terça-feira, 21 de maio de 2019

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogio


Manoel de Barros

segunda-feira, 20 de maio de 2019

TAURUS

O decreto assinado pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, que regulamenta o porte e posse de armas no país, possibilitará que qualquer cidadão possa comprar um fuzil.

A compra do fuzil passou a ser possível a partir da nova classificação estabelecida pelos responsáveis pelo decreto. No documento, se aumenta em até quatro vezes o valor do poder de fogo de armas que podem ser adquiridas pelos civis.

A nova classificação inclui o fuzil T4, uma arma usada por forças táticas militares e produzida no Brasil pela empresa Taurus.
(...)

Leslie Leitão e Paulo Renato Soares, Jornal Nacional,20/05/2019, 20:57 hs, atualizado há 20 min.

GLÓRIA FEITA DE SANGUE - direção de Stanley Kubrick, 1957

Talvez os poetas estejam certos. Talvez o amor seja a única resposta.

Woody Allen
SUBJETIVAÇÃO PSIQUIÁTRICA

(...)
Fiel às suas origens embrenhadas em relações de poder, a psiquiatria consiste numa forma  social ou forma de relação social que se propaga e se institui como subjetivação psiquiátrica. Isso atinge intensamente a todos os que  estão envolvidos  com a  problemática  do louco, inclusive  o próprio louco, que passa a se chamar “psicótico”. É importante frisar, de acordo com a definição institucional, que não nos referimos à psiquiatria apenas como organização visível ( o hospital) nem tampouco como dispositivo (o ato médico). Falamos da  psiquiatria  como  uma  forma  social tanto mais  abstrata  e  invisível quanto mais concreta  e incisiva nas suas práticas de subjetivação. Pensar  psiquiatricamente,sentir psiquiatricamente, perceber psiquiatricamente, agir psiquiatricamente etc. Há, pois, uma subjetividade psiquiátrica  que atravessa  segmentos não psiquiátricos no campo da saúde mental, como é  o caso da psicologia e demais saberes da área psi.
(...)

A.M.


Obs.: extraído do texto "o diagnóstico psiquiátrico e a clínica da diferença"

GEORGY KURASOV


Ofício

Constróis com empenho
teu artefato de sílabas.

Enuncias a noite
alcanças o feminino 
das coisas sem gênero
vagueias no campo branco
do que não se diz.

Relojoeiro, numismata
colecionador de conchas do mar
gastas o olho
e a alma 
nesse ofício minúsculo.

Tua ração é o tempo
o tempo e seu estandarte
de sustos
paisagem sem freios
à janela do trem.

Mas sabes: 
depois de tantos incêndios
luas novas e paixões
o que se aprende é bem pouco.

Bastaria dizer:
os espinheiros florescem
na varanda.


Carlos Machado

domingo, 19 de maio de 2019

Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.

Caio Fernando Abreu

O QUE É PENSAR?

Trabalhar com pacientes num Caps implica em sair das grades do manicômio, do ambulatório, do consultório, estes por sua vez marcados pela forma-hospício. Significa explorar linhas de multiplicidade, mesmo e principalmente no paciente identificado ao portador de transtorno mental. Há linhas não percebidas, talvez invisíveis. Pacientes registrados, cadastrados, codificados, rotulados sob o efeito de formas sociais (instituições) como a família, a clínica, a escola, o trabalho, o direito, o estado, a polícia, o casamento, entre outras, estão enfiados em buracos negros onde o devir-pensamento foi relegado a uma atividade cognitiva mínima, rasteira, como consta nos manuais psiquiátricos. Curso, forma, conteúdo, raciocínio, juízo, são categorias semiológicas usadas num exercício de mortificação do devir-pensamento. Elas compõem o mundo da  representação. Tornar o pensamento visível e frear a sua velocidade infinita é assunto e tarefa de psiquiatras torturadores e adquire na clínica atual o requinte das tecnologias de ponta. Subjacente à técnica, existe a crença de que o paciente não pensa, ou se pensa, é para responder qual o nome, que dia é hoje, onde estamos, que veio fazer aqui, etc. Insistimos no dado de que o pensamento não é só o que é falado, mas o que é experimentado via sensações, intensidades, afetos. A alma é o pensamento. O que muitas vezes não  pode ser dito, não chega a ser  dito, não consegue ser dito. Mas existe.
(...)

A.M.

sábado, 18 de maio de 2019

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen

ZECA BALEIRO - Bicho de sete cabeças

A LOUCURA, HOJE

O Movimento da Luta Antimanicomial nasceu junto às lutas políticas no período imediatamente pós-ditadura militar. Era 1987. Ele se alia à chamada reforma psiquiátrica e se conjuga ao projeto de implantação do SUS. Então, pensar a Luta hoje seria pensar sócio-políticamente a relação com o paciente.Uma perspectiva que nos conduz ao presente, justo quando forças conservadoras impregnam o país. Tais forças são poderes explícitos e/ou implícitos. O estado e a psiquiatria:  instituições avessas à loucura e daí à lógica antimanicomial.  Aliadas a outras instituições (escola, direito, polícia, família, etc) elas odeiam esse tipo de abordagem. Querem mais é medicalizar a vida, tamponar o desejo, racionalizar a existência e manter um status hegemônico. Assim, a figura sinistra do manicômio torna-se concreta na ordem subjetiva vigente; um muro. A luta antimanicomial é um ato de resistência contra os manicômios internos de todos nós.

A.M.
Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas.
(...)

Lygia Fagundes Telles

sexta-feira, 17 de maio de 2019

DMITRI DANISH


O OUTRO LADO

As linhas da existência se mostram lúgubres e humilhadas.Para onde quer que se olhe a grande esfera decadente vegeta em porões da alma. A boca é uma cloaca. Ela arrota a estrada sem rumo. No future. Este se corporifica em chagas invisíveis do corpo extenuado e imóvel num canto do quarto. A existência tece linhas duras, opacas, impossíveis de tocar como se toca uma vida. Um deserto sem fim estende seus campos alargados em veias exangues. O buraco da consciência engole tudo. Fica uma sensação de partida sem partir, de sofrer sem viver, de morte sem morrer. Terrível paradoxo escala os buracos de um rosto pétreo e imenso. Isso não faz piscar o olho encolhido no meio da noite. Silêncio! Ao contrário, a visão se congela e congela o nada. Já não mais se canta a canção livre da passarinhada. Limite zero, superfície rugosa e única, apocalipse, armegedom, fim de mundo. Mas eis que de repente, quase imperceptível, em esboço, um rosto de mulher... se avizinha.

