Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
terça-feira, 18 de agosto de 2026
O TEMPO NÃO VOLTA
O movimento do capital é o da consistência das relações sociais. São fluxos de toda ordem que se expressam no cotidiano das pessoas. Estas se inserem no desempenho de papéis e funções, sendo o trabalho um dos meios por excelência para "medi-las". A família seria outro. Ora, tal consistência subjetiva (e objetiva) é o que estabelece condições para alguém dizer "estou vivo". Isso foi sendo instaurado na história das relações sociais de produção, fato que Marx já registra em 1844 nos seus "Manuscritos econômicos e filosóficos". Dito de outro modo, as relações humanas, ou mais profundamente, a condição humana ( o que é o "humano ?") foi sendo moldada e produzida (até os nossos dias) pelo sistema do capital como mega-máquina em escala planetária ao reduzir as sociedades a um significante único: o capital. Torna-se ridículo falar em vida "espiritual". Num mundo convertido a condições materiais e semióticas aparentemente eternas, o fenômeno da nostalgia social dos "bons tempos" surge como uma espécie de arcaísmo...e melancolia...
A.M.
sábado, 15 de agosto de 2026
CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - III
Numa acepção deleuziana, o acontecimento pode ser definido como um encontro de corpos, humanos e/ou inumanos, no qual e do qual emerge o Sentido. Assim, o sentido nunca é dado, nunca é "um estar lá", mas sim produzido no próprio ato do Encontro. É possível notar que a realidade virtual substituiu a realidade do Encontro (daí, a dos corpos) pela realidade da imagem, profusão de imagens sobre imagens, realidade descarnada, mas Realidade subjetivamente assimilada como Verdade. Dissemos que a tecnologia da imagem não é um mal em si, mas um signo de poder acelerado a uma velocidade não captada pela Consciência. A velocidade é quem (sujeito) captura a consciência. Um encontro de corpos fica, então, descartado em prol da verdade da imagem, inclusive a imagem de si. Segue-se o empreendimento desejante de um profundo estilhaçamento do eu, beirando a psicose ou nela se instalando. Tempos esquizofrênicos, como previu Guattari. Ora, para uma psiquiatria atravessada por tais fluxos, há duas opções ético-políticas: 1- Encolher-se sob o discurso epistemológico das neurociências, detentor de uma verdade reificada, reificante e erguer o manto acadêmico como anti-auto-crítica. 2-Abrir-se, estender-se sobre o campo social em suas formações discursivas caóticas e inventar clínicas à altura do horror dos tempos que correm. Fazer o acontecimento.
A.M.
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
domingo, 2 de agosto de 2026
quinta-feira, 30 de julho de 2026
SER DE ESQUERDA - nº 2 ( em 10 linhas)
1- Combater o ressentimento como expressão anti-vida da cultura cristã.
2- Conceber o poder como "relação entre forças" ao modo foucaultiano.
3- Rejeitar toda forma de dominação dos corpos livres, operários do desejo.
4- Considerar a mulher sob o signo da criação desejante, natureza feroz e delicada. Amar os paradoxos.
5- Evitar o dualismo estéril direita/esquerda em prol das multiplicidades do viver.
6- Combater o fascismo e os micro-fascismos dos modos explícitos ou nos disfarces da língua.
7-Odiar a geopolítica, imperadores do mundo em cálculos genocidas.
8-Experimentar a delicadeza como estilo de viver a interpessoalidade.
9- Desconfiar do Estado nas patrulhas do desejo. Destruir suas metástases burocráticas.
10 - Usar a camuflagem como função guerreira em contextos institucionais adversos.
A.M.
domingo, 26 de julho de 2026
sábado, 25 de julho de 2026
quinta-feira, 23 de julho de 2026
domingo, 19 de julho de 2026
sábado, 18 de julho de 2026
REGIME DE DELÍRIOS
O termo "delírio" apresenta uma história atravessada pelo romantismo. Assim, quando se diz " delírio de amor", evoca-se uma intensidade afetiva na constituição do sujeito e do objeto da sua paixão. Há uma imagem que força a desejar e delirar.
Na psiquiatria clínica, orgânica, biológica, o delirio tem origem no cérebro em alguma disfunção ou numa lesão das estruturas neuronais. Até se convencionou chamar isso de " delírium" (do latim) para qualificar o sintoma "causado" pela alteração do estado da consciência. Esse estado percorre amplo espectro clínico, indo da consciência vigil ao coma ( apagamento da consciência).
