Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
domingo, 5 de julho de 2026
Coração de frango
e o coração,
quanto pesa?
perguntou ela,
moça magrela
de expostas costelas,
ao homem bigodudo
detrás do balcão.
depende,
de boi ou de frango?
intrigada
não entendeu,
pois era do dela
que tratava.
sabia que pouco valia,
era carne fraca
sangue de anemia
que batia mais por inércia,
do que serventia.
na verdade,
queria fazer uma barganha,
trocar seu coração
por, quem sabe,
um naco de picanha.
o homem não estranhou a proposta
da moça de costelas expostas.
era a terceira vez
que vinham lhe oferecer
aquele estranho produto
já conhecidamente sem uso.
mas por pena ou caridade
lhe ofereceu em troca
duas asas de frango.
o que era muito,
comparado ao seu tamanho.
faminta,
aceitou sem demora.
lambuzou-se com as asas alheias,
visto que ela,
bicho terreno,
não conhecia tais atrevimentos.
até hoje não se sabe:
se foi a gordura espessa
ou a carne fibrosa
(tão desconhecidas a seu corpo de menina)
que lhe causaram alucinação.
fato é que
munida da carcaça das duas asas,
uma em cada mão,
acreditou-se ave,
ave maria,
e do parapeito da janela,
estufou o peito externo.
de um só golpe
sentiu o corpo leve.
o voo foi breve.
o baque, surdo.
a carne mole,
moída na calçada,
parecia que indagava:
e meu corpo,
quanto vale?
Luiza Romão
sexta-feira, 3 de julho de 2026
quinta-feira, 2 de julho de 2026
A MEDICALIZAÇÃO SEM FIM
Fenômeno típico da sociedade industrial capitalística "avançada", a medicalização corresponde a expressão da medicina no campo social.
Tal afirmação soa rasa e superficial se se limitar à medicina como ramo da ciência atrelado aos ideais iluministas ( a razão científica) e humanistas ( o homem como medida das coisas).
Ao contrário, a medicalização da vida social é uma instituição. E como toda instituição, só funciona em conexão com outras instituições como o Estado, a Ciência, a Mídia, a Política, a Economia, etc.
Desse modo ela desenvolve a função de ocultar (ou maquiar) a divisão de classes. Isso é constitutivo do Capitalismo Mundial Integrado (F. Guattari, 1981) e alavanca seus valores e códigos às custas de uma subjetividade-do-capital atualizada via internet.
Mas não se trata aqui de uma afirmação idealista calcada no pensamento de Marx, e sim de uma percepção do real em si mesmo, o que existe.
O que existe são imagens de imagens de imagens circulando enlouquecidas rumo a um lucro capitalístico infinito. Então, para que serve o real se ele foi "anexado" à loucura como o fim último da produção? A loucura não tem fim, só meios.
Não existe mais o "social", a socialidade. O capital abarcou tudo, engoliu tudo.
De volta à medicalização da vida social que é a "vida do capital": ela é esse "infinito" expresso na luta entre os vírus e as vacinas, entre as bactérias e os antibióticos, entre a doença e a saúde, entre a morte e a vida... tudo pela expansão metastática do lucro.
A.M.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
segunda-feira, 29 de junho de 2026
O TEMPO NÃO VOLTA
O movimento do capital é o da consistência das relações sociais. São fluxos de toda ordem que se expressam no cotidiano das pessoas. Estas se inserem no desempenho de papéis e funções, sendo o trabalho um dos meios por excelência para "medi-las". A família seria outro. Ora, tal consistência subjetiva (e objetiva) é o que estabelece condições para alguém dizer "estou vivo". Isso foi sendo instaurado na história das relações sociais de produção, fato que Marx já registra em 1844 nos seus "Manuscritos econômicos e filosóficos". Dito de outro modo, as relações humanas, ou mais profundamente, a condição humana ( o que é o "humano ?") foi sendo moldada e produzida (até os nossos dias) pelo sistema do capital como mega-máquina em escala planetária ao reduzir as sociedades a um significante único: o capital. Tornou-se ridículo falar em vida "espiritual". Num mundo convertido a condições materiais e semióticas aparentemente eternas, o fenômeno da nostalgia social dos "bons tempos" surge como uma espécie de arcaísmo: é o caso do futebol brasileiro atualmente jogado e o efeito melancólico sobre a torcida.
