domingo, 9 de junho de 2013

VONTADE DE NADA

No mundo moderno, as depressões avançam qual uma epidemia irrefreável. A concepção biomédica de ser "uma doença do cérebro" é simplista e burra. No entanto, os anti-depressivos pululam em toda parte onde alguém anseia pela morte.  Um psiquiatra delira: o que fazer diante de forças poderosas que extraem mais-valia do sofrimento humano? Marx vive. 

A.M.

UROS

Ilhas flutuantes no lago Titicaca

Quão mais inteligentes são as mulheres apaixonadas do que os homens de carácter!

Robert Musil
vazio agudo
ando meio
cheio de tudo

Paulo Leminski

PAULINHO DA VIOLA - Filosofia


Psiquiatras ficam acuados em batalha sobre a saúde mental

Não há prova científica de que diagnósticos psiquiátricos como os de esquizofrenia e transtorno bipolar sejam válidos ou úteis, segundo uma importante entidade que representa os psicólogos clínicos da Grã-Bretanha. 

Em uma atitude inédita, e que já atraiu uma forte reação dos psiquiatras, a divisão de psicologia clínica (DCP, na sigla em inglês) da Sociedade Britânica de Psicologia divulgou na segunda-feira (dia 13) uma nota declarando que, dada a falta de provas, é hora de uma "mudança de paradigma" na forma como as questões de saúde mental são entendidas. A declaração na prática põe em dúvida o modelo biomédico de perturbação mental predominante na psiquiatria - a ideia de que as pessoas estão sofrendo de doenças tratáveis por médicos usando remédios. O DCP disse que sua decisão de se manifestar "reflete preocupações fundamentais sobre o desenvolvimento, impacto pessoal e suposições centrais dos sistemas [de diagnóstico usados pela psiquiatria]". 

Lucy Johnstone, consultora de psicologia clínica que participou da redação da nota do DCP, disse que não é útil encarar as questões de saúde mental como sendo doenças com causas biológicas. 

"Pelo contrário, agora há provas contundentes de que as pessoas desmoronam como resultado de uma complexa mistura de circunstâncias sociais e psicológicas - luto e perda, pobreza e discriminação, trauma e abuso", disse Johnstone. A provocativa declaração do DCP foi programada para sair pouco antes do lançamento do DSM-5, a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, feito pela Associação Americana de Psiquiatria. 

O manual está sendo atacado por expandir a gama de problemas de saúde mental que são classificados como transtornos. Por exemplo, a quinta edição do livro, que passou duas décadas sem ser atualizado, classifica manifestações de tristeza, achaques nervosos e preocupações com a falta de saúde física como sendo as doenças mentais chamadas "transtorno depressivo grave", "desregulagem perturbadora do humor" e "transtorno do sintoma somático", respectivamente. 

Algumas das omissões do manual são tão polêmicas quanto as suas inclusões. O termo "síndrome de Asperger" não aparece no novo manual, e em vez disso seus sintomas aparecem sob o recém-incluído "transtorno do espectro do autismo". 

O DSM é usado em graus variados em diversos países. A Grã-Bretanha usa um manual alternativo, a Classificação Internacional de Doenças (CID), publicada pela Organização Mundial da Saúde. O DSM, no entanto, ainda é enormemente influente - e polêmico. 

O escritor Oliver James, formado em psicologia clínica, elogiou a decisão do DCP de se manifestar contra os diagnósticos psiquiátricos, e salientou a necessidade de trocar o modelo biomédico de perturbação mental por um que examine fatores sociais e pessoais. 

Em recente artigo no "Observer", James declara: "Precisamos de mudanças fundamentais na forma como a nossa sociedade se organiza, para dar aos pais a melhor chance possível de atender às necessidades da criança e evitar tanta adversidade adulta". 

Já o professor Simon Wessely, membro do Real Colégio de Psiquiatras e chefe do departamento de medicina psicológica do King's College, em Londres, disse que é errado sugerir que a psiquiatria está focada apenas nas causas biológicas das perturbações mentais. E, em outro texto do jornal, ele defende a necessidade de criar sistemas de classificação para os transtornos mentais. 

"Um sistema de classificação é como um mapa", explica Wessely. "E, assim como qualquer mapa é apenas provisório, pronto para ser alterado à medida que a paisagem muda, o mesmo vale para a classificação." 