A.M.
DUAS CARAVELAS

Meu amor, me beija
com a ternura deste dia azul

Lá fora
fiapos de nuvem rolam
e o marinho do lote ao lado
está verde, crescendo

Quase não sopram
os ventos 


Francisco Alvim

Claus Ogerman - It's Not Unusual

quinta-feira, 16 de maio de 2019

INVENTAR  O  CAPS

Enfocando o grupo técnico em saúde mental, teríamos: 1-Trata-se de fato de um grupo? 2- A que interesses atende? 3-Que concepções sobre a loucura norteiam o trabalho clínico? 4-Como se dá a comunicação entre os segmentos técnico-profissionais em relação ao paciente? 5-Qual o lugar da ética e da política nas ações práticas? 6-Quais os índices da medicalização consentida que ainda assola a equipe? Tentemos processar, em linhas gerais, cada um dos itens, usando uma hipótese de base: apesar da reforma psiquiátrica, a psiquiatria é um modo de subjetivação que ainda domina e controla os que lidam com o paciente. Existe, pois, o grupo técnico trabalhando sob uma espécie de transcendência psiquiátrica. "Tomou a benção aos médicos?" Esse dado tem origens complexas (que fogem ao objetivo desse artigo) e se expressa no lugar de poder da medicina. Contudo, desde que a psiquiatria oferece um arsenal de medicamentos contra os ditos transtornos mentais, o despotismo psiquiátrico é tolerado e por vezes louvado. Remédio não é um mal em si. O bom ou mau uso é quem decidirá. A questão é que esse "uso" surge como primeiro na avaliação psicopatológica, se é que ainda existe psicopatologia nas hostes mentais. Questão de poder: a verdade da psiquiatria passa a ser a verdade do paciente. Inversão da propedêutica médica. Medicar e depois diagnosticar, se possível. Assim, o transtorno mental surge na e da psiquiatria como seu objeto aparentemente legítimo. Cabe aos demais técnicos acompanhar o carro-chefe. Ou nada. Esse fato compromete o trabalho de grupo como um trabalho coletivo. Mas, afinal, de que objeto se trata? Transtorno mental já não seria alguma coisa fabricada pela própria psiquiatria?Transtorno mental é um conceito nominal. Não esclarece nada, não explica nada. Ele é que tem que ser explicado. Ora, se esse é o objeto da psiquiatria, não pode ser objeto da psicologia, da farmácia, da enfermagem ou de outros saberes. Então, partir da psiquiatria como proprietária do paciente é admitir que tudo, em termos de equipe e tratamento, gira em torno do significante hegemônico “psiquiatria” como centro de significação clínico-institucional. E por extensão, o seu objeto, o paciente. Parece que estamos girando num círculo de redundâncias. Como então constituir um grupo se um sujeito (a psiquiatria) instituiu há muito o seu objeto (o paciente) ? Ora, a grupalidade só pode ser obtida se houver uma des-hierarquização das relações intra-grupais. Um mesmo plano de trabalho e de afetos. Fora disso atolamos na burocracia técnico-administrativa. Então, esta é a primeira condição para um grupo de trabalho em saúde mental. Todos são iguais em suas diferenças. Em segundo lugar, a que interesses atende o grupo? Pode ser o interesse do Estado-patrão, sempre de olho na mídia e em possíveis desvios da normalidade jurídica e policial.  Ou o interesse da sociedade como um todo e o seu famigerado bom senso para saber como andam, como se comportam ("estão quietinhos?") seus loucos. Ao contrário, acreditamos que o grupo deve atender aos interesses da loucura. Entendemos esta como uma linha existencial libertária e avessa aos domínios e interesses do Estado, do Mercado, da Escola, do Direito, da Família e instituições conexas. A loucura, na verdade, não tem e não vive de interesses. Ela vive do desejo agenciado em praticas de mundo, é o puro desejo agenciado, contaminando produções subjetivas ao acaso dos encontros. Tal definição vive e se nutre no campo do impessoal. Portanto, não falamos do louco, mas da loucura que poderá se encarnar, aí sim, num suposto louco. Em terceiro lugar, o desejo está em toda a parte onde se trabalha com o louco. Ressoa a questão: que linhas o desejo percorre e escorre, ou, ao contrário, estagna, trava, impregna quando o louco se diz (ou dizem) que ele é louco? Por fim, em quarto lugar, a análise de um grupo técnico incide sobre práticas que o desejo impulsiona. É que a equipe técnica compõe-se de linhas do desejo e práticas coextensivas. Ela demanda uma autoanálise político-institucional incesssante das suas operações cotidianas. Para isso ser possível, usamos um método que traça a cartografia das produções desejantes num meio (ou conjugação) de determinações coletivas múltiplas. O meio é o método.Trata-se da subjetividade como modo de produção contextualizada. Devires, o conteúdo do desejo, processos de criação. Deste modo, evitar que o Caps reproduza o modelo biomédico, matriz da violência cientificamente autorizada e dos horrores registrados na história da psiquiatria, será possível?

A.M.


Obs.; publicado em 09/09/2017,  revisto e republicado. 

quarta-feira, 15 de maio de 2019

NAS REDES E NAS RUAS

Os cortes de verbas nas universidades públicas e o cancelamento de mais de 3.000 bolsas de pesquisa anunciados pelo Governo Federal no fim de abril desencadearam intensas manifestações de usuários nas redes sociais e começaram a movimentar as peças de um tabuleiro político virtual até então dominado por bolsonaristas. Desde que o ministro Abraham Weintraub disse que cortaria recursos de universidades que promovessem "balbúrdia" em vez de melhorar o desempenho acadêmico, no dia 30 de abril, o WhatsApp foi infestado por imagens e mensagens que ridicularizavam essas instituições, muitas delas de teor sexual. A ação foi orquestrada por grupos mais alinhados à direita, avaliam pesquisadores que monitoram manifestações políticas nas redes sociais desde as últimas eleições, quando o fenômeno mudou de escala no Brasil. Pela primeira vez, no entanto, essa rede de apoio ao presidente encontrou uma resistência mais forte, a partir de uma contranarrativa da comunidade acadêmica, que começou a compartilhar suas experiências pessoais e produções na universidade, principalmente pelo Twitter. A movimentação em torno do tema rivaliza com um debate mais antigo e também crucial para o Governo: o da reforma da Previdência.

