sábado, 30 de agosto de 2025

Hoje sinto no coração

um vago tremor de estrelas,

mas minha senda se perde

na alma de névoa.


A luz me quebra as asas

e a dor de minha tristeza

vai molhando as recordações

na fonte da ideia.


Todas as rosas são brancas,

tão brancas como minha pena,

e não são as rosas brancas

porque nevou sobre elas.


Antes tiveram o íris.

Também sobre a alma neva.


A neve da alma tem

copos de beijos e cenas

que se fundiram na sombra

ou na luz de quem as pensa.


A neve cai das rosas,

mas a da alma fica,

e a garra dos anos

faz um sudário com elas.


Desfazer-se-á a neve

quando a morte nos levar?

Ou depois haverá outra neve

e outras rosas mais perfeitas?


Haverá paz entre nós


como Cristo nos ensina?

Ou nunca será possível

a solução do problema?

E se o amor nos engana?

Quem a vida nos alenta

se o crepúsculo nos funde

na verdadeira ciência

do Bem que quiçá não exista,

e do mal que palpita perto?


Se a esperança se apaga

e a Babel começa,

que tocha iluminará

os caminhos da Terra?


Se o azul é um sonho,

que será da inocência?

Que será do coração

se o Amor não tem flechas ?


Se a morte é a morte,

que será dos poetas

e das coisas adormecidas

que já ninguém delas se recorda?


Oh! sol das esperanças!

Água clara! Lua nova!

Coração dos meninos!

Almas rudes das pedras!


Hoje sinto no coração

um vago tremor de estrelas

e todas as coisas são

tão brancas como minha pena.


Frederico Garcia Lorca

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