quarta-feira, 17 de julho de 2019

A DISFUNÇÃO


Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de a menos.
Sendo que mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.

Nomearei abaixo 7 sintomas nos poetas dessa disfunção lírica.

1 - Aceitação da inércia para dar movimento às palavras.

2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.

3 - Percepção das contigüidades anômalas entre verbos e substantivos.

4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.

5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.

6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.

7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.


Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância
aos passarinhos do que aos senadores.


Manoel de Barros

terça-feira, 16 de julho de 2019

A NECROPOLÍTICA COMO REGIME DE GOVERNO

Brasil e Colômbia disputam a miserável primeira posição de país mais arriscado para ser um defensor de direitos humanos no mundo. Se a questão for terra ou meio ambiente, Colômbia é o país mais violento; se forem os direitos das mulheres ou população LGBT, Brasil lidera o ranking de homicídios. A fronteira entre as questões de direitos humanos é uma tentativa de classificar onde estão os temas de maior risco em cada país, porém histórias concretas de ativistas ameaçados ou mortos mostram como a fronteira é nebulosa. Yirley Velasco é campesina, sobrevivente do Massacre El Salado, na Colômbia, foi vítima de violência sexual em 2000. Sofre ameaças de morte pelo trabalho político em defesa dos direitos das mulheres em Montes de María, onde María del Pilar Hurtado foi morta na frente dos filhos. Talíria Petrone é deputada federal, amiga de Marielle Franco, vereadora assassinada por milícias no Rio de Janeiro. É voz ativa pelos direitos humanos na política nacional brasileira e vem sofrendo ameaças de morte.
(...)

Debora Diniz e Gisele Carino, El País, 16/07/2019, 20:28 hs

CORPOS ARDENTES Lawrence Kasdan / 1981 - Cena

(VEREIS QUE O POEMA CRESCE INDEPENDENTE)

Vereis que o poema cresce independente
e tirânico. Ó irmãos, banhistas, brisas,
algas e peixes lívidos sem dentes,
veleiros mortos, coisas imprecisas,

coisas neutras de aspecto suficiente
a evocar afogados, Lúcias, Isas,
Celidônias... Parai sombras e gentes!
Que este poema é poema sem balizas.

Mas que venham de vós perplexidades
entre as noites e os dias, entre as vagas
e as pedras, entre o sonho e a verdade, entre...

Qualquer poema é talvez essas metades:
essas indecisões das coisas vagas
que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.


Jorge de Lima

segunda-feira, 15 de julho de 2019

BANKSY


REAL IRREAL

O que é o real? A psicanálise (lacaniana) diz que o real é impossível pois vivemos num mundo essencialmente simbólico. Conforme essa doutrina, o real é lançado para os rumos da psicose, ou seja, rompido com a formação social no qual se inscreve. Quem tem acesso ao real é louco, é o louco em seu desvario. Uma insanidade. Ao contrário, pensamos ao modo deleuziano. O real não está dado, ele é produzido, sempre produzido. Resta saber por quem. Há toda uma questão ético-política de fundo... Os artistas, os videntes, os poetas, os revolucionários (não os esquerdistas), entre outros, sabem disso porque experimentam o mundo na própria carne, na própria pele, melhor dizendo, no corpo sensível, desejante, nutrido de mil sensações. Assim, se a psicose é o real, as "mil sensações" se tornam mil sintomas clínicos do transtorno que a psiquiatria biológica chama de "mental". A tecnologia moderna inundou o cotidiano com tal profusão de imagens que a psicose (e os seus mil sintomas) ocupou o lugar da esquizofrenia reeditando-a como "A" psicose, mesmo que não pareça. Depressões, neuroses, histerias, borderlines, retardos, paranóias, demências, drogadiçoes, fobias, pânicos, angústias, e tantos outros signos atuais do aniquilamento da subjetividade, se misturam numa espécie de sopa coletiva psicopatológica. No fim, tudo conduz à psicose (ou à loucura).Mas, se nem mesmo o psicótico sabe mais o que é o real, nos achamos em plena dissolução do sentido. Da clínica em saúde mental.

A.M.
Talvez os poetas estejam certos. Talvez o amor seja a única resposta.

Woody Allen

domingo, 14 de julho de 2019

Wojciech Kilar - Love Remembered

OFICINA DE POESIA

Trabalhe em dois livros, simultaneamente.
Dedique a maior parte do seu tempo ao livro 1.
É nele que você colocará os melhores poemas.
No livro 2, escreva o que vier à cabeça,
sem muitas preocupações temáticas ou estilísticas.
Ele vai funcionar como um caderno de exercícios
e provavelmente nunca será lido.
Enquanto isso, continue trabalhando com afinco
nos poemas do livro 1.
Ao final do processo,
jogue fora os poemas do livro 1
e publique o livro 2.


Bruno Brum

A MEDICALIZAÇÃO

O conceito de medicalização da sociedade é tributário do capitalismo industrial avançado. Possui um alcance planetário, na medida em que a tecnologia médica, sustentada pela ideia de progresso, avança como oferta de produtos a serem consumidos em meio ao estilo de vida contemporâneo. Tal estilo tem como base a produção subjetiva correlata à produção econômica. Ou seja, cada vez mais inexistem divisões entre os vários setores da vida social, fazendo desta uma mera extensão dos processos do capital (sempre mais lucro, mais domínio, mais controle e exploração...), no caso médico uma semiologia do organismo doente adaptada às necessidades de controle propedêutico pelos equipamentos de saúde. Daí as soluções de problemas sociais se afiguram através o uso da terapêutica médica precedida pelo diagnóstico cada vez mais estabelecido por imagens (exemplo da USG). A medicalização não é, pois, um fenômeno médico, pelo menos na sua origem, mas um produto do funcionamento científico das relações capitalísticas, totalizadas na figura subjetiva do consumidor-padrão. A medicina segue e “obedece” ao processo histórico-social porque ela mesma é uma forma social no sentido de uma instituição poderosa que emplaca um discurso humanitário às custas da produção-consumo de pacientes. Medicalizar é, pois, um ato político antes de ser técnico.