Para os pesquisadores, trata-se de um índice não desprezível do movimento, que começa a confrontar a hegemonia virtual dos bolsonaristas e tem seu teste de força nas ruas nesta quarta-feira, nos diversos protestos marcados para acontecer todo o país em defesa da Educação e contra os cortes de verbas nas universidades federais. São mais de 7 bilhões de reais congelados em todos os níveis educativos, incluindo o não repasse de 30% do orçamento não obrigatório das instituições de ensino superior. A mobilização cresceu na esteira da greve nacional de um dia já convocada por professores contra a reforma previdenciária e a organização das manifestações não está apenas nas redes sociais, mas também nos tradicionais espaços de mobilização, como sindicatos e assembleias universitárias. Os partidos políticos, porém, têm se mantido comedidos até agora, ainda que apoiem os atos, numa tentativa de criar uma rede de coalizão e atrair novos atores em um momento político que segue marcado por uma forte polarização. A movimentação ganhou a esperada adesão da UNE (União Nacional dos Estudantes), mas também endossos menos óbvios, como das principais universidades estaduais de São Paulo (USP, Unicamp e Unesp) e de uma série de colégios particulares da capital paulista, a maior cidade do país.
(,,,)

Beatriz Jucá, El País, São Paulo, 14/05/20'9, 22:51 hs

terça-feira, 14 de maio de 2019

E agora o que fazer com essa manhã desabrochada a pássaros?

Manoel de Barros

ANNA RAZUMOVSKAYA


Foi quando eu senti, mais uma vez, que amar não tem remédio.

Caio Fernando Abreu
PAIXÃO DAS ARMAS

Não acredito que exista hoje, em um país democrático, um líder político com uma paixão tão mórbida e desenfreada pelas armas como o presidente brasileiro, o capitão reformado Jair Bolsonaro. Desde que chegou ao poder, há pouco mais de quatro meses, nenhuma outra categoria de pessoas foi mais favorecida por seus decretos do que aquelas que se sentem atraídas pelas armas.
Em seu último decreto, provavelmente inconstitucional, não só concedeu a possibilidade de possuir e portar armas a 19 milhões de brasileiros, de 20 categorias diferentes, como também abriu as comportas para dar essa possibilidade a milhões de "menores de 18 anos ", para que possam ser treinados no uso de armas letais em clubes de tiro. Um presente envenenado que não sabemos que consequências pode acarretar em uma sociedade como a brasileira, cujos adolescentes vivem no fogo cruzado de uma violência que os alcança até nos bancos escolares.
(...)

Juan Arias, El País, 14/05/2019, 15:11 hs

segunda-feira, 13 de maio de 2019

um   pouco  de  ar
senão eu  sufoco
deleuze  respira

respira  deleuze
esta  canção  doce

e  infernal


A.M.
INVENTAR  CONCEITOS

Depois de meia vida dedicada ao ensino, um professor de Filosofia argentino que gostava de usar métodos heterodoxos para que a matéria “gerasse erotismo, desejo, vontade de se envolver”, recebeu uma encomenda de uma de suas alunas de pós-graduação. Ela trabalhava em um novo canal de televisão e lhe propôs desenvolver um programa sobre filosofia (Mentira la Verdad, que já tem 52 capítulos). “Foi aí que tudo explodiu”, diz Darío Sztajnszrajber (Buenos Aires, 1968) na Casa de América, em Madri, onde, depois de tirar a jaqueta o jornalista descobre que usava uma camisa preta com uma gola branca, como se fosse um colarinho clerical. O homem que tirou a filosofia da sala de aula e provocou um boom filosófico na Argentina fala sobre seu best-seller, Filosofía en Once Frases, no qual, de Sócrates a Marx, propõe através de uma trama romanesca uma viagem (“ou uma desconstrução”) pela história da filosofia.
(...)

Jorge Morla, El País, Madri, 12;05;2019, 21:57 hs

domingo, 12 de maio de 2019

BEEG GEES - Too Much Heaven (1979)

UMA REALIDADE INCÔMODA

Já que você e eu estamos agora mesmo neste jornal, cabe supor que concordaremos em algumas apreciações. O cara é um tosco insuportável, um ególatra desenfreado, um mentiroso patológico. Até aqui, estamos de acordo, não? Ignora a mudança climática e até se alegra com o derretimento da calota polar, despreza os imigrantes, odeia a imprensa que o critica, pratica um nepotismo ridículo e confunde seus interesses pessoais com os do país. Continuamos em sintonia? Diria que sim.
Ressaltemos que esse homem pode provocar uma catástrofe a qualquer momento e que não sabemos como acabará sua queda de braço comercial com a China. Dito isso, vamos encarar a outra parte da realidade. Sob a presidência de Donald Trump, os Estados Unidos recuperaram uma prosperidade típica dos felizes anos sessenta. Quase não há desemprego, a economia cresceu mais de 3% no primeiro trimestre, a inflação segue baixa, os salários aumentaram e o declínio industrial foi contido.
Sim, claro, você dirá. Mas isso está sendo conseguido com um monstruoso endividamento público e um alarmante déficit orçamentário. É fato.
(...)

Enric González, El País,11/05/2019, 16:00 hs
ESTUDO CLÍNICO DAS PSICOSES - III

As psicoses são reconhecíveis pelo delírio. Mas, atenção: o delírio nas psicoses se constitui como sentido. Desse modo, ultrapassa a dimensão do sintoma (elemento da semiologia médica) em direção a uma produtividade subjetiva incompatível com o meio social e com a percepção moral. Tanto é verdade que os quadros ditos negativistas (quando o paciente não fala, não responde, não obedece...) respondem mal ao uso de psicofármacos ou simplesmente não respondem (não melhoram). Sinal de que há algo mais que o sintoma. A psiquiatria biológica chama isso de sintoma negativo. Quem trabalha numa equipe de saúde mental sabe como é difícil se aproximar de um "sintoma negativo". O essencial a reter é o fato de que o delírio não necessita ser dito verbalmente, já que ele pode ser dito não verbalmente, como o jeito de olhar, de andar, de rir, por exemplo. As psicoses, conforme uma psiquiatria da diferença ou de uma diferença na psiquiatria, produzem uma semiótica desconcertante (regime de signos) que só será acessada mediante o uso de recursos técnicos fora da psiquiatria. Isso não invalida, ao contrário, o uso da medicação antipsicótica. Antes, estabelece a psicofarmacologia como um instrumento terapêutico cujo valor estará condicionado a uma postura ético-política de quem atende, de quem cuida. Infelizmente, há um muro na clínica das psicoses. É que o problema essencial, a má formação "congênita" da psiquiatria biológica é a sua adesão inconfessa a um positivismo cientificista raso e danoso para o paciente enquanto ser vivente capaz de autonomia existencial. Considerando-o objeto inerte e passivo (e perigoso) tal psiquiatria, claro, está instalada em seu próprio território de poder, e daí obtém resultados terapêuticos de abominável controle sobre as mentes, inclusive as dos próprios psiquiatras. E a sua que me lê agora.