A.M.
domingo, 28 de junho de 2026
sábado, 27 de junho de 2026
sexta-feira, 26 de junho de 2026
quinta-feira, 25 de junho de 2026
VELOCIDADE E PODER
DIPLOMATIQUE: O que preocupa o senhor são os limites do tempo humano?
VIRILIO: Sim, é preciso trabalhar sobre a natureza do poder da velocidade atualmente, porque a velocidade da luz é um absoluto e é o limite do tempo humano. Nós estamos no “tempo-máquina”; o tempo humano é sacrificado como os escravos eram sacrificados no culto solar de antigamente. Eu o digo, nós estamos num novo Iluminismo em que a velocidade da luz é um culto. É um poder absoluto que se esconde atrás do progresso, e é por isso que eu afirmo que a velocidade é a propaganda do progresso. Eu não tenho nada contra o progresso. Quando eu digo que é preciso “ir mais devagar”, alguns zombam de mim. Pensam que eu condeno a revolução dos transportes, dos trens, dos carros, dos aviões, que eu sou contra os computadores e contra a Internet. Não é nesse nível que as coisas estão em jogo...
(...)
Trecho da entrevista de Paul Virilio concedida ao Le Monde Diplomatique Brasil em 15/06/2011
terça-feira, 23 de junho de 2026
O filme "O dia D" do Spielberg não é para os críticos de arte, nem para os influencers digitais, nem para os consumidores, nem para os eruditos, nem para o público, nem para os técnicos da comunicação, nem para os inteligentes, nem para os ufólogos, nem para os espiritualistas, não é para ninguém.
Impassível, ele flutua sobre a Terra num círculo de fogo.
A.M.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
sábado, 20 de junho de 2026
A nossa sociedade ocidental contemporânea, apesar do seu progresso material, intelectual e político, dirige-se cada vez menos para a saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amor no ser humano; tende a transformá-lo num autômato que paga o seu fracasso com as doenças mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um delírio pelo trabalho e pelo chamado prazer.
Aldous Huxley
quinta-feira, 18 de junho de 2026
terça-feira, 16 de junho de 2026
A DIFÍCIL TAREFA
O organismo físico-químico, visível, palpável e mensurável, é o objeto da medicina, onde ela de fato intervêm, e, caso obtenha êxito terapêutico (principalmente por isso), retira mais-valia de poder. No entanto, junto a esse organismo e fora da relação linear causa-efeito, funciona o corpo das intensidades livres. Não é visível, não é palpável, não é mensurável, nem segue os mapas fisiopatológicos vistos em exames por imagem. Distinto da consciência que sempre obedece ordens, ele não obedece, é rebelde e alterna com o organismo fluxos atuais e/ou antigos de afetos nômades. Tampouco é o corpo que a psicanálise entronizou como "a outra cena". São fluxos que impulsionam a vida, que são a vida : potências sem forma. Em face desse real estado de coisas, tal corpo traz grandes dificuldades à pesquisa. Como acessar algo que não se vê, não se toca nem se mede? É que na semiologia clínica há um "corpo que não aguenta mais" e que se expressa em sintomas álgicos (por exemplo, cefaléias crônicas - simbolismo do órgão?) , mas também como multiplicidade de sintomas que chamamos de angústia. Aqui não se trata de usar a psicanálise como doutrina ou método de trabalho, mas de "roubar" deste saber a hipótese de um inconsciente para além da representação de papai-mamãe. Um inconsciente "órfão, ateu e anarquista", inconsciente-corpo. Difícil a tarefa de mapeá-lo.
A.M
segunda-feira, 15 de junho de 2026
quarta-feira, 10 de junho de 2026
QUE DEUS?
Numa visão a partir de Espinosa crer no Deus da teologia cristã é reproduzir a relação dirigente-comandado, governante-governado, rei-súdito, patrão-empregado, senhor-escravo, etc; assim, o pensamento se mantém prisioneiro de uma relação entre seres humanos, ou, dito de um modo cristão, numa relação entre pessoas. Deus seria uma pessoa. No entanto, basta considerar a existência do Infinito tempo-espaço para jogar por terra essa bobagem humanísta. Não há dimensão existencial, espiritual, que se compare em grandeza a finitude humana com o cosmos. Daí a atitude mais honesta e inteligente (apesar das diferenças) é a do agnóstico, do materialista, do ateu e do trágico. Pena que a tal "bobagem humanísta" controle tanta gente e produza subjetividades atoladas no medo e na servidão.