Ainda na psiquiatria clínica, o delírio cursa com a psicopatologia e suas múltiplas expressões, tais como nas psicoses, esquizofrenias, transtornos do humor, transtornos da personalidade, histerias, etc... todo um universo semiológico delirante. Curioso é que esse tipo de delírio não leva uma causa orgânica, como é o caso do "delirium".
Fora do círculo normativo e clínico da psiquiatria , encontramos o delírio, ou mais precisamente, a experiência delirante por toda a parte: na arte, na literatura, na política, na filosofia, no espiritualismo, nas religiões em geral e até no cotidiano das relações sociais e pessoais...
Em toda as manifestações persiste a dificuldade em avaliar o que é o delírio e qual a sua origem. Restou a psiquiatrização mais tosca. É que sob uma égide moral, o delírio é visto como " erro " . Ele escapa ao controle institucional e racional, e por conseguinte desconcerta a prática de normalização dos indivíduos levada à efeito pela "necro" psiquiatria. É que a expressão delirante, para ser compreendida nos seus elementos históricos atuais, extrapola tal enquadre psicopatológico: o delírio do capital...
Desse modo é possível arriscar a hipótese teórica de que a modernidade produziu e produz em escala planetária condições sociais, políticas, culturais e tecnológicas para o desenvolvimento de um delírio não médico e não romântico. Aí está contida uma questão intrigante sobre a verdade.
E cada vez mais, movida a velocidades internéticas, tal questão se traduz em perguntas sem resposta: isso é verdade? qual a verdade? existe a verdade? para que serve a verdade? a quem serve?
A.M.
Obs. versão revisada.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
quarta-feira, 15 de julho de 2026
A ANTI-ESCUTA - 3
Na sociedade moderna a Escuta vira anti-escuta. Ou pelo menos são cultivadas as condições sócio-políticas para isso.
Está no ar a velocidade dos fluxos de comunicação e informação: internet. Eles são o que passa e não pára de passar: o tempo estaria fora dos eixos? Velocidades alucinatórias ...
A linguagem do sistema do capital é composta de fluxos, e não de códigos linguísticos. Ora, tudo se ajeita. O capitalismo e seu profundo analfabetismo ( Deleuze/Guattari, 1976) .Que importa se você não compreende o que se passa? Você sente.
A produção de uma realidade imagética resulta em afetos de destruição e substitui a Terra finita por um infinito de lucro. Uma forma-pessoa torna-se forma-consumidor, mesmo e principalmente o que se consuma no extermínio da alma.
Aldous Huxley disse tudo no " Admirável mundo novo" (1932). De lá para cá o aprofundamento do controle das massas segue o percurso de um suicídio coletivo induzido.
Não há retorno do fascismo, do nazismo, da ultra-direita e de todas as expressões da pulsão de morte. Elas já estavam aí.
A anti-escuta avança como Tecnologia Científica com sua verdade religiosa. Hiroshima ainda não foi o pior.
A.M.
Obs.: versão revisada.
terça-feira, 14 de julho de 2026
segunda-feira, 13 de julho de 2026
O amor de agora
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
Dante Milano
domingo, 12 de julho de 2026
SEXUS de Henry Miller - fragmento de resenha
“Sexus”(1949) faz parte da trilogia “Crucificação Encarnada” – ao lado de “Plexus”(1953) e “Nexus”(1960) – que consagrou Miller como um dos grandes do século XX, depois de seu começo conturbado com o censurado“Trópico de Câncer”. O livro narra os últimos anos de Miller nos Estados Unidos, antes de largar tudo e ir vagabundear na Europa – onde se revelou como escritor.(Período brilhantemente mostrado no filme “Henry & June”). O autor explica que está se aproximando de seu trigésimo terceiro aniversário – a idade de Cristo crucificado – e uma nova vida se estende para ele. Mas este é o único motivo pelo qual a trilogia deve se chamar “Crucificação”? O leitor atento pode observar: que são os discursos verborrágicos de Henry sobre a vida, o sexo, o trabalho e a sociedade que não sermões, muitas vezes em parábolas? Assim como Cristo, nosso autor/personagem prega um novo mundo, um paraíso – desta vez na Terra – que pode ser atingido através de sua doutrina. Ele converte amigos e mulheres com sua fala inflamada, realiza milagres através de orgasmos e multiplica comida e dinheiro – que consegue pedindo aos camaradas. E qual é sua punição? A crucificação simbolizada pelo casamento, o trabalho, as contas pra pagar e a rotina humana. Muito dessa filosofia não é novidade, algo foi tomado de Nietzsche(assim com de Céline vêm as descrições cruas e de Dostoiéviski os diálogos realistas.) Mas ao contrário de Nietzsche, Miller trepa.