A.M.


Obs.: texto publicado em 12/02/2019, revisado e republicado.

EMIL NOLDE


sábado, 11 de maio de 2019

onde anda a política
que muda?
onde  anda a muda
que floresce?


A.M.
QUANTO FALTA

Ao final, haverá um longo rastro de descuidos como animais esmagados. Começa pela comida. Um dia, quando ele voltar tarde do trabalho, vá dormir sem deixar o jantar pronto para ele, uma alteração no hábito de todos esses anos durante os quais, sempre que ele chegou tarde, você deixou comida feita. Nessa madrugada, quando ele se enfiar na cama, acorde e se lembre de como, até recentemente, quando isso acontecia você o abraçava como se tivesse fome ou sede. Agora lhe diga: “Vira de lado pra não roncar”. De manhã, na hora do café, pergunte a ele — tentando que na sua voz se note um incômodo inexplicável — o que ele jantou. Escute como ele responde sem rancor, genuinamente distraído: “Belisquei um troço no trabalho. Tava sem fome”. Sinta fúria e cansaço. Prepare café só para você, e não lhe ofereça. Uma semana depois, esqueça o dia do aniversário dele. Lembre-se no último momento e diga irritada para si mesma: “Tenho que comprar alguma coisa para ele”. Interrompa o que está fazendo. Vá ao shopping. Sinta, enquanto compra, que está perdendo tempo. Recorde a felicidade iridescente que lhe produzia, anos atrás, planejar o presente, escrever o cartão. Escolha algo, enfadada. Ao pagar, sinta que está desperdiçando seu dinheiro. Já em casa, escreva, em um papel usado: “Feliz aniversário!”. Deixe o presente sobre a mesa, de qualquer maneira. Pense: “Quando chegar vai vê-lo, não vai ser uma surpresa”. Pense: “E daí?”. Um dia, perceba que ele já não tem xampu, nem creme de barbear, nem o queijo de que gosta. Quando for ao supermercado, não compre nada disso. Pense: “Ele que compre”. Uma tarde ele dirá: “Estou com dor no pescoço”. Não se disponha, como sempre, a lhe fazer uma massagem. Diga-lhe: “Tomou ibuprofeno?”. Perceba que já faz meses que ele não a chama –“Amor, cheguei!” – ao entrar na casa. Pense: “Melhor”. Pergunte-se quanto falta.

Lelila Guerriero, El País,10/05, 21:56 hs

sexta-feira, 10 de maio de 2019

SOBRE A DIFERENÇA

Pergunta-se o que é a diferença.  A diferença não é o indivíduo, não é a pessoa, não é algo fixo e estável onde se possa ancorar o corpo e a alma exaustos. Nem tampouco ver, assuntar, medir, pesar, adjetivar, qualificar. Ela não é do campo do substantivo nem do adjetivo, nada tem a ver com alguma substância dura, pétrea, imóvel, formatada em ideais de valor de troca. Nada a ver com a troca, pilar e essência do capital em seu cortejo mortuário. Ela não é o ser-diferente, até porque não há o ser. Não é o estranho-em-nós. Já somos de antemão  e suficientemente estranhos, estranhos a nós e ao mundo. Não há cálculos para identificá-la. Quando há, dão sempre errado, as contas não fecham, tudo se frustra e se decompõe. Ao inverso e bem mais além aqui mesmo, há somente corpos, corpos de corpos, corpos no interior de corpos, devires, processos, passagens, relãmpagos, vertigens, intensidades, frêmitos, respirações, ardores, ardências, viagens anômalas no mesmo lugar. Da diferença não se alimenta o narcisismo porque também não existe o narcisismo num universo terráqueo, o dela, este sim, verso encantado, encantador e cantador em estradas desertas. A diferença é o bicho. Não tem forma, não é identificável pela percepção de representações exatas ou imagens-clichês. A diferença é o bicho na espreita. Percorre o mundo em linhas finas de sensibilidade. Com delicadeza foge de todos os dualismos, de todos os títulos, de todos os senhores, de todas as pátrias, de todas as pretensões e boas intenções da racionalidade, da consciência e do pensamento da autoridade, mesmo a mais admirável e mansa. Brinca com o poder, com a morte e com o amor. Faz disso a própria natureza do seu percurso invisível e silencioso pelos caminhos desconhecidos do encontro. Composta de multiplicidades ingênuas e  encravada na irreversibilidade do tempo, se tece e se faz inglória e pura. Mas quem a suporta?

A.M.
Árvore 

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,
envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros
E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com muitas borboletas.


Manoel de Barros

Nederlands Dans Theater (NDT)

(...) 
Vivemos em um mundo desagradável, onde não apenas as pessoas, mas os poderes estabelecidos têm interesse em nos comunicar afetos tristes. A tristeza, os afetos tristes são todos aqueles que diminuem nossa potência de agir. Os poderes estabelecidos têm necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos. O tirano, o padre, os pastores, os gurus, os tomadores de almas, têm necessidade de nos persuadir que a vida é dura e pesada. Os poderes têm menos necessidade de nos reprimir do que de nos angustiar, ou, como diz Virilio, de administrar e organizar nossos pequenos terrores íntimos. A longa lamentação universal sobre  a vida: a falta-de´ser que é a vida... Por mais que se diga "dancemos", não se fica alegre. Por mais que se diga "que infelicidade a morte", teria sido preciso viver para ter alguma coisa a perder. Os doentes, tanto da alma quanto do corpo, não nos largarão, vampiros, enquanto não nos tiverem comunicado sua neurose e sua angústia, sua castração bem amada, o ressentimento contra a vida, o imundo contágio.
(...)