Jamie Doward - do "Observer"


O QUE PODE UM CORPO?

"Só há um templo no mundo e é o corpo humano. Nada é mais sagrado que esta forma sublime. Inclinar-se diante de um homem é fazer homenagem a esta revelação na carne. Toca-se o céu quando se toca um corpo humano".

Friedrich Novalis

QUEM FOI KAFKA?


TEXTO E CONTEXTO

Na peça “Ricardo II”, de Shakespeare, há uma fala famosa que é muito citada como um hino patriótico à Inglaterra. Quem a diz é o duque John de Gount, tio do rei Ricardo II e pai de Henry Bolingbroke, desafeto exilado do rei, que acabará derrubando do trono.

John de Gount, à beira da morte, exalta as riquezas e as glórias do seu país (“este outro Eden”, “esta pedra preciosa posta no mar prateado”, a salvo “da inveja de terras menos felizes”, “este lote abençoado, este chão, este reino, esta Inglaterra”) num tom de entusiasmo crescente que empolga até quem não é inglês — se lido até a metade.

O resto da fala, raramente citada, é um lamento pelo declínio desta maravilha, cuja grandeza o rei está dilapidando. “Esta Inglaterra acostumada a conquistar, hoje é vergonhosamente derrotada por si mesma”, diz Gount, que termina desejando que “o escândalo desapareça junto com a minha vida, alegrando minha morte iminente”.

Já contei (umas cem vezes) que vi o Millôr Fernandes levantar uma plateia num encontro literário em Passo Fundo com a leitura de um texto de candente defesa da democracia e dos direitos humanos, e depois da ovação revelar que acabara de ler o discurso de posse do general Médici na Presidência da República, quando se inaugurava o período mais escuro da ditadura.

Um período em que com frequência o discurso do poder contrastava com a realidade à sua volta, e o texto era desmentido pelo contexto. A aula do Millôr foi sobre a força autônoma da retórica, capaz de mobilizar uma multidão que ignora seu contexto. Mas pior do que isto é quando o contexto é conhecido e mesmo assim as palavras compõem outra realidade, e empolgam e mobilizam do mesmo jeito.

A história brasileira está cheia de exemplos do triunfo da oratória bacharelista sobre a realidade do momento, do dito sem a menor relação com o feito.

Para ser justo com o Médici e o autor do seu discurso, é preciso reconhecer que em todo discurso de posse presidencial há um desencontro parecido entre intenção e realidade. Quem não se lembra do discurso de posse do Collor?

Shakespeare tem outros exemplos de textos em que uma parte se vira contra a outra, como a exaltação que vira lamento de John de Gount. O mais notório é a fala de Marco Antonio sobre o corpo de César assassinado, que começa dando razão aos assassinos e termina incitando a massa a matá-los. Em outro trecho da peça alguém diz que se deve ter muito, mas muito cuidado com os bons oradores.

Luis Fernando Veríssimo

PINA BAUSCH Tribute


RIR POR RIR

(...) Apenas entendo que o riso é a mais certeira prova da alma. Olhai para uma criança: só as crianças sabem rir com perfeição, por isso são fascinantes. É abominável a criança que chora, mas a que ri alegremente é um raio do paraíso, é o futuro do homem quando ele, finalmente, se tornar tão puro e ingénuo como uma criança.

Fiodor Dostoievski

sábado, 8 de junho de 2013

O EU É POLÍTICO

"Primeiro levaram os negros, Mas não me importei com isso. Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, Mas não me importei com isso. Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis, Mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável. Agora estão me levando. Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo."

Bertolt Brecht

MARIANA AYDAR - Solitude


ÉTICA DA CLÍNICA 
    
Na clínica, antes da técnica é preciso compor linhas de  vida. Implica em dizer que o trabalho  com o paciente segue a arte como experimentação. Experimente, não interprete, diz Deleuze. Os dados da história pessoal e das contingências atuais estão baralhados na superfície do Encontro. O trabalho, no caso do psiquiatra, será o de destruir formas sociais rígidas (por exemplo, o afã de  medicar, o diagnóstico"cidológico",o corporativismo médico, o dinheirismo, etc) e criar dobras, saídas, mesmo  ínfimas e imperceptíveis, para os impasses existenciais.
(...)
A.M.

DESEJAR...