quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Take Root - Imre van Opstal & Marne van Opstal (NDT 1 | Second Nature)

SOBRE O FIM DO ANO

Não há fim do ano. Tudo é processo, tudo está no meio e essa é a certeza para jogar bem, como diz Deleuze.

O fim do ano tornou-se uma forma social (instituição) criada pelo sistema do capital. O objetivo, como em outras áreas da atividade humana, é a produção de uma mercadoria (o Réveillon) e  seu consumo em multiplicações festeiras.

Este é um belo esquema teórico derivado de Marx. Contudo, não atinge a questão do processo de subjetivação do tempo como categoria essencial das subjetividades.

Na marcação do tempo o que está em jogo é a vida, expressa como existência social. Em tempos atuais é uma linha do desejo atrelada à formação capitalística planetária. Ela executa a cristalização do papel social do consumidor.

Ora, ser consumidor implica, graças às maravilhas técnico-científicas, em consumir a imagem de si mesmo no mundo de uma linguagem redundante: a internet.

Quanto ao "redundante", tal imagem funciona em repetição estéril e automática num vazio de criatividade. Naturalizada em loucas velocidades. 

E o tempo "pede" uma imagem física, orgânica, corpórea.

Sendo assim, o "fim do ano" é tão só mais um fluxo poderoso de imagens planetárias. O que as move é o pavor da morte coletivizado e  maquiado em mensagens de esperança. O tempo é fatiado, exposto e tornado visível: o ano novo costuma ser apresentado como um bebê...

Compreensiva a decepção das pessoas quando o relógio bate meia noite e um segundo, ao dizerem:  "oxi, nada mudou!"

Imediatamente pronta, recomeça a Confraternização Universal  dos Humanos em 1º de janeiro.


A.M.

 

Violência na Bíblia: Como Coexiste com o Amor e a Moralidade?

sábado, 27 de dezembro de 2025

É verdade que Deus faz o mundo calculando, mas seus cálculos nunca estão corretos, e é mesmo esta injustiça no resultado, esta irredutível desigualdade, que forma a condição do mundo.


Gilles Deleuze

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

MÚSICA : O QUE É CRIAR?

V (Na treva mais gelada, na brancura)


Na treva mais gelada, na brancura 

Mais cega e morta, a vida ainda transluz.

Até de dentro de uma sepultura

Brota um soluço trêmulo de luz,

A luz que sua, a luz que desfigura

As pétalas pendidas nos pauis,

A espuma nos penhascos, fria e pura,

As chamas em seus ápices azuis.

Desalentos, angústias e canseiras

Tornam maior, mais tenebroso o olhar

Que lembra o olhar dos mortos: só olheiras

São existências que se dão inteiras

E sofrem, como o vento, como o mar,

Como todas as coisas verdadeiras.


Dante Milano


ALARMANTE: O Estado brasileiro está sendo MANIPULADO - Bob Fernandes Exp...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

CONTRA O NIILISMO REATIVO

Para Deleuze, Dionísio, herdado de Nietzsche, não é apenas o deus grego do vinho e do êxtase, mas o princípio da afirmação do múltiplo, da diferença e do devir, representando a vida que celebra o caos, a dança e a pluralidade contra a negação e a unidade, fundamental na sua filosofia de aceitar o “Sim” ao mundo e ao eterno retorno do mesmo como uma força criativa e imanente.

Extraido da IA

PAVEL MINKTOV

 


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

não gosto do natal


porque não é natal

sequer na data

ou nas intenções


prefiro nascimentos

alegres 

todos os dias


onde acho?


A.M.