G. Deleuze e C. Parnet in Diálogos

terça-feira, 7 de maio de 2019

magia

tão pequenino o ipê
tão carregado de sonhos
de responsabilidades
que levar flores ao colo
com tempo seco
é milagre



Líria Porto 
SEM ALMA? NÃO LHE AVISARAM...

Lembro-me de um truque, particularmente cruel, que certa vez fiz com uma vespa. Ela estava sugando a geléia em meu prato, e eu a cortei no meio. Não prestou a menor atenção, mas simplesmente seguiu com sua refeição, enquanto um fino fluxo de geléia escorria de seu estômago partido. Somente quando tentou voar, deu-se conta do terrível fato que lhe tinha acontecido. O mesmo acontece com o homem moderno. Aquilo que lhe foi cortado é sua alma.

George Orwell

segunda-feira, 6 de maio de 2019

ANNA RAZUMOVSKAYA


A RESPOSTA

Mais de mil acadêmicos de universidades de todo o mundo assinaram nesta segunda-feira um manifesto contra a eventual redução de recursos para as faculdades de Filosofia e Sociologia. O texto foi uma resposta de pesquisadores e intelectuais à defesa de cortes na área das Ciências Humanas feita pelo presidente Jair Bolsonaro na última semana.
(...)

Audrey Furlaneto, G1, 06/05/2019, 20:24 hs
Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno.

Caio Fernando Abreu

domingo, 5 de maio de 2019

PALESTINA VERSUS ISRAEL AD AETERNUM

neste domingo, 5

O corpo inteiro
é um tabuleiro
de jogar jogos de azar
As costas quadriculadas
As coxas quadriculadas
A boca quadriculada
Onde eu me finjo
de dama


Ana Elisa Ribeiro
Não se pode ser infeliz, não se pode morrer em vida, não se pode desistir de amar, de criar. Não se pode: é pecado, é proibido (...) Não é possível adiar a vida.

