terça-feira, 31 de março de 2026

HISTÓRIA : A REVELAÇÃO DA ORIGEM

Consta do livro de Gênesis, capítulo 1, que Deus, antes de criar os céus e a terra, recebeu ordem direta do Pentágono, autorizando-o.


A.M.

domingo, 29 de março de 2026

QUE  PROGRESSO?

A base da crença no progresso foi sólida entre as classes populares no início do século XX: o “nossas crianças terão uma vida melhor” justificava trabalho e sacrifício. Hoje em dia, quase ninguém acredita realmente que isso acontecerá. A crença no progresso é apenas uma maneira, diante da situação atual, de confiar nos experts, nos cientistas, nas novas tecnologias… a impotência face ao curso das coisas nos força a pensar que somente eles poderão nos preservar dos perigos que se acumulam no horizonte…

(...)

Isabelle Stengers, trecho  de entrevista,  Revista Jef Klak, 20/04/2015

sexta-feira, 27 de março de 2026

IMPRESSOS INÚTEIS


Não sei por que os guardo

nessa gaveta íntima.

O certificado de reservista.

O diploma de pós-graduação.

O mapa esperto pra uma festa chata

que rolou uns três meses atrás.

Felizmente não compareci.



Eudoro Augusto

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

ALÉM-DO-HOMEM


Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se encontrem entre aqueles que compreendem o meu “Zaratustra”: como eu poderia misturar-me àqueles aos quais se presta ouvidos atualmente? — Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos.

As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido — conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas — e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação — nascida da força — para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo — acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...

Muito bem! Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados: que importância tem o resto? — O resto é somente a humanidade. — É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma — em desprezo...

(...)

Nietzsche

terça-feira, 24 de março de 2026

IMPÉRIO


"Império é a primeira grande cartografia do terceiro milênio”

– Peter Pal Pelbart, Vida Capital, p. 81

Antonio Negri e Michael Hardt apresentam o conceito de Império. Como entender as relações de poder, dominação, capitalistas em nosso tempo? Como fazer uma análise do mundo pós-moderno e pós 11 de setembro? Para responder a estas perguntas Negri e Hardt nos dão apenas uma palavra: Império. Um poder transcendente, sem centro, uma força globalmente opressora, sem líderes, acima de qualquer instituição e estado nação. O Império funciona capilarmente, horizontalmente. Todos são seus servos.

Diferentemente do Imperialismo, mais simples, localizável, o império é um não-lugar, é o poder difuso. Não se trata mais apenas da concentração de outro, de moeda, de riquezas materiais. A concentração, a desigualdade, também acontecem subjetivamente. O Império explora mentes, subjetividades, criatividades, conhecimentos, relações, penetra a própria vida das pessoas, molda os desejos, articula afetividades. O fluxo de capital não é apenas dos países de terceiro mundo para os de primeiro e não se trata mais apenas de fluxo de capital, o Império realiza fluxos ininterruptos dos mais simples aos mais complicados. O poder imperial não tem lado de fora.

O Império está se materializando diante de nossos olhos”

– Hardt e Negri, Império, p. 11

Nesta nova constituição, os estados nação são subordinados ao império, ele engloba, axiomatiza, fagocita lentamente o mundo inteiro, expandindo suas barreiras até não haver mais lado de fora. A soberania dos estados nação está em crise. O mundo não é mais governado pelos países e nem por uma estrutura centralizada de poder. Presidentes se curvam ao FMI, ao G8 à OMC, o poder atravessa fronteiras. As bandeiras nacionais têm hoje e cada vez mais um poder simbólico. Não há fronteiras, globalização é sinônimo de regulação global. É um mundo controlável, manejável, tudo pode ser articulado para melhor seduzir e criar a servidão. Todo o território é administrado. Não só um mundo é criado, mas as próprias pessoas que habitam este mundo.