Philip GLASS: Metamorphosis One

Rever o passado olhar com olhos calmos pro meu presente e fazer o possível para não ficar pensando no futuro – ao menos nesse futuro daqui alguns anos que ninguém na verdade sabe se chegará. Fecho os olhos e começo a pedir. Não são coisas muito complicadas de serem atendidas. Ao menos eu acho que não. Apenas me concentro em cada rosto que já conheci até hoje e nos sentimentos que tenho por cada uma dessas pessoas. Que não nos faltem bons sentimentos sejam no Natal ou em qualquer dia do Ano Novo que se aproxima. Que nos falte egoísmo. Que nos sobre paciência pra enfrentar mais trezentos e sessenta e cinco – ou seria trezentos e sessenta e seis? – dias. Que sejamos capazes de enxergar algo de bom em cada momento ruim que nos acontecer. Que não nos falte esperança. Que novos amigos cheguem.Que antigos amigos sejam reencontrados.Que cada caminho escolhido nos reserve boas surpresas. Que músicas de letras e melodias bonitas nos façam suspirar.Que a cada sorriso que uma criança der nos faça ter um bom dia e enxergar uma nova esperança. Que nos sobre tempo para beber e conversar com os amigos. Que cada um de nós saiba ouvir cada conselho dado por uma pessoa mais velha. Que não nos falte vontade de sorrir apesar dos pesares. Que sejamos leves. Que sejamos livres de preconceitos. Que nenhum de nós se esqueça da força que possui. Que não nos falte fé e amor.

Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

DIREITA E ESQUERDA


Reduzir a política ao binarismo direita versus esquerda é um achincalhe ao pensamento e à sua produção desejante.

Tal manobra é a das mídias sociais e das instituições produtoras do controle subjetivo de milhões.

Influencers por toda a parte se encarregam de complementar a imbecilização das massas.

A linguagem se expressa por um enxugamento semiótico das paixões da alma, da arte e dos devires incontroláveis.

No fim das contas, qual "força da natureza",  tudo recomeça sob o signo da burrice. 

A violência imposta sobre os "humilhados e ofendidos" se maquia como tecnologia triunfante.

Na terra exausta e exangue o Natal subsiste com suas alegorias de horror ao menino.


A.M.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Faço análise há trinta anos e a única frase inteligente que já ouvi do meu analista é a de que preciso de tratamento.


Woody Allen

Oscar Peterson Trio: Satin Doll (1988)

TRECHO DE " O ABECEDÁRIO, 1996"


CP: Para fechar a infância, senão não terminamos nunca, a sua parece ter tido pouca importância para você. Você não fala dela e nem é uma referência. Temos a impressão de que a infância não é importante para você.

GD: Sim, claro. É quase em função de tudo o que acabo de dizer. Acho que a atividade de escrever não tem nada a ver com o problema pessoal de cada um. Não disse que não se deve investir toda a sua alma. A literatura e o ato de escrever têm a ver com a vida. Mas a vida é algo mais do que pessoal. Na literatura, tudo o que traz algo da vida pessoal do escritor é por natureza desagradável. É lamentável, pois o impede de ver, sempre o remete para seu pequeno caso particular. Minha infância nunca foi isso. Não é que eu tenha horror a ela! Mas o que me importa, na verdade, é como já dizíamos: “Há o devir-animal que envolve o homem e o devir-criança”. Acho que escrever é um devir alguma coisa. Mas também não se escreve pelo simples ato de escrever. Acho que se escreve porque algo da vida passa em nós. Qualquer coisa. Escreve-se para a vida. É isso. Nós nos tornamos alguma coisa. Escrever é devir. É devir o que bem entender, menos escritor. É fazer tudo o que quiser, menos arquivo. Respeito o arquivo em si. Neste caso, sim, quando é arquivo. Mas ele tem interesse em relação a outra coisa. Se o arquivo existe é justamente porque há uma outra coisa. E, através do arquivo, pode se entender alguma coisinha desta outra coisa. Mas a simples idéia de falar da minha infância — não só porque ela não tem interesse algum — me parece o contrário de toda a Literatura. Se me permite, vou ler uma coisa que já li mil vezes e que todos os escritores já disseram. Mas vi este livro ontem, eu não o conhecia. É de um grande poeta russo, Mandelstam. Eu o estava lendo ontem.

(...)

G. Deleuze e Claire Parnet

domingo, 14 de dezembro de 2025

O FILME DO BOZO - EDUARDO BUENO

Quem combate monstros precisa tomar cuidado para que isso não o torne um monstro. Se você olha muito tempo para dentro do abismo, o abismo também começa a olhar dentro de você.