AM.

PAVEL MITKOV


A verdadeira dialética

aí os caçadores chegaram
mataram o lobo e abriram a barriga
e encontraram a vovozinha
toda mastigadinha
quanto a chapeuzinho vermelho
eles comeram



Sebastião Uchoa Leite
CONTRA A MARÉ

Quando a FIFA anunciou que o Brasil abrigaria a Copa do Mundo de 2014, iniciou-se uma corrida entre municípios e estados para apresentar candidaturas à sede do maior torneio de futebol do planeta. Sem grande tradição no esporte, Maceió e São Luís chegaram a cogitar a hipótese, mas, diante do exorbitante custo para cumprir requisitos de reforma e construção dos estádios, acabaram desistindo de sediar o evento. Agora, cinco anos depois da Copa, enquanto algumas cidades ainda não entregaram obras de mobilidade urbana prometidas ou congelam recursos na educação após investimentos milionários em arenas, as capitais de Alagoas e Maranhão driblam a crise econômica abrindo novas bibliotecas.
Em 2008, o então governador do Maranhão, Jackson Lago (PDT), avaliou a ideia de São Luís sediar a Copa. Porém, se assustou com as exigências do “padrão-FIFA”, que elevariam os gastos na reforma do estádio Castelão para uma cifra na casa das centenas de milhões de reais. A capital maranhense nem sequer pleiteou vaga entre as cidades-sede. Já no governo de Roseana Sarney (MDB) [2009-2014], as obras de restauração do Castelão foram concluídas a um custo de 28 milhões de reais. Apesar do lobby favorável de Fernando Sarney, dirigente da CBF e irmão da governadora, a cidade entendeu que não seria viável se habilitar para receber o Mundial.
(...)

Breiller Pires, El País, São Paulo, 14/07/2019, 9:55 hs

sábado, 13 de julho de 2019

Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.

Nelson Rodrigues

A MÃO DE DEUS

FIM DE JOGO

Juiz - Você viu a novidade  do VAR? Fantástico!
Torcedor- Sim, vi e não gostei.

Juiz- Como não gostou? O VAR torna o futebol mais justo. Premia o melhor.É um avanço tecnológico, um progresso imenso na interpretação das regras.
Torcedor-Mas o futebol não é justo.Basta, por exemplo, conferir a história das copas. Tantos resultados injustos...

Juiz- Então você acha que não deveria existir o VAR?
Torcedor-Sem dúvida. Trata-se de uma máquina anti-futebol, anti-vibração, anti-alegria. Desfigurou esse esporte demoníaco. Atingiu em cheio o seu DNA.

Juiz- Cara, nem acredito no que você diz. Então devemos continuar com erros de toda ordem? Penalties não marcados, penalties marcados que não foram, impedimentos que não foram mas foram, equívocos do bandeirinha, roubos do juiz, etc...
Torcedor- Mas tudo isso é o futebol. Esta é a sua essência e a sua estética. Estética do erro. Assim como na vida. Por isso o  fascínio, o charme e a loucura que contamina tudo e todos.

Juiz - Então, vou lhe dar um cartão vermelho.
Torcedor - Tudo bem. Pode dar. Sem mim, o futebol morre.


A.M.


sexta-feira, 12 de julho de 2019

Quem sonda o verso escapa ao ser como certeza, reencontra os deuses ausentes, vive na intimidade dessa ausência, torna-se responsável por  ela, assume-lhe o risco e sustenta-lhe o favor. Quem sonda o verso deve renunciar a todo e qualquer ídolo, tem que romper com tudo, não ter a verdade por horizonte nem o futuro por morada, porquanto não tem direito algum `a esperança, deve, pelo contrário, desesperar. Quem sonda o verso morre, reencontra a sua morte como abismo.
(...)

Maurice Blanchot 
Jovem

Jovem deixa óculos em museu
e visitantes pensam que é obra de arte.
Jovem deixa obra de arte em museu
e visitantes pensam que perderam os óculos.
Jovem recolhe óculos de museu
e visitantes pensam qualquer outra coisa.
Jovem, colabore.


Bruno Brum

BANKSY


OS SERTÕES, HOJE


A 17ª Festa Literária de Paraty (Flip) começou nesta quarta-feira bem ao estilo de seu homenageado, Euclides da Cunha: densa, dura e desbravadora de linguagens. Música e literatura misturaram-se em uma noite em que Walnice Nogueira Galvão, ensaísta e crítica literária, brindou o público com todos os seus conhecimentos de décadas da obra euclidiana. "Euclides viu de perto, pela primeira vez, o povo brasileiro. Viu que o povo brasileiro é mestiço, messiânico, analfabeto, e não os brancos ricos do Rio de Janeiro", afirmou, ao referir-se a Os Sertões durante uma conferência de mais de uma hora, ante uma plateia majoritariamente branca.

A atualidade da obra que narra a Guerra de Canudos (1896-1897) será debatida até este domingo (14) por 33 intelectuais —sendo 17 mulheres— de 10 nacionalidades, em áreas que vão da sociologia à fotografia e abordando temas como raça, gênero e pós-colonialismo. Os temas têm tudo a ver com o livro. "Os Sertões é uma colcha de retalhos de muitas outras narrativas", explicou Galvão, ao lembrar que, ainda que esconda o fato hermeticamente em sua obra-prima, o autor passou apenas três semanas em Canudos e valeu-se, em grande medida, do testemunho de terceiros para construir seu relato. 