O Império só pode ser concebido como uma república universal, uma rede de poderes e contrapoderes estruturada numa arquitetura ilimitada e inclusiva”

– Negri e Hardt, Império, p. 185

O Império não reprime, produz; não pune, controla. Entramos na sociedade biopolítica de Foucault e de controle que Deleuze tão bem definiu. Tudo sobreposto, produção e reprodução integral da vida: tornar todos escravos e opressores. Produção de subjetividades em série. O poder interpreta a vida por nós. Teoria da conspiração? Não, as formações de subjetividade acontecem antes mesmo de nascer. Não há mais linha a ser cruzada, a sociedade de controle age antes mesmo que você possa visualizar uma linha que separa a liberdade da servidão.

– Feast of Kings, 1913, Pavel Filinov

O conceito proposto por Negri e Hardt procura dar conta de explicar uma máquina universal de integração, um apetite infinito e engole tudo à sua frente. O domínio Imperial envolve, perigosamente, aproveitar estas diferenças, não exclui-las. No nível jurídico, teoricamente, não há diferença; no nível cultural, as diferenças são aceitas e hierarquizadas. Trata-se de um triplo imperativo: diferenciar, incorporar e administrar.

Diferenciar, causar a diferença, permitir que a diferença se manifeste (até porque ela inevitavelmente se manifesta), a diferença sempre escapa às redes de controle, vigilância e disciplina, o Império sabe disso; tendo em vista que é impossível controlar tudo e todos, o Império age incorporando as diferenças (é, por exemplo, a camiseta do Che Guevara que você comprou no Shopping); desta forma o Império pode administrar aquilo que lhe escapa e que eventualmente o destruiria. Deleuze e Guattari chamam de reterritorialização e axiomatização.

O império é o parasita que constantemente se alimenta da criatividade e da vitalidade da Multidão. A criatividade do Império é a reterritorialização da criatividade que emergem de milhões de linhas de fuga. Há um constante desejo de desterritorialização das multidões. Quem vive sob o Império quer fugir, todo desejo quer tornar-se nômade, e o capital precisa constantemente conter as linhas que escapam da forma fechada.

A soberania imperial depende não só do consentimento como da produtividade social dos governados. Os circuitos de produtores sociais constituem o sangue que corre nas veias do Império, e se eles viessem a recusar a relação de poder, esquivando-se dela, ele simplesmente desmoronaria sem vida” – Hardt e Negri, Multidão, p. 419

O Império é um vampiro, é ele que transforma o “alternativo” em “mainstream”, o hippie em hipster. Em cima e embaixo, por todos os lados, ele vampiriza a produção da Multidão. O Império vive como um parasita que suga o sangue da Multidão, ou pelo menos sua capacidade de produção e consumo. Como armas de luta, os autores propõe o êxodo, deixar de obedecer. A verdadeira força produtiva do mundo não vem do Império, por isso o poder se dá sobre a vida.

O poder político soberano nunca pode realmente chegar à pura produção de morte, pois não se pode permitir eliminar a vida de seus súditos” – Hardt e Negri, Multidão, p. 4

Mas as saídas estão dentro das brechas que se abrem em toda forma de controle e disciplina. Encontrar os momentos de indisciplina nos intervalos do controle. Fazer da luta uma flor que cresce no asfalto. Se a forma Imperial que Negri e Hardt definiram se alimenta constantemente da produção da Multidão, esta, por sua vez, é potencialmente autônoma, ou seja não precisa dos mecanismos imperiais para existir.

O Império pretende ser senhor do mundo e caso isso não seja possível, ameaça destrui-lo, nós queremos o mundo porque somente nós o criamos. O objetivo não é tomar o Império, porque a própria estrutura do Império está afundando, não queremos tomar o timão do barco, queremos abandoná-lo o mais rápido possível e pensar em alternativas que sejam não substitutivas, mas melhores. É preciso atravessar o Império para sair do outro lado. Melhor que resistir à globalização é acelerar o processo.