Friedrich Nietzsche 


sábado, 13 de dezembro de 2025

"Europa é mãe do genocídio na Paleostina", explica Alexandra Lucas Coelho

Milagres


Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial?

Por mim, de nada sei que não sejam milagres:

ou ande eu pelas ruas de Manhattan,

ou erga a vista sobre os telhados

na direcção do céu,

ou pise com os pés descalços

bem na franja das águas pela praia,

ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,

ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem

/amo,

ou à mesa tome assento para jantar com os outros,

ou olhe os desconhecidos na carruagem

de frente para mim,

ou siga as abelhas atarefadas

junto à colmeia antes do meio-dia de verão

ou animais pastando na campina

ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,

ou a maravilha de um pôr-de-sol

ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,

ou o estranho contorno delicado e leve

da lua nova na primavera,

essas e outras coisas, uma e todas

— para mim são milagres,

umas ligadas às outras

ainda que cada uma bem distinta

e no seu próprio lugar.


Cada momento de luz ou de treva

é para mim um milagre,

milagre cada polegada cúbica de espaço,

cada metro quadrado da superfície da terra

por milagre se estende, cada pé

do interior está apinhado de milagres.


O mar é para mim um milagre sem fim:

os peixes nadando, as pedras,

o movimento das ondas,

os navios que vão com homens dentro

— existirão milagres mais estranhos?


Walt Whitman

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Munich - Death of a female killer (2005) (HD 1080p)

CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - V


O que é o Real? A psicanálise (lacaniana) diz que o real é impossível, pois vivemos num mundo essencialmente simbólico. Conforme essa doutrina, o real é lançado para os rumos da psicose, ou seja, rompido com a formação social no qual se inscreve. Quem tem acesso ao real é louco, é o louco em seu desvario. Uma insanidade, enfim. Ao contrário, pensamos ao modo deleuziano. O real não está dado, ele é produzido, sempre produzido. Resta saber por quem. Há toda uma questão ético-política de fundo... Os artistas, os videntes, os poetas, os revolucionários (não os "esquerdistas"), entre tantos outros, sabem disso porque experimentam o mundo na própria carne, melhor dizendo, no corpo sensível, desejante, nutrido de mil sensações. Se a psicose é o real, as "mil sensações" se tornam mil sintomas clínicos do transtorno que a psiquiatria biológica chama de "mental". A tecnologia moderna inunda o cotidiano com uma tal profusão de imagens que uma psicose (com mil sintomas) ocupa o lugar da esquizofrenia reeditando-a como "A" psicose. Assim, depressões, borderlines, retardos, paranóias, demências, drogadiçoes, fobias, pânicos, ansiedades, e tantos outros signos atuais do aniquilamento da subjetividade individuada, se somam e se aliam numa espécie de sopa coletiva psicopatológica. Tudo conduz à psicose. Mas nem mesmo a psicose expressa o Real.


A.M.

domingo, 7 de dezembro de 2025

A anti-escuta  -  3


Na sociedade moderna a Escuta vira anti-escuta. Ou pelo menos são cultivadas as condições sócio-políticas para isso.

Está no ar a velocidade dos fluxos de comunicação e informação.  Como se o vento anunciasse tempestades. Ou se ele fosse a própria tempestade.

A linguagem do sistema do capital é composta de fluxos e não de significações prévias. Tudo se ajeita. Não importa que talvez você seja um analfabeto. As mensagens são feitas para isso, contam com isso.

Analfabetos, diz-se, no sentido da produção de uma realidade imagética que permeia os afetos e substitui a Terra finita por um infinito de lucro. Ó Marx!

A forma-pessoa é substituída pela forma-consumidor, mesmo e principalmente o que se consuma no próprio extermínio da alma.

Aldous Huxley disse tudo no " Admirável mundo novo" (1932). De lá para cá o aprofundamento do controle das massas e seu suicídio induzido.

Não há retorno do fascismo, do nazismo, da ultra-direita e de todas as expressões da pulsão de morte. Elas já estavam aí.