A.M.
domingo, 7 de junho de 2026
sexta-feira, 5 de junho de 2026
O ESCÁRNIO
O que mostra nossa decadência, nossa degenerescência, é a maneira pela qual experimentamos a necessidade de situar a angústia, a solidão, a culpabilidade, o drama da comunicação, todo o trágico da interioridade. Mesmo Max Brod, todavia, conta como os ouvintes eram tomados pelo riso quando Kafka lia O Processo. E também Beckett é difícil ler sem rir, sem passar de um momento de alegria a um outro momento de alegria. O riso, e não o significante. O riso-esquizo ou a alegria revolucionária é o que sobressai dos grandes livros, em vez de angústias de nosso pequeno narcisismo ou terrores de nossa culpabilidade. Pode-se chamar isso de “cômico do além-do-humano”, ou então “palhaço de Deus”, há sempre uma alegria indescritível que jorra dos grandes livros, mesmo quando eles falam de coisas feias, desesperadoras ou terríveis. Todo grande livro opera já a transmutação e faz a saúde de amanhã. Não se pode deixar de rir quando se embaralham os códigos. Se você colocar o pensamento em relação com o fora, nascem os momentos de riso dionisíaco, é o pensamento ao ar livre.
(...)
Gilles Deleuze
ARTE DE AMAR
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira
quinta-feira, 4 de junho de 2026
SEM IGUAL
(...) O humor negro de Marx, a fonte do Capital, é sua fascinação por uma tal máquina: como isso pôde montar-se, sobre que fundo de descodificação e de desterritorialização, como isso funciona, cada vez mais descodificada, cada vez mais desterritorializada, como isso funciona tão solidamente através da axiomática, através da conjugação de fluxos, como isso produz a terrível classe única dos homens cinzentos que mantêm a máquina, como isso não corre o risco de morrer sozinho, mas, antes, o que faz e nos leva a morrer, suscitando até o fim investimentos de desejo que nem sequer passam por uma ideologia enganadora e subjetiva e que nos fazem gritar até o fim Viva o capital na sua realidade, na sua dissimulação objetiva! Nunca houve, a não ser na ideologia, capitalismo humano, liberal, paternal etc. O capital define-se por uma crueldade sem igual quando comparada com o sistema primitivo da crueldade, define-se por um terror sem igual quando comparado com regime despótico do terror. Os aumentos de salário, a melhoria do nível de vida são realidades, mas realidades que decorrem de tal ou qual axioma suplementar que o capitalismo é sempre capaz de acrescentar à sua axiomática em função de uma ampliação dos seus limites (façamos o New Deal, defendamos e reconheçamos sindicatos mais fortes, promovamos a participação, a classe única, venhamos a dar um passo em direção à Rússia que faz o mesmo em nossa direção etc.). Mas, na realidade ampliada que condiciona essas ilhotas, a exploração não pára de endurecer, a falta é arranjada da maneira mais hábil, as soluções finais do tipo “problema judeu” são preparadas muito minuciosamente, o Terceiro Mundo é organizado como parte integrante do capitalismo.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo
O DESEJO NÃO É O PRAZER
Falando de desejo, não pensamos no prazer nem em suas festas. Certamente o prazer é agradável, certamente tendemos a ele com todas as nossas forças. Mas na forma mais amável ou mais indispensável, ele vem, antes, interromper o processo do desejo como constituição de um campo de imanência. Nada mais significativo do que a ideia de um prazer-descarga; obtido o prazer, se terá, ao menos, um pouco de tranquilidade antes que o desejo renasça: há muito ódio, ou medo em relação ao desejo, no culto do prazer. O prazer é assinalação do afeto, a afeição de uma pessoa ou de um sujeito, é o único meio para uma pessoa "se encontrar" no processo do desejo que vai além dela (...)
G. Deleuze e Claire Parnet in Diálogos
quarta-feira, 3 de junho de 2026
segunda-feira, 1 de junho de 2026
sexta-feira, 29 de maio de 2026
quarta-feira, 27 de maio de 2026
sábado, 23 de maio de 2026
A MEDICALIZAÇÃO SEM FIM
Fenômeno típico da sociedade industrial capitalística "avançada", a medicalização corresponde a expressão da medicina no campo social.
Tal afirmação soa rasa e superficial se se limitar à medicina como ramo da ciência atrelado aos ideais iluministas ( a razão científica) e humanistas ( o homem como medida das coisas).
Ao contrário, a medicalização da vida social é uma instituição. E como toda instituição, só funciona em conexão com outras instituições, no caso, o Estado, a Ciência, a Mídia, a Política, a Economia, etc.
