SOBRE O FIM DO ANO
Não há fim do ano. Tudo é processo, tudo está no meio e essa é a certeza para jogar bem, como diz Deleuze.
O fim do ano tornou-se uma forma social (instituição) criada pelo sistema do capital. O objetivo, como em outras áreas da atividade humana, é a produção de uma mercadoria (o Réveillon) e seu consumo em multiplicações festeiras.
Este é um belo esquema teórico derivado de Marx. Contudo, não atinge a questão do processo de subjetivação do tempo como categoria essencial das subjetividades.
Na marcação do tempo o que está em jogo é a vida, expressa como existência social. Em tempos atuais é uma linha do desejo atrelada à formação capitalística planetária. Ela executa a cristalização do papel social do consumidor.
Ora, ser consumidor implica, graças às maravilhas técnico-científicas, em consumir a imagem de si mesmo no mundo de uma linguagem redundante: a internet.
Quanto ao "redundante", tal imagem funciona em repetição estéril e automática num vazio de criatividade. Naturalizada em loucas velocidades.
E o tempo "pede" uma imagem física, orgânica, corpórea.
Sendo assim, o "fim do ano" é tão só mais um fluxo poderoso de imagens planetárias. O que as move é o pavor da morte coletivizado e maquiado em mensagens de esperança. O tempo é fatiado, exposto e tornado visível: o ano novo costuma ser apresentado como um bebê...
Compreensiva a decepção das pessoas quando o relógio bate meia noite e um segundo, ao dizerem: "oxi, nada mudou!"
Imediatamente pronta, recomeça a Confraternização Universal dos Humanos em 1º de janeiro.
A.M.
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