A anti-escuta avança como Tecnologia Científica com sua verdade religiosa. Hiroshima ainda não foi o pior.


A.M.

Eyes Wide Shut | Masked Ball Video | Tom Cruise

sábado, 6 de dezembro de 2025

O IMPASSE E A SAÍDA

Diante da impossibilidade de ser psiquiatra e da impossibilidade de não sê-lo (um zen-paradoxo) surgem linhas de risco, amorosidades nem sempre visíveis.Elas atravessam práticas clínicas: um devir-imperceptível, um devir-clandestino, um agente duplo operando no coração do sistema. A camuflagem torna-se uma função-guerreira. O pensamento sem imagem desloca-se a velocidades infinitas. Extrai da esquizofrenia o esquizo como eterno produtor de multiplicidades clínicas (qual o diagnóstico?) e errantes (qual o lugar?).  Daí retorna ao estágio zero na busca do Encontro. Onde tudo recomeça.


A.M.

POR QUE ELE PULOU NA JAULA DOS LEÕES?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

OUTRA POLÍTICA?  ( 2 )

1-O sistema do capital, atualizado por máquinas técnico-científicas, estabeleceu um regime único de verdade: o indivíduo como entidade biológica versus o Estado e o Mercado. 

2-Tudo passa, então, a girar em torno das condições de vida eternizadas pela ideia (poderosa) de progresso.

3- Uma outra política implicaria em ultrapassar a órbita do Estado-nação em favor de povos expressos em multiplicidades étnicas, culturais, políticas, indígenas, espirituais, cósmicas, etc.

4- O que seria a dimensão Coletiva na fabricação de novos modos de sentir, perceber e fazer a Realidade? Seria o fim do Império e de suas metástases nazi-fascistas.

5-Num projeto dessa ordem a Religião desapareceria em prol de  experiências espirituais sem espírito. Só o corpo em potência.

6-Impossível?


A.M 

ROSAS FOREVER

 


CORPO


Pompas e pompas, pompas soberanas

Majestade serene da escultura

A chama da suprema formosura,

A opulência das púrpuras romanas.


As formas imortais, claras e ufanas,

Da graça grega, da beleza pura,

Resplendem na arcangélica brancura

Desse teu corpo de emoções profanas.


Cantam as infinitas nostalgias,

Os mistérios do Amor, melancolias,

Todo o perfume de eras apagadas...


E as águias da paixão, brancas, radiantes,

Voam, revoam, de asas palpitantes,

No esplendor do teu corpo arrebatadas!


Cruz e Sousa

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O ATO DE CRIAÇÃO

(...)

Qual é o conteúdo da filosofia?

Muito simples: a filosofia é uma disciplina tão criativa, tão

inventiva quanto qualquer outra disciplina, e ela consiste em criar ou

inventar conceitos. E os conceitos não existem prontos e acabados numa

espécie de céu em que aguardariam que uma filosofia os apanhasse. Os

conceitos, é preciso fabricá-los. É claro que os conceitos não se fabricam

assim, num piscar de olhos. Não nos dizemos, um belo dia: “Ei, vou

inventar um conceito!”, assim como um pintor não se diz: “Ei, vou pintar

um quadro!”, ou um cineasta: “Ei, vou fazer um filme!”.

É preciso que haja uma necessidade, tanto em filosofia quanto nas

outras áreas, do contrário não há nada. Um criador não é um ser que

trabalha pelo prazer. Um criador só faz aquilo de que tem absoluta

necessidade. Essa necessidade — que é uma coisa bastante complexa, caso

ela exista — faz com que um filósofo (aqui pelo menos eu sei do que ele se

ocupa) se proponha a inventar, a criar conceitos, e não a ocupar-se em

refletir, mesmo sobre o cinema.

Eu digo que faço filosofia, ou seja, que tento inventar conceitos. E

vocês que fazem cinema, o que vocês fazem?

(...)


Gilles Deleuze,  palestra em 17/03 1987, na Fundação Européia dea Imagem e do Som