Caio Fernando Abreu

sábado, 4 de maio de 2019

DELEUZE E NÓS

Se há um nós no meio de certo filósofo é porque seu pensamento conceitual continua capaz de atrair interferências.
Esse título é plágio da fórmula “Espinosa e nós”, presente em um pequeno texto escrito por Gilles Deleuze (1925-1995) em 1978, retomado em 1981, no final de seu Espinosa – Filosofia prática. A fórmula era assim entendida: “Nós no meio de Espinosa.” E se há um nós no meio de certo filósofo, no meio das vagas e labaredas de suas obras, é porque seu pensamento conceitual continua capaz de atrair nossas interferências, justamente por força de tudo que acontece em seu meio. Evidentemente, esse nós não sugere unanimidade intelectual ou de sentimentos. No mínimo, é um plural de convergências e divergências dos mais diversos matizes. E cada um desse nós, aventurando-se como pode, retoma a pergunta: que acontece no meio de Deleuze?
Acontecem afetos afirmativos, sente-se no rosto um novo frescor e novos ardores, nova maneira de termos encontros até inocentes com o pensamento, sem o cultivo da morte da metafísica ou do fim da Filosofia. Nesse meio, evitamos o hábito do obituário e a presunção dos transcendentes. Por que esse meio de Deleuze nos livra disso e mantém viva uma interessante possibilidade do pensamento filosófico? Não só pela perspicácia, pelo humor e até beleza de muitos dos seus textos, e nem apenas pelo aspecto saboroso de alianças que ele estabelece ao longo de uma quebradiça história da Filosofia. Sim, história quebradiça, porque, ao invés de condenada a blocos da monotonia cronológica, essa história pode ser aberta a viagens plenas de vigor, tão rigorosas quanto intensas. E quando ela se abre assim nesse meio? Quando o pensar se sente tomado por uma dramaturgia de idéias, por um problemático jogo de forças desterritorializantes, forças que se exercem como seleção e recriação de horizontes conceituais que pulsam nos grandes ou pequenos sistemas filosóficos. Sente-se isso no meio de Deleuze, seja por leve inspiração indireta, seja quando o acompanhamos diretamente em suas curtas ou longas estadas o obrigando a pensar. É que, em vez de pensar sobre isto ou aquilo, esse meio deleuzeano nos faz experimentar a necessidade de pensar com, postura que leva o conceito não à presunção de comandar, mas à tarefa de se determinar com aquilo que ele determina, postura que vai esculpindo as condições necessárias para que as idéias se sintam bem a serviço da expressividade do caso, do acontecimento, das questões, dos problemas, das frases alheias, desta ou daquela singularidade. É o que se pode notar até mesmo em um breve esboço dos grupos de escritos aí encontrados.
1. Com efeito, nesse meio, a escrita nos leva a passear com novos olhos por paisagens conceituais que julgávamos fixadas em estudos certamente relevantes, mas não únicos. E eis que ganhamos um novo Hume com Empirismo e subjetividade (1953), livro que nos remete à idéia de um empirismo superior, graças a relações exteriores aos termos relacionados. Ganhamos um novo Proust com Proust e os signos (1964; 1970), no qual, ao invés do apego ao passado empírico, o que se enreda em mundos de signos a serem desvendados é o aprendizado de um homem de letras.
2. E mais: ao lermos Nietzsche e a Filosofia (1962), e até o pequeno Nietzsche (1965), além do decisivo Espinosa e o problema da expressão (1968), assim como a retomada do pequeno Espinosa (1970) em Espinosa – Filosofia prática (1981), o que vemos conceitualmente justificado é a junção Nietzsche-Espinosa como guerreiros afirmativos, desses que combatem por uma vida eticamente valorizada e não moralmente depreciada. E não seria abuso juntarmos a essa dupla o nome de outro guerreiro, François Châtelet, a quem Deleuze, em Péricles e Verdi – A filosofia de François Châtelet (1988) presta uma digna homenagem ao ativar o conceito de combate na imanência.
3. Os incorporais dos estóicos ganham efervescente operatoriedade em Lógica do sentido (1969), dimensionam a idéia de acontecimento nesse livro, que também nos reanima quanto a Epicuro, a Lucrécio. Compreende-se a coloração bergsoniana desse meio com a leitura das linhas de diferenciação já armadas em O bergsonismo (1966). E como que aplicando uma crítica de Bergson a mistos mal compostos, encontramos importante desmontagem do misto denominado sado-masoquismo em Apresentação de Sacher-Masoch (1967).
4. Em outro cruzamento de latitudes e longitudes desse meio deleuzeano, uma nova explicitação conceitual da dobra barroca nos surpreende em A dobra – Leibniz e o barroco (1988). E boa surpresa reaparece nessa mesma obra, por força da idéia de acontecimento: reencontramo-nos com o conceito de ocasião atual, de Whitehead. Há toda uma variação de perspectivas que se acumulam nesse cruzamento. Com efeito, pouco antes, Deleuze publicara seu benquisto e conhecido Foucault (1986). Nesse cruzamento de atenções, está em pauta a questão das combinações das forças atuantes no homem e das forças do fora. Se, com Leibniz, nossas forças se combinam com aquelas de elevação ao infinito sob a forma-Deus, o problema que agora se coloca já não é esse, e nem mesmo aquele que consiste em submeter à forma-Homem as relações entre nossas forças e as que configuram nossa finitude na vida, no trabalho e na linguagem. O problema que se impõe a ambos é o da dissolução da forma-Homem por efeito de outra composição: as forças atuantes no homem combinam-se com forças de ilimitação do finito, aquelas que potencializam a produção de combinações praticamente ilimitadas de conglomerados finitos de componentes. É fácil notar uma das linhas favorecidas por esta combinação: a linha de proliferação dos controles na sociedade.
5. Mas nossas viagens por esse meio não param aí. Encontramos inovações na maneira pela qual, em Superposições (1979), são conceitualmente pensadas as operações com que Carmelo Bene cria seu teatro menor. Em O esgotado (1992), por sua vez, é com Samuel Beckett que nos encontramos, um Beckett que obriga Deleuze a distinguir conceitualmente o esgotado (que desliza por disjunções inclusivas) do fatigado (que pratica o jogo das disjunções exclusivas): enquanto o fatigado só esgotou a realização e já nada pode realizar, o fatigado esgota todo o possível e nada mais pode possibilitar, coisa que lhe ocorre de várias maneiras. Há uma intensidade no esgotamento, assim como, na pintura de Francis Bacon, há intensidade na dissipação da imagem. Essa pintura é acompanhada em Lógica da sensação (1984), obra que tematiza a passagem da matéria-forma à matéria-força.
6. Visitamos também o cinema e a literatura. Mas não para falar sobre este ou aquele filme, sobre este ou aquele romance. Com o socorro de filmes, de estudos dessa arte, dos que pensam a respeito do seu trabalho cinematográfico, trata-se de elaborar conceitos do cinema, isto é, de discriminar seus signos e de pensar relações constitutivas dessa arte em suas variações decisivas. É o que lemos em Cinema 1: imagem-movimento (1983) e em Cinema 2: imagem-tempo (1985). Além do cinema, há muita literatura conceitualmente pensada nesse meio deleuzeano. É o que ocorre no livro escrito por Deleuze em companhia de Félix Guattari, Kafka – por uma literatura menor (1975). Neste livro, certas noções ganham duradoura consistência, como a de agenciamento, a de devir imperceptível, de máquina social etc. E nele também aprendemos que fazer fugir é muito mais que criticar. Essa auto-exigência deleuzeana é praticada justamente em Crítica e clínica (1993), uma vasta reunião de textos, muitos dedicados à escrita literária: crítica, como traçado do plano de consistência da obra, e clínica como traçado de linhas sobre esse plano; o delineamento do bebê como combate, o de uma lógica extrema sem racionalidade, o da avaliação imanente, o dos cristais do inconsciente etc.
7. Esse meio ainda se abre à prodigiosa multiplicidade de outros recantos, como aqueles em que se reúnem os mais variados textos e entrevistas: Diálogos (1977; 1996), escrito com Claire Parnet; Conversações (1990), A ilha deserta (2002); e Dois regimes de loucos (2003), coletâneas extremamente importantes para quem se interessa pelas múltiplas facetas teóricas e práticas dos debates culturais e políticos contemporâneos.
8. Não apontamos ainda outros acontecimentos que duram nesse meio deleuzeano graças à colaboração havida entre -Deleuze e Guattari: uma nova teoria do desejo em O anti–Édipo (1972), desejo não mais marcado pela falta, mas por uma produtividade coextensiva ao meio natural-social-histórico; um vasto e complexo inconsciente espinosano distribuído em planos intensivos em Mil platôs (1980); e nova concepção do que seja ou deva ser a própria Filosofia. Sim, o meio deleuzeano é um convite para que estejamos atentos a relações de ressonâncias com outros domínios, relações não hierárquicas entre filosofias, ciências e artes, a respeito da Ética e dos combates na imanência pela dignificação do viver…
É claro que esses oito itinerários pelo meio Deleuze poderiam ser multiplicados. O que nos obriga a perguntar: seria esse meio o de uma dispersão de temas meramente justapostos ou, ao contrário, submetidos a um modelo interpretativo? Nada disso. Nele, qualquer coisa pode forçar o pensamento filosófico a cumprir sua única tarefa: a de sentir e pensar conceitualmente o jogo problemático constitutivo da coisa em seus encontros, o jogo que envolve a diferença e o problema em pauta a cada caso. Tarefa difícil e tematizada de modo exemplar em Diferença e repetição (1968). É que, a cada instante, o pensamento recai em um jogo antigo, o jogado entre quatro paredes da representação: a identidade do conceito, a analogia do juízo, a oposição dos predicados e a semelhança do percebido. Como subverter este jogo a cada instante? Tarefa difícil, para a qual o meio deleuzeano conta com uma proposição ontológica irredutível a receituários metodológicos: na experiência real dos encontros, todo e qualquer ente se diz univocamente como correspondências problemáticas entre diferenciações virtuais e diferenciações atuais. Assim, a problemática da diferença ganha uma nova imagem do pensamento filosófico.

Luiz B. L. Orlandi

O MEDO DEVORA A ALMA, direção de Rainer W. Fassbinder, 1974

SISTEMAS ECLESIAIS

A Assembleia geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não é o único evento que movimenta o centro de convenções da Basílica de Aparecida, no interior de São Paulo. Enquanto 309 bispos da ativa e 171 eméritos se reúnem para traçar os destinos da Igreja Católica no país, um grupo seleto de 20 empresas organiza uma feira de negócios voltados exclusivamente para os católicos.