(...)
Fred Di Giacomo
sábado, 11 de julho de 2026
ESTÔMAGO
entre as especialidades médicas,
uma das mais elegantes na pesquisa e na clínica
é a gastroenterologia.
seu raciocínio complexo
usa conhecimentos vastos e moleculares.
são mil contatos imediatos
para além da medicina dos objetos sólidos
e inertes.
ela pulsa o alimento da terra.
chanfraduras dispostas em toda parte
migram para o trato digestivo.
boquiabertas,
atingem entranhas
da alma torturada.
especialidade que coloca
o paciente de frente
com o desejo infantil
mesmo que não saiba.
uma pena que a gastroenterologia
haja sido extinta.
no seu lugar a endoscopia
administra pólipos e dólares.
A.M.
sexta-feira, 10 de julho de 2026
quinta-feira, 9 de julho de 2026
quarta-feira, 8 de julho de 2026
O PROCESSO DE PRODUZIR MAIS VALIA
O produto, de propriedade do capitalista, é um valor-de-uso, fios, calçados etc. Mas, embora calçados sejam úteis à marcha da sociedade e nosso capitalista seja um decidido progressista, não fabrica sapatos por paixão aos sapatos. Na produção de mercadorias, nosso capitalista não é movido por puro amor aos valores-de-uso. Produz valores-de-uso apenas por serem e enquanto forem substrato material, detentores de valor-de-troca. Tem dois objetivos. Primeiro, quer produzir um valor-de-uso, que tenha um valor-de-troca, um artigo destinado à venda, uma mercadoria. E segundo, quer produzir uma mercadoria de valor mais elevado que o valor conjunto das mercadorias necessárias para produzi-la, isto é, a soma dos valores dos meios de produção e força de trabalho, pelos quais antecipou seu bom dinheiro no mercado. Além de um valor-de-uso quer produzir mercadoria, além de valor-de-uso, valor, e não só valor, mas também valor excedente (mais valia).
(...)
K. Marx
terça-feira, 7 de julho de 2026
TECNOLOGIA DA IMAGEM: CLÍNICA E POLÍTICA
A partir da "tecnologia da imagem" e seus atravessamentos corporais é possível ir à análise da demanda em saúde mental. Na atualidade o corpo (não o corpo-organismo, mas o corpo-desejo) é atingido em cheio por imagens-clichês, imagens-de-imagens que tornam o contato do eu consigo mesmo uma experiência plugada aos fluxos semióticos. Eles vêm de fora, mas parecem vir "de dentro". É que a forma das instituições sociais (cf Guattari e outros) está interiorizada, subjetivizada num inconsciente que não mais passa por categorias edipianas (tal como a psicanálise o vê) mas por categorias planetárias, portanto, capitalísticas. A tecnologia da imagem torna-se pois um território de sentido de uma verdade subjetiva. Esta é veiculada por equipamentos de poder. Daí o homem moderno encarnar uma espécie de sonambulismo coletivo que a todos arrasta. A incrível aceleração da velocidade do tempo aniquila o Sentido. Efeitos práticos: na clínica, a psicose. Na política, o fascismo.
A.M.
domingo, 5 de julho de 2026
Coração de frango
e o coração,
quanto pesa?
perguntou ela,
moça magrela
de expostas costelas,
ao homem bigodudo
detrás do balcão.
depende,
de boi ou de frango?
intrigada
não entendeu,
pois era do dela
que tratava.
sabia que pouco valia,
era carne fraca
sangue de anemia
que batia mais por inércia,
do que serventia.
na verdade,
queria fazer uma barganha,
trocar seu coração
por, quem sabe,
um naco de picanha.
o homem não estranhou a proposta
da moça de costelas expostas.
era a terceira vez
que vinham lhe oferecer
aquele estranho produto
já conhecidamente sem uso.
mas por pena ou caridade
lhe ofereceu em troca
duas asas de frango.
o que era muito,
comparado ao seu tamanho.
faminta,
aceitou sem demora.
lambuzou-se com as asas alheias,
visto que ela,
bicho terreno,
não conhecia tais atrevimentos.
até hoje não se sabe:
se foi a gordura espessa
ou a carne fibrosa
(tão desconhecidas a seu corpo de menina)
que lhe causaram alucinação.
fato é que
munida da carcaça das duas asas,
uma em cada mão,
acreditou-se ave,
ave maria,
e do parapeito da janela,
estufou o peito externo.
de um só golpe
sentiu o corpo leve.
o voo foi breve.
o baque, surdo.
a carne mole,
moída na calçada,
parecia que indagava:
e meu corpo,
quanto vale?
