quarta-feira, 13 de julho de 2016

GRANDES ESCRITOS


AFETOS NÔMADES

Os afetos são o que impulsiona os modos de subjetivação (pessoa). Eles funcionam em dobras e misturas subjetivas de toda ordem, ao ponto de alguém dizer: "não sei o que estou sentindo". São fruto das relações humanas e inumanas. A psiquiatria tecnológica, sob a grosseria semiótica habitual no trato com eles, despreza-os, já que não escuta o paciente, ou só escuta atrás de uma grade nosológica. No entanto, o que importa para uma clínica psicopatológica que enfatize a diferença, é que os afetos são inomináveis, por isso mesmo expressão trágica (não comunicável) e extrema (radical) da condição humana. O acesso à existência do outro só se fará, então, por meio da linguagem da arte e da poesia, mesmo que não sejamos artistas ou poetas. Para "chegar" ao paciente,é preciso um devir-outro , um devir-alma, um devir-alegria para inventar linhas de risco ao conteúdo do desejo. Elas funcionam em expansão incessante ao mundo (como na criança) criando-o enquanto território singular.

A.M.

terça-feira, 12 de julho de 2016

ANTONIO CARLOS JOBIM - Beatriz


O BRASIL É UMA IGREJA

A Igreja da Maior Presença Universal do Estado, ou IMPUNE.
A IMPUNE é onipresente.
Sacrifica mesmo, sem perdão.
Seus métodos são muito eficientes.
Instituiu cardeais em todas as catedrais (antigamente chamadas de empresas públicas).
Esses cardeais não são fiéis a suas paróquias mas à IMPUNE.
Veja a Nossa Senhora da Petrobras, por exemplo.
Foi crucificada em nome da mãe, do pai, do espirito de porco, amém.
Não teve conversa.
Os Correios também estão em crise.
É que a IMPUNE possui direito divino a nada menos do que 25% do resultado da empresa.
E em nome de Nossa Senhora, ano passado foi mais longe.
Como é toda-poderosa, em 2015 tirou 3,8 bilhões a mais.
Ou seja, sacou da catedral Correios mais de 50% do resultado.
Você, ateu, pode perguntar como uma empresa sobrevive sem 50% do resultado?
Para a IMPUNE não importa sobreviver mundanamente.
O que importa é que estamos só de passagem.
A IMPUNE garante que no paraíso seremos atendidos pela Fedex.
Mas não é só nas empresas públicas que a IMPUNE está presente.
Longe disso, está em cada cantinho obscuro da vida de seus fiéis (antigos eleitores).
Espreitando.
Um bom impunista vive de acordo com seus cânones e dogmas.
E é simples.
Nada de rituais complexos.
Tudo que a IMPUNE espera é que você pague seus dízimos em dia.
E para facilitar já embute a doação no preço de tudo.
A IMPUNE é onisciente.
Sabe tudo que você compra.
Conhece o saldo das suas contas, os gastos do seu cartão.
Está sempre pronta para receber suas doações compulsórias.
Se você fizer uma encomenda no exterior, a IMPUNE cobra 100% de dízimo.
Porque a IMPUNE exige de você uma vida frugal.
Está no livro sagrado.
E é para seu bem.
A reserva de mercado garante que você viva com os valores de 20 ou 30 anos atrás.
Nada de modernidade.
Como na maioria das igrejas, os pastores são todos ricos.
Vereadores, deputados, senadores, divulgam a palavra do senhor Presidente.
E enriquecem com os farelos que caem das coletas de dízimos.
A IMPUNE é uma igreja modelo no mundo.
No próximo mês, a IMPUNE vai sediar as Olimpíadas.
Será uma oportunidade única de mostrar ao mundo como é viver no século passado.
Sem saneamento, sem segurança, sem conforto, sem saúde.
Como uma boa igreja, a IMPUNE provará que não nos dá nada, apenas promessas.
A vergonha, quem passa, somos nós, os fiéis pecadores.
E, cabisbaixos, aceitaremos.
Amém.


Mentor Neto, Isto É, 12/06/2016, 18:18 hs
O sexo sem amor é uma experiência vazia. Mas como experiência vazia é uma das melhores.

Woody Allen

NIKITA MANOKHIN


SINTO 

Sinto 
que em minhas veias arde 
sangue, 
chama vermelha que vai cozendo 
minhas paixões no coração. 

Mulheres, por favor, 
derramai água: 
quando tudo se queima, 
só as fagulhas voam 
ao vento.



García Lorca

A CHAMADA


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana.

Carl G. Jung
A CIÊNCIA RELIGIOSA

No final do século XIX, Nietzsche, sob efeito de uma imensa sobriedade, atestou uma desconfortável realidade, moderna, que ainda nos percorre. A sentença profética de que “Deus está morto”, realizada pelo filósofo alemão, configurou um verdadeiro diagnóstico de nossa época: não é mais Deus ou à Religião que reverenciamos, e sim a Ciência. O significado simbólico a que esta sentença denota é muito mais profundo que uma crítica cética dos dogmatismos religiosos. É o reconhecimento e a legitimação da Ciência como principal instituição produtora de verdades da nossa era. Atualmente, basta-nos um carimbo de “isso foi cientificamente comprovado” para que uma determinada constatação nos seja tomada como inerentemente verdadeira. Quando assim dogmatizamos a Ciência, negligenciamos o fato de que a produção de qualquer conhecimento é histórica e culturalmente localizada. O à priori de qualquer conhecimento ou moral estabelece-se em meio à relações de poder. De modo simplista, cabe-nos reconhecer que há um Poder que rege a produção de todo e qualquer Saber.
(...)
Larissa Vasques Tavira, (EN)CENA, 31/07/2014

SUSAN WONG - I Will Survive


domingo, 10 de julho de 2016

DECLARAÇÃO DO PRÍNCIPE

A religião é o ópio do povo.
Eu, como não sou religioso, tomo ópio mesmo.


Luís Olavo Fontes
Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.

Tennessee Williams

GRANDES ESCRITOS


POLÍTICA DA HISTERIA

A psicopatologia do século XXI assiste à histeria não mais como uma entidade clínica, ao estilo dos tempos freudianos. Bem mais, o que hoje observamos são sintomas histéricos esparsos inscritos em corpos-organismos que a psiquiatria e saberes correlatos instituiram e instituem sem cessar. Depressões, psicoses, manias, somatoses, anorexias e outras síndromes inomináveis, traçam um mosaico de sintomas que faz por estabelecer e preparar um campo nosológico "ideal" para o uso de psicofármacos. Trata-se de um máquina clínica funcionando na consciência do sofrimento psíquico, não só do paciente, mas dos que estão em torno (familiares, amigos, colegas, etc). A histeria não deixa dúvidas: o corpo que "não aguenta mais" (cf  David Lapoujade) é o corpo dos supliciados pela culpa, pelo ressentimento e pela vingança. Nesse mister a forma-religião cumpre um papel milenar, a essa altura da História em aliança plena com as relações sociais capitalísticas. A política, distanciada e relegada às funções do Estado opressor, desaparece e reaparece como dor de existir em cada cidadão, mesmo e principalmente quando ele não o admite e prossegue o consumo de imagens-clichês nas telas do horror consentido e desejado.

A.M.