segunda-feira, 29 de junho de 2026

O TEMPO NÃO VOLTA

O movimento do capital é o da consistência das relações sociais. São fluxos de toda ordem que se expressam no cotidiano das pessoas. Estas se inserem no desempenho de papéis e funções, sendo o trabalho um dos meios por excelência para "medi-las". A família seria outro. Ora, tal consistência subjetiva (e objetiva) é o que estabelece condições para alguém dizer "estou vivo". Isso foi sendo instaurado na história das relações sociais de produção, fato que Marx já registra em 1844 nos seus "Manuscritos econômicos e filosóficos". Dito de outro modo, as relações humanas, ou mais profundamente, a condição humana ( o que é o "humano ?") foi sendo moldada e produzida (até os nossos dias) pelo sistema do capital como mega-máquina em escala planetária ao reduzir as sociedades a um significante único: o capital.  Tornou-se ridículo falar em vida "espiritual". Num mundo convertido a condições materiais e semióticas aparentemente eternas,  o fenômeno da nostalgia social dos "bons tempos" surge como uma espécie de arcaísmo: é o caso do futebol brasileiro atualmente jogado e o efeito melancólico sobre a torcida.


A.M. 

AUGUST MACKE


 

domingo, 28 de junho de 2026

PORQUE O AMOR TORNA FRÁGIL


porque o amor torna frágil tudo o que toca

e porque eu mesma não evitei que

tocasse meu corpo

meus ossos

minha respiração

meu sono

por isso temo por mim —

pelo risco de desabar a um

tremor de pálpebras


Mar Becker



 

diante do terremoto terrível na Venezuela

a natureza não tem culpa de nada

não existe desastre natural

só existe desastre social


A.M.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

No sertão do Araripe

vive uma mulher que me faz viver

fora daqui

fora de mim

rumo à gente de origem bantu 


e que agora começasse tudo

o rio a mata a pedra o sonho

a vida



A.M.





quinta-feira, 25 de junho de 2026

VELOCIDADE E PODER


DIPLOMATIQUE: O que preocupa o senhor são os limites do tempo humano?


VIRILIO: Sim, é preciso trabalhar sobre a natureza do poder da velocidade atualmente, porque a velocidade da luz é um absoluto e é o limite do tempo humano. Nós estamos no “tempo-máquina”; o tempo humano é sacrificado como os escravos eram sacrificados no culto solar de antigamente. Eu o digo, nós estamos num novo Iluminismo em que a velocidade da luz é um culto. É um poder absoluto que se esconde atrás do progresso, e é por isso que eu afirmo que a velocidade é a propaganda do progresso. Eu não tenho nada contra o progresso. Quando eu digo que é preciso “ir mais devagar”, alguns zombam de mim. Pensam que eu condeno a revolução dos transportes, dos trens, dos carros, dos aviões, que eu sou contra os computadores e contra a Internet. Não é nesse nível que as coisas estão em jogo...

(...)

Trecho da entrevista de Paul Virilio concedida ao Le Monde Diplomatique Brasil em 15/06/2011

terça-feira, 23 de junho de 2026

O filme "O dia D" do Spielberg não é para os críticos de arte, nem para os influencers digitais, nem para os consumidores, nem para os eruditos, nem para o público, nem para os técnicos da comunicação, nem para os inteligentes, nem para os ufólogos, nem para os espiritualistas, não é para ninguém. 

Impassível, ele flutua sobre a Terra num círculo de fogo.


A.M.


 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O cimo da paixão


Do alto da Pedra do Claranã

se vê um amor da natureza

em cor de primavera.


Oferta dos deuses

para um coração

solitário e distante,


isso basta 

para viver.?


A.M.


sábado, 20 de junho de 2026


 

existe uma solidão povoada

de ideias sonhos nuvens e luares

habitando o corpo

da cidade silenciosa


onde estão todos?



A.M.

 

A nossa sociedade ocidental contemporânea, apesar do seu progresso material, intelectual e político, dirige-se cada vez menos para a saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amor no ser humano; tende a transformá-lo num autômato que paga o seu fracasso com as doenças mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um delírio pelo trabalho e pelo chamado prazer.


Aldous Huxley

terça-feira, 16 de junho de 2026

A DIFÍCIL TAREFA

O organismo físico-químico, visível, palpável e mensurável, é o objeto da medicina, onde ela de fato intervêm, e, caso obtenha êxito terapêutico (principalmente por isso), retira mais-valia de poder. No entanto, junto a esse organismo e fora da relação linear causa-efeito, funciona o corpo das intensidades livres. Não é visível, não é palpável, não é mensurável, nem segue os mapas fisiopatológicos vistos em exames por imagem. Distinto da consciência que sempre obedece ordens, ele não obedece, é rebelde e alterna com o organismo fluxos atuais e/ou antigos de afetos nômades. Tampouco é o corpo que a psicanálise entronizou como "a outra cena". São fluxos que impulsionam a vida, que são a vida : potências sem forma. Em face desse real estado de coisas, tal corpo traz grandes dificuldades à pesquisa. Como acessar algo que não se vê, não se toca nem se mede? É que na semiologia clínica há um "corpo que não aguenta mais" e que se expressa em sintomas álgicos (por exemplo, cefaléias crônicas - simbolismo do órgão?) , mas também como multiplicidade de sintomas que chamamos de angústia. Aqui não se trata de usar a psicanálise como doutrina ou método de trabalho, mas de "roubar" deste saber a hipótese de um inconsciente para além da representação de papai-mamãe. Um inconsciente "órfão, ateu e anarquista", inconsciente-corpo.  Difícil a tarefa de mapeá-lo.