Euclides debruçou-se sobre o massacre de Canudos ao perceber a desonestidade dos relatos oficiais que publicavam-se à época. "Não foi Trump quem inventou as fake news. Os repórteres que cobriram Canudos eram militares, muitos deles combatentes, e publicavam notícias falsas sobre o suposto perigo que aquelas pessoas representavam", explicou a especialista. O próprio Euclides, no entanto, vinha de formação militar, o que supôs um conflito que, para Galvão, também ficou impresso no livro. "O leitor pode acompanhar na obra a tensão e o sofrimento de quem a escreve. Ele acreditava verdadeiramente em uma instituição que agora matava o povo que deveria proteger".

A especialista também compartilhou com o público detalhes curiosos do escritor. Os Sertões, publicado em 1902, bateu um recorde brasileiro à época ao ganhar três edições nos três primeiros anos de publicação. Isso deu rédea solta, de acordo com Galvão, ao "transtorno obsessivo-compulsivo emendador" de Euclides. De acordo com a especialista, durante esse período, o escritor apagou, uma por uma, cerca de mil "vírgulas vagabundas" da primeira edição. 
(...)

Joana Oliveira, El País, Paraty, 11/07/2019,11:28 hs
A alma enruga antes da pele.

Millôr Fernandes

quinta-feira, 11 de julho de 2019

LOUI JOVER


SUBJETIVIDADE A-SUBJETIVA

Numa acepção inspirada em  Gilles  Deleuze e Félix  Guattari, subjetividade refere-se às formas de sentir, pensar, perceber e agir que  se expressam na relação do indivíduo com  o  mundo.  A subjetividade vem de  fora. Ela é social e mais  precisamente  coletiva. O  indivíduo  é uma  espécie  de  terminal da  produção coletiva  da  subjetividade. Claro que  o corpo é  a referência  maior,  pois  não  existiria  indivíduo  sem um corpo.  Precisamos ver algo. Mas  esse corpo, com   a sua  organização anátomo-fisiológica, está encravado numa rede coletiva de significados não necessariamente  visíveis.  Ainda  assim, o   coletivo   não é algo abstrato, distante de nossas vidas cotidianas. Ao contrário, ele se  operacionaliza  no  e  através  o funcionamento das  instituições,  formando linhas de vida no que  se chama  “subjetivo”. Dizer ”subjetivo=coletivo” é uma  equação que serve  para se  pensar a  mente e os  transtornos  mentais.  A subjetividade nos governa  a  partir de determinações que  escapam à consciência, ao  eu   e à  razão. Estas  categorias  são produtos  sociais  que  servem para  manter a  estabilidade do cotidiano da civilização onde  vivemos.  Funcionam  “naturalmente”. O  nosso  problema aqui  é  o  conceito  de subjetividade fabricado  em meio a um conjunto de nomes da  clínica  que  a psiquiatria  entronizou  como sendo  “A  clínica  dos  transtornos mentais”.  Esta clínica  começa com as condutas socialmente inadequadas, e se consuma no diagnóstico (impreciso)  de  psicose, mas  se  expande, se alastra, incluindo até mesmo quadros não  psicóticos. Sua ambição é  abarcar  a  gama das condutas humanas num sistema classificatório: a CID-10. É uma clínica estagnada no ponto em que o cérebro estabeleceu limites anátomo-fisiológicos (e estruturais) ao  pesquisador.  Entretanto,  como  no caso dos afetos, precisamos  de  uma  máquina  teórica  que  capte a  velocidade do universo subjetivo, traga respostas do que se passa na Vivência e fale do desejo. E que não se reduza  às cintilações fisico-químicas do organismo, nem mesmo ao imaginário  do eu ou às regras de conduta na sociedade. Buscamos outra coisa. Para que isso seja possível, será necessário considerar o processo de produção desejante em situações concretas. Práticas de vida...
(..)

A.M. in Trair a psiquiatria

THE COOK, THE THIEF, HIS WIFE & HER LOVER, Peter Greenaway, 1989 - Affai...

quarta-feira, 10 de julho de 2019

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.
(...)