A ordem imperial se apresenta como eterna, necessária e permanente. O Império se utiliza dos estados-nação como um canal de dominação. E desta reprodução ad aeternum brotam todas as teorias que enfatizam como as coisas são e devem ser: a inércia da vida presa no Império é fonte de suas próprias teorias conservadores: “as coisas são assim” traz implícito um “as coisas devem ser assim”. As figuras de subjetividade em crise nascem desta dominação: o representado, o mediatizado, o securizado; o endividado.

Mas sabemos que o império, enquanto faz da multidão seu próprio instrumento, ele está constantemente ruindo. A corrupção do Império é a fonte de onde jorra a água de uma nova democracia. A própria pós-modernidade, sabemos, é definida pela crise constante, onde é constantemente necessário o estado de exceção. Mas guerra do opressor nunca é igual à guerra do oprimido. Da lama do Império vemos a flor de lótus da multidão que se eleva em direção ao Sol.


Rafael Trindade, do site Razão Inadequada, acessado em 03/01/2026

sábado, 21 de março de 2026

Não sou cristão, nem judeu,

Nem mago, nem muçulmano.

Não sou do Oriente, nem no Ocidente,

Nem da terra, nem do mar.

Não sou corpo, não sou alma.

A alma do Amado possui o que é meu.

Deixei de lado a dualidade,

Vejo os mundos num só.


Rumi



segunda-feira, 16 de março de 2026

DA  EROSÃO  DO  SENTIDO

O processo de dissolução dos códigos (linguagens) e territórios ( valores) é uma caraterística básica do movimento do capital. Isso está em Marx logo no início de "O capital" quando analisa o fetichismo da mercadoria. Fluxos incessantes de mercadoria fazem do capital um movimento  em direção ao infinito. O lucro dos grandes capitalistas é infinito. O único modo de freá-lo  ( segundo o sistema atual) é  o de naturalizar e idolatrar a função do Estado, onde a abstração da vida nua ( o corpo servil do trabalhador) se dissolve e se confina na ordem instituída de um poder aparentemente eterno: a nação, o Estado-nação. Desse modo, a formação da subjetividade se desenha como fratura subjetiva de sentido: quem eu sou? Este dado se verifica de modo simples e direto na multiplicação das sexualidades não reprodutivas. Dir-se - ia: onde vamos parar? A perplexidade do senso comum assola mais intensamente a subjetivação da extrema direita, já que ela está colada a valores antigos, deteriorados. Tais valores sustentam o desejo como representação mental e substituem a Realidade. Tudo passa a ser imagem. Daí a angústia e o quase pânico do extremista de direita ( não que outros  não vivenciem esse afeto) mas a experiência da direita, da ultradireita, e por fim, das mil religiosidades transcendentes que a sustentam pela fé, cola nos seus "militantes" verdades arcaicas como garantia de que estão vivos. Em nosso tempo de imagens instantâneas, o ato de pensar diluiu-se como bolha de sabão. No seu lugar, palavras de ordem organizam o planeta como lugar da dor e do sofrimento eterno (pobreza, miséria, fome, guerras etc) com ares de progresso científico.  Em tal cenário de Apocalipse, a ultradireita cresce e se expande como oração atéia e violenta ao céu que nos protege.


A.M.

sábado, 14 de março de 2026

 CLÍNICA DA DIFERENÇA EM PSIQUIATRIA :  linhas vitais


1-  Considera um corpo de afeto (desejo) misturado ao organismo físico-químico (sistema de órgãos).

2 - Tal corpo desejante (invisível) é acessado pela escuta.

3 - Um ou mais diagnósticos psiquiátricos: uso clínico como funções e não essências.

4 - O processo histórico-social é condição para a semiologia psicopatológica.

5 - Farmacoterapia e psicoterapia fusionadas num monismo pluralista (cf. Deleuze-Guattari).