Luiza Romão
sexta-feira, 3 de julho de 2026
quinta-feira, 2 de julho de 2026
A MEDICALIZAÇÃO SEM FIM
Fenômeno típico da sociedade industrial capitalística "avançada", a medicalização corresponde a expressão da medicina no campo social.
Tal afirmação soa rasa e superficial se se limitar à medicina como ramo da ciência atrelado aos ideais iluministas ( a razão científica) e humanistas ( o homem como medida das coisas).
Ao contrário, a medicalização da vida social é uma instituição. E como toda instituição, só funciona em conexão com outras instituições como o Estado, a Ciência, a Mídia, a Política, a Economia, etc.
Desse modo ela desenvolve a função de ocultar (ou maquiar) a divisão de classes. Isso é constitutivo do Capitalismo Mundial Integrado (F. Guattari, 1981) e alavanca seus valores e códigos às custas de uma subjetividade-do-capital atualizada via internet.
Mas não se trata aqui de uma afirmação idealista calcada no pensamento de Marx, e sim de uma percepção do real em si mesmo, o que existe.
O que existe são imagens de imagens de imagens circulando enlouquecidas rumo a um lucro capitalístico infinito. Então, para que serve o real se ele foi "anexado" à loucura como o fim último da produção? A loucura não tem fim, só meios.
Não existe mais o "social", a socialidade. O capital abarcou tudo, engoliu tudo.
De volta à medicalização da vida social que é a "vida do capital": ela é esse "infinito" expresso na luta entre os vírus e as vacinas, entre as bactérias e os antibióticos, entre a doença e a saúde, entre a morte e a vida... tudo pela expansão metastática do lucro.
A.M.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
segunda-feira, 29 de junho de 2026
O TEMPO NÃO VOLTA
O movimento do capital é o da consistência das relações sociais. São fluxos de toda ordem que se expressam no cotidiano das pessoas. Estas se inserem no desempenho de papéis e funções, sendo o trabalho um dos meios por excelência para "medi-las". A família seria outro. Ora, tal consistência subjetiva (e objetiva) é o que estabelece condições para alguém dizer "estou vivo". Isso foi sendo instaurado na história das relações sociais de produção, fato que Marx já registra em 1844 nos seus "Manuscritos econômicos e filosóficos". Dito de outro modo, as relações humanas, ou mais profundamente, a condição humana ( o que é o "humano ?") foi sendo moldada e produzida (até os nossos dias) pelo sistema do capital como mega-máquina em escala planetária ao reduzir as sociedades a um significante único: o capital. Tornou-se ridículo falar em vida "espiritual". Num mundo convertido a condições materiais e semióticas aparentemente eternas, o fenômeno da nostalgia social dos "bons tempos" surge como uma espécie de arcaísmo: é o caso do futebol brasileiro atualmente jogado e o efeito melancólico sobre a torcida.
A.M.
domingo, 28 de junho de 2026
sábado, 27 de junho de 2026
sexta-feira, 26 de junho de 2026
quinta-feira, 25 de junho de 2026
VELOCIDADE E PODER
DIPLOMATIQUE: O que preocupa o senhor são os limites do tempo humano?
VIRILIO: Sim, é preciso trabalhar sobre a natureza do poder da velocidade atualmente, porque a velocidade da luz é um absoluto e é o limite do tempo humano. Nós estamos no “tempo-máquina”; o tempo humano é sacrificado como os escravos eram sacrificados no culto solar de antigamente. Eu o digo, nós estamos num novo Iluminismo em que a velocidade da luz é um culto. É um poder absoluto que se esconde atrás do progresso, e é por isso que eu afirmo que a velocidade é a propaganda do progresso. Eu não tenho nada contra o progresso. Quando eu digo que é preciso “ir mais devagar”, alguns zombam de mim. Pensam que eu condeno a revolução dos transportes, dos trens, dos carros, dos aviões, que eu sou contra os computadores e contra a Internet. Não é nesse nível que as coisas estão em jogo...
(...)