Manoel de Barros

terça-feira, 9 de julho de 2019


A DIFERENÇA NA PSICOPATOLOGIA                      
(...)
Retornemos ao borderline: ele pode ser  considerado  como a instabilidade    em pessoa  concretizada em impulsos violentos e tão surpreendentes quanto danosos ao outro. Os afetos  parecem vir em estágio bruto e  numa corredeira  sem freios.   O encontro  é com um  chão movente.  Não há um  ou mais  problemas, mas  uma    problematização    contínua. Não se trata de um mero jogo de palavras. É toda a  inserção no mundo, e mais, o seu mundo constituído que é o da instabilidade afetiva. Ao falar de si num tom de passado e no fulcro das relações afetivas,  fica evidente  o  dado assombroso que é o da inexistência  de   um território   onde enganchar a relação pessoal, um vínculo. Um vazio brutal  lhe constitui. Um paciente afundado na solidão? Não é possível  vê-lo desse modo,  pois seria  fincar a estaca da   moldura humanista sobre uma alma em desgoverno. O encontro com a loucura não é um exame das funções psíquicas nem  do comportamento observável.  O encontro é um devir,  aquilo que tenta  captar do paciente fluxos do desejo.   O paciente não se reduz ao eu, ainda que este esteja  preservado. Ele consegue falar, dizer como está, conversar.  Seu corpo oscila entre uma inexpressão   e  uma  expressividade dramática. Contudo, a  dramaticidade não é  “fingida”.  Assume seu discurso com se fosse ele próprio levado por uma onda de emoção. Adiante, sem que se  lhe estimule,  estanca o ritmo e se faz imóvel numa atitude que suscita dúvidas.   Elas  oscilam  entre o que    diz de si e o que se esconde em dobras subjetivas opacas. O borderline  é um ser errante de difícil ajuda pelo aparelho biomédico.  Talvez   seja  usado algum remédio químico. Aí ele se curva  para além das dobras a  que aludimos. Torna-se  paciente de um cansaço  adicional  (a sedação) ante saídas difíceis da problemática. As linhas singulares estão fora das categorizações da CID-10 ou de  outras classificações.Sob a ótica da diferença, o paciente é um mundo inexplorado e ainda não humanizado. Não há pureza nessa concepção. Trata-se  de espreitá-lo  tanto quanto se conseguir  escapar do clichê médico.  Examinar o borderline é se pôr  fora  das definições do que é ou não o limite, o corte, a fronteira entre a saúde e a doença, o anormal e o anormal, a potência e a impotência. Para isso ser possível, a experiência do contato com a loucura é essencial. Não é preciso ser louco ou ficar louco, mas sim entrar  num  devir-loucura, tornar-se loucura  se o propósito é ajudar, acolher,criar. Tal disposição não costuma ser bem vinda nas organizações promotoras da fé numa racionalidade apaziguadora. Isso inclui a psiquiatria e suas agências  de apoio à  promoção de uma felicidade quimicamente induzida.  No entanto, entramos num terreno onde a química não resolve,  e pior, oferece a sedação como  simulacro da morte. Desse modo, o encontro com a loucura precede o encontro com o paciente...
(...)

A.M. in Trair a psiquiatria

segunda-feira, 8 de julho de 2019

EMIL NOLDE


    Heraclitiano



        na segunda chicotada
         você já é outro

         — não importa o lado
         do chicote


      
         Carlos Machado

domingo, 7 de julho de 2019

Universo  da   diferença

                                                                                            
Nada é  estável.  Mesmo  a natureza,  com  seu cortejo teológico (produto humano)  anexado à crença numa “maternidade”, é  mutante e fluida.  Mãe-natureza, você  nos  socorre?  Nada.Não  há garantias, salvação ou igualdade de  direitos. Quem estabelece os direitos? A natureza é em essência cruel e indeterminada, ainda que bela. Esqueça a moral. O argumento da prática é o empírico invisível e fugidio. Defensores do estado (e do mercado) se pegam em discursos intermináveis e abstratos. Eles querem mais é  controlar a natureza. Ao contrário,  o universo   da diferença não tem controle, não tem  cronos, não tem consciência.Tudo é artifício. O caos se avizinha num tom musical. Aproveite.A questão é a da vida. Encontrar quem o socius    codificou como o excluído, mesmo que, pela via da ciência, seja o incluído. As palavras iludem  e  fazem de um problema, a solução. Inverta a  frase: faça  da solução um problema. Nada a  compreender,  mas a aceitar, a conectar, a captar, a sentir. Quem  delira espaços, culturas,  povos,  cidades, políticas e a abertura do  cosmos?  Quem habita zonas produtivas e povoadas do inconsciente?  Como chegar às angústias do seu  mundo? A psiquiatria tipifica um megafracasso. A psicanálise,  arrogante,  brocha. Estamos a buscar espíritos sensíveis sem o  bom senso do cristianismo secular.  Traçar linhas da existência onde o capitalismo vacila.  Investir um risco infinito: afinal,  quem é você?  Não uma identidade, estou  certo. A hora do  sonho cedeu  lugar à exigência  de uma  tarefa clara. Foi ao banco? Pagou suas contas?  O  coração da gente é o de uma rua da metrópole. Hoje, o alimento dos deuses do capital fez de órfãs entranhas edipianas:  escravizaram-nas. Resistir, sim, resistir na medida em que nasça o inumano em nós. Estar  em carne, mesmo em espírito. Viver de paradoxos. Não estar à margem, mas ser a margem.Pertencer ao universo que deixa o tempo entoar canções sem dono. A psiquiatria não quer isso.  Ela odeia a diferença. Não combina. Tem ares de um saber espúrio.Tampouco a sociedade estabelecida. Ela se alimenta  de narcisos. Há boas intenções, sabemos. Sempre há. Afinal, o humanismo marcou nossos gens. Mas um riso sem motivo tornou-se o motivo do riso. A hora do acontecimento se aproxima. 

A.M.


ELBA RAMALHO & GERALDO AZEVEDO - Bicho de sete cabeças

O RETORNO

Frente a impossibilidade de ser psiquiatra e a de não sê-lo, surgem linhas de risco, nem sempre visíveis, às vezes mortais. Elas atravessam práticas clínicas e produzem a esquizofrenia do pensamento. Sem diálogo, retornam ao estágio zero do Encontro. E tudo recomeça.


A.M.
Como são parecidos os radicais da esquerda e da direita. Dirá alguém que as intenções são dessemelhantes. Não. Mil vezes não. Um canalha é exatamente igual a outro canalha.

Nelson Rodrigues

SOB A PELE DO LOBO - direção de Samu Fuentes, 2018

ESFINGES 

Alguns, prudentes, não falam com estranhos.
Outros, muito práticos, dizem apenas o necessário
Para o bom andamento dos negócios.