Desse modo ela desenvolve a função de ocultar (ou maquiar) a divisão de classes. Isso é constitutivo do Capitalismo Mundial integrado (F. Guattari, 1981) e alavanca seus valores e códigos às custas de uma subjetividade-do-capital atualizada via internet.
Mas não se trata aqui de uma afirmação idealista calcada no pensamento de Marx, e sim de uma percepção do real em si mesmo, o que existe.
O que existe são imagens de imagens de imagens circulando enlouquecidas rumo a um lucro capitalístico infinito. Então, para que serve o real se ele foi "anexado" à loucura como o fim último da produção?
Não existe mais o "social", a socialidade. O capital abarcou tudo, engoliu tudo.
Assim, de volta à medicalização da vida social que é a "vida do capital": ela é esse "infinito" expresso na luta entre os virus e as vacinas, entre as bactérias e os antibióticos, entre a doença e a saúde, entre a morte e a vida... tudo pela expansão metastática do lucro.
A.M.
quinta-feira, 21 de maio de 2026
terça-feira, 19 de maio de 2026
sábado, 16 de maio de 2026
sexta-feira, 15 de maio de 2026
sábado, 9 de maio de 2026
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Fundamentos políticos da inter-disciplinaridade
(...)
A transdisciplinaridade, como movimento interno de transformação das ciências, aberta para o social, o estético e o ético, não nascerá espontaneamente. A vida científica internacional fica, freqüentemente, presa a rituais formais, numa interdisciplinaridade de fachada. Seu aprofundamento implica numa permanente “pesquisa sobre a pesquisa”, uma experimentação de novas vias de constituição de agrupamentos coletivos de enunciação. Não apenas equipes pluridisciplinares devem funcionar, se necessário por períodos às vezes longos, ou de acordo com ritmos temporais apropriados, como a questão de sua implantação, de seus campos de investigação, da integração de sua atividade com o meio ambiente humano será freqüentemente discutida. Por exemplo, no domínio da cooperação com os países em via de desenvolvimento, os especialistas freqüentemente caíram de pára-quedas em terrenos sociais que não estavam preparados para recebê-los e que eles não estavam preparados para encontrar. Sob este aspecto, a análise dos fracassos seria bastante enriquecedora. O saber agrônomo, médico, ecológico, da arquitetura, deve ser, de alguma forma, reinventado a cada situação concreta. Daí, como corolário, a importância de se prepararem monografias traçando o percurso inicial de uma experiência, suas fases positivas e negativas, as bifurcações que caracterizam a formação do que chamei de agenciamentos coletivos de enunciação.
Não existe uma pedagogia geral com relação à constituição de uma transdisciplinaridade viva. Deve-se levar em conta a iniciativa, o gosto pelo risco, a fuga de esquemas pré-estabelecidos, a maturidade da personalidade (mesmo tratando-se de pessoas muito jovens). Ainda uma vez, teremos mais a ganhar ao nos referirmos neste depoimento ao processo de criação estética do que às visões padronizadas, planificadas, burocratizadas que reinam freqüentemente nos centros de pesquisas científicas, nos laboratórios e nas universidades.
Félix Guattari /1992
quinta-feira, 7 de maio de 2026
UM GRANDE AMOR
Um grande amor é físico. Mesmo espiritual, ele é físico.Vem da alma, vem de almas errantes em terras inexploradas. Insinua-se à beira do tempo, à beira do corpo, sorvendo líquidos, calores e aproveitando o fino dom da vida. O de viver. Um grande amor é trágico, não por ser triste, mas por ser radical no corte da carne exangue. Bebe a seca e seca a boca. De nada adianta ouvir músicas dolentes, nostalgias, cantares eternos, discursos poéticos, se ele não é vivido na linha do tempo, no fio da passagem. Que passa. E não volta. Mesmo. Um grande amor é costurado em pequenas coisas. Seus efeitos adentram o lugar mais seguro da Terra e o não lugar da loucura mais longínqua. E bela. Não sei se alguém saberia vivê-lo, exceto num coração aos pulos e ao ritmo das canções dianisíacas. Talvez assim a madrugada seja promessa do dia. Para sempre.
A.M.
COMO FAZER UMA CLÍNICA DA DIFERENÇA?