A.M.

quinta-feira, 12 de março de 2026

 


NENHUMA ARTE - IV

Uma vida inteira passada
dentro dos confins de um corpo
junto ao qual vem atrelada
a consciência, peso morto
que acusa o golpe sofrido
e cochicha ao pé do ouvido
depois que o fato se deu:
nada que te pertence é teu.

Único antídoto do nada
entre as peçonhas da vida,
coisa por sorte encontrada
e por desgraça perdida,
amor lega, em sua ausência,
um lembrete à consciência
(se ela por acaso esqueceu):
nada que te pertence é teu.

Princípio? Tudo é contingente.
Fim? Toda luz termina em breu.
Sentido? Quem quiser que invente,
quem não quiser se contente
com este presente besta
que, quando acabou a festa,
a vida avara lhe deu:
nada que te pertence é teu.


Paulo Henriques Britto

 

A DIFERENÇA NA PSICOPATOLOGIA                      

(...)

Retornemos ao borderline: ele pode ser  considerado  como a instabilidade    em pessoa  concretizada em impulsos violentos e tão surpreendentes quanto danosos ao outro. Os afetos  parecem vir em estágio bruto e  numa corredeira  sem freios.   O encontro  é com um  chão movente.  Não há um  ou mais  problemas, mas  uma    problematização    contínua. Não se trata de um mero jogo de palavras. É toda a  inserção no mundo, e mais, o seu mundo constituído que é o da instabilidade afetiva. Ao falar de si num tom de passado e no fulcro das relações afetivas,  fica evidente  o  dado assombroso que é o da inexistência  de   um território   onde enganchar a relação pessoal, um vínculo. Um vazio brutal  lhe constitui. Um paciente afundado na solidão? Não é possível  vê-lo desse modo,  pois seria  fincar a estaca da   moldura humanista sobre uma alma em desgoverno. O encontro com a loucura não é um exame das funções psíquicas nem  do comportamento observável.  O encontro é um devir,  aquilo que tenta  captar do paciente fluxos do desejo.   O paciente não se reduz ao eu, ainda que este esteja  preservado. Ele consegue falar, dizer como está, conversar.  Seu corpo oscila entre uma inexpressão   e  uma  expressividade dramática. Contudo, a  dramaticidade não é  “fingida”.  Assume seu discurso com se fosse ele próprio levado por uma onda de emoção. Adiante, sem que se  lhe estimule,  estanca o ritmo e se faz imóvel numa atitude que suscita dúvidas.   Elas  oscilam  entre o que    diz de si e o que se esconde em dobras subjetivas opacas. O borderline  é um ser errante de difícil ajuda pelo aparelho biomédico.  Talvez   seja  usado algum remédio químico. Aí ele se curva  para além das dobras a  que aludimos. Torna-se  paciente de um cansaço  adicional  (a sedação) ante saídas difíceis da problemática. As linhas singulares estão fora das categorizações da CID-10 ou de  outras classificações. Sob a ótica da diferença, o paciente é um mundo inexplorado e ainda não humanizado. Não há pureza nessa concepção. Trata-se  de espreitá-lo  tanto quanto se conseguir  escapar do clichê médico.  Examinar o borderline é se pôr  fora  das definições do que é ou não o limite, o corte, a fronteira entre a saúde e a doença, o anormal e o anormal, a potência e a impotência. Para isso ser possível, a experiência do contato com a loucura é essencial. Não é preciso ser louco ou ficar louco, mas sim entrar  num  devir-loucura, tornar-se loucura  se o propósito é ajudar, acolher, criar. Tal disposição não costuma ser bem vinda nas organizações promotoras da fé numa racionalidade apaziguadora. Isso inclui a psiquiatria e suas agências  de apoio à  promoção de uma felicidade quimicamente induzida.  No entanto, entramos num terreno onde a química não resolve,  e pior, oferece a sedação como  simulacro da morte. Desse modo, o encontro com a loucura precede o encontro com o paciente...