Alguns, calmos e sérios, fecham portas e janelas.
Outros, afoitos, ou filhos de um deus sem-terra,
Oferecem biscoitos, talvez flores, e longa prosa.

De todos, quem sorri com mais dentes de ouro?
quem finge? quem vê no espelho sua própria
                                                                          (esfinge?


Carlos Machado
Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver.
(...)

Caio Fernando Abreu
O PACIENTE DA TESOURA, DE NOVO

Há algum tempo atendi um paciente que chamo de "o homem da tesoura no crânio". É que ele dizia ter uma tesoura encravada no crânio. Alguém (que ele não sabia quem) havia feito isso enquanto ele dormia. Trouxe para a entrevista um calhamaço de exames complementares do cérebro (EEG, Tomografia, RNM, etc). Olhei um a um os exames e em todos os laudos estava escrito"exame normal". Perguntei-lhe: se os exames estavam normais por que ele achava portar uma tesoura no crânio? Respondeu mais ou menos o seguinte: "Doutor, a tecnologia de imagem está ainda pouco evoluída. A tesoura está num canto do cérebro de difícil acesso para que possa gerar imagens; por isso dá normal". Diante de tal resposta, não insisti em tentar convencê-lo. Isso foi um grande aprendizado. Nunca mais tentei convencer algum eleitor/seguidor de Lula ou Bolsonaro. 

A.M.

ALEXEY SHALAEV


EXTERIOR

Por que a poesia tem que se confinar 
às paredes de dentro da vulva do poema? 
Por que proibir à poesia 
estourar os limites do grelo 
da greta 
da gruta 
e se espraiar em pleno grude 
além da grade 
do sol nascido quadrado?

Por que a poesia tem que se sustentar 
de pé, cartesiana milícia enfileirada, 
obediente filha da pauta?

Por que a poesia não pode ficar de quatro 
e se agachar e se esgueirar 
para gozar 
-CARPE DIEM!- 
fora da zona da página?

Por que a poesia de rabo preso 
sem poder se operar 
e, operada, 
polimórfica e perversa, 
não poder travestir-se 
com os clitóris e os balangandãs da lira?

Waly Salomão
CANTANDO BAIXINHO

Nunca tantos deveram tanto a tão poucos. Ou pouco, no singular. João Gilberto era singular, de infinitas maneiras. Sua principal singularidade teve a ver com o gênio para depurar a sua arte – de cantar e de tocar violão – em tão poucos elementos. Morto neste sábado 6, aos 88 anos, João cantou baixinho, tocou poucas notas, todas certeiras, e gravou pouco, um repertório restrito que, no entanto, se multiplicava em sutilezas de interpretação. Isso explica, em parte, por que implantou o samba no coração do jazz, um gênero musical que só se realiza plenamente no aqui e no agora, no sabor do improviso. Há mais de meio século, quase não há jazzista que não tire o chapéu para a bossa nova.
(...)

Arthur Dapieve, Época, 06/07/2019, 19:32 hs

sábado, 6 de julho de 2019

JOÃO GILBERTO - Chove Lá Fora

PARA QUE SERVE A CONSCIÊNCIA?

(...)
O conceito de consciência serve  à concepção  médica baseada  nas  estruturas cerebrais. O que  não é um erro, e sim um recorte dos processos subjetivos. A psiquiatria trata da mente conforme  o  corpo físico-químico. Institui  o cérebro  como o “corpo  mental”, dando  origem  a um novo dualismo: cérebro/mente e  corpo (organismo). Uma psicopatologia da diferença  põe em questão essa ótica. Quadros de dissociação  histérica  há mais de cem anos foram  descritos por Freud. A consciência se altera. Além disso, várias outras situações clínicas podem  modificar o nível da consciência sem que haja lesão cerebral demonstrável.  A angústia, quando muito intensa, também pode levar o paciente a alterações  do  nível da consciência.  Em  sessões  de psicoterapia, na vivência de certas técnicas, a consciência pode se modificar, facilitando o trabalho terapêutico na  pesquisa de respostas e efeitos sobre o psiquismo. Isso também é válido para a clínica psicanalítica.Há momentos da transferência em que a consciência muda.No psicodrama, na catarse de integração e/ou no desempenho de certos papéis conforme  a espontaneidade criativa, algo acontece para além da consciência.
(...)

A.M.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca vi as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na fonte comum.
Nunca tampouco extrai dela os meus sofrimentos. 
Nunca pude em conjunto com os outros despertar o meu peito para doces alegrias,
E quando eu amei o fiz sempre sozinho. 
Por isso, na aurora da minha vida borrascosa evoquei como fonte de todo o bem o todo o mal. 
O mistério que envolve, ainda e sempre, 
Por todos os lados, o meu cruel destino...

Edgar Allan Poe

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


ESQUIZOFRENIA

SÃO PAULO - O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro , ironizou nesta sexta-feira mensagens divulgadas pelo site The Intercept Brasil e pela revista "Veja" em que ele estaria pedindo a procuradores da Lava-Jato a inclusão de uma prova no processo de um réu. Moro disse que os fatos narrados na reportagem, "se fossem verdade", mostrariam esquizofrenia da parte dele, e não parcialidade.
— Relativamente a esse caso houve absolvição. Eu absolvi. Vou pedir para incluir fato na denúncia e depois absolver? Não é nem questão de parcialidade. É esquizofrenia — reagiu Moro, ao falar sobre o processo envolvendo o operador de propina Zwi Skornicki.
(...)

Sílvia Amorim, O Globo, 05/07/2019, 16:17 hs

JORGE BEN - O telefone.

Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.