Há o conceito de hiato organo-clínico ( Henri Hey, psiquiatra francês, 1900/1977 ). Isso significa que para uma avaliação diagnóstica em psiquiatria (ou na clínica médica) há dois eixos de análise: 1- História familiar, pessoal, escolaridade, nível sócio-econômico, sexualidade, vida amorosa, profissional, social, etc. - vetores psico-existenciais. 2-Estrutura anátomo-fisio-patológica, sistema imunológico, antecedente genético, história médica, etc - vetores físico-químicos. Os dois ítens preenchem o campo etiológico ( causas e mecanismos) das patologias. No primeiro caso está o "hiato", espécie de vazio, "espaço" de produção subjetiva. No segundo estão as determinações "objetivas", marcadas por um saber biomédico estabelecido como verdade. No plano 3 surge a clínica (psiquiátrica ou geral) como expressão dos sintomas e queixas do paciente. Importante é situar o paciente como processo de subjetivação sempre em curso (no tempo) e inserido em circunstâncias atuais concretas ( vetores causais). Tal base conceitual altera por completo o olhar da psiquiatria neuro-biológica em prol de uma concepção do paciente como singularidade. Ou diferença.
A.M.
segunda-feira, 4 de maio de 2026
domingo, 3 de maio de 2026
CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - III
Numa acepção deleuziana, o acontecimento pode ser definido como um encontro de corpos, humanos e/ou inumanos, no qual e do qual emerge o Sentido. Assim, o sentido nunca é dado, nunca é "um estar lá", mas sim produzido no próprio ato do Encontro. É possível notar que a realidade virtual substituiu a realidade do Encontro (daí, a dos corpos) pela realidade da imagem, profusão de imagens sobre imagens, realidade descarnada, mas Realidade subjetivamente assimilada como Verdade. Dissemos que a tecnologia da imagem não é um mal em si, mas um signo de poder acelerado a uma velocidade não captada pela Consciência. A velocidade é quem (sujeito) captura a consciência. Um encontro de corpos fica, então, descartado em prol da verdade da imagem, inclusive a imagem de si. Segue-se o empreendimento desejante de um profundo estilhaçamento do eu, beirando a psicose ou nela se instalando. Tempos esquizofrênicos, como previu Guattari. Ora, para uma psiquiatria atravessada por tais fluxos, há duas opções ético-políticas: 1- Encolher-se sob o discurso epistemológico das neurociências, detentor de uma verdade reificada, reificante e erguer o manto acadêmico como anti-autocrítica. 2-Abrir-se, estender-se sobre o campo social em suas formações discursivas caóticas e inventar clínicas à altura do horror dos tempos que correm. Fazer o acontecimento.
A.M.
A FRAUDE CÓSMICA
No cristianismo nem a moral, nem a religião têm qualquer ponto de contado com a realidade. São oferecidas causas puramente imaginárias (‘Deus’, ‘alma’, ‘eu’, ‘espírito’, ‘livre arbítrio’ – ou mesmo o ‘não-livre’) e efeitos puramente imaginários (‘pecado’, ‘salvação’, ‘graça’, ‘punição’, ‘remissão dos pecados’). Um intercurso entre seres imaginários (‘Deus’, ‘espíritos’, ‘almas’); uma história natural imaginária (antropocêntrica; uma negação total do conceito de causas naturais); uma psicologia imaginária (mal-entendidos sobre si, interpretações equivocadas de sentimentos gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, os estados do 'nervus sympathicus' com a ajuda da linguagem simbólica da idiossincrasia moral-religiosa – ‘arrependimento’, ‘peso na consciência’, ‘tentação do demônio’, ‘a presença de Deus’); uma teleologia imaginária (o ‘reino de Deus’, ‘o juízo final’, a ‘vida eterna’).
Friedrich Nietzsche
sábado, 2 de maio de 2026
sexta-feira, 1 de maio de 2026
quarta-feira, 29 de abril de 2026
sábado, 25 de abril de 2026
QUEM PRECISA DE QUEM?
A psiquiatria e as psicoterapias necessitam mais do seu paciente do que o contrário. Tal enunciado, no mínimo estranho e desconcertante, tem sua "razão de ser" no funcionamento do círculo do capital. Conforme Marx demonstrou, o capital, (operador semiótico hegemônico), é ávido pela manutenção ad infinitum do circuito produção-consumo-produção. Isso constitui o universo delirante da realidade contemporânea. Ele atravessa as linhas da subjetividade, mesmo as ditas "normais", produzindo a convicção de que nada existe ou existirá para além dos axiomas (princípios ossificados) da civilização moderna. No caso da psicopatologia clínica, assistimos a dois fenômenos correlatos. Num, o seu próprio desaparecimento, caso da "necro-psiquiatria" filha bastarda das neurociências. No outro, o endurecimento (reificação) conceitual da psicopatologia, caso da psicanálise ortodoxa e das psicoterapias aliançadas a ela (ou não), mas expostas na vitrine do mercado da clínica. Em ambos os casos o paciente surge como consumidor (passivo) de remédios químicos ou de teorias da subjetividade. Mil peças prontas para abastecer o Mercado.
