domingo, 12 de dezembro de 2021

PARA UMA  ANÁLISE DA MEDICINA


É possível uma análise da medicina seguindo duas linhas conceituais ( entre outras). A primeira é a linha institucional. Refere-se à inserção política da medicina na sociedade a que pertence. Como a sociedade, no caso brasileiro, é capitalista, a medicina funciona como forma social conectada ao processo de produção de mercadorias. Os atendimentos médicos, os serviços, as consultas, as técnicas, os exames, etc, tudo é mercadoria exposta na vitrine do Mercado. Isso obedece ao método do capitalismo, o capital. Uma das consequências práticas de tal linha de pesquisa é ir contra um certo humanismo natural da medicina, outrora cercado por doce aura de romantismo. Acreditava-se (acredita-se?) que a medicina queria sempre o bem do paciente e que ser médico era uma profissão "linda" (sem ironia).A segunda linha conceitual diz respeito à visão epistemológica. Ela prioriza as relações de causalidade linear, a observação e descrição de objetos sólidos, mensuráveis e visibilizáveis e a compreensão mecanicista de um organismo físico-químico. Os exames de imagem são exemplos atuais e perfeitos.Está aí a enorme produção de conhecimento como efeito e a escassa produção de conhecimento como origem (etiologia) Ora, essas duas linhas (ou eixos) servem tão só como baliza teórico-prática necessária a uma visão crítica. Ao mesmo tempo não descarta os importantes serviços prestados ao paciente, mormente quando lida com procedimentos diagnósticos precisos e preciosos. E mais ainda em ações velozes nas terapêuticas de emergência. Como diria um bioquímico, a Emergência "tira gente da cova". Em suma, esse breve artigo tenta sobretudo por a medicina como um empreendimento social, mesmo que se mostre obra de algum doutor (o médico) ou expresse o indivíduo como único beneficiário (o paciente). Para além de uma relação dual, a medicina é uma relação coletiva, entendendo o coletivo como a multiplicidade do ser humano. Trata-se de uma ética de vida, ética da potência que precede (ou deveria preceder) as duas linhas referidas. 


A.M

Live 11/12/21 - Átila Iamarino

LINHAS DE COMBATE

Há um combate silencioso no âmago da clínica da diferença. Ele segue por sendas obscuras que mapeiam singularidades não ditas, ou se ditas, apenas como semióticas (regimes de signos) secretas, talvez clandestinas. Não se trata de extrair ou identificar conteúdos latentes ao jeito da psicanálise, mas de criar condições práticas para que formas expressivas façam valer potências subjetivas sequer sonhadas. Deste modo, a profusão de signos enviados (de toda ordem) faz por "forçar" as singularidades a um rearranjo no universo subjetivo. A prudência, a delicadeza e a sabedoria ancoram-se na relação terapêutica como devir-outro, ou seja, como exposição ao contágio dos afetos enquanto forças movimentando a irreversibilidade do tempo que não se vê, mas que se sente. Enfim, trabalhar a diferença é de fato um combate porque implica no uso de mil linhas rizomáticas sob a égide da ética (que potências?) e da estética ( que criações?) se cruzando e se aliando no momento do uso da técnica. Que vem depois.


A.M.

ATAQUE DOS CÃES, 2021

sábado, 11 de dezembro de 2021

quando faltou luz

ficou aquele breu e eu

com as mãos tremendo

morta de medo

de tudo se iluminar

de repente



Alice Sant ´Anna

O que é delírio?

Delírio é um dos principais sintomas em psicopatologia clínica. Numa visão biomédica, deve ser  eliminado,  como, por exemplo, se faz com uma dor de cabeça.

Ou ainda, segundo essa visão, remete a uma causa, a qual sendo eliminada, cessa o efeito (sintoma). Relação linear causa-efeito. A face tosca da "inteligência psiquiátrica."

Tanto num caso como noutro, a compreensão "do que é delírio" está falseada. Não conduz ao essencial que é cuidar do paciente. Leva apenas ao controle e à violência maquiada.

Mas, afinal, o que é isso, o delírio?

Delírio é uma vivência em que o juízo da realidade (de si e do mundo) está alterado. Mais profundamente significa dizer que uma outra realidade foi inventada. Trata-se de uma crença.