Tennessee Williams

quarta-feira, 3 de julho de 2019

MAIS ARMAS

Representantes de empresas de armas foram recebidos na Casa Civil, no Ministério da Justiça e no Ministério da Defesa 29 vezes nos cinco primeiros meses do governo Bolsonaro — em média uma vez a cada cinco dias. 

Nesse período, Jair Bolsonaro editou três decretos armamentistas.

A lista inclui lobistas e presidentes de grandes companhias de armas: Salesio Nuhs, presidente da Taurus; Hugo de Paula, representante da empresa tcheca CZ; Franco Giaffone, presidente da Glock; Rafael Mendes de Queiroz, da controladora da Taurus; Augusto de Jesus Delgado Jr, sócio-administrador da DelFire Arms; e Misael Antônio de Sousa, lobista de empresas de armas.

Os seis foram recebidos 29 vezes nas três pastas, a uma média de uma visita a cada cinco dias.
(...)

Guilherme Amado, Época, 02/07/2019, 17:30 hs

terça-feira, 2 de julho de 2019

A Tale of Impermanence - Ihsan Rustem (NDT 2 | Up & Coming Choreographers)

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES

Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à lua
Quando a sobra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!


Jorge de Lima
AFETOS E HUMOR

Não se encontra nos livros de psiquiatria um conceito de "afeto". Dito de outro modo, a pergunta "o que é a afetividade?" sequer é posta. Às vezes são encontradas aqui e ali definições nominais baseadas no pressuposto de que "afetividade" é tudo que não é consciência, pensamento, sensopercepção, memória, atenção, fala, etc. É de fazer rir. Um regime de conceituação é assim produzido ao inverso, ou seja, pelo negativo. Afeto é o que não é. Como então estabelecer uma relação de cuidado ao paciente? Dos manuais de psicopatologia (cada vez mais raros devido a progressiva extinção desse campo de pesquisa) aos tratados de psiquiatria biológica, os textos não assumem a auto-ignorância para com um tema tão essencial da clínica. Contudo, o mais grave ainda não é isso, e sim a construção de um conjunto pseudo-teórico sobre o humor sem quase nada se saber dos afetos. É que o humor decorre dos afetos e não o contrário. Ele se expressa como afetos em variados matizes. Trata-se de um dado facilmente observável no cotidiano dos indivíduos não necessariamente doentes. Deriva daí e se afirma nos dias atuais o conceito de bipolaridade como uma pérola de inconsistência teórica e clínica. Os pacientes tendem a acreditar nesse modelo abstrato que supostamente irá melhorar suas vidas psíquicas. Toneladas de psicofármacos são, então, cientificamente administradas.

A.M.

O QUE É UM RIZOMA ?

segunda-feira, 1 de julho de 2019

FANÁTICOS

“Todos os tipos de fanáticos tendem a viver em um mundo em que tudo é preto ou branco”, escreve Amós, que confirma sua definição de alguém “que só sabe contar até um”. Não existe para ele a riqueza da soma das diferenças. O verdadeiro fanático é alheio e insensível à ideia de que possa haver algo ou alguém diferente dele. Assim, acaba privado de tudo o que enriquece e enobrece o mundo como é a diversidade. O fanático nunca entenderá valores como a amizade com alguém que possa levantar uma bandeira diferente da sua, como o diálogo, a política de gênero, a riqueza de compartilhar ideias e pensamentos que não sejam os seus.

O fanático de hoje é incapaz de desfrutar da luminosidade produzida pela mistura das cores. Para isso, teria de aprender a somar e multiplicar a luz em um grande caleidoscópio que reflita a riqueza da vida e de seus contrastes. Infelizmente, “só sabe contar até um”. Todo o resto não existe para ele, ou só lhe interessa domesticado ou morto.
(..)

Juan Arias, El País, 28/06/2019, 14:45 hs

domingo, 30 de junho de 2019

A poesia não existe para comunicar, mas para comungar.

Manoel de Barros

DENIS CHERNOV


PSIQUIATRIA NO CAPS

Num território clínico encharcado pelo uso generalizado de psicofármacos, como fazer a diferença? O próprio paciente quer fármacos, pede isso, mais e mais, naturalizando a função de psiquiatra como a de “passador de remédios”. Mas não só o paciente. “Todos” pedem mais remédios químicos para, entre outros objetivos, manter a ordem no serviço e no mundo. Trata-se de um legado do antigo manicômio que se mantém atuante como necessidade de haver um psiquiatra. São argumentos variados a favor: 1-clínicos: as psicoses são consideradas como as patologias mentais mais graves; por isso, só um psiquiatra estaria capacitado para tratá-las, pelos menos num primeiro instante; 2-morais: os transtornos mentais levam os seus portadores a condutas socialmente inadequadas, às vezes violentas; o psiquiatra deve ser chamado; 3-jurídicos: o psiquiatra é médico e esse dado implica num poder jurídico estabelecido, o que o diferencia dos demais técnicos; 4-institucionais: a relação de poder psiquiatra-paciente fornece o modelo de atendimento que se reproduz como verdade da clínica. Ora, se pretendemos outro tipo de trabalho, a função-psiquiatra deve ser estilhaçada, fragmentada, relativizada, e é desse modo que tentamos nossa inserção no Caps. A escuta do paciente e o movimento dialógico  até os demais técnicos são linhas técnicas que podem fazer surgir um trabalho singular e daí criador de uma ética.

A.M.