Trecho da entrevista de Paul Virilio concedida ao Le Monde Diplomatique Brasil em 15/06/2011
terça-feira, 23 de junho de 2026
O filme "O dia D" do Spielberg não é para os críticos de arte, nem para os influencers digitais, nem para os consumidores, nem para os eruditos, nem para o público, nem para os técnicos da comunicação, nem para os inteligentes, nem para os ufólogos, nem para os espiritualistas, não é para ninguém.
Impassível, ele flutua sobre a Terra num círculo de fogo.
A.M.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
sábado, 20 de junho de 2026
A nossa sociedade ocidental contemporânea, apesar do seu progresso material, intelectual e político, dirige-se cada vez menos para a saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amor no ser humano; tende a transformá-lo num autômato que paga o seu fracasso com as doenças mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um delírio pelo trabalho e pelo chamado prazer.
Aldous Huxley
quinta-feira, 18 de junho de 2026
terça-feira, 16 de junho de 2026
A DIFÍCIL TAREFA
O organismo físico-químico, visível, palpável e mensurável, é o objeto da medicina, onde ela de fato intervêm, e, caso obtenha êxito terapêutico (principalmente por isso), retira mais-valia de poder. No entanto, junto a esse organismo e fora da relação linear causa-efeito, funciona o corpo das intensidades livres. Não é visível, não é palpável, não é mensurável, nem segue os mapas fisiopatológicos vistos em exames por imagem. Distinto da consciência que sempre obedece ordens, ele não obedece, é rebelde e alterna com o organismo fluxos atuais e/ou antigos de afetos nômades. Tampouco é o corpo que a psicanálise entronizou como "a outra cena". São fluxos que impulsionam a vida, que são a vida : potências sem forma. Em face desse real estado de coisas, tal corpo traz grandes dificuldades à pesquisa. Como acessar algo que não se vê, não se toca nem se mede? É que na semiologia clínica há um "corpo que não aguenta mais" e que se expressa em sintomas álgicos (por exemplo, cefaléias crônicas - simbolismo do órgão?) , mas também como multiplicidade de sintomas que chamamos de angústia. Aqui não se trata de usar a psicanálise como doutrina ou método de trabalho, mas de "roubar" deste saber a hipótese de um inconsciente para além da representação de papai-mamãe. Um inconsciente "órfão, ateu e anarquista", inconsciente-corpo. Difícil a tarefa de mapeá-lo.
A.M
segunda-feira, 15 de junho de 2026
quarta-feira, 10 de junho de 2026
QUE DEUS?
Numa visão a partir de Espinosa crer no Deus da teologia cristã é reproduzir a relação dirigente-comandado, governante-governado, rei-súdito, patrão-empregado, senhor-escravo, etc; assim, o pensamento se mantém prisioneiro de uma relação entre seres humanos, ou, dito de um modo cristão, numa relação entre pessoas. Deus seria uma pessoa. No entanto, basta considerar a existência do Infinito tempo-espaço para jogar por terra essa bobagem humanísta. Não há dimensão existencial, espiritual, que se compare em grandeza a finitude humana com o cosmos. Daí a atitude mais honesta e inteligente (apesar das diferenças) é a do agnóstico, do materialista, do ateu e do trágico. Pena que a tal "bobagem humanísta" controle tanta gente e produza subjetividades atoladas no medo e na servidão.
A.M.
domingo, 7 de junho de 2026
sexta-feira, 5 de junho de 2026
O ESCÁRNIO
O que mostra nossa decadência, nossa degenerescência, é a maneira pela qual experimentamos a necessidade de situar a angústia, a solidão, a culpabilidade, o drama da comunicação, todo o trágico da interioridade. Mesmo Max Brod, todavia, conta como os ouvintes eram tomados pelo riso quando Kafka lia O Processo. E também Beckett é difícil ler sem rir, sem passar de um momento de alegria a um outro momento de alegria. O riso, e não o significante. O riso-esquizo ou a alegria revolucionária é o que sobressai dos grandes livros, em vez de angústias de nosso pequeno narcisismo ou terrores de nossa culpabilidade. Pode-se chamar isso de “cômico do além-do-humano”, ou então “palhaço de Deus”, há sempre uma alegria indescritível que jorra dos grandes livros, mesmo quando eles falam de coisas feias, desesperadoras ou terríveis. Todo grande livro opera já a transmutação e faz a saúde de amanhã. Não se pode deixar de rir quando se embaralham os códigos. Se você colocar o pensamento em relação com o fora, nascem os momentos de riso dionisíaco, é o pensamento ao ar livre.