O que está em jogo então é a verdade. Pergunta-se: isso é verdade?

A questão da verdade abrange todos nós.A verdade vem de fora. Desde muito cedo nossos pais  enfiam verdades em nossas mentes. Acreditamos, claro, sem questionar. E mais: a crença (qualquer uma) vem sempre acompanhada de um afeto. A crença na família, na escola, na pátria, em Deus, etc...

Delirar talvez seja acreditar no que ninguém ou poucos acreditam. A arte, a filosofia e a ciência fazem isso.

E por que surge o caráter patológico, ou seja, aquilo que conduz à busca de uma ajuda clínica? Lembremos que nem sempre o delirante quer ajuda. Isso é fácil de verificar.

De todo modo, o delírio em saúde mental remete a várias causas e formas clínicas. Os quadros mais graves são os que o paciente nem mais delira já que é o próprio delírio. São as psicoses por vezes chamadas de esquizofrenias.

A rigor, qualquer patologia mental pode apresentar delírio. Ou mesmo qualquer vivência mental não patológica ( desilusão amorosa, a morte de alguém querido, um trauma existencial) pode  gerar um delirio.

O capítulo sobre delírio em psicopatologia é muito extenso. Convém destacar aqui o aspecto vivencial que o aproxima do normal ou do patológico.

Neste sentido o delírio do paciente pode estar próximo ao "delirio" do técnico que o acompanha. Esse fato nem sempre ocorre, claro, mas serve como linha comum do Encontro com a loucura, conforme exposto em texto anterior.

Concluindo, o delírio está em toda a parte onde há alguma crença. E sempre há. Ele compõe a realidade do mundo (veja a política...) e nem por isso  risperidona e haldol lhes são prescritos. Só para delirantes cadastrados.


A.M

sábado, 4 de dezembro de 2021

 LUIZ  INÁCIO e a confissão do século.

O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: - Senhoras e senhores, eu sou um canalha.


Nelson Rodrigues


 

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

OUTROS ENCONTROS

O organismo físico-químico, visível, palpável e mensurável, é o objeto da medicina, onde ela de fato intervêm, e, caso obtenha êxito terapêutico (principalmente por isso), retira mais-valia de poder. No entanto, junto a esse organismo e fora da relação linear causa-efeito, funciona o corpo das intensidades livres. Não é visível, não é palpável, não é mensurável, nem segue os mapas fisiopatológicos vistos em exames por imagem. Distinto da Consciência, a qual sempre obedece ordens, ele, ao contrário, não obedece, é rebelde e alterna com o organismo fluxos atuais e/ou antigos de afetos nômades. São estes que impulsionam a vida, que são a vida : potência sem forma. Em face desse estado (real) das coisas, tal corpo traz grandes dificuldades à pesquisa. Como acessar algo que não se vê, não se toca nem se mede? Na clinica psicopatológica é possível constatar: há um "corpo que não aguenta mais" e que se expressa em sintomas álgicos, como por exemplo em cefaléias crônicas, mas também na multiplicidade de sintomas que englobamos sob o nome de angústia. Aqui não se trata de usar a psicanálise como doutrina ou método de trabalho, mas de roubar deste saber a hipótese de um inconsciente para além da representação de papai-mamãe. Um inconsciente "órfão, ateu e anarquista", inconsciente-corpo. Apesar de estar sempre ao alcance da mão, não é fácil encontrá-lo.


A.M.

Covid: 4 perguntas ainda sem resposta sobre impacto da ômicron

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.


Woody Allen

domingo, 21 de novembro de 2021

A  LINHA DO  INFINITO

Há um limite a partir do qual a diferença não se reconhece e não mais reconhece o mundo. Um horror tão extremo e definitivo se instala: ela, a diferença, torna-se pequena e frágil. Tudo o indica. Fala-se da história da humanidade: uma brochada cósmica. A diferença não mais reconhece aí a palavra "vida" por entre escombros da própria vida. Resta o império do medo. Internético, ele assombra o dia que nasce. Assombra todas as revoluções. Nivela os afetos. Aniquila a política. Uma melancolia compõe a paisagem dos monstros da História. E os adorna. E os adora. Seguidores idiotizados nutrem-se da morte camuflada. Anunciam o fim, apocalipse moderno. No entanto, algo resiste... a diferença...

A.M.