A.M.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
A ENERGIA E A ERA INDUSTRIAL
O Fogo transforma as coisas, permite aos corpos entrarem em reação química, se dissolveram, se dilatarem, se fundirem ou se evaporarem e, evidentemente, permite ao combustível queimar com grandes desprendimentos de calor e de chamas. De tudo isso, que todos sabem e sabiam, o século XIX vai selecionar isto: a combustão liberta calor, e o calor pode provocar uma variação de volume, quer dizer, pode produzir um efeito mecânico. O fogo é capaz de fazer girar máquinas de um gênero novo, as máquinas térmicas que, nessa época, fazem surgir a sociedade industrial.
(...)
I. Prigogine e I. Stengers in A nova aliança
domingo, 19 de abril de 2026
sábado, 18 de abril de 2026
O QUE É UMA PSIQUIATRIA MENOR? - parte 2
É uma psiquiatria do desejo. Não o desejo como falta, carência, incompletude, mas o desejo como produção, produção de produção. É que o desejo quer sempre mais, novas conexões, outros desejos. Desejar o desejo, produzir desejo é o que lhe resta fazer.
Mas desejar não é fácil. Um trabalho imperceptível, talvez invisível, fabrica linhas da diferença em meio ao rumor dos tempos sombrios.
Mil disfarces são necessários à sua prática. A camuflagem torna-se uma função guerreira.
Uma psiquiatria menor vive nas e das intensidades poéticas da loucura, não da loucura-doença mas da loucura como experiência de abertura aos signos que vêm de fora.
Eles são os da Terra e dos corpos supliciados.
A ética só existe (a ser criada) como ato clínico na psicopatologia. Não há, pois, um código de ética pronto e juramentado como o da medicina. A referência é o paciente: uma vida.
Um paciente são multidões. Não há o indivíduo.
Uma psiquiatria menor só funciona no desejo, com o desejo e pelo desejo. Assim como a ética, o desejo não preexiste. Construi-lo dá trabalho.
A.M.
O abandono do lugar me abraçou de com força.
E atingiu meu olhar para toda a vida.
Tudo que conheci depois veio carregado de abandono.
Não havia no lugar nenhum caminho de fugir.
A gente se inventava de caminhos com as novas palavras.
A gente era como um pedaço de formiga no chão.
Por isso o nosso gosto era só de desver o mundo.
Manoel de Barros
quinta-feira, 16 de abril de 2026
terça-feira, 14 de abril de 2026
RELIGIÃO?
Minha opinião acerca da religião é a mesma que a de Lucrécio. Considero-a como uma doença nascida do medo e como uma fonte de indizível sofrimento para a raça humana. Não posso, porém, negar que ela trouxe certas contribuições à civilização. Ajudou, nos primeiros tempos, a fixar o calendário, e levou os sacerdotes egípcios a registrar os eclipses com tal cuidado que, com o tempo, foram capazes de predizê-los. Estou pronto a reconhecer esses dois serviços, mas não tenho conhecimento de quaisquer outros.
Bertrand Russel in Trouxe a religião contribuições úteis à civilização?
domingo, 12 de abril de 2026
quinta-feira, 9 de abril de 2026
COMBATE
quarta-feira, 8 de abril de 2026
QUAL TRANSTORNO MENTAL?
Não é bom psiquiatrizar a política. Sob tais condições e em face do poder médico (expresso pela linguagem técnica) o universo da política se torna opaco e distorcido em sua significação.
É uma má leitura.
No entanto, em situações extremas da geopolítica (como de agora) talvez seja útil a visão da psicopatologia clínica.
Ora, em escala planetária e via internet, a figura do Neo-Calígula com sua máquina bélica de puro horror, sugere três hipóteses diagnósticas:
A confirmar:
1- Transtorno específico da personalidade (paranoico)
CID - 10 : F.60. 0
2- Transtorno delirante persistente
CID 10 : F.22.8
3- Demência não especificada
CID 10 : F.03
A.M.





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