(...)
Gilles Deleuze
ARTE DE AMAR
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira
quinta-feira, 4 de junho de 2026
SEM IGUAL
(...) O humor negro de Marx, a fonte do Capital, é sua fascinação por uma tal máquina: como isso pôde montar-se, sobre que fundo de descodificação e de desterritorialização, como isso funciona, cada vez mais descodificada, cada vez mais desterritorializada, como isso funciona tão solidamente através da axiomática, através da conjugação de fluxos, como isso produz a terrível classe única dos homens cinzentos que mantêm a máquina, como isso não corre o risco de morrer sozinho, mas, antes, o que faz e nos leva a morrer, suscitando até o fim investimentos de desejo que nem sequer passam por uma ideologia enganadora e subjetiva e que nos fazem gritar até o fim Viva o capital na sua realidade, na sua dissimulação objetiva! Nunca houve, a não ser na ideologia, capitalismo humano, liberal, paternal etc. O capital define-se por uma crueldade sem igual quando comparada com o sistema primitivo da crueldade, define-se por um terror sem igual quando comparado com regime despótico do terror. Os aumentos de salário, a melhoria do nível de vida são realidades, mas realidades que decorrem de tal ou qual axioma suplementar que o capitalismo é sempre capaz de acrescentar à sua axiomática em função de uma ampliação dos seus limites (façamos o New Deal, defendamos e reconheçamos sindicatos mais fortes, promovamos a participação, a classe única, venhamos a dar um passo em direção à Rússia que faz o mesmo em nossa direção etc.). Mas, na realidade ampliada que condiciona essas ilhotas, a exploração não pára de endurecer, a falta é arranjada da maneira mais hábil, as soluções finais do tipo “problema judeu” são preparadas muito minuciosamente, o Terceiro Mundo é organizado como parte integrante do capitalismo.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo
O DESEJO NÃO É O PRAZER
Falando de desejo, não pensamos no prazer nem em suas festas. Certamente o prazer é agradável, certamente tendemos a ele com todas as nossas forças. Mas na forma mais amável ou mais indispensável, ele vem, antes, interromper o processo do desejo como constituição de um campo de imanência. Nada mais significativo do que a ideia de um prazer-descarga; obtido o prazer, se terá, ao menos, um pouco de tranquilidade antes que o desejo renasça: há muito ódio, ou medo em relação ao desejo, no culto do prazer. O prazer é assinalação do afeto, a afeição de uma pessoa ou de um sujeito, é o único meio para uma pessoa "se encontrar" no processo do desejo que vai além dela (...)
G. Deleuze e Claire Parnet in Diálogos
quarta-feira, 3 de junho de 2026
segunda-feira, 1 de junho de 2026
sexta-feira, 29 de maio de 2026
quarta-feira, 27 de maio de 2026
sábado, 23 de maio de 2026
A MEDICALIZAÇÃO SEM FIM
Fenômeno típico da sociedade industrial capitalística "avançada", a medicalização corresponde a expressão da medicina no campo social.
Tal afirmação soa rasa e superficial se se limitar à medicina como ramo da ciência atrelado aos ideais iluministas ( a razão científica) e humanistas ( o homem como medida das coisas).
Ao contrário, a medicalização da vida social é uma instituição. E como toda instituição, só funciona em conexão com outras instituições, no caso, o Estado, a Ciência, a Mídia, a Política, a Economia, etc.
Desse modo ela desenvolve a função de ocultar (ou maquiar) a divisão de classes. Isso é constitutivo do Capitalismo Mundial integrado (F. Guattari, 1981) e alavanca seus valores e códigos às custas de uma subjetividade-do-capital atualizada via internet.
Mas não se trata aqui de uma afirmação idealista calcada no pensamento de Marx, e sim de uma percepção do real em si mesmo, o que existe.
O que existe são imagens de imagens de imagens circulando enlouquecidas rumo a um lucro capitalístico infinito. Então, para que serve o real se ele foi "anexado" à loucura como o fim último da produção?
Não existe mais o "social", a socialidade. O capital abarcou tudo, engoliu tudo.
Assim, de volta à medicalização da vida social que é a "vida do capital": ela é esse "infinito" expresso na luta entre os virus e as vacinas, entre as bactérias e os antibióticos, entre a doença e a saúde, entre a morte e a vida... tudo pela expansão metastática do lucro.
A.M.