(...)


A.M. in Trair a psiquiatria

segunda-feira, 9 de março de 2026

 Miguel aos 15


1

amigo sabedoria

da alegria


2

corrida de taxi

driver e música


3

lágrimas na chuva

blade runner


4

riso do batman

sumido e roubado


5

natureza mui bela

perigosa travessia


6

universo da fala

verso encantado


7

trilhas sonoras

a hora do sonho


8

altura e elegância

palavras doces


9

ovnis à mão cheia

no céu da boca


10

filosofias na pele

por toda a parte 


11

êxtase no mistério

estrelas e planetas


12

jesus aqui agora

o que diria?


13

capitalismo for ever

nem pensar


14

amigos gregos

enigmas e luzes


15

potências da arte

tatuadas no desejo






A.M.

JOHN GRIMSHAW


 

domingo, 8 de março de 2026

DIA  INTERNACIONAL  DA  MULHER


Todos os dias

são da mulher.


Absorta

em tarefas da alma,


prepara outra humanidade

nove meses

depois.



A.M.






quinta-feira, 5 de março de 2026


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 O ENCONTRO REAL


Quando se diz "relações interpessoais", está embutido o conceito de "pessoa humana" de origem intrinsecamente cristã. No entanto, ao se pensar o encontro entre duas pessoas, é possível agenciar o Encontro entre multiplicidades, aquele que remete ao movimento dos corpos (visíveis e invisíveis) enfiados no livre fluxo dos acontecimentos. Trata-se de uma torção do discurso, um desvio da fala banal em prol dos afetos e da potência de ser afetado. Silêncio! A chamada pessoa já não se sustenta, já não recolhe energia de uma suposta unidade de ação (o eu, a consciência...), exceto se estiver sob a égide dos códigos estabelecidos em dispositivos de controles tecno-burocráticos ou de despotismos morais. De todo modo, o Encontro real é composto por linhas de singularização que se ligam umas às outras, constroem territórios afetivos e ficam à espreita... Então, a coisa é assim: cada pessoa não é una, não é uniforme, mas múltipla, multiplicada e multiplicante por "n" mil. Seja o objeto de uma paixão. Não é o objeto o que importa ou o que faz funcionar o mundo e o universo, não é o que encanta e  faz renascer a realidade a cada segundo, mas os signos que são enviados por ele (sem cessar) para o amante. Tampouco este é "uma pessoa", mas uma multiplicidade de linhas afetivas movidas à alegria em viagens de perdição. É o segredo revelado no cerne do Encontro real entre o Amante e o Objeto da sua paixão. Ou melhor seria dizer: o encontro com a paixão por seu objeto. Tudo passa, pois, pelos signos e pela força de sua expressão livre nos cantos e encantos de uma natureza impassível e esplendorosa. É a arte do encontro, um alumbramento.


A.M.

domingo, 1 de março de 2026

 

Gilles Deleuze sobre a Palestina (1978)

por Amálgama (08/01/2009)

Publicado originalmente no Le Monde (7/4/1978) e, depois, em Deux régimes de fous: Textes et entretiens, 1975-1995 (Minuit, 2003), org. de David Lapoujade.   Como os palestinos poderiam ser “parceiros legítimos” em conversações de paz, se não têm país? Mas como teriam país, se seu país lhes foi roubado? Os palestinos jamais tiveram escolha, além […]

Publicado originalmente no Le Monde (7/4/1978) e, depois, em

Deux régimes de fous: Textes et entretiens, 1975-1995 (Minuit, 2003), org. de David Lapoujade.

Como os palestinos poderiam ser “parceiros legítimos” em conversações de paz, se não têm país? Mas como teriam país, se seu país lhes foi roubado? Os palestinos jamais tiveram escolha, além da rendição incondicional. Só lhes ofereceram a morte.