No cheiro reside a própria essência da alma, ele permeia tudo de uma forma pertinente e tem a capacidade de abrir as portas do inconsciente, a partir do qual as cenas mais agradáveis e mais dolorosas são semeadas.
(...)
Mercedes Pinto Maldonado

NTR Podium: Lavinia Meijer speelt Philip Glass

A CADA 15 MINUTOS

RIO — Mães perdem filhos, filhos perdem pais. São milhares as histórias atravessadas pela epidemia de mortes no trânsito que o Brasil, há décadas, vive e não tem sido capaz de controlar. A cada 15 minutos, em média, uma morte é registrada nas ruas e estradas do país. Em 20 anos, foram 734.938 óbitos, segundo levantamento do GLOBO a partir de dados públicos do Ministério da Saúde — número superior à população de nove capitais, como Vitória, Cuiabá e Florianópolis.
(...)

Marlen Couto e Marcelo Remigio, O Globo, 30/06/2019, 04:30 hs

sábado, 29 de junho de 2019

Ela gostava de estar com ele, ele gostava de estar com ela. Isso era tudo.

Caio Fernando Abreu

CONVERSA

(...)
P-O que  causa  os transtornos  mentais?

R- A  etiologia é sempre multifatorial, mesmo que  pareça se  referir  a um só  fator, como por  exemplo o orgânico. Este é mais visível e até  certo ponto mais  “fácil” de ser detectado.  Contudo, há  muito mais a ser pesquisado.Os múltiplos fatores  são subdivididos em arranjos transdisciplinares. Isso quer dizer que não há fronteiras nítidas entre as disciplinas, nem sequer existem disciplinas se pensarmos e trabalharmos segundo uma ótica verdadeiramente transdisciplinar. Entramos num universo sub-representativo.Tudo  passa a ser mistura. Desabam as especialidades e os especialismos.


P- Poderia  explicar melhor  o que você  chama  de  universo   “sub-representativo”?

R-  Trata-se do mundo que  escapa à Identidade do conceito, (sustentada pelo verbo Ser), como quando se diz  “ser-doente-mental”  ou  “ ser-psiquiatra”. Ele está aquém da “representação da  Realidade”, ou seja, fora das coordenadas estáveis da razão, para além da relação do  conceito  com a coisa. O grande  desafio seria descolar o conceito da coisa, fazer o conceito  delirar. É um mundo constituído por processos, movimentos, devires, singularidades. Enfim, temos o campo das multiplicidades, um campo que se opõe aos dualismos estabelecidos, como doente/sadio,  corpo/mente, racional/irracional, etc.


P- Este  seria  propriamente o  universo  da  diferença?

R-Sim, sem dúvida. Mas, pela própria  natureza do seu  funcionamento, é um mundo a se  fazer, a se construir. Nada está  dado  de uma vez  por todas. Neste sentido, a Saúde Mental, vista como uma  instituição, passa a ser questionada em suas bases histórico-sociais. Pergunta-se-ia :a quem efetivamente serve a clínica? para que serve? São questões que se desdobram em  muitas  outras. Elas se unem na busca de uma ética pela vida como potência e alegria. Oh Espinoza!
(...)

A.M.

Guia prático dos sofredores anônimos

Hoje nós vamos sofrer.
Só por hoje vamos sofrer.
Sofrer tudo de uma vez.
Tudo o que há para sofrer.
Vamos sofrer calados.
Vamos sofrer cantando.
Tudo de uma só vez.
Do jeito que der para sofrer.
Sem ressalvas.
Sem reservas.
Sem esquemas.
Sofrer apenas.
Sofrer de olhos abertos.
Sofrer sem sentir pena.
Toda dor será bem-vinda.
Abriremos as feridas.
Toda chaga, toda mágoa.
Só por hoje vamos sofrer.
Sem saber onde.
Sem saber como.
Sem nem querer saber.
Sofrer de braços abertos.
Até não mais poder.
Sofrer sem dizer nada.
Tudo o que há para sofrer.

Bruno Brum

UM DIA MUITO ESPECIAL, de Ettore Scola, 1977

BOLSONARO E A PSICOSE

O presidente Jair Bolsonaro disse nesta sexta-feira (28), na cidade japonesa de Osaka, onde participou de reunião do G20, que em conversa com a chanceler alemã, Angela Merkel, falou para ela que o Brasil é alvo de uma "psicose ambientalista".

Às vésperas do encontro do G20, Merkel afirmou no parlamento alemão que via com "grande preocupação" as ações do governo brasileiro a respeito do desmatamento e que queria ter uma "conversa clara" com Bolsonaro.

"Conversei com ela, foi uma conversa tranquila. Em alguns momentos, ela arregalava os olhos, de maneira bastante cordial. Mostramos que o Brasil mudou o governo, e é um país que vai ser respeitado. Falei para ela também da questão da psicose ambientalista que existe para conosco", disse Bolsonaro em uma entrevista à imprensa.
(...)

Por G1,Brasília e Osaka, 29/06/2019, atualizado há 2 horas


DIAGNÓSTICO ESCATOLÓGICO

Quando a psiquiatria buscava o diagnóstico absoluto (Foucault),  ela queria saber, em cada caso clínico, se se tratava de loucura ou não. O diagnóstico diferencial veio depois e nem era importante. Isto se consolidou na segunda metade do século XIX, na Europa, com os trabalhos de E. Kraepelin. Hoje, as coisas mudaram e não mudaram. Ocorre o seguinte: a identificação da loucura é cada vez menos necessária, na medida em que a medicalização generalizada, junto à sociedade de controle, considera a existência de loucos, doentes a priori, todos nós. Assim, ao invés de um, muitos loucos, milhares, milhões diagnosticados ou em vias de se tornarem e serem efetivamente loucos. É que a dissolução do sentido, o estilhaçamento da subjetividade (quem sou? que se passa?) é um fenômeno planetário que se reproduz "localmente" nas culturas mais diversas. No fundo, só há uma Subjetividade, a capitalística, a burguesa, a classe tornada única, terrível casta dos homens cinzentos, sacerdotes do deus-capital, fim da história. Sob tais condições, como fazer uma clínica da diferença? Como fazer a diferença num mundo indiferenciado?