A.M

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Não tenho ambições nem desejos.

Ser poeta não é uma ambição minha. 

É a minha maneira de estar sozinho. 


Fernando Pessoa

quarta-feira, 10 de junho de 2026

 

QUE DEUS?


Numa visão a partir de Espinosa crer no Deus da teologia cristã é reproduzir a relação dirigente-comandado,  governante-governado, rei-súdito, patrão-empregado, senhor-escravo, etc;  assim,   o pensamento se mantém prisioneiro de uma relação entre seres humanos, ou,  dito  de  um  modo cristão, numa relação entre pessoas.  Deus seria uma pessoa. No entanto, basta considerar a existência do Infinito tempo-espaço para jogar por terra essa bobagem humanísta. Não há dimensão existencial, espiritual, que se compare em grandeza a finitude humana com  o cosmos. Daí a atitude mais honesta e inteligente (apesar das diferenças) é a do agnóstico, do materialista, do ateu e  do trágico. Pena que a tal "bobagem humanísta" controle tanta gente e produza subjetividades atoladas no medo e na servidão.


A.M.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Quando faltou luz


quando faltou luz

ficou aquele breu e eu

com as mãos tremendo

morta de medo

de tudo se iluminar

de repente


Alice Sant´Anna

 

O  ESCÁRNIO

O que mostra nossa decadência, nossa degenerescência, é a maneira pela qual experimentamos a necessidade de situar a angústia, a solidão, a culpabilidade, o drama da comunicação, todo o trágico da interioridade. Mesmo Max Brod, todavia, conta como os ouvintes eram tomados pelo riso quando Kafka lia O Processo. E também Beckett é difícil ler sem rir, sem passar de um momento de alegria a um outro momento de alegria. O riso, e não o significante. O riso-esquizo ou a alegria revolucionária é o que sobressai dos grandes livros, em vez de angústias de nosso pequeno narcisismo ou terrores de nossa culpabilidade. Pode-se chamar isso de “cômico do além-do-humano”, ou então “palhaço de Deus”, há sempre uma alegria indescritível que jorra dos grandes livros, mesmo quando eles falam de coisas feias, desesperadoras ou terríveis. Todo grande livro opera já a transmutação e faz a saúde de amanhã. Não se pode deixar de rir quando se embaralham os códigos. Se você colocar o pensamento em relação com o fora, nascem os momentos de riso dionisíaco, é o pensamento ao ar livre. 

(...)

Gilles  Deleuze

ARTE DE AMAR


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor.

Só em Deus ela pode encontrar satisfação.

Não noutra alma.

Só em Deus - ou fora do mundo.


As almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.


Porque os corpos se entendem, mas as almas não.



Manuel Bandeira

quinta-feira, 4 de junho de 2026

 

SEM IGUAL


(...) O humor negro de Marx, a fonte do Capital, é sua fascinação por uma tal máquina: como isso pôde montar-se, sobre que fundo de descodificação e de desterritorialização, como isso funciona, cada vez mais descodificada, cada vez mais desterritorializada, como isso funciona tão solidamente através da axiomática, através da conjugação de fluxos, como isso produz a terrível classe única dos homens cinzentos que mantêm a máquina, como isso não corre o risco de morrer sozinho, mas, antes, o que faz e nos leva a morrer, suscitando até o fim investimentos de desejo que nem sequer passam por uma ideologia enganadora e subjetiva e que nos fazem gritar até o fim Viva o capital na sua realidade, na sua dissimulação objetiva! Nunca houve, a não ser na ideologia, capitalismo humano, liberal, paternal etc. O capital define-se por uma crueldade sem igual quando comparada com o sistema primitivo da crueldade, define-se por um terror sem igual quando comparado com regime despótico do terror. Os aumentos de salário, a melhoria do nível de vida são realidades, mas realidades que decorrem de tal ou qual axioma suplementar que o capitalismo é sempre capaz de acrescentar à sua axiomática em função de uma ampliação dos seus limites (façamos o New Deal, defendamos e reconheçamos sindicatos mais fortes, promovamos a participação, a classe única, venhamos a dar um passo em direção à Rússia que faz o mesmo em nossa direção etc.). Mas, na realidade ampliada que condiciona essas ilhotas, a exploração não pára de endurecer, a falta é arranjada da maneira mais hábil, as soluções finais do tipo “problema judeu” são preparadas muito minuciosamente, o Terceiro Mundo é organizado como parte integrante do capitalismo.

(...)


G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo

 O DESEJO  NÃO  É O PRAZER


Falando de desejo, não pensamos no prazer nem em suas festas. Certamente o prazer é agradável, certamente tendemos a ele com todas as nossas forças. Mas na forma mais amável ou mais indispensável, ele vem, antes, interromper o processo do desejo como constituição de um campo de imanência. Nada mais significativo do que a ideia de um prazer-descarga; obtido o prazer, se terá, ao menos, um pouco de tranquilidade antes que o desejo renasça: há muito ódio, ou medo em relação ao desejo, no culto do prazer. O prazer é assinalação do afeto, a afeição de uma pessoa ou de um sujeito, é o único meio para uma pessoa "se encontrar" no processo do desejo que vai além dela (...)  


G. Deleuze e Claire Parnet in Diálogos

segunda-feira, 1 de junho de 2026

homem zero


a música chega através algoritmos da alma prenhe

perambula em madrugadas cheias

de imagens do corpo jamais tocado

mas desejado na ardência louca dos temporais


assim meu coração pára na aventura de ser só

e invisível



A.M.