terça-feira, 15 de julho de 2025

BERGSON - PERCEPÇÃO DO PRESENTE


"Iremos fingir por um instante que não conhecemos nada das teorias da matéria e das teorias do espírito, nada das discussões sobre a realidade ou a idealidade do mundo exterior. Eis-me portanto em presença de imagens, no sentido mais vago em que se possa tomar essa palavra, imagens percebidas quando abro meus sentidos, desapercebidas quando os fecho”

– Bergson, Matéria e Memória


Estamos no mundo, estamos vivos, acordamos de manhã e imagens nos chegam: percebemos. O universo nos chega através de imagens, sensações, penetrações sensíveis que nos invadem. Nossos poros estão abertos. O mundo é um conjunto de imagens, luminosas, sonoras, táteis. Com Bergson, podemos dizer: tudo são imagens. Não no sentido da caverna, olhando reflexos na parede. Já nos afastamos daquele buraco escuro, existe luz, imagens, até mesmo em excesso!

A imagem e o movimento infinito são o Plano de Imanência bergsoniano. Estamos no meio do mundo, tudo são imagens! Elas nos cortam, elas nos penetram. Saímos ao sol e o vemos brilhar, fechamos os olhos e sentimos seus raios em nossa pele. A voz chega ao nosso ouvido como uma melodia que brota da harmonia de fundo da cidade. Há uma multiplicidade de imagens que seguem em todas as direções, se cruzam, e chegam até nossos órgãos dos sentidos. Fluxos nos atravessam. A antena de celular emite sinais, mas podemos ir mais longe, a imagem da comida é mastigada e deglutida, a pomada é espalhada na superfície da pele e absorvida.

E tudo isso excessivo! Até demais! Há muita luz, estamos ofuscados. Há todo um universo de imagens que se cruzam e interpenetram. Nessa massa gigantesca de imagens, enquanto algo é recortado, absorvido, outras nos escapam e são deixadas de lado. Não queremos toda a luz que recebemos, não precisamos de tudo isso. O corpo recorta as imagens do exterior, captando, pegando, segurando, apenas aquilo que lhe interessa. De tudo que nos chega, apenas uma parte fica. Tudo é muito, queremos apenas uma parte. A percepção é menos que o conjunto geral de luzes que nos chegam, uma parte recortada do todo. Retiramos algo do mar de luz, escurecemos umas partes, para defini-las e utilizá-las e jogamos fora o resto.

Podemos definir a percepção com todas as letras: um conjunto selecionado de imagens recortadas pelo corpo. A percepção é menos que a quantidade de imagens que recebemos (isso é bom e ruim). Os olhos captam apenas uma parte do espectro eletromagnético, a cóclea capta apenas uma faixa de vibrações sonoras medidas em Hertz. O paladar, o olfato, os receptores sensoriais de calor da pele, é tudo o mesmo princípio. Deixamos passar um monte de coisas, o corpo não consegue absorver tudo, ele é limitado. Mas retemos o que nos interessa, algo passa, mas algo se reflete e retorna para o mundo. Somos como que espelhos furados, retorcidos, singulares.

(...)

Do site Razão Inadequada, acessado em 15/07/2025

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