A.M.
Sou fuga para flauta de pedra doce.
A poesia me desbrava.
Com águas me alinhavo

Manoel de Barros

PAVEL MITKOV


sexta-feira, 28 de junho de 2019

Não nos dirigimos aos que consideram que a psicanálise vai bem e tem uma visão justa do inconsciente. Nós nos dirigimos àqueles que acham que toda essa história de Édipo, castração, pulsão de morte…, etc. é bem monótona, e triste, um romrom. Nós nos dirigimos aos inconscientes que protestam. Buscamos aliados. Precisamos de aliados.
(...)

G. Deleuze,  in Conversações

quinta-feira, 27 de junho de 2019

POR QUE DIAGNOSTICAR EM PSIQUIATRIA?

A ênfase que concedemos ao estudo do diagnóstico psiquiátrico prende-se a um dado simples: é através dele que se chega ao conhecimento da doença e às suas possíveis causas (etiologia). O "melhor" diagnóstico, portanto, seria o diagnóstico etiológico. O exemplo das doenças infecciosas é emblemático: a identificação do agente causador (ainda que haja outros fatores em jogo, certamente de menor importância) estabelece um critério etiológico básico. No caso da psiquiatria, tudo muda. Em primeiro lugar, porque não há um consenso sobre o que seria uma "doença mental", ou mais modernamente falando,o que é um "transtorno mental". Em segundo lugar, se não se sabe definir com clareza uma entidade clínica (existe a esquizofrenia? respondo: claro que existe, sim, bem entendido, a experiência esquizofrênica...) como  saber a causa do que não se sabe com certeza o que é? Em terceiro lugar, se o diagnóstico é o lugar do conhecimento, ele é (ou deveria ser) o lugar do pensamento, o ato de pensar  sobre os  chamados transtornos mentais, e por extensão, sobre a saúde mental. Em quarto lugar, como o diagnóstico psiquiátrico surge no século XIX mediado pela moral ("ele está se comportando bem?"), atende a uma vontade de dominar, disciplinar, como bem mostrou Foucault. Daí o poder funciona de modo intrínseco ao enunciado psiquiátrico, sendo impossível escapar dos seus efeitos.

A.M.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Ritmos variados

Sabe, meu Cachoeiro, as coisas nem
sempre saem conforme o combinado.
Nessas ocasiões, apenas me lembro
que tenho um pinto enorme e tudo
parece um pouco melhor.
Os anos se passaram e pequenas
convicções se acumularam
num canto escuro do quarto.
Todos os boleros do mundo
soando juntos deveriam fazer
algum sentido, mas não fazem.

Bruno Brum

segunda-feira, 24 de junho de 2019

CLAUDIO ULPIANO - aula

LGBT VERSUS JAIR

No Brasil de Jair Bolsonaro, acontecem coisas que uma parte de seus compatriotas achava que já não existiam. “Há pouco, no aniversário da minha sobrinha, me chamaram de anormal. Foi uma amiga da minha cunhada”, conta, dolorida, a empreendedora social Isabel Marçal, de 37 anos, ao lado da esposa, a artista plástica Sofia Quevedo, 34. Exibindo bandeiras de arco-íris, elas vieram neste domingo à parada do orgulho LGBT de São Paulo após muitos anos de ausência. “Nunca, em 20 anos, eu tinha sofrido tanto preconceito”, afirma. A crescente hostilidade que sofrem em diversos âmbitos, do poder para baixo, levou o casal de novo às ruas. “Eles não vão tirar nossos direitos tão facilmente”, adverte Isabel no primeiro desfile da era Bolsonaro.
(...)

Naiara Galarraga Cortázar, El País, São Paulo, 23/06/2019, 17:40 hs
O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele.

Friedrich Nietzsche

domingo, 23 de junho de 2019

BUROCRACIA DO GOL

O fascínio que milhões de pessoas têm pelo futebol ...ah, por que será? porque ele é um jogo próximo da vida, da vida enquanto imprevisibilidade. Daí o mistério. Qual o nosso futuro? Qual será o resultado do jogo? Zebras. Cem mil fatores atravessam um jogo e talvez um único fator (sorte/azar por ex.) decida tudo, resolva tudo e conduza o time à vitória. Ou à derrota. O futebol, antes de técnica, é magia e arte. Traz o signo das intensidades do acaso ("por que aquela bola não entrou?") e cria, inventa a condição operacional para a técnica. A capacidade do craque é um dom. A técnica vem depois e fica por conta do treinador, do massagista, do médico,do fisioterapeuta, do professor de educação física e até do psicólogo (se houver). Um treinamento, portanto. O futebol, assim como a vida, não é justo. A mídia costuma recitar a frase banal: "nem sempre ganha o melhor". Ora, aí está a essência do futebol como surpresa,(alegria/tristeza) sem culpa ou julgamento mas celebração profana. Gooooooooll!!! Certo dia, como máquina intrusa, chegou o VAR para interromper/esfriar os fluxos de prazer da torcida (coito interruptus?) e assassinar a estética do erro.Tempos modernos.

A.M.

DENIS CHERNOV


traumas

tantos fatos
decorrentes
das correntes
da memória
são imbróglios
são algemas
que nos prendem
a nós próprios
e nos tornam
tão parados
e inativos

quanto as rochas


Líria Porto