma atitude de implicação ético-estética no que acontece ao Outro, sabendo que este Outro somos nós mesmos.

A.M.
A vida é uma ferida?
O coração lateja?
O sangue é uma parede cega?
E se tudo, de repente?

Eduardo Pitta, 

MEU QUERIDO SUPERMERCADO

Às vezes, entre a água sanitária e os tomates, surge o amor. Dura um instante, uma flechada, exatamente o tempo de que todos os produtos passem pelo caixa. Assim que se enchem as sacolas, é hora da despedida. Então, Danilo de Melo Santos fica mais uma vez sozinho com seus sonhos. E com o próximo cliente. “Pode ser que um comprador nem repare em você, e enquanto isso você está divagando, imaginando uma vida com ele”, confessa diante da câmera o jovem operador de caixa. Embora nem todos os idílios terminem com um cupom fiscal e um “até logo”. Acontece que, além de carne e legumes, um supermercado está cheio de surpresas. Como a própria vida. “É claro que já saí com algum cliente, é normal. Acontece, você troca um olhar, um elogio, dá o telefone...”, acrescenta Santos. Sabe-se lá quantos romances já nasceram de uma compra. E não só isso: entre os infinitos corredores, escondem-se debates de filosofia e religião, crônicas íntimas de dor e esperança. Estão lá, embora quem tem olhos só para os biscoitos, as azeitonas ou o desodorante nunca repare neles. A diretora brasileira Tali Yankelevich fez isso. E filmou: seu primeiro longa, Meu Querido Supermercado, foi exibido por streaming no último sábado no festival Visions du Réel.
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Tommaso Koch, El País, Madri, 05/03/2020, 20:16 hs

terça-feira, 5 de maio de 2020

EMIL NOLDE


O CÉREBRO MENTE

A psiquiatria é uma especialidade médica híbrida. Funciona na zona de fronteira entre as ciências humanas e as biológicas. Contudo, mais importante para a prática clínica (ou seja, aos efeitos sobre o paciente) é  o fato de ser ela uma forma social que se nutre dos códigos sociais estabelecidos. Exemplo simples é o da moral. A psiquiatria guia-se pela moral como pressuposto implícito dos seus enunciados diagnósticos, os quais inscrevem-se no fenômeno mais amplo de medicalização da sociedade. Para que tal empreendimento "dê certo",  conta com a reverência das pessoas em geral a uma neurocientificidade reducionista e à figura do psiquiatra como ponto de subjetivação mantenedor da ordem. São linhas semióticas (produzem significados) que circulam entre os técnicos de saúde mental num circuito de naturalização a-histórica da medicina, e por extensão da própria psiquiatria. Daí, a assepsia tecnocientífica da psiquiatria biológica esconder a função da clínica-do-remédio-químico como produtora social de fármaco-subjetividades. Para o paciente e familiares, vulneráveis aos fluxos da loucura, a saída terapêutica passa a ser o psiquiatra que apenas medica, ainda que isso mortifique o desejo. Ou justo por isso. O chamado paciente crônico é produzido, estigmatizado como crônico pelas vias do diagnóstico "cidológico" e pela farmacoterapia contençora dos processos subjetivos singulares.

A.M.