No conflito Israel-Palestina, as ações dos israelenses são consideradas retaliação legítima (mesmo que seus ataques sejam desproporcionais); e as ações dos palestinos são, sem exceção, tratadas como crimes terroristas. Um palestino morto jamais interessa tanto, nem tem o mesmo impacto, que um israelense morto.

Desde 1969, Israel bombardeia sem descanso o sul do Líbano. Israel já disse, claramente, que a recente invasão do Líbano não foi ato de retaliação pelo ataque terrorista em Telavive (11 terroristas contra 30 mil soldados); de fato, a invasão do Líbano é o ponto culminante de um plano, mais uma, numa sequência de operações a serem iniciadas como e quanto Israel decida iniciá-las. Para uma “solução final” para a questão palestina, Israel conta com a cumplicidade quase irrestrita de outros Estados (com diferentes nuances e diferentes restrições).

Um povo sem terra e sem Estado, como o palestino, é como uma espécie de leme, que dá a direção em que andará a paz de todos que se envolvam em suas questões. Se tivessem recebido auxílio econômico e militar, ainda assim teria sido em vão. Os palestinos sabem o que dizem, quando dizem que estão sós.

Os militantes palestinos têm dito que teriam conseguido arrancar, no Líbano, alguma espécie de vitória. No sul Líbano, só havia grupos de resistência, que se comportaram muito bem sob ataque. A invasão israelense, por sua vez, atacou cegamente refugiados palestino e agricultores libaneses, população pobre, que vive da terra. Já se confirmou que cidades foram arrasadas e que civis inocentes foram massacrados. Várias fontes informam que se usaram bombas de fragmentação.

Essa população do sul do Líbano, em exílio perpétuo, indo e vindo sob ataque militar dos israelenses, não vê diferença alguma entre os ataques de Israel e atos de terrorismo. Os últimos ataques tiraram 200 mil pessoas de suas casas. Agora, esses refugiados vagam pelas estradas.

O Estado de Israel está usando, no sul do Líbano, o método que já se provou tão eficaz na Galileia e em outros lugares, em 1948: Israel está “palestinizando” o sul do Líbano.

A maioria dos militantes palestinos nasceram dessa população de refugiados. E Israel pensa que derrotará esses militantes criando mais refugiados e, portanto, com certeza, criando mais terroristas. Não é por termos um relacionamento com o Líbano que dizemos: Israel está massacrando um país frágil e complexo. E há mais.

O conflito Israel-Palestina é um modelo que determinará como o ocidente enfrentará, doravante, os problemas do terrorismo, também na Europa.

A cooperação internacional entre vários Estados e a organização planetária dos procedimentos da polícia e dos bandidos necessariamente levará a um tipo de classificação que cada vez mais incluirá pessoas que serão consideradas “terroristas”. Aconteceu já na Guerra Civil espanhola, quando a Espanha serviu como laboratório experimental para um futuro ainda mais terrível que o passado do qual nascera.

Israel inteira está envolvida num experimento. Inventaram um modelo de repressão que, devidamente adaptado, será usado em vários países.

Há marcada continuidade nas políticas de Israel. Israel crê que as resoluções da ONU, que condenam Israel verbalmente, são autorizações para invadir. Israel converteu a resolução que o mandava sair dos territórios ocupados em direito de construir colônias!

Achou que seria excelente ideia manter uma força de paz no sul do Líbano… desde que essa força, em vez do exército israelense, transformasse a região em área militar, sob controle policial, um deserto em matéria de segurança.

Esse conflito é uma estranha espécie de chantagem, da qual o mundo jamais escapará, a menos que todos lutemos para que os palestinos sejam reconhecidos pelo que são: “parceiros genuínos” para conversações de paz. De fato, estão em guerra. Numa guerra que não escolheram.


Tradução a partir do inglês: Caia Fittipaldi.