"Esse é o nosso Natal", afirmou Rogério Rodrigues, gerente comercial da Theos, companhia fundada em Maringá (PR) em 1998 e que trabalha com "sistemas eclesiais" para a administração de igrejas. A empresa tem entre seus clientes seis mil paróquias, 132 dioceses, cujos fiéis compõe uma base de dados com a marca de 45 milhões de dizimistas ativos, quantidade que supera o número de correntistas de grandes bancos. Apesar da magnitude dos números, Rodrigues e seus colegas de feira evitam falar sobre o volume de dinheiro movimentado durante os dez dias de evento.

Segundo Rodrigues, o pagamento do dízimo e de ofertas pode ser feito por meio de um aplicativo de celular. A empresa agora aposta na implementação de maquininhas para o recebimento do dízimo. E, segundo o gerente, há ainda espaço no mercado para expansão:

"A nossa meta é chegar a 150 dioceses. Como os padres e bispos têm obrigações fiscais, ter um software de gestão hoje se tornou necessário para os clérigos. Nosso sistema abrange desde a gestão contábil, folha de pagamento de clérigos e de funcionários civis e até a questão canônica pastoral, como a organização de documentos (certidões de crisma, batismo e matrimônio)",  afirma Rodrigues.
(...)

Gustavo Schmitt e Henrique Gomes Batista, Época, 03/05/2019,20:35 hs
SE TANTO ME DÓI QUE AS COISAS PASSEM

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem


Sophia de Mello

NIKITA MANOKHIN


A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES

Qual é o valor da palavra? Esse foi um dos principais questionamentos que fizeram a roteirista Maria Camargo escrever as histórias de mulheres que foram vítimas de abusos sexuais cometidos por um médico renomado. Inspirada no livro A Clínica - a farsa e os crimes de Roger Abdelmassih, de Vicente Vilardaga, ela escreveu a série Assédio, a primeira série da Globo desenvolvida exclusivamente para a plataforma digital da emissora —onde começou a ser exibida há sete meses— e que estreia na televisão aberta nesta sexta-feira (03/05), com o total de 10 episódios. "Eu conhecia a história do 'médico monstro' que estuprou não sei quantas pacientes, mas sabia muito pouco sobre essas mulheres, só tinha lido alguns depoimentos. Quando li a contracapa do livro, intui que elas tiveram uma participação muito forte na condenação dele e percebi que essa história me interessava, a história das mulheres que foram além desse papel de vítimas", conta Camargo em entrevista a EL PAÍS.
"Nos casos de crimes de cunho sexual, é uma constante o argumento de 'é minha palavra contra a sua'. Mas quando você tem diversas mulheres contando a mesma coisa, esse relato ganha outra forma. E, hoje em dia, o relato tem, sim, muitas vezes, o valor de prova", continua a autora. Roger Abdelmassih, de 75 anos, especialista em reprodução humana e um dos pioneiros da fertilização em laboratório no país, foi preso e condenado a 181 anos de prisão por abusar sexualmente de suas pacientes enquanto elas estavam sob efeito de sedativo. A primeira que o denunciou contou sua história em 2009, mas só teve o registro cassado em 2011.
(...)

Joana Oliveira, El País, Rio de Janeiro, 03/05/2019, 21:45 hs

sexta-feira, 3 de maio de 2019

DELÍRIO MODERNO

No exame clínico-psicopatológico é possível que o delírio não seja notado. O paciente conversa "normalmente", articula bem a sintaxe, entende o que se diz e se faz entender, expressa um discurso congruente, organizado. No entanto, delira. Isto ocorre, grosso modo, nos casos de psicoses graves sem desorganização mental e sem perda da capacidade de autonomia social. É que, segundo o senso comum das sociedades (e seu fiel parceiro, o bom senso), o delírio tende a ser percebido quando incomoda. Quer dizer: quando o sujeito se torna agressivo em demasia, irracional, violento, estranho, improdutivo, fora dos códigos sociais, incapaz de resolver até mesmo pequenos problemas, aí sim, lhe chega a pecha de insano, talvez inválido. Este dado reforça a tese de que "todos podem delirar" desde que não desarrumem os fluxos afetivos dos códigos sociais. Dir-se-ia: não tragam a desordem e não inventem uma semiótica potente. Que fiquem no seu canto (pode ser o manicômio) ! Entretanto, é de notar que muitas instituições (o Estado e seus estadistas paranóicos...) deliram e fazem delirar no âmbito coletivo de um funcionamento subjetivo razoável.  A calamidade da guerra atravessa a história humana e é aceita como fato natural. Não há delírio nos motivos que a legitimam. E o que dizer da religião, do direito e da escola? A escravidão até já foi legal. Numa avaliação psicopatológica o delírio pode estar encapsulado por crenças que compõem modos subjetivos de viver, mesmo que tal vida expresse a destruição in concert como no Brasil atual. Assim, o exame psiquiátrico do paciente-indivíduo é, ao mesmo tempo, um exame da sociedade em que ele se insere e ao mesmo tempo o produz como vassalo moderno. O delírio é social antes de ser individual. 

A.M.

A cidade desejante 

As lojas estão fechadas
Os passos sumiram das escadas
Os carros desalojaram as ruas
Não se respira no caule das torres envidraçadas

(A poesia pura
perpendicula
nos varais e fios de alta tensão
A poesia grita
na pausa dos postes
sussurra 
ouvido colado ao chão )

Corpos desejantes na cidade muda
assistem à lenta morte como um arrebol.
Emulam a gama de gritos e cores
como se deles fossem
as gargantas decepadas dos dias.

A cidade grafita encena 
nos muros 
seu desejo de fêmea:
que a última
foda venha
queira 
seja 
a posse do 
poema.

Susanna Busato
Nunca discutas com um idiota. Ele arrasta-te até ao nível dele, e depois vence-te em experiência.

Mark Twain
A REDE REAGE

A Rede Sustentabilidade apresentou uma ação ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra o corte de 30% no orçamento de universidade federais anunciado nesta semana pelo governo do presidente Jair Bolsonaro. O pedido foi protocolado nesta quinta-feira (2).

A ação, um mandado de segurança, foi sorteado ao ministro Marco Aurélio Mello. Cabe a ele decidir se suspende ou não a determinação do governo federal.

