segunda-feira, 9 de setembro de 2013

IMPÉRIO DAS DEPRESSÕES

(...) Não  há devir , só o ser  do  organismo e  da  existência. O primeiro sentindo-se  doente (mesmo que  não esteja). A segunda abarcando  o organismo qual um  muro invisível  a impedir qualquer possibilidade  de escape. Um estado de anti-liberdade se instala. Se considerarmos o processo  histórico-vital  como uma sucessão de perdas, sem dúvida, a  depressão se afigura como “inevitável”. De  todo modo o seu cortejo  lamurioso é  uma acusação à vida. Ela atravessa praticamente todas as síndromes psicopatológicas. Na descrição do paciente deprimido  observemos o seu rosto. Ao contrário da manobra  objetificante da psiquiatria  (o “ser-da-depressão” expresso  numa medida, imagem, tabela, etc), é possível captar  os  pequenos  traços  que  evidenciam um rosto  deprimido. Óbvio que  não há  O deprimido e  sim  Um deprimido, ressaltadas as singularidades  nem sempre visíveis. Assim,  a observação do  corpo como superfície de intensidades é fundamental.  Os  afetos  produzem um corpo. As  depressões  produzem corpos-zumbis.  Um corpo deprimido  está  fora  das  categorias do  organismo. O organismo  pode  estar  de pé, mas  o corpo  não. A via  do  corpo é a condição para o método da  diferença [1] e  suas  implicações  terapêuticas. O humor  hipotímico está  disseminado  pelo corpo que  não se  vê, mas  se  intui no Encontro  com o paciente. Isso significa  que  o processo  do desejo “obedece”  linhas  de molarização [2] :
(...)
A.M.

[1] Trata-se do rizoma. “Um rizoma não começa nem conclui; ele se encontra sempre  no meio, entre  as coisas, inter-ser,intermezzo. A árvore  é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe  o verbo  “ser”, mas  o rizoma tem como tecido a conjunção “e...e...e...”, Deleuze, G. e Guattari, F.,Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia – vol1,são Paulo, Ed. 34, 1995, cap.1, p.37.
[2] Refere-se à produção-expressão de  linhas existenciais regidas  pelo  princípio da  identidade e  constituindo o universo  da representação. Traçam e  ordenam  o   diagnóstico-essência  tão caro  à psiquiatria.  Diferenciam-se  das linhas moleculares e  das  linhas de fuga,  com elas  formando mapeamentos de  desejo nos diversos  quadros  depressivos.  Uma  discussão  sobre  essas  linhas  encontra-se  em Deleuze, G. e Parnet, C.,  Diálogos, São Paulo, Ed. Escuta, 1998, p. 145  e seguintes.

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