Na última terça-feira (30), o Ministério da Educação (MEC) anunciou o corte de verbas de três universidade federais, mas não indicou o motivo. A Universidade Federal Fluminense (UFF), a Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade de Brasília (UNB) foram as primeiras terem o orçamento bloqueado em 30%.

No mesmo dia, o MEC estendeu a determinação para todas as universidades e todos os institutos do país. A rede federal inclui mais de 60 universidades e quase 40 institutos em todos os estados do Brasil.

Em entrevista ao jornal "Estado de S.Paulo", o ministro da pasta, Abraham Weintraub, disse que "universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas. A lição de casa precisa estar feita: publicação científica, avaliações em dia, estar bem no ranking”.

Na ação, a Rede pede que o ministro da Educação “se abstenha” de promover o corte nos orçamentos das universidades. Caso a medida já tenha sido tomada, o partido pede a suspensão deste bloqueio.

“Assim, percebe-se que, se tratando de ato vinculado na forma, e de motivação obrigatória, não poderia o Ministro proceder a tais cortes de forma absolutamente discricionária, sem a exposição dos motivos respectivos e a da fundamentação atuarial ensejadora desta necessidade de limitação de empenho”, diz o partido na ação.
(...)

Luiz Felipe Barbiéri, G1, Brasília,03/04/2019, atualizado há 5 hs

Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivete Sangalo - O Meu Amor

EFEITO DE CONTÁGIO?

Desde que a Netflix estreou a série 13 Reasons Why, em que um adolescente grava em 13 fitas as razões pelas quais decide tirar a própria vida, a controvérsia sobre o possível efeito de contágio nos mais jovens está presente. Um estudo recente alimenta os argumentos dos críticos: no mês seguinte à estreia nos Estados Unidos, em 31 de março de 2017, os suicídios na faixa dos 10 aos 17 anos aumentaram 28,9% em todo o país. Embora os próprios autores alertem que não se pode estabelecer uma relação de causalidade, duas especialistas consultadas apontam para o perigo de a mídia apresentar o suicídio em termos idealizados: é importante falar do suicídio, sim, mas em termos de prevenção e encorajando os adolescentes nessa situação a buscar ajuda.

O estudo, publicado na segunda-feira no Journal of American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, parte dos dados coletados pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) entre 2013 e 2017: foram 180.655 mortes por suicídio nos EUA, divididas em grupos etários. Depois de eliminar o fator da sazonalidade (ocorrem mais casos na primavera e no outono), eles descobriram que a taxa de suicídio entre 10 e 17 anos aumentou em abril de 2017 para 0,57 por 100.000 pessoas, 28,9% a mais do que a previsão criada com base nas cifras dos anos anteriores.

É a taxa mais alta de qualquer mês dos cinco anos estudados. Depois desse pico, taxas significativamente mais altas foram registradas em junho e dezembro de 2017. A média antes da estreia da série era de 116,29 suicídios de adolescentes por mês (0,35 por 100.000 pessoas) e a dos meses seguintes é de 149,56 casos por mês (0,45 por 100.000).
(...)

Cecilia Jan, El País, Madri, 02/05/2019, 10:40 hs
Eu soube, enfim, que o amor está ligado a mim;
E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.
Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,
Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.

Rumi

Subject to Change - Sol León & Paul Lightfoot (NDT 1 | Sol & Paul XXX)

MIA NO BRASIL

Antes de aprender a ler livros, Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955) aprendeu a ler a terra. A grande diversão de seu pai, um poeta que teve que exilar-se de Portugal devido a perseguições políticas, era passear com os filhos ao longo da linha do trem para buscar pequenas pedras brilhantes no meio da poeira. "Ele ensinou-nos a olhar para as coisas que pareciam sem valor. E, sem nunca nos obrigar a ler, ensinou-nos a ler a vida", conta António Emílio Leite Couto —Mia é um pseudônimo— em uma sala de reunião de um arranha-céu de São Paulo. Com uma camiseta azul (um tanto amassada) da mesma tonalidade de seus olhos e uma calça jeans, o escritor parece haver caído de repente no espaço onde, no recinto ao lado, homens e mulheres em blazers e paletós discutem negócios. Por vezes, as vozes do grupo elevam-se, ainda que sutilmente, mas o suficiente para contrastar com o tom monocórdio e pausado do escritor moçambicano, que, em sua fala tranquila, constrói elucubrações literárias e metáforas a cada segundo.
(...)

Joana Oliveira, El País,02/05/2019, 11:27 hs
Que as forças do mal fiquem confusas no caminho para sua casa.

George Carlin

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Lagryma negra

Aperte fortemente a penna ingratta
entre os dêdos nervosos e trementes,
e os versos jórram, claros e estridentes,
n'uma cascata, n'uma cataracta!


Escrevo, e canto cânticos ardentes,
enquanto dos meus olhos se desata
uma fiada de lagrymas de prata
como um collar de pérolas pendentes...


Eu canto o soffrimento, a ancia incontida
de amor, que é a maior ancia desta vida,
- vida a que a Humanidade se condemna!


E todo o meu sofrer, todo, se pinta
n'este pingo de dor -- pingo de tinta,
lagryma negra que me cáe da penna.



Dante Milano

ANNA RAZUMOVSKAYA


A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar.

Sun Tzu
POR TRÁS, A CASA BRANCA

Ainda que o governo brasileiro repita que a probabilidade de o Brasil se envolver em uma ação militar para derrubar o regime Nicolás Maduro é próxima de zero, a Casa Branca tem sinalizado que a chance de uma intervenção militar está sobre a mesa.

Nesta quarta-feira, em entrevista a uma emissora de TV norte-americana, o secretário de Estado do governo Donald Trump, Mike Pompeo, reafirmou que é possível Washington recorrer a uma ação militar para destituir o presidente venezuelano, se for necessário.

Pompeo, entretanto, ressaltou que os Estados Unidos ainda têm esperanças em uma saída pacífica e diplomática na Venezuela.

"A possibilidade [de intervenção militar] é próxima de zero. Não existe isso. Outros atores continuam nesse circuito: EUA, Rússia. Estamos, logicamente, preocupados porque tem reflexos", enfatizou Bolsonaro aos repórteres na manhã desta quarta-feira, ao ser questionado sobre a possibilidade de o Brasil se envolver em uma ação militar na Venezuela.
(...)

Luiz Felipe Barbieri, G1, Brasília, 01/05/2019, há 22 minutos